SÍSIFO: vale a pena ouvir de novo
No segundo episódio da série *Vale a Pena Ouvir de Novo*, revisitamos o mito de Sísifo, o astuto rei de Corinto que, segundo algumas tradições, poderia ser o verdadeiro pai de Ulisses. Excepcionalmente, este episódio conta com uma transcrição, disponível em noitesgregas.com.br – uma recompensa a todos os que apoiaram o podcast Noites Gregas nos últimos meses e ajudaram na migração do site para uma nova plataforma.
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- Sísifo engana a MorteSísifo · Thanatos (Morte) · Hades · Ares · Aprisionamento da Morte · Suspensão da morte
- O suplício de SísifoSísifo · Julgamento no mundo dos mortos · Castigo eterno · Pedra · Trabalho interminável
- Interpretações modernas de SísifoSísifo · Albert Camus · O Mito de Sísifo · Herói do absurdo · Felicidade na luta
- Mito de SisifoSísifo · Rei de Corinto · Pai de Ulisses · Astúcia e inteligência
- Sísifo e o rio AzoposSísifo · Rio Azopos · Zeus · Égina · Fonte de água para Corinto
- Sísifo engana Hades e PerséfoneSísifo · Hades · Perséfone · Caronte · Ritos funerários · Fuga do mundo dos mortos
- Sísifo e o roubo de gadoSísifo · Autólico · Roubo de gado · Marcação de gado
- Sísifo e AnticleiaSísifo · Anticleia · Laertes · Ulisses · Seduzir
- A imortalidade de Sísifo
Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte, o Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão.
Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$ 199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia. Salve, pessoal! O meu nome é Felipe Speck e este é o segundo episódio da nossa série Curtinha. Vale a pena ouvir de novo.
Nós começamos a Odisseia, já lançamos o primeiro episódio, você deve ter ouvido. E, como eu disse, neste momento de transição, a gente vai repostar alguns episódios antigos, aqueles da Hora do Oráculo, que tratam de mitos, personagens importantes e que vale a pena ouvir de novo porque nos preparam para o que vem pela frente.
E uma dessas figuras é o Sísifo, do mito de Sísifo, rei de Corinto, inteligentíssimo e que, muitos especulam, seria o verdadeiro pai do Ulisses. Só que antes de seguir, eu quero também dizer que nós conseguimos fazer a migração da plataforma, nós estamos num site novo, muito mais elegante, mais fácil de acessar e que comporta bem lá as nossas centenas de conteúdos exclusivos.
Apoiadoras e apoiadores, nós agradecemos do fundo do nosso coração. Sem vocês, essa migração não seria possível. Nem com libações ao nosso Deus Hefesto, eu teria conseguido fazer isso. Então, essa série é uma retribuição. Como eu disse, nós disponibilizamos a transcrição do episódio lá no nosso site novo. Então, se você não é nosso apoiador, eu diria que esse é o melhor momento para você se juntar a nós.
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Nós já gravamos o segundo episódio da Odisseia, a gente está finalizando o áudio e o material exclusivo, e ele deve ir para o ar até sexta-feira. Vamos lá então ao que vale a pena ouvir de novo. Sísifo, rei de Corinto, pai de Ulisses? Será? Vamos ouvir de novo o que vale a pena e descobrir de onde vem essa ideia. Eu deixo vocês com o professor Moreno.
Na hora do oráculo de hoje, vamos ver um personagem tão famoso que já entrou inclusive na própria língua portuguesa e nos outros idiomas do ocidente. Trata-se de Sísifo, o famoso personagem do mito de Sísifo, que serve de metáfora para qualquer tarefa que parece impossível de realizar.
O Sísifo era rei de Corinto, aquela cidade famosa por ter hoje o seu canal belíssimo, que liga dois mares ali na Grécia. Em Corinto...
Ele é muito respeitado, é um rei, um governante daqueles que o povo admira. E o próprio Homero, e quando eu digo o próprio Homero, isso significa muita coisa, o próprio Homero, quando fala nele, diz que ele era o mais sábio e prudente dos mortais. Se ele era sábio ou prudente, nós vamos ver, mas que ele era realmente sábio, esperto, astucioso, inteligente, isso com certeza ele é.
A CIDADE NO BRASIL
O primeiro incidente em que ele já revela a sua esperteza é com o gado que ele tinha e o seu vizinho ladrão. Como vários reis que nós já mencionamos aqui e outros que nós vamos mencionar, ele era um trabalhador, ele era uma espécie de criador, ele era um rei agrário. Ele tinha gado, ele pastoreava o seu gado e como Ulisses, nós vamos ver depois, arava a sua terra, não havia aquela distância do trono do trabalho braçal.
E ele tinha um rebanho muito bonito nas suas propriedades ali em Corinto. Só que esse vizinho, chamado Autólico, que se dizia filho descendente do Hermes, nós já vimos como os deuses espalharam filhos pelo mundo, ele era um ladrão típico, habilidosíssimo, e tinha uma compulsão terrível de roubar o gado dos outros.
Segundo a ideia mitológica, herança genética do Hermes, que, como nós vimos, começa a sua vida roubando o gado de Apolo, seu irmão. Está lá no episódio que apresenta o nascimento do Hermes. Pior, o autólico, além de ser astucioso, tinha um poder que o seu pai teria dado a ele.
ele tinha o poder de metamorfosear, de trocar a aparência de qualquer res, de qualquer animal. Então, se o animal não tinha chifre, ele fazia ter chifre. Se o animal tinha pelagem vermelha, ele fazia pelagem preta e branca. Se o animal tinha uma marca, daquelas marcas que se põe no gado, ele trocava a marca.
ele descaracterizava o que ele tinha roubado. Então tudo levava a crer, e os vizinhos tinham certeza que era ele, o gatuno. Só que quando chegavam lá, era impossível provar, porque a descrição que eles faziam do seu animal não combinava com o animal que estava lá. O Sísifo, então, fica arquitetando, direi minha avó, fica matutando um plano de surpreender esse hábil ladrão.
Ele escreve, grava, talvez com um prego incandescente, ele grava no casco embaixo das suas redes. Uns dizem o monograma dele, seria a rubrica. Outros dizem que não, que ele foi mais longe. Ele colocou ali, autólico me roubou, ou fui roubada por autólico. De modo que o animal, ao caminhar na areia solta, deixaria na sua pegada o texto condenatório do autólico.
Uma noite, o autólico não resiste muito tempo, ele está sempre de olho no rebanho do sísifo. Uma noite, o autólico faz uma das suas incursões e, no outro dia, o sísifo sai no rastro. E o rastro, como sempre antes, levava para as terras de autólico. Só que agora está ali a marca de que o gado é dele. Está ali o monograma ou a frase impressa a cada passada da vaca ou do boi.
Então ele, agora com provas, ele vai até a casa de autólico e o confronta. Mas antes ele passa pelos vizinhos, que estavam todos na mesma situação, ele põe no grupo do Watts, dos vizinhos, olha, é o autólico, eu tenho provas. E todos vêm, evidentemente, com uma sanha, com uma fúria, talvez com paus e pedras na mão, para finalmente acertar a vida do ladrão que os está roubando há muito tempo.
Cria-se aquela gritaria, talvez pareça aquelas cenas da aldeia em pé de guerra contra o vampiro, por exemplo, todos com tochas, com garfos de fazendeiros. E o Sísifo considera que aquilo aí está mais ou menos definido e se esgueira e entra na casa do autólico. Entra na casa do autólico, talvez, em busca de alguma coisa de valor que ele possa pegar para compensar o que já foi embora do rebanho dele. Nessa altura já foi vendido ou, quiçá, até comido.
E ele entra na casa e lá está a filha do autólio, a bela Anticleia, que estava noiva, prestes a casar. Mas o Sísivo, que também era um homem de palavras doces e uma habilidade de argumentação, ele consegue, com paciência e charme, seduzi-la. E dizem, dizem, porque o marido dela que seria, em breve, que estavam prestes a casar, seria o Laertes.
que é o pai de Ulisses. Então sempre a Paira, quando se vê a Odisseia, essa dúvida, se ele seria filho do Laertes ou filho do próprio Císifo, o que explicaria o fato de Ulisses ser o mais esperto de todos os guerreiros que foram à Troia. Então essa dúvida é uma dúvida que liga.
Dois personagens que se caracterizaram exatamente pela astúcia. Pode ser que sim, assíduo posterior, para fazer mais um elo lógico entre duas histórias. Mas, de qualquer maneira, o Sísifo deixa sua marca ali na anticléia.
Como governante de Corinto, Sísifo enfrentava um problema que muitos prefeitos enfrentam até hoje. Corinto não tinha água suficiente. Aliás, a Grécia toda não tem água suficiente, porque é um território extremamente pedregoso, depende de fontes que sejam perenes. Então, Corinto sofria com seca e ele não sabe como solucionar esse problema.
Aconteceu, então, o destino quis, que aparecesse em Corinto um rio.
Um rio, não um rio com as águas fluindo, o deus do rio. Toda a Grécia tinha rios e cada rio era propriedade de um deus. Então os rios têm personalidade, têm nome, têm CPF. Então aparece lá o rio Azopos. Vim falar com o Cícero por uma razão muito simples. Ele tem dois filhos e mais umas dez filhas, mas a filha mais jovem, a Eugina, preferida dele, sumiu.
Alguém a raptou. O rapto aqui é sempre o rapto amoroso, roubar a moça. E como o Sísifo tinha uma fama de ser matreiro e astucioso, ele achou que, como tinham dito que ela tinha desaparecido na região de Corinto, que o Sísifo talvez a tivesse levado.
E o sísvio diz, não, absolutamente não, mas eu sei onde ela está. E o rio, que está furioso, quer que ele diga e diz, não, eu digo, eu sei onde ela está e com quem ela está, mas eu quero uma fonte copiosa, uma fonte caudalosa, com bastante água, perene, que não seque nunca para Corinto.
Então eles fazem um negócio, fazem um trato. E evidentemente o rio promete, ele vai dar essa fonte, e o Sísifo indica um ponto lá, mais ou menos, de um bosque, de uma floresta, onde ela estaria com Zeus. Evidentemente, Zeus, o grande conquistador, o grande sedutor. O rio sai furioso, mas silencioso, porque ele corre como se fosse água. E quando chega onde está o Zeus lá com a moça, estão os dois alegremente...
conversando, se bem me entendem.
Ele apanha o Zeus de surpresa e numa situação completamente vulnerável. O Zeus não está com seus raios, não está com nada que ele tenha para se defender, sabe lá se tem algo para se vestir. E ele sai correndo, mata fora e o rio atrás. É uma situação extremamente humilhante que o Zeus não vai perdoar. Ele sai correndo e vai ser alcançado até que ele se transforma numa pedra, num rochedo. E o rio passa e não se dá conta que passou pelo Zeus.
Bom, aí o Zeus sobe ao Olimpo, põe o seu fardamento, pega o seu armamento e a primeira coisa que ele faz é acertar contas com o rio. Lança uma saraivada de raios, a água do rio ferve, o rio foge apavorado, que é Zeus, não? Tanto que diziam depois que muitos séculos depois, de vez em quando, apareciam nas margens pedaços de madeira carbonizada, que eram sinais das árvores que foram queimadas com os raios de Zeus.
Bom, acertar as contas com o Azopus, na verdade não foi acertar as contas, ele só botou distância, né? Fica na tua.
Chegou a vez do Sísifo. Agora vamos pegar quem me delatou. Até porque Zeus estava na intimidade com a Égina e essa intimidade foi revelada por um mortal. E os mortais não podem revelar os segredos divinos. Esse era outro regulamento muito interessante. Os mortais, mesmo que soubessem, não podiam revelar.
qualquer peculiaridade divina. Por isso também, quando a Atena foi surpreendida nua, tomando banho, uma das versões do Tiresias, ela cega o Tiresias. Ele não poderia ter visto ela sem roupa.
porque era um segredo, era uma coisa vedada aos mortais. Então ele vai atrás do Sísifo, vai atrás do Sísifo, e evidentemente, como Zeus é o rei, ele chama o seu ministro da morte, que é o Hades do mundo dos mortos, e diz, olha, leva o Sísifo, ele tem que ser punido.
porque ele rompeu o segredo divino. O Hades, que também é outra autoridade, não vai pessoalmente. Ele manda Thanatos, a morte, que raramente aparece. Não é um personagem que apareça. É evidente que qualquer dia, se é que você não fizer, vai ter filme com o Thanatos sendo o personagem principal vilão da história Marvel. Mas o Thanatos é apenas um funcionário calado e silencioso. Então o Thanatos vai lá buscar o Sisyphus e levar para o mundo dos mortos.
Mas o síndico, que previa, de certa maneira, a reação, que alguma coisa ia acontecer, porque ele tinha deixado os veus numa situação ruim, como se dizia antigamente, em maus lençóis, embora não houvesse lençóis na história, o síndico já estava mais ou menos preparado. Então, quando chega a morte...
que era apresentado nas poucas vezes como calado, tosco, só cumpre ordens, o Císifo diz, olha, olha o que eu inventei, porque ele é um inventor, como o Dédalo do Minotauro é um inventor. Olha o que eu inventei e mostra um par de algemas que ele tinha criado, não era conhecido até então. E a morte não sabe para quem é, disse, são braceletes, eu vou te botar aqui para tu ver eles. E põe nos dois pulsos da morte e ela fica algemada.
Fica algemada e o sísifo, então, empurra para dentro de um depósito que ele tem e deixa a morte trancada lá. É uma cena muito comum na mitologia de outros povos, a morte ser aprisionada numa garrafa. Ela foi enganada, a morte foi enganada. Isso, aliás, é um símbolo do sísifo. É um homem que tenta enganar a morte. Fica trancada lá com as consequências curiosíssimas. Durante dias ninguém morre.
Então tem soldados decapitados, andando às tontas porque não morreram. Só estão sem a cabeça, mero detalhe. O Ares, que é o deus da guerra, fica furioso. Olha essa bagunça, como é que isso pode acontecer? Não está ninguém morrendo. O Hades, que é o gerente do mundo dos mortos, vê os negócios descerem vertiginosamente. Houve uma mudança na ordem natural das coisas. Então, diante disso, o Hades...
ele próprio deixa a sua cadeira de diretor e vai lá pessoalmente. Vai lá pessoalmente tomar satisfações e saber o que aconteceu com a morte. E aí o Sísifo, que já estava prevendo, que ele sabia que não ia poder ficar com a morte trancada no armário, batendo na porta, ele prepara uma armadilha, ele pede a cumplicidade da mulher, que gosta muito dele, e diz, olha...
tu vai jogar meu corpo na praça pública, não sepulta, porque a ideia é curiosa, a morte vai levar a alma dele, mas o corpo não vai levar. Joga na praça pública, joga lá pros cachorros e não põe aquela moedinha que se põe sempre na boca, que é a moedinha que paga a passagem do Rio dos Mortos. O vale-transporte da época, pra atravessar a barca de Caronte, tinha que ter a moedinha. Faz isso que tu me ajuda muito. Bom, quando ele chega no mundo dos mortos, pra começar, o Caronte não quer atravessar, porque ele não tem dinheiro.
ali a coisa é dura ele não tem dinheiro e o cérebro não quer deixar ele entrar porque sentiu que tem uma coisa irregular uma confusão na portaria digamos assim e chega aos ouvidos da Perséfone que é a rainha do mundo dos mortos a mulher do Hades e ele vai falar com a Perséfone ele diz, olha, não é culpa minha para começar eu não tinha nem direito de estar aqui estou me sentindo mal estou me sentindo fora do lugar, desculpe minha mulher não cumpriu os ritos ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela ela vai falar com ela
Ela não gosta de mim, ela é uma mulher que me despreza e me deixou nessa situação. Agora eu vou lá, se vocês deixarem, eu vou lá e vou remediar isso. E até bom, porque senão, ele com aquela fala mansa assim, outras mulheres que não gostam dos seus maridos vão começar a fazer isso. Isso não é bom para o sistema.
Bom, o Hades, então, como eu disse, é o manager, é o administrador, ele disse, não, é o seu resort, talvez um dos maiores resorts do mundo, que é o mundo dos mortos, vai sofrer com isso. Então, dá um dia, um dia para ir lá e voltar com tudo resolvido.
Bom, acontece que o Císio sabe que a noção de tempo dos deuses é completamente diferente.
da noção de tempo dos humanos. Os deuses que rompiam um juramento feito por Stigia, aquele rio, Stigia, como eu chamava, ficava um ano longe das festas do Olimpo, mas de castigo. Mas era um longo ano, como eles diziam, que valia a não ser quantos anos aqui na Terra. Então ele sabia que um dia para um deus eram muitos anos para ele. E contou com aquela ideia, vamos esquecer. Então ele voltou.
Nunca ele sentiu a grama tão verde, o sol tão agradável, o mar tão azul, o ar tão gostoso. Mas é uma maravilha a vida. O fato dele saber que ele tinha escapado à morte torna, evidentemente, o seu olhar totalmente diferente. Ele passa a valorizar a mínima formiga caminhando à sua frente. Então ele fica enquanto pode. Claro que ele sabe que um dia, um dia, vão se lembrar dele.
E realmente, quando fazem lá, talvez, uma conferência dos futuros hóspedes do mundo, tem uma reserva que não foi preenchida, o Sísifo. Então, dessa vez, quem vem buscá-lo é Hermes. Aqui nós já vimos que tem uma função específica de transportar as almas para o mundo dos mortos.
E ele então vem e dessa vez não tem escapatória. Ele vai ser levado a julgamento naquele famoso tribunal que nós falamos naquela hora do oráculo especial sobre o mundo dos mortos. Tem um tribunal de três juízes que decidem a sorte de alguns dos mortos, os mais problemáticos.
E esse tribunal, então, o condena por ele ter desrespeitado os deuses, menosprezado as ordens, rompido a ordem universal, quer dizer, bastante coisa ele fez, o condenam ao famoso suplício da pedra. O sísifo vai ter que eternamente erguer uma pedra pela encosta de uma colina.
Mas a pedra e a encosta são calculados de tal maneira que quando ele chega bem próximo, ele teria que chegar lá em cima e fazê-la rolar para o outro lado. Quando ele chega bem próximo do cume, às vezes a centímetros, as forças dele cedem e a pedra rola de volta.
Isso aparece bem claro em Homero. Homero tem uma passagem importantíssima na Odisseia em que Ulisses vai ao mundo dos mortos. Ele é um dos visitantes que a mitologia colocou ao mundo dos mortos. Nós já vimos o Teseu, que foi ao mundo dos mortos. Ulisses vai ao mundo dos mortos, onde ele encontra a mãe, que ele não sabia que tinha morrido e tudo mais. E diz Homero na Odisseia, isso é no canto 11. É o Ulisses que fala, porque é contado na primeira pessoa essa parte.
Também vi Sísifo, presa de seus tormentos. Ele erguia uma pedra gigantesca com os dois braços. Apoiado com pés e mãos, ele empurrava esse grande rochedo para a altura do cume. Mas quando ia derrubá-lo do outro lado, não suportava mais o seu peso e o rochedo cruel rolava de novo para a planície.
Mas Sísvio recomeçava, tensionando os músculos. O sor corria pelo corpo, envolto numa nuvem de pó. Então, esse seria o trabalho de Sísvio. Aqui é um detalhe. Os deuses gregos, entre as várias qualidades que eles têm, eles têm uma qualidade que poucas mitologias têm nas suas divindades. Eles são extremamente engraçados, eles têm bom humor.
Eles pregam peças também e riem quando percebem que caíram em alguma esparrela bem feita. A expressão riso olímpico é porque o olímpico era o mundo do riso. Então dizem que é, exatamente dentro desse fino humor, dessa fina ironia, essa pedra seria exatamente do mesmo tamanho, do mesmo peso da pedra aquela em que o Zeus teve que se transformar para fugir do rio quando o rio estava atrás dele.
Então, foi uma devolução, quase que dá para imaginar Zeus dizendo Toma, Sísifo, não te mete comigo.
Bom, por que esse castigo? Os gregos castigaram poucos personagens no mundo dos mortos. Quem lê o Dante e a Divina Comédia, o inferno está cheio. Tem uma lista telefônica quase lá dentro, que ele analisa, mostra e diz qual é o castigo, etc. Não, no caso dos gregos, pouquíssimos ficaram famosos. Um deles é o Sísif, evidentemente, e depois o Tântalo, que nós vamos ver depois, e as Danaides são pouquíssimos.
E o castigo deles, os gregos imaginaram, não era o fogo eterno. Até ia ser difícil manter um fogo eterno. Não seria ecológico, não seria sustentável. Então, eles inventaram ou sentiram que o inferno é fazer uma atividade inútil, sem fim. Então, todos os castigados são castigados com algo repetitivo.
O ócanos, que é pouco conhecido, mas ele é significativo, ele é um fabricante de uma corda, ele tece uma corda. Tem lá um junco, uma fibra vegetal, e ele vai tecendo uma corda, só que na outra ponta tem um animal, geralmente é um asno, um burro, comendo alegremente a ponta. Então ele vai tecer eternamente, enquanto o burro vai se alimentar eternamente.
As Danaides, que é uma história que nós vamos ver que é bem séria, elas que mataram os maridos na noite do casamento, as Danaides têm que encher um tonel usando vasos, jarros com furos.
E o tonel também é furado, então elas mal conseguem colocar um pouco de água no jarro, vão até o tonel e colocam e o tonel infinitamente se esvazia. Então, no caso do Sísifo, inventaram essa ideia da pedra, criou-se então a expressão trabalho de Sísifo. Vejo que ninguém diz trabalho de Danaides, nem trabalho de Óknos, mas trabalho de Sísifo significa uma metáfora para uma tarefa interminável.
Portanto, estamos vendo que na interpretação tradicional, e aqui nós sempre estamos trabalhando com interpretações, porque essa ideia realmente que o mito dá, ele é um modelo que a gente vai enchendo com conteúdos diferentes ao longo dos séculos. Então, nas interpretações tradicionais, o Císio é um personagem triste, torturado, é um prisioneiro, é um castigado, é um castigo terrível.
No século XX, portanto, no século passado, Camus, grande escritor francês, escolheu Sisyphus para mudar, vê-lo de outra maneira. Vai transformá-lo no herói do mundo moderno, o herói do mundo do absurdo.
Isso através de um texto que é famosíssimo, que chama O Mito de Sísifo. Então ele imagina, e a gente pode imaginar junto com ele, o Sísifo rolando a pedra colina acima. Ele vai rolando aquela pedra com aquele esforço que o Homero descreve, terrível, os músculos retezados, as mãos crispadas, os pés segurando o peso no chão com os calcanhares. Quando ele chega quase lá em cima, ele fraqueja e a pedra rola.
Aí diz o Camus, Siso fica lá de cima, olhando a pedra rolar. Ele colocou a perspectiva da visão do Siso. A pedra rola alguns segundos e chega de novo lá no chão, de onde ela deverá voltar de novo. Ele está vendo isso. Então ele também desce, desce, voltando lá para a Anissa e para a pedra que está esperando por ele. Aí diz o Camus, é nesse retorno, nessa volta, nessa pausa.
em que ele está descendo, que sísamo me interessa. Ele vem descendo com seus passos ritmados, pesados, e é a hora que ele tem, ou deveria ter, consciência. Ele se dá conta do que ele está fazendo.
Ele não está só levando lá para cima e voltando para levar de novo. Ele, ao descer, se deu conta do que ele está fazendo. E nesse momento que ele se dá conta, que ele pode se dar conta, que sua felicidade está em cumprir aquela tarefa. Não no significado da tarefa. A tarefa não tem significado nenhum.
É apenas rolar uma pedra lá para cima e vê-la descer de novo e voltar a rolar. Ela é inútil dentro de termos práticos. Mas é essa luta de tentar a cada momento fazer a pedra chegar lá em cima, alta o suficiente, que não vai acontecer nunca, e isso já basta para a vida dele. Se ele aceitar isso, muda tudo. Deixa de ser castigo.
Já que se essa é a vida, diz o Camus, e nós não podemos mudar a vida, se a vida é absurda e o destino nos pega peças, assim será. Em outras palavras, a felicidade nasce no momento em que o sísifo toma consciência. O sísifo, entenda-se, nós. Que apesar do absurdo do destino da vida, a vida vale a pena ser vivida, mas é assim. Aí a famosa frase do Camus, você tem que imaginar sísifo feliz.
Essa é uma das maneiras modernas, isso vem do existencialismo, daquele momento lá da França, mas uma das maneiras modernas de encarar a vida que os antigos não tinham. Tinha de certa maneira, mas isso aqui é uma das grandes contribuições de Camus para a nossa filosofia de vida, que no fundo a filosofia deveria nos ensinar a viver e nos ensinar a morrer. Então, se nós nos dermos conta que é assim e assim é, a vida é maravilhosa. A vida é maravilhosa.
E para terminar, uma ironia final. Sísifo queria escapar da morte. Os deuses se opuseram porque a ordem se opunha a isso. Fizeram tudo para evitar. Pois depois de toda essa luta, hoje Sísifo é imortal. Estamos falando nele e vamos falar daqui nos próximos 400 anos. Nunca será esquecido. Ele terminou conseguindo o que queria.
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