#98 - Os Ciclopes
A passagem pela terra dos Lotófagos foi um sinal de que os desafios da viagem haviam entrado em outro patamar. Se antes Ulisses enfrentava perigos visíveis, agora surgiam ameaças mais sutis e inquietantes. Tentando retomar o caminho de casa, os gregos chegam a uma ilha paradisíaca, repleta de promessas, riquezas e mistérios. Fascinado pelo que encontra e incapaz de resistir ao desconhecido, Ulisses decide explorar a caverna de um misterioso pastor - uma escolha que o levará a um dos encontros mais famosos, tensos e aterradores de toda a Odisseia: o confronto com o ciclope Polifemo.
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Ulisses
Polifemo
- O encontro com PolifemoCuriosidade de Ulisses · A caverna do pastor · O tamanho dos utensílios · O bloqueio da entrada
- Tradição da feijoadaAmeaça de Polifemo · O vinho como arma · O plano de fuga · O ardil de Ulisses
- CiclotimiaCiclopes ferreiros · Ciclopes construtores · Ciclopes pastores · Polifemo
- Chegada à terra dos CiclopesNavegação às cegas · Ilha paradisíaca · Reserva natural virgem
- A Ilha dos LotófagosPerigos sutis e inquietantes · Entorpecimento pelo lótus
- Localização das Ilhas SeviCabras selvagens · Caçada e banquete · Vinho esmágico
Olá, amigo, seja bem-vindo. Eu sou o Professor Moreno e você está ouvindo o Noites Gregas, esse podcast dedicado aos mitos e as narrativas que herdamos do mundo antigo.
Olá, ouvinte do podcast Noites Gregas, o meu nome é Felipe Speck e você está ouvindo o episódio 98. Antes a gente falou sobre a passagem do Ulisses e seus companheiros pela terra dos lotófagos, que foi um sinal Basicamente de que os desafios da viagem tinham entrado em outro patamar. Antes, Ulisses enfrentava perigos visíveis, tormentas, cícones, mas agora começam a surgir ameaças mais sutis e mais inquietantes. No caminho, agora eles chegam a uma ilha que é paradisíaca, cheia de riqueza e cheia de mistérios.
E por ser cheia de mistérios, Ulisses, que é extremamente curioso, não consegue resistir ao desconhecido e decide explorar uma caverna onde vive um misterioso pastor. Uma escolha que vai levá-lo a um dos encontros mais famosos e mais tensos, mais aterradores de toda a Odisseia: o encontro com Ciclope Polifemo. A gente tá no comecinho da Odisseia, mas quem é apoiador já pode estudar toda a obra de Homero, a Ilíada também, a Ilíada e a Odisseia, que são conteúdos exclusivos do curso Mitologia na Arte.
Lá tem todo esse conteúdo narrado em aula, em vídeo, com imagens que ilustram cada um desses episódios. O link para apoiar e para assistir tá na descrição aqui no seu tocador de podcasts. O Professor Moreno começa logo depois do anúncio do Spotify e eu volto lá no final para falar do material exclusivo. Um bom episódio!
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Os marinheiros de Ulisses, que tinham deixado aquela sangreira da planície de Troia há pouco tempo, não deram muita bola para a Ilha dos Lotófagos, porque nada aconteceu para eles de importante ali, a não ser aqueles dois malucos que se extraviaram e tiveram que ser levados a muque para bordo. Mas Ulisses Ao contrário, tinha enxergado ali um perigo fatal para o sucesso da viagem deles. Aquele entorpecimento pelo lótus, pelaquela fruta que eles comiam, teria zumbificado irremediavelmente a tripulação toda.
Aliás, foi daí aquela pressa que ele mandou todo mundo voltar para os navios e remar em ritmo acelerado para ir para bem longe, em direção ao mar alto. Aos poucos, a ilha foi diminuindo a distância até se tornar apenas um risco no horizonte. Mas tinha uma coisa que tava deixando o Ulisses cada vez mais preocupado. Não era uma coisa concreta, mas um sentimento, ou melhor, um pressentimento de que a Ilha dos Lotófagos tinha sido o vestíbulo de entrada para um novo mundo, um mundo novo, desconhecido, perigoso, por onde eles seriam obrigados a navegar dali por diante até chegar um dia, quem sabe se chegassem, à sua querida Ítaca.
Com a proximidade da noite, uma espessa neblina desceu sobre os navios. E pior, as nuvens esconderam a lua e nada mais se podia enxergar. Assim, eles tiveram que navegar às cegas, guiados por algum deus desconhecido, até que o barulho da arrebentação avisou a eles que eles tinham chegado a uma nova terra. Então puxaram os navios para o seco, baixaram as velas E aproveitaram para adormecer na praia esperando o raiar do dia. Não tinham a menor ideia onde eles tinham chegado, aliás, sem ter a menor ideia que estava a pequena distância da terra dos ciclopes.
Parêntese necessário. Na mitologia grega existiam no mínimo 3 grupos diferentes de ciclopes. Eram chamados assim porque o nome tá dizendo ciclo, ciclo, redondo, ópsis, olho. Aqueles que nós formos traduzir ao pé da letra, que tinham um olho redondo, um único, um só, situado bem no meio da testa. Se eles eram da mesma família, Ninguém até hoje conseguiu deslindar esse problema, mas todos tinham o mesmo porte, eram gigantes, o mesmo olhão, os mesmos braços fortes e compridos, assim como orangotangos ou como gorilas.
Mas como nós vamos ver, havia uma diferença: uns eram bem mais confiáveis e mais civilizados do que os outros. Primeiro, Havia os ciclopes ferreiros. Esses ajudavam Hefesto na forja e eram os responsáveis por fornecer a Zeus os seus raios, que na concepção dos gregos, como Zeus arremessava os raios, deveriam ser parecidos com dardos feitos por esses ciclopes. Eles também foram importantes ao fornecer outros equipamentos divinos, Eles é que criaram o tridente de Poseidon, fizeram os arcos dos dois irmãos Artêmis e Apolo, fizeram aquele capacete misterioso da invisibilidade que Hades emprestou para Perseu quando ele foi decapitar Medusa.
Eles eram úteis, portanto, e trabalhadores. Eram obedientes, disciplinados, tinham até aquele jeitão de que estavam concorrendo sempre ao título de Ciclope do Ano. Esses não, esses não vão ser os que Ulisses vai encontrar. Esses, aliás, não se misturavam com o mundo humano. Sempre que a gente ouve alguma coisa a respeito deles, eles estão já do lado do Olimpo e dos outros deuses. Segundo, Havia os ciclopes construtores, trabalhava na construção civil, melhor, na construção pesada.
Eram ciclopes obreiros, aos quais os antigos atribuíam várias construções feitas com pedras de tamanho descomunal, como as muralhas de Micenas, como as muralhas de Tirinto, compostas de pedras maciças que não poderiam ser carregadas por um homem comum. Eles eram também brutamontes como os primeiros, mas eram trabalhadores, disciplinados e não faziam mal a ninguém. Infelizmente, também não vai ser esses que Ulisses vai encontrar.
Em terceiro lugar, havia os Ciclópes barra pesada. Esses eram pastores, não eram construtores nem ferreiros, não eram muito civilizados, Não tinham aprendido a construir casas, não tinham cidades, não praticavam agricultura, não consumiam vinho, o que para o grego já era um sinal de pouca civilização, e se alimentavam só de leite, queijo e carne das ovelhas e das cabras que criavam. Eles não tinham uma vida coletiva, Não tinham cidades, viviam isoladamente.
Como diz Homero, não tinham assembleia, o que para um grego é terrível não ter assembleia. E ignoravam, pior ainda, os princípios da hospitalidade, aquilo que falamos no episódio anterior, a xenia. Esses do terceiro grupo, esses tinham o péssimo hábito de massacrar todo estrangeiro que chegasse na sua terra. E muito pior, e devorá-lo, devorar a carne da vítima sem passar pelo fogo. O que na escala da civilização, comer carne crua talvez seja um dos degraus mais baixos que tem.
Eles perdiam, por exemplo, até para bruxa do Joãozinho e da Mariazinha, que ao menos pretendia devorar as duas crianças com uma receita mais sofisticada com ervas finas, cebola e algum tomate, numa receita que ela tinha aprendido no MasterChef. Pois era exatamente com esta turma da quebrada que Ulisses ia se meter no dia seguinte. Fechar parênteses. Bem, deixamos Ulisses e seus companheiros deitados lá na praia, ao lado dos navios, esperando que o dia aparecesse.
Quando finalmente a aurora, a deusa dos dedos cor-de-rosa, iluminou o céu, é que eles perceberam que o vento, ou destino, aquela noite toda tinha levado até uma ilha que era um verdadeiro paraíso. Era uma espécie de reserva natural aonde o homem nunca tinha pisado. Era completamente virgem a ilha, coberta de bosques e de pastagens verdejantes. Por toda parte tinha cabras selvagens que ali viviam sem conhecer o ser humano, sem nunca ter sido caçadas por ninguém, completamente mansas.
Dali é que se enxergava bem de perto a terra dos ciclopes, mas eles nunca tinham ido até aquela ilha, com certeza porque eles nunca aprenderam a arte de fazer navios. Eles estavam presos para sempre na sua terra. Ulisses então e seus companheiros aproveitaram para explorar essa ilha em que eles se encontravam. Ficaram encantados com o que viram. O quanto um grego antigo não daria por uma terra dessas para colonizar! Uma terra fértil, com fontes generosas, capaz de produzir qualquer tipo de produto.
Se plantassem ali as vinhas, as parreiras seriam eternas, colheitas abundantes. E com essa pastagem dela verdejante que se estendia até bem perto da água do mar, daria para criar um gado saudável e gordo como nenhum outro. Então, para melhorar mais ainda a ilha, algumas ninfas fizeram as cabras correrem e saltarem diante dos olhos dos visitantes, que sem perder tempo correram para os navios para buscar seus arcos diante desse espetáculo inédito da caça se oferecendo ao caçador.
E eles se dividiram em 3 grupos e foram avançando de forma organizada até encurralar essas cabras. E a caçada foi muito boa. Nós já vimos que a frota de Ulisses era composta de 12 navios. E nessa caçada, cada navio recebeu 9 cabras como sua ração, e o de Ulisses, por ser o do chefe, ficou com 10. Isso permitiu que eles passassem o dia inteiro até o pôr do sol fazendo um churrasco, comendo carne e tomando vinho esmágico que eles tinham trazido daquele saque que eles fizeram junto aos ícones.
Depois, já satisfeitos, estirados à sombra dos navios, conversando, eles podiam avistar bem ali pertinho a ilha dos ciclopes. Ulisses é que estava mais interessado e ficava acompanhando com os olhos os fios de fumaça que passavam por entre as árvores, o ruído de vozes misturadas com balidos de ovelha, louco para saber como é que eles eram. No raiar do dia seguinte, ele não se conteve, reuniu todos os companheiros e fez um pronunciamento.
Ele anunciou que queria ver mais de perto aquela ilha vizinha. Ele queria conhecer o povo que morava lá. Ele queria descobrir se eles eram selvagens, sem justiça, ou se eles eram hospitaleiros e seguiam os mesmos princípios que eles. Todos deviam ficar ali esperando por ele. Era um trajeto curto, mas ele iria até lá com seu navio e convidava quem quisesse se juntar a ele. Não era uma ordem, era apenas um convite, mas não precisava mais do que isso.
Seus homens correram para bordo e empunharam seus remos. Estavam prontos para partir. Eles confiariam a sua vida na mão dele. Porque ele era um rei, um chefe que jamais os abandonou, mesmo nos piores momentos da Guerra de Troia. Em poucos minutos, na força do remo, tinham chegado ao seu destino, numa ponta de terra onde puderam puxar o seu navio para o seco. Dali se avistava, não muito longe do mar, Uma gruta aberta na parede de pedra, protegida pela sombra de carvalhos e de loureiros.
E do lado, na entrada, havia um cercado feito com pedras recolhidas do chão, certamente de um pastor que deveria guardar ali o seu rebanho de ovelhas. Dos tripulantes do navio, Ulisses então escolheu os 12 companheiros mais de fé que ele tinha, gente braba mesmo, para segui-lo na exploração daquela gruta. Os outros deviam ficar atentos, prontos para partir se fosse necessário, pois não sabiam o que encontrar lá. Ele levava com ele um odre daquele mesmo vinho esmágico, aquele que o sacerdote de Apolo lá na terra dos Cícones tinha dado para ele de presente, aquele que era tão perfumado e tão forte que dava para diluir com água na proporção de 20 para 1, como nós já tínhamos comentado.
E isso serviria para usar se fosse necessário trocar por alguma coisa, talvez por cabras ou por ovelhas. O caminho subia a encosta, mas não era longo. Eles logo chegaram na caverna. O dono não tava em casa. Como ele era pastor, nessa hora deveria estar longe conduzindo o seu rebanho. Ulisses então aproveitou para entrar cautelosamente e explorar o interior da caverna, pé antepé, porque o tamanho da caverna era assustador. Eles foram entrando pouco a pouco, intrigados sobre o tamanho do morador.
Havia grandes cestas com queijos que estavam curtindo, havia recipientes cheios de coalho, havia tigelas e terrinas destinadas à ordenha. Tudo grande, tudo ali era grande e assustador, parecia feito fora da escala. O dono deveria ser muito grande para manejar todos aqueles utensílios. Por isso, os homens de Ulisses tentaram convencê-lo a sair correndo dali, passar a mão nos queijos, tudo que pudesse, pegar alguns cabritos, alguns cordeirinhos e descer em direção ao navio e sair dali antes que voltasse o dono e ficasse furioso.
Ulisses não concordou. No fundo, ele não tinha vindo ali só em busca de comida ou de queijos ou de carne fresca. Era para saciar a sua curiosidade, a sua maldita curiosidade que tantas peças lhe tinha pregado até hoje e tantas outras havia de pregar. Ele não ia admitir voltar para o navio sem conhecer quem morava ali, quem manejava aquele cesto pesado, quem dormia naquela grande cama, aquele grande leito de folhas no chão perto do estábulo dos animais, quem bebia naquelas tigelas gigantescas.
Os marinheiros então sabiam que não iam demovê-lo, se resignaram, e já que tinham que esperar a volta do dono da caverna, fizeram uma fogueirinha, sentaram em volta e, muito à vontade, aproveitaram as horas de espera se empanturrando com queijo que estavam roubando. Súbito, todos ficaram em silêncio. Tinha ouvido ao longe o sininho do carneiro guia, e isso significava que o rebanho e o seu pastor estavam voltando para casa. Quem era o dono da gruta, o dono daqueles queijos que estavam mastigando com tanta avidez?
Quem é? Infelizmente, não seria um bom anfitrião. Para o azar de Ulisses e de seus companheiros, eles tinham invadido o covil de Polifemo, o mais selvagem de todos os ciclopes, um verdadeiro ogro monstruoso que pastoreava sozinho o seu rebanho, sempre longe dos outros membros da tribo dele. Indiferente a qualquer lei que existisse. A chegada dele foi assustadora. Sem olhar para o interior da caverna, com grande estrondo, ele jogou lá para dentro uma pesada carga de lenha.
Era para fazer o fogo daquela noite. Todos saltaram instintivamente e saíram correndo em busca de um abrigo qualquer nas paredes da caverna, ainda sem ter visto Ulisses e seus homens, que estavam colados nas paredes tentando ficar invisíveis. O gigante, sim, diz Homero, ele era muito alto, da altura de um mastro de navio. O gigante trouxe para dentro da caverna as fêmeas para ele ordenhar, deixando os machos, tanto os carneiros quanto os bodes, lá fora naquele cercado.
Essa parece era sua rotina diária. Apartados os animais, os machos das fêmeas, ele fechou a porta da caverna. Como um enorme bloco de pedra, tão grande— isso também Homero quem diz— que não poderia ser arrastado nem por 22 juntas de boi, o que significa várias toneladas. Assistindo a tudo isso, Homero e seus homens mal ousavam respirar. Ficaram ali imóveis vendo aquele pastor gigantesco desproporcional executar cuidadosamente a rotina que ele fazia todos os dias.
Primeiro, ele aproximou cada filhote da sua mãe para que eles pudessem mamar. Depois, concluiu a ordenha dividindo o leite em duas partes: uma para o fabrico de queijos e a outra para ele próprio beber. Só quando ele acendeu o fogo foi que ele percebeu os visitantes que se ocultavam na parte mais escura da caverna. Não parecia brabo, apenas curioso. Quem são vocês? De onde vieram? Vocês são mercadores ou são piratas sem rumo? Todos se apavoraram com aquela voz grave e essa grande estatura.
E o coração de todos desceu do peito para o pé. Até Ulisses levou algum tempo até criar coragem para falar: amigo, nós somos aqueus gregos que estamos voltando de Troia, retornando para casa. A vontade divina nos desviou do caminho e aqui estamos suplicando sua hospitalidade em nome de Zeus, o anfitrião divino, o amigo dos hóspedes respeitáveis. Somos pessoas importantes, temos orgulho de dizer que lutamos lado a lado com Agamêmnon, o filho de Atreu, cuja glória agora percorre o mundo inteiro.
Tão vasta foi a cidade que ele saqueou e tão numerosos os guerreiros que ele matou. Diante das palavras de Ulisses, Polifemo respondeu com tom malévolo: Você é tolo, forasteiro! Veio de tão longe para convidar a mim, Polifemo, a temer, a respeitar os deuses? Os ciclopes não dão bola para Zeus, nem para os deuses do Olimpo. Nós somos os mais fortes, e se eu poupar vocês, certamente não vai ser por ter medo da ira de Zeus. Depois trocou a voz para o modo suave.
Mas conta aqui para mim, amigo, Quando chegaram aqui? Onde é que vocês deixaram o navio? Foi lá na ponta da praia ou foi mais perto daqui? Diz, diz aí. A intenção da pergunta era suspeita. Por que ele queria saber? Para se apropriar do navio? Para saber se havia mais companheiros de Ulisses? Ou talvez pelas riquezas que ele imaginasse que estavam trazendo de Troia. Mas não ia ser aquele grande pateta que ia passar a perna logo no Ulisses, pós-graduado em truques e tramóias.
Ele disse: meu navio foi despedaçado pela ira de Poseidon, que o jogou contra os recifes dessa ilha, e o que sobrou do casco O vento levou para o mar aberto. Só eu e esses poucos aqui escapamos da morte certa. O gigante ficou em silêncio por alguns segundos, como se procurasse uma resposta, mas a resposta veio de uma forma macabra. Num salto surpreendentemente ágil para um monstro daquele tamanho, ele agarrou dois companheiros de Ulisses como se fossem simples cachorrinhos, jogou com uma força tremenda contra o chão, de cabeça para baixo, espalhando seus miolos no chão ensanguentado.
Este era o jantar dele, pedaço por pedaço. Membro por membro, ele os devorou como um leão nascido das montanhas. Comeu tudo, não deixou nada. Vísceras, a carne, os ossos cheios de tutano, e comeu lambendo os beiços, sem se importar com os vômitos e com os gritos de horror de todos. Então, depois de ter enchido bem a pança com carne humana e crua, O Ciclope bebeu uma grande tigela de leite para rebater tudo aquilo, deitou na grande cama de folhas no chão perto dos animais e se pôs a roncar como um ciclope ronca.
Ulisses se aproximou com a mão no cabo da espada. A guerra o tinha ensinado a matar. Ele sabia como acabar num instante com a vida daquele monstro sanguinário. Bastaria apalpar o volumoso ventre do gigante e atravessar-lhe o fígado com um só golpe. Mas um pensamento terrível deteve sua mão. Se fizesse isso, todos estariam condenados à morte juntos com o gigante, porque ninguém conseguiria remover aquela pedra que bloqueava a porta.
Por isso, Ulisses guardou a espada e começou a arquitetar aquele que seria um dos maiores ardis de toda a Odisseia.
A gente vai parar o episódio por aqui. Nós hoje explicamos quem são os ciclopes, em qual contexto os homens de Ulisses chegam na ilha, mas tem uma segunda parte, o que acontece depois desse momento que você acabou de ouvir, que é o que torna esse trecho memorável, e a gente precisa contar isso com o máximo de detalhes. Lembrando que se você quiser ouvir toda a Odisseia, nós já temos ela todinha gravada em vídeo com imagens lá no nosso site.
Se você ainda não é nosso apoiador, aproveita, vai lá em noitesgregas.com.br/apoiar, e assiste todas as aulas. Tem 5 módulos, tem a Ilíada, tem a Odisseia, tem toda a Saga de Troia, aliás, tem a história dos heróis, tem a história dos amores de Zeus, a gente tá contando as Metamorfoses de Ovídio. Enfim, muita aula, muito conteúdo para você se aprofundar em mitologia grega. Neste episódio, o material exclusivo, além de uma série de imagens, tem também uma obra não muito conhecida do Eurípides chamada O Ciclope, que é o único drama satírico que chegou até os dias de hoje.
Como toda obra de Eurípides, é muito bem escrita, muito bem estruturada e vale muito a leitura. E quem volta aqui para o nosso rol de autores de conteúdos exclusivos é Luciano de Samósata. Quem é apoiador deve lembrar bem desse escritor, que é cheio de ironia, com humor muito ácido. E a gente traz um texto que é a conversa entre o Ciclope e Poseidon, que é o pai do Polifemo. Texto divertidíssimo, como todos os outros do Luciano.
E nós separamos um trecho da Eneida. A Eneida, que é uma imitação criativa da obra de Homero escrita pelo poeta Virgílio. Acontece que o Enéas, o Enéas que é troiano, que nós conhecemos na Guerra de Troia, quando ele sai de Troia, ele cruza o caminho de um dos companheiros de Ulisses que tinha sido esquecido lá na terra dos ciclopes. E aí ele ouve um relato arrepiante sobre os terrores dentro da caverna, contado por alguém que sobreviveu à ira do Polifemo.
Mais uma vez eu quero dizer muito obrigado pela audiência, pelo apoio. Nós somos muito gratos e seguimos aqui muito animados nessa jornada de contar a Odisseia, de registrar em áudio essa obra que foi feita para ser narrada e que esse podcast humildemente ajuda a perdurar. Até o próximo episódio!