#99 - O meu nome é Ninguém!
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Ulisses sobreviveu à primeira noite na caverna de Polifemo, mas a situação está longe de melhorar. Enquanto o ciclope segue sua rotina brutal de pastor e canibal, o rei de Ítaca prepara, passo a passo, um dos planos mais célebres da literatura antiga. Neste episódio, acompanhamos o vinho que embriaga o gigante, a astúcia por trás do nome “Ninguém”, a cegueira de Polifemo e a fuga desesperada sob os carneiros do rebanho. Mas a vitória tem um preço. Quando a prudência cede lugar ao orgulho, Ulisses comete um erro que ecoará por toda a sua viagem e transformará uma simples volta para casa na verdadeira Odisseia.
Felipe Speck
Professor Moreno
- Características da Munich WineVinho Esmárico · Polifemo · Ulisses · Engano
- O encontro com PolifemoFuga sob os carneiros · Polifemo · Ulisses · Atenas
- Fuga de Ada e EduardinhoAstúcia vs. Força · Estaca de oliveira · Cegueira de Polifemo
- A maldição de PoseidonProfecia · Poseidon · Ulisses · Destino
- Abandono de apegos e vícios mundanosOrgulho · Odisseia · Mundo não humano
- Producao AudiovisualOdisseia · Companhia das Letras · Frederico Lourenço · Gustavo Falcão
Oi, pessoal! Antes de começar o episódio, um parêntese rápido. Quem acompanha o Noites Gregas sabe que a gente nunca fez publi recomendando nenhum produto por vários motivos. Mas nós acabamos de fechar uma parceria que tem tudo a ver com o nosso podcast e a gente faz questão de contar isso para vocês. A Companhia das Letras lançou o audiobook da Odisseia na tradução de Frederico Lourenço, Justamente é a tradução que o Professor Moreno recomenda ao longo do curso e do podcast.
Nós ouvimos, nós gostamos muito, o resultado ficou excelente. A narração é do Gustavo Falcão e nós vamos deixar um trecho disponível no material exclusivo para os apoiadores em alguns episódios. Conhecer a Odisseia pelo podcast com o Professor Moreno e depois ouvir a obra completa nessa belíssima edição da Companhia das Letras É, na nossa opinião, uma das melhores maneiras de entrar em contato com esse clássico fundador da literatura ocidental.
Quando você terminar o episódio, vale muito a pena conferir. O link para comprar o audiobook completo tá na descrição do episódio.
Olá, amigo, seja bem-vindo. Eu sou o Professor Moreno e você está ouvindo o Noites Gregas, esse podcast dedicado aos mitos e as narrativas que herdamos do mundo antigo.
Salve, ouvintes do Noites Gregas! Meu nome é Felipe Speck e esse é o episódio 99 do nosso podcast. Nós estamos em plena Odisseia, mais especificamente na terra dos ciclopes. Vocês lembram que Ulisses, depois de cair na armadilha de Polifemo e ver alguns de seus companheiros devorados pelo gigante, ele finalmente coloca em prática o plano que preparou durante a noite. É o episódio do célebre ninguém e também do erro que vai mudar pra sempre o destino do nosso protagonista.
Antes de começar, uma novidade pros nossos apoiadores: no material exclusivo deste episódio, quem nos apoia tem acesso a um trecho do audiobook da Odisseia, edição da Companhia das Letras, na tradução de Frederico Lourenço. É uma parceria que nós fizemos com a editora. Hoje, por exemplo, a gente vai incluir exatamente a narrativa da fuga de Ulisses na caverna de Polifemo, que é a parte do canto 9º da obra. Esse conteúdo tá disponível apenas pros apoiadores do podcast.
Se você não é apoiador, vai lá em noitesgregas.com.br/apoiar. O link pra apoiar e também o link pra comprar o audiobook tão na descrição do episódio. Eu volto lá no final pra falar dos outros materiais exclusivos. E o Professor Moreno começa logo depois da publicidade do Spotify. Bom episódio!
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Ulisses tinha passado praticamente a noite toda sem dormir, matutando um plano para escapar daquela armadilha em que eles tinham caído. Ele sabia que só astúcia e não a força poderia salvar a vida dele e a dos companheiros. Quando amanheceu o dia, uma frestinha, uma folga entre a pedra e a porta da caverna deixou passar um raio de sol, um fino raio de sol que veio avisar a Ulisses que agora o pesadelo da véspera ia recomeçar. Bem, segundo o que manda a natureza, as ovelhas encerradas ali começaram a berrar no seu concerto matinal.
Numa ressaca brava, meio-zonzo, o Ciclope derramou goela abaixo uns bons litros d'água. Aí acendeu o fogo, como era costume, foi fazer um longo xixi no estábulo dos animais. Afinal, era ali que eles também faziam, e mais um ou menos um não ia fazer diferença. E foi tratar do rebanho. Primeiro deixou os cordeirinhos mamarem um pouco em suas mães e depois completou a ordenha recolhendo o leite que sobrou naquelas tigelas imensas.
Que Ulisses tinha visto. Ele tá preparando o seu trabalho matinal e agora ele vai comer. Terminada a sua tarefa de pastor, foi então tratado seu próprio breakfast. E naquela manhã o buffet tava bem sortido, tinha Ulisses e tinha mais 10 marinheiros de Ítaca para escolher. Bom, aí começou o salve-se quem puder. Corre daqui! Pular ali, ele terminou capturando os dois mais lentos do grupo e devorou com aquele mesmo apetite selvagem que ele tinha comido os outros dois na noite anterior.
Então, satisfeito, pegou o seu cajado de pastor, arredou a pedra da porta, levou para fora o seu rebanho, sempre cuidando para ver se os prisioneiros continuavam lá no fundo da caverna. Mas estavam tão apavorados que se amontoavam o máximo que podiam lá no fundo da gruta. Já do lado de fora, antes de bloquear a caverna, olhou para o Ulisses e mandou um: nos vemos na hora do jantar. Tão irônico que poderia ter sido acompanhado até por uma piscadela de olho.
Infelizmente, era uma façanha impossível para um ciclope, tão impossível quanto para um saci de alma voadora. Ulisses aguardou até que não ouvissem mais os gritos, os assobios com que Polifemo ia tocando o rebanho colina abaixo. Então ele começou a pôr em prática o seu plano, que não era simples, tinha várias etapas e todas elas tinham que funcionar para que eles pudessem finalmente vencer aquele gigante monstruoso. Para começar, ele precisava da arma a ser utilizada.
Ele tinha visto junto ao cercado dos animais uma longa estaca fina de oliveira que o ciclope tinha separado ali para secar. Ele mandou seus homens cortarem 2 metros daquela estaca, removerem a casca e deixarem o mais polido que eles conseguissem. Então, com as espadas, eles fizeram uma ponta como se fosse um lápis gigantesco. Ulisses então completou o trabalho deixando mais aguda ainda a ponta e tratou de esconder essa estaca.
Para isso, ele pôs no chão, tapado para grande quantidade de esterco que cobria o solo da caverna. Como Ulisses era um chefe extremamente democrático, sempre preocupado inclusive com o bem-estar dos seus homens, ele sugeriu então que fizesse um sorteio de 4 valentes que ele precisava para ajudá-lo na hora de atacar o olho de Polifemo. Essa era a primeira etapa: usar essa estaca para cegar Polifemo quando ele adormecesse depois da hora do jantar.
Fizeram sorteio. Agora a arma estava pronta, a equipe estava montada. Eles tinham que esperar Polifemo voltar e finalmente dar a oportunidade deles agirem. À noitinha, o Ciclope voltou, arredou a pedra da entrada, fez as ovelhas entrarem numa fila obediente até o fundo. Elas estavam habituadas. E imediatamente repôs a pedra no lugar. Ele não se descuidava porque ali estava a porta da ratoeira. À primeira vista, ele não estava interessado muito no Ulisses e seus companheiros.
Ele nem os olhou diretamente, eles é que o olhavam aterrorizados, esperando os próximos passos, que eles sabiam quais seriam. Polifemo era pastor tempo integral, então com toda atenção, metódico, concentrado, ele repetiu com os animais o mesmo ritual daquela manhã. Levou os cordeirinhos para mamar, depois reservou para ele uma grande tigela com leite que sobrou, E recolheu os animais no cercado e tava na hora de jantar. Virou para Ulisses o seu grande olho maligno e todos perceberam que ele estava com fome.
Era o momento que todos temiam. Como criança brincando no parquinho, todos começaram a correr pela caverna tentando ficar sempre o mais longe possível dos longos braços que ele tinha. Encostando-se na parede, achatando-se o mais que podiam, aproveitando qualquer saliência para tentar não ser apanhado. Mas nesse corre-corre desesperado, numa caverna que não era muito grande, dois marinheiros se chocaram, bateram um no outro e foram ao chão.
Foi o seu fim. Num bote rápido, o Ciclope pegou os dois pela nuca, um com cada mão, e sacudiu-os no ar, quebrando o pescoço deles com a mesma facilidade que um cozinheiro mata dois frangos no jantar. Então, com suspiro de satisfação, terminou o seu dia de trabalho, puxou para o seu lado uma grande tigela de leite, escolheu uma das vítimas como entrada e sentou para comer. Era o momento que Ulisses esperava para a segunda etapa do plano.
Ele se aproximou levando nas mãos a menor terrina que eles tinham encontrado, onde estava uma amostra do vinho que eles tinham trazido. Desculpa aí, seu Ciclope, eu atrapalhar o seu jantar, mas leite não harmoniza com carne. Para carne especialmente a humana, costumamos tomar vinho, vinho do bom. Prova esse aqui que eu tinha trazido para fazer uma libação aos deuses, para comemorar a hospitalidade que acabamos não recebendo. Com ar desconfiado, o Ciclope cheirou a bebida e seu olho brilhou de admiração.
Depois engoliu tudo num só gole, totalmente fascinado um sabor e um aroma que ele desconhecia, semelhante ao néctar, digno de ser provado pelos deuses. Totalmente entusiasmado, estendeu a terrena que na sua mãozona parecia uma pequena taça e pediu com a sua voz cavernosa: Mais, mais! Nossa terra também tem uva, mas não sabemos fazer essa bebida divina. Ulisses já previa esse entusiasmo todo. Sim, ele acabava de provar aquele vinho lendário, o vinho Esmárico, que era um dos vinhos mais famosos do mundo antigo, citado, elogiado por muitos poetas.
E agora o Ciclope queria mais. Quer mais? Pois então ia ter, e bastante. Ulisses pegou a terrena Chamou o seu ajudante preferido. Ô, Euríloco, enche aí até a borda com aquele vinho especial que a gente trouxe, aquele do 20 por 1, mas deixa purinho, não esquece, porque aqui para o seu Polifemo, que é da casa. Polifemo bateu palmas encantado. Ô amigo, tu é gente fina, mas não digam que Polifemo é ingrato. Como é o teu nome mesmo?
Eu quero te dar um presente. Ulisses fez que não ouviu e alcançou para o Ciclope uma terrina cheia até a borda. O Ciclope esvaziou tudo num guti-guti como uma cachoeira, estendeu a terrina vazia. 3 vezes encheram a terrina, 3 vezes o Ciclope secou tudo até a última gota. Como Ulisses calculava, Polifemo já tava enrolando a língua e ameaçando começar a cantar. Agora vinha a segunda parte do plano. Seu Ciclope, disse ele com fala mansa, o senhor tinha perguntado qual é o meu nome.
Pois fique sabendo que meu nome é Ninguém. Esse é o nome que meus pais me deram. Ninguém é o nome que registraram no cartório. É o nome que todos os meus companheiros usam para me chamar. Mas não vai esquecer o presente que me prometeu. A essas palavras, Polifemo respondeu de bate-pronto, com tom de zombaria cruel: Pois tá bem, ninguém, eu vou te comer por último, os outros primeiro. Que tal, broderagem, hein? Vai dizer que não é um bom presente?
Ulisses nem chegou a responder. Porque Polifemo se curvou para recolher a tigela vazia que tinha caído da mão, a cabeça pesou mais e ele mergulhou de bruços no chão, onde já caiu dormindo, vencido por um sono irresistível, mas não sem antes soltar um arroto formidável que espalhou pelo ar pedaços de carne humana misturados com vinho. A hora tinha chegado. Ulisses mandou buscar a estaca que tinham escondido e mergulhou a ponta dela na fogueira até ficar em brasa, completamente rubra.
Com apelo à coragem dos guerreiros que estavam do seu lado, afinal todos tinham lutado na sangrenta Guerra de Troia, ele chamou os 4 valentes escolhidos e, em voz baixa para não acordar o gigante, combinou o que fariam. E tal como ele mandou, assim eles fizeram. Foram buscar a estaca na fogueira, contaram até 3 e a cravaram no olho do Ciclope enquanto Ulisses apoiava o peso nela, fazendo a ponta girar na órbita do gigante, como carpinteiro que usa sua broca para fazer no tombadilho do navio o buraco em que o mastro vai ser inserido.
Aviso necessário: a cena que vem a seguir é uma das mais brutais da literatura antiga. Se você é daqueles que se sente mal com a descrição de violência, tape os ouvidos por 2 minutos. Mas fique tranquilo, nenhum ciclope de verdade sofreu durante a gravação desse podcast. A ponta da estaca era uma brasa viva que foi destruindo tudo como um gigantesco cautério. A pálpebra foi destruída, junto com ela a sobrancelha, a única que ele tinha, aliás.
As raízes e as veias crepitavam, fritavam borbulhantes dentro da órbita, e os humores do globo ocular ferveram, transformando-se em vapor. Na brutal comparação de Homero, assim como o metal chia quando o ferreiro mergulha a lâmina incandescente do machado na água fria para temperar, assim também o olho do Ciclope chiou em contato com a estaca de Oliveira. Polifemo despertou aos pulos, soltando um rugido feroz que reboou pela caverna.
Todos os gregos recuaram horrorizados. Ele então, num só puxão, arrancou da órbita aquela estaca ensanguentada e jogou para longe. Com altos urros, pediu socorro aos ciclopes que habitavam as cavernas próximas, nos picos varridos pelo vento, diz Homero. Esses ciclopes, ouvindo gritos tão desesperados, Logo surgiram de toda parte e lá fora perguntaram o que estava acontecendo. O que que tá rolando, Polifemo? Por que toda essa gritaria bem do meio da noite para nos tirar da cama?
Alguém tá roubando o teu rebanho? Alguém tá te ameaçando? Ao ouvir aquilo, os homens de Ulisses se sentiram perdidos. Não ia adiantar ter cegado Polifemo. Na verdade, eles só tinham piorado a situação deles, porque antes só tinha um e agora tinha uma dúzia lá fora. Lá do fundo da caverna, o grande tolo Polifemo respondeu aos companheiros gritando com toda a força dos pulmões: ninguém, ninguém, amigos! Ninguém me cegou, ninguém tá tentando me matar!
Lá fora, ao ouvir isso, os outros ciclopes se despediram mal-humorados. Se ninguém te fez mal algum e te pões a gritar assim, Polifemo, vai te tratar. Teu problema é mental e nada podemos fazer. Hasta la vista! Nós vamos é dormir. Dito isso, todos os ciclopes foram embora e Ulisses vibrou em silêncio ao ver que até ali o seu ardil tinha surtido o efeito que ele queria. Agora viria uma etapa decisiva do seu plano. É que daí a poucas horas o dia ia raiar e o Ciclope seria obrigado a abrir a caverna para que seus animais fossem pastar.
E aí, bingo! Era aí que Ulisses via a grande chance de escapar dessa sinistra ratoeira em que eles tinham se metido e que já tinha custado a vida de 6 dos 12 homens que haviam desembarcado com ele. Polifemo passou o resto da noite choramingando, jurando vingança contra aquele forasteiro mentiroso que o havia mutilado. Aos poucos, lá fora, os pássaros começaram a anunciar a chegada do novo dia, e Polifemo, pressentindo que logo, logo ia ter que abrir a gruta para deixar sair o seu rebanho, foi tateando, tropeçando até o bloco que fechava a caverna, removeu e sentou ali bem na entrada, estendendo os braços, tateando cada centímetro para assegurar que nenhum espertinho ia conseguir escapar junto com as ovelhas.
Ulisses já esperava por isso, afinal Polifemo era um ingênuo selvagem, mas não era completamente tolo. Só que, como um jogador de xadrez, Ulisses tinha previsto essa jogada do Ciclope e já tinha pensado duas jogadas na frente. Justiça seja feita, o Ciclope era um bom pastor. Seus carneiros, bem alimentados, eram belos e grandes, com porte e uma lã invejáveis, e teriam um papel fundamental na última fase do plano de fuga. Ulisses aproveitou que Polifemo tava ocupado ordenhando as ovelhas, e amarrou os machos em grupo de 3, lado a lado, assim como um sanduíche ambulante.
Debaixo do carneiro do meio ia um dos companheiros de Ulisses, agarrado na lã como um carrapato. Os outros 2 carneiros, um de cada lado, serviam para atrapalhar a inspeção de Polifemo, que pelo tato não ia descobrir toda a tramoia. Um por um, todos foram saindo de fininho, em silêncio absoluto, sem conversa ou comemoração, como tinha ordenado Ulisses, porque só estariam realmente salvos quando estivessem em alto mar. O Ulisses não se moveu até ver que seu último homem tinha conseguido escapar.
Agora era a vez dele. Como não havia mais 3 carneiros para levá-lo, como tinha acontecido com os outros, Ele tinha retido o maior exemplar do rebanho, um possante carneiro, o líder do rebanho, que superava todos os outros em peso e força. Agora era ele e os deuses. Pedindo que Atena o ajudasse, Ulisses se esgueirou por baixo da barriga do animal e pendurou-se na farta lã com uma gana de quem literalmente estava se agarrando à vida, porque era disso que se tratava.
Bom, por causa do peso de um guerreiro como Ulisses, é claro que o nobre animal, o preferido de Polifemo, foi para saída em passos mais lentos que o habitual. O ciclope percebeu, mas jamais poderia desconfiar do que tava acontecendo, tanto que saudou carinhosamente o seu pet passando a mão no seu dorso. Meu rico carneiro, por que és o último a sair hoje? Nunca tinhas ficado para trás, mas ao contrário, sempre foste o primeiro da fila.
E agora és o último? Ah, já sei, de certo choras pelo olho do teu mestre, que foi ferido por um patife, um miserável que eu te juro está preso aí na caverna e com a qual ainda vou acertar as contas. Podes crer. Ah, se pudesses falar, me ajudarias a botar as mãos nesse maldito ninguém para esmigalhar o crânio dele como um melão maduro. E aí, imaginando que seu cérebro estaria espalhado pelo chão da caverna, meu coração ficaria ao menos um pouco mais leve.
Dizendo isso, com tapinhas nas costas do animal, ele empurrou para fora para que se juntassem aos outros. Polifemo, mesmo cego, ia tentar acompanhar o rebanho, mas antes de dar um passo que fosse, teve cuidado de colocar a pedra novamente no lugar, gritando lá para dentro da caverna vazia as frases que tinha ouvido da mãe quando ainda era um baby ciclope: não perdem por esperar, na volta a gente conversa. Enquanto ele ingenuamente gritava ameaças para uma caverna deserta, Ulisses alcançou os companheiros e soltou suas amarras.
Sempre em absoluto silêncio, o grupo então foi tocando o bando de carneiros até onde estava ancorado o navio, onde os que tinham ficado a bordo comemoraram a volta de Ulisses e lamentaram a perda dos 6 que morreram. Ulisses fez um sinal para carregarem o rebanho e saírem dali enquanto era tempo. E quando tudo estava pronto, tomaram seus lugares nos remos e foram se afastando silenciosamente da praia. Já estavam quase fora do alcance da voz quando Ulisses, vendo Polifemo sentado na encosta numa pedra junto ao mar, lamentando estar cego, não se conteve.
E gritou: Ô Ciclope idiota, tu não devia ter comido os teus hóspedes na tua própria casa. Por isso Zeus e os outros deuses já estão te punindo agora por isso. Ao perceber que a voz de Ulisses vinha do mar, Polifemo ficou atônito. Voltou-se para caverna como se não acreditasse que seus prisioneiros tivessem escapado. Mas o barulho dos remos confirmou que o seu inimigo estava fora de alcance. Tomado pela fúria, rugiu como um animal e pôs toda a força dos seus braços descomunais no entorno de um grande rochedo e arremessou-o pelos ares na direção de onde tinha vindo a voz.
Mesmo às cegas, o ciclope quase acertou. A imensa rocha caiu bem na frente do navio e levantou uma marola que fez o navio recuar vários metros de volta para praia. Mas o pavor de cair nas garras daquela fera de novo quintuplicou o esforço dos remadores, e eles conseguiram avançar por um pouco mais longe dessa vez. Quando viu que estava suficientemente afastado, Ulisses fez menção de se dirigir de novo para o gigante, o que deixou em pânico seus companheiros.
Infeliz, para de irritar esse selvagem! Olha como ele atirou em nós aquele pedrão que quase devolve nossos navios para praia! Para de quieto, homem! Sossega teu pito, porque ele ainda pode nos atingir aqui! Ulisses deveria ter ouvido esses conselhos prudentes. Mas como se diz por aí, ele tava possuído e não ia dar refresco para quem tinha matado tão brutalmente 6 dos seus companheiros. E quer saber mais, seu idiota? Se perguntarem quem te deixou assim, diz meu nome de verdade: eu sou Ulisses, filho de Laértes, rei de Ítaca.
E mais o CPF, o RG, o CEP, e a senha da conta bancária. Entregou tudo. Aqui é o grande erro de Ulisses, que vai determinar todo o resto da odisseia. Ao ouvir aquilo, Polifemo desabou com gemido: Eita ferro! A profecia se cumpriu! Há muito tempo um adivinho previu que eu perderia o olho pelas mãos de um tal de Ulisses. Mas eu esperava um guerreiro grande como eu, com força fenomenal, e apareces tu, homenzinho ridículo, um covarde, um nanico, um ninguém, que veio me arrancar o olho e me afogar no vinho.
Sentindo-se impotente naquela hora para se vingar, Polifemo recorreu É uma ameaça concreta que mudaria toda a vida de Ulisses e de seus companheiros. Estou cego e não posso fazer nada, mas deixa estar, sabidinho, que o que é teu está guardado. Vou falar com meu pai Poseidon e pedir que ele não te deixe voltar para casa nunca. Mas se o teu destino for chegar mesmo a Ítaca, então que seja só depois de sofrer muito, perder todos os seus companheiros e todos os teus navios, para encontrar ainda mais dificuldades na tua própria casa.
Enquanto o Ciclope despejava a sua raiva, os homens de Ulisses não paravam de remar e logo chegaram à ilha onde os outros navios estavam reunidos. Ulisses mandou descarregar o rebanho roubado e, como sempre era justo com seus homens, fez uma divisão aprovada por todos. Como praga de cego só perde para praga de mãe, Ulisses tinha ficado preocupado com a maldição do Polifemo e resolveu sacrificar o carneiro que lhe coube na partilha, aquele mesmo grandão que tinha transportado para fora da caverna.
A encrenca era com Poseidon, mas Ulisses achou mais prudente dedicar o sacrifício a Zeus, que era afinal o big boss, o patrão, para limpar a barra, como se diz. Fez o sacrifício na praia, mas a fumaça da carne e da gordura se espalhou à toa em torno da fogueira, sem subir ao céu. Mal sinal! Zeus não tinha aceitado aquela oferenda. Isso era preocupante, mas não deu ao fato a atenção que merecia, porque em volta dele, por toda a praia, estava rolando uma grande festa.
Todos felizes ao som de um pagodinho, bebiam vinho, assavam muita carne de ovelha numa dúzia de fogueiras, uma para cada navio. E logo Ulisses foi puxado para churrascada que durou até a noitinha. Todos foram dormir apesar de exaustos. Ulisses não tirava da cabeça o fato de Zeus ter recusado a sua oferenda. Mais ainda o preocupava aquela estranha sensação de estar ingressando num mundo diferente, onde tudo poderia acontecer. Os lotófagos que viviam em letargia eterna, os ciclopes que devoravam carne humana, tudo isso deixava claro que este mundo em que ele agora se encontrava Não era nada humano. Na verdade, ele estava ingressando na sua própria odisseia.
Amigas e amigos, eu espero que tenham gostado deste episódio. Eu lembro que se você quiser conhecer toda a odisseia, nós temos o curso Mitologia na Arte, e lá tem um módulo completo sobre a obra, com aulas em que o professor Moreno conta a história e mostra os quadros, as esculturas e outras peças de arte que retratam cada um dos cantos. Pra este episódio, nós temos um texto que apresenta a interpretação do historiador François Artaud sobre o Cabo Malé, que é a fronteira simbólica que separa o mundo humano conhecido dos territórios fantásticos percorridos por Ulisses.
Um segundo texto traz um trecho da Eneida, de Virgílio. A gente já trouxe uma parte no episódio passado, e dessa vez é o trecho em que Enéas encontra Aquemênidas e presencia a aparição do ciclope Polifemo. Já cego, vagando pela costa da Sicília. Além disso, como eu já falei lá no começo, nós temos uma novidade na área exclusiva. A gente disponibilizou o trecho do audiobook da Odisseia publicado pela Companhia das Letras na tradução de Frederico Lourenço.
Em alguns episódios, nós vamos compartilhar passagens selecionadas da obra para que você possa ouvir o texto homérico. Para acessar esse e todos os conteúdos exclusivos publicados em mais de 6 anos de podcast, Basta apoiar em noitesgregas.com.br/apoiar. Muito obrigado pela audiência e até o próximo episódio.
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Audiobook da Odisseia