A Odisseia: Nolan x Homero
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Noites Gregas foi ao cinema conferir a Odisseia de Christopher Nolan. Neste episódio, o professor Cláudio Moreno compara o filme com o poema de Homero, destacando acertos, invenções e ausências em episódios como o Ciclope, o Cavalo de Troia e a descida ao mundo dos mortos, além do tratamento dado a personagens como Penélope, Circe, Calipso, Atena e Nausícaa.
Felipe Speck
Cláudio Moreno
- Mulherio das Letras· CulturaTratamento dado por Nolan · Importância na obra de Homero · RPG de Várzea · Circe · Calipso · Pilatos · Lupita Nyong'o
- Odisseia (Filme de Christopher Nolan)Comparação de narrativas · Fidelidade à mitologia · Invenções e ausências no filme · Christopher Nolan · Homero
- Chegada à terra dos CiclopesComparação da representação · O estratagema de Ulisses · O nome 'Ninguém' · Polifemo
- Koji Kondo· CulturaRepresentação visual no filme · Simbolismo e narrativa · Detalhes técnicos e de pesquisa · Vicaricídio
- Morte e viver plenamenteComparação com a narrativa homérica · Representação de personagens · Odisseia e Ilíada · Tirésias · Saída de Bolsonaro da UTI · SAF
Salve, ouvintes do podcast Noites Gregas! O meu nome é Felipe Speck e esta aqui é mais uma Hora do Oráculo. A Hora do Oráculo, como vocês sabem, é uma sessão em que a gente responde a perguntas de apoiadores e ouvintes que nos mandam. E como vocês devem imaginar, muita gente nos mandou mensagens perguntando qual era a opinião do Noites Gregas sobre o filme do Nolan, A Odisseia. Bom, o Moreno e eu fomos assistir, achamos algumas coisas interessantes, outras coisas esquisitas.
Vocês vão ouvir agora o comentário do Professor Moreno, mas a gente fez questão de fazer inclusive um episódio em vídeo. É a primeira vez que a gente grava um episódio em vídeo aqui no podcast. Eu espero que vocês gostem, espero que tenha ficado bom. Bom, é esquisito falar em spoiler quando a gente fala da Odisseia, mas como o Nolan tomou algumas decisões que fogem um pouco do roteiro homérico, Vou avisando que aqui tem algumas descrições sobre o filme.
Se você não assistiu ainda, você vai acabar sabendo de coisas que o Nolan fez que não estão na Odisseia de fato. Mas eu acho que também é uma boa forma de entender por que algumas coisas simplesmente não deveriam ter sido mexidas na Odisseia. Aproveito também para falar sobre a nossa parceria com a Companhia das Letras. A Companhia das Letras lançou agora recentemente um audiobook da Odisseia, a versão traduzida pelo Frederico Lourenço, agora em áudio.
E ela cedeu para gente alguns trechos, alguns cantos que nós disponibilizamos lá no conteúdo exclusivo para os nossos apoiadores. Então, se você quiser apoiar o podcast, puder apoiar o podcast, vai lá em noitesgregas.com.br/apoiar e tem acesso a vários conteúdos. Inclusive tem um módulo de aula, um curso completo sobre a Odisseia, a Odisseia seguindo o script de Homero. É isso então, eu deixo vocês com o Professor Moreno. Bom episódio!
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Hello, amigos! Atendendo a muitos pedidos de vocês, Noites Gregas foi assistir a Odisseia, entre aspas, de Nolan. Claro que a gente sabe que não se compara algo feito no meio imagem com algo que é feito no meio literário, a palavra. Comparar livro com filme, você sabe que sempre um dos dois saem perdendo, ou até os dois. Não, interpretando a ansiedade de vocês, e vocês não podem imaginar quantas mensagens nós recebemos, nós vamos é mostrar o que que tem de fidedigno em termos de mitologia na obra do Nolan, o que que a gente pode levar a sério como sendo realmente original de Homero, sem aquela história que é uma lenda e portanto pode ser mudada.
Não, é uma obra literária, a mais importante da aurora da cultura ocidental. O que que tem de fiel e o que que tem de invenção? E principalmente, o que que deixou de aparecer no filme? Porque o filme não poderia também conter tudo que a Odisseia traz. Talvez vocês percebam depois que vale a pena voltar para Odisseia para ler realmente o que aconteceu. Usem o filme como um roteiro e vamos preencher os claros. Para ficar mais claro, eu vou usar uma metáfora.
Como é uma história que se passa no mar, basicamente no mar, eu deveria usar uma metáfora marítima, mas eu vou apelar por uma metáfora ferroviária. Imaginem que há dois trens, um conduzido por Nolan outro conduzido por Homero. O que eles vão contar é a mesma jornada. O ponto de partida é o mesmo, o ponto de chegada, Ítaca, é o mesmo, os personagens e as várias estações são praticamente as mesmas. Talvez um, Nolan, pule uma estação ou outra, mas as estações que levam até Ítaca são as mesmas.
Aquela sequência que a gente está acostumado dos Cícones, dos Lotófagos, dos Lestrigões, da Circe, o mundo dos mortos. Isso foi mantido pelos dois autores. A maneira e o tempo que eles dedicaram a cada estação é que vai dar um resultado diferente. Quem se dedica mais tempo vai explorar melhor aquela estação. Nolan tem uma certa pressa, até porque ele tem um tempo limitado de projeção, que já foi bem grande e que ele não poderia ir muito mais longe.
Mas não só isso, E que detalhes ele viu naquela parada ali? Ao chegar à ilha de Circe, o que é que ele enxergou? E o que que Homero nos mostra? Ao chegar ao mundo dos mortos, Ulisses, na visão de Nolan, viu isso e aquilo, e Homero viu muito mais. Então é essa comparação que nós vamos fazer. Não podemos esquecer que o Nolan vem de uma carreira megalomaníaca. Isso não fez muito bem, eu acho, para a personalidade dele. Ele tem um ego quase igual ao do Musk.
Tudo dele tem que ser melhor, tem que ser novo. Ele não vai se contentar em filmar um cenário já usado, ele vai, se possível, fabricar uma geleira, se pudesse construir um vulcão especial para filmar uma cena ali. Então isso, como nós vamos ver, faz com que ele ocupe muito tempo de filme com assuntos que não são tão importantes para a obra literária e para a mensagem que traz a Odisseia, que é uma obra extremamente rica e séria até em termos filosóficos.
Nunca esqueçam que Noites Gregas se fixa na narrativa, o nosso amor pela história, que aliás estamos frequentando agora talvez a melhor das histórias já escritas, É o nosso amor pela história, pela narrativa, como é que ela se sustenta. Não entramos em análise sociológica, histórica, não temos capacidade para isso, política, ideológica, não. Como é que funciona a narrativa de Homero, que é um exemplo, talvez o exemplo de grande narrativa, e como é que ficou na tela de Nolan com seus roteiristas que não me parecem muito cultos.
Aliás, como diretor também não parece. Parece mais um pessoal vindo do mundo dos quadrinhos, do mundo dos X-Men, coisas assim, onde o que importa é muito movimento, muita porrada, como se diz, muita pancadaria e grandes poderes. Não há muito raciocínio ali. Mas vamos adiante. A gente não pode esquecer que essa narrativa, a Odisseia, embora a gente atribua a um desconhecido, a vários desconhecidos, que a gente para poder viver em paz, demos o nome de Homero.
Essa narrativa já foi, antes de ser fixada em texto, ela vinha sendo contada há séculos. Há material muito misturado na Odisseia, cenas que vêm de culturas diferentes, de épocas diferentes, o que não importa. Quem cozinhou, quem costurou essa colcha de retalhos, costurou bem. E aquilo que ele não tinha feito bem passou a ser corrigido por centenas de poetas, centenas de cantores que foram por gerações e gerações repetindo a história.
Portanto, ela, quando chegou ao texto, ela era como uma pedra que foi atirada no leito de um rio e ali ficou 400, 500 anos. Não tinha mais arestas, tava tudo arredondado, os problemas de narrativa tinham sido solucionados. Ela praticamente não tem problema de narrativa. Nolan, repito, com seu grande ego, resolveu melhorar algumas coisas. E evidentemente faltou humildade, porque melhorar uma coisa que vem sendo trabalhada até pelo imaginário ocidental há 3.000 anos não é assim que se faz.
Quem é Nolan na fila do pão? Vamos ver. Exemplo, um exemplo de como a mudança proposta estraga o que já tava funcionando. Maior exemplo talvez seja o Ciclope. Não sei com vocês, mas o Ciclope foi uma decepção para a equipe do Noites Gregas, a grande equipe, o Felipe e eu, que estávamos juntos no cinema e terminamos depois no shopping da pizza obrigatórios. Felizmente esse episódio já tinha sido narrado no Noites Gregas. Quem não lembra, vai lá, é o penúltimo e o último episódio publicados.
Como vocês viram no episódio 98, Ulisses e seus homens chegam numa pequena ilha paradisíaca, com muita caça, com água fresca. E ali, enquanto descansam e refazem suas forças, avistam bem pertinho, ao alcance do olho, uma outra ilha de onde vem o balido das ovelhas. Uma ilha, portanto, que tem pastores e que tem ovelhas, o que é uma presa importantíssima para alimentação dos 12 navios de Ulisses. Então Ulisses separa um grupo de marinheiros mais cascudos e sozinho eles, num navio só, vão até essa ilha tão perto, tão perto aliás que ouvem vozes e também veem subir por entre as árvores fumaça de vários fogos.
Portanto, é uma ilha habitada, ao contrário daquela pequena ilhota onde eles estão. E lá nessa ilha, eles, ao subirem por uma colina, seguindo o rastro talvez de um rebanho de um pastor que todos os dias passava por ali, portanto deixa uma trilha, eles chegam numa grande caverna que nós sabemos é a caverna do Ciclope. Ulisses pretende negociar com o morador. Ele leva para isso, como não existe dinheiro nessa época, o dinheiro não foi inventado ainda, Ele leva uma coisa preciosíssima, que é um odre cheio com o vinho que eles roubaram lá do Síconis, o famoso vinho aquele que dá para tomar misturado com água na proporção de 20 para 1.
Vocês lembram do episódio? E enquanto eles esperam na caverna, que está vazia, só tem lá alguns filhotes e o seu proprietário não está presente, saiu com o rebanho para passar o dia fora, e eles encontram então uma grande quantidade de queijos que ele faz e começa a comer os queijos, conversar e esperar volto, quando volto? O rebanho entra primeiro. Isso, aliás, tá no filme também. Certas cenas do filme são ótimas para a gente concretizar o que tava imaginando.
Entra o rebanho na frente, aquela confusão de machos, fêmeas e filhotes, e aparece então o dono da caverna, que é o Ciclope. O Ciclope, eu vou mostrar para vocês, o Ciclope que pertence a Noites Gregas, capturado Ele é um ser humano monstruoso, ou é um monstro humano humanizado, mas ele é humano, ele fala, ele pensa. Não é aquela figura do filme que parece um bonecão feito de massinha de modelar, bege ainda, que é pior. Esse aqui é o Ciclope.
E Ulisses tenta, evidente, evocar a lei da hospitalidade, que é a lei que que garantia os gregos que se movimentavam por todo o Mediterrâneo, em terras estranhas. E o Ciclope diz que vai convidá-los para jantar e fecha a porta da caverna. Lembra aquela grande pedra que é importantíssima, aquela ideia? E eles ficam ali encerrados com aquela fera, que eles não sabem que é uma fera, que vai levá-los para jantar. Sim, levá-los para jantar.
Apanhar um e levá-lo à boca, que ele vai triturar, comer, soprar, arrotar, e depois vai passar para o segundo. É a sua ração daquele dia. É uma cena terrível na Odisseia. No filme, aliás, é uma cena, seria de qualquer maneira asquerosa, mas com aquele ciclope que parece um lesmão, né, uma lesma, ele não parece, parece mais um extraterrestre de um planeta mau, ele simplesmente Estraçalha aqueles dois, cospe os ossos e vai dormir.
Bom, se vocês lembram, claro que é uma cena fundamental da Odisseia, não é por acaso. O Ciclope não tem tanta coisa mais do que outros monstros da mitologia, mas é que ele trabalha com já com um pé dentro do humano. Ele é um humano anormal, monstruoso, selvagem. Ulisses então faz aquele plano que todo mundo sabe. Ele tem que dar um jeito de fazer o Ciclope abrir aquela tampa, aquela porta, aquela pedra que pesa toneladas, senão eles não poderão sair dali.
Enquanto isso não acontecer, ele vai comer um por um. Então ele faz aquele plano de vazar o olho do Ciclope, embebedá-lo, porque o Ciclope não conhece bem o vinho, não. O vinho que ele provou parece que era horrível a única vez que ele provou. E aí então, com aquele néctar maravilhoso, o vinho Ismárico, eles embebedam o grandalhão e o Ciclope começa a ficar, como todo bêbado, amistoso. Quer cantar, quer bater nas costas, quer discutir o futebol.
E aí pergunta: olha, tu me deste um grande presente, eu vou te dar um presente também. Vocês lembram? Primeiro me diz o teu nome. Ulisses, desde o início, não quis dizer que estava acompanhado de mais navios, porque ele sentiu a má intenção, não quis dizer onde é que tava o seu navio, ele mente, diz que naufragou, e na hora que pergunta o nome, ele diz: meu nome é ninguém. Isso não tá no filme, infelizmente. Foi uma pontaria, o Nola tem uma pontaria assim certeira, pá, ele atira e tira uma parte boa do filme.
Porque achou que não era necessário. Não é verdade que ele achou que não era necessário, é que ele cometeu um equívoco de mudar o enredo, e é o enredo que já tava bem redondinho ficou com um pé quebrado. Qual foi a mudança que ele introduziu? Ele colocou o Polifemo como o único ciclope, só tinha um. Ora, se só tinha um, Ulisses não teria que ter montado esse, esse artifício, porque o medo dele era, depois que eles cegassem o Polifemo, o que que os outros fariam quando vissem que o seu colega, o seu amigo, tinha sido mutilado.
Então, por isso, ele cria o estratagema do ninguém, que revela muitas coisas de Ulisses. Revela a sua astúcia, é com isso com que ele luta, não é tanto com as armas, embora ele fosse um grande soldado. E também, ao mesmo tempo, é uma espécie de visão dele no espelho. Ele é um homem perdido, desenraizado, está a essa altura há 12 anos fora de casa, sem saber que vai ficar mais 8 ainda, longe da família, longe da mulher, longe do filho que ele não viu crescer.
Ele está realmente em busca do seu próprio self, como se diz. Por isso, quando ele diz meu nome é ninguém, isso tem duplo valor. Primeiro vai enganar os possíveis ciclopes que virão acudir o Polifemo, e no fundo é uma espécie de reconhecimento que ele tá perdido, está desenraizado. Na verdade, a Odisseia é a história de um homem em busca de si mesmo. Portanto, como Nolan eliminou os demais ciclopes, todo o artifício de Ulisses ficou inútil, e ele suprimiu sem nenhum peso na consciência.
Quando perguntaram, aliás, pela imprensa, eles: não, era um trocadilho que funcionava antigamente, que hoje não teria mais sentido. Não teria mais sentido, cara pálida, se não houvesse mais ciclopes. Mas como tinha, teve todo sentido. Foi isso que salvou Ulisses e ficou um episódio famosíssimo. Nós ficamos com a impressão, isso foi na conversa nossa já em volta da pizza, que em algum dado momento os roteiristas se deram conta que tinham criado um problema.
Nolan apresentou o Ciclope mudo, ele só dá grunhidos, gritos, arrotos, não fala. Ora, agora que ele tá cego e suprimiram aquela parte do ninguém, como é que ele vai comunicar a Poseidon, que é o pai dele, que ele foi mutilado e que ele quer vingança? Então ele resolve assim do nada fazê-lo falar. E a gente ouve então o Ciclope fazendo uma espécie de oração, uma prece ao pai Poseidon, pedindo que seja vingado. É tão estranho, tão insólito, que nós estávamos rindo até que o roteirista resolveu se antecipar às dúvidas dos espectadores.
Um dos companheiros do Ulisses diz: ué, ele fala? Por que que ele não falou antes? E aí vem uma tirada elegante, o outro responde: por que que tu estranhas? Por acaso a gente fala com formigas? E aí o outro diz: bom, mas pelo menos a gente podia ter trocado uma palavra, ter se entendido melhor. E o outro diz: é, agora é tarde para isso. Ou seja, parece assim, alguém botou um remendo ali, a calça de brim dele ganhou um remendão ali no joelho.
Porque já era tarde, o filme já estava na hora de sair e chega de mudança e tocaram ficha. Reparem isso aí, vocês vão ver. Bom, a segunda mudança, dentre muitas que há no filme, é evidente, a liberdade de criação, a necessidade muitas vezes de superar problemas técnicos, é claro, há também a vontade de ser mostração que Nolan é É um pavão total, todos nós sabemos. Mas o segundo ponto em que a mudança foi muito pior, porque já estava certo funcionando, foi o Cavalo de Troia.
Então, uma das coisas mais icônicas, eu não gosto dessa palavra, mas é uma das coisas mais icônicas de toda a Saga de Troia, é o Cavalo de Troia, com a simbologia, etc., etc. Todos os textos, todos os pintores, Os ceramistas, porque grande parte das imagens que nós temos do mundo antigo são das peças de cerâmica, que são praticamente eternas. Muitos grandes pintores de cerâmica deixaram sua marca. Em qualquer museu vocês vão ver as cenas da mitologia.
Então o cavalo, imagino que vocês já tenham visto um cavalo, ao menos no cinema. O cavalo é um grande mamífero pesado, pesa 500 kg. Que se apoia com 4 patas no chão. Ora, o cavalo de Troia, que é feito em todas as pinturas, etc., é um grande cavalo em escala maior, né, multiplicaram, potencializaram o tamanho dele, é um cavalão com as 4 patas no chão. E aquilo serviu de veículo para dentro do seu bojo uma elite de guerreiros, entre eles estava Ulisses, estava Menelau, Diomedes, toda a turma da pesada, ingressarem em Troia sem ser vistos, e de noite, terminados os festejos, iriam matar os guardas, os sentinelas, abrir os portões e pronto, estariam no coração da cidade e a destruiriam.
Pois bem, o que que fizeram os técnicos e os estilistas e os desenhistas de Nolan? Fizeram um cavalo que, em vez de apoiar as quatro patas no chão, Ele está sentado sobre as traseiras, empinando as dianteiras. Uma cena bonita, dá a impressão assim de um cavalo jovem, em inglês, colt, um potro, que é o símbolo que está em todas as pistolas da Colt, a fábrica da Colt. Então aquela figura do cavalo empinado, cheio de guerreiros. Pela lei da gravidade, naquele tempo a lei da gravidade já funcionava, É bom dizer, aquilo era um amontoamento imenso no traseiro do cavalo, que não tinha como ocupar o espaço mais acima.
O peso fazia uns ficarem sobre os outros numa confusão infernal, e que fazendo pressão inclusive naquela parte externa do cavalo que fica debaixo do seu rabo, se bem me entendem, embora não seja essa saída especial para guerreiros. Esse aqui é uma réplica que se compra em algumas lojas especializadas na Grécia, exatamente de um brinquedo infantil da Grécia do século 5 antes de Cristo. E o cavalo evidentemente teria que ser transportado para dentro da cidade.
Ora, evidentemente que ele tinha rodas, estava em cima de uma plataforma com rodas. E Virgílio, que veio depois em Roma, que vai imitar Homero, vai fazer uma epopeia romana, ele introduz na história do cavalo um detalhe que tava faltando e que fecha direitinho a ideia da narrativa da cena. Como os troianos, ao despertarem naquele dia, vão entender aquele animal gigantesco de madeira lá perdido no antigo acampamento grego? O cavalo tem que falar.
Então Ulisses, que tinha pensado no estratagema, ele consegue um voluntário que aceite ser mutilado, que é o Sinon, que no filme tá uma posição muito esquisita, que aceite ser mutilado, perde a ponta do nariz e as orelhas para ficar ensanguentado, chorando, abraçado ao cavalo. Quando os troianos se aproximam, eles veem que ele não é um inimigo, ele é totalmente ao contrário. Ele grita que tava sendo sacrificado pelos gregos, conseguiu escapar.
E serve, portanto, de fonte de informações para os troianos. Por quê? Para que esse cavalo? Ah, para agradar Atena, que assim quando eles voltarem, porque eles vão voltar daqui a uns 5, 6 anos, Atena vai ser propícia a eles. E por que tão alto? Ah, porque eles, porque Ulisses disse que se não fosse alto vocês conseguiriam levá-lo para dentro das muralhas, mas assim ele não passa pelos portões e vocês não podem, vocês oferecerem para a deusa em seu nome.
Logo, evidente, algum inteligente: não, mas a gente pode quebrar o marco do portão e ele entra sim. Então alegremente o transformam lá para dentro, e lá dentro de noite, depois que as festas acabam, eles entram em ação. No filme, como o cavalo é um cavalo sentado empinado, lá dentro daquela confusão, vocês podem imaginar, inclusive um detalhe ridículo. Faltou pesquisa na turma do Nolan. Ele, como tava na praia, na verdade na história ele tá na praia, mas longe da água, mas como ele tava na praia, a maré vem e inunda o cavalo por dentro, trazendo o risco de morrerem afogados.
Inclusive no filme uma cena angustiante, eles estão tentando respirar com tubos e tudo, é realmente um acréscimo que foi feito por Nolan. Assim como ele retira errado uma coisa, ele também acrescenta errado uma coisa. No Mar Egeu, podem pesquisar no Google, no chat, a maré não passa de 30 centímetros. Os roteiristas ou Nolan pensavam no Atlântico Norte, que é violento. O Mediterrâneo é um grande Pacífico lago. E no caso, que é o Mar Egeu, ali onde fica a Troia, 30 centímetros é a variação da maré.
Portanto, aquela cena que é tão angustiante, porque realmente o homem se afogando num lugar fechado, Eu que sou claustrofóbico então sofri intensamente na poltrona. Era uma cena inútil, não existe essa hipótese. Bom, e como se leva para Troia? Ficava perto, daí a 100 metros, 200 metros. No cavalo de Troia tradicional ele vai rodando, por isso as rodinhas. Mas ali eles têm que deitar o cavalo, é uma cena, essa achei ridícula, deitar o cavalo e vão transportando aquela fila de homens, vão e puxa, vão e puxa, e vai lá o cavalo se arrastando.
Imaginando eu o que meleca dá lá dentro daquele cavalo quando os homens se amontoavam na traseira do animal. Depois foi tombado e agora estão sendo arrastados, de que forma? Porque está de lado, até entrar na cidade sem tocar nos portões, porque eles não introduziram esse detalhe. Então o cavalo entra E depois eles vão ter que levantá-lo, lá vão os homens de novo ser mexidos que nem bola de sorteio da Mega-Sena, rolando ali dentro, para então no final poderem agir.
Então essa mudança que foi feita só piorou. Numa estação que é fundamental desse trem, que é a visita ao mundo dos mortos, Ulisses vai encontrar personagens da Guerra de Troia, que ele não vê, saiu de lá faz, a essa altura, 12, 13 anos, e vai poder falar com eles. Faz aquela cerimônia do sacrifício, então ele fala com Agamêmnon, que é o Agamêmnon do Nolan, é um filho do Darth Vader fantasiado, é absurdo aquilo ali, pobre Agamêmnon.
Encontrou Tirésias, que é o adivinho que ele vai consultar, e encontram, se não tá ali porque chama atenção do elenco, aliás, o elenco é todo ele um elenco de atores, é uma salada de fruta de atores de alta influência no público, atraindo os mais variados setores e cumprindo o código da Academia de Hollywood, que exige agora que se faça um check, check, check, check em várias exigências, tem que ter tudo. Ah, coisas difíceis até de achar, até um coritiano campeão do mundo, até hoje não encontraram.
E deixa de lado o Nola, como sempre, não erra nunca, né, ele não erra nunca na hora de errar. Deixa a mãe de Ulisses, que ele não sabia que tinha morrido, ele encontra a mãe, é um encontro extremamente sensível, e ela diz, Ulisses, eu morri de tanta saudade de ti. É uma cena, tirar isso aí é... Aquiles, um dos mais importantes momentos da Odisseia é a confissão que Aquiles faz que ele estava errado durante a Ilíada. Na Ilíada, ele era um jovem impetuoso que dizia, eu prefiro morrer jovem com glória do que levar uma vida pacata e sem graça de um qualquer homem no campo.
Não, esse é o meu destino. Ele escolhe, ele sabia que ia morrer jovem. Na Odisseia ele diz, Ulisses, tô arrependido. Ah, não disse com essas palavras, né, mas estou arrependido. Eu hoje preferia ser o escravo do camponês mais pobre. Astaque, a vida é mais importante. Por isso que muitos diziam, a Ilíada é um livro da morte, a Odisseia é o livro da vida. Nolan evidentemente olhou, ah, é importante, corta. É óbvio, vai atrapalhar as cenas de combate, vai atrapalhar as cenas atléticas, vai atrapalhar, como a visita ao mundo dos mortos, que termina com uma linda maratona de mortos-vivos.
Nunca se viu, sai de repente aquela cachorrada toda correndo, né, seguindo a trilha. Só faltava patrocínio da Nike atrás dos pobres gregos. Atônitos, não sei como eles não caíram ali só de espanto. Nós sabíamos, e todo mundo sabe, que morto caminha lentamente assim, de um pé para o lado, pé para o outro. A gente pode inclusive xingá-los a uns 2 metros de distância que ele não vai nos alcançar. Não, aquele ali eram mortos velozes, velozes.
Cena gigantesca com aquele IMAX correndo na praia, mas ao mesmo tempo de um ridículo atroz e gigantesco. Outra coisa que no filme parece muito clara é a misoginia de Nolan. Nolan não sabe lidar com personagens femininos. Aliás, aliás, é interessante, numa entrevista de uma repórter jovem com uma jovem atriz também, a jovem Lupita, Ela pergunta, a jornalista: Lupita, que conselho tu darias a Homero? E vejam, a pergunta ingênua, e vai ter uma resposta também obviamente ingênua.
A juventude pode. Lupita, com a sua graça, disse: ah, eu diria: Homero, por que tu não dás mais espaço às mulheres na tua obra? Evidentemente, lá em algum lugar que não sabemos onde, Homero deu 4 voltas no túmulo. E se ele pudesse falar, diria: mas eu? Logo eu na Odisseia? Pergunta isso para o Nolan, por que que ele usa tão mal as mulheres na sua obra, no seu filme? A mulher tem tanta importância na Odisseia que já houve uma tese que até alguns hoje sustentam ainda, que a Odisseia não foi escrita por um homem, a Odisseia foi escrita por uma mulher.
A vida de Ulisses, a jornada de Ulisses é a passagem por uma série de mulheres, talvez simbólicas até, da vida do homem até ele chegar à mulher que é a Penélope. E todas elas têm poder, embora vivessem numa época— estamos falando da época do bronze, da Idade do Bronze— numa época em que a mulher aparentemente seria apagada. Nenhuma dessas que eu vou mostrar agora, que o Homero mostrou, que são admiráveis, são interessantes, foram apagadas.
A primeira é Penélope. Penélope, pela lei, pelo estatuto, vamos assim, pelo costume, no momento em que Ulisses está morto, ela deveria voltar para casa do pai, e lá os pretendentes iriam então tentar convencê-la a casar de novo. Mas ela se recusa a aceitar que Ulisses esteja morto. Não existe prova, e ela aguenta isso 20 anos. Ela mantém o reino unido, mantém os pretendentes que começam a chegar no 12º, 13º ano da ausência de Ulisses e vão assediando pouco a pouco o palácio e vão ameaçando Telêmaco de morte à medida que ele cresce.
Ela sozinha faz isso porque ela é inteligente, ela é caracterizada como uma mulher de extrema inteligência, exatamente a parceira de Ulisses, uma mulher que escolheria Ulisses como marido e Ulisses a escolheria como mulher. Ela aplica no final, que o Nolan não fala, evidentemente que não vai falar porque era uma coisa interessantíssima, então já tava, se é interessante eu não ponho, que é os testes que ela faz Ulisses passar para ter certeza que Ulisses não é um deus disfarçado, por exemplo, o teste da cama, nem menciona o teste da cama, é uma cena imortal onde ela manda a escrava mudar a cama de lugar agora que Ulisses voltou.
Então diz ela, mas eu preciso de um tempo para me acostumar, passamos tanto tempo longe. Então fulana Euricléia, que é aquela escrava que reconhece a cicatriz, muda a cama de lugar, põe aqui para esse aposento. E Ulisses então ri, diz, mas como é que ela vai fazer isso? Se eu construir o nosso leito usando o tronco de uma oliveira que está até hoje na terra lá como base dele? Ele é irremovível. E aí então ela finalmente aceita que ali está de volta, completamente diferente, é claro, passaram-se tanto tempo, o seu marido.
A Penélope, até que no filme ela teve um papel condizente com a sua importância, embora pudesse ter mais. Estou respondendo a Lupita. Agora, Circe. Circe é um episódio importantíssimo, usando a metáfora do trem, é uma estação importantíssima, famosíssima, já gerou até livros sobre ela. Circe é uma mulher fascinante, feiticeira, é a tia da Medéia, na longa linhagem de feiticeiras, e ela simboliza a mulher que que desperta o lado animal, a animalidade dos homens, tanto que os animais estão lá no jardim, tanto que os homens de Ulisses viram porcos.
Ela transforma em porco porque, no filme ela não diz, né, noites gregas ela diria, porque não é muito difícil, tá muito perto, homem-porco não tem muito trabalho para fazer. Bom, mas ela se rende a Ulisses, cujo nome já vinha muitos anos numa profecia. Ela tá apaixonada por ele antes de conhecê-lo. E eles vivem então um caso de um ano. Um ano ela retém lá Ulisses e seus homens, até que ela então cansa, porque ela é uma mulher proativa, né?
Ela que escolhe seus parceiros. Já teve a sua experiência, tiveram um relacionamento, como se diz. E ela diz: olha, acho que é hora de voltar para casa. Ele disse: ah, ótimo, então eu vou te dar conselhos. Ainda dá bons conselhos. Vai ao mundo dos mortos, ela que diz. Cuida disso, cuida daquilo, e tem por isso um papel importantíssimo, papel importantíssimo a figura dela. No filme do Nolan é uma mulher quase uma megera, assustada, achando que os homens são todos eles animais, todos são animais.
A outra, a Circe, dominava completamente o mundo masculino. Essa é uma fóbica, que quase tem um ataque e só é acalmada por Ulisses, que então dá para ele as informações que tinha que dar. Essa é a Circe, a fascinante Circe. Coitada, mas é uma atriz famosa, muito boa, mas não tem o papel de Circe. A Circe sai apagada. A segunda é a Calipso, a segunda estação feminina. Ulisses vai passar por 3 mulheres até chegar na Penélope. Ulisses naufraga para variar, né, a vida dele é um naufrágio constante, naufrágio, e vai dar na costa da ilha da Calipso, que é uma ilha paradisíaca, tropical, onde ela vive com as suas ninfas ajudantes.
E é uma mulher assim, diríamos a palavra que vocabulário machista espanhol chama de caliente, uma mulher sedutora, exigente, e que vê chegar, talvez mandado pelos deuses, um homem que ela queria, como ela gostaria. E ela vai mantê-lo como prisioneiro do amor, quase um escravo do sexo, que todas as noites ele tem que cumprir lá na gruta a cerimônia amorosa por 6, 7 anos, ela diz no filme, alguns dizem 8 na literatura, preso porque não tem como sair de uma ilha.
O mar está em volta. Aliás, o mar é um dos grandes personagens do filme do Nolan. Quem gosta de ver a natureza se impressiona com a grandeza e a beleza. O mar é realmente um personagem fascinante. O Nolan, com a sua técnica de filmagem, que é nesse ponto perfeita, usando essas câmeras novas, são do tamanho da minha geladeira, ele conseguiu captar sem usar computação basicamente, né, em alguma coisa, cenas belíssimas. Então Ele tá cercado de mar, mas durante todo esse tempo ele fica voltado para a direção de Ítaca, em cima de um rochedo, lastimando, choramingando a saudade.
Essa palavra não tem na Grécia, né, não tinha também, mas a saudade de voltar para casa. Ele está nessa viagem de volta que se chama nostos, de onde viria a nostalgia, né. A alergia é dor, sofrimento. O sofrimento do retorno, da volta. Na Odisseia, ele ia ficar para sempre se fosse por Calipso, mas nesse momento intervém Atena. Aliás, Atena, coitada, a deusa dos olhos brilhantes, a deusa mais admirável do Olimpo, no filme é uma jovem tímida que assiste a tudo com o olhar meio úmido, emocionada, sem ter o poder que ela tem.
Imagina Atena, que até Zeus respeita por ser sua filha e por ser brilhante, era apagada. A chama se apaga quando chega perto do Nolan. Atena então não se apieda do Ulisses, diz na assembleia dos deuses, que é uma reunião de condomínio na Odisseia. Os deuses não aparecem como na Ilíada, que eles entram no combate, ferem, são feridos. Não, eles de vez em quando aparecem na reunião do condomínio. E ela disse, pô, pai, por que que a gente não libera Ulisses?
Isso aí, ele não voltou para casa ainda? Não, tá lá na Calipso. Manda soltar. E o Hermes então vai até lá e avisa, olha, Calipso, isso na Odisseia, a verdadeira Odisseia, Zeus mandou liberar Ulisses. E ela então protagoniza uma cena de revolta feminina, porque ela não, como mulher, não pode escolher os seus parceiros, e os deuses vivem prevaricando com aqui e acolá, ela fica revoltadíssima, que é uma coisa já para começar espantosa num texto da Idade do Bronze.
Então, em segundo lugar, tenta convencer Ulisses a ficar com ela oferecendo-lhe aquilo que todo mortal gostaria: a imortalidade sem doença e sem velhice. Ele ficaria como ele está para sempre ao seu lado. E Ulisses aí provando que a Penélope é muito mais do que as pessoas pensam, ele diz: não, eu quero voltar para casa, para minha mulher e para o meu filho. Ou seja, ele rejeita a imortalidade, e mais ainda, rejeita a imortalidade depois de ter ido ao mundo dos mortos, de ter visto como é que é lá, de ter visto o lamento do Aquiles, o amigo Aquiles quase chorando, e ele Diz para Calypso: não, eu quero voltar para casa.
Então essa Calypso, no Lula, parece uma mulher fina, uma atriz até refinada, mas parece uma enfermeira séria cuidando de um paciente. Ela é uma cuidadora, porque ela tá— ele tá comendo lótus. Aí os roteiristas fizeram um atalho, juntaram uma estação com a outra. O Ulisses se torna drogadicto. Ele come a flor de lótus, que é um outro erro, não é a flor de lótus, é uma fruta, mas sempre acharam que é a flor. Flor de lótus é a flor bonita, aquela poética da religião, das religiões orientais.
Não dá barato nenhum, como se diz. É uma fruta pequena, parece uma espécie de tâmara, parece uma forma de uma tâmara, e que tem um nome científico que eu não sei dizer, que dá lá no norte da África, mas que vocês podem encontrar na na internet procurando pelo nome muito bonitinho de jujuba. Isso é que dava aquela letargia dos lotófagos. Então, na ilha, ela é ao mesmo tempo a curadora e a dealer do pobre Ulisses, até que finalmente ele consegue se lembrar, porque ele tá com amnésia, inventaram uma amnésia, parece novela da Globo, não me lembro, de repente lembro, e ela então diz, tá, então vai.
Maduramente, ó, fez terapia 10 anos e ela sabe que não pode forçar um parceiro a ficar com ela. Nada disso, é óbvio, nada, passou em branco, lá se vai. Então veja como ele desperdiçou a Lupita jovem, não se deu conta quanto Nolan desperdiçou as mulheres que o Homero tratou com grande respeito. E o pior de tudo, para revolta do Noites Gregas, ele elimina a terceira mulher, porque de Calipso ele sai, normalmente naufraga, porque Poseidon vê ele no mar e no mar o assunto é comigo.
Ele naufraga e vai dar na ilha dos Feáceos, que é uma ilha bem ao norte, a última ilha ao norte dos arquipélagos gregos, uma ilha paradisíaca com uma sociedade perfeita, com um povo culto e educado, com um rei e uma rainha estimados por todos. É o sonho de qualquer comunidade. E uma filha jovem, Nausicaa, que recolhe Ulisses na beira da praia, quase afogado, e se apaixona por ele. E ali ele está a poucas horas de Ítaca. Ele vai chegar a Ítaca.
Eles vão dar uma carona para ele para Ítaca. Mas o rei insinua que seria, quando ele vê a maneira como os olhos da filha brilham, Ele insinua que gostaria de ter um genro como ele e que depois assumiria, evidentemente, o reino dos feaces. Mas o Ulisses, novamente, ele quer voltar para casa, eu tenho minha mulher, tem meu filho, e o rei evidentemente compreende. Ora, isso gera uma cena belíssima, tocante, delicadíssima, que é a despedida da Nausicaa com ele.
A Nausicaa vem e diz, Ulisses, Não me esqueça nunca, não esqueça que eu te salvei a vida. E ele diz, eu jamais te esquecerei, Nauzico. Porque ele tremeu, né? A hipótese de criar uma vida nova, totalmente nova, com um lugar maravilhoso, com uma linda e jovem esposa. Ele diz, eu sempre me lembrarei de ti, sempre vou abençoar o dia que eu te conheci. O que permite que Nietzsche diga aquela frase belíssima, devemos nos despedir da vida com Ulisses de Nausicaä abençoando-a.
Fora! Tá muito tocante, é muito emocionante, tira! Então vejam que o elenco feminino e a importância dele na Odisseia é imenso. Isso não tá no filme. Bom, acho que podemos parar por aqui. Claro que haveria muito mais assunto para tricotar, mas eu acho que o necessário foi feito. Nós assistimos ao filme com a alma aberta, aliás, gostamos do filme, da ação, dos efeitos especiais, que nem tão especiais são porque ele faz questão que sejam legítimos, e as grandes vistas do mar e das montanhas daquela natureza agreste onde o Ulisses teve que passar tanto tempo da sua vida.
Não gostamos muito do tratamento dado aos personagens, evidentemente não, o pouco aproveitamento das personagens femininas que deveriam encher o filme. E ao contrário, até a Lupita no fundo tava expressando, quem sabe, o seu sentimento em relação ao filme, que ela aparece muito pouco, como Helena, como Circe também, e a Calipso também. E achamos que você, se quer o nosso conselho, assista o filme e depois volte para Noites Gregas e vá ler a Odisseia, a verdadeira, seguindo o conselho do nosso professor Frederico Lourenço, que diz: ninguém deve passar pela vida sem nunca ter lido esse livro.
É isso, meus amigos e minhas amigas. A Odisseia é uma obra muito grande e eu acho que ela dificilmente seria totalmente contemplada num filme. Então a nossa recomendação, como Moreno falou, é que vocês ouçam o podcast. Eu acho que o tempo da Odisseia, na verdade, é o tempo do audiobook, é o tempo do podcast. Tanto é que eu tava fazendo os cálculos aqui, a gente já tem 70 horas de áudio gravados. É bastante coisa, né? E a gente tá agora no 4º episódio da Odisseia.
A gente pretende lançar aí mais uns, acho que vai mais uns 20, 15 episódios, não sei, aí vai depender. Por quê? Porque a Odisseia tem que ser contada com calma, com paciência e com amor. É isso, eu vejo vocês no próximo episódio. Até lá!