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195 | CASO JOANA GABRIELA: desaparecida na Serra da Miaba

27 de maio de 20261h41min
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Em setembro de 2020, a universitária Joana Gabriela Coutinho, de 21 anos, partiu para uma trilha na Serra da Miaba, interior de Sergipe, acompanhada de um rapaz que conheceu nas redes sociais. Poucos dias depois, Joana desapareceu sem deixar rastros. Enquanto a família enfrentava informações contraditórias e buscas desesperadas pela serra, Joana vivia um verdadeiro pesadelo dentro da mata. 

E hoje ela vem contar sua própria história no Café Com Crime.

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Créditos:

Produção, apresentação e roteiro por Stefanie Zorub

Edição e desenho de som por Luigi Calistrato

Pesquisa for Ana Paula Almeida

Roteiro por Mariana Bento

Participantes neste episódio4
E

Esté Zorubi

Hostpodcaster
J

Joana Gabriela Coutinho

ConvidadoEstudante de engenharia florestal
M

Manuel

Convidado
R

Rosane Fragas Coutinho

ConvidadoEnfermeira
Assuntos6
  • Caso Isabela NardoniDesaparecimento na Serra da Miaba · Trilha com desconhecido · Drogada e violentada · Sobrevivência na mata · Resgate e recuperação · Investigação policial · Arquivamento do caso
  • A busca e o resgate de JoanaDesespero da mãe Rosane · Mobilização de buscas · Encontro por Manuel · Resgate de helicóptero
  • Adoção e RecuperaçãoTratamento hospitalar e infecção por larvas · Lesões físicas e traumas psicológicos · Cirurgia na coluna · Reconstrução da vida e retomada de sonhos
  • Infância de GisèleCrescimento em Salvador e interior da Bahia · Interesse por causas ambientais e sociais · Estudos em Engenharia Florestal na USP · Adaptação a São Paulo e xenofobia · Retorno para a Bahia durante a pandemia
  • Contradições e discrepâncias investigativasIncoerências nos depoimentos dos suspeitos · Lesões incompatíveis com acidente · Prisão de suspeitos · Arquivamento do caso por falta de provas
  • Crises e ResilienciaA história como reflexo da violência contra mulheres · A força de Joana e Rosane · A importância de contar a própria história
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Qual é o seu maior desejo na gravidez? Alguns são tão reais que não dão coragem de dizer em voz alta. Quando a maternidade chega, surgem muitos desejos. Em parceria com Nestlé Materna, o podcast É Noia Minha estreia Noias da Maternidade. Vamos refletir quantas vidas uma mulher já carregava em si antes mesmo de se tornar mãe. É noia nossa ou sua também? Descubra no primeiro episódio. Nestlé Materna com você, do seu jeito.

Em 2020, uma jovem estudante de Engenharia Florestal da USP decidiu deixar São Paulo, em meio à pandemia, e voltar para a casa da mãe, na Bahia.

De lá, foi visitar a irmã mais velha em Aracaju, no Sergipe, buscando tranquilidade e escape de alguns estresses e pressões que estava passando. Ali surgiu a oportunidade de realizar uma trilha na Serra da Miaba com um amigo que havia conhecido nas redes sociais e estava de papinho há meses.

Ela, que era amante da natureza, aceitou o convite e preparou sua barraca, sua mochila e suas comidinhas e partiu para a serra para uma nova aventura. Mas o que deveria ser uma trilha do jeitinho que ela adorava, em meio a paisagens lindas e boa companhia, se tornou um pesadelo que mudou completamente sua vida. Um urubu me sobrevoou.

Eu tava, eu acho que essa ferida na cabeça tava muito fedendo, muito fedendo mesmo assim, de podre, de carne podre. Como se eu já tivesse morta. Eu lembro que eu fiquei muitas horas deitada assim. Eu já não tava tendo muita força pra me mover.

Eu senti muito sono. E eu senti. Eu senti. Era como se a vida tinha se despedido de mim. E daí. Eu olhei. O urubu me olhou. E depois ele foi embora. Enquanto está vivo ele não mete.

Enquanto o mundo, fora da mata, buscava pela jovem desaparecida há cinco dias, ela estava deitada no meio da serra, olhando para o céu, exausta. Ela acreditava que aquele seria o fim. Ela já não tinha mais forças e nem esperanças que conseguiria sair daquela situação. Eu lembro que eu olhei para o céu assim e pensei assim, né? Poxa, Deus! É assim que morre?

Mas ela sobreviveu. E hoje conta sua história para nós aqui no Café com Crime. Esse é o episódio 195, caso Joana Gabriela, desaparecida na Serra da Miaba.

Alô, olá, alô, vai tudo bem? Bem-vindos ao Café com Crime, o podcast onde você pode ser o aficionado por crimes reais que você é, sem julgamentos. Eu sou a Estés Orbi, ou dona café, como preferir, e hoje trago uma história de sobrevivência, coragem e resiliência que me emocionou profundamente. E o mais especial de tudo é que a própria sobrevivente, a Joana Gabriela, veio aqui contar essa história pra gente.

O caso ocorreu na Serra da Miaba em 2020. Joana Gabriela Coutinho, de 21 anos, é uma estudante de engenharia florestal na USP, apaixonada por natureza, causas ambientais e movimentos sociais. Ela gostava de trilhas, acampamentos, cachoeiras e tudo aquilo que a conectava com a natureza.

Então, quando surgiu a oportunidade de fazer uma trilha na Serra da Miaba, no interior de Sergipe, aquilo parecia só mais uma aventura entre jovens que ela guardaria com carinho na memória anos depois. Mas não foi.

o que deveria ter sido apenas um passeio de poucos dias, se tornou em um desaparecimento angustiante, cercado de versões contraditórias, memórias fragmentadas e sinais de uma violência brutal. Durante dias, Joana ficou desaparecida em uma região de mata extremamente difícil, enquanto sua mãe, Rosane, atravessava cidades, enfrentava o descaso das autoridades e tentava desesperadamente encontrar a filha viva.

Eu preciso dizer, essa é também uma história sobre o amor de uma mãe.

Eu quero agradecer antes mesmo de iniciar essa história a Joana e a Rosane por terem compartilhado esse relato tão emocionante com a gente. Obrigada. Antes de começar, também preciso avisar que o nome de todos os suspeitos foram modificados. Isso foi um pedido de Joana, a vítima, que eu acatei e eu espero do fundo do coração que vocês também acatem. Essa história é da Joana e de ninguém mais. Uma história forte e impactante que eu fico muito feliz que ela tenha vindo dividir aqui com a gente.

Bom, antes de ir para o caso, não deixe de seguir a gente aí na plataforma onde você está ouvindo, ative as notificações para não perder nenhum episódio novo, e se puder, deixe sua avaliação também. Parece pouco, mas para a Dona Café aqui, para toda a equipe, isso é tudo. E se você gosta muito dos nossos episódios aqui no Café com Crime, saiba que você pode escutar ainda mais histórias. Todo mês eu lanço um episódio exclusivo para os apoiadores do podcast.

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Lembrando que este podcast faz uso de efeitos sonoros, então se puder, escute de fone de ouvido e alerta de gatilho. Vamos tratar de temas como violência, uso de substâncias e abuso sexual. Ouça a seu critério. E com isso, bora começar do começo?

O Estado da Bahia sempre carregou uma energia própria, ou um molho, como dizem.

Entre o litoral e o interior, o estado cresceu marcado pela música, pela religiosidade, pelas festas e por um cotidiano vivido nas ruas, entre vizinhos, feiras e famílias numerosas. O calor constante, a comida preparada lentamente e os costumes passados de geração em geração ajudavam a construir um lugar onde a tradição, música, natureza e comunidade caminhavam lado a lado.

E foi ali que Joana Gabriela Coutinho nasceu, a mais nova entre três irmãs e uma soteropolitana muito orgulhosa de sua origem. Joana cresceu cercada pela presença constante da família. Ainda na infância, a criança, observadora e quieta, sentiu o baque da separação dos pais. E apesar do episódio marcar sua infância, Joana era uma criança feliz, cercada por momentos de afeto e lembranças que até hoje guarda com carinho.

A infância foi dividida entre os dias em Salvador e as temporadas no interior da Bahia, em Araçás, onde parte da família vivia. Enquanto na capital as lembranças envolviam praia, carnaval e tardes ao lado dos primos, no interior a rotina ganhava outro ritmo.

No interior, acompanhava os tios cortando cana, ajudava, ou pelo menos acreditava ajudar, na preparação da castanha de caju e passava os dias explorando a natureza ao redor da casa da família. A gente chama lá, vamos para Rosa, Rosa e Aracaz, lá no interior da Bahia.

E eu tenho muita lembrança de rolar na terra também, descer morro abaixo rolando, subir em árvore. Eu fico olhando assim, de verdade, eu não sei como é que eu tinha coragem. Quando eu olho para as árvores hoje em dia, a árvore parecia, hoje em dia, para mim parece tão grande. E eu ficava pensando assim, eu era menor, a árvore parecia menor para mim. E como é que eu subia nisso? Eu menor ainda.

Essa aí, por sinal, é a voz da Joana Gabriela, que você vai ouvir muito neste episódio, enquanto ela conta a sua própria história. Joana era uma aluna aplicada e conseguiu uma vaga em um colégio militar, e rapidamente passou a se destacar pelos resultados acadêmicos. Desde cedo, participava de Olimpíadas de Matemática e acumulava boas notas, conquistando posições de liderança entre os estudantes.

Além da rotina intensa e de estudos, também se envolvia em projetos escolares, rádio estudantil e atividades extracurriculares que ampliavam ainda mais o seu interesse pelo mundo ao redor. Durante o ensino médio, Joana começou a direcionar esse interesse pelas questões ambientais e sociais.

onde encontrou ali a sua verdadeira paixão. Ela participou de projetos ligados à pesquisa e alfabetização científica através da UNEB, a Universidade do Estado da Bahia. Ela desenvolveu também estudos sobre memória histórica, intolerância religiosa e preservação ambiental em Salvador.

Na mesma época, iniciou trabalhos voluntários no Greenpeace e, anos depois, também passaria a integrar o EngajaMundo, uma organização formada por jovens voltada para debates sobre justiça climática, meio ambiente e participação política.

palestra que eu assisti da Tabata Amaral, falando de como ela chegou em Harvard e tal, e eu lembro que isso me inspirou muito, assim, e eu comecei a sonhar com isso, né, com a possibilidade de falar inglês, de ir morar em outro país, poder ir para uma universidade internacional, e eu lembro que eu ficava, assim, falando para mim, eu vou mirar no melhor, qual o melhor? Esse que eu quero, esse que eu vou tentar. E eu lembro até de uma frase que foi dita nessa palestra, Miri...

no sol. Assim, é uma frase em inglês, mas enfim, eu não sei direito como é em inglês, mas era tipo, mire no sol, você talvez alcance as estrelas. E nesse sentido, apesar de que o sol é uma estrela, enfim, nessa ideia de mire o mais alto que você puder, o mais alto que sua concepção puder te dar, não limite seus sonhos. Aí eu comecei a ter esse negócio de se enrolar em atividade extracurricular.

As experiências ajudaram a fortalecer o interesse que mais tarde influenciaria diretamente a sua escolha pelo curso de Engenharia Florestal na universidade. Em 2019, Joana deixou a Bahia para trás e se mudou para o interior de São Paulo após conquistar uma vaga em Engenharia Florestal na USP, em Piracicaba. A mudança marcou a primeira vez que viveu longe da família e também a primeira vez fora do Nordeste.

Em meio à adaptação à universidade, mergulhou em projetos ligados à educação ambiental, agroecologia, reciclagem e reforma agrária, experiências que ampliaram ainda mais a sua conexão com pautas sociais e ambientais. Mas a chegada em São Paulo não foi só flores. Também trouxe um choque cultural difícil de ignorar. Cercada por uma realidade muito diferente da que conhecia, Joana passou a enfrentar episódios de xenofobia.

e um sentimento crescente de distanciamento da própria identidade. Na tentativa de se adaptar e pertencer àquele novo ambiente, ela percebeu até mudanças na própria personalidade. Até mesmo começou a perder o sotaque e parar de fazer uso de certas expressões que eram tão comuns em seu dia a dia.

E quando eu passei na faculdade, meu Deus, agora eu tenho um norte. Sei o que é que eu vou fazer, para onde é que vai minha energia agora. Mas eu fui para São Paulo, eu acho que muito cru, sabe? Eu acho que eu teria ido, não sei se é a melhor expressão, mas um pouco mais armada, um pouco mais firme de mim, de quem eu sou, de minhas raízes.

do que é que eu fui fazer lá. E eu sinto que eu fui muito aberta, assim, sabe? E daí, alguns comentários, algumas coisas assim, me tocaram em um lugar muito íntimo, porque eu sinto que eu estava muito aberta, assim. E, de alguma forma, eu não estou culpando ninguém, não. Mas eu acho que eu não estava preparada. Mas foi importante também.

Isso foi como se fosse dissolvendo minha identidade. E ao invés de querer me reafinar, eu queria ser como outras pessoas, ser aceita lá pelas pessoas. Uma mudança bastante forte que ela passou durante os seus anos de formação. Sabe essa fase que você está ali com os seus...

18 anos, 19 anos, descobrindo quem você é, e aí você se vê jogado num ambiente totalmente diferente da sua realidade, e você se pergunta quem é que eu sou? Quem é que eu sou longe da minha terra, da minha família, daquilo que é comum para mim? E Joana começou a passar por esse processo de auto-identificação, e às vezes a gente se perde um pouco antes de se encontrar.

Só que no meio de toda essa adaptação, cidade nova, faculdade, novas pessoas, veio a pandemia. Tudo fechou, inclusive a universidade. As aulas passaram a ser exclusivamente online e Joana se viu de volta à Bahia. Depois de meses tentando se adaptar à rotina em São Paulo e ao ambiente universitário, ela retornou para uma casa cheia, em meio à convivência intensa com a família e às dificuldades impostas pelo isolamento.

Esse período foi marcado por conflitos, falta de privacidade e tensão constante dentro de casa. Diferentes núcleos familiares dividiam ali o mesmo espaço, o mesmo terreno. Em meio ao desgaste emocional e à pressão das aulas online, a mãe de Joana, a dona Rosane Fragas Coutinho, de 51 anos, veio com uma ideia para aliviar a exaustão da filha caçula.

Daí minha mãe sugeriu, assim, para gerar um pouco menos de estresse, talvez eu tenha mais respiro para estudar, que eu fosse para Aracaju, ficar um tempo com minha irmã, ficar um tempo com meus sobrinhos. E assim, Joana acabou embarcando em mais uma mudança.

Com 21 anos e uma bagagem na mão, ela desembarcou em Aracaju para uma temporada na casa da irmã mais velha, que já era casada com um policial militar, era mãe de um filho pequeno e estava esperando outro bebê. A casa da irmã era bem mais tranquila do que a casa da família em Salvador, e mesmo com a rotina da criança pequena, Joana conseguia estudar com mais calma e ter um pouco mais de respiro, e claro, conhecer a nova cidade e novas pessoas.

E eu ainda tava com aquele negócio assim de querer agir como o outro. Mas assim, ia pra conhecer Aracaju e tal, saía passeada. Eu conheci esse carinha, comecei a conversar com ele no Instagram. Daí a gente chegou a sair algumas vezes lá no Aracaju.

Foi durante a estadia em Aracaju que Joana acabou conhecendo pessoalmente um rapaz que vamos dar aqui o nome de Tiago. Os dois se conheceram pelas redes sociais cerca de três meses antes da ida de Joana para Aracaju. Joana e Tiago eram dois jovens com interesses em comum e que amavam a natureza.

Esse interesse fomentava conversas e, logo, o bate-papo, que era virtual, se transformou em presencial. Eles marcavam passeios, andavam de bicicleta juntos pela cidade, conhecendo alguns pontos de Aracaju, e logo começaram a falar sobre suas paixões.

E foram ali, de papinho, curtindo a conversa e a presença um do outro. E foi durante uma dessas conversas que Tiago falou sobre a Serra da Miaba. Localizada a aproximadamente 70 quilômetros de Aracaju, a região é conhecida pelas trilhas, cachoeiras e pela natureza preservada.

Tiago não parava de exaltar as qualidades do lugar para Joana. E ela, como estudante de engenharia florestal e entusiasta da natureza, logo se interessou em conhecer a serra. E não demorou muito para o convite vir para uma visita ao local.

E daí ele falava muito da Serra da Minhaba, né? Falava muito da Serra da Minhaba, Serra da Minhaba, Serra da Minhaba. Teve um dia que eu peguei e falei, vamos tal dia, né? Ele falou, vamos, vamos, eu disse, tá bom, vamos. O interesse foi tão grande pelo local que Joana mencionou com a família sobre um passeio até lá. E sendo Joana quem era, a família já estava acostumada com as trilhas dela por florestas, serras e parques.

Porém, mesmo assim, a mãe desencorajou a ida, por ainda ser pandemia e, claro, o famoso sexto sentido de mãe.

A data para o passeio foi marcada, dia 27 de janeiro, uma segunda-feira. Para a irmã, Joana disse que iria sozinha, e pelo histórico aventureiro de Joana, a irmã sequer desconfiou. Seria só um passeio normal pela serra e logo Joana estaria de volta. A Joana deu a certeza de que não seriam mais do que dois dias fora. No máximo, até quarta-feira ela estaria de volta.

Naquela segunda de manhã, Joana fez uma prova online da faculdade e, em seguida, arrumou suas coisas. Equipada com sua pochete, barraca, mochila recheada de cenouras, beterrabas e afins, ela estava numa fase de comer apenas alimentos crus. A Joana pegou tudo, se despediu da irmã naquela segunda-feira e foi rumo à Serra da Miaba.

Ela avisou tudo para uma amiga de faculdade de São Paulo, ela falou com quem ia, para onde ia, deu todas as informações. E essa amiga estava a par de tudo. Naquela tarde, ela encontrou com Tiago, ainda em Aracaju, e os dois seguiram para a casa dele. No local, havia outras pessoas que Joana não soube identificar exatamente se eram amigos ou familiares.

A gente se encontrou em algum lugar e a gente foi para a casa dele. Tinha várias outras pessoas lá. Eu não sei se primo, se amigo. Não lembro direito, eu acho que era amigo. Daí eu lembro até de um incenso que uma das pessoas lá estava queimando. Pago Santo, um pedaço de pau que ela queimava e tal. Eu nunca tinha ouvido falar. Esse cheiro viria visitar Joana novamente lá na serra, num dos momentos mais angustiantes.

Antes de partir para a Serra da Miaba, Joana e Tiago ainda passaram na frente de outra casa. Joana se lembraia mais tarde de uma movimentação rápida, alguma troca de objetos ou conversas, algo meio suspeito, mas ela não conseguiu entender exatamente o que estava acontecendo. Algo mexeu ali com a sua intuição novamente, e a inquietação aumentava.

Já era noite quando os dois embarcaram em uma van rumo a um povoado próximo de Terra Vermelha, no interior sergipano. De lá, seguiram a pé até outro vilarejo, onde decidiram passar a noite. Com a barraca montada no meio da praça da pequena cidade, Joana e Tiago dormiram ali mesmo antes de continuar a viagem na manhã seguinte.

No outro dia, na terça-feira, os dois tomaram café da manhã na praça e seguiram caminho em direção à serra. Conforme avançavam pelo interior, Joana começou a perceber uma sensação difícil de explicar. Não era algo físico, como dor ou enjoo?

mas uma inquietação crescente que ela mesma descreveu depois como um sentimento vindo da própria intuição. Ao longo do trajeto, passaram por diferentes lugares, conversaram com algumas pessoas e pegaram carona na carroceria de um veículo que os levou ainda mais para dentro da região da mata.

Já próximos da Serra da Miaba, os dois chegaram a uma pequena venda localizada no pé da serra. A gente chegou nessa casa que fica no pé da serra. A gente ficou muito tempo lá, eu acho. Ele comprou uma bebida lá, alucinógena. Ele me ofereceu. Eu disse que eu não queria. Eu não estava me sentindo bem.

Já tinha várias coisas que eu não lembrava do caminho. E estava aquilo, como se fosse mesmo a intuição. Eu não estava me sentindo bem. Tiago parecia conhecer bem o dono do local e também o filho dele. Enquanto permaneciam ali, Joana começou a se sentir cada vez mais desconfortável.

O comportamento daquele rapaz, que ela considerava um amigo, uma pessoa que ela estava ali naquele relacionamento de flerte bem legal, começou a mudar de uma forma que Joana não conseguia explicar. Estava esse cara mais velho, né, que mora nessa casa, tinha mesmo a vinhedinha.

E o filho dele, o cara que me levou, tinha muita intimidade, conhecia muito ele. E quando a gente chegou aí, depois de um tempo, assim, eu lembro, assim, um pouco de eu ter sido alvo de uma certa zombaria, assim, sabe? Eu não lembro direito o quê, mas, assim, de ter havido alguma chacota. Durante as conversas, Joana também começou a desconfiar que Tiago havia mexido em suas coisas durante a noite anterior, invadido a sua privacidade.

Eu acho que eu tinha levado uma laranja, alguma coisa assim. Eu pedi uma faca pra esse senhor. Esse cara que foi comigo, ele fez assim, você tá pedindo faca pra quê, se você tem uma? E eu lembro que eu fiquei me perguntando, assim, como é que ele sabia que eu tinha levado uma faca na pochete? Porque eu não tinha tirado. Será? Eu ainda fiquei assim, né? Não sei se ele mexeu em minhas coisas enquanto eu tava dormindo. Inclusive, eu fico até pensando assim...

Meu celular não tinha senha nenhuma, trava nenhuma, de nada. Meu Deus do céu, eu lembro disso assim. Eu ainda fiquei matutando aquilo. Como é que ele sabe? A sensação de estranheza aumentava conforme o tempo passava. E pouco a pouco, Joana começou a se sentir ameaçada.

Quando a gente tava saindo, o filho desse cara lá pegou e fez assim... Perguntando como se fosse assim se eu ia aguentar, se eu ia aguentar. Rindo assim. E eu sem entender. E daí eu lembro que ele pegou e fez assim... Só não pode chorar, viu? Só não pode chorar.

Sem entender o motivo de tudo aquilo, Joana seguiu caminho com os rapazes saindo da vendinha. Agora, a Serra da Miaba se assomava à frente deles em toda sua altivez. E eles entraram na trilha.

Mas bastou entrarem um pouco mais na mata para que a sensação ruim tomasse conta de vez. A trilha de 16 quilômetros ganhava forma na frente dos dois. Mas não era o desafio que aquele percurso implicava que preocupava Joana. Em determinado momento da subida, Joana se afastou da trilha e entrou em meio ao mato. Quando Tiago perguntou o que ela estava fazendo, ela respondeu apenas uma frase. Eu vou chorar. E então começou a chorar.

E o Tiago sequer foi consolá-la ou perguntar o que estava acontecendo, se ela precisava de ajuda. Não. Enquanto chorava à beira da trilha, uma pessoa que morava próxima ao pé da serra se aproximou ao perceber aquela cena.

O homem perguntou se estava tudo bem, se tinha acontecido algum problema. Só que ele não perguntou num tom de ajudar Joana, e sim perguntou isso voltado para Tiago, como se Tiago é que precisasse de algum auxílio ali com a Joana. Antes que Joana pudesse responder qualquer coisa, Tiago disse que estava tudo sob controle e dispensou a ajuda. Pouco depois, o homem foi embora.

Eu não sei se ele queria me ajudar, não. Eu acho que ele queria ajudar o cara que estava comigo. Entendeu? Ele falou assim, não pode deixar que aqui eu resolvo. E daí a pessoa foi embora. A gente ficou ali um tempo. Eu lembro, inclusive, dele me dar coisa para beber. Eu não sei o quê. Aí eu tenho uns flashes assim da trilha. Uns flashes. Os dois permaneceram ali por mais algum tempo antes de continuarem a subida.

Diferente de outras trilhas que costumava fazer, Joana não conseguia prestar atenção na vegetação, na paisagem ou em qualquer detalhe do caminho. Tudo parecia distante e confuso. A sensação de desconforto e preocupação já tomava conta de tudo.

Sua cabeça estava confusa demais e ela não se sentia bem. Eu queria muito ter tido essa experiência de maneira mais viva. Eu era acostumada a fazer trilha. E assim, de olhar a vegetação. Trazer também o que eu tenho de bagagem do meu curso, sabe? Pra olhar a vegetação.

A formação do solo, como é que se constrói a paisagem. O tipo de coisa que eu gosto de olhar quando eu faço uma trilha. E daí, eu estava muito alheia de tudo isso. Assim, começaram a ficar muito confusas as coisas, sabe? Quando finalmente chegaram ao acampamento no topo da Serra da Miaba, Joana se surpreendeu ao encontrar várias pessoas no local, todos homens.

Em algum momento da viagem, Tiago havia comentado que, ocasionalmente, algumas pessoas apareciam por lá, mas a impressão que Joana teve ao chegar era diferente. Mas a sensação que me deu quando eu cheguei lá é de que ele sabia que eles estariam lá. Ele tinha certeza e não me comunicou.

Joana sequer se lembraria depois de ter sido apresentada para qualquer uma daquelas pessoas. Conforme a trilha seguia, mais Joana perdia o controle de sua consciência, entre flashes de situações e uma confusão que se intensificava com o passar do dia.

Mas eu lembro de uma hora que eu tava lavando um prato no rio. Um prato que não era meu, que não fui eu que sujei. Eu tava abaixada no rio lavando um prato. Eu não sei, não sei por que, nem... Enfim, tudo meio confuso, assim. Aí eu lembro, assim, de uma hora de pés andando, assim, sabe? Olhar pra meu pé, me ver andando. Ver o pé de outras pessoas andando, assim. Vários flashes, assim.

A partir daquele momento, a sensação de confusão começou a se intensificar de forma ainda mais desorientadora. Joana alternava entre pequenos lapsos de consciência e longos períodos em que tudo parecia desconectado, como se estivesse apenas acompanhando o próprio corpo de longe. Às vezes, caminhava apenas com Tiago. Em outros momentos, percebia que os outros homens continuavam por perto.

espalhados pela trilha, mas sempre próximos o suficiente para que ela se sentisse cercada. Nos raros instantes em que conseguia recuperar algum senso de lucidez, a sua mente tentava desesperadamente organizar o que estava acontecendo. Teve uma hora, eu comecei, nesses momentos que me dava um... que minha consciência conseguia voltar.

Que eu ficava, o que foi que aconteceu? Como foi que eu cheguei aqui? Quem são essas pessoas? O que é que tá acontecendo? Meu cérebro só ficava assim, né? Tentando encontrar lógica. Conforme as horas passavam, a sensação de que havia algo errado começou a ganhar força.

Joana passou a suspeitar que pudesse estar sob efeito de alguma substância, talvez a bebida alucinógena que Tiago comprou na vendinha. Mas o seu raciocínio lógico logo ia embora, e tudo voltava a apagar outra vez. Em um dos momentos mais marcantes, ela se viu entrando em um rio com Tiago.

Ele começou a tomar banho e ela apenas o seguiu automaticamente, sem conseguir pensar com clareza no que estava fazendo. A sensação era de estar acordada, mas sem controle sobre si mesma. Eu não estava consciente, mas eu estava acordada. Qualquer coisa que qualquer pessoa me mandasse fazer, eu faria. Tipo um zumbi, meio que uma zumbi.

Dentro da água, porém, algo pareceu mudar. Enquanto percebia dois homens observando a cena à distância, Joana sentiu uma espécie de choque físico ao entrar no rio, como se o contato com a água tivesse provocado um breve retorno da lucidez.

Pela primeira vez, uma suspeita surgiu de maneira clara em sua mente. E eu lembro que quando eu entrei dentro da água, se eu tinha dúvida, agora eu tinha certeza de que eu estava sendo drogada. Parece que, na seguida, é um choque entrar dentro da água, um choque no corpo e, não sei, uma lucidez. E eu peguei e fiz assim, eu estou sendo drogada.

A revelação provocou um desespero imediato. Por alguns instantes, ela cogitou fugir dali correndo, mas ainda tentava convencer a si mesma de que talvez estivesse enganada. Ela procurava dar o benefício da dúvida, imaginando que pudesse ter ingerido algo sem perceber ou que estivesse interpretando mal a situação. Mesmo assim, o desconforto só fazia aumentar.

Ela permaneceu algum tempo boiando no rio, ainda completamente vestida, já que não quis tirar a roupa diante dos homens desconhecidos que a observavam no local. Quando a noite chegou, o medo tomou proporções ainda mais intensas. Eu acho que eu não tive nenhum outro momento na minha vida que eu senti tanto medo quanto eu senti naquela noite.

Dentro da barraca, Joana conseguia ouvir as vozes do lado de fora, reunidas ao redor da fogueira. Sem conseguir dormir direito, ela permanecia alerta enquanto escutava fragmentos das conversas. Joana ouviu dois homens conversando e um deles comentou que era assim mesmo, que aquele comportamento dela fazia parte do processo.

dizendo que pessoas submetidas a um suposto ritual de cura costumavam ficar mais caladas e diferentes no início.

Essa conversa acendeu ainda mais um alerta na cabeça de Joana, transformando a situação que já era estranha em ainda mais ameaçadora. Que processo, que ritual de cura era aquele? Eu acabei apagando, assim, eu lembro que eu queria tentar ficar acordada, sabe? Eu acabei apagando. E eu lembro, assim, que eu estava me sentindo muito pequena, sabe? Muito pequena. Muito que feliz.

Na manhã seguinte, quarta-feira, dia 29 de setembro, algo parecia diferente. Ao acordar, Joana relata ter sido tomada por uma convicção imediata e inexplicável de que corria perigo. Eu lembro que eu acordei com a certeza de que eu ia morrer. Eu não sei explicar nada.

Sem entender exatamente porquê, Joana começou a agir de maneira automática. Vestiu mais camadas de roupa por cima das que já usava, como se tentasse se proteger fisicamente, pegou alguns pertences e passou a espalhar peças de roupa e pequenos bilhetes pelo caminho por onde passava.

E eu fiquei assim, eu vou pelo menos tentar deixar algum rastro, né, para se eu morrer, as pessoas só saberem o que foi que teve, o que foi que aconteceu, onde é que eu estava. Enquanto tentava encontrar sinal no celular, Joana comeu uma beterraba que havia levado na mochila. Já faziam muitas horas desde a última vez que ela havia se alimentado.

e o seu corpo, já debilitado, sentiu uma nova onda de energia e clareza mental depois de comer. Foi nesse momento que decidiu que não aceitaria mais comida ou bebida oferecida por qualquer um daqueles homens. Também passou a evitar proximidade física, porque tinha a sensação de que bastava que eles se aproximassem para que sua consciência voltasse a desaparecer. Ela estava decidida, o seu comportamento tinha mudado. Antes completamente passiva, agora Joane estava decidida a ir embora dali.

Eu cheguei pra ele e falei assim, eu quero ir embora. Eu pensei até em ir sozinha, ir embora sozinha, só que a descida eu ia ter que passar pelo acampamento desses outros caras, ia ter que ainda chegar no pé da serra, que teve também aquele lugar lá. Muitos processos eu nem lembrava do caminho pra voltar. Como é que ia voltar?

E eu fiquei pensando assim, pode ser que eles sejam os maus e esse carinha que me trouxe não está relacionado a nada disso. Várias coisas assim. E daí eu disse, não, vamos com calma para dar o benefício da dúvida. Eu vou voltar, vou organizar minhas coisas e daí a gente vai e volta. Quando eu falei eu quero ir embora, eu lembro que ele ficou me olhando assim meio estranho e fez assim, tipo, tá bom. Joana acreditou que aquilo bastava para que pudesse sair dali.

Foi nesse momento que ele chamou um dos outros homens. Entre eles existia uma espécie de código. Para se chamarem à distância, arrulhavam como pombos, um som que Joana já havia percebido antes entre o grupo, e que naquele momento reforçou ainda mais a sensação de que todos ali já se conheciam muito bem, e que aquele encontro na trilha não era obra do acaso.

Não demorou, depois daquele som de pombo, para que um dos homens aparecesse ali trazendo café. Ele sequer perguntou se Joana queria beber, apenas entregou a bebida em um pedaço cortado de garrafa pet improvisado como copo. Joana lembra que fingiu beber enquanto segurava o recipiente nas mãos. Depois, se sentou em uma pedra, enquanto os três homens permaneciam próximos.

Tiago observava em silêncio. O outro rapaz ficou apenas olhando ali a conversa. Já o homem que havia levado o café começou a questioná-la sobre a decisão de ir embora.

Aí esse carinha começou a falar comigo que trouxe o café. Então quer dizer que você vai embora. Ele disse, é. Eu não sei não, viu? Quem vem para cá não fica tão pouco tempo assim, não. Quem vem para cá passa mais dias. Você tem certeza que você vai embora? E ele falando assim. E eu me senti ameaçada nesse momento.

O que vamos combinar, né? Como que uma pessoa desconhecida chega pra você falando assim? Como se coordenasse a sua vida. Como se tivesse o poder de decisão em cima daqueles que estão ali na serra, né? São camadas e camadas de absurdo. Enfim.

Tentando manter a calma, Joana respondeu apenas que precisava voltar, que tinha um compromisso com a família dela e não podia mais ficar ali. Mesmo assim, ele continuou repetindo as mesmas frases, como se tentasse e fazê-la desistir da ideia. Depois de algum tempo, encerrou a conversa dizendo que Joana e Tiago poderiam passar no outro acampamento antes da descida, que eles preparariam um café para os dois.

Assim que o homem se afastou, Joana deixou discretamente o recipiente com a bebida sobre a pedra, sem tomar um gole sequer. Quando ele já estava indo embora, ainda ouviu um comentário em voz baixa direcionada a Tiago. Quando ele estava indo embora, ele falou com o parente que tinha me levado. Pegou e falou assim, bem baixinho, nem o café.

E saio. A frase aumentou ainda mais a sensação de perigo e a crença de Joana de que estava sendo drogada através de bebidas e alimentos que aceitava daquelas pessoas. Joana sentia que precisava aproveitar cada instante de lucidez enquanto ainda conseguia pensar com clareza, porque tinha medo de que sua consciência desaparecesse outra vez a qualquer momento.

Pouco depois, Tiago terminou de arrumar as coisas e os dois seguiram até o rio para encher as garrafas de água. Enquanto ele se abaixava para pegar água, Joana tentava organizar rapidamente um plano de fuga. Naquele momento, decidiu que não iria para o outro acampamento de jeito nenhum. Em sua cabeça, começou a pensar que talvez pudesse simplesmente seguir o curso do rio. Imaginava que em algum momento a água desaguaria em algum lugar habitado ou próximo ao mar. Ainda tinha algumas cenouras e outros alimentos na mochila.

pensava que talvez conseguisse sobreviver tempo suficiente para encontrar ajuda. Mesmo assim, continuava dividida em relação a Tiago. Parte dela ainda queria acreditar que ele não estivesse envolvido em nada daquilo. Eu acho que na hora eu estava me sentindo também um pouco salvadora, que os outros poderiam ser mal e ele que estava comigo ainda não era mal. Foi então que tentou convencer Tiago a descer o rio com ela, longe do restante do grupo.

Mas a reação dele foi completamente diferente da pessoa que ela havia conhecido antes da viagem. O rapaz até então aventureiro, espontâneo e disposto a qualquer coisa, parecia ter desaparecido. Eu lembro que quando eu falei, ele começou a falar assim, pra que você está inventando isso?

vamos tomar café lá, o pessoal vai fazer o café, vamos tomar café, depois a gente vê se está querendo inventar coisas, não sei o que lá. Enquanto desciam próximos ao rio, Joana seguia indecisa entre fugir sozinha ou esperar que ele fosse junto. Mas ela continuou descendo, seguindo o rio. Em determinado momento, parou em algumas pedras e resolveu esperar um pouco mais, ainda tentando decidir o que fazer.

Foi nesse momento que ela pegou a garrafa de água que Tiago encheu. Sentei em umas pedras e decidi esperar. Se estava indecisa, se eu continuava, eu só esperava ele. Bebi água. Eu lembro de beber água. Apagou.

Joana Gabriela sentiu uma pancada atrás da cabeça e perdeu completamente a consciência. E para sua família, de volta a Aracaju e Salvador, Joana estava desaparecida, por dias e dias, na Serra da Meaba.

É, é teixo. Por isso, vamos dar uma pausa, tomar um gole de café e falar de coisa boa. Comprinhas pro seu guarda-roupas. Mas espera que eu não tô falando de comprar por impulso, e sim comprar algo que realmente melhora a sua rotina. Pra quem está sempre na correria, como eu, a gente sabe que conforto faz sim a diferença. Entre as horas que a gente passa trabalhando, se deslocando, resolvendo o problema e vivendo, né? Simplesmente vivendo, a gente precisa estar confortável. Senão, a roupa vira só mais um problema.

E é por isso que eu gosto tanto da Insider. Quem me vê lá nos stories do Instagram sabe que eu tô sempre com a minha wingsuit. Isso porque ela é leve, confortável, respirável e feita pra acompanhar o ritmo da minha vida corrida, sem ficar me incomodando ao longo do dia. As roupas da Insider são daquelas que você veste e simplesmente funciona, além de deixar, assim, lindíssima. É uma compra inteligente.

E o melhor, usando o cupom CAFÉCOMCRIME, você ganha 15% off se é a sua primeira vez comprando Insider, ou 10% off para clientes recorrentes. E isso ainda se soma aos descontos que já estão lá no site. Eu vou deixar o link do meu cupom na descrição deste episódio. Obrigada, Insider, por estar com os crimiseiros mais uma vez. E com isso, podemos voltar para o crime.

O dia 27 de setembro de 2020 seria mais um dia comum na vida de Rosane Fragas Coutinho, de 51 anos, um domingo que marcaria ali o início da sua semana de trabalho. Rosane havia deixado o emprego no Hospital Regional Dantas Bião, em Salvador, e agora trabalhava com home care, cuidados domiciliares, fazendo plantões de 24 horas.

Aquela segunda-feira seria mais um desses plantões. Porém, a sua noite de sono não foi tranquila o suficiente para recarregar as energias. Ela sonhou com a filha mais nova, Joana. Eu tive um sonho no domingo. Liguei para falar com ela, mas a irmã dela atendeu. No sonho, eu me lembro que eu via ela caída em um lugar, toda machucada, como se fosse um acidente de asfalto, em um lugar de asfalto. Eu achava que era asfalto.

E aí tentava falar com ela, mas só que eu não consegui. Eu falei com a irmã dela. Essa é a voz de Rosane, a mãe de Joana, que você vai ouvir bastante neste episódio, contando a história do desaparecimento de sua filha. Afinal, essa também é a história de uma mãe que lutou pela vida da filha.

Alertada pelo sonho, Rosane ligou para Aracaju. Como a filha mais velha disse que Joana estava bem, que só tinha ido passear e logo voltaria, ela não tinha nada com o que se preocupar. A Rosane seguiu para o seu plantão ainda com aquele aperto no peito.

Mesmo assim, naquele momento, ela acreditava que a sua filha voltaria logo para casa, estava lá fazendo a sua aventura pela natureza como tanto amava. Joana tinha viajado no começo da semana, naquela segunda-feira mesmo, e deveria retornar em um ou dois dias. Por isso, quando não conseguiu falar com Joana na segunda-feira por telefone, ela tentou não se desesperar. Ela foi descansar depois do plantão e na terça-feira...

Joana ainda não tinha aparecido. Quando a tarde chegou e nada dela voltar, Rosane começou a estranhar a situação. Aí minha outra filha disse, ah, ela foi para não sei aonde. Eu digo, sozinha. Ainda me chateei com ela. Por que você não me ligou? Aí quando foi na terça, mas amanhã ela está aqui de tarde. Quando foi na terça, ela não estava. Ah, mas ela disse que vinha o terça ou quarta. Quando foi na quarta, ela não estava. Aí eu já queria me dispor para ir.

Rosane conhecia a filha e sabia que aquele comportamento não era normal. Mesmo quando Joana demorava para responder, ela conseguia perceber de alguma forma que a filha estava bem. Às vezes era uma mensagem visualizada, alguma movimentação nas redes sociais, qualquer detalhe que mostrasse que ela estava viva e segura. Mas daquela vez, não havia nada. O silêncio parecia errado.

Quando eu fui tomar paternidade de tudo, ela já tinha uns quatro dias sumida. Nessa brincadeira, porque sumiu na quarta, ela viajou acho que na segunda, ou foi no domingo, na segunda eu não consegui falar com ela, porque ia vir na terça, na terça ela não consegui falar, ah, talvez ela venha na quarta, aí eu disse, não, tá errado.

Ainda na quarta-feira, Rosane conseguiu entrar em contato com a amiga de Joana de São Paulo, aquela da faculdade com quem a Joana compartilhou todas as informações antes de seguir viagem. E foi aí que acabou descobrindo a verdade, que Joana tinha ido fazer trilha com um rapaz de Aracaju, pois até então a família acreditava que ela havia ido sozinha.

colega dela, que ela conversava muito aqui de São Paulo, que na quarta-feira à tarde me ligou e disse, dona Rosane, Gabriela está com as pessoas perigosas. E eu não estou conseguindo falar com ela. A filha mais velha de Rosane entrou no Instagram de Joana e começou a procurar as últimas pessoas com quem a sua irmã havia conversado antes da viagem, encontrando um rapaz que vamos chamá-lo de Paulo.

Paulo era conhecido de Tiago e ele se dispôs a ir à casa do companheiro de viagem de Joana para tentar descobrir alguma coisa. E quando voltou, trouxe uma resposta que só deixou tudo mais estranho. Tiago já estava em casa. Tinha voltado da Serra da Miaba sozinho. E disse que Joana tinha ido para outra festa em outro lugar.

Durante todo o tempo, as explicações eram sempre meio parecidas. Diziam que Joana tinha seguido viagem, que estava em outro canto, fazendo outras coisas, como se simplesmente ela tivesse decidido desaparecer sem avisar ninguém. Como se fosse normal ela sair indo de um lugar para o outro sem falar com a mãe.

Eu disse, alguma coisa aconteceu. E quando foi na quarta, da última que eu ia, aí o pai se dispôs a ir. Mas só ia no final da tarde. E aí ele terminou indo na quinta de manhã. Eu já estava de plantão de 24 horas. E ele voltou do meio do caminho, passando mal.

Com problemas cardíacos, João, o pai de Joana, não conseguiu continuar a viagem para buscar pela filha em Sergipe. Enquanto isso, Rosane seguia presa em seu plantão, agoniada. Vale aqui mencionar que uma cuidadora de idosos como Rosane não pode simplesmente deixar o plantão à hora que bem entender, já que isso pode se configurar em abandono de incapaz e gerar um problemão.

Por isso, ela precisou aguardar o fim do plantão. Durante toda a madrugada, tentou ligar repetidamente para Joana, sem sucesso. Quando saiu do trabalho, na sexta-feira pela manhã, ainda tentava se agarrar à ideia de que encontraria a filha em casa e que tudo aquilo terminaria em uma conversa difícil. Um puxão de orelha daqueles aguardava Joana. Era essa a esperança que Rosane tinha.

Quando eu chego na sexta de manhã, eu tinha dentista, aí eu disse assim, ela já deve estar em casa, mas eu vou conversar com ela que não era para ela ter ido. Aí quando eu chego lá, quando eu ligo para minha filha, já eram as 10 horas, eu digo, cadê Gabiá? Não chegou até hoje. Aí foi que eu comecei a tomar as providências. O chão de Rosane sumiu e a sua ficha caiu. Aquilo não era um atraso de sua filha caçula, não.

era muito mais sério. Joana podia ser acostumada a sair, fazer trilhas, andar por florestas, em projetos, porém aquela situação era muito diferente. A família começou então a tentar reconstruir os últimos passos da garota.

A filha do meio fez um cartaz de pessoa desaparecida às pressas, enquanto Rosane saía de Salvador em direção ao interior de Sergipe, tentando chegar até a região onde Joana tinha sido vista pela última vez, na cidade de São Domingos. A viagem foi longa e confusa. Em alguns momentos, Rosane se perdeu na estrada, mas não desistiu. Estava focada em encontrar a filha. Quando finalmente chegou em São Domingos, já passava de uma da manhã de sábado.

Embora não conhecesse a cidade, Rosane começou imediatamente a procurar informações. Ela havia chegado na sexta-feira à noite em um poço de gasolina na estrada da região, e sem conseguir seguir até o centro de São Domingos naquele horário, passou a madrugada esperando amanhecer. Por volta das quatro da manhã, um rapaz a levou de moto até a delegacia, mas ao chegar lá, descobriu que o local sequer funcionava aos finais de semana.

Uma cidadezinha de interior, né? Enquanto aguardava sem rumo pela cidade, ainda acordando, Rosane passou a conversar com as pessoas da feira que acontecia durante a madrugada. Foi ali que começou a ouvir os relatos sobre a Serra da Miaba. Comentários sobre usuários de drogas escondidos na região, furtos, roubos e idosos que já não conseguiam mais morar sozinhos por medo da situação.

Aos poucos, ela começava a entender o tamanho do perigo do lugar para onde a filha tinha ido. Rosane chegou a procurar ajuda na rádio local para encontrar pessoas que conhecessem a região e pudesse entrar na mata com ela, mas ouviu que o desaparecimento só poderia ser divulgado, noticiado pela imprensa, depois da apresentação de um boletim de ocorrência.

Foi então que ela pediu ao ex-marido que passasse pela cidade de Itabaiana para registrar oficialmente a queixa enquanto ele estava ali no seu caminho tentando chegar até São Domingos. Somente depois disso, já perto do meio-dia de sábado, o desaparecimento começou a ser divulgado nas rádios e nos jornais da região.

A partir daquele momento, algumas pessoas começaram a se mobilizar para ajudar nas buscas. Quando as equipes de busca finalmente se reuniram no sábado de manhã, o dono do armazém daquela vendinha no pé da Serra da Miaba, por onde Joana havia passado com Tiago no início da viagem, ele disse aos bombeiros que Joana havia aparecido na sexta-feira, comprado comida e voltado para o mato por vontade própria.

Ele afirmou para os bombeiros que Joana não queria ser encontrada pela mãe. Infelizmente, os bombeiros acreditaram nesse relato. Convencidos dessa versão, eles chegaram a subir a serra, mas retornaram pouco tempo depois sem aprofundar as buscas.

Aquilo revoltou Rosane, porque para ela, estavam tentando o tempo inteiro transformar o desaparecimento da filha em uma simples decisão voluntária dela fugir ou continuar viajando. Foi isso que o bombeiro me disse às 16 horas da tarde, que eles subiram na ferra e voltaram na mesma hora. Aí eu disse assim, vem cá, o senhor tem foto?

Quem foi que lhe informou isso? Quer dizer que eu vou agora para casa? Se daqui a uma semana ela não voltar, ela está aí dentro. Se daqui a um mês ela não voltar, ela está aí dentro. Porque alguém disse que ela está aí dentro. Eu quero foto, eu quero isso. Aliás, a senhora está muito nervosa, que não sei o quê, certo?

A noite de sábado para domingo foi a mais longa para Rosane. Acomodada em um sítio oferecido por um morador local, ela não conseguiu fechar os olhos. O cansaço de duas noites em claro não era páreo para a angústia de ouvir a todo momento que sua filha estava circulando livremente pela região. Mas a mãe conhecia a filha que tinha. Ela sabia que Joana não desapareceria assim, deixando-a desesperada de propósito.

Mas eu como mãe, né? E eu disse assim, se ela realmente fez isso, quem quer achar ela, quem vai achar ela agora sou eu. Eu dizia a eles, com essa conversa toda, quem vai achar ela agora sou eu. Aí a gente vai ter uma conversa. E já estava até irritada com ela, achando que, pelo jeito que me conversaram, que até ela tinha ido mesmo. Ela tinha virado mesmo.

Ainda no sábado à noite, Rosane decidiu confrontar as histórias que circulavam. Ela foi até a casa do dono do armazém que afirmava ter visto Joana. A conversa, porém, foi apenas mais um balde de água fria de informações desencontradas.

Ele morava lá na cidade, eu fui na casa dele. Aí ele disse, ele ainda falou assim comigo, ah, Joana Gabriela, eu vi, ela estava lá domingo. Eu digo, olha, Macambira. Eu disse, pelo amor de Deus, todo mundo viu, todo mundo sabe e ela não apareceu. Olhe bem, eu conheço a minha filha. Não é porque eu sou mãe e a gente quer ser enganada, não, eu conheço. Estela desapareceu, eu tenho certeza que ela não apareceu lá.

Mas o dono do armazém insistiu, inventou outras histórias, e com isso o desespero de Rosane crescia. Para ela, o esforço daquele homem em criar versões tão diferentes sobre o paradeiro de Joana só reforçava que alguma coisa grave tinha acontecido.

estava meio que desesperada. Eu digo, ó, essa aí, você não conhece o pessoal daqui que movimenta tudo? Fale com ele que me dê só o corpo. Isso no sábado à noite. Me dê só o corpo que eu vou-me embora. Acabou. Eu já não esperava mais. Porque assim, eu fui ouvindo tanta coisa, tanta história, sabendo de tantas situações. Eu disse, pronto, não está mais viva.

Joana acordou sozinha, muito abaixo do lugar onde se lembrava de ter estado pela última vez na Serra da Miaba. Dois dias haviam se passado e ela já não conseguia discernir se era dia ou noite. Sua cabeça era um turbilhão. Aos poucos, a consciência começava a voltar depois de tanto tempo desacordada. Mas a dor espalhada pelo corpo era intensa e constante.

Aí eu lembro que quando eu acordei, veio um turbilhão de coisas na mente. Onde é que eu tô? Cadê minha mochila? O que é que aconteceu? Pra onde é que eu tava indo? Cadê todo mundo? Onde é que eu tô? Não sei o que, aquela confusão. Eu não sei se é o Espírito Santo, se é o instinto de sobrevivência. O que é? Se é a intuição. Mas veio uma voz, assim, pra mim, falando assim...

Você estava descendo o rio. Continua. Mas ao tentar ficar em pé para descer o rio, afinal aqueles homens não estavam mais ali, ela poderia enfim voltar para casa e pedir ajuda. Mas ela não conseguiu. Não entendia naquele momento. Achava que talvez tivesse caído e por isso ela estava tão machucada sem conseguir se levantar. Ela também estava sem todas as suas provisões. Sem sua mochila, sem seu celular, barraca, faca. Tudo tinha sumido.

Começou a vir vários outros pensamentos também do porquê que eu não estava conseguindo ficar em pé. A voz de novo. Se não dá pra ir andando, vai engateando, vai se arrastando. E daí eu comecei minha peregrinação. Mesmo muito machucada e sem conseguir andar, Joana direcionou toda a pouca força que ainda lhe restava para os braços e começou a se arrastar, seguindo a direção do rio, descendo a serra. Ela estava decidida. Sairia dali.

Resiliência corria no sangue dessa família. Rosane também não desistiu de encontrar a filha e sua insistência a levou a conhecer exatamente o tipo de pessoa que ela precisava naquele momento. Um homem que realmente conhecia cada fenda daquelas montanhas. Esse senhor, sensibilizado pela dor de Rosane, garantiu que...

Se sua família, criada dentro daquelas grotas, não encontrasse Joana, ninguém mais acharia. No domingo pela manhã, enquanto os helicópteros voltavam a sobrevoar a área e a notícia se espalhava novamente pelos jornais, um grupo improvável se formou. Manuel, sobrinho desse senhor, tinha acabado de chegar de um plantão de trabalho. Estava sem dormir e cansado.

Mas, mesmo exausto, ele se juntou às equipes de buscas que o tio tinha organizado. Ninguém mais acha. Hoje o sobrinho dele tinha chegado de plantão. Num domingo, não tinha dormido. Esse menino, mais a mãe dele e mais umas três pessoas, juntou o grupo e foi. E foram procurar. No mesmo domingo, policiais militares também passaram a procurar Joana pela região.

O genro de Rosane, que era policial, reuniu um grupo de agentes para levar Tiago, que alegava não ter dinheiro para ir para São Domingo, até o local onde ele teria visto Joana pela última vez. Porém, durante o trajeto, já lá de volta na Serra da Miaba,

Tiago rodava em círculos pela mata, sem indicar exatamente o ponto onde tinha estado com Joana. Foi uma advogada que acompanhava o grupo quem percebeu um detalhe estranho no caminho. Um exemplar do livro, O Poder da Esperança, estava largado no meio da trilha.

Ao comentar sobre o livro, o Tiago imediatamente afirmou que o objeto era dele e que o havia perdido meses antes. Para Rosane, aquilo apenas aumentava mais as suspeitas sobre toda a história contada por Tiago, porque o livro estava intocado. Não tinha como aquele exemplar ter ficado embaixo de sol e de chuva por seis meses.

Quando ela pegou o livro, ele disse, ah, meu Deus, esse livro era meu, eu perdi, tem mais de seis meses. O livro não estava molhado, não estava sujo, não estava novinho. E aí ela segurou o livro para falar lá como prova também, para falar na delegacia, né? A operação das buscas por Joana depois foi nomeada no mesmo nome desse livro, O Poder da Esperança. Um nome bonito, né?

Enquanto isso, na delegacia, rastreavam o sinal de celular de Joana, tentando encontrar a última localização dela. E por incrível que pareça, a última localização aparecia como Minas Gerais? O que é um tanto curioso, né? Já que um celular hoje, tipo, essa localização não erra dessa forma.

de Sergipe para Minas Gerais, o que aconteceu com esse celular? Como que essa localização foi parar lá? Teria que ser uma mudança feita de propósito, né? Ou teriam vendido o celular dela e foi parar em Minas Gerais, porque, assim...

Muito bizarro. As horas passavam e o cenário era desolador para a família, porque nada parecia ajudar a encontrar Joana. Os cães farejadores da polícia já haviam desistido, exaustos pelo terreno difícil ali da trilha. Os helicópteros, conforme a tarde caía e a luz diminuía, começaram a recolher as aeronaves para retornar apenas no dia seguinte. Às três horas da tarde, o silêncio da serra parecia confirmar os piores medos de Rosane.

Mas Manuel e o seu grupo não pararam as buscas. Em um certo período ele disse assim, ó, aqui vocês não vão, não vai adiantar que vocês não vão aguentar. E foi nesse lugar que ele achou, já três horas da tarde, os helicópteros já tinham parado de buscar.

Já terminou às quatro horas, que lá escurece rápido. Os helicópteros já tinham parado de buscar. Todos os tipos de polícia, os três tipos de cachorro que foram procurar, não aguentava, voltou. Já tinha se recolhido tudo. Ia deixar para o outro dia. E aí esse rapaz, Manuel, achou ela.

No fim da tarde daquele domingo, depois de cinco dias que Joana havia saído de casa para a Serra da Miaba, quando as equipes policiais já deixavam a Serra da Miaba para retornar às buscas apenas na manhã seguinte, o Manuel continuava buscando pela mata, subindo cada vez mais, procurando incansavelmente dentro de cada grota. Foi naquele momento que, em uma região de difícil acesso, ele ouviu. Moço

e o seu coração até errou a batida. Era Joana.

Enquanto as buscas aconteciam na Serra da Miaba, Joana seguia sozinha no meio da mata tentando sobreviver. Sem conseguir andar, ela passou os dois dias seguintes se arrastando lentamente pela vegetação fechada, descendo como conseguia entre pedras, barrancos e pequenos riachos, movida por um instinto quase automático de continuar viva.

O tempo parecia perder o sentido. Entre momentos de lucidez e exaustão extrema, ela tentava manter o corpo em movimento, mesmo quando já não tinha forças. A mata, o terreno íngreme e os ferimentos transformavam cada metro percorrido em um esforço brutal, principalmente para quem só conseguia se arrastar. Cada metro era uma prova de resistência. Em alguns momentos, Joana tentava encontrar qualquer coisa que pudesse ajudá-la a sobreviver.

E eu lembro que eu tentei comer umas folhas que eu achei lá, tentei comer formiga. Tudo é muito pouco. Mas a fome não era o pior. Com o passar das horas, um ferimento grave na cabeça começou a se tornar uma ameaça ainda maior. Sim, eu acho que o pior é que eu estava com ferimento na cabeça. Terrível. Vieram moscas, pousaram. E encheu de larva a minha cabeça.

E daí não era só... Isso tava tirando muita energia de mim. Muita energia. Eu lembro, assim, que eu tinha consciência de tudo e de como é que tava meu corpo. Eu lembro de um dia que eu peguei e fiz assim... Enfiei o dedo dentro da ferida na cabeça.

Peguei umas larvas, veio larvas com cabelo, para eu olhar, para eu ver. Eu acho que de alguma forma eu estava tendo consciência também disso. E eu estava bem ferida, assim, os braços. As pernas não foi tanto na de leg, mas os braços tudo assim, meio feridos. Joana tinha consciência que estava gravemente ferida e sabia que cada minuto importava.

mas, ao mesmo tempo, mal sentia as lesões. Eu não sei se eu estava com muita drenada no corpo. O instinto de sobrevivência estava ali, mas eu não sentia direito as coisas. Não sentia direito as coisas. Eu não sei explicar. Tanto que eu acho que eu devia estar com muita dor, mas eu não conseguia sentir direito. Mesmo sem compreender totalmente o que estava acontecendo consigo, Joana seguia tentando resistir.

Em uma das noites na serra, acordou sob a luz intensa de lua cheia iluminando a mata. Um momento tão lindo quanto assustador. Era lua cheia. A lua estava assim, clara, sabe? Iluminando assim, ó.

amada, eu acordei eu acho que eu tava com frio eu não sei, acho que tava com frio eu acordei, eu peguei e coloquei meu braço pra dentro da camisa os dois braços, me abracei e fiquei uns segundos assim, olhando e daí eu fui dormir, mas eu sinto assim que me gerou um conforto daí conforme os dias passavam

o desgaste físico começou a se tornar ainda mais evidente. Enquanto Joana se esforçava para sobreviver e encontrar ajuda, os helicópteros passavam sobre a região.

E eu não consigo imaginar o tamanho do desespero de escutar a ajuda logo ali. E você não conseguir fazer nada. Ouvi o helicóptero, tentei pegar galho, tentei balançar a árvore, nada. Quando eles passaram, eu estava debaixo de uma coisa.

E assim, a mata fechada acobertou Joana, e ela passou despercebida. O sofrimento físico já era tão intenso que os animais ao redor deixaram de representar ameaça. Ela mal se importava com picadas de inseto ou com a possibilidade de encontrar um bicho peçonhento. Tamanho era o seu desgaste físico e mental.

Vamos combinar, né? Dias sendo drogada enquanto fazia uma trilha. E na nição, ferimentos que a impedia de andar. Realmente, uma cobra era o menor dos seus problemas. Mas assim, eu não tive medo nenhum deles, assim.

Eu não estava sentindo direito as coisas. Talvez eu tivesse... Eu acho que eu estava mais com medo da situação toda, sabe? De como é que eu estava. Porque eu acho que talvez até se a cobra vier, se me mudasse. Eu acho que eu estava em um sofrimento muito grande. Porque eu cheguei até a pensar em um negócio de... Mesmo que eu ache alguém para me matar, terminar de me matar. Talvez se muda isso aqui que eu estou vivendo. Foram dois longos e árduos dias naquela situação.

e na tarde do segundo dia, Joana já quase não conseguia se mover. O ferimento, infeccionado na cabeça, exalava um cheiro forte de carne em decomposição e ela sentia como se a própria vida estivesse lentamente deixando seu corpo. Um urubu me sobrevoou.

Eu estava, eu acho que essa ferida na cabeça estava muito fedendo, muito fedendo mesmo, assim, de podre, de carne podre, como se ela estivesse morta. Eu lembro que eu fiquei muitas horas deitada, assim, eu já não estava tendo muita força para me mover. Eu estava sentindo muito sono e eu sentia, era como se a vida estivesse despedindo de mim.

E daí eu olhei, o urubu me olhou e depois ele foi embora. Enquanto estava vivo, ele não mexe. Deitada no meio da serra, olhando para o céu e exausta, Joana acreditou que aquele seria o fim. Ela já não tinha mais forças e nem esperanças que conseguiria sair daquela situação.

Eu nunca olhei para o céu assim, sei assim, né? Poxa, Deus. É assim que morre?

Depois de pensar que estava morrendo, Joana ouviu alguém se aproximando pela mata, como se fosse uma resposta à sua pergunta feita a Deus. Mesmo naquele momento, usando o que restava das suas forças, Joana gritou. Que número, meu Deus do céu, eu não sei de onde foi que eu tirei força, tá? Eu gritei, moço!

Era Manuel. Depois de horas insistindo nas buscas, mesmo quando os helicópteros já haviam encerrado as operações naquele domingo, ele finalmente encontrou Joana em uma área extremamente íngreme da serra. Ele ainda foi avisar para o pessoal, eu fiquei, sabe, não me deixem aqui não. Ele me carregou, me tirou do sol, tirou a camisa dele, cobriu minha cabeça, me deu água e disse, fica tranquilo, está todo mundo aqui.

Depois de dias completamente sozinha na mata, Joana descreve aquele momento como uma espécie de fim do sofrimento. O medo, o desespero e a exaustão davam lugar a uma sensação de alívio absoluto. Tinha acabado. Galera, o pessoal começou a chegar. E assim, pode acontecer qualquer coisa agora, pra mim tá tudo ótimo, tudo ótimo.

Encontrar Joana era apenas o começo de uma nova dificuldade. O lugar onde ela estava era extremamente íngreme e de difícil acesso. O helicóptero de resgate já havia encerrado as operações naquele fim de tarde e precisou ser acionado novamente às pressas. Enquanto aguardavam a chegada das equipes, os voluntários improvisaram formas de mantê-la segura naquele trecho da serra. Quando o resgate finalmente começou, Joana precisou ser retirada por cordas da encosta onde estava.

precisou fazer rapel e fui amarrada. Eles me tiraram de lá por uma corda, como se eu estivesse sentada na corda. Me colocaram em um lugar mais alto. Aí foi que me colocaram na maca. E se eu não me engano, eu subi pela corda na maca.

Ela é amarrada na mata. Depois de ser içada da mata e colocada no helicóptero, Joana finalmente deu adeus à Serra da Miaba. O voo até o hospital durou cerca de 40 minutos. Diz que foram 40 minutos de voo. Para mim, foram como se fosse, sei lá, 5 minutos. Acho que depois de tantos dias esperando nesse lugar, esperando.

Depois de dias lutando sozinha para sobreviver no meio da serra, aquela era provavelmente a primeira vez em que ela finalmente podia relaxar, que ela podia se sentir em segurança. Dentro da ambulância, os profissionais cortaram suas roupas para iniciar os procedimentos de emergência, procuraram acesso na veia e começaram a estabilizá-la enquanto o veículo seguia para o hospital. Pouco depois, Joana apagou.

Os primeiros momentos no hospital ficaram embaralhados na memória dela. Entre medicamentos, sedativos e o próprio esgotamento físico e emocional, Joana descreve aquela chegada como um período nebuloso, em que o corpo finalmente começava a sair do estado extremo de alerta em que permaneceu durante todos aqueles dias.

A adrenalina que sustentou a sua sobrevivência na serra começava a desaparecer e junto dela vinham emoções que pareciam ter ficado suspensas, enquanto ainda era necessário resistir. Joana alternava entre momentos de consciência e confusão e foi nesses momentos que a família finalmente pôde vê-la outra vez. Minha irmã fala que eu fiquei chorando muito tempo, pedindo desculpa, falando várias coisas que eu não lembro, mas como se eu estivesse meio groga, pedindo desculpa.

Parece que eu estava anestesiada. Eu digo que Deus estava me carregando, entendeu? Porque eu já estava esperando o corpo. E aí achou ela naquela situação. A minha única palavra foi dizer a ela, esqueça.

Né? Delete, daqui pra frente. Vamos sobreviver. Para Rosane, depois de dias imaginando que receberia apenas um corpo, encontrar a filha viva parecia algo quase impossível de compreender. Ainda assim, o estado em que Joana havia sido encontrada transformava cada hora dentro do hospital em uma nova batalha. Rosane se agarrou ao que conhecia melhor.

o cuidado. Técnica de enfermagem entrou no hospital já entendendo a gravidade dos ferimentos e percebendo que os próximos dias seriam decisivos. O couro cabeludo de Joana havia se desprendido em uma grande extensão da cabeça, mais de 50% do couro cabeludo, e a região estava tomada por miíase. As larvas continuavam vivas dentro da ferida, mesmo depois do resgate.

Tudo isso aqui era bicho. Você levantava esse couro para tirar e a gente levou oito dias tirando esses bichos da cabeça dele. A situação assustava até os próprios médicos. O risco de a infecção atingir regiões intracranianas era real e eminente. A possibilidade de uma cirurgia extensa chegou a ser discutida, mas naquele momento o esforço principal era controlar o avanço das lesões e impedir que o quadro piorasse ainda mais.

O cirurgião disse que se ele fosse fazer a cirurgia, ele tinha que raspar, ia ficar no osso. Isso aqui dela, essa região da cabeça, ficou no osso. Você viu o osso. Faltou muito pouco para os bichos comerem as terminações que a gente tem intracranianas, entre o cérebro que liga, para ele passar para o cérebro.

O pior é que novas larvas continuavam surgindo. Em algum momento durante os dias no hospital, duas delas entraram pelo ouvido esquerdo enquanto Joana estava deitada. O que veio depois foi uma das experiências mais traumatizantes de toda a recuperação.

Eu acho que foi a pior dor que eu senti na minha vida. Você ter um bicho te comendo viva. Durante toda a noite, as larvas continuavam avançando pelo ouvido enquanto Joana gritava de dor dentro do hospital. Mas a equipe médica, ao invés de verificar o que de fato estava acontecendo, apenas aumentaram as doses de morfina sucessivamente, acreditando que era apenas uma reação psicológica ao trauma.

Eles me davam, eu dormia, ficava seis, dez minutos dormindo, desacordado. Depois eu acordava com muita dor e urrando. E eu lembro-se desse peito por fina no corpo, mas uma dor desgraçada, desgraçada. Ao chegar no hospital pela manhã e encontrar a filha urrando de dor, Rosane decidiu agir por conta própria. Com a ajuda de uma enfermeira amiga da família e de contatos que mantinha na área da saúde, insistiu para que um exame fosse finalmente realizado.

Antes disso, porém, numa tentativa desesperada de interromper o sofrimento da filha, aplicou medicamentos diretamente no ouvido de Joana, mesmo sabendo dos riscos. Eu fiz uma loucura. Peguei tintura de odo e botei no ouvido dela. Eu sei que se caísse no cérebro, já era. Mas já que os bichos estavam ali... A reação foi imediata.

A dor aumentou violentamente enquanto as larvas começavam a morrer dentro do ouvido. Joana gritava sem parar, já em estado de exaustão física e emocional. O exame feito depois confirmou a presença das larvas no ouvido esquerdo, mas o estrago já estava feito. As larvas destruíram o tímpano de Joana. Somente no dia seguinte, a equipe médica conseguiu realizar a retirada completa dos bichos.

O restante do corpo de Joana também carregava os sinais dos dias passados na mata. Havia marcas de queimaduras, cortes, picadas de insetos e feridas espalhadas pelos braços, costas e região cervical. Em alguns pontos, as lesões eram tão profundas que também deixavam o osso exposto.

Joana chegou ao hospital em estado extremo de desidratação, depois de dias praticamente sem alimentação adequada e sobrevivendo apenas com a água de riacho e o pouco que conseguia encontrar pelo caminho. Enquanto Joana tentava se recuperar...

fisicamente de tudo isso e psicologicamente também, a investigação também avançava dentro do próprio hospital. A polícia queria entender o que tinha acontecido de fato. Teria sido ela vítima de um acidente ou de um crime?

Ainda internada, Joana foi ouvida mais de uma vez por policiais e médicos legistas. Exames foram realizados, fotografias das lesões foram registradas e, aos poucos, os detalhes do que havia acontecido na serra começaram a ganhar contornos mais claros. As duas vezes. Uma foi mais perto dos 20 dias, mais perto do T alta, e outra foi logo no começo, acho que no segundo, terceiro dia que eu fui.

Resgatada. Mesmo extremamente debilitada, Joana lembra dos registros feitos pelos peritos enquanto ainda sentia dores intensas espalhadas pelo corpo. Ele, eu lembro dele, eu acho que ele tirou algumas fotos também de algumas feridas minhas, algumas pancadas, assim, eu estava bem roxa de vários lugares, assim. Os exames feitos pela perícia científica e os hematomas espalhados pelo corpo começaram a desmontar a hipótese de acidente.

As marcas na mandíbula, na lombar, na genitália, as queimaduras nas mãos, nos pés, nuca e costas, além das lesões extensas no dorso do corpo, indicavam um cenário muito mais violento do que uma simples queda na mata que a deixou inconsciente.

Além das lesões no couro cabeludo, da infecção por miíase, do rompimento do tímpano e das queimaduras espalhadas pelo corpo, havia também um problema grave na coluna, que foi identificado tardiamente. Segundo Rosane, a conclusão da perícia apontava para espancamento e arrastamento.

Eu jamais ia imaginar que era uma vértebra fora do lugar, que foi cicatrizando, foi diminuindo o inchaço, e ficou aquele inchaço na minha cabeça. Com a pancada, como eu queria que ela tinha levado à queda, com a pancada que ela tomou, estava demasiada, e que ia reduzir o edema. Aí, meu Deus, quando eu peguei, que eu vi listésio grau 5.

E ela tinha dificuldade de andar. Essa vértebra só sai com chute. Você tem que chutar a coluna da pessoa para a vértebra sair. Não sai com uma pancada. E não foi de queda, porque as quedas, ela só tinha um soco aqui. As marcas que ela tinha espancaram ela e depois saíram arrastando ela. O laudo definitivo do exame só ficou pronto quase um mês depois da alta de Joana.

A descoberta dessa lesão na coluna obrigou a família a retornar ao hospital às pressas. Joana precisou ser internada novamente para realizar uma cirurgia na coluna, lembrando que estamos em pleno período da pandemia de covid-19. Mesmo após a cirurgia, os problemas continuaram. A rotina dentro de casa passou a ser dominada pelos cuidados médicos. E isso tudo foi apenas um capítulo de sua recuperação. Joana ainda precisou reaprender a lidar com o próprio corpo.

Caminhar longas distâncias tornou-se difícil. O esforço físico excessivo provocou dores intensas e episódios de desmaio. Além das limitações motoras, os traumatismos cranianos e a hemorragia cerebral também deixaram impactos cognitivos importantes.

Oito pinos na coluna, foi a cirurgia após, né? Tem oito pinos na coluna, duas hastes, tem dores constantes, 24 horas. Aí ela toma a medicação, a garapentina, que é o que ela... E tem dias que é pior, tem dia que esses nervos travam.

Ela tem que viver em constante fisioterapia, constante mesmo. Quando para, ela trava, aí é pior. A vida dela é isso, é os remédios e a fisioterapia e dor o tempo todo. Ela já se acostumou com algumas. E claro, as memórias do que tinha de fato acontecido com ela começaram a vir em ondas, em flashes.

Em sonhos, que é uma típica resposta de trauma, quando o seu corpo reprime aqueles acontecimentos para que você consiga seguir em frente. Porém, aos poucos, Joana conseguiu acessar esses momentos.

e entender melhor o que tinha acontecido com ela na mata. E depois eu sonhei que eles, enquanto eu estava muito drogada, sem consciência, eu, olha que sonho doido. Minha consciência era como se fosse Deus, entre aspas, assim, estava no céu, estava me olhando de cima, assim.

E eu vi a situação lá embaixo da árvore, todo mundo sentado em roda, eles fumando, eles pegavam a minha mão de propósito e queimavam. Pegavam e colocavam assim, queimavam a ponta de meu dedo ou pegavam a faga e cortavam.

e colocava um pó branco na ferida. E daí eles pegavam e falavam assim, depois que eles faziam, ou me desculpa aí, foi sem querer que eu fiz isso. Sem sentir nada direito, assim. Aí eu pegava e falava assim, ah, não tem problema não.

Fica tranquilo Falava alguma coisa assim Mas bem alheia Enfim, e daí depois eles ficavam rindo De mim Quando eu falava, não tem problema Eles ficavam rindo, eles faziam isso várias vezes E esses machucados

que surgiram ali num primeiro momento em um sonho, como ela chama, na verdade uma lembrança fragmentada, também estavam marcados no corpo de Joana. Queimaduras de cigarro nas pontas dos dedos, nas costas, cortes que ela tinha pelo braço e outros tipos de lesão que mais tarde foram confirmadas pela perícia.

Essas cicatrizes funcionavam quase como um mapa. Apontavam como imagens contando a história da violência que Joana havia sido submetida. Essa queimadura daqui era a pior. Eu lembro até de uma música que ela fala bem direto no sistema nervoso central que você coloca alguma coisa. Tinha um buraco assim generoso, sabe? Tinha dois. Uma era menor e o outro era bem maior de queimadura.

E lembram do Palo Santo, o incenso que Joana conheceu lá na casa de uns amigos de Tiago antes de irem para a serra? Esse cheiro a visitava. E essas queimaduras foram possivelmente feitas com o Palo Santo. Rosane contaria em entrevistas ao Ajonuski.

Eles queimaram, parece que com Palo Santo, porque ela disse ouvir esse nome bem longe. Foi propositalmente. Muita crueldade, muita maldade com o ser humano. O delegado, o Vilkson Vasco, quer entender o porquê de tanta maldade. Ele acha que até houve um ritual de magia, porque o ser humano você não conhece. Mas está mais para a possibilidade de algum ritual que ela tinha que morrer sendo comida por bicho ainda viva.

E é curioso, pois a Joana realmente escutou eles conversarem sobre um ritual, um processo de cura. Agora, o que realmente isso era? Era o que a investigação tentaria descobrir. Enquanto Joana ainda lutava dentro do hospital, a Polícia Civil de Sergipe iniciava uma investigação para entender o que realmente havia acontecido na Serra da Miaba.

Desde os primeiros dias após o resgate, o caso passou a ser conduzido pelo delegado Wilkson Vasco, que abriu um inquérito para apurar se a Joana havia sofrido um acidente durante a trilha ou se tinha sido vítima de um crime violento. Naquele momento da abertura do processo...

Essas duas hipóteses eram ainda oficialmente consideradas. Poucos dias após o resgate, equipes da Polícia Civil, do Instituto Médico Legal e da Perícia Criminal retornaram à Serra da Miaba para uma reconstituição do caso. Durante horas, investigadores percorreram a mata tentando refazer o trajeto feito por Joana antes dela ser encontrada. Vestígios biológicos e objetos abandonados na trilha foram recolhidos para análise.

Foi nessa etapa da investigação que a hipótese de acidente começou a perder a força. Segundo a polícia, os depoimentos das pessoas que estavam com Joana apresentavam incoerências importantes. As divergências envolviam principalmente o tempo que cada um dizia ter passado procurando pela jovem.

Como eles afirmavam que foram embora e depois voltaram e ela não estava mais no local, os trajetos percorridos durante as buscas e até os relatos sobre o que havia sido comprado na mercearia localizada no pé da serra. Muitas divergências.

Mas não eram apenas os relatos que levantavam suspeitas. As lesões encontradas no corpo de Joana também passaram a afastar, cada vez mais, a possibilidade de um acidente. Segundo a investigação, Joana apresentava pancadas na cabeça, hematomas espalhados pelo corpo, sangue na região pélvica.

ferimentos no rosto, lesões na lombar e sinais de arrastamento pelo terreno da serra. A gravidade da lesão na coluna, em especial, começou a ser considerada incompatível com a hipótese de uma simples queda. Ou seja, não teve nenhum acidente. Foi, de fato, um crime. Joana foi brutalmente espancada e arrastada pela serra.

Ao longo das investigações, a polícia passou a trabalhar com a possibilidade de que Joana tivesse sido drogada involuntariamente e possivelmente estuprada antes de desaparecer na mata. A investigação constatou tudo aquilo que Joana nos contou por aqui.

que ela havia conhecido Tiago pelas redes sociais poucos meses antes da viagem até a Serra da Miaba, que no caminho Tiago teria comprado uma bebida feita com cogumelos alucinógenos em uma mercearia ali da região e que depois disso Joana começou a ter as desorientações intensas.

Segundo os depoimentos reunidos pela polícia, o grupo de pessoas envolvidas nesse caso criminal era formado por Tiago e outros três rapazes que vamos chamar aqui de Mateus, Joaquim e José, sendo esses dois últimos pessoas estrangeiras dos países vizinhos ao Brasil.

No dia 19 de outubro de 2020, pouco mais de duas semanas após o resgate, a Polícia Civil realizou uma coletiva de imprensa detalhando o avanço das investigações e anunciando a prisão de seis pessoas. Uma coincidência interessante, sendo que no dia 19 de outubro foi o dia que a Joana recebeu alta do hospital, podendo voltar para casa.

Ao passo que os suspeitos estavam sendo presos. Entre os presos estavam Tiago, que é o companheiro de viagem, o amigo e o interesse amoroso de Joana, digamos assim. Os estrangeiros Joaquim e José, que a gente mencionou aqui anteriormente. O Matheus, que também fazia parte desse grupo de homens que estavam lá na mata.

o dono daquele armazém que vendeu a bebida alucinógena e depois ficou tentando despistar a polícia em relação à localização de Joana, em São Domingos, e também um outro suspeito, que não vamos nomear, que estava ali ligado ao grupo. Os investigados foram apontados pela polícia por crimes como sequestro, tentativa de homicídio, possibilidade de estupro e tráfico de drogas.

Na coletiva, o diretor do Instituto Médico Legal, Victor Barros, explicou que o exame genital não havia identificado sinais conclusivos de violência sexual recente, mas afirmou que essa hipótese ainda não podia ser descartada completamente. Victor Barros afirmou.

O exame genital não evidenciou violência sexual recente. Coletamos material da região genital e a análise deu negativo, mas o uso de preservativos gera também um exame negativo, por não haver secreção. O coito não ficou evidenciado, porém a confirmação se dá através do depoimento da vítima.

A perícia também confirmou que Joana foi brutalmente espancada, ferida e arrastada propositalmente pela mata. Enquanto isso, a defesa informal de um dos principais investigados começava a aparecer publicamente através de sua família. O tio de Tiago concedeu entrevistas afirmando que o sobrinho era inocente, que Joana já conhecia o grupo anteriormente e que ela teria decidido permanecer na serra por vontade própria.

Segundo ele, Tiago teria inclusive participado das buscas após perceber o desaparecimento da jovem. A versão, no entanto, entrava em conflito direto com os indícios reunidos pela investigação e com as inconsistências apontadas nos depoimentos.

Ao passo que a polícia tentava reconstruir o caso, Joana ainda se recuperava de suas lesões. A energia tanto dela quanto de sua mãe estavam focadas em sua recuperação. Mesmo assim, e com todos os problemas que enfrentava, tanto de saúde quanto no hospital, ela precisou participar de depoimentos e audiências.

Como o país viveu auge da pandemia, grande parte do processo acontecia de forma virtual, sem orientação adequada e ainda emocionalmente fragilizada, ela recebeu apenas um e-mail avisando sobre uma audiência marcada para o dia seguinte. Eu assim...

Eu não sabia que eu ia precisar falar na audiência, que eu acho que é uma coisa básica, que eu poderia me preparar. Ao entrar na chamada online, Joana acreditava que apenas acompanharia a audiência. Manteve a câmera desligada, até ser avisada de que precisaria se manifestar diante dos envolvidos no caso.

precisava ficar de câmera aberta, eu não fui comunicada sobre isso, e de que eu ia precisar falar. Eu lembro que o Desadente Choro tinha um dos caras na chamada, eu lembro que ele ainda estava muito assim, se eu queria falar na frente dele, ou se eu queria falar, tipo, em outra sala.

A situação, que era para ser um momento de justiça para Joana, rapidamente se transformou em um novo momento de violência e trauma. Os acusados chegaram a ser retirados momentaneamente da audiência para que ela pudesse falar. Mesmo assim, Joana recorda que mal conseguia organizar as próprias memórias naquele momento.

O trauma, as sequelas físicas e os efeitos emocionais da violência ainda estavam muito presentes. Apesar das prisões, da reconstituição feita pela polícia, dos laudos periciais, das inconsistências identificadas nos depoimentos e das lesões encontradas no corpo de Joana, o processo acabou sendo arquivado por falta de provas suficientes para a condenação.

A alegação foi que, já que Joana estava drogada, ela não podia ter certeza do que havia acontecido. Nenhum dos investigados foi condenado, o caso foi arquivado e todos acabaram em liberdade.

Mas nem a falta de justiça esmoreceu mãe e filha. Até mesmo nesse momento, onde a justiça falhou, elas encontraram forças para seguir em frente. O que passou? Passou. Ela estava chorando, muito melancólica. Passou. Agora é daqui para frente. Olhar para frente, para o horizonte. A gente vai vencer isso. Acabou. Acabou. Esqueça isso. Esqueça tudo. A gente vai vencer. E a gente tem vencido.

Rosane passou a enxergar o caso também como reflexo de uma violência muito maior do que a sofrida apenas pela filha. A história de Joana se conecta diretamente com a realidade de milhares de mulheres brasileiras atravessadas por agressões, abusos e apagamentos históricos que continuam se repetindo.

É o nosso país, onde homens... A nossa história é constituída de quê? Todas as negras e índias foram estupradas. O Brasil é uma nação feita de mulheres. Toda a nossa geração foi feita de... Nós todos viemos de um estupro. Não tem para o decorrer. Então, a coisa segue e continua seguindo.

Para ela, mesmo carregando a revolta e a tristeza pelo que aconteceu na Serra da Miaba, Rosane diz que nunca desejou vingança contra os acusados. Ao longo dos anos, o sentimento que permaneceu nela foi muito mais próximo da indignação diante da destruição provocada pelas drogas, pela violência e pela falta de humanidade que encontrou em toda a situação. Tenho até hoje, eu tenho pena desses miseráveis, porque só são escolha da sociedade.

que realmente está traficando, que realmente está ganhando, que realmente está ganhando com tráfico de gente, com tráfico de mulher, quem é? Essas coisas? Essas coisas que, na hora que eles querem, eles matam? Então, tem a dor, tem a tristeza de mãe, mas tem a tristeza de saber mais ainda que eles estão num nível tão inferior, num ambiente tão difícil, eles não têm nem noção da desgraça que é a vida deles.

Mesmo diante de tudo o que aconteceu, Rosane afirma que ainda acredita que a justiça precise existir sem perder a humanidade. Quando fala sobre os homens acusados no caso, ela diz que gostaria que eles fossem capazes de compreender o mal que provocaram e se tornassem pessoas diferentes daquelas que deixaram Joana ferida na Serra da Miaba.

Ao olhar para trás, Rosane também faz questão de lembrar que, em meio à violência, encontrou pessoas que impediram que a história terminasse de forma ainda pior. O jovem Manuel, que permaneceu nas buscas até encontrar Joana já no fim da tarde, os moradores da região, que ajudaram a família, e os profissionais da saúde, que ofereceram apoio durante os meses seguintes, continuam ocupando um lugar importante na memória dela. É aquela história, né? São pessoas muito boas.

E eu agradeço muito a Deus, porque tem muita gente boa nessa terra ainda. Muita gente, muita mulher, muita mãe de família, muito pai de família, que merece ser honrado. Hoje, anos depois da Serra da Miaba, Joana ainda convive com dores, limitações físicas e lembranças fragmentadas do que viveu naqueles dias. Houve períodos em que a recuperação parecia não avançar.

As sequelas da coluna, os traumatismos e o desgaste emocional transformaram tarefas simples em desafios diários. Durante muito tempo, Joana tentou criar distância de qualquer coisa relacionada ao caso. Evitava notícias, documentos, atualizações da investigação e até conversas sobre o assunto. A lembrança da serra ainda parecia grande demais para ser encarada de frente.

Do meu lado, assim, eu não sei se era o melhor, sabe? Mas eu procurei, assim, me distanciar ao máximo, sabe? De qualquer coisa relacionada a isso. Procurei me distanciar ao máximo, assim. Eu não queria saber, eu não queria saber de nada assim. Eu acho que fez muita falta, a gente não tem uma orientação de um profissional da área jurídica que pudesse estar olhando com cuidado para isso.

Mas, assim, eu só queria distância, sabe? De saber disso, eu queria distância. Com o passar dos anos, porém, revisitar a própria história começou a ganhar outro significado. Aos poucos, Joana deixou de olhar para a Serra da Miaba apenas como o lugar onde quase morreu e passou a entender que também existia ali uma história de sobrevivência. Ainda hoje...

Ela se impressiona ao perceber tudo o que conseguiu atravessar. Quando eu olho, eu disse, nossa, meu Deus do céu, eu vivi isso mesmo. Eu ainda fico muito impressionada. Com um senso de humor admirável, Joana ainda olha para a própria história com otimismo. Eu fico brincando, assim, que é uma brincadeira, né? Mas, assim, eu tive meu retiro espiritual.

de ficar um tempo sem comer, de jejum, em silêncio e sozinha na natureza. Ainda tive a experiência de fazer rapel, eu nunca tinha aceito voar de helicóptero. Nunca tinha voado de helicóptero.

A vergonha que durante muito tempo acompanhou a memória daqueles dias começou lentamente a dar espaço para outra necessidade, a de contar a própria história. Incentivada por uma tia que faleceu recentemente, Joana passou a escrever sobre o que viveu na serra.

e sobre tudo o que veio depois. Eu acho que é importante também para mim, toda vez que eu revisito essa história, e eu acho que ainda vou precisar revisitar ela muitas vezes. Talvez cada vez que eu revisito ela passe a ser mais minha, cada vez que eu conto isso eu me sinto mais, sinto mais que essa história é minha.

e me gerar diferentes insights, né? Toda vez que eu vi o truque. Então, para mim, é sempre muito importante também, quando eu acho pessoas disponíveis. É uma história longa, sem detalhes. Então, eu acho que eu me sinto também muito feliz, assim, quando sempre que eu acho pessoas disponíveis para ouvir, curiosas, disponíveis.

Isso é muito importante para mim. Mesmo convivendo com sequelas permanentes, Joana voltou para a universidade e tentou reconstruir a rotina aos poucos. Houve semestres em que precisou trancar disciplinas porque o corpo já não suportava o esforço físico e emocional. Ainda assim, desistir nunca pareceu uma opção, e ela encontrou paixão e realização em sua vida.

mesmo com todas as dificuldades. Em muitos momentos, continuar viva se tornou também uma forma de resposta à violência que sofreu. Eu não lembro que eu falava assim, só de raiva, só de raiva, porque tentaram me matar, eu vou viver, eu vou ficar muito viva, eu vou viver muita coisa, eu vou viver muito. E viveu muito. Joana passou a realizar sonhos que um dia pareciam distantes.

Hoje em dia nem eu acredito na quantidade de coisas que eu faço, sabe? Porque eu acho que depois do acidente eu comecei a pensar assim nossa vida é muito valiosa. É muito valiosa. A gente tem que estar nisso mesmo, sabe? Botar energia mesmo nisso.

viver mesmo isso. Qual é o meu propósito? Você quer experimentar? Vamos experimentar. Você tem um sonho igual ao sonho. O que você quer fazer? Pra onde você quer ir? Como você quer fazer? O que você quer descobrir? Sabe, vamos se movimentar, vamos movimentar as coisas, o que tiver que movimentar.

E eu acho que é um processo também para a gente começar a ficar na gente. Teve o ano de 2024, acho que foi o ano mais doido que eu tive. Eu tinha criado, junto com a professora, em 2023, o grupo de bioprocessamento. Aí, no começo de 2024, eu ganhei uma bolsa para ir da Tailândia para participar de um...

desse organização. Depois, lá para setembro, eu fui para a semifinal da competição, lá na Holanda, para a semifinal da competição com o Mulheres que Alimentam Cidade. Depois eu fui para a Colômbia como coordenadora de biodiversidade do Engajamundo, levando a delegação, que também foi uma loucura. Eu sonhava muito em fazer um intercâmbio quando eu estava no ensino médico, mas eu estava até falando, eu estou em um intercâmbio.

Agora. Ah, que legal. Parabéns. Obrigada. A realização de um sonho. Mas, segundo, eu estou de volta. Vou voltar, né? Vou pegar meu voo.

Hoje, a Serra da Miaba continua existindo como uma lembrança dolorosa para Joana e Rosane, mas se ressignificou como símbolo de resistência. Entre dores crônicas, traumas e perguntas que talvez nunca tenham respostas, mãe e filha seguem reconstruindo a vida, carregando a certeza de que sobreviver já foi por si só uma grande vitória.

Em um mundo ideal, fazer uma trilha, sair em uma viagem, não deveria ser sinônimo de perigo eminente. Em um mundo ideal, essas saídas seriam apenas aventuras de final de semana, histórias para contar, experiências para guardar com carinho e depois relembrar com um sorriso no rosto. Você vai, vive aquilo, volta para casa e fica tudo bem.

Mas infelizmente não vivemos em um mundo ideal. Vivemos em um mundo muito mais complexo, atravessado por violências que muitas vezes não fazem sentido, por pessoas cujas ações parecem impossíveis de compreender. E talvez seja justamente por isso que ouvir a história de Joana seja tão importante. Porque apesar de tudo o que aconteceu na Serra da Miaba,

Essa não é apenas uma história sobre violência. É também uma história de sobrevivência, de reconstrução e continuidade. Sobre uma mulher que passou por uma experiência brutal, mas que conseguiu aos poucos reconstruir a própria vida. E eu confesso que uma das coisas que mais me emocionou durante essa conversa foi justamente descobrir quem a Joana é hoje. Ouvir sobre as viagens, os projetos, os trabalhos, os sonhos e os caminhos que ela continuou construindo depois de tudo.

Ela realmente mirou no sol. Existe algo muito poderoso em ver alguém sobreviver e seguir em frente. E não só sobreviver, como ela mesmo disse. Ela está vivendo, e vivendo muito em sua totalidade. Realizando todos os seus sonhos, liderando projetos, fazendo a diferença. A Joana e a Rosane são, sem sombra de dúvida, dois exemplos de mulheres que a história vai marcar para sempre.

E talvez seja isso que mais permaneça comigo depois desse caso. Não apenas o horror do que aconteceu naquela serra, as possibilidades do porquê de ritual, de maldade no coração das pessoas, mas o que fica é a força de duas mulheres que venceram.

Foi uma honra e um privilégio receber as duas aqui no Café com Crime e poder escutar os seus relatos. Afinal, a história é delas, pertence a elas, e é uma honra ser a plataforma onde elas podem compartilhar suas vivências e reflexões profundas, que eu sei que foi uma conversa aqui que veio realmente do fundo da alma. Obrigada mais uma vez, Rosane e Joana Gabriela.

E esse foi o caso da desaparecida na Serra da Minaba. Amanhã, quinta-feira, vou colocar no nosso Instagram, Café com Crime, e também lá no Twitter, o Café C Crime, imagens e outras fotos relevantes para o caso narrado aqui para vocês hoje. Eu volto daqui a duas semanas, não na próxima quarta, mas na outra, com um novo episódio. E até lá, confiem em sua intuição, porque de desgraça já basta esse podcast. Tchau, tchau!

Esse episódio foi roteirizado, produzido e apresentado por mim, Stephanie Zorbi. Pesquisa de Ana Paula Almeida, roteiro de Mariana Bento. E design de som de Luide Calistrato. As fontes de pesquisa para este episódio foram G1, Agil News, Tribunal de Justiça do Sergipe e entrevista com Joana Gabriela e Rosane Coutinho.

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