Episódios de Ayurveda na Prática - GisiPaz.

#1301 - 👩🏻‍🎨🎨 A ARTE DA COCRIAÇÃO 🧞🪄

08 de agosto de 202610min
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" O que realmente é cocriação?"

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Bom dia, tudo bem? E o que que realmente é cocriação? Tu sabe por que que pensar positivo não basta? Existe uma frase que ficou muito popular nos últimos anos: Você atrai aquilo que você pensa. Talvez você já tenha ouvido essa ideia em livros, vídeos, palestras ou até nas redes sociais. Ela costuma vir acompanhada de outras afirmações como: basta vibrar na frequência certa, o universo responde aos seus pensamentos, ou é só visualizar que acontece.

Essas mensagens costumam ser muito sedutoras, E existe um motivo para isso. Todos nós gostaríamos que a vida fosse simples, gostaríamos de acreditar que basta mudar nossos pensamentos para que a realidade imediatamente se transforme. Afinal, seria muito mais confortável imaginar que tudo depende apenas da nossa mente do que reconhecer a complexidade da existência humana. Mas será que é assim que funciona? Vamos fazer um pequeno exercício.

Imagine uma pessoa profundamente endividada. Ela acorda todos os dias repetindo afirmações positivas, diz para si mesma que é abundante, visualiza prosperidade, sorri diante do espelho, mas continua gastando mais do que ganha, não organiza suas finanças, evita estudar, não desenvolve novas habilidades e mantém exatamente os mesmos hábitos que a levaram àquela situação. Apenas pensar positivamente mudará a realidade dela? Provavelmente não, né?

Agora imagina outra pessoa. Ela também deseja prosperidade, mas além de cultivar esperança, ela começa a aprender sobre educação financeira, muda seus comportamentos, enfrenta seus medos, desenvolve novas competências, cria disciplina e permanece constante durante meses ou anos. Percebe a diferença? O pensamento foi importante, mas ele não trabalhou sozinho. Ele precisou encontrar ação, precisou encontrar comportamento e precisou encontrar também tempo, precisou encontrar realidade.

Essa talvez seja um dos maiores equívocos quando a gente fala sobre cocriação: confundir pensamento com transformação. Na série A Casa Mental, a gente aprendeu que os nossos pensamentos influenciam profundamente a maneira como a gente percebe o mundo. Eles direcionam a nossa atenção, organizam a nossa interpretação dos acontecimentos, influenciam nossas emoções, modificam nossas decisões. Mas em nenhum momento a gente disse que um pensamento isoladamente altera as leis da natureza ou controla tudo o que acontece ao nosso redor.

A mente participa, ela não governa o universo. Essa diferença é fundamental. Quando a gente estuda os textos clássicos do yoga, a gente encontra uma visão muito mais sofisticada do que simplesmente pensar positivo. Nos Yoga Sutras, Patanjali dedica toda uma obra ao treinamento da mente. Quem não leu ainda, faz favor de pegar esse livro e ler. Mas em nenhum momento ele afirma que basta desejar alguma coisa para que ela aconteça.

Pelo contrário, ele fala sobre disciplina, prática contínua, desapego, autoconhecimento, transformação interior. Da mesma forma, no Bhagavad Gita a gente encontra um ensinamento profundamente libertador. Krishna não diz a Arjuna que ele deve apenas acreditar na vitória. Ele diz que Arjuna deve agir da melhor maneira possível, colocando toda a sua consciência na ação. Mas sem se aprisionar ao resultado. Percebe como isso muda completamente a perspectiva?

O foco deixa de ser controlar o futuro e passa a ser qualificar o presente. Essa ideia também aparece séculos depois na psicologia moderna. Viktor Frankl, ele é psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas e escreveu que entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e nesse espaço reside a nossa liberdade. A gente não pode escolher tudo que acontece, mas a gente pode escolher como responder ao que acontece.

Essa talvez seja uma das definições mais profundas de responsabilidade, pensar sobre responsabilidade. E curiosamente, ela conversa muito com aquilo que a gente vai ver ao longo dessa série agora. A neurociência também nos ajuda a compreender esse processo. Hoje a gente sabe que os nossos pensamentos modificam nossa atenção, a nossa atenção modifica aquilo que a gente percebe, nossa percepção influencia as nossas decisões, nossas decisões moldam os nossos comportamentos, e os nossos comportamentos repetidos ao longo do tempo constroem grande parte da vida que a gente experimenta.

Observa como a ciência descreve um caminho. Não passa de mágica. Existe uma enorme diferença entre acreditar que pensamentos criam objetos e compreender que pensamentos influenciam escolhas. Escolhas modificam ações, ações alteram probabilidades, e probabilidades transformam histórias. Talvez isso pareça menos mágico, né? Mas na verdade é muito mais poderoso, tá? Porque devolve a você aquilo que realmente lhe pertence: a tua responsabilidade, tua liberdade, tua capacidade de crescer.

E talvez seja exatamente isso que as antigas tradições espirituais sempre tentaram ensinar. Não que somos donos do universo, mas que somos participantes conscientes da nossa própria existência. E o que significa cocriar? Aí a gente chega então à pergunta central do áudio de hoje: afinal, o que que é cocriar, né? A própria palavra já nos oferece uma pista. Ela é formada por duas partes: co, que significa junto, e criar. Ou seja, cocriar é criar com.

Mas criar com quem? Essa pergunta muda tudo, porque ela nos obriga a abandonar a ideia de que somos os únicos autores da realidade. Nenhum ser humano cria sua vida sozinho. Nós existimos em uma rede de relações extremamente complexa. Existe o nosso corpo, nossa história, nossa genética, nossa família, cultura, educação. Existem outras pessoas, acontecimentos imprevisíveis, circunstâncias sociais, o tempo, a natureza. Existe aquilo que a gente pode controlar e existe uma imensidão de fatores que jamais estarão sob o nosso controle.

É justamente por isso que eu prefiro a palavra cocriação do que simplesmente criação. Ela reconhece humildemente que somos participantes de um processo muito maior. No Ayurveda, a gente encontra uma ideia semelhante quando a gente compreende que saúde não nasce de um único fator. Ela surge do equilíbrio entre alimentação, rotina, emoções, digestão, ambiente, estação do ano, constituição individual e inúmeras outras influências.

Nenhum elemento atua sozinho, tudo acontece em relação. Da mesma forma, os Yoga Sutras nos lembram que a consciência se manifesta através de uma mente que precisa ser educada. Não basta possuir potencial, é preciso cultivá-lo. A psicologia contemporânea também aponta nessa direção. Cada decisão que a gente toma modifica as possibilidades do próximo momento. Cada hábito fortalece determinados circuitos cerebrais. Cada experiência reorganiza, ainda que discretamente, a maneira como a gente percebe o mundo.

A nossa vida não é determinada apenas pelo passado, ela também é construída pelas escolhas que a gente faz repetidamente. Talvez a gente possa imaginar a realidade como um grande rio, Você não controla a correnteza, não controla a chuva, as pedras, a velocidade da água, não controla a forma como conduz o teu barco, mas pode controlar o que— e aprender a remar. Pode controlar a direção, pode escolher a direção, pode reconhecer os momentos de esperar e os momentos de agir, pode desenvolver habilidade, pode se tornar um navegador melhor.

Isso é cocriar. Não é fabricar o rio, é participar conscientemente da travessia. E talvez essa seja uma das ideias mais libertadoras que a gente vai começar a cultivar nessa série. Você não é completamente responsável por tudo que aconteceu na tua vida, mas é profundamente responsável pela maneira como responde ao que encontra pelo caminho. Essa responsabilidade não pesa, ela fortalece. Porque devolve ao ser humano aquilo que nenhuma circunstância poderia retirar completamente, que é a possibilidade de crescer, aprender e transformar a si mesmo.

Antes da gente continuar a nossa investigação nos próximos episódios, eu deixo um convite: se esses temas despertam em você o desejo de compreender melhor a tua própria mente, a tua constituição segundo o Ayurveda, conheça os materiais que eu preparo com tanto carinho tanto cuidado como os ebooks sobre doshas e sobre a mente. Eu fiz uma postagem sobre eles no Instagram recentemente, tá? Eles foram escritos justamente para aprofundar de forma prática muitos dos conceitos que a gente está explorando nessa série e podem complementar muito bem essa caminhada de autoconhecimento.

Se você não quer ir lá no Insta, deixa uma mensagem aqui nesse podcast dizendo que você quer saber mais sobre os ebooks, que eu te mando o link, tá bom? Um ótimo dia para todo mundo, beijos e até mais!