Episódios de Café Com Crime

199 | O BRUXO DE NOVO HAMBURGO: a farsa de um delegado contra sete inocentes

22 de julho de 20261h27min
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O corpo de duas crianças foi encontrada esquartejado em Novo Hamburgo (RS) em 2017. Depois de meses sem qualquer avanço na investigação, bastaram dez dias à frente do caso para que o delegado Moacir Fermino afirmasse ter a solução para o crime misterioso. Segundo ele, as crianças teriam sido vítimas de um ritual satânico conduzido por Silvio Fernandes Rodrigues, fundador do Templo de Lúcifer, em Gravataí (RS). A prova que o delegado tinha? Uma revelação divina.

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Créditos:

Produção, apresentação e roteirização por Stefanie Zorub

Edição e desenho de som por Luigi Calistrato

Pesquisa e roteiro for Ana Paula Almeida

Participantes neste episódio2
S

Stefanie Zorub

HostApresentadora
A

Ana Paula Almeida

Co-hostPesquisadora e roteirista
Assuntos7
  • Operação Revelação e a tese do delegado FerminoRitual satânico · Demissão Crespo São Paulo · Igreja de Lúcifer · Tensão EUA-Irã · Paulo Ademir Norbert · Moloque · Wikipédia como prova
  • Descoberta do CorpoCorpos esquartejados em estrada de terra · Catador de material reciclado · Caixas de papelão com restos humanos · Produtos de Limpeza e Exposição Química
  • Impacto em Testemunhas e AmigosFalsas testemunhas · Coação de testemunhas · Programa Protege · RPG de Várzea · Rogério Bastos · Desmonte da narrativa
  • O Julgamento e ConsequênciasDanos à reputação · Demissão Crespo São Paulo · Tensão EUA-Irã · Condenação de Moacir Fermino · Morte de Paulo Lemen · Cassação da aposentadoria de Fermino
  • A investigação e descoberta dos corposCorpos sem identificação · Sepultamento como 'ignorado' · Teoria de tráfico de cadáveres · Estudo de medicina
  • Investigação inicial falhaIdentificação das vítimas · Exames de DNA e parentesco · Greve de professores · Falta de câmeras de segurança · Busca em registros nacionais
  • Julgamento e CondenaçãoPrisão de Sílvio Fernandes Rodrigues · Prisão de Jair da Silva · Prisão de Andrei Jorge da Silva · Prisão de Márcio Miranda Brustolin · Fuga de Anderson Paulo Ademir · Fuga de Jorge Adrián · Liberdade provisória concedida
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APAna Paula Almeida

Duas caixas de papelão de produtos de limpeza e um saco plástico azul descartados numa estrada de terra seriam o pontapé inicial para uma das investigações mais escandalosas do Rio Grande do Sul.

SZStefanie Zorub

Tudo começou numa típica manhã gelada de fim de inverno, na zona rural de Novo Hamburgo, município localizado a 40 km de Porto Alegre, quando um catador de material reciclado surgiu na estrada Porto dos Tranqueiras, no bairro Lomba Grande, pronto para vencer mais um dia de trabalho. A estrada de terra que liga a cidade ao distrito rural rendia uma boa quantidade de material todos os dias. Por ser um local de pouco movimento, a população do entorno costumava fazer o descarte irregular de entulho e móveis velhos em suas margens tomadas ali pelo mato, sem o risco de serem flagrados pela fiscalização da prefeitura.

APAna Paula Almeida

As pessoas se sentiam tão confortáveis que até animais mortos eram frequentemente encontrados pelos catadores que cobriam a área ali diariamente.

SZStefanie Zorub

Enquanto revirava os detritos em busca de algo que pudesse vender no centro da cidade, o catador encontrou duas caixas de papelão e um saco plástico azul que lhe chamaram a atenção. A caixa era uma marca de sabão em pó que ele não reconhecia. E olha que ele conhecia tudo que era marca, por recolher tudo que é embalagem das ruas para reciclagem. Mas aquela ali, que estampava a caixa, ele nunca tinha visto. Em letras azul marinho, na diagonal, ele leu: Invicto.

Atraído pela possibilidade de fazer uma graninha com aquele material, ele entrou no matagal, se ajoelhou diante das caixas e as abriu. Ao invés de encontrar garrafas plásticas, latas de alumínio ou fios de cobre, o catador encontrou ali pedaços de carne. O susto veio em seguida, quando ele se deu conta de que os restos que localizou não pertenciam a nenhum animal.

APAna Paula Almeida

Mas sim a humanos. Nas caixas e no saco plástico havia dois troncos, pernas, braços, pés, mãos e bastante sangue coagulado.

SZStefanie Zorub

Ele teve a chance de levantar e ir embora sem olhar para trás e não falar daquilo para ninguém, mas ele decidiu caminhar por cerca de 3 km e procurar um local onde pudesse usar o telefone para acionar a polícia.

APAna Paula Almeida

O que aconteceu depois disso foi uma investigação guiada por um delegado fanático que resultou na Operação Revelação, um dos maiores erros judiciários do Rio Grande do Sul. Este é o episódio 199 do Café com Crime: O Bruxo de Nova Hamburgo, a farsa de um delegado contra 7 inocentes.

SZStefanie Zorub

Alô, olá, alô, vai tudo bem?

APAna Paula Almeida

Bem-vindos ao Café com Crime, o podcast onde você pode ser o aficionado por crimes reais que você é, sem julgamentos.

SZStefanie Zorub

Eu sou a Sté Zorobi, ou Dona Café, como preferir, e hoje vamos falar sobre um caso de pânico satânico que aconteceu em 2017 em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Os corpos esquartejados de duas crianças foram o pontapé inicial para uma investigação guiada por um delegado fanático. Resultando numa farsa que colocou um grupo de inocentes atrás das grades. É um daqueles casos de dar raiva, pois a investigação que deveria buscar por respostas e justiça se tornou mais um crime a ser resolvido.

APAna Paula Almeida

Essa história foi uma sugestão dos ouvintes @silveiraambus e @marieduardacampanhoni. Obrigada por enviar a sua indicação de caso.

SZStefanie Zorub

Antes de ir pra história, não deixe de seguir a gente aí na plataforma onde você tá ouvindo. Ative as notificações pra não perder nenhum episódio novo. E se puder, deixe a sua avaliação também.

APAna Paula Almeida

Parece pouco, mas pra Dona Café aqui e toda a nossa equipe, isso é tudo.

SZStefanie Zorub

E se você gosta muito dos nossos episódios aqui no Café com Crime, saiba que você pode escutar ainda mais casos brasileiros com a gente.

APAna Paula Almeida

A partir do mês que vem, agosto de 2026, eu vou passar a lançar não um, mas dois episódios exclusivos por mês para os apoiadores do podcast.

SZStefanie Zorub

Isso é um episódio do Café com Crime por semana pra você. Pra ter acesso, basta apoiar pela Apoia.se ou Orelo. Eu vou deixar o link das nossas campanhas de apoio na descrição deste episódio. Ao apoiar, você já ganha acesso imediato aos mais de 50 episódios exclusivos para apoiadores, além de entrar para nosso grupo de crimezeiros no WhatsApp. Super obrigada a todos os apoiadores, de verdade vocês fazem esse podcast existir. E pra fechar essa introdução, você já conhece a lojinha do Café com Crime?

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APAna Paula Almeida

Lembrando que este podcast faz uso de efeitos sonoros, então se puder escute de fone de ouvido. E alerta de gatilho: esse episódio contém temas como violência contra crianças e intolerância religiosa. E com isso, bora começar do começo? O telefone da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo tocou cedo no dia 4 de setembro de 2017. O delegado Rogério Baggio Berbit havia acabado de tomar posse como titular quando recebeu a notícia de que um catador tinha localizado dois corpos na zona rural da cidade.

SZStefanie Zorub

Ele reuniu a sua equipe, acionou a perícia e foi até o local indicado pelo denunciante.

APAna Paula Almeida

A princípio, a informação era de que os corpos pertenciam a uma mulher adulta, cujas unhas estavam pintadas de rosa, e um menino, que ainda vestia uma camiseta vermelha.

SZStefanie Zorub

A pele era branca, mas ambos estavam bastante bronzeados. O detalhe chamou a atenção dos policiais, já que o inverno do Rio Grande do Sul costuma ser rigoroso e com poucas aberturas de sol, o que tornaria aquele tom de pele muito incomum.

APAna Paula Almeida

Para os moradores locais naquela época do ano.

SZStefanie Zorub

À primeira vista, era possível determinar que os cortes nas juntas eram bastante precisos.

APAna Paula Almeida

O assassino certamente tinha conhecimento em anatomia e usou uma ferramenta muito afiada. Os peritos desconfiavam, inclusive, de uma serra de frigorífico. Apesar do estado dos corpos, os cadáveres ainda não exalavam mau cheiro, o que levou a polícia a acreditar que os assassinatos fossem recentes. A investigação estava apenas começando.

SZStefanie Zorub

Faltava localizar partes essenciais daqueles corpos, como as cabeças, e identificar as vítimas para que a família pudesse ser informada sobre o crime.

APAna Paula Almeida

Mesmo com a ausência de partes importantes dos corpos, a Polícia Técnica conseguiu coletar as digitais dos cadáveres para tentar identificá-los nos bancos de dados gaúchos, mas não obtiveram sucesso. O trabalho realizado pelos técnicos no recolhimento das impressões foi de excelência, mas não encontrou correspondência a nenhum padrão existente no Instituto Geral de Perícias. Dias depois, surgiu nova informação de que, na verdade, o caso se tratava de duas crianças, um menino e uma menina, ambos entre 8 e 12 anos.

As escolas da região receberam notificações para que pudessem repassar à polícia qualquer informação sobre crianças que estivessem faltando às aulas ali nos últimos dias, ou talvez crianças que tivessem histórico de violência familiar, ou ainda que algum professor tivesse alguma desconfiança de que algo não estava muito certo com aquele aluno. A gente sabe que muitos alunos enxergam professores como porto seguro em algumas situações, então se alguma criança tivesse feito algum desabafo ou tivesse agindo de maneira estranha, a polícia queria saber para poder investigar caso por caso.

Mas a investigação logo recebeu um banho de água fria. Em busca de melhores salários, os professores estavam em greve e sem contato com os alunos.

SZStefanie Zorub

Sem muitas opções, os investigadores decidiram varrer a região onde os corpos foram encontrados para tentar localizar testemunhas ou imagens de câmeras de segurança que pudessem ter registrado alguma movimentação.

APAna Paula Almeida

Mas a estrada Porto dos Tranqueiras, é erma, sem iluminação, com vizinhos localizados a mais de 700 metros de distância do ponto onde aquele catador encontrou as crianças.

SZStefanie Zorub

As câmeras de segurança mais próximas ficavam a 3 quilômetros de distância. Para piorar, os equipamentos que poderiam ter registrado algum veículo passando ali pela região na madrugada de 4 de setembro não gravavam imagens.

APAna Paula Almeida

Apenas reproduziam as imagens, nenhuma delas tendo armazenamento. Era como dar murro em ponta de faca. Uma varredura foi feita nos registros de crianças desaparecidas em todo o estado, já que a polícia desconfiava de que o crime pudesse nem ter sido cometido ali na própria cidade de Novo Hamburgo. Imagine, Novo Hamburgo tem uma população estimada em 227 mil pessoas.

SZStefanie Zorub

Duas crianças desaparecem e logo depois dois cadáveres são encontrados?

APAna Paula Almeida

Se fosse realmente essa situação, pelo menos a identidade dos corpos seria rapidamente comprovada, pois a cidade era relativamente pequena, seria fácil encontrar duas crianças desaparecidas. Mas nada, nada, nada. Nenhuma ocorrência a respeito foi registrada no município. Nenhuma criança desaparecida com aquelas características Foi denunciada. Cidades como Canela, Esteio e Porto Alegre também entraram no radar da polícia, mas era preciso ampliar ainda mais o raio de atuação.

SZStefanie Zorub

Lembram que a marca daquela caixa de produto de limpeza onde os corpos foram encontrados não foi reconhecida pelo catador?

APAna Paula Almeida

Pois bem, a marca Invicto era comercializada apenas no Nordeste do país. E lembra que as crianças estavam também bastante bronzeadas? Pois é, talvez fosse um sinal de que aquelas crianças nem fossem ali da região sul. E assim foi montada uma força-tarefa para monitorar constantemente os cadastros nacionais de crianças desaparecidas no Brasil todo. Isso na esperança de encontrar ali qualquer correspondência que pudesse ajudar a polícia a identificar aquelas duas crianças.

SZStefanie Zorub

A dificuldade de identificar os corpos prejudicava o avanço das investigações.

APAna Paula Almeida

Por esse motivo, o delegado Rogério Baggio era incapaz de descartar qualquer hipótese de crime, por mais absurda que soasse. Foram considerados desde crimes de vingança entre facções criminosas e tráfico humano, até mesmo crime passional. Mas as investigações travaram. Apenas no dia 18 de setembro, com a localização de novas partes dos cadáveres a 500 metros de onde tudo começou no início do mês, é que a polícia pôde considerar um pequeno avanço na investigação.

Um exame de DNA divulgado em 28 de setembro confirmou que aquelas novas partes pertenciam sim às mesmas crianças. E mais, O laudo revelou que os dois eram parentes por parte de mãe. As autoridades acreditavam que se tratava de dois irmãos, filhos da mesma mãe, mas de pais diferentes.

SZStefanie Zorub

E esse resultado era tudo o que se sabia sobre aquelas crianças. E aí, ainda mais perguntas entram em campo, né?

APAna Paula Almeida

Como que duas crianças da mesma família são assassinadas e ninguém nem dá conta de seu desaparecimento? Durante os meses que seguiram, nenhuma testemunha entrou pela porta da delegacia com uma informação relevante. Nenhuma mãe relatou o desaparecimento de seus dois filhos. E os policiais não avançaram nos trabalhos. Houve ali uma pequena dispersão, os investigadores voltaram a sua atenção a outros casos e até o delegado Baggio aproveitou o final de ano que se aproximava para tirar férias e curtir alguns dias de descanso com a sua família.

Com a saída temporária de Baggio das investigações no dia 10 de dezembro, Moacir Fermino, delegado titular da 2ª Delegacia da Polícia da cidade, assumiu o caso e botou a apuração para andar. E aí algo muito surreal aconteceu. Em apenas 10 dias, ele identificou e reuniu testemunhas-chave, apresentou 7 suspeitos e conseguiu a expedição de pedidos de prisão temporária que resultaram na prisão de 4 deles no dia 27 de dezembro de 2017.

SZStefanie Zorub

O delegado interino fez questão de convocar uma entrevista coletiva para apresentar a conclusão do inquérito e finalmente esclarecer para população local o que aconteceu às duas crianças até então não identificadas em setembro daquele ano. A resolução do caso era capaz de revirar o estômago até dos profissionais já acostumados com a violência. Os detalhes desse crime envolviam, segundo o delegado, um ritual satânico liderado por um bruxo de fama internacional que vivia e atendia na cidade de Gravataí, uma cidade localizada a 40 km de Novo Hamburgo.

O bruxo, segundo o delegado Fermino, havia sido contratado por empresários do ramo imobiliário da região que buscavam ascensão financeira.

APAna Paula Almeida

Esses detalhes sórdidos logo explodiram na mídia.

SZStefanie Zorub

Os jornais começaram a descrever o local de adoração do bruxo em Gravataí como um espaço maldito onde sacrifícios ocorriam com frequência, ainda afirmando que corpos eram enterrados no terreno e decorado com símbolos do maligno.

APAna Paula Almeida

Para a população local, foi um pânico, assim, total, uma crença reafirmada de que os satanistas estavam atrás de suas crianças. Como vocês podem imaginar, com tais detalhes, o crime que antes tinha atenção restrita da população local ganhou repercussão nacional. O Ano Novo de 2018 foi tomado com as seguintes manchetes no jornal NH. Em 3 de janeiro: crianças teriam sido sacrificadas em suposto ritual para atrair prosperidade. Em 4 de janeiro: irmãos esquartejados seriam argentinos e teriam sido comprados para ritual satânico.

Em 5 de janeiro de 2018: Hamburguense pagou R$25 mil para sacrificar irmãos em ritual satânico. Em 6 de janeiro de 2018, as manchetes continuavam, era dia após dia.

SZStefanie Zorub

Dessa vez: Polícia descobre detalhes assustadores de ritual satânico.

APAna Paula Almeida

E em 8 de janeiro de 2018, finalmente o delegado Fermino convocou a tal da coletiva de imprensa para revelar aos jornalistas que já publicavam diariamente novidades sobre o caso, como ele havia chegado, em apenas 10 dias, à conclusão do caso. E claro, ele também revelaria quem eram os envolvidos naquele ritual satânico contra crianças, quem era esse tal de bruxo e como ele havia realizado as suas prisões. Tudo seria esclarecido.

SZStefanie Zorub

Neste dia, o destaque do portal O Repórter foi a manchete: Ritual satânico: acusados teriam bebido sangue e comido parte do corpo de crianças. Foi nessa data também que a história quebrou as barreiras locais do Rio Grande do Sul e ganhou o país, com matérias sobre o caso sendo destaque no portal G1, o portal de notícias mais acessado do país. 7 suspeitos de ritual satânico com morte de crianças no RS têm prisão preventiva decretada.

As notícias eram grotescas, utilizando termos como magia negra, macabro, decapitadas, esquartejadas, ritual satânico e por aí vai.

APAna Paula Almeida

Além de às vezes usar termos como teriam sido ou supostamente, mas nem sempre eles davam essa margem para dúvida. Outras vezes o que vinha era a afirmação mesmo: o ritual custou tanto, o ritual satânico teve morte de crianças, eram certezas sendo dadas ao público, certezas que levaram o caso a se tornar o maior erro investigativo e judicial da história recente do Rio Grande do Sul. E se esses detalhes, meus queridos crimineiros, estão te lembrando muito aí do caso Evandro, né, muito bem contado pelo Ivan Mizanzuki no podcast Projeto Humanos, bem, esses dois casos infelizmente têm ainda muito mais em comum.

Na manhã do dia 8 de janeiro de 2018, o delegado Moacir Firmino Bernardo reuniu a imprensa na delegacia, agradeceu a presença de todos e, como se estivesse no altar de uma igreja, disse em alto e bom som que agradecia a Deus pela revelação que deu a dois profetas e um servo menor, que no caso era ele mesmo, uma revelação tão poderosa que o permitiu desvendar todo o crime e que também deu nome àquela operação policial: Operação Revelação.

SZStefanie Zorub

Atônitos, os jornalistas e policiais na sala não conseguiam sequer esboçar reação. Incrédulos, ouviram o delegado explicar a sua tese: Sílvio Fernandes Rodrigues, Um bruxo fundador do Templo de Lúcifer em Gravatáí teria sido contratado pelos empresários Jair da Silva e Paulo Ademir Norbert da Silva.

APAna Paula Almeida

O objetivo: sacrificar duas crianças para atrair prosperidade nos negócios. Os empresários viviam no mesmo bairro onde os corpos foram encontrados e teriam desembolsado R$25 mil pelo ritual em homenagem a Moloque, um deus pagão cultuado pelos amonitas e considerado pelo cristianismo um demônio por ser constantemente associado ao sacrifício de crianças na Bíblia hebraica.

SZStefanie Zorub

E como que o delegado tinha todos esses detalhes sobre quem era Moloque, o ritual e tudo mais?

APAna Paula Almeida

Bem, através da minha melhor amiga, Wikipédia. Sim, crimezeiros, o delegado havia incluído no inquérito registros da Wikipédia para detalhar os atributos do demônio sobre Loki, a etimologia do seu nome e as etnias que o cultuavam.

SZStefanie Zorub

A página da Wikipédia serviu como prova, mas em nenhum momento o Fermino ofereceu provas de como descobriu o nome da entidade cultuada ou sobre as fases do ritual e seus requisitos, como ele viria a detalhar.

APAna Paula Almeida

Ao detalhar o crime, ele também afirmou saber como essas duas crianças foram parar lá no templo de Lúcifer. De acordo com o delegado Fermino, os filhos do empresário Jair, que se chamavam Andrei Jorge da Silva e Anderson da Silva, eles foram os responsáveis por conseguir aquelas crianças. Eles teriam contado com a ajuda de Jorge Adrian Alves, um argentino que teria roubado um caminhão em Novo Hamburgo e trocado pelas vítimas na província de Corrientes, na Argentina.

Tudo bem bizarro, né? Ok, até aqui a gente já tem o nome de 6 acusados, mas o delegado queria um sétimo, e o escolhido foi Márcio Miranda Brustolin, discípulo de Sílvio. Ele teria sido o responsável por intermediar a negociação entre o suposto bruxo e aqueles empresários.

SZStefanie Zorub

O delegado Fermino também explicou como aconteceu o ritual.

APAna Paula Almeida

Porque ele tinha duas testemunhas que presenciaram tudo o que ocorreu ali dentro do templo. Essas duas testemunhas de início não tiveram os seus nomes divulgados ali para os jornalistas naquela coletiva de imprensa.

SZStefanie Zorub

O delegado contou que como os empresários eram cristãos, eles precisaram renunciar a Deus antes do sacrifício e para isso pingaram 7 gotas do próprio sangue em uma Bíblia diante do altar de uma uma igreja qualquer. Com essa primeira etapa concluída, era hora de partir para a fase seguinte. Com todo o discurso feito em aramaico, os 7 homens se reuniram no templo de Lúcifer para dar início ao ritual. O relato dessas testemunhas era aterrorizante.

O menino teria sido obrigado a consumir álcool e em seguida amarrado um pedestal. Enquanto isso, a irmã mais velha foi deitada no chão em um ambiente escuro, iluminado apenas ali por velas, com os 7 envolvidos ajoelhados ao seu redor. E aqui entra um dado técnico real: os exames periciais confirmaram que no corpo do garoto havia 5,3 decigramas de álcool por litro de sangue. Isso é o suficiente para deixá-lo à beira de um coma alcoólico.

Um detalhe terrível, mas que batia exatamente com o que as supostas testemunhas tinham trazido para o inquérito.

APAna Paula Almeida

Outro dado técnico real e bastante triste é que a menina apresentava perfurações no corpo e sinais de luta. Diante de tamanha violência e com medo de serem pegos, as testemunhas não acompanharam todo o ritual.

SZStefanie Zorub

Ao perceberem o que ia acontecer ali, Essa testemunha teria se virado de costas e depois fugido do templo antes de tudo terminar. Então não se sabe exatamente como o esquartejamento das crianças ocorreu, mas pelo estado dos corpos, Fermino acreditava que a decapitação havia sido feita através de torniquetes e depois as cabeças teriam sido enterradas no templo do bruxo, um templo que ficava localizado localizado num terreno de 7 hectares. Com isso, o pacto foi concretizado.

?Voz E

Vejam como tudo girava em torno de simbologia, né? A simbologia do número 7. Foram 7 suspeitos, 7 gotas de sangue, precisaram fazer isso 7 dias antes, era um terreno de 7 hectares. Enfim, esse era o número cabalístico que servia como fio condutor para o delegado.

SZStefanie Zorub

Para Fermino, os envolvidos consumiram a carne e beberam também o sangue das crianças. Por fim, os restos mortais das vítimas foram descartados nos arredores da propriedade de Jair, um dos empresários que tinham contratado esse ritual.

APAna Paula Almeida

E se você tá pensando, ué, por que que não enterraram o corpo lá nos 7 hectares do templo, não é mesmo? Bem, eles precisavam fechar ali 4 pontos cardeais para garantir o sucesso do ritual.

SZStefanie Zorub

Por isso, partes dos corpos foram deixados em 4 pontos distintos.

APAna Paula Almeida

Escute a seguir um trecho do delegado Moacir Firmino durante essa coletiva de imprensa.

?Voz F

Nós acreditamos que as crianças foram sacrificadas lá no templo de em Murungaba. E as crianças foram picadas e colocadas num freezer para guardar o tempo que é dado de 7 em 7 dias para o ritual.

APAna Paula Almeida

Falando alto e gesticulando bastante durante a coletiva de imprensa, Fermino se referia aos suspeitos como os 7 discípulos de Satanás. Ele também mostrou ali uma capa preta e uma máscara de cachorro, que ele dizia que eram itens ritualísticos que teriam sido usados no momento do sacrifício, itens que ele teria encontrado no cofre do templo de Lúcifer, pertencentes ao bruxo Sílvio. Ele ainda afirmava que aquela não seria a primeira vez que a seita satânica havia realizado sacrifício de criança.

?Voz F

Dentro das dependências da casa dele estava a capa. E nós trouxemos também uma outra, uma outra máscara aqui que eles usam também para assustar crianças, pessoas que foram sacrificadas no ritual. Nós não podemos ser ingênuos e nem hipócritas. Se ele fez isso, tem experiência, ele fez isso por todo o Brasil e pelo Rio Grande do Sul também.

APAna Paula Almeida

Era uma história de tirar o fôlego, isso ninguém podia negar.

SZStefanie Zorub

Mas os jornalistas não se convenceram apenas com o relato de Fermino.

APAna Paula Almeida

Eles queriam tirar dúvidas, ligar os pontos e entender algumas questões que, convenhamos, permaneciam um tanto quanto confusas.

SZStefanie Zorub

Eu também amo o momento em que um jornalista pergunta por que o Firmino achava que as crianças eram argentinas e ele se embola todo na resposta.

APAna Paula Almeida

Eu vou colocar esse trecho, esse áudio da coletiva de imprensa, para vocês mesmos escutarem.

SZStefanie Zorub

Por que o senhor acredita que as crianças vieram da Argentina?

?Voz F

Porque foi levado um carro para lá. O argentino é de lá e ele é braço direito do Jair, e ele tem passagem lá pela Argentina, conhece toda a Argentina. E nós acreditamos que ele— nós acreditamos, não quer dizer que nós vamos comprovar, mas acreditamos que ele e mais um outro foram que trouxeram as crianças Ou seja, né, prova mesmo não tinha nada, tudo suposições.

APAna Paula Almeida

E ele mesmo fala: isso aí eu acredito, né, nem sei se tem como comprovar.

SZStefanie Zorub

E gente, você tá jogando isso para imprensa? Que loucura, né?

APAna Paula Almeida

Mas o maior questionamento de todos os jornalistas ali presentes era quem eram as duas testemunhas que presenciaram o ritual. Afinal, como que eles estavam presentes no templo e viram tudo se eles não faziam parte do grupo dos 7 discípulos de Satanás?

SZStefanie Zorub

Para essa questão, o delegado tinha uma resposta na ponta da língua.

APAna Paula Almeida

Ele explicou que um dos homens que testemunharam o ritual havia sido contratado por Márcio Miranda Brustolin, o discípulo do bruxo Sílvio, para realizar alguns reparos no sítio de Sílvio e ali no terreno em Lomba Grande de Jair também, né, um dos empresários que contrataram o Sílvio. Essa testemunha, ela tinha retornado ao templo na noite do crime para recuperar algumas ferramentas que teria esquecido no local naquele dia mais cedo quando tava ali para fazer os reparos.

A testemunha, que estava acompanhada de um amigo, tinha acesso liberado ao local por conta da prestação de serviços e entrou no terreno sem se anunciar e sem chamar a atenção.

SZStefanie Zorub

Foi nesse momento que se deparou com o culto do sacrifício.

APAna Paula Almeida

O prestador de serviço e o seu amigo ficaram desesperados com o que estavam vendo e se retiraram do local antes que pudessem ser notados por Sílvio, Jair e companhia. Caso contrário, Ele tinha certeza de que poderiam morrer também. Ok, e como que a polícia chegou a essas testemunhas que mudaram os rumos da investigação em 10 dias, feito que o delegado Rogério Baggio não havia conseguido em meses de trabalho intenso? Para essa questão, Fermino também tinha uma resposta na ponta da língua.

SZStefanie Zorub

O delegado contou que assim que assumiu o inquérito, ainda na manhã do dia 10 de dezembro de 2017, recebeu a ligação de um homem de Deus.

APAna Paula Almeida

Que disse ter informações relevantes sobre o caso.

SZStefanie Zorub

Ele chamou o delegado para um encontro, disse que Firmino precisaria levar um caderno para anotar tudo o que ele tinha para contar. Um dos jornalistas perguntou se essa pessoa era uma das testemunhas que, tomada pela dor na consciência, decidiu compartilhar o que havia presenciado na madrugada de 4 de setembro.

APAna Paula Almeida

Mas para surpresa de todos, Firmino negou. Ele disse que não era uma questão de dor na consciência. Ele ergueu a sua voz e respondeu que não se tratava de apenas uma testemunha, mas sim de um profeta de Deus.

SZStefanie Zorub

Os repórteres insistiram, eles queriam informações mais concretas, eles estavam confusos com tudo que tava sendo dito e queriam saber quem era essa pessoa que o delegado chamava de profeta. Mas antes que pudessem concluir o questionamento, Fermino os interferiu e disse: Não sou eu que chamo, é Deus.

APAna Paula Almeida

Não sou eu, é revelação.

SZStefanie Zorub

O silêncio que tomou conta daquela sala era constrangedor e a coletiva foi encerrada. As declarações de Fermino ligaram o sinal de alerta na cúpula da Polícia Civil.

APAna Paula Almeida

Uma reunião de emergência foi realizada para discutir as técnicas usadas na investigação, algo que até aquele momento ninguém havia questionado em absolutamente nada. E como, né? Talvez pelos mais de 40 anos de serviços prestados pelo delegado à instituição tiveram um peso grande.

SZStefanie Zorub

Afinal, ele era uma figura de credibilidade.

APAna Paula Almeida

Ou até pelo seu poder de persuasão. Pois fato é que essa história toda, que levantou dezenas de questionamentos em uma hora de coletiva, tinha sido suficiente para convencer até um juiz a assinar as prisões preventivas. Sim, porque com o que Firmino apresentou, o bruxo Sílvio Fernandes Rodrigues, o empresário Jair da Silva, o seu filho Andrei, eles haviam sido presos e passaram o Ano Novo atrás das grades. Márcio Miranda Brustolin foi indicado pela testemunha e preso apenas no dia 4 de janeiro de 2018.

Já os outros 3 acusados ficaram foragidos. Eram eles Paulo Ademir, que seria o sócio de Jair, Anderson da Silva, o outro filho do empresário, e Jorge Adrián Alves, o argentino que teria trocado as crianças pelo caminhão roubado. Eles sabiam muito bem como assassinos de crianças são tratados por outros presos. Por isso, não pensaram duas vezes antes de dar no pé rumo a um destino desconhecido. Na reunião de emergência da Polícia Civil, ficou decidido que a linha investigativa da Operação Revelação seria mantida naquele momento, mas com uma condição: o delegado titular, Rogério Baggio, teria que voltar imediatamente das férias para retomar o comando do caso.

SZStefanie Zorub

Caberia a ele estudar as supostas provas anexadas ao inquérito para decidir qual rumo o trabalho seguiria a partir dali. Naquele momento, Baggio era o homem de confiança da cúpula da Polícia Civil.

APAna Paula Almeida

Dois dias antes do previsto, o delegado Baggio deixou a família em Foz do Iguaçu e dirigiu seu Chevrolet layout por 900 km rumo a Novo Hamburgo, uma viagem que durou pelo menos 15 horas.

SZStefanie Zorub

Assim que colocou os pés na cidade, Rogério se reuniu com o delegado Fermino para que juntos pudessem repassar todos os detalhes do caso, desde a localização dos corpos até aquele desfecho traumático. Apesar de soar como uma bomba para quem acompanhou o trabalho de Fermino em dezembro, e também para a imprensa durante aquela coletiva de janeiro, aquele papo de ritual satânico não era bem uma novidade para o delegado Baggio. É que pouco mais de um mês após o crime, ainda em outubro de 2017, Fermino procurou Baggio com aquele mesmo papo, o de ter sido procurado por dois profetas de Deus em seu escritório na 2ª Delegacia, homens que haviam sido usados para receber uma revelação do Espírito Santo sobre o assassinato das crianças.

Baggio até ouviu o colega, né, deixou ele dizer o que ele tinha a dizer, mas ele não considerou que uma revelação divina pudesse guiar um inquérito daqueles. Apesar de respeitar a religiosidade de Fermino, o delegado titular explicou que a lei exige provas reais para sustentar qualquer linha de investigação. Gente, ele teve que explicar isso para o delegado que trabalhava na polícia há mais de 40 anos, tá?

APAna Paula Almeida

Só assim, é muito surreal.

SZStefanie Zorub

Enfim, por isso que Baggio preferiu focar a atenção na possibilidade de um crime conjugal, ou talvez de uma dupla execução ligada ao tráfico de de drogas, ele decidiu ir por outras linhas investigativas que não envolviam essa revelação divina sobre uma seita satânica. Mas aí outubro passou, novembro passou sem muitas novidades, Baggio sai para suas férias já programadas em dezembro e Firmino assumiu o caso. E sem a oposição do delegado titular, ele trouxe à tona a história dos profetas e das testemunhas que desenharam aquela dinâmica macabra para o crime.

Com a volta agora do delegado titular, ficou decidido que Baggio e Firmino fariam uma espécie de trabalho em dupla.

APAna Paula Almeida

Firmino permaneceria no caso e, enquanto isso, Baggio buscaria provas materiais que não estavam no inquérito ainda.

SZStefanie Zorub

Acho que isso deve ter sido até uma manobra do Baggio de não querer criar confusão ali dentro, até porque o Firmino já tinha 4 décadas de experiência, era uma pessoa de credibilidade, talvez não quis, né? Falou assim: beleza, se é isso que você acredita, então vamos trabalhar em dupla, né?

APAna Paula Almeida

Eu vou buscar outras informações que você não buscou. Enquanto isso, eles combinaram que o Firmino ia seguir o trabalho que ele tava fazendo de ir para as ruas buscar evidências a partir das pistas dadas por seus informantes, pelas suas testemunhas.

SZStefanie Zorub

E esse trabalho em dupla rendeu frutos. Mas apenas para o delegado Baggio. Bastaram alguns dias à frente do inquérito para que os próprios investigadores começassem a apontar falhas graves na condução de Fermino. Sabe aquela capa preta e a máscara de cachorro que foram orgulhosamente exibidas durante a coletiva como itens utilizados no ritual macabro? Pois é, elas sequer foram encontradas no cofre de Sílvio, como o delegado afirmou para a imprensa, mas sim do quarto do filho de Sílvio.

Além de tudo, em nenhum momento esse material passou por perícia para saber se havia material genético das crianças nos tecidos, já que ele afirmava que aquela capa foi usada no momento do sacrifício.

?Voz E

E, gente, segue a gente lá no Instagram, no @cafecomcrime, porque eu vou postar fotos dessa capa, da máscara do cachorro. E, gente, a máscara do cachorro é tão engraçada. Ai, eu não me aguento, sério. É tudo muito bizarro nesse caso.

SZStefanie Zorub

Enfim, em outra ocasião, enquanto comandava uma escavação no templo de Sílvio em busca das cabeças das vítimas, o Firmino recebeu a ligação de um de seus profetas.

APAna Paula Almeida

Era o homem santo quem o conduzia por telefone sobre onde perfurar o terreno para encontrar a cabeça das vítimas. Mas adivinhem?

SZStefanie Zorub

Nada foi encontrado, nem com esse guia divino. Firmino também chegou a recolher o que acreditava ser um crânio humano em uma bacia de sangue para usar como indício. Porém, a perícia constatou que aquela peça não passava de uma reprodução de gesso. Com a pulga atrás da orelha, Baggio pediu à justiça uma nova perícia e mais um mandado de busca e apreensão no Templo de Lúcifer, que era na casa de Sílvio também. O pedido foi aceito.

Por mais de 2 dias, os policiais permaneceram no local e confiscaram tudo o que era possível para enfim tentar dar materialidade ao crime descrito pelas testemunhas de Firmino. Durante as buscas, as equipes encontraram várias ossadas enterradas no terreno. E quando os peritos aplicaram o luminol, aquela substância química que brilha no escuro quando entrou em contato com o sangue, o chão do templo acendeu igual a uma árvore de Natal.

?Voz E

Tchan, tchan, tchan, mais uma vez.

SZStefanie Zorub

Mas passando esse susto inicial, veio aí o balde de água fria.

APAna Paula Almeida

Os exames provaram que nem os ossos e nem o sangue encontrados no local eram humanos. Em seu depoimento, o Sílvio Rodrigues explicou a situação. Ele disse que apesar de ser mestre de alta magia, ele não costumava trabalhar com sacrifício animal em seus cultos, mais que a sua ex-esposa sim. Ela era adepta daquele tipo de ritual e ela utilizava o templo ali, o local, para fazer os seus rituais. Então esses ossos animais e o sangue animal era por conta disso.

?Voz E

E aqui eu quero abrir um parênteses. Vale pontuar que o Silvio, ele foi casado por mais de 15 anos e teve 2 filhos com a primeira a esposa.

SZStefanie Zorub

Eles se separaram amigavelmente.

?Voz E

O Silvio se casou uma segunda vez e teve mais um filho desse novo relacionamento, e nem isso o parou de continuar tendo uma relação amigável com a sua esposa, tanto ali por uma questão de respeito ao que ele chama de as entidades da esposa dele, né? Eles partilhavam das mesmas crenças. Aí em 2016, a sua ex-esposa foi despejada da casa onde morava e Sílvio a acolheu no sítio onde era o seu templo. Ela passou a viver ali e também a fazer os seus próprios rituais.

Por isso foram encontrados esses, esses ossos e esses vestígios de sangue ali de animal. Curiosamente, no dia em que o Sílvio foi preso, sua ex-esposa havia botado todos os seus pertences numa mala e saído sem avisar do sítio. Ela saiu com tanta pressa e desespero que o seu carro até caiu num buraco enquanto ela tentava ir embora. Ela deixou a casa uma bagunça e no dia da sua prisão, Sílvio e a atual esposa estavam arrumando e limpando a casa após a ex-esposa ter ido embora assim meio que desavisada.

O Sílvio chegou até a pensar que talvez a polícia estivesse ali por conta de algo que tivesse ocorrido com a sua ex-esposa, que tinha ido embora do nada. Ou seja, né, só para dar um contexto aqui para vocês do que que a ex-esposa dele tem a ver também de estar fazendo ritual ali no templo dele. Mas é isso, fechando parênteses.

SZStefanie Zorub

Quando Baggio percebeu que faltavam provas materiais, uma nova testemunha surgiu no dia 15 de janeiro para confirmar que viu uma caminhonete parada na Estrada Porto das Tranqueiras com dois dos acusados jogando sacos plásticos azuis no matagal de sua margem. Mesmo com essa bomba, o delegado Baggio não se convenceu. Era tudo muito conveniente, sabe?

APAna Paula Almeida

Já o Firmino estava eufórico, né?

SZStefanie Zorub

Agora tem aí uma testemunha para provar tudo que ele tava falando. Mas o Bajo batia na tecla de que a história não fechava.

APAna Paula Almeida

Não havia absolutamente nada que fosse capaz de ligar os empresários Jair e Paulo ao mestre de magia Sílvio. Nenhum registro telefônico, nenhuma mensagem trocada por aplicativo de mensagens, Nenhuma interação em rede social, email, eles não tinham nenhum amigo em comum, não tinha nenhuma busca na internet feita por Jair procurando por algum serviço desse tipo prestado por Sílvio, que na verdade o Sílvio ele era especialista em fazer amarrações do amor.

SZStefanie Zorub

Então a história simplesmente não fechava, como que os caras contrataram Sílvio sem nunca ter nem visto ou falado ou interagido com ele em nenhuma maneira.

APAna Paula Almeida

Não tinha nada que ligasse essas pessoas.

SZStefanie Zorub

7 dias após essa conversa, no dia 22 de janeiro, um carregador de supermercado entrou espontaneamente na delegacia para falar ao delegado titular que ele era o responsável por apresentar Jair ao bruxo Sílvio, descrevendo inclusive o caminho entre a casa do empresário e o templo do bruxo em Gravataí. Para Fermino, essa era a peça que faltava para fechar a investigação. Agora conseguiam ligar os acusados um ao outro, né?

APAna Paula Almeida

Mesmo assim, Baggio resolveu revisar todos os depoimentos antes de dar o veredito final. Ele intimou todas as testemunhas novamente.

SZStefanie Zorub

Queria deixar tudo bastante amarradinho e entregar o inquérito sem nenhuma ponta solta. Mas a história começou a mudar de figura justamente no depoimento do homem que dizia ter visto os suspeitos deixando os corpos na estrada. Primeiro, o doutor Baggio perguntou como ele se lembrava dos fatos com tanta exatidão. O homem explicou que o flagrante aconteceu porque ele estava indo visitar o filho, que fazia aniversário exatamente no dia 4 de setembro.

Por isso, seria impossível confundir as datas. E esse fato do aniversário era verdade, mas o que pegou de verdade foi outra coisa.

APAna Paula Almeida

Esse homem contou para a polícia que no momento do flagrante estava acompanhado de um colega de trabalho, um colega de trabalho que ele simplesmente não soube dizer quem era. Oi, como assim, né?

SZStefanie Zorub

Você está circulando na madrugada com um companheiro de trabalho e de repente não sabe o nome dessa pessoa? A testemunha trabalhava como pedreiro, mas o amigo que o acompanhava, ele nem sabia. Eu não sabia dizer no que o cara trabalhava, só sabia que era lá da mesma obra, mas não sabia nem o nome e nem a sua função exata.

APAna Paula Almeida

Foi algo bastante suspeito, né? Depois de a polícia insistir muito, essa testemunha foi submetida a um reconhecimento fotográfico e finalmente apontou um homem que morava em Santa Catarina como sendo o seu colega de trabalho que o acompanhou naquela manhã e poderia confirmar a sua história de que ele viu dois dos acusados jogando aquele sacos lá na estrada.

SZStefanie Zorub

Mas se já era esquisito que uma pessoa que morava em outro estado, em Santa Catarina, estivesse ali com ele na madrugada, ficou ainda mais bizarro quando a polícia descobriu que o homem apontado na foto era um médico.

APAna Paula Almeida

E estranho por quê, né?

SZStefanie Zorub

Ele não podia ser amigo de um médico?

APAna Paula Almeida

Claro que sim.

SZStefanie Zorub

Mas é estranho porque um profissional da saúde que trabalhava em Santa Catarina, assim, dificilmente ele trabalharia batendo massa em uma obra em Novo Hamburgo, né, gente?

APAna Paula Almeida

Aquilo simplesmente não fazia sentido.

SZStefanie Zorub

Foi Fermino quem pediu para Baggio descartar o reconhecimento do médico. Ele ainda providenciou que a testemunha reconhecesse outra pessoa. E quando a testemunha reconheceu outra pessoa e falou: ai, não, desculpa, eu, né, haha, vi errado, não era esse médico.

APAna Paula Almeida

Esse outro homem que ele apontou e reconheceu era pelo menos 10 anos mais velho do que o médico.

SZStefanie Zorub

Então como assim ele aponta uma pessoa com 10 anos de diferença na cara, né?

APAna Paula Almeida

Foi naquele momento que o delegado titular, o Bajon, ele teve certeza de que a história toda era uma farsa e ele decidiu daqui para frente ignorar o Fermino e tudo que ele tinha trazido nessa investigação.

SZStefanie Zorub

Pressionados pelos investigadores, a partir desse momento a falsa testemunha não conseguiu segurar o rojão Ele confessou que tudo o que havia dito nos depoimentos até agora, de que ele tinha visto os suspeitos jogando sacos, né, com o corpo das crianças ali na estrada, falou que tudo isso era uma mentira.

APAna Paula Almeida

E ele apontou o homem que o induziu a mentir. O seu nome era Paulo Sérgio Lemen, dono de um ferro-velho onde ele trabalhava.

SZStefanie Zorub

Ou seja, Paulo era o seu patrão.

APAna Paula Almeida

Por causa disso, no início de fevereiro de 2018, Paulo foi preso preventivamente por coação no curso do processo, já que ele tinha ameaçado 3 pessoas para poder sustentar a farsa, inclusive o próprio filho, que foi usado por ele para ir até a delegacia e dizer aos investigadores que ele era o responsável por apresentar Jair o empresário, a Sílvio, o bruxo. A revelação assim, gente, abriu a caixa de Pandora. Com essa nova peça no tabuleiro, os policiais reinqueriram as demais testemunhas, que uma a uma resolveram contar a verdade.

O castelo de cartas desmoronou. Tudo não se passava de uma elaborada mentira, uma invenção. Agora, por que Paulo queria culpar Sílvio e os outros 6 inocentes de um crime horrendo contra crianças que eles não haviam cometido? Qual era a sua intenção? Pois apesar de ter inventado toda a história do ritual satânico, Paulo aparentemente não tinha nada a ver com o templo de Sílvio. Nada, absolutamente nada ligava Paulo ao Sílvio ou a qualquer dos outros suspeitos.

E aí, se isso já não é mistério suficiente, a investigação esbarrou em um mistério ainda maior. Como é que esse homem, o dono do ferro-velho, Paulo, tinha acesso a tantas informações sigilosas e detalhes minuciosos do crime?

SZStefanie Zorub

Detalhes que nem sequer eram de conhecimento público.

APAna Paula Almeida

Como que ele sabia dos detalhes como o nível alcoólico do corpo do menino, né?

SZStefanie Zorub

Porque as testemunhas que ele forçou a falarem com o delegado Firmino? Falaram, não, ele ingeriu muito álcool e tal. Como que ele sabia?

APAna Paula Almeida

Baggio tinha convicções, mas não tinha provas para viabilizar as respostas para esses questionamentos.

SZStefanie Zorub

O que se sabia com certeza era que todas as testemunhas passavam por graves dificuldades financeiras e que haviam sido coagidas e orientadas por Paulo para que procurassem a polícia para prestar depoimentos mentirosos. Tudo em troca de uma promessa: a inclusão de seus nomes em um programa estadual de proteção à testemunha. Isso queria dizer que eles ganhariam uma grana ali mensal, casa, teto, ficariam tudo bem, tudo bonitinho sendo testemunhas do programa Protege.

APAna Paula Almeida

Paulo prometeu que todos os que se colocassem em risco para confirmar a história do ritual satânico seriam protegidos pela justiça.

SZStefanie Zorub

Receberiam cerca de R$3.000 por mês para viver bem longe dali com novas identidades. Claro que tudo isso também era uma mentira deslavada, já que na realidade o valor pago pelo Programa Protege, né, o programa de proteção de testemunhas, mal chegava a um salário mínimo, que em 2017 era de apenas R$937.

APAna Paula Almeida

Em um depoimento gravado em vídeo, Paulo admitiu ter sido o responsável por criar toda a narrativa e tê-la passado ao delegado Fermino como se fosse uma revelação divina. Diante da equipe de Baggio, portanto, ele contou que a história repassada era fruto de uma viagem astral e que ele não imaginou que o delegado compraria sua história sem se aprofundar nas investigações.

SZStefanie Zorub

O problema é que Fermino não só comprou aquela versão como passou a pressionar Paulo para que conseguisse testemunhas que comprovassem aquela tal revelação.

APAna Paula Almeida

Repassando a Paulo detalhes técnicos extraídos dos laudos oficiais, como o nível de álcool no sangue do menino. Para o delegado interino, aquela era a resolução perfeita para um crime sem solução e uma maneira louvável de encerrar a sua carreira na polícia antes de tentar ingressar na política. O que ele esperava era ser ovacionado e ser parte de manchetes o chamando de herói por ter desmascarado uma seita luciferiana realizadora de sacrifícios de crianças.

Moacir Firmino queria ser o salvador e para isso estava disposto a cometer todo tipo de pecado e crime. É tenso.

SZStefanie Zorub

Por isso vamos dar uma pausa, tomar um gole de café e trazer um pouco de leveza para esse episódio.

APAna Paula Almeida

Vamos falar de uma das coisas mais importantes dessa vida, que é amor e família.

SZStefanie Zorub

Eu tenho o privilégio de falar novamente para vocês sobre a Guardiões de Vidas, a empresa que cuida da sua família com amor, carinho e, acima de tudo, profissionalismo. A Guardiões de Vidas é especializada em cuidados com pacientes idosos uma empresa de home care que te ajuda a não se sentir sobrecarregado com os cuidados de um ente querido. Se a sua rotina é uma correria sem fim, com trabalhos, compromissos, várias expectativas, e ao voltar para casa ainda fica por sua conta o cuidado de um ente querido, saiba que você pode ter ajuda, e isso não significa amar menos.

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APAna Paula Almeida

É isso, cuide de quem você ama, cuide com a Guardiões de Vidas.

SZStefanie Zorub

E agora, com esse quentinho de cuidado no coração, podemos voltar para nossa história.

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?Voz A

Lima. How do you say, where's the restroom, in Spanish?

APAna Paula Almeida

¿Dónde está el baño? Hey Meta, is a hot dog a sandwich?

SZStefanie Zorub

Technically no.

?Voz A

Spiritually, yes.

SZStefanie Zorub

Hey Meta, what should I do with my life?

— Anúncios inseridos dinamicamente —

APAna Paula Almeida

Quando seu castelo de cartas ruiu, o delegado Moacir Fermino Bernardo somava uma carreira de 44 anos na Polícia Civil, 20 deles como delegado. Já cansado da rotina exaustiva das delegacias e investigações, ele queria se aposentar no auge E solucionar o caso das crianças esquartejadas de Novo Hamburgo seria o trampolim perfeito, tudo o que ele precisava para ingressar na política com a moral lá no alto. Essa, inclusive, era uma obsessão antiga.

SZStefanie Zorub

Fermino já havia tentado se eleger vereador na cidade de São Leopoldo em 2004 e depois em 2008, mas não teve sucesso. Agora ele tinha certeza de que em 2018, surfando na onda desse caso midiático, teria chances reais de se eleger deputado estadual ou até mesmo federal. Para completar o perfil, o Doutor Fermino, que nasceu e cresceu na fé católica, tinha se convertido à igreja evangélica em 2014, e ele não fazia questão nenhuma de esconder que estava se preparando para dar mais um passo em sua carreira: o de se tornar pastor.

Quando Rogério Baggio se afastou do caso para curtir suas férias, Fermino viu a oportunidade de resgatar a história do profeta que tentou emplacar em outubro, quando o delegado titular ainda estava no comando. O plano era dar àquela tese a roupagem de legalidade que precisava para convencer o Ministério Público e a Justiça Mas havia um grande obstáculo: não existia nenhuma prova material. Foi por isso que ele precisou correr contra o tempo para fabricar testemunhas que comprovassem a sua história.

Com a ausência do delegado Baggio, Fermino procurou Paulo Lemen para informar que o plano seria colocado em prática e o pressionou para que testemunhas procurassem a polícia espontaneamente para prestar depoimento. Sobre a promessa de que seriam incluídas no programa Protege, um programa que tem a finalidade de assegurar a integridade e prestar assistência às testemunhas de crimes.

APAna Paula Almeida

A investigação, conduzida pela Corregedoria da Polícia, no entanto, descobriu que o personagem central dessa história bizarra não foi escolhido aleatoriamente. Paulo Lemen tinha um motivo bem pessoal Ele nutria uma raiva profunda de Jair, o empresário apontado como mentor do ritual. O motivo? Paulo havia sido contratado por Jair para realizar um serviço, mas o Paulo ali meio na folga, na preguiça, sei lá o que foi, ele nunca finalizou esse serviço.

SZStefanie Zorub

E por causa disso ele vinha sendo constantemente pressionado e cobrado por Jair. As outras peças do quebra-cabeça teriam sido escolhidas ao acaso, apenas para completar o número cabalístico de 17 envolvidos. O bruxo Sílvio Rodrigues, por exemplo, foi selecionado a partir de buscas na internet.

APAna Paula Almeida

Com tudo esquematizado, Fermino anexou os depoimentos mentirosos ao inquérito e pediu a prisão preventiva dos suspeitos.

SZStefanie Zorub

Na representação por prisão temporária, ele também afirmava que tinha vídeos das sessões do ritual, um material que ele anexaria ao inquérito mais coisa que nunca aconteceu. O Ministério Público deu um parecer desfavorável aos pedidos de prisão, alegando que as evidências apresentadas eram frágeis demais para justificar o cárcere.

APAna Paula Almeida

Mesmo assim, a justiça considerou que as provas eram contundentes e decretou a prisão dos 7 investigados.

SZStefanie Zorub

No dia 27 de dezembro de 2017, as equipes lideradas pelo delegado Fermino amanheceram em frente ao Templo de Lúcifer, uma propriedade rural de 7 hectares em Gravataí, onde Sílvio Fernandes Rodrigues residia e atendia seus clientes e professava sua fé. Afinal, vale lembrar, o Brasil é um Estado laico que não apenas permite que cada um pratique sua religião livremente, como também deveria proteger a liberdade religiosa de cada cidadão.

APAna Paula Almeida

Com o mandado de prisão em mãos, os policiais invadiram o local fortemente armados.

SZStefanie Zorub

O objetivo era um só: render o bruxo acusado de liderar o esquartejamento das crianças.

APAna Paula Almeida

Sobre o dia de sua prisão, Sílvio lembra: eu estava em casa e aí adentraram com as viaturas, eram 4 viaturas, muitos policiais. O delegado deu voz de prisão, chegou e disse: eu sou Deus e vim prender Satanás. Eu perguntei qual era a acusação e ele disse que eu saberia na delegacia.

SZStefanie Zorub

Eu não fazia ideia do que se tratava. Sílvio nem ao menos sabia da descoberta dos corpos das duas crianças. Ele não estava acompanhando as notícias e não tinha nem ideia da trama toda em que estava sendo envolvido pelo delegado Moacir Fermino, uma autoridade policial que gritou a plenos pulmões que era Deus no momento da prisão.

APAna Paula Almeida

Que fique bem registrado isso. Sílvio, que não gostava de ser chamado de bruxo e agora foi acusado de ser Satanás, estava bastante à vontade em sua casa antes da chegada da polícia.

SZStefanie Zorub

Ele vestia apenas uma bermuda, tava sem camiseta, tava de boa fazendo uma faxina. E no momento ali da prisão, ele também tava preparando o altar diante de uma imagem de Belzebu.

APAna Paula Almeida

Essa imagem de Belzebu era uma imagem que trazia um certo medo nas pessoas, assim como o símbolo de um pentagrama bem grandão que ele tinha no portão do templo.

SZStefanie Zorub

O símbolo costumava atiçar a curiosidade e também o medo de quem passava pela estrada que cortava aquele bairro em Gravataí.

APAna Paula Almeida

Apesar de todos os preconceitos, Sílvio garantiu que era incapaz de fazer mal a quem quer que fosse.

SZStefanie Zorub

Ali no seu templo não rolava nada demais, não rolava nenhum sacrifício, Naquele dia, ele estava preparando um ritual de prosperidade encomendado por um empresário carioca.

APAna Paula Almeida

Mas a oferenda em nada lembrava carne e sangue humano. O banquete oferecido às entidades era composto por caviar, salmão, carne de porco e frutas, além de vinho e uísque. Velas seriam acesas e uma capa preta seria utilizada para as invocações. Pelo serviço, Sílvio receberia R$12 mil e ele garantiu: não utilizava animais em sacrifícios. Os seus clientes vinham de todas as regiões do Brasil e, assim como Paulo Lemen e o delegado Fermino, os clientes o encontravam na internet.

Sílvio afirmou: Eu cultuo Belzebu e meu país me dá esse direito. Não sou do mal e minha religião também não é.

SZStefanie Zorub

Mesmo sem conhecer Sílvio e sua religião, Fermino o desmentiu, sugerindo durante a fatídica coletiva de imprensa que o bruxo poderia estar envolvido no desaparecimento e morte de outras crianças da região, que ele teria muita experiência em cometer aquele tipo de assassinato.

APAna Paula Almeida

Na verdade, Sílvio vinha de uma família simples. Nascido em Rosário do Sul, seu pai e sua mãe eram militares do Exército Brasileiro, levando-o a morar no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira do Brasil com o Uruguai, para ser criado ali principalmente pelos avós numa primeira infância. Aos 8, 9 anos de idade, ele se mudou para Porto Alegre com a mãe e a irmã. Na sua vida adulta, conheceu e se casou com a mãe de seus dois primeiros filhos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde teve também um chamado religioso que o conduziu ao que ele é hoje: mestre de alta magia.

Sua esposa também era adepta das mesmas crenças. E quais eram elas? Bem, Sílvio era um grande estudioso de religiões, principalmente esotéricas e ocultas antigas. Ele se autodefine como um mestre de alta magia seguindo preceitos de Kimbanda, Umbanda e bruxaria medieval. Ele é um especialista em invocações e abertura de portais, realizando rituais para o amor e prosperidade no trabalho. Sílvio já contava com mais de duas décadas de carreira e estudos, sendo pioneiro no Brasil e na América Latina como fundador do Templo de Lúcifer, o único da América Latina.

Como ele mesmo diz: não sou satanista, não sou bruxo, sou mestre de magia com mais de 20 anos de religiosidade. Segundo Sílvio, ele é adepto do luciferianismo, uma filosofia de vida que busca o autoconhecimento e o aprimoramento do que é certo e justo. O Sílvio não tinha inimigos, não tinha inimizades, não tinha problemas na sua família e não poderia imaginar que a sua vida mudaria tão drasticamente em dezembro de 2017.

SZStefanie Zorub

Mas em entrevista ao Beto Ribeiro, ele afirma que as entidades Insiders, com quem ele trabalhava, o alertaram.

APAna Paula Almeida

Algumas semanas antes, eles disseram que um problema surgiria em sua vida que o deixaria fora do ar por pelo menos 30 dias e ele precisaria lidar com isso. O Sílvio não entendeu e também não deu muita importância a essa mensagem. O Natal foi ótimo, foi passado em família, tudo correu perfeitamente, até chegar o dia 27 de dezembro de 2017.

SZStefanie Zorub

Sílvio foi preso com base nos preconceitos religiosos, no fanatismo de um delegado. Com armas em mãos e a voz de prisão dada, as autoridades policiais passaram a desmontar todo o templo em busca de evidências. Segundo Sílvio, ele ficou guardado dentro do porta-malas aos 40 graus em pleno verão enquanto eles começaram a quebrar toda minha casa, entraram dentro do templo, começaram a quebrar.

APAna Paula Almeida

Minha esposa gritando.

SZStefanie Zorub

Tem até o vídeo da minha esposa filmando tudo, eles quebrando tudo, e minha esposa sem saber o que fazer. Quebraram o meu cofre de marreta, cofre que comprei num antiquário, era relíquia, para ver se tinha a cabeça das crianças dentro.

?Voz E

Você imagina a polícia quebrando a marretada um cofre que pode ter evidência dentro? Nem para chamar a perícia, só sai quebrando tudo assim.

APAna Paula Almeida

Enfim, esse foi o início de todos os seus problemas, não só do Sílvio como de outros inocentes que também foram detidos naquele dia.

SZStefanie Zorub

Passavam apenas 2 dias do Natal. Jair da Silva batia um papo com a família depois do almoço quando da varanda avistou 2 viaturas da polícia se aproximando de sua residência em Novo Hamburgo. Como empresário que comercializava lotes de terra na região, ele estava acostumado a lidar com denúncias corriqueiras de crimes ambientais. Por isso, a presença dos policiais não o assustou. Mas, aquela vez, a acusação era infinitamente mais grave.

Jair estava sendo apontado como mentor do assassinato brutal das duas crianças encontradas nos arredores do bairro 3 meses antes.

APAna Paula Almeida

Diferentemente de Sílvio, o Jair sabia muito bem que crianças eram aquelas, já que o próprio havia sido o responsável por acionar a polícia quando alguns membros das crianças foram localizados 15 dias depois da denúncia do catador. Em entrevista ao jornal O Globo, em 19 de agosto de 2018, Jair contou que foi agredido pela polícia com tapas no rosto e que os investigadores o questionavam insistentemente sobre as cabeças das vítimas.

SZStefanie Zorub

Andrei, filho de Jair, foi preso junto com o pai.

APAna Paula Almeida

Márcio Miranda Brustolin foi detido no início de janeiro, enquanto os outros acusados, Anderson Paulo Ademir e Jorge Adrián, fugiram. O medo da prisão era grande, principalmente com uma acusação de assassinato de crianças nas costas. Os presos, como vocês sabem, não perdoam estupradores e assassinos de crianças. Na cadeia, Sílvio diz que quando entrou no presídio era mijo e comida sendo jogado nele, com gente ameaçando que iam o matar.

SZStefanie Zorub

E ele viveu como bicho ali por 7 dias, sem conseguir se banhar, sem roupa limpa, ficou fedendo, uma coisa nojenta mesmo. Ele não podia nem comer, com medo de terem envenenado a sua comida.

APAna Paula Almeida

Mas segundo o advogado de Sílvio, o Marco Mejia, algo curioso aconteceu. Quando os presos descobriram que Sílvio havia sido acusado pelo delegado Fermino, deram um passo para trás e deixaram Sílvio bem à vontade na cadeia, afirmando que se Fermino o estava acusando, então ele era inocente.

SZStefanie Zorub

Os presos tinham certeza que Sílvio nada havia feito às crianças e resolveram dar a ele algo que a polícia foi incapaz: o benefício da dúvida. Sílvio ficou preso por 43 dias Ele dividia a cela na PEJ com outros 5 homens e recebia visitas dos familiares 2 vezes por semana. No dia 31 de dezembro, na virada do ano, ele estava na cadeia e lembra que: Minha família ficou na esquina do presídio. Gritavam de lá para eu ouvir. Essa foi sua comemoração de Ano Novo.

APAna Paula Almeida

Enquanto isso, com sua versão pronta, Fermino planejou encerrar o inquérito após a coletiva de imprensa no dia 8 de janeiro.

SZStefanie Zorub

Ele só não esperava que os jornalistas o bombardeassem de perguntas e que a cúpula da Polícia Civil interrompesse as férias de Rogério Baggio para que ele reassumisse o caso e desmontasse a farsa do ritual de magia maléfica.

APAna Paula Almeida

Com o desmonte da narrativa montada por Fermino, no dia 7 de fevereiro de 2018, o delegado Baggio pediu a soltura dos 7 suspeitos, inclusive daqueles que permaneciam foragidos.

SZStefanie Zorub

Ele foi prontamente atendido pela juíza Ângela Roberta Papes do Merck, que concedeu a liberdade provisória para todos que foram injustamente acusados por Fermino. Ela alegou: meu trabalho é prender gente, mas a maior satisfação que tive em 10 anos de carreira foi soltar inocentes que tiveram suas vidas devastadas após serem condenados pela opinião pública. No dia de sua soltura, Sílvio lembra que estava varrendo sua cela quando um colega que escutava a rádio o chamou para a cela da frente dizendo que estavam falando dele no rádio.

Foi ali que Sílvio escutou que os acusados do caso das crianças esquartejadas de Novo Hamburgo seriam soltos, pois tudo não se passava de uma farsa do delegado.

APAna Paula Almeida

Ele lembra desse momento com emoção.

SZStefanie Zorub

A cadeia parecia que era um jogo entre o São Paulo e o Corinthians, e São Paulo tinha feito um gol. Era a torcida toda comemorando, a cadeia comemorando a notícia de que tudo que estavam me acusando era uma farsa, uma mentira. Aquele momento foi único. Eu sabia que estava falando a verdade, e aquela notícia estava provando que tudo que eu disse durante o meu tempo no sistema do penitenciário era verdade. Eu chorava de emoção, de alegria.

Sílvio saiu da Penitenciária Estadual do Jacuí, mas o seu calvário não parou por aí.

APAna Paula Almeida

Do lado de fora, ninguém tinha certeza da sua inocência como eles tinham dentro da cadeia.

SZStefanie Zorub

Muito pelo contrário, a sociedade continuava o condenando e ele estava preocupado com a segurança da sua família. Na época, ele tinha uma esposa e 3 sendo um ainda uma criança de 11 anos, e todos foram quase linchados na rua na época da sua prisão. Sílvio afirmou após a sua soltura: Como tocar a vida se a minha mulher não consegue ir ao supermercado sem ser apontada? Como reconstruir os cacos de uma vida destruída pela irresponsabilidade de alguém?

APAna Paula Almeida

Enquanto Sílvio e os outros acusados receberam a liberdade e tentavam reconstruir a vida, com os escombros que sobraram das suas reputações, a polícia, sob liderança de Baggio, voltava à estaca zero na investigação das crianças esquartejadas.

SZStefanie Zorub

Para quem acompanha o mundo do true crime, é impossível ouvir essa história e automaticamente não traçar um paralelo com o caso Leopandro, aquele que talvez seja o maior exemplo de pânico satânico na história do Brasil.

APAna Paula Almeida

O que aconteceu em Novo Hamburgo em 2017 foi uma, uma reedição assustadora da tragédia de Guaratuba nos anos 90, já que nos dois casos temos a mesma receita: a pressão esmagadora da opinião pública sobre um crime bárbaro, uma investigação técnica que trava e, de repente, uma guinada mística que escolhe culpados a dedo, mirando na intolerância religiosa para demonizar inocentes.

SZStefanie Zorub

A grande diferença é que no caso Evandro, o Estado usou a barbárie da tortura física para arrancar confissões. Aqui, em pleno século 21, a farsa foi alimentada pela vaidade política de um delegado experiente e pela miséria de testemunhas coagidas com promessas de dinheiro e recompensas. Felizmente, a perspicácia técnica de Rogério Baggio impediu que o erro do Paraná se repetisse no Rio Grande do Sul. Mas se não fosse por isso, era bem capaz que os 7 acusados estivessem presos até hoje, aguardando por uma redenção que jamais viria.

Neste caso da Operação Revelação, as falsas testemunhas foram indiciadas por denúncia caluniosa e o delegado Moacir Fermino Bernardo foi afastado imediatamente de suas funções e indiciado por fraude processual, corrupção de testemunhas e falsidade ideológica. Apesar da gravidade dos crimes, a justiça negou o pedido de prisão contra ele.

APAna Paula Almeida

E o desfecho para Fermino foi bastante confortável.

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Em junho daquele mesmo ano, ele foi meio que forçado a dar entrada em sua aposentadoria, e deixar de trabalhar ativamente para a polícia. E eu digo confortável, pois parte de sua aposentadoria incluía receber cerca de R$30 mil por mês dos cofres públicos. E quanto ao mentor da mentira?

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Paulo Lemen foi indiciado por corrupção ativa de testemunhas.

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Ele chegou a ser detido em fevereiro de 2018, mas logo foi beneficiado por um habeas corpus concedido pela 2ª Vara Criminal de Novo Hamburgo.

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O entendimento do juiz foi de que, àquela altura, Paulo Lemen já não oferecia riscos às investigações. A resposta definitiva do Judiciário veio anos depois. O julgamento de Moacir Firmino e Paulo Lemen aconteceu em meio à pandemia, em novembro de 2020. O delegado Moacir Firmino foi condenado pela Justiça a 6 anos de reclusão por sua atuação criminosa no caso das crianças esquartejadas. Em regime semiaberto.

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O juiz Ricardo Caneiro Duarte entendeu que o delegado era culpado pelos crimes de falsidade ideológica e corrupção ativa de testemunha, além de considerar que houve continuidade delitiva, com o agravante de Firmino ser, na época, um funcionário público.

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Mesmo condenado, o delegado aposentado jamais foi preso por seus crimes. A sentença também condenou Paulo Sérgio Lemen por corrupção ativa de testemunha a 4 anos, 2 meses e 12 dias de reclusão em regime semiaberto. Mas pouco mais de um mês após a sua condenação, no dia 14 de dezembro de 2020, ele foi encontrado morto com uma facada no pescoço no bairro de Lomba Grande.

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A delegacia de homicídios apurou o caso e concluiu que o assassinato dele não estava ligado ao crime das crianças esquartejadas. Paulo Lemen já possuía antecedentes criminais, dentre os quais via de fato, lesão corporal e estupro. 5 dias antes de sua morte, Lemen gravou um vídeo afirmando que estava sofrendo falsas acusações de estupro de uma criança na cidade e que ele temia pela própria vida.

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A vida dá voltas, né?

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Paralelamente ao processo criminal, Fermino também respondeu a um processo administrativo disciplinar que culminou com a cassação de sua aposentadoria. Em dezembro de 2025, após o governador Eduardo Leite reconhecer um parecer da Procuradoria-Geral do Estado e publicar a decisão no Diário Oficial do Estado.

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Os R$30 mil que o delegado vinha recebendo desde junho de 2018 foram definitivamente cortados pelo governo gaúcho, e a sua farsa havia finalmente pesado no bolso e custado o seu prestígio.

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Diferentemente do caso Evandro, que demorou mais de 30 anos para inocentar os acusados e trazer algum senso de justiça, o caso das crianças esquartejadas de Novo Hamburgo chegou a esse desfecho mais rapidamente. Mas a velocidade não quer dizer que os 7 acusados injustamente não sofreram. Muito pelo contrário, suas vidas viraram de ponta-cabeça e até hoje seguem tentando voltar a uma normalidade que talvez já não exista mais para o seu futuro.

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Os danos já haviam sido feitos. Sílvio Fernandes Rodrigues relembra todo o sofrimento e humilhação que passou desde a invasão da polícia ao seu templo e o tempo que passou atrás das grades.

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Longe da caricatura de bruxo satânico criada pela polícia, Sílvio se descreve como um praticante que transita pela Quimbanda, pela Casa de Exu, pela Lei de Sabat e por linhas ritualísticas ligadas a elementos da natureza. Durante as operações midiáticas comandadas por Fermino, as equipes policiais não apenas vasculharam seu templo rural de Gravataí, como também destruíram boa parte de suas posses e quebraram objetos sagrados para sua fé.

Até a famosa máscara de cachorro que o delegado chacoalhou na coletiva de imprensa para provar que era parte do ritual macabro, aquela máscara não passava de uma mentira. Ela havia sido comprada pelo filho de Sílvio em um site chinês e, como a nota fiscal comprovava, o produto só chegou ao Brasil depois da data em que o suposto crime teria acontecido.

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Sílvio sempre garantiu que sequer conhecia os empresários apontados como seus comparsas e clientes, mas declarou em entrevistas que perdoava o delegado Firmino por sua insanidade, mesmo que isso tenha custado o seu ganha-pão.

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Fato é que Sílvio era um mestre de magia muito bem conhecido, chegando a ter clientes internacionais que o procuravam por seu grande conhecimento no oculto.

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Depois da mídia e do delegado mancharem o seu nome, ele perdeu grande parte da sua clientela e também de seus amigos.

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Segundo seu advogado, Marco Méja, ele hoje ganha apenas uns 15% do que ganhava antes do caso acontecer.

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O advogado, que também é seu amigo pessoal, afirma em entrevista ao Beto Ribeiro que Sílvio hoje é apenas uma sombra do que um dia ele foi antes e vive mais recluso em seu sítio.

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Ele sempre anda acompanhado por seguranças particulares, mesmo quando está em casa.

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Tudo isso por medo de um linchamento.

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Ele declara que foi vítima de perseguição e preconceito religioso.

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Ao jornal Zero Hora, Sílvio desabafou: É tudo muito difícil.

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As sequelas psicológicas não se apagam. Semanalmente, em algum momento, eu me pego pensando em tudo o que aconteceu e já volta a imagem das pessoas que trabalham com a lei e a burlam para conseguir as coisas. Tenho medo de que aconteça de novo. Qualquer criança que some, já tenho pensamento de assassinato por magia negra.

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Sílvio e Marco Mérgia processaram o Estado e o delegado Fermino, além dos veículos de comunicação que foram tendenciosos. Buscando indenização pelos danos causados, mas ainda não obtiveram nenhuma resposta. Se a farsa destruiu a reputação e o sustento de Sílvio, o impacto na família de Jair da Silva não foi menor.

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No roteiro fantasioso do delegado Fermino, Jair era pintado como um grande e poderoso empresário do ramo imobiliário, um homem frio, capaz de pagar fortunas para encomendar a morte de crianças. Mas a realidade que as investigações da Corregedoria encontraram passava muito longe disso.

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Conhecido na região de Lomba Grande por apelidos como Jair dos Porcos ou Jair Sem Terra, ele tinha 47 anos, mas aparentava ser duas décadas mais velho pelo peso do sofrimento, e estava longe de ser um magnata.

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Seu sustento vinha da venda e troca de carros usados e pequenos lotes de terra em negociações informais, que muitas vezes envolviam até porcos como moeda de pagamento. Ele morava em uma casa grande, é verdade, mas uma casa simples, onde trabalhava na lida da propriedade junto com a esposa e os 5 filhos.

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Paulo Ademir Norbert, incluído no inquérito como sócio e cúmplice do crime, era um conhecido de Jair. Ele havia vendido 2 hectares de terra ao colega, permitindo que este os loteasse para tentar ganhar a vida.

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O trauma daquela prisão injusta envelheceu e adoeceu a família. Andrei Jorge da Silva, um dos filhos de Jair que foi arrastado para a cadeia junto com o pai, revelou o horror que viveu nos bastidores do cárcere ao relatar que toda a família foi alvo de agressões físicas e ameaças psicológicas por parte dos policiais nas celas. Sem entender o motivo de estarem ali, Andrei contou que eles só descobriram do que estavam sendo dias depois, através da mãe, né, da esposa, e pelo que ouviram na rádio dentro já da prisão.

O preconceito e o estigma do crime satânico destruíram a vida e a moral dos envolvidos.

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Anos depois, Jair relatou a enorme dificuldade para seguir fazendo seus pequenos negócios de compra e venda na região, encontrando portas fechadas, até mesmo quando tentava vender melancia na beira da estrada para conseguir algum sustento. Assim como Sílvio, o sentimento que restou para Jair foi o desamparo total diante de um Estado que deveria protegê-lo, mas quase o destruiu. Eu não confio mais na justiça. Apesar das nossas buscas, nós não encontramos informações sobre os demais envolvidos injustamente neste caso.

Fato é que muita da população local ainda acredita que Sílvio, Jair, Andrei, Paulo e os outros estavam realmente envolvidos com a morte daquelas crianças.

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É aquela coisa, né?

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Sai na manchete o seu nome atrelado a um crime horrendo, todo mundo lembra. Mas quando sai meses depois uma nota de rodapé te inocentando, nem todo mundo vê.

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Sílvio afirma que tem muitos vizinhos que acreditam ainda que ele é culpado e que ele tem usado magia para se livrar da prisão. O fato da vida de 7 pessoas ter sido arruinada por uma falsa acusação já é motivo de grande tristeza, Mas este caso ainda tem mais uma camada de quebrar o coração de qualquer um.

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A vaidade do delegado Fermino e a vontade de tirar vantagem de um crime tiraram o foco das investigações sobre o esquartejamento das duas crianças, e os seus corpos sequer foram identificados.

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É desolador constatar que, nas mãos de quem deveria buscar a verdade, a vida daquelas crianças foi reduzida a um pano profundo na construção de um projeto político do delegado.

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Após 2 anos de apuração, o inquérito sobre o homicídio daquelas crianças foi remetido ao Poder Judiciário sem o apontamento dos autores.

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Em dezembro de 2019, depois de ficarem esquecidos no Departamento Médico Legal, os restos mortais dos pequenos foram finalmente sepultados no Cemitério Municipal Novo Hamburgo, eles não tiveram direito a um nome na lápide.

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Foram enterrados sob a denominação fria de ignorado, registrados nas gavetas de números 11517 e 11617. Até hoje, o caso segue aberto na promotoria, aguardando por novos indícios ou provas que possam, quem sabe um dia, trazer as respostas que essas crianças merecem. A teoria mais ventilada, segundo o advogado Marco Média, é de que os corpos daquelas crianças podem ter sido vítimas de tráfico de cadáveres para serem usados como estudo de universidades de medicina.

Os corpos estavam como em um formol, como diz o advogado, já que nenhum inseto consumiu o corpo.

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Eles não conseguiram descobrir há quanto tempo as crianças estavam mortas por conta disso, Os corpos também não tinham cabeça e um deles, o do menino, estava sem os órgãos internos.

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Os cortes eram muito precisos também, parecia um estudo de camadas de pele e coisas do tipo.

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Segundo Médiya, seriam cadáveres de laboratório usados em estudos de medicina.

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Podem ter sido comprados por algum hospital de forma ilegal e decidiram descartar os corpos ali para não terem problemas depois.

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Talvez isso também explica o motivo de ninguém buscar por essas crianças.

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Pois os seus pais ou responsáveis acreditavam que as crianças estavam mortas mesmo, enterradas, já tinham dado o seu adeus triste ali no cemitério e por isso não buscaram por elas. Essa é a tese de Marco Média, uma especulação apenas. Foi o que restou após uma investigação tão falha que criou caos, deixou dúvidas e não trouxe nenhuma resposta para aquelas crianças não identificadas. Esquartejadas, enterradas, como ignorados. Realmente, a menina de 12 anos e o menino de 8 ou 9 anos, possivelmente meio-irmãos ou talvez primos maternos, tiveram sua verdadeira história ignorada.

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E esse foi o caso do bruxo e as crianças esquartejadas de Novo Hamburgo, uma investigação baseada em provas 5 prisões ilegais de suspeitos que não tinham nada a ver com o caso, tudo por conta do fanatismo de um delegado. Quão louco é pensar que em pleno 2017, na era da internet, pleno século 21, a história de uma seita satânica sequestradora de crianças e fazedora de sacrifícios humanos para obter benefícios de riquezas e sei lá o quê mais a uma entidade sobrenatural poderia ser aceita sem nenhuma prova que sustentasse a acusação.

Uma história cheia de preconceitos, uma caça às bruxas na modernidade que foi reproduzida sem dó nem piedade pela mídia e veículos de comunicação, levando 7 inocentes a serem estigmatizados e condenados pelo público antes mesmo da justiça fazer o seu papel. É isso que me dá mais medo nesses casos, não é o demônio, o Moloque, Beuzebu, sei lá o quê.

APAna Paula Almeida

Não, gente, o que dá medo é a predisposição que a gente tem de julgar e culpar inocentes porque lemos numa manchete de jornal, porque vemos um post nas redes sociais, fake news, sabe?

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Essa nossa predisposição real por criar certezas sem ter base nenhuma. Em 2020, o advogado Marco Alfredo Magia, que representou o Silvio no caso, eu acho que eu falei Lei Mégia, Megia, fiquei confundindo o nome dele, mas enfim, ele escreveu e publicou o livro Operação Revelação: Caso Bruxo, o maior erro histórico de um delegado no Brasil. Na sinopse do livro em seu site, ele afirma: o livro Operação Revelação: Caso Bruxo tem por finalidade deixar registrado o que não se deve fazer num processo investigativo.

Realmente, o caso deveria ser muito mais conhecido do que é e servir de alerta para que novos casos Evandros, casos Altamira, casos Escola Base, casos Ouro Preto e casos como o do bruxo deixem de ocorrer. Fica aí a dica de leitura para quem tem estômago e quer passar muita raiva. Amanhã, quinta-feira, eu vou postar fotos relacionadas ao caso nas nossas redes sociais. Não deixe de seguir a gente no nosso Instagram, Café com Crime, e também lá no Twitter, o Café C Crime, para acompanhar as imagens e outros fatos relevantes que eu sempre levo lá para as redes, trazendo aqui do podcast.

Eu volto daqui a 2 semanas, não na próxima quarta, mas na outra, com um novo episódio.

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E até lá, não compre máscaras de cachorros na Shopee, porque de desgraça já basta esse podcast. Tchau, tchau! Esse episódio foi roteirizado, produzido e apresentado por mim, Stephanie Zorobi, com pesquisa e roteiro de Ana Paula Almeida, design de som de Luide Calistrato. As fontes de pesquisa utilizadas neste episódio foram: Portal G1, Portal da Gazeta Zero Hora, The Intercept Brasil, O Globo, Ministério Público do Mato Grosso, Besouro Notícias, Portal Novo Hamburgo, Portal Correio do Povo, entrevistas com Sílvio e o advogado Marco Mejia no canal Beto Ribeiro, e a dissertação de mestrado em Direito da USP de Pedro Henrique Colucci, intitulada Diabos Fabricados e Cruzadas Morais: Estudo de Caso sobre a Interação entre Mídia, Estereótipos e Erros Judiciários.

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199 | O BRUXO DE NOVO HAMBURGO: a farsa de um delegado contra sete inocentes | Castnews Index — Castnews Index