Episódios de Ayurveda na Prática - GisiPaz.

#1302 - 👩🏻‍🎨🎨 A ARTE DA COCRIAÇÃO 🧞🪄

09 de agosto de 202610min
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"O que depende de você e o que não depende."

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Participantes neste episódio1
G

Gisi Paz

HostAyurveda
Assuntos3
  • O que depende de mim· SociedadeControle de resultados e futuro·Previsibilidade cerebral·Autoridade sobre ações·Qualidade das ações presentes·Escolha de como responder às emoções
  • Aceitação do que não se pode controlar· SociedadeAceitação da realidade·Influência vs. domínio·Humildade diante da incerteza·Responsabilidade vs. culpa
  • Cocriação e responsabilidade· SociedadeAssumir responsabilidade pelas próprias ações·Equilíbrio entre escolhas e o universo
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bom dia, tudo bem? Vamos fazer uma pergunta agora. Diz assim: o que depende de mim? Se existe uma pergunta capaz de transformar a maneira como a gente enxerga a vida Talvez seja essa, né? O que realmente depende de mim? Pode parecer uma pergunta simples, mas ela é tão profunda que atravessou milênios de filosofia, espiritualidade e ciência. Talvez porque boa parte do sofrimento humano nasça exatamente da dificuldade em responder a essa questão.

Passamos grande parte da vida tentando controlar pessoas, controlar resultados, o futuro, o comportamento de quem amamos, o tempo, o envelhecimento, o reconhecimento, controlar as circunstâncias. E curiosamente, quanto mais a gente tenta controlar aquilo que nunca esteve em nossas mãos, maior costuma ser a nossa ansiedade. Na série A Casa Mental, a gente conversou diversas vezes sobre um mecanismo muito importante da mente: ela busca previsibilidade.

O cérebro humano gosta de antecipar acontecimentos. Ele cria hipótese o tempo inteiro, tenta imaginar o que acontece daqui a pouco, daqui uma semana, alguns anos. Isso não é um defeito, é uma característica natural do nosso sistema nervoso. Hoje a gente sabe, por meio da neurociência, que o cérebro funciona como um grande sistema de previsão. Antes mesmo de percebermos conscientemente uma situação, Ele já tá comparando o presente com experiências passadas, tentando reduzir incertezas e preparar respostas.

Esse mecanismo foi fundamental para nossa sobrevivência como espécie, mas existe um problema: o cérebro gosta tanto de prever que muitas vezes acredita que também pode controlar, e previsão não é controle. Essa confusão gera sofrimento. É justamente aqui que a gente se encontra com um dos ensinamentos mais belos do livro Bhagavad Gita. Quando Arjuna tá diante de uma situação extremamente difícil, Krishna não promete que tudo dará certo, também não diz que basta acreditar.

Ele oferece algo muito mais profundo. Ele ensina que o ser humano possui autoridade sobre as suas ações, mas não sobre os frutos dessas ações. Essa talvez seja uma das ideias mais revolucionárias da espiritualidade, porque ela muda completamente o foco da nossa energia. Em vez de desperdiçar força tentando controlar o resultado, a gente passa a investir a nossa consciência na qualidade daquilo que a gente faz agora. Isso depende de nós, depende de mim escolher como eu trato as pessoas, estudar ou permanecer na ignorância, cultivar disciplina, cuidar ou abandonar o meu corpo, alimentar ressentimentos ou buscar compreender minhas emoções.

Depende de mim pedir ajuda quando necessário, reconhecer os meus erros, aprender algo novo, desenvolver paciência, praticar aquilo que eu acredito. Depende de mim a forma como eu respondo às circunstâncias. Observa que eu tô falando sobre escolhas. Nem sempre a gente escolhe o que a gente sente inicialmente, mas a gente pode aprender a escolher o que fazer com aquilo que a gente sente. Esse é um ponto extremamente importante. Às vezes eu escuto as pessoas dizendo: mas eu não consigo controlar os meus pensamentos.

E elas estão certas. Pensamentos surgem espontaneamente, emoções também. O próprio Ayurveda descreve que a mente tá em constante movimento, influenciada pelos doshas, pelas impressões sensoriais, pelos samskaras e pelas experiências acumuladas ao longo da vida. O yoga utiliza a expressão chitta vritti, os movimentos naturais da mente. O objetivo nunca foi impedir que esses movimentos existam. O verdadeiro treinamento consiste em desenvolver uma relação diferente com eles, não controlar tudo, mas escolher conscientemente como responder.

É exatamente isso que Viktor Frankl observou nos momentos mais extremos da existência humana. Mesmo em condições onde praticamente toda a liberdade havia sido retirada, ainda permanecia um espaço, o espaço da resposta. Talvez essa seja a maior liberdade que a gente possui. Não controlar a vida, mas escolher a postura com que a gente caminha por ela. E isso muda tudo, né? Fala sério! Porque quando a gente entende o que realmente depende de nós, a gente deixa de desperdiçar energia lutando contra aquilo que jamais poderíamos controlar.

Nossa atenção retorna ao único lugar onde a transformação realmente acontece: o momento presente, as escolhas presentes, a consciência presente. Talvez seja exatamente aí que a verdadeira cocriação começa. Não quando a gente imagina controlar o universo, mas quando a gente assume responsabilidade por aquilo que sempre esteve sob os nossos cuidados, que é a nossa própria maneira de viver. E aí outra pergunta é: o que não depende de mim?

E aí a gente chega nesse outro lado da reflexão, né? E curiosamente ele costuma ser muito mais difícil de aceitar. Porque existe algo dentro de nós que resiste profundamente à ideia de não controlar determinadas partes da vida. A gente gosta da sensação de segurança, da previsibilidade. A gente gosta de acreditar que se fizermos tudo corretamente, nada dará errado. Mas a realidade raramente funciona dessa maneira. Você pode cuidar muito bem da sua saúde e ainda assim adoecer.

Pode educar um filho com amor e ele fazer escolhas diferentes daquelas que você esperava. Pode estudar durante anos e não conseguir uma oportunidade imediatamente. Pode amar profundamente alguém e esse relacionamento chegar ao fim. Pode realizar um excelente trabalho e não receber nenhum reconhecimento. Pode fazer tudo com responsabilidade e encontrar dificuldades inesperadas. Isso significa que seus esforços foram inúteis? De forma alguma.

Significa apenas que viver nunca foi sinônimo de controlar. Existe uma diferença enorme entre influência e domínio. Nós influenciamos muitas situações, mas não dominamos todas elas. Na natureza, isso é muito evidente. O agricultor prepara a terra, escolhe a melhor semente, cuida do solo, irriga, protege a plantação, Mas ele não controla a chuva, não controla o vento, não controla a temperatura, não controla as estações. Ainda assim, ele continua cultivando porque compreende que fazer a sua parte aumenta a possibilidade de uma boa colheita, embora jamais represente uma garantia absoluta.

Talvez a vida funcione exatamente assim. No Ayurveda, a gente encontra constantemente essa visão de equilíbrio entre ação e realidade. A gente pode fortalecer o Agni, melhorar nossa alimentação, dormir melhor, organizar nossa rotina, reduzir fatores que favorecem o adoecimento, mas nenhum texto clássico promete invulnerabilidade. O objetivo sempre foi aumentar a harmonia com a natureza, não eliminar completamente as incertezas da existência.

Essa mesma humildade aparece nas pesquisas atuais sobre saúde. A medicina trabalha com fatores de risco, com probabilidades, com prevenção, não com certezas absolutas. Mesmo quando a gente adota os melhores hábitos, a gente continua vivendo em um mundo complexo onde inúmeros fatores interagem ao mesmo tempo. Perceber isso pode parecer frustrante, mas paradoxalmente também pode ser profundamente libertador, porque nos libera da culpa exagerada.

Nos últimos anos, se tornou comum responsabilizar as pessoas por absolutamente tudo. Tipo assim, se algo deu errado, dizem que ela atraiu, que a pessoa atraiu isso. Se ficou doente, dizem que vibrou baixo. Se perdeu alguém, afirmam que faltou consciência. Esse tipo de pensamento não produz crescimento, produz culpa. A culpa excessiva raramente transforma, Ela paralisa. Nenhuma das grandes tradições que a gente estudou nessa série vai propor uma responsabilidade baseada em culpa.

Elas falam sobre consciência, e consciência é muito diferente. Consciência pergunta: o que que eu posso aprender com essa experiência? E a culpa pergunta: o que há de errado comigo? Percebe a diferença? Uma abre caminhos e a outra fecha portas. Talvez a verdadeira maturidade espiritual não seja acreditar que a gente controla tudo. Talvez seja desenvolver serenidade para reconhecer aquilo que não controlamos e coragem para agir sobre aquilo que realmente podemos controlar.

Essa combinação de humildade e responsabilidade talvez seja uma das expressões mais bonitas da cocriação, porque ela nos lembra que a vida nunca foi uma obra construída por uma única mão, Ela é o encontro permanente entre nossas escolhas e um universo muito maior que nós. E é exatamente nesse encontro que a gente continua a nossa jornada nos próximos episódios. Um ótimo dia para todo mundo, beijos e até mais!

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