#97 - Os Lotófagos
Desviados do caminho de volta para Ítaca por uma tempestade, Ulisses e seus homens chegam a uma costa desconhecida depois de dias à deriva. Sem saber onde estão nem quem habita aquela terra, Ulisses envia uma pequena comitiva para explorar a região e buscar informações sobre os moradores do lugar. Quando os enviados não retornam, ele parte com alguns homens experientes em seu encalço e encontra uma paisagem inesperada: seus companheiros estão vivos, mas tomados por um estranho torpor, incapazes de lembrar de sua pátria ou de qualquer desejo de partir. Diante dessa ameaça silenciosa, Ulisses age com rapidez, arranca os homens dali contra a vontade deles e abandona uma terra onde o grande perigo é o esquecimento.
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Professor Moreno
Felipe Speck
- O Endemoniado GadarenoA viagem de Ulisses e seus homens após a Guerra de Troia · A tempestade enviada por Zeus · A chegada à terra desconhecida · A exploração da região e o desaparecimento dos enviados · A descoberta dos homens em torpor pela fruta do lótus · O perigo do esquecimento e a perda da identidade · Ulisses forçando seus homens a deixarem a terra dos lotófagos · A comparação dos lotófagos com outros perigos da Odisseia
- A Odisseia como obra literária e o papel de ZeusZeus como roteirista da Guerra de Troia e da Odisseia · O pedido de Gaia para afrouxar a população · A navegação na Grécia Antiga sem mapas ou GPS · A importância da Xenia (hospitalidade) na Grécia Antiga · Exemplos de Xenia na Ilíada e na Odisseia · A fruta do lótus e seus efeitos narcóticos
- Sorteio de livro para apoiadoresCurso Mitologia na Arte · Discussão sobre a localização dos lotófagos · Releituras artísticas da história dos lotófagos · Tradução do poema 'The Lotus Eaters' de Alfred Tennyson
Olá, amigo. Seja bem-vindo. Eu sou o professor Moreno e você está ouvindo o Noites Gregas, este podcast dedicado aos mitos e às narrativas que herdamos do mundo antigo. Olá, ouvintes. O meu nome é Felipe Speck e este é o episódio 97 do Noites Gregas.
Nós estamos na Odisseia, no episódio passado nós falamos sobre o encontro com os sícones, e depois de escapar, Ulisses e seus companheiros cruzam o Cabo Maléa, ao sul do Peloponeso, e a partir daí deixam o mundo conhecido e racional para trás.
O que vem agora são histórias fantásticas, e a primeira delas é a passagem pela terra dos lotófagos, o tema do episódio de hoje. Vai parecer um desafio menor, porque não tem nenhum monstro, nenhuma batalha, mas o perigo que Ulisses encontra aqui é silencioso e pode ser o mais difícil de todos, como vocês vão ouvir.
Lembrando que essa e todas as histórias da Odisseia, a Odisseia completa, está lá no curso Mitologia na Arte, um conteúdo exclusivo para os nossos apoiadores. Basta acessar noitesgregas.com.br e fazer o seu apoio. Lembre que o seu apoio é o que ajuda a manter esse projeto no ar. O link está na descrição do episódio. Eu volto lá no final para falar do material exclusivo e o Professor Moreno começa logo depois da publicidade do Spotify. Um bom episódio, pessoal!
E agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize agonize
Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia. Tchau.
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Ulisses e seus homens tinham ficado eufóricos quando avistaram Cabo Maléa, porque era um ponto de referência sempre para quem se aproximava da Grécia. Estavam quase em casa. Alegria era geral, como podemos imaginar. Ítaca ficava ao norte mais ou menos uma semana de viagem, se tanto, o que para eles não era muita coisa. Uma semaninha e todos iam poder abraçar suas famílias que eles não vinham há dez anos.
e aproveitar com eles o que eles tinham trazido de riqueza da guerra de Troia. Mas o destino não quis que isso acontecesse. Zeus tinha escurecido os céus, ele é o deus meteorológico, não vão esquecer, e por nove dias lançou sobre eles uma tempestade furiosa, com ventos terríveis tão fortes que ameaçavam romper as velas.
Com as velas recolhidas, sem poder remar, eles foram arrastados às cegas, contra a vontade deles, em direção ao sul, onde nós sabemos hoje que está a África. 300 quilômetros fora da sua rota.
Alguns dizem que Zeus usou a tempestade para castigar Ulisses e a sua turma. Porque eles teriam saído de Troia, além de cometerem alguns atos bárbaros, como a morte do Astíanax, eles não fizeram os ritos de costume para pedir a boa sorte na viagem. E Zeus, então, Severo, resolveu castigá-los. Pode ser.
Mas aqui em Noites Gregas nós temos um outro palpite, que também pode ser. Zeus sempre foi apresentado aqui como o senhor do Olimpo, mas também como um grande roteirista. Ele é o autor da Guerra de Troia. Ele poderia ter ganhado muitos Oscars pelo roteiro da Guerra de Troia. Ele é que planejou tudo, como sempre dissemos aqui. O pomo da discórdia.
que causou a briga entre as deusas, que apontou para o Páris, lá na distante Troia, onde ele ganhou de Afrodite a mão de Helena, que era a rainha de Esparta. Todos esses detalhes parecem ter sido planejados, não podem ser fortuitos. E era Zeus que estava atendendo a um pedido da Mãe Terra.
Embora o Olimpo não dependesse mais das antigas divindades, havia uma relação de respeito sempre. E a Mãe Terra, Gaia, teria pedido a ele que afrouxasse um pouco.
A população estava muito pesada para ela sustentar tanta gente. A queixa dela hoje pareceria normal, mas naquele tempo parece estranho, embora a Grécia seja uma terra não muito fértil e muitas vezes saíram gregos de lá para tentar a sorte em outros lugares do mundo, criando as famosas colônias na Itália, na Sicília, no Mar Negro, etc. Pois Deus, esse mesmo roteirista, tão brilhante, cheio de Oscars.
mandou a tempestade para deliberadamente atrasar ao máximo o retorno de Ulisses, criando todos os obstáculos em sua viagem para que um dia ou uma hora pudesse escrever a Odissé, para a nossa alegria hoje.
Nove dias, os navios andaram ao léu sem rumo. No décimo, por fim, o tempo abriu e eles avistaram uma costa baixa, arenosa, uma praia, onde poderiam facilmente arrastar os navios, como nós já vimos que era o hábito. Ali, para a sorte deles, bem perto da praia, tinha uma fonte cristalina, o que era outro grande problema, como nós vimos na navegação, onde eles puderam se reabastecer de água fresca.
Depois, como ao longo da praia do lado havia um matagal cerrado, eles foram catar galhos, madeira, lenha, para fazer fogueiras, porque eles não comiam comida quente há mais de nove dias. Observando seus homens, uns descansavam e outros ruidosos, preparavam a comida para todo mundo, e alguns já bebiam o vinho que tinham roubado lá dos sícones.
Ele que, sempre prudente, sempre pensando no bem dos seus camaradas, ele, de costas para o mar, olhando para aquela linha de mata que os cercava praticamente, fazia para si mesmo as perguntas obrigatórias para aquela época, para qualquer viajante que chegasse a um lugar desconhecido. Onde é que ele estava?
Depois de nove dias que eles foram arrastados pelo vento, ele não tinha a menor ideia. Não sabia que lugar, que continente, que parte do mundo eles estavam. Há um parênteses aqui importantíssimo. Não havia mapas de navegação, não havia bússola, muito menos GPS.
Os pilotos experientes, esses guardavam anotações na memória e iam reconhecendo, pouco a pouco, à medida que navegavam, os vários acidentes geográficos.
Então eles sabiam que aqui tinha um cabo, que um dia depois eles encontrariam uma baía, e essa baía não era boa de deixar o navio parado, mas logo além, passando um rochê dos gêmeos, assim era feita a navegação. A navegação era feita no olho, olhando e com a memória, quanto mais experiente fosse o piloto, ele ia seguindo o seu rumo. Agora, no momento em que os navios de Ulisses derivaram em direção que eles não conheciam, direção sul.
E chegaram a se deslocar 300 quilômetros, ele não tinha a menor ideia. Não tinha nem ideia, talvez que existisse a África. O mundo não era conhecido. Na verdade, ele se encontrava, como se diz hoje, fora do mapa. Estava simplesmente num ponto distante, desconhecido, no meio do mar. Que terra seria aquela? Quem vivia ali? A sorte seria se fossem amigáveis.
Ele já tinha experiência outrora de ter encontrado povos hostis. Bom, os próprios sícones, embora os sícones fossem inimigos mesmo, até na Guerra de Tróia. Mas e esse povo que mora aqui? Esse povo desconhecido? Lá no meio do mato se via ao longe um pequeno fio de fumaça. Portanto, havendo fogo, havia mortais. Quem era?
Ele não podia perder, como no caso dos sícones, tantos homens assim. Lá morreram 70. 70 amigos ficaram lá. E aqui? Quem sabe não valia a pena correr o risco. Apenas terminar essa refeição, descansarem um pouco e voltarem para o mar enquanto era tempo. Bem, só havia uma maneira de saber isso. Ele esperou que terminassem de comer.
e mandou que se preparasse uma pequena comitiva. Um arauto, que usava o seu bastão de arauto e as insígnias na Grécia. Você sabia quando vinha alguém parlamentar? Um arauto acompanhado por dois companheiros. Mas, por prudência, Ulisses mandou-os irem desarmados.
para mostrar que era apenas uma comitiva diplomática. Eles deveriam encontrar quem eram os habitantes da região e se eu encontrasse alguém de posto mais alto, um chefe, pedir a eles licença para eles ficarem ali algum tempo se recuperando das forças. Então, duas horas depois que o Sol nasceu,
o trio partiu, caminhando pela praia, para procurar um lugar onde eles pudessem atravessar essa mata, que certamente era apenas uma faixa, e chegar a esse lugar de onde brotava aquele fio de fumaça que eles tinham avistado. Enquanto isso, o Ulisses mandou redobrar a vigilância dos navios. Ele não podia prever qual seria a reação do povo que aqui morava quando soubesse que havia navios ali no seco sobre a praia.
O dia passou, o sol se pôs e sem notícias deles, nada. Na manhã seguinte, já que nada se podia fazer à noite, Ulisses se armou, ele próprio, com um grupo pequeno de soldados, porque ele escolheu entre aqueles que ele conhecia, que eram mais cascudos, que tinham lutado com ele toda a guerra de Troia.
saiu no rumo das pegadas que eles tinham deixado na areia e que ainda se podiam avistar perfeitamente. Ele estava muito preocupado. Ele tinha mandado os três sem armas e agora não sabia o que podia ter acontecido. Eles não teriam como se defender se tivessem sido atacados. E ele sempre tomava como responsabilidade sua a sorte dos seus homens. Ele ia ver o que aconteceu.
Outro parêntese, mais do que necessário. Na Odisseia nunca ficou tão clara a ideia da Xenia. Xenia, em grego eles dizem Xe, Xenia, vem de Xenos, Xenos, estrangeiro, estranho. Era uma instituição muito respeitada e muito útil na Grécia Antiga. Era uma obrigação de lealdade.
do hospedeiro para com seu hóspede e do hóspede para com seu hospedeiro. No momento em que alguém pedia hospitalidade, criava-se entre eles um vínculo protegido pelos deuses. Inclusive, é tão importante esse vínculo que o responsável para fiscalizar o cumprimento desse costume era Zeus, o próprio Zeus.
Zeus era, além de todas as funções que ele tinha, era também o deus da hospitalidade. Isso é muito importante num povo que vivia viajando e trocando de lugar e indo de uma cidade para outra, de um reino para o outro, para ter a garantia de que não seriam trucidados traiçoeiramente. Em Homero, vocês já viram a Ilíada e na Odisseia estão vendo agora também, é muito comum...
o anfitrião, o dono da casa, receber um estrangeiro, um estranho, mandar banhá-lo, isso a gente acha estranho, mas vocês vão ver várias vezes acontecer ainda na Odisseia, dar roupas novas para ele se vestir, alimentá-lo, dar um banquete, uma festa, recebê-lo, comer, portanto, compartilhar o sal e depois, na sobremesa, com muito tato, perguntar quem era ele, qual era o nome, de onde ele vinha.
O que para nós é muito estranho, mas vocês vão ver isso acontecer, no caso da Odisseia, na Ilha dos Feácios, quando então Ulisses vai ser recebido pelo rei Alcino e para ele vai contar a história que nós estamos contando. Há bons hospedeiros que observam as regras da Xenia e os maus que não dão a menor bola para ela.
Com os hóspedes acontece o mesmo. Há os hóspedes que se comportam adequadamente e há os hóspedes que terminam traindo a hospitalidade que receberam. Na Guerra de Troia é um exemplo. A Guerra de Troia foi deflagrada por causa daquele comportamento do Paris. O Paris vai à Esparta, é recebido com todas as honras por Menelau e Helena.
rei e a rainha. E quando Menelau se afasta porque ele tem que viajar para atender a uma cerimônia fúnebre da família, Paris rouba ou sequestra, nós vamos ver depois com mais detalhe, como eu prometi, Helena e ainda junto levam a parte do tesouro de Esparta.
Paris é um criminoso dentro da ótica da xenia. Ele vai ter o castigo, aliás, que merece. E quando ele enfrenta a Menelau no mano a mano, vocês viram isso no podcast, ele tem uma desvantagem já de saída. A desvantagem moral, porque ele sabe que fez uma coisa errada, está enfrentando o seu hospedeiro que ele traiu. Portanto, ele já está com aquela indecisão do culpado.
Por outro lado, no final da Ilíada, tem aquele belíssimo exemplo quando Aquiles, na sua tenda, recebe primo, o rei de Troia, o seu arqui-inimigo, o seu inimigo figadal, e o recebe com todo o carinho, com todo o respeito que a Xenia manda. Fecha o parêntese. Então, ao longo da Odisseia, nós vamos ver que Ulisses...
Vai aprendendo desde o início. E onde quer que ele chegue, a coisa mais importante é saber que tipo de tratamento ele vai receber do seu anfitrião. Se é amigo ou inimigo. Como dizem as crianças quando veem desenho animado, se é bom ou se é mal. É exatamente isso que agora está preocupando Ulisses. Por isso que eles saíam nessa pequena expedição armada e com soldados expedientes. Não precisaram andar muito.
numa clareira que se abria na mata, rodeada de palmeiras e arbustos baixos, a poucos metros do mar, eles avistaram já de longe o corpo dos três, estirados na vegetação rasteira. Ulisses desembanhou a espada e se aproximou com cautela. De longe não se via sinal de sangue, e na posição deles não tinha nada que parecesse uma morte violenta, nos braços, na cabeça.
Avançando um pouco mais, Ulisses então pôde enxergar por entre a folhagem outros corpos espalhados na clareira, como se fosse uma carnificina. Mas logo ficou claro que eram corpos, mas não eram cadáveres. Pois um deles estava abanando com a mão tentando afastar um inseto que devia ser imaginário. E outro, ao ouvir o rangido das sandálias de Ulisses na areia,
Levantou a cabeça por alguns segundos, olhou para Ulisses com o olhar parado, emitiu um som parecido com um bá véi, esboçou um sorriso amistoso e voltou a dormir. Não estavam mortos, não. Essa era a famosa terra dos lotófagos.
Em linguagem de gente se pode dizer a terra dos comedores de lotos, já que antropófago é quem come seres humanos. Os lotófagos comiam lotos.
Não aquela delicada flor, a flor de lótus, que aparece no misticismo oriental, no Egito. Não, não a flor de lótus. Mas é uma frutinha do norte da África. Parece uma pequena tâmara, tamanho de uma azeitona. Muito doce, doce como mel, diziam os registros. E que os nossos dicionários colocam num nome genérico de jujuba. Então ali era a terra da jujuba. Os lotófagos comiam esta planta. E essa planta tinha algo especial.
Evidente que aqui vai uma advertência. Isso tudo é a partir do Cabo Malé, onde entramos no mundo fantástico. Vários tentam identificar qual é essa planta, porque há várias espécies de jujuba, e tentam descobrir quais delas têm um efeito psicodélico. Alguns até tentam, não talvez por amor à ciência, mas interessados na própria, para cultivá-la.
E ela tinha, diz os antigos, diz os antigos, que ela continha uma poderosa substância narcótica. E os textos falavam nessa planta e diziam que os que se alimentam dela deixam de viver como homens normais. Perdem a memória do passado e, se forem estrangeiros, perdem qualquer desejo de retornar à sua pátria.
Por isso, quem estava ali com os três da comitiva eram os habitantes da ilha. A turma. Viviam numa eterna apatia. Eles comiam essas frutinhas o tempo todo e, pior, que não precisavam ser cultivadas. Elas nasciam de plantas nativas. Era só colher. Era o trabalho de levantar a mão e colher, porque eram arbustos que cresciam sem a interferência humana. Não havia nem o trabalho da lavoura.
Aí Ulisses entendeu. Os lotóficos, sim, eles estavam no time dos bons anfitriões.
Eles respeitavam a xenia, ofereceram para os três a comida deles habitual. E os três estavam ali completamente chapados. É por isso que os seus homens não tinham dado satisfação, não tinham nem pensado em voltar ou trazer as notícias que tinham ido buscar. Simplesmente ficaram ali junto com os outros. E ficariam ali misturados com os nativos da ilha.
com as mentes mergulhadas naquela imobilidade letárgica. A reação de Ulisses foi a mais rápida e enérgica possível.
Apesar de chorarem os três, fazer uma choradeira total, ele mandou à força seus companheiros levarem-nos no braço de volta para o navio, eles reclamando o tempo todo que eles não queriam, queriam ficar ali, e amarrou-os debaixo do banco dos remadores, até passar. Quando então acordaram, para surpresas de Ulisses, com um extraordinário apetite tentando devorar tudo que vinha pela frente, se bem me entendem.
Prevendo o contágio, vá que outros malucos provassem a fruta e esquecessem da vida, Ulisses então ordenou que levantasse depressa o acampamento, pusesse os navios de novo na água e aí dele força no remo e sem olhar para trás.
Eles iam encontrar, como nós vamos ver, outras ilhas, outras ameaças. Mas certamente, mais tarde, quando Ulisses finalmente chegou a Ítaca e reconquistou a sua terra, a sua família, o seu nome, ao avaliar essa jornada que ele tinha feito de dez anos, os ingênuos e pacatos lotófagos estariam no pódio entre os três maiores perigos que ele enfrentou. Se não o maior de todos.
Mais do que os gigantes, mais do que o ciclope, mais do que as sereias, o perigo ali era o esquecimento. O desejo de retornar à terra natal e à sua verdadeira identidade é o que fazia Ulisses avançar. Sem isso, a Odisseia terminaria aqui.
Mas não termina. Daqui, chegaremos à terra mais sangrenta da Odisseia, a Ilha dos Ciclópes, que é um verdadeiro espetáculo de terror.
No material exclusivo deste episódio, além das imagens, nós temos três textos. O primeiro traz a discussão sobre onde possivelmente viviam os lotófagos. Nós reunimos algumas versões, dentre elas a de Heródoto, versões que tentaram colocar no mapa o lugar que teria inspirado Homero, mas que talvez nunca tenha existido.
O segundo reúne uma série de releituras feitas por vários artistas e uma dessas releituras, que é o terceiro conteúdo, é uma tradução do poema The Lotus Eaters, do Alfred Tennyson, um poema bastante hipnótico da literatura vitoriana, que foi escrito em 1832. Nesse poema, o Tennyson dá voz aos marinheiros. A gente traduziu parte do poema, colocamos o link lá para o poema completo em inglês e está tudo no material exclusivo.
E mais uma vez, eu lembro que esse podcast só existe e nós só seguimos adiante graças aos nossos apoiadores. Então se você gosta do nosso conteúdo, se quer que a gente siga adiante aqui contando a Odisseia, vai lá em noitesgregas.com.br barra apoiar, escolha a modalidade que preferir e tenha acesso a todo o nosso conteúdo exclusivo. Se preferir fazer um apoio pontual, pode fazer uma doação de qualquer valor na chave pix noitesgregas.gmail.com. Um grande abraço e até o próximo episódio.
E o meu caro é o meu filho de sangue E o meu caro é o meu filho de sangue
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