Episódios de Café Com Crime

196 | CASO SUNDERMANN: o casal assassinado no Dia dos Namorados

10 de junho de 202652min
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Era véspera de dia dos namorados de 1994. José Luís e Rosa Sundermann comemoravam seu amor e, principalmente, a conquista de terem fundado o próprio partido político na semana anterior. A noite que iniciou com risos e jantares terminou de forma trágica quando o filho de 17 anos do casal chegou em casa e encontrou os pais mortos na sala. 

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Créditos:

Produção, apresentação e roteiro por Stefanie Zorub

Edição e desenho de som por Luigi Calistrato

Pesquisa e roteiro for Ana Paula Almeida

Participantes neste episódio1
P

Pedro Luiz Nogueira Zannini

ConvidadoApresentadora
Assuntos7
  • Caso Sundermann: assassinato do casalDescoberta dos corpos por Carlos Eduardo · José Luiz Sundermann · Rosa Sundermann · Investigação policial inicial · Teorias de latrocínio e homicídio/suicídio descartadas · Suspeita inicial sobre o filho Carlos Eduardo · Arma calibre 38 · Preservação da cena do crime
  • Atuação política e sindical do casal SundermannLuta pelos direitos dos trabalhadores rurais · Condições análogas à escravidão na Usina Ipiranga · Convergência Socialista · Partido dos Trabalhadores (PT) · Central Única dos Trabalhadores (CUT) · Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos da UFSCar (Sintufscar) · Candidatura de José Luiz a vereador · Rosa Sundermann
  • Greve dos canavieiros e conflitos com a Usina IpirangaParalisação por condições de trabalho e salários · Ocupação da agência do Bradesco · Confronto com a Polícia Militar · Ameaças a José Luiz Sundermann · Prisão de Rosa Sundermann · José Roberto Fennan (diretor da Usina Ipiranga) · Capitão Souza
  • Fundação do PSTU e o assassinato do casalSaída do PT e formação da Frente Revolucionária · Congresso de fundação do PSTU · Rosa Sundermann na direção nacional do PSTU · Comemoração e jantar em família · Assassinato na véspera do Dia dos Namorados
  • Justica e VerdadeInstituto José Luiz e Rosa Sunderman · Editora Sunderman · Caravana da Anistia · Reuniões anuais para lembrar o casal · Caso arquivado e prescrito
  • Caso Pissardo: Duplos AssassinatosSuspeita sobre Carlos Eduardo Sundermann · Teoria de matador profissional · Suspeita sobre usineiros e José Roberto Fennan · Suspeita sobre Capitão Souza · Suspeita sobre Jairo de Andrade · Suspeita sobre fazendeiro Titotó · Falta de provas e inquérito arquivado · Comissão da Verdade
  • Morte de Carlos Eduardo SundermannAcampamento no sítio Bocaína · Queda de cachoeira · Sepultamento ao lado dos pais
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Voz A:So good, so good, so good.

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Voz D:Era madrugada do dia 12 de junho de 1994. A noite tinha iniciado com muita comemoração para José Luiz e Rosa Sundermann. Eles eram um verdadeiro power couple, sabe assim? Aquele casalzão vinte que esbanjava sintonia, resiliência, força e luta. Juntos já tinham passado por muita coisa, desde a fundação de partidos políticos até a liderança de greves para garantir os direitos dos trabalhadores, já tinham sido presos durante a ditadura militar, ameaçados por policiais, mas também tinham o total apoio de muita, mas muita gente, que chegou até a rodear uma delegacia e riscar facão no chão quando Rosa foi mantida presa injustamente. Zé Luiz e Rosa passaram por tudo isso e mais um pouco, sempre juntos, unidos e cheios de amor. Mantinham uma casa humilde, onde criaram 2 filhos e compartilhavam ali os seus valores para a família. Naquela noite de véspera de Dia de Namorados, eles decidiram comemorar não só o amor que mantinham, mas também algumas conquistas recentes. E fizeram isso, claro, ao lado dos filhos e outros familiares. Foram muitos risos, taças brindando, abraços e alegria. No fim da noite, os 2 tiveram um momento a sós em casa. E foi aí que tudo mudou. Aquela madrugada que iniciou em comemoração acabaria em luto. O Dia dos Namorados começaria com lágrimas, gritos de dor e dois corpos sem vida caídos no quarto do casal Sunderman. Ali se iniciava uma história de impunidade que já dura mais de três décadas. Este é o episódio 196 do Café com Crime: O assassinato do casal Sunderman. Alô, olá, alô, vai tudo bem? Bem-vindes ao Café com Crime, o podcast onde você pode ser o aficionado por crimes reais que você é, sem julgamentos. Eu sou a Stéssy Ourubi, ou Dona Café, como preferir, e hoje vamos falar sobre o casal que foi assassinado no dia dos morrados. Um crime cheio de camadas envolvendo política, lutas sociais e um mistério que assombra até hoje a cidade de São Carlos, no interior de São Paulo. Segundo alguns artigos aqui durante a pesquisa, eu vi que este daqui é o único assassinato não solucionado daquela cidade. E olha que não foi por falta de repercussão, o caso ganhou os noticiários do Brasil, mas nem mesmo essa atenção toda foi capaz de desvendar o mistério. Eu vou relatar aqui todos os detalhes sobre a investigação que a gente encontrou durante a pesquisa. E ao final do episódio, eu queria saber de vocês, pelo seu instinto crime zero, pelo seu faro aí da história, o que você acha que aconteceu naquela madrugada de 12 de junho de 1994? Você pode escrever a sua teoria aí nos comentários do Spotify, do YouTube, ou onde quer que você esteja escutando o podcast. Ou mesmo comenta lá com a gente no Instagram, o @cafecomcrime, onde postamos as fotos relacionadas ao caso também. Por sinal, não deixe de seguir a gente aí na plataforma onde você tá ouvindo. Ative as notificações pra não perder nenhum episódio novo. E se puder, deixe a sua avaliação também. Parece pouco, mas pra Dona Café aqui e a nossa equipe, isso é tudo. E ajuda bastante a manter o podcast relevante. Pra quem tá precisando de mais uma dose de Café com Crime, saiba que você pode escutar ainda mais episódios ao se tornar um apoiador. Todo mês eu lanço um episódio exclusivo extra para os apoiadores do podcast. Pra ter acesso aos mais de 50 episódios já lançados, basta apoiar pela Apoia.se ou Orelo. Eu vou deixar o link das nossas campanhas de apoio na descrição deste episódio. Super obrigada a todos os apoiadores, de verdade vocês fazem esse podcast existir. E para fechar essa introdução, você já conhece a lojinha do Café com Crime? A gente tá no site umapenca.com/cafecomcrime. Lá você encontra canecas, camisetas e bolsas do podcast, um monte de produtinho legal para você que é crimezeiro de verdade. Eu vou deixar o link na descrição desse episódio também. Antes que eu esqueça, esse caso foi uma sugestão das crimiseiras Márcia Lopes e Ana Beatriz Martins. Obrigada por indicar essa história que, assim, convenhamos, faz qualquer um passar raiva. Do jeitinho que o crimiseiro gosta de ouvir. Lembrando que este podcast faz uso de efeitos sonoros, então se puder escute de fone de ouvido. E um alerta de gatilho: vamos tratar de temas como violência e mortes. Ouça a seu critério. E com isso: Bora começar do começo? Depois de jantar com os pais, a irmã e os avós, Carlos Eduardo Sundermann saiu de festa com alguns amigos. O jovem de 17 anos voltou para casa, onde morava com os pais em São Carlos, interior de São Paulo, por volta das 3 da manhã. Do dia 12 de junho de 1994. A Rua Peru, número 338, no bairro Nova Estância, estava quieta, sem nenhum movimento. O local era distante dos perigos noturnos. O bairro era tão tranquilo que o seu pai, o José Luiz Sundermann, costumava deixar a porta da residência aberta. Aberta mesmo, escancaradinha, sabe? O pai de Carlos Eduardo tinha esse costume por conta de uma rinite alérgica que insistia em prejudicar a sua respiração. Para José Luiz, Era mais confortável se o ar estivesse circulando livremente pelos cômodos. Por isso a porta ficava aberta. A casa humilde, mas aconchegante, tinha os muros baixos. Para se ter uma ideia, a trava do portão de ferro azul era feita com um cabo de vassoura. Nos fundos do quintal, a casa fazia divisa com um terreno baldio. Detalhes que nunca preocuparam a família. Era tudo seguro. E tranquilo. Ao chegar na residência de madrugada, Carlos Eduardo retirou o cabo de vassoura que servia como tranca do portão e acessou o quintal. Ele viu a porta aberta, mas como era costume do pai, ele não estranhou. O que ele estranhou, na verdade, foi o chiado da televisão que permanecia ligada, mas a programação claramente já havia saído do ar. Teriam os pais adormecido na sala enquanto assistiam TV? Mas o jovem nem precisou ligar a luz para ter acesso à pior cena que poderia ter visto na vida. Assim que entrou na sala, Carlos Eduardo viu os corpos dos pais e entrou em choque, ficando sem forças para agir de imediato. Ele não soube precisar quanto tempo ficou imóvel olhando para os corpos, mas o jovem contou que quando recuperou a consciência cutucou o pai, que estava caído no chão, com os pés, na esperança que José Luiz esboçasse alguma reação. Diante da falta de respostas, Carlos se aproximou para tentar sentir sua pulsação, mas não conseguiu. Quando ele voltou a sua atenção para a mãe, Rosa Sunderman, percebeu que era tarde demais, pois a sua mãe estava com os lábios roxos e com a pele gelada. Bastante nervoso, o jovem ligou para o corpo de bombeiros pelo telefone fixo da residência para pedir ajuda. Pelo tom de voz do rapaz, os bombeiros perceberam o seu desespero e tentaram acalmá-lo para que ele tivesse condições de procurar a Polícia Militar, que era a instituição correta a ser acionada para atender a ocorrência. Carlos Eduardo obedeceu, mas os policiais demoraram a chegar. Com medo de que o assassino ou assassinos ainda estivessem dentro da casa, Carlos Eduardo decidiu esperar pela polícia no portão de casa do lado de fora, permanecendo atento a qualquer sinal suspeito. Mas o escuro e o silêncio absolutos foram suas únicas companhias. 10 meses antes de serem assassinados dentro da própria casa, José Luiz e Rosa tomavam a frente de um projeto para fazer aquilo que mais amavam: lutar pelos direitos dos trabalhadores. Tudo começou no dia 2 de agosto de 1993, quando 3 ônibus lotados de trabalhadores rurais estacionaram na Rodovia Washington Luiz, em frente à UFSCar. Ali funcionava também o Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos da Universidade Federal de São Carlos. Os trabalhadores procuraram por um homem, o Zé Luiz. Zé Luiz era conhecido na região por sua atuação em movimentos grevistas de outras categorias e foi convidado pessoalmente por mais de 100 boias-frias que trabalhavam na usina Ipiranga, na cidade de Descalvado, distante ali 37 km de São Carlos, para liderar uma paralisação. Ao Zé Luiz, os cortadores de cana contaram que estavam indignados com as condições de trabalho e problemas salariais impostos pela usina, questões que envolviam a falta de pagamentos e a ausência de equipamentos básicos de proteção individual, como luvas, botas e caneleiras. Mas quanto mais conversavam, mais Aloysio percebia que a situação daqueles trabalhadores era pior do que eles mesmos conseguiam perceber. Ele chamou sua esposa, Rosa, que sempre lutou por causas sociais ao seu lado, e juntos identificaram que aquelas pessoas trabalhavam em um regime análogo a escravidão. Os operários moravam em alojamentos precários fornecidos pelos empreiteiros e eram forçados a comprar os seus mantimentos em um mercadinho da própria usina. Era uma conta ali que jamais se pagava, não importava o quanto eles trabalhassem ou recebessem, tinham sempre que gastar ali. Agora aqueles homens e mulheres estavam unidos e determinados a conquistarem os seus direitos. Mas faltava uma liderança experiente para guiá-los no enfrentamento. E, pelo que ouviram, Zé Luiz era a pessoa que eles precisavam para os dias de paralisação que inevitavelmente viriam. O sindicalista, que não se furtava um bom desafio, aceitou prontamente o pedido daqueles boias frias. Agora, os trabalhadores podiam ter a certeza de que estavam em boas mãos. José Luiz Sundermann e Rosa Hernández Sundermann tinham muita experiência no assunto. O casal, além de ser completamente apaixonado e cheio de cumplicidade um pelo outro, se unia ainda mais pela visão de mundo e a consciência de classe que compartilhavam, e também a urgência em lutar pelos direitos dos trabalhadores. Em 1978, em plena ditadura militar, os dois atuavam ativamente na Convergência Socialista, uma organização política de esquerda mais radical. E por conta desse envolvimento, acabaram participando de mobilizações que resultaram no nascimento do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores, isso lá nos anos 80. Com o nascimento das organizações e da luta organizada, também veio o nascimento dos dois filhos do casal. Era assim, né, as causas sociais rolando de um lado e a vida pessoal deles cheia de amor do outro. Carlos Eduardo, o filho mais velho do casal, chegou em 1977 e Raquel 6 anos depois. Fato é que a chegada dos dois filhos não limitou o casal em absolutamente nada. Pelo contrário, as crianças eram um combustível a mais para a luta sindical, tanto que não era incomum que os pequenos os acompanhassem em assembleias, reuniões e atividades da Convergência Socialista e da Associação dos Servidores da Universidade Federal de São Carlos. Aliás, é importante destacar que parte da liderança do casal foi forjada ali, no chão da UFSCar, na cidade de São Carlos. Era lá no município, localizado a 234 km da capital de São Paulo, onde José Luiz trabalhava como técnico em eletrônica. Por isso a família fincou raízes por lá no interior. A entrada de Zé Luiz na Associação de Servidores, que só em 1992 se tornou o Sindicato dos Trabalhadores da UFSCar, a Sintufscar, começou com a organização dos funcionários mais jovens. Foi nessa época, também no início dos anos 80, que ele conheceu Antônio Donizete da Silva, mais conhecido como o Doni. O Doni tinha apenas 15 anos e outros meninos ali iam com ele para a universidade, batiam cartão ali, mas nenhum deles tinha muito conhecimento sobre o universo sindical, sobre os direitos que eles tinham, enfim. O José Luiz identificou isso e ele entendeu que precisava reunir a molecada e questionar ali a falta de efetivação nos cargos que eram classificados como cargos aprendiz. Foi sob a liderança do José Luiz que esse grupo de jovens fez um enfrentamento direto contra os representantes do regime ditatorial que ainda controlavam a universidade e acabou ali conquistando o direito à efetivação no trabalho, o que foi um grande, grande ganho para quem tava iniciando ali a própria carreira e também colocou a moral de José Luiz lá no alto. Foi tanta moral que o José Luiz ele chegou à presidência da Associação de Servidores, E em 1986, ele conseguiu se licenciar de seu cargo como técnico em eletrônica para se dedicar integralmente à atividade sindical. Foi uma conquista e tanto para ele. Rosa, a esposa, apesar de não ser funcionária da UFSCar, era bastante presente na associação e a sua ideologia e persistência a colocaram como se também fosse uma dirigente dos trabalhadores e trabalhadoras da universidade. Sempre sorridente, ela participava do dia a dia de todas as lutas ao lado do marido e ainda conseguia tempo para se dedicar ao PT e à Convergência Socialista. Tudo isso enquanto dava conta das demandas da casa e dos filhos. Rosa era vista como uma mulher incansável. Se pudéssemos classificar o casal de acordo com as suas características, poderíamos dizer que ele tinha uma capacidade incrível de articulação política e era uma presença sempre marcante nas portas das fábricas. Perfil que o levou, em 1988, a ser candidato a vereador pelo PT. Já ela era dona de uma sensibilidade aguçada para a formação política e para a organização sindical, combinada com uma coragem impressionante na linha de frente. O rosto delicado e aparência frágil enganavam apenas os mesmos atentos, pois Rosa não recuava nas ações mais duras, não. Muito pelo contrário. Ela ficou conhecida, aliás, por quebrar o vidro de um ônibus para garantir a parada do veículo em greve. Características diferentes que se complementavam perfeitamente e que tornavam este casal uma figura muito próxima da base e com total entrega à classe trabalhadora de São Carlos e região. Mas a caminhada institucional dentro do PT ganhou um ponto final em maio de 1992. Naquele momento, o partido começava a trilhar um caminho mais moderado, focado em disputas eleitorais. E a Convergência Socialista, que tinha o casal Sunderman como membro, manteve a sua essência revolucionária mais radical e passou a criticar duramente essa nova postura da direção nacional do partido. O resultado desse embate ideológico foi a expulsão da Convergência e, consequentemente, do casal Sunderman das fileiras do PT. Foi uma saída forçada que os afastou momentaneamente da política, mas não da luta pelos direitos dos trabalhadores. Foi com toda essa bagagem que Zé Luiz aceitou ser o líder da paralisação dos trabalhadores da Usina Ipiranga. Para começar, ele explicou para aqueles 100 boias frias que tinham descido ali do ônibus na porta da universidade que uma greve de sucesso precisava de trabalhadores comprometidos com a causa. e o resto podiam deixar com ele. Animados com a resposta positiva de José Luiz, os trabalhadores marcaram duas assembleias já para a madrugada do dia seguinte, uma no bairro Cidade Araci, em São Carlos, e outra em Descalvado, que era o lugar onde ficava a usina. Sabendo do tamanho da luta que enfrentaria, José Luiz pediu que Doni o cobrisse no "sinto ofscar" enquanto ele estivesse ausente. E também envolveu Rosa e o amigo João Zafalão diretamente na organização daquele movimento. As assembleias apontaram 100% de adesão e os trabalhadores paralisaram o trabalho imediatamente. As condições de trabalho daqueles homens e mulheres indignou o sindicalista, que trabalhou na divulgação da situação deles e conquistou o apoio incondicional da população das cidades de São Carlos e Descalvado. O movimento ganhou força, situação que claramente despertou a fúria de José Roberto Fennan, o diretor da Usina Ipiranga. Ele disse que só aceitaria negociar com os grevistas se os sindicalistas, os Sundermans, abandonassem o movimento, uma proposta que foi negada em uma reunião com o Ministério Público. Com a negativa, a Polícia Militar, que acompanhava aquele movimento grevista, passou a agir com truculência, inclusive com registro de ameaças contra a integridade dos grevistas. Em entrevista ao jornal Primeira Página, no dia 10 de agosto de 1993, José Luiz contou que, para inibir os manifestantes que se reuniram em frente à portaria da usina Ipiranga, um policial, identificado apenas como Cabo Vicente, realizou disparos de arma de fogo contra os manifestantes, em uma clara tentativa de intimidação. Nessa ocasião, o sindicalista enfrentou o policial e segurou suas mãos para cima enquanto os disparos eram feitos. Mesmo com os tiros, os grevistas não recuaram e permaneceram acampados na porta da usina. Com o avanço da greve, mais um golpe baixo contra os trabalhadores. Como a paralisação coincidiu com o dia do recebimento do vale, a empresa decidiu suspender os depósitos e deixou centenas de pais e mães de família sem pagamento. A estratégia da empresa era sufocar o movimento pela fome, mas os sindicalistas sabiam jogar o jogo. Como resposta, eles decidiram ocupar a agência do Bradesco onde os salários eram processados, lá no centro de São Carlos, prometendo só sair dali quando a usina depositasse o dinheiro de cada trabalhador. Imagine só, uma agência bancária tomada por centenas de trabalhadores rurais e sindicalistas. Não sobrou espaço para ninguém mais acessar o local. E os bancários não conseguiam atender os clientes. Virou uma bagunça, né? Mas, acreditem ou não, o contra-golpe deu certo e em poucas horas o dinheiro estava na conta dos canavieiros. Com essa vitória parcial, a paralisação continuou, sem previsão de término. Certo dia, José Luiz seguia com o seu carro à frente do comboio de ônibus que seguia em direção à usina, quando foi interceptado por cerca de 20 policiais com suas armas em punho. Sem alternativa, o sindicalista parou o carro e pediu que João Zafalão fosse chamar os trabalhadores nos ônibus para que todos descessem e somassem forças na estrada. Os canavieiros desceram com os seus facões em mãos e formaram um semicírculo em volta de José Luiz. O comandante da ação, conhecido apenas como Capitão Souza, ordenou que todos voltassem para os veículos e guardassem as armas, mas o sindicalista argumentou que não eram armas, mas sim instrumentos de trabalho. A tensão cresceu e os trabalhadores começaram a riscar o chão com os facões. O capitão Souza voltou a pedir para que todos abaixassem as armas e José Luiz disse que isso só aconteceria quando os policiais também baixassem os revólveres. O confronto durou cerca de 20 minutos, até que o capitão Souza concordou em liberar o caminho. Os canavieiros também baixaram os facões e entraram novamente nos ônibus para seguir viagem até a usina. José Luiz também deu as costas para entrar no carro. Momento em que teria sido surpreendido pelo Capitão Souza simulando uma pistola com as mãos e apontando em sua direção, o que ele entendeu como uma clara ameaça. José Luiz não recuou e dias depois o mesmo policial repetiu a ameaça em uma mesa de negociações entre os representantes da usina e os grevistas. O casal Sundermann também passou a notar carros estranhos com 2 ou 3 homens que passavam repetidas vezes na porta de sua casa lá no bairro distância, em uma clara tática de coerção. É claro que toda essa situação os preocupava, afinal eles tinham filhos e temiam pela segurança das crianças. Mas é fato também que eles jamais pensaram em deixar os trabalhadores na mão. Uma vez que o compromisso com os canavieiros foi assumido, o casal iria até o fim naquela causa. Sem paciência para mais dias de paralisação, a Polícia Militar decidiu partir para uma nova frente e prender os grevistas que estavam fazendo panfletagem na portaria da usina. Rosa Sunderman e outros 8 trabalhadores foram detidos e levados à delegacia para prestar esclarecimentos. Não demorou muito até que os cerca de 300 trabalhadores que se aglomeravam na porta da usina fossem para a delegacia para repudiar a detenção de Rosa. Eles gritavam palavras de ordem e riscavam o asfalto com o facão para pressionar a soltura dos seus companheiros. O barulho do metal contra o asfalto era insuportável e o delegado sentiu a pressão. 20 minutos depois da chegada dos trabalhadores, Rosa e os canavieiros foram liberados. Apesar de toda a mobilização, a diretoria da usina se manteve irredutível e a greve começou a perder força. Depois de 15 dias de paralisações, os canavieiros começaram a retornar ao trabalho, sem garantir que suas reivindicações fossem atendidas. Ainda assim, o movimento foi considerado vitorioso ao mostrar para aqueles homens e mulheres que eles não precisavam aceitar mais a exploração calados. Quando a greve terminou, o casal Sundermann decidiu retomar os planos políticos. A união demonstrada nas estradas e nas agências bancárias deu ainda mais força para a mobilização que eles já vinham costurando desde a saída do PT através da Frente Revolucionária. Ao lado de outras lideranças sindicais e correntes de esquerda que também buscavam uma alternativa mais combativa, José Luiz e Rosa mergulharam de cabeça em uma intensa campanha nacional. O objetivo era claro: unificar esses aliados e recolher as assinaturas necessárias para fundar oficialmente o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU. E deu certo! No dia 5 de junho de 1994, um domingo, o novo partido nascia oficialmente em um congresso que representava anos de dedicação de José e de Rosa Sundermann. Após ter ajudado ativamente na coordenação política do PT, Rosa agora assumia um papel central na nova legenda, tendo sido eleita, naqueles mesmos dias, para a direção nacional do partido. Era o momento de maior consagração política do casal. Mas o que deveria ser o início de uma nova jornada acabou interrompido de forma abrupta e violenta, apenas 7 dias após a histórica fundação do partido. A morte de José Luiz. José Luiz e Rosa estavam se sentindo realizados e felizes, e queriam comemorar. Na noite do dia 11 de junho, o casal saiu para jantar com os filhos Carlos Eduardo e Raquel, e também com os pais do José Luiz. O clima era de festa. Os 6 confraternizaram e planejaram os próximos passos. Afinal, o casal havia assumido o compromisso de ajudar a construir um partido do zero pela segunda vez. E dessa vez precisavam reunir pessoas alinhadas aos seus valores. Uma grande responsabilidade. Era por volta da meia-noite quando pediram a conta e deixaram o local. Ficou combinado que a filha, Raquel, passaria a noite na casa dos avós. E Carlos Eduardo seria deixado no centro da cidade para curtir uma festa com alguns amigos. O combinado ideal, afinal, era um sábado, véspera de Dia dos Namorados. Um tempinho juntos, a sós, sem as obrigações do dia a dia e sem as crianças, certamente cairia muito bem. E assim foi feito. José Luiz deixou os pais e Raquel em casa e depois deixou Carlos Eduardo no cruzamento da Avenida São Carlos com a Rua Jesuíno de Arruda, no centro da cidade. Quando o relógio marcou meia-noite e meia, o casal já estava de volta à casa onde vivia. Cansados, José Luiz e Rosa se sentaram na sala da casa e ligaram a TV. A porta da casa estava entreaberta, o costume que José Luiz mantinha por conta da sua rinite alérgica. Para ele, era mais confortável se o ar estivesse circulando livremente pelos cômodos. Mas o que parecia o fim de uma noite tranquila para o casal era, na verdade, o fim de uma vida de lutas. É que de repente Rosa ouviu o barulho de disparos e quando caiu em si viu o marido de bruços no chão com dois tiros na cabeça, já bastante ensanguentado. Ela se levantou, mas não deu tempo de reagir. O atirador, mais que depressa, mirou também a arma na cabeça da mulher, que colocou os braços na frente do rosto em uma tentativa frustrada de se defender. E aí seu assassino atirou mais duas vezes. O primeiro tiro passou de raspão no braço esquerdo, mas o segundo acertou a cabeça de Rosa em cheio, fazendo com que seu corpo caísse sentado na poltrona. Os cadáveres foram deixados ali e nada da residência foi levado. A televisão continuou ligada e a luz permaneceu acesa. Quem entrou sem ser notado Deixou a casa da mesma forma. Lá no bairro Nova Estância, ninguém viu ou ouviu nada. A notícia do falecimento do casal circulou ainda de madrugada entre os colegas e companheiros de sindicato e partido. Mesmo que as informações ainda estivessem bastante desencontradas, o fato era apenas um e não poderia ser mudado. José Luiz e Rosa Sunderman foram assassinados. Quando Antônio Donizetti chegou à residência da família na manhã do dia 12 de junho, os corpos já haviam sido recolhidos, mas a casa estava cheia, com muitas pessoas circulando deliberadamente pelos cômodos ainda sujos de sangue, inclusive vizinhos e profissionais da imprensa. Para Doni, tudo, tudo aquilo ali estava errado. Uma perícia bem feita leva tempo e o local deveria ter sido preservado, já que a simples presença de pessoas que não fazem parte da dinâmica do crime contaminam o ambiente e atrapalham o recolhimento de evidências. As fotos da perícia inexplicavelmente saíram queimadas e também prejudicaram os laudos. Donnie afirmou que mais de 20 imagens foram feitas e apenas 2 puderam ser aproveitadas para compor os documentos. Para amigos do casal Sunderman, o trabalho da polícia simplesmente não foi bem executado e a cena do crime não foi preservada da maneira correta, tanto que poucas horas depois o local já estava liberado. Por volta das 10 da manhã, Carlos Eduardo, ainda em completo choque, foi pessoalmente até uma república onde João Zafalão morava para buscar apoio nos ombros do amigo, que esteve com os seus pais nos últimos anos. Imerso em sua própria dor, enquanto procurava o abraço acolhedor do amigo, o rapaz gritava que os pais haviam sido executados. Agora na companhia do amigo, Carlos Eduardo retornou para sua casa, o local do crime, e a polícia o encaminhou para a delegacia para prestar esclarecimentos sobre as mortes. Se o casal, sei lá, né, estava recebendo alguma ameaça, algo que ele pudesse contribuir para ajudar na elucidação do crime. A polícia pediu também para que ele traçasse, de acordo com o que sabia, os últimos dias de vida de José Luiz e Rosa. Baseado na cena do crime, Idinho Ferreira de Araújo e Félix Francisco Tevelin, os delegados que estavam de plantão naquela manhã de domingo, descartaram de imediato que as mortes fossem fruto de um latrocínio, que é o roubo seguido de morte. Ou também que as mortes tivessem sido ocasionadas por conta de um homicídio seguido de um suicídio. Isso porque a cena do crime falava, né? E não havia sinais de arrombamento na casa, tampouco sinais de luta corporal. Isso sem contar no dinheiro e nos talões de cheque preenchidos e assinados que foram deixados para trás pelo assassino. Então essas duas teorias não faziam sentido. Latrocínio ou homicídio seguido de um suicídio. Pelo histórico do casal, as possibilidades aventadas eram de que as mortes tivessem sido fruto de vingança ou de um crime político. E o primeiro suspeito foi ele, o filho Carlos Eduardo.

Voz C:É...

Voz D:É tenso. Por isso vamos dar uma pausa, tomar um gole de café bem quentinho, até porque o inverno já chegou chegando. Eu amo a sensação de uma xícara de café pelando contra minha mão, sabe? Não vou mentir, eu amo sim. Mas eu não era nada fã do inverno. Até porque todo ano eu cometia o mesmo erro: saía de casa parecendo uma boneca russa em várias camadas, assim, de camiseta, blusa, casaco, casaco, mais outro casaco, e o pior é que nem funcionava direito. Minhas percepções do inverno mudou totalmente quando eu descobri que o segredo do inverno não é colocar mais roupa, é colocar a roupa certa. Ultimamente eu tenho usado o Wingsuit da Insider, e a sensação é curiosa porque ela é uma blusa leve, confortável, não fica volumosa, mas ajuda a manter a temperatura sem aquela sensação de estar embalado 5 camadas. Então eu consigo gravar, trabalhar, sair para resolver coisas na rua e seguir o dia normalmente, toda chique e confortável no meu look, sem parecer uma múmia de inverno. Se você também sofre nessa época do ano tentando equilibrar conforto e frio, vale conhecer a Insider. Clicando no link na descrição deste episódio, você ainda conhece a Insider já com um cupom de desconto. Use o cupom CAFÉ COM CRIME para receber um desconto exclusivo. Pronto, já clicou no link na descrição para espiar o catálogo todinho da Insider com desconto? Então agora podemos voltar para o crime. We gather here tonight to bring women back to their rightful place.

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Voz A:The battle isn't over.

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Voz D:Poucas horas após encontrar os corpos dos pais, Carlos Eduardo já estava na delegacia para dar o seu depoimento. Sem que tivesse o direito de primeiro lidar com os próprios sentimentos, o rapaz de 17 anos foi interrogado como suspeito. Em depoimento à Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, que ocorreu em junho de 2013, João Zafalão contou que o jovem foi tratado com extrema rispidez pelos policiais. O motivo? Ele havia lavado as mãos no banheiro da delegacia antes de ser submetido ao exame residuográfico, o teste que verifica se há vestígios de pólvora na pele de quem disparou uma arma de fogo. A polícia interpretou o ato de Jeanne como uma tentativa de apagar provas. Lavar as mãos realmente reduz drasticamente a maioria dos resíduos visíveis de pólvora e chumbo. No entanto, partículas microscópicas de metais pesados alojados nos poros ainda podem ser detectados por exames residuográficos forenses. Embora a lavagem reduza muito a eficácia, não negativa o exame. Então não é tipo: "Ah, atirei, vou lá, lavo a mão e tá tudo bem." Não é bem assim que funciona. Mas mesmo assim a polícia ficou p da vida, furiosa, porque o garoto lavou as mãos. Porém, ao que tudo indica, todos os álibis de Carlos Eduardo foram rapidamente confirmados e a sua participação no crime foi descartada pela investigação. Afinal, ele passou aquela noite inteirinha acompanhado. No dia 26 de junho de 1994, Carlos Eduardo deu a sua primeira e única entrevista sobre o caso para uma reportagem exclusiva da Folha de São Paulo. O bate-papo de 45 minutos aconteceu na casa dos avós paternos, para onde ele e a irmã Raquel se mudaram após o crime. Foi o próprio jovem quem trouxe a público as suspeitas de que José Luiz e Rosa haviam sido mortos por um matador profissional, provavelmente contratado por usineiros ou influenciado pelos conflitos com policiais que ameaçaram o casal durante a greve dos canavieiros que havia ocorrido 10 meses antes, em agosto de 1993. Coincidência ou não, a data base para a negociação dos salários da categoria se aproximava novamente. Tendo em vista a força que os trabalhadores haviam ganhado com o apoio do Sunderman na última paralisação, o crime evitaria uma nova greve e, de quebra, intimidaria novas lideranças que ousassem assumir as manifestações. Pelo menos era o que pensavam os amigos e familiares das vítimas. Usando 3 brincos na orelha, colar de miçangas e pulseiras de couro, Carlos Eduardo alternava ali durante a sua entrevista, uma maturidade política com hábitos de juventude, chegando a pedir ao avô para comprar um maço de cigarros para aplacar a ansiedade. Durante a conversa, Carlos Eduardo se emocionou ao reviver a cena do crime, mas também sorriu orgulhoso ao definir José Luiz e Rosa como revolucionários. O orgulho que sentia pela luta dos pais era nítido e ele fazia questão de demonstrar. Ele fez questão também de relembrar o histórico de violência que cercava a rotina da família, como os carros de usinas rodando a casa na calada da noite para intimidar, policiais atirando para o alto lá em Descalvada para tentar calar a voz de seu pai e até capatazes batendo com pistolas na mesa durante negociações sindicais, ameaçando estourar a cabeça de José Luiz. Carlos foi questionado sobre o desempenho das autoridades nas investigações do caso. E apenas 14 dias depois dos assassinatos, ele demonstrou grande insatisfação com a condução dos trabalhos. Para o jovem, a polícia não tinha interesse real em solucionar o crime, pois não tinha condições para bater de frente com o poder político e econômico dos usineiros. Questionado sobre qual seria o seu desejo para os assassinos, o filho das vítimas disse que era contra a pena de morte, mas que esperava que os criminosos fossem capturados julgados e condenados de acordo com a lei, embora soubesse que "quem tem dinheiro raramente é punido". Dali pra frente, restava a promessa de alugar a casa da Rua Peru, focar nos estudos e tentar seguir a vida sob a proteção dos avós e na companhia da irmã. Restava a promessa de justiça, apesar do jovem órfão não ter muita esperança. O inquérito policial foi assumido pelo delegado Luiz Roberto Ramada Spadafora, delegado regional de Araraquara. Ele ouviu 25 depoimentos de pessoas próximas ao casal, incluindo os familiares e companheiros de sindicato e de partido, mas foi incapaz de avançar meio milímetro sequer rumo ao esclarecimento das mortes. Spadafora chegou a pedir a prorrogação do prazo para concluir o inquérito, e justificou o motivo com a impossibilidade de apontar a autoria do crime, o que também dificultava a convocação dos empresários e policiais, que eram suspeitos, né, pela família, para poderem depor, pois não havia nenhuma prova contra eles, exceto, claro, os apontamentos feitos por aquelas pessoas que conviveram ao lado dos Sunderman. Os laudos concluíram que o casal foi morto com uma arma calibre 38, e que 4 tiros foram disparados na casa, tendo 2 deles atingido José Luiz, um na cabeça da Rosa e o outro acertado a parede depois de passar de raspão pelo seu braço. Também ficou provado que o atirador surpreendeu o casal pela porta de entrada da casa, aquela que ficava aberta para que o ar circulasse e proporcionasse uma respiração mais confortável para José Luiz. Ele teria primeiro atirado no sindicalista, o que deu a Rosa o tempo de se levantar em uma tentativa frustrada de defesa, já que ela foi agredida pela coronha da arma, o que provocou uma fratura em sua mandíbula. Caída no sofá, ela colocou o braço esquerdo sobre o rosto, mas foi alvejada em seguida. O uso de um silenciador foi descartado pela Polícia Técnica. Se ninguém no bairro Nova Estância percebeu o barulho dos disparos na calada da noite, foi simplesmente porque os vizinhos Já estavam dormindo. Diante da paralisia das autoridades, que mesmo após a prorrogação do prazo não foi capaz de apontar suspeitos, até porque os peritos não localizaram sequer impressões digitais na cena do crime, os familiares e militantes listaram por conta própria os nomes que, para eles, tinham motivos de sobra para silenciar o casal. Aqui é importante destacar que a lista de nomes surgiu pelo contexto da situação, pelo enfrentamento, pelas ameaças que o casal alegava ter sofrido, mas que não havia nenhuma prova contra os citados. No topo da lista de suspeitos estavam os grandes usineiros e os dedos da militância apontavam especificamente para José Roberto Fanan, o diretor da Usina Ipiranga. No ano anterior, ele havia tentado, sem sucesso, chutar o casal Sundermann da mesa de negociações da greve. Mas, de acordo com os sindicalistas, a ousadia de mexer com o topo da pirâmide econômica enfureceu as autoridades. A polícia ficou pê-da-vida quando o advogado da família Sundermann, o Idibal Piveta, sugeriu formalmente investigar o diretor da usina Ipiranga como mandante. O capitão Souza, aquele policial militar que tinha ameaçado o Zé Luiz, também não escapou do radar dos militantes. Ele era o nome mais citado quando o assunto eram as ameaças sofridas por José Luiz durante a greve de 1993. Mas apesar do histórico, ele jamais foi investigado. Pelo contrário, João Zafalão contou durante seu depoimento à Comissão da Verdade que o capitão Souza foi promovido a major e transferido para a capital paulista. Outra linha que os amigos do casal Sundermann tentaram emplacar envolvia Jairo de Andrade, um latifundiário paraense conhecido pelo histórico de violência contra trabalhadores sem terra e que estava na região de São Carlos na época do duplo homicídio. Os militantes chegaram a entregar à polícia um cheque sem fundos assinado por ele, mas os investigadores simplesmente ignoraram a pista. Por fim, o nome de um fazendeiro conhecido na região como Titotó também foi levado às autoridades por companheiros de luta como João Zafalão e Heraldo Strumiello, que relembraram episódios de extrema tensão relação entre o fazendeiro e José Luiz durante as greves. Para a polícia, porém, nenhuma dessas peças completava o quebra-cabeças da investigação. E meio que foi ficando por isso mesmo. Sem a devida atenção das autoridades locais, o caso ganhou repercussão nacional, fazendo com que comissões de direitos humanos passassem a acompanhar e a pressionar o andamento das investigações. Tudo na tentativa de evitar o abafamento político por parte dos usineiros. A brutalidade do crime ganhou contornos de uma engrenagem de extermínio nacional de extrema gravidade, já que no dia seguinte à execução de José Luiz e Rosa, dois militantes do PT, o Reinaldo Guedes Miranda e Hermógenes da Silva Almeida Filho, também foram executados a tiros no Rio de Janeiro. E a coincidência acendeu o alerta vermelho na esquerda brasileira. Lideranças políticas e parlamentares passaram a suspeitar que os crimes estivessem conectados, funcionando como uma violenta contra-ofensiva e uma represália coordenada à atuação desses militantes junto ao movimento dos Boias Frias e das bases trabalhadoras. Mas essa possibilidade também não se confirmou. Em uma tentativa de avanço nas investigações, uma mobilização política poucas vezes vista no país foi organizada, com a redação de um manifesto que exigia a identificação e a punição aos mandantes do assassinato de José Luiz e Rosa Sundermann. Vicente Paulo da Silva, o Vincentinho, que era presidente da CUT na época, se reuniu com Alexandre Dupeirat, o ministro da Justiça do governo Itamar Franco, para cobrar uma resposta para a família Sundermann e para a sociedade. O recado das lideranças era claro: a apuração precisava ser isenta, pois o crime interessava diretamente aos barões da terra da região de São Carlos. Sob forte pressão federal, o ministro da Justiça chegou a declarar publicamente que poderia acionar a Polícia Federal para assumir o caso, tirando as investigações das mãos da questionável polícia local. Mas isso também não aconteceu. Parecia que todo o trabalho, mobilização e insistência para a resolução do caso, de nada adiantavam. Se o assassino ou assassinos do casal Sunderman tinham dinheiro, nós jamais saberemos, mas é fato que a polícia não apontou qualquer suspeito do crime oficialmente. Ninguém foi punido. 4 anos se passaram até que uma nova tragédia abalasse o que restava das estruturas da família Sunderman. Mais uma morte. No dia 25 de abril de 1998, Carlos Eduardo, já com 21 anos de idade, decidiu passar o final de semana acampando com os colegas da UFSCar, onde estudava, no sítio Bocaína, na antiga estrada de Analândia, na zona rural de São Carlos. Apesar dos companheiros de militância de José Luiz afirmarem que o rapaz jamais se recuperou do assassinato dos pais, Duda, como era conhecido entre amigos, era considerado por sua galera como um jovem extrovertido e apaixonado pela vida. Naquele sábado, a turma aproveitou tudo o que a natureza proporcionava aos turistas: ar puro, trilhas e cachoeiras paradisíacas. Ao fim do dia, quando retornaram para o acampamento, entraram em suas barracas e descansaram um pouco antes que pudessem se reunir para aproveitar a noite no local. Era por volta da 1 da manhã do dia 26 de abril quando todos estavam finalmente juntos novamente. Duda parecia bastante feliz naquele ambiente e, como todo jovem alegre, ele fazia brincadeiras e corria para todos os lados do acampamento enquanto aproveitava ali uma sensação inexplicável de liberdade entre amigos e a natureza. Até que de repente ninguém mais ouviu sua voz. A turma estava acampada bem perto de uma queda d'água e ouvia apenas o barulho das águas batendo nas rochas. Mesmo que chamassem por Duda insistentemente, não havia respostas. Sem nenhuma luz natural, enxergar a distância era uma tarefa impossível. Por isso, os amigos se reuniram em grupos e percorreram a região com lanternas, mas o rapaz não foi encontrado. Sem saber como agir, os jovens resolveram voltar para São Carlos e pedir ajuda ao Corpo de Bombeiros. Uma equipe de busca e salvamento voltou ao sítio com a turma e empenhou suas buscas na região onde Duda havia sido visto pela última vez. Os bombeiros desceram o morro, se embrenharam na mata, e às 4:30 da manhã o corpo de Carlos Eduardo Sunderman foi localizado aos pés da cachoeira. Foi concluído que, enquanto brincava ali pelo terreno, o jovem escorregou e despencou de uma altura de 45 metros, caindo de cabeça sobre uma pedra e morrendo instantaneamente. O seu corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal da cidade e o rapaz foi sepultado ao lado dos pais no final daquela tarde. 2 anos depois, em 2000, o caso do assassinato do casal Sundermann, que tramitou em segredo de justiça, acabou arquivado. Nem a morte de Carlos Eduardo, ou o arquivamento do caso, impediu que o povo parasse de lutar por justiça. Em junho de 2001, algumas figuras importantes compareceram à sessão da Comissão de Direitos Humanos, a Alesp, para falarem sobre a condução da investigação do assassinato do casal Sundermann. Foram essas pessoas o então prefeito de São Carlos, Newton Lima Neto, o delegado seccional da cidade, Pedro Luiz Nogueira Zannini, Antônio Dotta e Silva, que foi o último policial civil responsável pelas investigações em São Paulo, e Américo Gomes, coordenador do Instituto Rosa e José Sunderman, que foi fundado no ano 2000. Pedro Luiz Nogueira lamentou o insucesso do trabalho da Polícia Civil de São Carlos, mas garantiu que as autoridades sempre estiveram à disposição dos familiares e sindicalistas. Newton Lima, que era reitor da UFSCar na época do crime, lembrou do descaso das autoridades e que procurou apoio da Secretaria de Segurança Pública para que reforçassem os trabalhos, mas que não teve o retorno desejado. Anos mais tarde, em 2013, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, Rubens Paiva, também se debruçou sobre os arquivos do caso não solucionado, chancelando o que a militância gritava desde 94: tratava-se de um duplo homicídio estritamente político, operado para proteger o poder econômico dos usineiros. Em uma tentativa tardia de resposta, o inquérito foi reaberto e enviado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, na capital paulista, até que foi definitivamente arquivado, novamente, em 2014, após a prescrição do crime. Mesmo com o caso prescrito e arquivado, os amigos e companheiros de luta de José Luiz e Rosa Sundermann jamais os esqueceram ou deixaram de lutar por justiça. Todos os anos, eles se reúnem no dia 12 de junho para lembrar as execuções e cobrar respostas. Ainda hoje, mais de 3 décadas após a tragédia, mesmo que em menor número, os militantes e sindicalistas ocupam praças, portões da Delegacia Seccional de São Carlos e até a Reitoria da UFSCar para manter viva a memória do casal. No passado, Antônio Donizete da Silva, o Doni, chegou a dizer que as ruas seriam ocupadas até que o inquérito apontasse culpados. O Estado falhou e as respostas jamais vieram. Mas a promessa de manter viva a memória de José Luiz e Rosa permanece sendo abrida até hoje. E este foi o caso Sunderman, o casal assassinado no Dia dos Namorados. Eles foram ativistas, pessoas muito políticas, e eu achei interessante também mencionar aqui no final que em 2013 eles foram simbolicamente anistiados pela Caravana da Anistia. Para quem não conhece, a Caravana da Anistia, elas são sessões públicas promovidas pelo governo federal Federal, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Comissão de Anistia. O objetivo principal é julgar e reparar os pedidos de anistia política feitos por pessoas perseguidas durante a ditadura militar brasileira. E o José Luiz e a Rosa simbolicamente foram anistiados quase 20 anos depois, né, do assassinato deles. Hoje existe também o Instituto José Luiz e Rosa Sunderman, que é ligado ao partido fundado por eles, o PSTU. E também existe uma editora de livros que carrega o nome das vítimas, a Editora Sunderman, que foca na publicação de obras marxistas e a educação militante e revolucionária dos ativistas. A impunidade pode ter reinado neste caso de duplo assassinato, mas o esquecimento, esse jamais. Amanhã, quinta-feira, eu vou colocar no nosso Instagram, o Café com Crime, e também lá no Twitter, o Café C Crime, imagens e outras fotos relevantes para o caso narrado aqui para vocês. Eu volto daqui a 2 semanas, não na próxima quarta, mas na outra, com um novo episódio. E até lá, tranquem as portas, porque de desgraça já basta esse podcast. Tchau, tchau! Esse episódio foi roteirizado, produzido e apresentado por mim, Stephanie Zorro. YouTube, com pesquisa e roteiro de Ana Paula Almeida, design de som de Luide Calistrato. As fontes de pesquisa utilizadas neste episódio foram: jornal O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Jornal do Comércio, jornal A Tribuna, boletim Sinto Viscar, documentário de conclusão de curso produzido pela Universidade de Araraquara pelas alunas de jornalismo Bruna Andrés Galo, Jéssica Fernanda Taboas e Raíssa de Azevedo Vitulli. Portal São Carlos Agora e a ata da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, realizada em 13 de junho de 2013.

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