Episódios de Fábrica de Crimes

171. Rick James - Super Freak

15 de junho de 202636min
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Você leu com a melodia na cabeça? O responsável por esse hit é ninguém mais que Rick James, o tema do episódio de hoje.

Mas por trás de tanto sucesso, Rick se afundou em drogas e cometeu cr1m3s verdadeiramente brutais.

Afinal, será que dá pra separar o autor da obra?

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Hosts: ⁠ ⁠Mari⁠ e ⁠Rob

Editor: ⁠Victor Assis⁠

Aviso: O Fábrica aborda casos reais de crimes, contendo temas sensíveis para algumas pessoas. O conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e é baseado em fontes públicas, respeitando a memória das vítimas e de seus familiares. As eventuais opiniões expressas no podcast são de responsabilidade exclusiva das hosts e não refletem necessariamente o posicionamento de instituições, veículos ou entidades mencionadas. Caso você tenha alguma objeção a alguma informação contida nesse episódio, entre em contato com: contato@fabricadecrimes.com.br 

Fontes:

BUFFALO TORONTO PUBLIC MEDIA – "Woman who alleges Rick James raped her when she was 15 suing for $50 million", disponível aqui.

SPECTRUM LOCAL NEWS – "Woman claims Rick James raped her in Buffalo group home in 1979", disponível aqui.

LOS ANGELES TIMES – "Rick James, Girlfriend Arrested, Accused of Torturing Woman", disponível aqui.

"Rick James Convicted of Assaulting Woman, Free on Bail", disponível aqui.

FAR OUT MAGAZINE – "Why Prince and Rick James hated each other", disponível aqui.

ASSOCIATED PRESS – "Rick James Legal Case Updates", disponível aqui.

TODAY – "Funk Legend Rick James Dead at Age 56", disponível aqui.]

FINDLAW – "James v. State Court Records", disponível aqui.

LOS ANGELES TIMES – "Witnesses Testify in Rick James Assault Trial", disponível aqui.

COURTHOUSE NEWS SERVICE – "Rape Allegation Lobbed Against Late Singer Rick James", disponível aqui.

ENTERTAINMENT WEEKLY – "1991: Rick James arrested", disponível aqui.


Participantes neste episódio3
M

Mari

Host
R

Rob

Host
J

Jéssica

ConvidadoEnfermeira
Assuntos9
  • Prisões políticas e torturaCaso Frances Alli · Caso Mary Elizabeth Soger · Julgamento e condenação parcial
  • Infância e juventudeViolência doméstica e abandono paterno · Influência da mãe e vida de apostas · Preconceito racial e comportamento defensivo · Fuga para o Canadá e nome artístico
  • Legado e consequências do casoProcesso por abuso sexual infantil em 2020 · Lei das Vítimas Infantis de Nova York · Reacendimento do debate sobre violência e arte
  • Rick James e o Punk FunkMistura de rock e funk · Figura pública vs. caráter pessoal · Sucesso musical e controvérsias
  • Casimiro AscensãoTrabalho como compositor e produtor na Motown · Lançamento dos álbuns 'Come Get It' e 'Street Songs' · Estilo de vida extravagante e dependência química
  • O legado das pessoas queridasDerrame cerebral e sequelas · Participação no programa de Dave Chappelle e bordão 'I'm Rick James, bitch!' · Morte por causas naturais e coquetel de substâncias
  • Relacionamentos AbusivosRivalidade com Prince · Controle obsessivo sobre artistas femininas · Relacionamento com Linda Blair e gravidez
  • Início da Carreira Musical e PrisãoFormação da banda The Minor Birds · Contrato com a Motown Records e descoberta de deserção · Sentença de trabalho forçado
  • Prisão e delação de VorcaroCumprimento da pena na prisão de Folsom · Desintoxicação e escrita da autobiografia · Liberdade condicional e tentativa de retorno à carreira
Transcrição46 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

Rob:Só que, diferentemente do que muita gente esperava, a morte dele não encerrou as controvérsias com seu nome. Olá, Operários! Sejam bem-vindos de volta ao Fábrica de Crimes. Eu sou a Robbi.

Mari:E eu sou a Mari.

Rob:E, Operários, o episódio de hoje faz a gente pensar bastante sobre a separação entre o autor e a obra. Afinal, uma pessoa pode ser brilhante e ainda assim ser um ser humano desprezível. Mas enquanto fãs, o que a gente tem que fazer com essa informação?

Mari:É complicado, porque ao mesmo tempo que uma música, um filme podem ser maravilhosos, fica difícil apreciar da mesma maneira quando a gente sabe que a pessoa por trás daquilo tem uma índole no mínimo questionável.

Rob:Pois é. Mas antes de começar o caso de hoje, claro, a gente vai à mensagem da operária de hoje, que é gaúcha, e o nome dela é Jéssica.

Jéssica:Oi, Mari e Rob, tudo bem? Eu me chamo Jéssica, sou aqui de Viamão, Rio Grande do Sul. Tô mandando esse áudio para parabenizar vocês duas, gurias, pelo trabalho impecável que vocês fazem aqui no Fábrica de Crimes. Eu já sou assim uma consumidora assídua tem muitos anos sobre esse assunto, né, true crime, seja de documentários, séries, programas de TV mesmo, e claro podcasts. Eu acompanho inúmeros podcasts sobre, já ouvi muitos, e assim, o de vocês me pegou desde o primeiro episódio, já maratonei tudo, claro, tô acompanhando agora conforme vão lançando, né, queria mais com certeza, e assim vocês prendem a gente, sabe? A gente acompanha do início ao fim, fica pensando sobre. É um conteúdo sempre muito cuidadoso e respeitoso, né? E ali no final, os erros de gravação é a cereja do bolo. Então, gurias, parabéns, sério, continue assim. Eu espero que saiam ainda muitos mais episódios e com certeza eu apoio vocês na Aurelo. Vou continuar apoiando e tô aqui. Beijão!

Mari:Jéssica, muito obrigada pela sua mensagem. É sempre bom ter uma operária assídua aqui no Fábrica. Maratonar os episódios realmente não é pra qualquer um.

Rob:E que bom que você disse que os erros são a cereja do bolo, porque a nossa ideia é justamente não deixar o episódio acabar de uma forma muito pesada. Um beijo pra você! Aliás, eu vou aproveitar a deixa pra também mandar um beijo pro nosso público de Angola. A gente recebeu a notícia recente de que o Fábrica tá sendo bastante ouvido lá na categoria true crime. Então operários angolanos mandem mensagem pra gente porque a gente também quer vocês aqui.

Mari:Ai, eu tava pensando aqui, será que em Angola também tá esse frio todo, gente, que tá aqui no Rio de Janeiro? Porque a gente mora no Rio, mas ultimamente não parece. E eu tô sempre empacotada, inclusive eu estou gripada nesse momento, com a minha voz fanha.

Rob:É, pior é que eu também tô de casaco. Aliás, casaco não, eu tô com um Wingsuit, tá? E eu tenho um na cor vermelha, que é super babadeira, mas esse mês de junho eu já corri e garanti o meu segundo numa cor um pouco mais neutra.

Mari:Pois é, eu também pedi um desse. Para quem não tá ligando o nome, Wingsuit é a blusa de frio feminina bestseller da Insider, e fica aqui uma dica para você não passar frio, porque ela regula inclusive a temperatura sem ser um tecido grosso.

Rob:E a notícia boa é que só hoje e amanhã, dias 15 16 de junho, pagando no Pix você consegue 5% off e frete grátis.

Mari:E não se esquece de usar o nosso cupom de desconto Fábrica de Crimes, tudo junto, antes de finalizar sua compra. O link com cupom já tá na descrição desse episódio.

Rob:E no episódio de hoje, Rick James ou Super Freak. Então vamos lá. O caso de hoje se passa no início dos anos 80. E eu definitivamente amo as músicas dos anos 80, são as minhas preferidas, porque elas têm uma vibe assim bem única. E muitas delas fazem sucesso até hoje. Por exemplo, eu tenho certeza que vocês conhecem esse refrão aqui.

Mari:Cara, impossível não conhecer, né? Porque é uma batida muito marcante que a gente usa até hoje, inclusive em memes.

Rob:É, acontece que essa batida dessa música aí veio de uma outra chamada Super Freak, que nasceu da mente caótica de um homem que é o tema do episódio de hoje: Rick James. E o Rick chegou ao topo do mundo misturando a energia do rock com a sensualidade do funk e criou um movimento que foi batizado de punk funk. Mas o que ninguém esperava era que a figura que proporcionou toda essa alegria aí fosse na verdade uma fachada. Isso porque o rei do punk funk, como ele ficou conhecido, Construiu sim um império musical baseado em talento e carisma. Mas ele também acabou transformando a vida das suas vítimas num cenário de horror absoluto. Mas antes de falar do que ele fez, a gente tem que entender quem foi Rick James. O início da trajetória do Rick James leva a gente pra cidade de Buffalo, em Nova York. Onde ele nasceu sob o nome de James Ambrose Johnson Jr., em 1º de fevereiro de 1948. Ele era o terceiro de 8 irmãos que foram criados em uma estrutura familiar marcada pela necessidade constante de sobrevivência. O James, que ainda era James, né, não era Rick, vivia num lar tradicional que era chefiado pelo seu pai e se chamava James Ambrose Johnson Sr. O James Sr. era um homem de origem humilde que trabalhava em condições insalubres como trabalhador automotivo nas indústrias pesadas em Buffalo. Ele era bastante violento e abusivo e descontava suas frustrações da vida na esposa, a mãe do James, que se chamava Mabel Sims Gladden, ou como era mais conhecida Betty. E esse ciclo de violência doméstica só chegou ao fim por volta de 1959, quando ele decidiu abandonar definitivamente a esposa, deixando a Betty, que inclusive estava grávida, sozinha para sustentar a casa. Lembrando que eram 8 filhos e nessa época o James tinha apenas 10 anos de idade. A partir dali, a figura central da sua criação passou a ser exclusivamente a mãe, E falando mais um pouco dela, a Betty era descrita como sendo uma mulher negra de personalidade marcante que tinha tido um passado de glamour, entre aspas, porque ela foi dançarina de alguns dos clubes noturnos mais prestigiados do Harlem. Só que por conta da cor de pele dela, ela viveu uma grande segregação racial. Não era incomum que ela fosse extremamente aplaudida por um público majoritariamente branco, mas que depois fosse proibida de, sei lá, se hospedar no mesmo hotel que eles ou jantar nos mesmos restaurantes. E agora, depois de ter virado mãe, esse passado tinha ficado para trás e ela tinha que se desdobrar numa dupla jornada. A Betty trabalhava como faxineira, mas também operava como corretora de apostas ilegais pra uma influente máfia local de Buffalo. E o dinheiro acumulado pela Betty nesse lucrativo e perigoso esquema permitiu que a família comprasse uma casa num bairro que era predominantemente branco. A vizinhança branca de Buffalo viu na chegada daquela família uma espécie de invasão. Essa mudança acabou expondo eles a um preconceito racial absurdo E obrigou os filhos a se envolverem em várias brigas físicas que aconteciam geralmente no caminho de volta da escola. E isso serviu para, de certa forma, o James criar um comportamento defensivo. Ele costumava se defender revidando por meio da violência. Mas ao mesmo tempo que ele tinha esse lado agressivo, ele também tinha momentos mais calmos. O James também era coroinha na Igreja Católica e cantava no coral. Ele tinha uma voz muito bonita. E ele sabia da vida dupla da mãe. Ela inclusive costumava levar ele com 10 anos pra acompanhar ela na noite. Então ele basicamente ficava escondido embaixo das mesas enquanto ela recolhia as apostas da máfia. E ele tava acostumado nessa vida de gangues, né? E aos poucos ele foi passando a levar as fichas das apostas ilegais e a agir como uma espécie de mensageiro pra bicheiros e operadores da máfia de Buffalo. Aos 13 anos de idade, o James já tinha se envolvido diretamente em furtos qualificados e roubos de carros de luxo. E o momento bem marcante da trajetória do James foi a estratégia que ele usou para tentar escapar do alistamento obrigatório. Ele tava morrendo de medo de acabar indo pra guerra do Vietnã. E aí ele tomou uma decisão bem radical. No ano de 64, ele fugiu do país, cruzou a fronteira e foi pra Toronto, no Canadá. Ele tava simplesmente desesperado pra não ser achado pelos agentes do governo. E aí, por conta disso, ele adotou o nome falso de Rick James Matthews, que acabou sendo o nome artístico dele pro resto da vida. E foi nesse período de exílio que o Rick buscou refúgio principalmente na música, como uma forma de conseguir sobreviver à realidade de estar num país totalmente desconhecido sem nenhum dinheiro. Lá no Canadá, o Rick se estabeleceu em Yorkville, que é um bairro boêmio e hippie de Toronto e que funcionava ali no coração da contracultura canadense da época. Então, vivendo de forma clandestina, ele chegou a passar fome e dormiu no chão de cafeterias locais. Até que ele finalmente foi acolhido por uma comunidade de artistas e foi nessa nova realidade artística dele que ele acabou formando a primeira banda, a The Minor Birds. O grupo chegou a chamar atenção na época porque além de criar uma fusão única de ritmos Tinha um jovem negro americano como líder e vocalista principal e todo o resto dos instrumentalistas eram brancos canadenses. O Rick James como artista era muito diferente, né? Ele era bem performático, ele vivia com casacos de pele bem extravagantes, botas altas e ele tinha uma voz muito marcante. A The Minor Birds atraiu os olhos atentos de uma gravadora, inclusive, a Motown Records. E eles conversaram sobre a possibilidade de gravar um álbum. Mas no auge das negociações, durante um background check ali da banda, eles descobriram que o Rick era na verdade um desertor procurado pela justiça militar americana. Aí óbvio, a gravadora rompeu imediatamente o acordo comercial e engavetou todo o álbum que já tinha inclusive sido gravado. E deixou a banda completamente desamparada. Sem saída, o Rick acabou se entregando formalmente para os agentes federais. No ano de 67, ele foi condenado a cumprir uma dura e violenta sentença de 5 meses de trabalho forçado na prisão militar do Brooklyn Navy Yard e posteriormente no presídio de McGuire em Nova Jersey. Depois de ser libertado no final de 67, ele foi para Detroit, E tinha o foco ali de reconquistar o seu espaço no mercado da música. Ele voltou para os escritórios da Motown Records e dessa vez ele atuou como compositor, arranjador e produtor. E no estúdio ele escrevia arranjos bem refinados assim e criava melodias e estruturas de letras que eram sucesso para os artistas e grupos que já eram consagrados. Até o momento que ele percebeu que o mercado da música tava pronto para um funk que era um pouco mais pesado. Ele observou a movimentação da situação que tava acontecendo naquela época para criar a própria identidade. Em 78, ele convenceu os diretores da gravadora a deixar que ele gravasse o próprio material como artista solo, e ele assumiu o controle total da produção. E aí, como resultado, surgiu o seu álbum de estreia que se chamava Come Get It, que era um disco assim que pegou a indústria fonográfica totalmente de surpresa e estourou imediatamente, principalmente com o sucesso da canção Mary Jane. E aí, exatamente 3 anos depois da sua estreia, ele chegou no ápice com o lançamento do álbum Street Songs. Esse disco vendeu milhões de cópias ao redor do mundo e apresentou os sucessos Super Freak e Give It to Me, Baby.

Jéssica:She's a very kinky girl.

Rob:O Ricky então se transformou num astro multimilionário e uma das mentes mais influentes da cultura pop. Ele passou a viver cercado por luxos muito extravagantes, como jatos particulares, mansões suntuosas, e junto com toda essa ostentação vieram também os bajuladores e as drogas. Infelizmente, o Rick acabou se viciando em cocaína e em algumas outras substâncias. Nos relatos da época é apontado que ele chegava a gastar cerca de $10.000 por semana só para conseguir sustentar o próprio vício e também manter o vício de toda a sua comitiva, digamos assim.

Mari:E a gente não sabe se foram as drogas agindo ou só o caráter dele mesmo, mas os boatos são de que no ano de 1980 o Rick James convidou o Prince para abrir a sua turnê, mas ele depois se arrependeu ao perceber o talento avassalador dele. Aí o Rick passou a sabotar os sintetizadores do Prince e até invadiu o camarim dele para confrontar fisicamente o Prince. Isso tudo porque ele acreditava que ele tava roubando a sua estética no palco, digamos assim.

Rob:Toda aquela agressividade que ele testemunhou na infância com os abusos do pai e a postura defensiva, né, contra as pessoas ali no colégio, começaram a se misturar de uma forma perigosa ali com as drogas e criar uma paranoia na cabeça dele. Como a Mari disse, a gente não pode afirmar se era apenas fruto das drogas, mas fatalmente elas não ajudavam nem um pouco. E aqui a história do Rick lembra um pouco a história do Dee Dee, porque ele além de cantor também passou a trabalhar como produtor musical. Ele foi responsável pelo lançamento da cantora Tina Marie e do grupo feminino Mary Jane Girls. Só que ele controlava essas artistas mulheres de forma obsessiva. Ele vigiava cada aspecto da vida delas e muitas vezes misturava os negócios com relacionamentos pessoais. E é aqui que a gente começa a ver um padrão abusivo do Rick com relação a mulheres. Operários, vocês se lembram do filme O Exorcista?

Mari:Ah, eu lembro até mais do que eu gostaria, né? As cenas da menina possuída virada com a cabeça para trás cuspindo aquelas gosmas marcam muita gente.

Rob:É, e talvez você aí ouvindo isso não tenha tido coragem de assistir, mas com certeza vocês sabem quais são essas cenas. E a atriz que fez a menina possuída se chama Linda Blair. A Linda e o Rick namoraram entre os anos de 82 a 84, e eles tiveram um romance assim muito intenso que foi movido pelo consumo de cocaína. A atriz chegou a afirmar mais tarde que o envolvimento deles era completamente condicionado ao uso das drogas, principalmente por parte dele. E um dos episódios mais marcantes deles dois como casal foi uma gravidez inesperada da Linda. Isso caiu na mídia porque o Rick afirmou que ela interrompeu a gestação sem ter avisado ele antes. E isso foi algo que ele disse que só descobriu muito tempo depois. E chegou a escrever que isso deixou ele profundamente abalado e ele culpava bastante ela, tipo, como ela teve a ousadia de interromper a gravidez sem ter consultado ele. A verdade é que ele não aceitava ser contrariado, principalmente por mulheres, e foi exatamente essa mentalidade que fez com que os padrões abusivos dele escalassem cada vez mais. No ano de 1990, o rapper MC Hammer estourou no mundo inteiro com a canção "You Can't Touch This", que vocês ouviram no início do episódio e que é super marcante. Só que ele utilizou ali como base a música do Rick sem ter nenhuma autorização. Inicialmente dizem que o Rick ficou super furioso e começou um processo judicial milionário por plágio. Mas depois de algumas conversas, eles fizeram um acordo que foi muito lucrativo para ele. Então no fim o Rick foi incluído ali oficialmente como co-autor da faixa e acabou faturando um prêmio do Grammy, que foi o único prêmio da carreira dele. O único problema é que o Rick pegou todo esse dinheiro que ele faturou com a música e gastou grande parte com crack. E nos bastidores Alguns amigos e funcionários relatavam mudanças cada vez mais preocupantes no comportamento dele. O Rick passava dias sem dormir. Ele alternava momentos de euforia extrema com explosões agressivas. Os funcionários da casa dele falavam que ele ficava muito imprevisível quando ele tava sob efeito da droga. E foi nesse contexto que aconteceu o primeiro episódio em julho de 1991.

Mari:E aqui já fica um alerta de conteúdo gráfico a seguir.

Rob:Nessa época, o Rick tava com 43 anos e namorava uma mulher chamada Tanya Ann Hijazi, de 21 anos. Em uma das grandes festas que eles frequentavam, eles acabaram conhecendo uma jovem de 24 anos que se chamava Frances Alli. A Frances estava desempregada e o Rick e a Tanya ofereceram hospedagem para ela na casa do Rick, que ficava em Hollywood. A Frances ficou bastante tocada com aquela oferta e acabou aceitando. Só que chegando lá, o Rick ameaçou ela com uma arma e disse que ia matar ela caso ela tentasse sair do local. A partir daquele momento, ela foi mantida em cárcere privado durante 3 dias. Durante todo esse tempo que ela ficou presa, a Francis foi brutalmente agredida pelo casal. E para vocês terem uma ideia, ela chegou a ser queimada gravemente cerca de 20 vezes com a ponta quente de um cachimbo de crack. Além das agressões físicas, na madrugada de 16 de julho, o Rick forçou a Francis a praticar sexo oral na Tanya enquanto ele assistia ao ato. Durante todo o tempo que ela ficou em cárcere, ela conta que o casal usou muitas drogas e obrigou ela a também usar. Ela foi finalmente solta por eles no dia 18 de julho, e aí imediatamente ela buscou socorro no Cedars-Sinai Medical Center. E as lesões dela eram tão específicas, né, que chamaram atenção. Então os funcionários do hospital acabaram notificando as autoridades.. E aí depois de algumas semanas de investigação, na manhã de uma sexta-feira, no dia 2 de agosto, os policiais prenderam o casal. Nesse primeiro momento, a fiança do Rick foi estabelecida em $1 milhão, enquanto a da Tanya foi fixada em $500 mil. As duas foram pagas e o casal passou a responder o processo em liberdade. Enquanto ele ainda tava aguardando o julgamento do caso, Em novembro de 92, durante uma estadia no luxuoso hotel St. James Club em West Hollywood, o Rick e a Tanya resolveram fazer uma nova vítima. Eles atraíram a executiva de música Mary Elizabeth Soger, de 35 anos, para o quarto deles do hotel sob o pretexto de discutir uma nova possibilidade aí de uma gravadora. Lá, a Mary foi brutalmente espancada e estrangulada e ficou mantida presa por quase 20 horas. Felizmente, ela conseguiu escapar do confinamento e assim como a Frances, ela denunciou tudo também pras autoridades. O Rick e a Tania foram presos pela segunda vez no dia 14 de dezembro de 92, mas mesmo com a denúncia e a rápida prisão ali dos casais, as marcas das agressões foram irreparáveis pra Mary. Os ataques foram tão violentos que causaram um descolamento parcial da retina dela além de sérios danos neurológicos por conta do estrangulamento repetido que ela sofreu. O julgamento do Rick e da Tanya pelos casos contra essas duas mulheres aconteceu em agosto de 93 em San Fernando, na Califórnia, e durou 3 semanas.

Mari:E as acusações contra eles eram as seguintes: No caso Frances Ellie, as acusações eram as seguintes: tortura, sequestro, cárcere privado, agressão com arma, mutilação agravada e coação sexual. Já no caso da Mary Soger, as acusações eram cárcere privado, agressão e lesão corporal.

Rob:Ao que parece, os depoimentos das testemunhas foram bem caóticos. Os próprios jurados admitiram mais tarde que foi difícil determinar a credibilidade delas, porque basicamente Todo mundo que testemunhou alguma coisa tava sob o efeito de entorpecentes na época dos fatos. E o ambiente dentro do tribunal lá em San Fernando parecia mais um espetáculo do que um julgamento criminal sério. Isso porque o Ricky basicamente quebrava o protocolo durante vários momentos. Ele interrompia os depoimentos com gritos, ele chorava copiosamente na frente dos jurados. E falava que tudo não passava de uma grande conspiração racista para destruir o sucesso dele. A estratégia dos advogados dele obviamente focou muito em descredibilizar a vida pessoal das vítimas. Então parte das audiências, como vocês podem imaginar, era um grande debate sobre como essas mulheres na verdade frequentavam festas e eram grandes manipuladoras. O momento mais dramático no tribunal aconteceu quando o Rick chorou diante de todo mundo e implorou para o juiz para passar um final de semana em liberdade para conseguir se casar com a sua namorada. E aí, obviamente, o juiz negou esse pedido e disse que ele representava um perigo ao público e ordenou que ele fosse levado sob custódia direto para prisão. Quanto às acusações criminais contra a Tania, Ela decidiu fazer um acordo, se declarou culpada de uma única acusação de agressão e foi sentenciada a 4 anos. Vale falar que o júri era composto por 10 homens e 2 mulheres. E considerando que eram casos contra mulheres, o Rick acabou sendo absolvido das acusações mais graves, como o de tortura. Quanto às outras acusações, o júri não chegou a um consenso, o que forçou o juiz a declarar uma anulação parcial do julgamento. E aí mesmo com esse cenário parcialmente favorável naquele primeiro momento para o Rick, no fim ele foi considerado culpado de 3 acusações, sendo elas: agressão, cárcere privado no caso da Mary, e por fornecer cocaína a Frances. Em 7 de janeiro de 94, o Rick foi condenado a 5 anos e 4 meses de prisão. Com o encerramento do julgamento, o Rick foi enviado para cumprir a pena na prisão de Folsom, na Califórnia. E lá ele obviamente não tinha acesso a drogas e foi forçado a passar por uma desintoxicação. Esse período de isolamento absoluto dentro de uma penitenciária de segurança máxima durou um pouco mais de 2 anos. E segundo as palavras do próprio Rick, serviu como um momento de "profunda reflexão". Isso porque, segundo ele, ele passou boa parte do tempo na cela escrevendo rascunhos do que seria sua futura autobiografia e criando novas melodias. Ele tentava usar a música como uma fuga mental contra a dura realidade do cárcere. Em 1996, ele ganhou o direito à liberdade condicional. Logo depois da sua saída, tentou retomar o seu espaço na mídia e reerguer ali a carreira musical. Só que a gente tá falando do final dos anos 90, né? Nessa época, o cenário musical já tinha mudado bastante, tava tendo o domínio ali do hip-hop. E mesmo diante dessa realidade, o Rick tentou se esforçar pra se adaptar a essa nova era, tanto que em 97 ele lançou um álbum que misturava o ritmo dele mais antigo com algumas coisas de hip-hop. E as letras eram desabafos que refletiam ali o que ele pensava sobre os erros, sobre o passado dele e o tempo que ele perdeu na cadeia. O álbum chegou a receber alguns elogios e motivou ele ali a montar uma nova banda e começar uma nova turnê nacional. Em 9 de novembro de 98, depois de completar um show intenso de 2 horas em Denver, o Rick sofreu um grave derrame cerebral. A verdade é que o esforço físico dele no palco foi tão intenso que acabou provocando a ruptura de um vaso sanguíneo no pescoço, e aí isso deixou ele paralisado temporariamente em parte do corpo. Esse susto médico foi muito violento, interrompeu a turnê imediatamente e obrigou o Rick a ser internado às pressas e a passar por procedimentos cirúrgicos que eram bem complexos. Ele inclusive teve que implantar um marca-passo. Nos anos seguintes, ele ficou mais recluso, lidando com as sequelas e encarando a fragilidade da própria saúde. No início de 2004, quando tudo parecia já ter sido engolido pelo esquecimento, o Ricky voltou aos holofotes porque ele participou de um programa do Dave Chappelle, num quadro que se chamava "Charlie Murphy's True Hollywood Stories", onde ele reviveu de forma cômica todos os excessos da sua vida dos anos 80. Eu sou Rick James, bitch! Divirta-se! Foi ali que nasceu um bordão que é bem conhecido nos Estados Unidos, que é "I'm Rick James, bitch", que era repetido exaustivamente pela televisão americana e virou assim um super hit. Como ele ria de si mesmo e falava de uma maneira engraçada, esse bordão acabou se espalhando muito pela cultura pop americana. Pela primeira vez em muitos anos, o Rick então voltava a ser celebrado pelo público. Só que tinha uma ironia aí, né, porque as pessoas da nova geração estavam conhecendo ele como uma espécie de caricatura, não exatamente pela música que ele fazia. Na manhã do dia 6 de agosto de 2004, o corpo do Rick foi encontrado totalmente sem vida na sua cama pelo seu zelador pessoal, na residência que ele morava, num condomínio que ficava em Oak Wood, Toluca Hills, em Los Angeles. No relatório oficial da perícia médica foi apontado que a causa da morte dele foi em razão de insuficiência cardíaca associada a uma falência pulmonar crônica, que fez a justiça arquivar o caso como sendo uma morte por causas naturais. Mas exames toxicológicos paralelos foram feitos e trouxe aí um cenário um pouco mais complexo. Isso porque os legistas identificaram um coquetel explosivo com 9 substâncias químicas diferentes circulando no organismo dele. Isso incluía drogas pesadas como cocaína e metanfetamina, além de uma mistura muito perigosa de vários calmantes e analgésicos como hidrocodona, diazepam e alprazolam. Embora os médicos tenham concluído que nenhuma dessas substâncias isoladamente tavam numa quantidade alta o suficiente para causar uma overdose, a combinação daquela bomba química diariamente acabou sabotando as funções do coração dele, né, que já tava meio fragilizado. Só que, diferentemente do que muita gente esperava, a morte dele não encerrou as controvérsias com seu nome. No ano de 2020, mais de 15 anos depois da morte do Rick, ele voltou a ser o centro das atenções por conta de mais um crime. Em fevereiro de 2020, uma mulher não identificada entrou na justiça contra o espólio do Rick, que hoje é administrado por um fundo. Nessa ação, ela exigia uma indenização de US$50 milhões por um abuso sexual que aconteceu décadas antes. Precisamente em 1979. E esse processo aí só conseguiu avançar graças a uma lei do estado de Nova York que, traduzindo, seria Lei das Vítimas Infantis. Essa legislação criou uma janela jurídica temporária que permitiu que vítimas de abuso sexual infantil processassem seus agressores mesmo em casos que já estavam completamente prescritos há décadas. Segundo os documentos que foram apresentados nesse caso, o episódio do abuso ocorreu no ano de 79, justamente um período ali que o Rick tava começando a ganhar notoriedade nacional. Segundo essa moça, ela disse que na época ela só tinha 15 anos e vivia numa instituição de acolhimento chamada Immaculate Heart of Mary Home, na cidade de Buffalo. O Rick teria sido autorizado a visitar esse local por conta da sua fama, né, e da sua proximidade com pessoas que eram ligadas à comunidade. E aí a mulher afirmou que depois do jantar, ele entrou no seu quarto sem nenhuma autorização e atacou ela muito violentamente. Ele segurou ela pelos cabelos, pressionou a sua cabeça contra o travesseiro e ameaçou ela com uma lâmina enquanto cometia os abusos. Enquanto isso, ele ordenava que ela ficasse em silêncio absoluto. A ação judicial alegava que os traumas psicológicos provocados por esse episódio acompanharam a vítima por toda a vida adulta.

Mari:Só que lembrando, como o Rick James já tinha falecido desde 2004, o processo foi direcionado ao patrimônio administrado pelo espólio do cantor.

Rob:É, e as acusações nunca chegaram a ser julgadas criminalmente, nem podem, né, porque ele não tá vivo. Mas ainda assim, a denúncia foi bem pesada e acabou reacendendo o debate sobre os episódios de violência que marcaram a trajetória do Rick. A verdade é que a gente não sabe quantas outras vítimas ele não fez em vida. No fim das contas, a história do Rick permanece como um reflexo de como uma pessoa pode ter um talento brilhante e ainda assim cometer atos de crueldade. O rei do punk funk que ditou o ritmo de uma era e deixou uma marca eterna na indústria musical também criou cicatrizes irreparáveis na vida das vítimas que cruzaram seu caminho. Bom, Operários, esse foi o caso de hoje. E eu acho que depois de saber tudo isso, vocês nunca mais vão escutar "Can't Touch Me" da mesma maneira. E essa é, na verdade, a grande indagação que a gente deixou no início do episódio: é possível separar o autor da obra? E a gente aqui é advogada, né? Então a gente sabe que muitos de vocês aí estão pensando: "Ah, depende." Mas depende do quê exatamente?

Mari:É, depende da gravidade do crime, da época em que aconteceram os fatos, da popularidade do autor. Conta pra gente o que você acha. E lembrando que todas as imagens desse caso já estão no post do episódio no nosso Instagram, @podcastfabricadecrimes, e que tem episódios novos todos os dias, primeiro e quinze de cada mês, e exclusivos todo final de mês para os nossos apoiadores no Spotify. Na Orelo ou no Apoia.se. Você pode virar um operário nessas plataformas e os links já estão aqui na descrição.

Rob:Isso aí!

Mari:Cara, você sabe que tá viralizando Reels de criança chorando? E aí a mãe do nada fala: "Jessica!" Mentira! Jessica! Não! Várias mães. Aí a criança para de chorar na hora.

Rob:Que isso? Não, não vi. É porque não... Não, caraca, mas por quê? Qual é o meme por trás?

Mari:Ah não, é só um... Na verdade, se você chamar atenção com qualquer nome, a criança vai ficar olhando e fala: "O que essa mulher tá falando?" Ah, tá.

Rob:Ela para de chorar.

Mari:Só que aí o trem já é com o nome Jéssica. Aí a pessoa fica: "Jéssica!" Ai, meu Deus do céu. Muito engraçado. Ai, peraí que o meu negócio aqui...

Rob:Ou como era mais conhecida, Betty.

Mari:Ora ora.

Rob:Porque Mabel é isso. Não, e aí tava Mabel em tudo. Só que como ela era conhecida como Betty, eu mudei pra Betty. Porque como ela teve uma vida meio sofrida, eu não queria botar o nome Mabel. Ok. Lembrando que eram... Aff, o raio espirrou. A partir dali, a figura central da sua criação... Ai, meu Deus!

Mari:Tá difícil.

Rob:A partir dali... É, ele tá gripando também. Deixa eu fechar ali a porta, peraí.

Mari:Os sintetizadores do Prince... Sintetizadores?

Rob:É, sintetizador é o que dá aquele sonzinho legal das músicas dos anos 80, sabe? Ah... Meio espacial assim, sabe?

Mari:No caso Francis L., as acusações eram: tortura, sequestro, que é o kidnapping, "Cárcere privado", "false imprisonment", "agressão com arma", "mutilação agravada". Precisa falar em inglês isso?

Rob:Não, não, é só porque eu peguei e tava com inglês do lado.

Mari:Ah, então vou falar de novo.

Rob:É, pode falar em português. Este podcast foi editado por Vitor Assis.

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