Episódios de Ayurveda na Prática - GisiPaz.

#1297 - 🏠🧠 A CASA MENTAL 🧹🪣

04 de agosto de 202612min
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" Agradecendo a sua antiga versão."

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Participantes neste episódio1
G

Gisi Paz

HostAyurveda
Assuntos3
  • Reflexão sobre versões passadasTransformação e crescimento pessoal · Divisão interna da mente · Mecanismos de proteção e adaptação
  • Gratidão e Bem-Estar· SociedadeAnsiedade como muleta · Excesso de controle · Necessidade de agradar · Perfeccionismo e procrastinação
  • Filosofia orientalBhagavad Gita · Yoga de Patanjali · Ayurveda · Refinamento em vez de destruição
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bom dia, tudo bem? Então, existe um momento muito delicado na jornada de transformação que quase nunca é ensinado. É o momento que a gente deixa de perguntar como mudar E começa a perguntar: como honrar quem me trouxe até aqui? Essa mudança parece pequena, mas ela altera completamente a forma como a mente vive o processo de crescimento. Durante muitos anos se acreditou que evoluir significava abandonar tudo que a gente foi. E aí se criou uma ideia de que a mulher forte precisa esquecer a mulher frágil.

Que a mulher segura deve apagar a insegurança, que a disciplinada precisa sentir vergonha da procrastinadora, que a confiante deve rejeitar a menina que buscava aprovação. E essa lógica parece motivadora, mas ela cria uma divisão perigosa dentro da própria mente. É como se uma parte da gente passasse a declarar guerra contra a outra parte. É como uma casa dividida, né, que nunca encontra paz. E ao longo dessa série a gente estudou que o subconsciente não possui um senso moral, ele não sabe distinguir o que é bom ou ruim como a nossa consciência faz.

E a sua função principal sempre foi outra, que é manter você viva. Tudo aquilo que hoje parece um defeito provavelmente nasceu como uma tentativa de adaptação. O problema é que mecanismos de proteção costumam permanecer muito tempo depois que o perigo desaparece. Imagina uma pessoa que sofreu um acidente grave e passou meses usando muletas. As muletas foram fundamentais, sem elas talvez a gente não conseguisse caminhar, mas chega um momento em que continuar apoiando todo o peso nelas impede que as pernas recuperem a sua força.

O curioso é que ninguém sentiria raiva das muletas. Elas cumpriram a sua função. Com os nossos padrões emocionais, deveria acontecer exatamente a mesma coisa. A ansiedade foi uma muleta, o excesso de controle, a necessidade constante de agradar, perfeccionismo, a procrastinação. Em muitos casos, tudo isso também foi uma muleta. Cada uma delas apareceu porque em algum momento da vida A tua mente acreditou que precisava delas para continuar em frente.

Quando a gente compreende isso profundamente, uma pergunta surge de forma natural: como que eu posso odiar algo que um dia tentou me proteger? Essa pergunta muda, né, o caminho da cura, porque gratidão não significa desejar permanecer igual. Gratidão significa reconhecer que aquela estratégia teve um propósito. Ela apenas deixou de ser necessária. Existe uma tendência muito comum na nossa cultura de olhar para trás apenas para encontrar erros.

Observa como a gente costuma contar nossa própria história dizendo: perdi muitos anos, fui muito ingênua, como eu pude aceitar tudo isso? Se eu soubesse o que eu sei hoje, teria feito tudo diferente. É claro que faria, porque hoje você é outra pessoa. Mas essa comparação é injusta. Ela coloca a consciência que você possui agora para julgar alguém que ainda não tinha aprendido aquilo que você aprendeu. É como exigir que uma criança do primeiro ano resolva um problema de doutorado.

Não existe lógica nisso. Cada versão nossa corresponde à vida com os recursos disponíveis naquele momento. No Bhagavad Gita, a gente encontra uma ideia profundamente relacionada a esse processo. Krishna ensina a Arjuna que ninguém escapa da própria natureza de uma única vez. O amadurecimento acontece através da prática constante, do discernimento e da ação consciente. Não tem uma condenação pelo estágio em que alguém se encontra.

Existe um convite permanente para caminhar em direção a uma consciência mais ampla. O Yoga de Patanjali também segue essa direção. Os samskaras não são tratados como falhas morais, eles são impressões acumuladas na mente, marcas deixadas pela experiência. Assim como um caminho na floresta se torna mais evidente quanto mais pessoas passam por ele, determinados comportamentos se tornam automáticos porque foram repetidos inúmeras vezes.

Mas nenhum texto clássico afirma que a gente deve odiar esses caminhos. Eles apenas nos ensinam a construir novos. Essa talvez seja uma das maiores demonstrações de sabedoria do Oriente: transformar nunca significou destruir, sempre significou refinar. O Ayurveda segue exatamente essa lógica. Quando um dosha tá agravado, o terapeuta não tenta eliminar aquele dosha. Isso seria impossível. Vata continuará existindo, Pitta continuará existindo, Cafa continuará existindo.

O trabalho consiste em devolver equilíbrio àquilo que perdeu a sua medida. Percebe como isso também vale para uma, para nossa própria história? Você não elimina a pessoa que você foi, você devolve equilíbrio à relação que mantém com ela hoje. Existe algo ainda mais profundo aqui, tá? A pessoa que você foi não lhe deixou apenas feridas, Ela também te deixou forças. Talvez tenha sido ela quem desenvolveu a sua capacidade de trabalhar, quem sustentou a tua família nos momentos difíceis, quem aprendeu a recomeçar inúmeras vezes, quem sobreviveu quando parecia impossível continuar, quem encontrou coragem mesmo sentindo medo, quem construiu a profissional que tu é hoje, quem fez perguntas que te conduziram até esse momento.

É muito comum a gente olhar para o passado enxergando apenas aquilo que a gente perdeu, mas raramente a gente pergunta: o que essa fase devolveu dentro de mim que eu ainda carrego? Talvez tenha desenvolvido resiliência, talvez sensibilidade, empatia, capacidade de acolher outras pessoas justamente porque você conheceu a dor. Talvez tenha despertado a tua espiritualidade, tenha feito nascer a sua missão. Então pensa na tua própria trajetória.

Será que você teria escolhido estudar Ayurveda se nunca tivesse buscado respostas para os próprios sofrimentos? Será que desenvolveria tanta sensibilidade para compreender outras pessoas se nunca tivesse atravessado os teus próprios desertos? Provavelmente não. E isso não significa romantizar a dor. A dor nunca deveria ser glorificada, mas também não precisa ser desperdiçada. Quando a gente transforma em consciência, ela deixa de ser apenas sofrimento e passa a ser sabedoria.

E também André Luiz procura mostrar em tantas obras psicografadas por Chico Xavier: No Mundo Maior, Libertação e Missionários da Luz. Nesses três livros, né, a gente percebe que o espírito não evolui apesar das experiências difíceis. Ele evolui através da forma como aprende a utilizá-las. As quedas não são apresentadas como condenações eternas, são oportunidades de ampliar a consciência. Essa visão modifica profundamente a nossa relação com o passado, porque a gente percebe que a antiga versão de nós não era um erro de caminhada, ela fazia parte da caminhada.

Existe uma imagem que eu gosto muito de utilizar. Imagina uma grande catedral sendo construída. Antes das paredes prontas, existem andaimes por todos os lados, e durante anos aqueles andaimes sustentaram a construção. Sem eles, o edifício talvez nunca fosse construído. Mas chega um momento em que eles precisam ser retirados, não porque fossem ruins, mas porque cumpriram a sua função. Os andaimes não entram na inauguração da catedral, mas ninguém deixa de agradecer por tudo que eles sustentaram.

Os nossos antigos padrões são muito parecidos com esses andaimes. Eles sustentaram uma fase da nossa construção. Hoje talvez estejam impedindo a nossa visão, mas isso não diminui a importância que tiveram. Existe um exercício que eu considero profundamente transformador. Fecha os olhos por alguns instantes e visualiza aquela pessoa que você mais critica. Talvez ela tenha 20 anos, 30, talvez seja uma menina, um menino que você foi.

Observa o teu rosto, a postura, medos, dúvidas. Agora imagina que essa pessoa tá sentada à tua frente e durante alguns minutos, em vez de explicar tudo que ela fez de errado, Apenas agradece. Agradece por ela não ter desistido. Agradece pelas noites em que continuou mesmo sem enxergar a saída. Agradece por todas as vezes em que acreditou estar protegendo você. Talvez ela chore, talvez você chore, porque muitas vezes essa antiga versão passou décadas esperando apenas uma coisa: ser compreendida.

Quando isso acontece, uma coisa muito mágica também acontece, né, dentro do cérebro. A memória deixa de ser acessada pela dor e ela passa a ser reorganizada pelo significado. A neurociência chama esse processo de reconciliação da memória. Sempre que a gente revisita uma lembrança em um contexto emocional diferente, ela pode ser armazenada novamente com um novo significado. O fato histórico não muda, mas a forma como o nosso sistema nervoso responde a ele pode mudar profundamente.

É por isso que agradecer possui um efeito tão transformador, não porque altera o passado, mas porque modifica a relação que a gente mantém com ele. E quando a relação muda, o futuro também começa a mudar. Eu quero terminar esse capítulo com uma reflexão que eu considero uma das mais bonitas de toda a nossa série. Talvez a pessoa que você foi tenha passado muitos anos acreditando que precisava lutar sozinha. Talvez ela tenha carregado responsabilidades maiores do que podia suportar.

Talvez tenha cometido erros. Talvez tenha acertado menos do que gostaria. Mas foi ela quem manteve acesa a pequena chama que permitiu que você chegasse até aqui. Ela nunca imaginou que um dia você compreenderia tudo isso. E talvez nesse exato momento a maior demonstração de amor que você possa oferecer a essa antiga versão não seja pedir desculpas por quem ela foi, seja simplesmente dizer obrigada. Obrigada por não desistir, obrigada por continuar caminhando quando tudo parecia escuro, obrigada por fazer o melhor que conseguia com a consciência que tinha.

E agora eu sigo daqui não para apagar a tua história, mas para torná-la ainda mais honrosa, vivendo de uma maneira que você sempre sonhou, mesmo sem saber como alcançar. Tá bom? Um ótimo dia para todo mundo. Beijos e até mais! Rata, santa, chá, chandra, mahirirá, sans, thirichá, man bistara idhaki, sutá, sutá, shanti sang sutá.

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