189 | OS CRIMES DE DOMINIQUE SCHARF: a golpista que encantou homens ricos
Nascida em berço de ouro, Dominique Cristina Scharf transformou charme e ousadia em ferramentas para uma carreira criminosa que atravessou décadas. Com a ajuda de seu comparsa gay, cometeu golpes amorosos, roubos audaciosos e crimes cada vez mais perigosos, consolidando-se como “a maior estelionatária do país”.
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Créditos:
Produção, apresentação e roteiro por Stefanie Zorub
Edição e desenho de som por Luigi Calistrato
Roteiro e pesquisa for Ana Paula Almeida
- Parcerias EstrategicasConhecimento na adolescência · Dupla de golpistas · Dinâmica líder-submisso · Conexão emocional · Morte de Milton Junior
- Relações FamiliaresOrigem privilegiada · Infância controlada pelo pai · Morte do pai em 1975 · Transformação em criminosa · Identidade e personalidade
- Roubos DiversosAssaltos a bancos e joalherias · Preferência por vítimas femininas · Tentativa de não disparar · Morte de Milton Junior em assalto · Disparos contra vendedor Roberto
- Prisionamento e fugas de DominiquePrisão em 1995 no Shopping Paulista · Condenação a 57 anos 11 meses 10 dias · Fuga em 1996 do Carandiru · Recaptura antes de atravessar córrego · Transferência para Rivaldo Preto
- Fraudes FinanceirasHospedagem sem pagamento · Cartões de crédito furtados · Golpe da barata · Falsificação de carimbos · Execução e fuga
- Veiculos de LuxoAprendizado de arrombamento · Técnicas com régua e chave imicha · Circulação com carros roubados · Viagens entre capital e litoral · Desistema de legalização
- Protegendo pelos privilégios do pai de MiltonDelegado como protetor · Primeira prisão em 1981 · Prisão preventiva em delegacia · Libertação sem acusações formais · Sentimento de impunidade
- Morte de Personalidades NotáveisBaleamento em assalto · Prisão no Carandiru · Abusos e estupros na cadeia · Contração de HIV · Morte por infecções oportunistas
- Esquema de legalização de carros roubadosParceria com Ezekiel Cabanhas · Ponte Porã como ponto de transferência · Transformação de chassis · Novas placas falsas · Retorno ao Brasil legalizado
- Segunda Prisão de InvestigadoFuga do presídio Rivaldo Preto · Reatamento com Jai Utom · Roubo de cargas e lavagem de dinheiro · Blitz de trânsito · Prisão em Tremembé
- Golpe Colar DiamantesSedução de fazendeiro mineiro · Joia falsa como isca · Historia fictícia da avó · Venda com documento falso · Descoberta da fraude
- Segurança OperacionalAmante executivo da Tauros · Revólveres calibre 38 · Treinamento no Paraguai · Contrabando de armamentos · Parceria nos negócios obscuros
- Fraude com classificados de carrosAnúncios em jornal de São Paulo · Carros fantasmas · Recebimento de entrada e fuga · Aplicação em múltiplas regiões · Mais de 50 vítimas em um ano
- Liberação em 2025Soltura aos 65 anos · Pedidos de prisão domiciliar negados · Exame de sanidade mental · Vida pós-prisão · Família e netos
- Vida no presídio de TremembéIsolamento das detentas · Apelido 'Dama do Cárcere' · Amizade com juíza Maria Cristina de Luca · Recusa de benefícios · Aceitar destino
Em meados dos anos 80, uma mulher loira, magra, alta e extremamente elegante caminhava calmamente pelos corredores do shopping Iguatemi, na Zona Oeste de São Paulo. Com uma bolsa de grife a tiracolo, admirava as vitrines das lojas de luxo, como tantas outras mulheres que circulavam despretensiosamente por ali naquele fim de tarde. A sua beleza, realçada por uma maquiagem marcante e a postura impecável,
vida nos ambientes que costumava frequentar. Naquele dia não foi diferente. Ela se preparava para ir embora quando foi abordada por um homem igualmente elegante que se apresentou. Ele fez um convite inusitado após trocarem apenas meia dúzia de palavras. Ele confessou com um sorriso contido que havia se encantado por ela quase de imediato. Explicou que não costumava abordar desconhecidas daquela forma, muito menos fazer convites impulsivos.
mas que algo naquela tarde o levou a arriscar. A proposta era simples, uma carona despretensiosa para que pudessem se conhecer melhor. Ela entrou na conversa, com a mesma naturalidade. Respondeu que também não costumava aceitar convites de estranhos, mas, contrariando o próprio hábito, aceitou. Entre sorrisos e um bate-papo aparentemente inofensivo, eles caminharam lado a lado até o estacionamento do shopping Iguatemi,
como sendo o veículo de sua propriedade. Os olhos da moça até brilharam, mas ela soube disfarçar a empolgação. Ele então abriu a porta para sua acompanhante, sentou-se ao volante e deixaram o estacionamento do shopping. Minutos depois de uma conversa descontraída, a jovem abriu discretamente a sua bolsa de grife e tirou de dentro uma arma e a apontou para sua vítima.
Hello! Isto é um assalto. Passa a chave e dá-o fora. A pergunta, carregada de espanto e ironia, fazia sentido. A imagem daquela mulher estampava as manchetes dos jornais havia algum tempo. Procura-se, loira. Ladra de carros importados. Ela chegou a acreditar que, depois de tamanha exposição, os carros de luxo se tornariam alvos inalcançáveis. Mas estava ali, parada diante de um homem enfeitiçado por sua beleza
falsa sensação de segurança que uma mulher, aparentemente frágil, lhe causou. O nome daquela mulher bonita, cheia de pose, vestida com roupas e acessórios de luxo era Dominique Cristina Scharf, uma das maiores estelionatárias e ladras de carros que já se teve notícias neste país. Este é o episódio 189 do Café com Crime. Os crimes de Dominique Scharf, a golpista que encantou homens ricos. Alô, olá, alô, vai tudo bem?
Bem-vindos ao Café com Crime, o podcast onde você pode ser o aficionado por crimes reais que você é, sem julgamentos. Eu sou a Stephanie Zorbi, ou Dona Café, como preferir, e hoje vamos falar sobre como uma menina que nasceu num berço de ouro se tornou uma das maiores golpistas que o Brasil já teve notícia. Dominique Scharf atuou aí nas décadas de 70, 80, e ela teve também consigo um grande parceiro,
crime que fez essa história ser possível. O seu amigo gay, Hamilton, filho de um delegado. Isso tudo vai ser muito importante e relevante nessa história, mas eu não vou começar dando spoilers. A gente já vai entrar em todos os detalhes. Antes, eu quero dar um agradecimento para a ouvinte que sugeriu este caso. O nome dela é Regina Azevedo. Muito obrigada pela sugestão. É uma história bastante fascinante quando a gente vê a trajetória
pessoa que decide por um caminho criminoso e como ela afeta a vida de todas as pessoas à sua volta de uma forma, enfim, negativa, né? Antes de ir pra história em si, não deixe de seguir a gente aí na plataforma onde você tá ouvindo, ative as notificações pra não perder nenhum episódio novo e se você puder, deixe a sua avaliação também. Parece pouco, mas pra Dona Café aqui e pra toda a equipe, isso é tudo. E se você gosta muito dos nossos episódios aqui do Café com Crime, saiba que você pode escutar ainda mais histórias.
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fascinante quanto sua história. Ao contrário do que muitos podem imaginar, nasceu em Berço de Ouro, no dia 8 de julho de 1960, e teve todos os privilégios e acessos que uma família abastada pode oferecer aos seus herdeiros. Filha única de um pai norte-americano judeu e uma mãe alemã católica, ela nasceu e cresceu na capital paulista, cercada de luxo, cuidado e oportunidades. Tinha as melhores babás, várias delas.
E estudou no Colégio Visconde de Porto Seguro, uma instituição tradicional fundada em 1878 por imigrantes alemães, onde, atualmente, a mensalidade ultrapassa facilmente o valor de R$ 6 mil, ou seja, um ambiente voltada para a elite paulistana. Antes de completar 12 anos de idade, Dominique já falava alemão, inglês e espanhol. O português? Esse ela só passou a dominar confluência no início da adolescência.
roupas caras, comida de qualidade, nada lhe faltava. O maior de seus problemas durante a infância era o autoritarismo do pai. Eric Scharf exigia uma conduta impecável da filha, notas altas e muita disciplina. Ainda pequena, Dominique tinha que cumprir uma agenda de compromissos cansativa para qualquer criança, e para o pai, a execução de suas tarefas era algo inegociável.
conversa, restava a Dominique obedecer e entregar a performance de sua vida que o seu pai tanto exigia. A sua mãe não era amorosa. Pelo contrário, os registros apontam que se tratava de uma mulher distante da filha, que a tratava até com certo desprezo. Não é exagero dizer que tudo o que ela conhecia sobre acolhimento, carinho e afeto vinha de suas babás. A vida seguiu seu curso até que, em 1975,
Eric faleceu de forma repentina. A perda de seu pai, naturalmente, afetou a adolescente de 15 anos. Mas, ao mesmo tempo, Dominique passou a se sentir livre e, como ela mesma diria mais tarde, tomada por uma demanda quase insaciável por perigo e aventura. Ao jornalista Ulisses Campbell, autor do livro Tremembé, ela resumiu esse impulso em poucas palavras.
violar regras, correr riscos, viver à beira do abismo. E foi a partir daí que sua vida, até então 100% controlada pelo pai, começou a mudar. Ainda na infância, Dominique já aplicava pequenos golpes nos colegas de escola, furtava seus lanches e, por vezes, comia sem pagar na cantina. Após a morte de Eric, ela passou a cometer pequenos furtos em lojas e aplicar os seus primeiros golpes em hotéis e restaurantes.
A própria mãe também se tornasse um alvo, e Dominique passou a furtá-la sempre que tinha a oportunidade. Nada era pelo dinheiro em si, até porque isso ela e a família tinham de sobra. O que a movia parecia ser outra coisa. A emoção do risco, o gosto pela transgressão, a sensação de poder que aqueles atos lhe proporcionavam. Como Dominique não precisava de dinheiro para comprar roupas ou para se divertir, tudo o que retirava da bolsa de sua mãe e também dos seus pequenos golpes
era investido em cocaína. Quando Dominique completou 17 anos, a sua mãe se casou novamente e, ao formar uma nova família, deixou a filha problemática para trás. Dominique se sentiu descartada. A relação de mãe e filha, que já era fria e distante, ficou ainda pior. E assim, Dominique mergulhou de cabeça no mundo do crime. Como uma andorinha só não faz verão,
comparsa para escalar os seus golpes, e o escolhido foi Hamilton Fernandes Jr., também de 17 anos, e era filho de um delegado de polícia e de uma arquiteta. Os dois se conheceram durante uma viagem a Porto Seguro, na Bahia, ainda na adolescência, e estabeleceram uma conexão quase imediata. Hamilton Jr. era um rapaz bonito, de cabelos castanhos escuros e sobrancelhas marcantes.
pai, o delegado Hamilton Fernandes, pelo simples fato de ele ser gay. Os dois adolescentes, que se rebelaram contra os pais, pareciam ter o mesmo objetivo quando aplicavam os seus golpes. Pelo menos é a impressão que eu tenho quando revisito as informações sobre a dupla de criminosos. Eles queriam se divertir às custas do trabalho alheio. E não se importavam com as consequências de seus atos. Dois playboyzinhos mimados. O objetivo final era se divertir durante os golpes.
dinheiro, ambição, luxo, nada. Era pura diversão. E por um bom tempo, conseguiram exatamente isso. Os hotéis de luxo de São Paulo e do Guarujá foram os primeiros alvos de Hamilton Jr. e Dominique, ainda na década de 70. Mas afinal, o que eles faziam? Qual era o golpe? Bem, eles reservavam suítes, hospedavam-se como quaisquer outros hóspedes e, como era de praxe, deixavam um cartão de crédito como
calção na recepção. Uma vez instalados, Dominique e Hamilton Jr. enfiavam o pé na jaca, comiam do bom e do melhor e exploravam todos os serviços disponíveis, inclusive os cobrados à parte. Afinal, só se vive uma vez. Eles chegavam a ficar hospedados nesses locais por até 10 dias. No momento do checkout, eles pegavam o cartão de crédito de volta com o valor já descontado. Tudo certo, afinal, eles tinham condições financeiras para bancar aquele cartão
crédito, não é? A fatura do fim do mês? Errado. Os cartões utilizados eram furtados por Hamilton Jr., que mesmo antes de completar 18 anos, frequentava boates e saunas com o objetivo de conhecer homens bem-sucedidos e vulneráveis. A saga quase sempre tinha êxito, e depois do sexo, quando seu alvo estava adormecido, Hamilton Jr. simplesmente abria as carteiras, pegava dinheiro e cartões e os deixava para trás.
Quem ousaria registrar um boletim de ocorrência de furto após visitar uma sauna frequentada por homossexuais na década de 70? Os executivos bem-sucedidos, muitos deles casados com mulheres que tiveram relações com Hamilton Jr., não estavam dispostos a passar por tamanho constrangimento. Como, naquela época, o sistema financeiro ainda não era informatizado, Dominique e Hamilton Jr. tinham tempo de sobra para desfrutar de tudo o que aqueles cartões podiam oferecer.
antes de serem finalmente bloqueados. E como quem frequenta ambientes de alto padrão precisa estar bem vestido, as lojas de roupa e acessórios também estavam sempre no radar. O guarda-roupas era abastecido com bastante frequência. Não há hipocrisia em admitir que, para um negócio desse tipo funcionar, postura e confiança eram indispensáveis. E isso eles tinham de sobra. Naquela época, as vendas eram totalmente manuais e as compras eram liberadas
para os clientes apenas quando eles apresentavam uma notinha com um carimbo com a palavra pago estampado. Eles eram tão safos que eles mandaram confeccionar um carimbo com essas palavras. E eles andavam com a almofadinha de tinta de várias cores na bolsa, tudo para não correr o risco do caixa estar trabalhando com uma cor de carimbo diferente do que eles dispunham. O esquema nas lojas de roupa era o seguinte. Eles escolhiam as roupas,
peças para um funcionário, que listava item por item em uma notinha, e aí, com esse papel em mãos, eles fingiam que iam até o caixa efetuar o pagamento. Mas, na verdade, eles se abaixavam entre as araras de roupa, sacavam o carimbo da bolsa e carimbavam o documento. Ali, eles perdiam alguns minutos para simular que estavam na fila do caixa, e depois retornavam para o setor de vendas, onde era preciso apresentar a nota com o carimbo pago para retirar os produtos.
notinha deles estava carimbada, era sucesso. As mercadorias eram entregues e eles iam embora, como se estivessem pago por aquilo. O truque funcionou por alguns anos, até que certo dia foram pegos na mesbla da Avenida Paulista, com roupas e sapatos que usariam em uma festa no jockey clube. Dessa vez, a pose e as roupas de grife não os isentaram das suspeitas. Um funcionário atento afirmou com todas as letras que aquele não era o carimbo da loja, mas Dominique manteve a
pose e questionou se estava sendo chamada de ladra. Afrontosa ela. A Milton Júnior, que morria de medo do pai delegado, não segurou a onda e começou a passar bastante mal. E vendo que a comparsa estava segurando a personagem, ele deu seus pulos e saiu da loja sem chamar a atenção. Dominique pagou o pato sozinha, e para evitar um escândalo ainda maior, abriu sua bolsa e pagou a conta com dinheiro vivo. Porque, claro, ela tinha.
do roteiro de furtos, mas esse pequeno imprevisto não foi capaz de contê-los. No início dos anos 80, já com 20 anos de idade, Hamilton Jr. ganhou um Fusca dos Pais. E o carro facilitou bastante o deslocamento dos golpistas entre a capital e o litoral de São Paulo. Eles apreciavam a gastronomia do Guarujá, e a cidade se tornou um alvo constante da dupla, quando o assunto era comer bem sem abrir a carteira.
Gente, socorro quem consegue andar por aí com uma barata morta na bolsa. E ainda mais pegar. Pegar com ela na mão. Pra arrancar as perninhas. Sério. Eu tô passando mal aqui.
Amiga minha da faculdade. A Aline. Ela falava que sentia cheiro de barata. E eu sempre zoava ela. Mas pior que quando. Quando ela falava. Gente que cheiro de barata. Eu sempre aparecia uma barata em algum lugar. E a. Ela seria perfeita para ser tipo. Cão farejador. Dessa situação. Não. O restaurante dela não cairia. Nas mãos de Dominique. Dominique Scharf. Com uma barata na bolsa. Gente que nojo alguém com uma barata na bolsa. Enfim. Em seguida. A Dominique simulou um mal estar. Ânsia de vômito. Tosse.
A respiração ofegante por ter visto ali uma perna de barata. E enquanto isso, o Hamilton Jr. chamava o garçom. Quando o funcionário se aproximava da mesa, Dominique encarnava ali uma atriz mexicana e ela explodia com a suposta falta de higiene do restaurante. Gritava que aquilo era um absurdo, que estava pessoalmente ofendida e exigia uma reparação. O gerente do restaurante, sempre bastante constrangido com o escândalo,
oferecia uma cortesia para que eles retornassem ao local para comer de graça em outro momento. Dominique e Hamilton Jr. fingiram se acalmar, aceitaram o mimo e voltavam ao restaurante, dessa vez acompanhados de 10 outros convidados que também comiam e bebiam de graça, graças ao golpe aplicado dias antes. É importante destacar que o truque da barata era apenas um dos diversos que essa dupla aplicava. O roteiro era sempre o mesmo,
Mas às vezes eles utilizavam tufos de cabelo, grampos metálicos na comida, qualquer coisa pra conseguir aí um rango de graça. É claro que para não ficarem visados, eles costumavam variar as cidades e, surpreendentemente, esse golpe sempre dava certo. E se você está pensando, ah, mas ninguém saiu lesado disso, o restaurante é de luxo, chiquérrimo, tem dinheiro pra bancar aí um jantézinho grátis, né? Passando pano aí pra Dominique e pro Hamilton. Olha, não é bem assim.
muitos cozinheiros e até mesmo garçons, pessoas trabalhadoras que dependiam dos empregos, perderam os seus trabalhos por conta desses golpes, todos vítimas das convincentes interpretações de Dominique, atuações dignas de um Oscar, por sinal. Mas, como dizem por aí, o mundo não gira, ele capota. Três meses depois do episódio da barata, lá naquele restaurante chiquérrimo, eles acharam de bom tom retornar ao Guarujá para aplicar o mesmo golpe em outro estabelecimento da cidade.
que o garçom que os atendeu da primeira vez havia sido demitido e posteriormente contratado pelo restaurante que agora era o novo alvo da dupla. Hamilton Jr. e Dominique repetiram todo o roteiro, mas na hora do golpe foram surpreendidos pelo garçom. Eles foram levados a uma sala reservada e pressionados a pagar a conta ou a polícia seria chamada. Dominique seguia impassível, disse inclusive que era rica e fazia tudo aquilo
Por outro lado, Hamilton Jr. se mostrou bastante abalado e suas pernas tremeram tanto que quando ele ouviu a possibilidade de comer a barata para ser liberado, ele aceitou sem titubear. Comer barata era melhor do que enfrentar o próprio pai. Dominique o encarou com um olhar de julgamento, né? Tipo, você tá doido que você vai comer isso? Mas antes que ele pudesse abrir a boca pra pôr a baratinha, ele foi puxado pela mão, pela Dominique.
e juntos deixaram o restaurante. Três anos depois de iniciarem a vida de pequenos golpes, os dois se viram pela primeira vez diante de um impasse. Seguir com os crimes pequenos ou expandir os negócios. Dominique, que era destemida e ambiciosa, não hesitou em optar pela segunda alternativa. Hamilton Jr., cada vez mais submisso e sem oferecer resistência, limitou-se a acompanhá-la em mais um de seus devaneios. Dessa vez,
maior do que qualquer coisa que já tinham feito antes. E para um novo grande negócio, a Dominique ia precisar de um grande investimento. E a golpista sabia onde buscar dinheiro que serviria de capital de giro. Foi assim que Dominique se envolveu amorosamente com um executivo da Taurus, fabricante de armas. Ele era casado, tinha o dobro de sua idade e traficava armamentos para ampliar o patrimônio da família e sustentar o próprio padrão de vida ali,
o conforto que ele queria garantir para os seus filhos. É bem verdade que os encontros entre Dominique e este executivo da Taurus eram esporádicos, mas esse contato facilitou a sua busca por profissionalização, digamos assim. O amante a presenteou com dois revólveres calibre .38 da empresa onde ele trabalhava, e Dominique dividiu os seus mimos, claro, com o seu comparsa, Hamilton Jr.
benefícios que tinha ao se hospedar em hotéis de luxo e depois dar o calote em todo mundo, nos restaurantes e tal. Mas a ideia de andar armado não o seduzia. Aquele era um caminho que ele definitivamente não queria percorrer. A Dominique, pelo contrário, ela queria sempre mais. A sua ambição não tinha limites. É nesse momento que ela entra no mundo do furto de carros de luxo. Andar de fusquinha, o fusquinha do Ailton Júnior por aí,
ela não queria mais se submeter, por isso estudou dois métodos bastante comuns para arrombar os veículos nos anos 80. Em suas bolsas chiques, ela guardava sempre uma régua de metal e uma chave micha, e quando via um alvo em potencial, colocava suas habilidades recém-adquiridas em prática. Com uma régua, a Dominique destravava os carros com uma precisão capaz de causar inveja a qualquer malandro, e em seguida usava uma chave micha para dar partida nos veículos
levá-los embora. Fiquei pensando como que ela aprendeu isso, né? Porque assim, assistir tutorial no YouTube não dá. Estamos falando dos anos 80. Quem que ensinou essa mulher a arrombar carro? Não sei. Curiosamente, a Dominique jamais foi abordada durante qualquer um dos seus furtos, porque ninguém ousava desconfiar de uma mulher extremamente elegante tentando entrar em um carro de luxo. Afinal, quem poderia garantir que aquela não era a verdadeira dona do veículo? Depois de conseguir abrir e ligar o veículo,
o levava para casa, mandava retirar os miolos das chaves e fazia cópias, o que a permitia rodar com o carro por aí sem problema algum. Hamilton Jr. não costumava participar efetivamente dos furtos, mas ele dava cobertura de longe e depois desfrutava do status que aqueles carros proporcionavam. Os dois desfilavam pelas ruas da capital paulista, fumando seus cigarros a bordo de carros de luxo, como um Ford Landau, um Alfa Romeo 2300, um Opala Diplomata,
entre tantos outros modelos. Eles chegavam a ficar em posse dos veículos por até uma semana. Depois, os abandonavam sem nenhum peso na consciência. Certa vez, eles se apaixonaram por um Monza verde metálico na Marginal Tietê e seguiram a motorista até um mercado na região. Quando a mulher entrou na loja, a dupla abandonou um de seus carros roubados anteriormente e embarcaram em sua mais nova aquisição.
aproveitar o final de semana com o novo Monza Verde Metálico. O carro era uma verdadeira máquina, e Dominique queria levá-lo ao limite da velocidade, afinal, ela era amante de adrenalina. Eles deixaram a marginal, pegaram a rodovia Presidente Dutra e pisaram fundo. O velocímetro já marcava 140 km por hora, quando, na altura do município de Guarulhos, chamaram a atenção da Polícia Rodoviária Federal.
quilômetros por hora. Segura de si, a ex-telionatária estacionou um veículo no acostamento. A essa altura, a Milton Júnior já estava suando frio no banco do carona, mas a Dominique não. Ela manteve a pose e atendeu as ordens do policial com bastante educação, retirando sua carteira de habilitação da bolsa e entregando para a averiguação. Em seguida, o policial pediu também os documentos do carro. Aí, deu aquela palpitação no coração. A dupla se entreolhou, apreensiva,
Milton Júnior chegou a demonstrar sinais de nervosismo, mas a Dominique permanecia impassível. A golpista levantou as mãos até o porta-luvas e respirou aliviada, ao perceber que os papéis do carro realmente estavam ali dentro. Ela os entregou para o policial, que fez a conferência, aplicou uma multa por excesso de velocidade e os liberou para seguir viagem. É muito curioso pensar a respeito dessa abordagem, porque atualmente essa situação jamais aconteceria.
Dominique e Hamilton Jr. seriam presos assim que os policiais puxassem a placa do carro no banco de dados e vissem que era um veículo roubado, né? Mas nos anos 70 as informações demoravam muito a circular e isso deu brecha para que Dominique e Hamilton Jr. continuassem atuando. Não existia ali nenhum sistema unificado nacional, né? E isso também explica como eles conseguiram rodar com os carros furtados por até quase uma semana sem serem incomodados por ninguém.
sarro, né? Mas outros tempos. Bem, continuando aqui a viagem deles, eles chegaram a Campos do Jordão, se hospedaram em um dos hotéis mais luxuosos da cidade e, mais uma vez, deram um jeito de sair sem pagar pela hospedagem. Só que, dessa vez, eles não precisaram nem usar um cartão roubado para conseguir dar o golpe no hotel. Olha só o que essa dupla fez. Enquanto Hamilton Jr. curtia a piscina e buscava sexo sem compromisso com alguns rapazes, Dominique
O seu Taurus na bolsa, a arma que dava confiança para ela, e arrombou cerca de cinco apartamentos. Os hóspedes também estavam curtindo a estrutura do hotel e não voltaram para seus aposentos a tempo de flagrá-la. A golpista teve tempo suficiente para fazer uma verdadeira limpa em cada quarto ali do hotel. Ela pegou roupas, sapatos importados, joias, relógios, dinheiro, talões de cheque e, claro, cartões de crédito.
Depois, ela voltou para o seu quarto, guardou todos os itens, tomou um banho e voltou ao estacionamento para concluir o seu dia de trabalho. Lá, ela arrombou dois carros e pegou carteiras, óculos escuros, perfumes franceses, isqueiros, maquiagens, enfim, encheu a burra. Antes de deixar o último veículo, ela encontrou no banco de trás um sapato italiano da grife Salvatore Ferragamo,
legítimo, símbolo de status entre os mais abastados. Ela lembrou de Hamilton Jr. e achou que aquele sapato seria um ótimo presente para o seu comparsa, para o seu amigo, e ela não hesitou em levá-lo com ela. Discretamente, Dominique carregou aos poucos os itens subtraídos dos carros para o porta-malas do Monza, que ficou abarrotado de coisas. Ela então voltou para o interior do hotel e foi curtir a noite em uma boate no Saguão, ao lado de Hamilton Jr.
Quando os golpistas acordaram no dia seguinte, eles ouviram um tumulto na recepção e foram até lá para se inteirar dos boatos. Eles se depararam com diversos hóspedes revoltados, reclamando dos itens furtados e exigindo suporte imediato do hotel para que pudessem reaver os seus objetos. Esperta como era, Dominique juntou seus reclamantes e, além de fazer um barraco daqueles,
na lista de furtos, como um colar de diamantes, um relógio Tecnos e um anel com uma pérola. Foi da Dominique também a ideia de acionar a polícia para exigir que ninguém fosse obrigado a pagar a conta enquanto os pertences não fossem localizados. Dito e feito. Como nenhum item foi localizado e Dominique e Hamilton Jr. não figuravam entre os suspeitos, a dupla deixou o hotel sem pagar nada pela hospedagem. No caminho de volta para casa,
pararam em um poço de gasolina para almoçar, e juntos riram como nunca da situação. Para eles, aquilo tudo não passava de pura diversão. Eles aproveitaram a parada do almoço para fazer um balanço do furto, e nesse momento, Dominique entregou a caixa de sapatos italianos para o amigo. O par serviu como uma luva, e Hamilton Jr. transformou os seus novos calçados em um objeto de grande valor sentimental. Para onde quer que fosse, o par de Salvatore Ferragamo
Já eram quase 10 da noite quando os dois decidiram retornar para São Paulo. Eles pegaram a estrada, a mesma rodovia Presidente Dutra, onde foram abordados no início da viagem, e com a música no último volume, seguiram viagem em seu monza roubado. Eles voltaram bebendo uma cervejinha, cantando os sucessos da época a pleno pulmões, enquanto seguiam viagem comemorando o sucesso daquele final de semana. O que eles não esperavam é que essa viagem tinha como destino final,
A prisão. Já era meados de 1981, quando Dominique e Hamilton Jr. voltavam de Campos do Jordão com o porta-malas do Monza Verde Metálico roubado, cheio de itens furtados no hotel. Na estrada, rumo à capital, deram de cara com uma blitz. Não havia para onde fugir. Talvez a polícia estivesse procurando algum suspeito pelo furto no hotel e recebeu denúncia para averiguar aquela região. Mas absolutamente todos os veículos que passavam pela fileira de cones,
estavam sendo parados pelas mais de 20 viaturas enfileiradas e cerca de 80 policiais militares fortemente armados. De longe, Hamilton pôde ver algumas pessoas algemadas. E fez o quê? Ele entrou em desespero. Teve uma crise de nervos, caiu no choro e, cego pela emoção e o medo de ser descoberto pelo pai, abriu a porta do carro ainda em movimento e correu para o acostamento.
momento da fuga e acabou disparando quando encostou no chão. O barulho chamou a atenção dos policiais. Nem mesmo a criminosa, sempre tão centrada, conseguiu conter a emoção. No impulso, acelerou o carro e acabou batendo no veículo à frente. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, mais de dez agentes armados acercaram e ordenaram que descesse do Monza com as mãos para o alto. Hamilton desobedeceu a ordem,
que recebeu para retornar ao local e correu rumo a um matagal na beira da estrada. Os policiais atiraram, mas não conseguiram acertá-lo. A prisão aconteceu após o Hamilton Jr. ser localizado e imobilizado pelos agentes, e a dupla foi então encaminhada para a delegacia seccional do tatuapé. Ousada como sempre, Dominique apresentou uma carteira de identidade falsa às autoridades, mas o teatro durou pouco.
reconhecido pelos policiais, chorava copiosamente. Ele implorava para os investigadores não ligarem para sua casa, um pedido que sequer precisou ser atendido. O delegado Hamilton já havia tomado conhecimento da prisão do filho e foi até a delegacia para resolver aquela questão. Ele entrou na delegacia, viu o filho desesperado e orientou que a dupla fosse colocada em uma cela com o piso molhado, onde permaneceram por uma noite e de onde
foram liberados na manhã seguinte sem sequer serem fichados. Eis aí os privilégios do corporativismo, né? Os dois estavam em posse de um carro furtado, carregado de itens furtados, com a régua de metal e a chave Micha na bolsa de Dominique. Isso sem falar na posse de arma de fogo, além de ter apresentado documentos falsos. Eles poderiam facilmente ser enquadrados em um monte de crime, incluindo o furto qualificado mediante fraude.
saíram pela porta da frente da seccional com a ficha limpa. Quando chegou em casa, Hamilton Jr. deu de cara com o pai e teve que ouvir aquele sermão. Mas foi, digamos assim, um sermão nada convencional. O delegado Hamilton não estava preocupado que o filho era um criminoso e falou com todas as letras que preferia um filho ladrão a um filho gay.
postura de homem na delegacia, nenhum policial ficou sabendo desse segredo. O delegado Hamilton acreditou que o simples fato de fazer o filho e a comparsa passarem a noite na delegacia com o chão molhado era castigo suficiente e os faria refletir sobre os crimes cometidos. Ledo engano. Dominique ficou encantada com o prestígio do pai do amigo e teve a certeza de que, a partir daquele momento, jamais seria presa.
tornaria uma dupla imbatível. Claro que isso foi combustível suficiente para abastecer a cabeça da jovem mulher com novos planos ainda mais ousados e cheios de adrenalina. Pois agora, Dominique não queria mais apenas cometer furtos. Ela queria roubar. E como Dominique sempre fazia o que queria e Hamilton Jr. ia na onda, lá foi a dupla roubar carros. Sempre que eles eram pegos, Hamilton Jr. já chegava na delegacia dizendo quem era seu pai
não durava muito. Eles chegaram a contratar um advogado criminalista para cuidar dos trâmites burocráticos das prisões. Mas chegou uma hora que a polícia nem conduziam mais eles para a delegacia. Simplesmente não valia a pena. Sabiam que Dominique e Hamilton Jr. eram costa quente. Os amigos ladrões viveram assim por quatro anos, mas por circunstâncias que não foram esclarecidas, acabaram se afastando em 1985. A partir de então,
cada um seguiu o próprio caminho. Enquanto os caminhos de Hamilton Jr. o levaram para viver o romance gay que ele sempre sonhou nos braços de um jogador de vôlei do clube paulistano, os caminhos de Dominique a levaram a, mais uma vez, escalar os seus crimes. Foi nessa época, aos 25 anos, que Dominique se reaproximou do amante, aquele que era executivo da Taurus, 20 anos mais velho do que ela, casado e que traficava armas para o exterior, o próprio.
intermédio dele que Dominique conseguiu um emprego como secretária bilíngue em um banco na Avenida Paulista. E não, ela não estava largando a vida de adrenalina, perigo e aventuras para virar bancária. Aquela agência era responsável por cuidar da conta da Taurus. Era ali que o amante recebia o pagamento pelo armamento desviado da fábrica de armas para o exterior. Ter Dominique ali era parte do esquema, era estratégico.
alguns, digamos assim, privilégios que outros trampos CLT não dariam. Ela tinha flexibilidade de horários para viajar com o seu amante até o Paraguai. No país vizinho, finalmente recebeu treinamento para aprender a atirar, não só com pistolas, mas também rifles e metralhadoras. Depois de passar dois anos fingindo a vida de CLT, a golpista pediu demissão para juntar-se ao amante nos seus negócios obscuros.
Dominique e o funcionário da Taurus iam e voltavam do Paraguai, levando e trazendo armas como se fossem invisíveis. Os negócios estavam prosperando e a parceria com o amante era um sucesso. Porém, Dominique estava infeliz. O cara deixava claro que ele não tinha a intenção de se separar da esposa e fazia de tudo para protegê-la.
Dominique colocou um ponto final no relacionamento. Mas alguém como ela jamais estava sozinha. Em suas viagens ao Paraguai, Dominique tinha conhecido Ezequiel Cabanhas, um criminoso paraguaio. Com ele, Dominique formou uma nova sociedade criminosa e também ultrapassou os limites corporativos para se envolver amorosamente. O esquema com o novo comparsa era o seguinte. Dominique ficava responsável por roubar e furtar carros de luxo em São Paulo
Paulo e também por levá-los até Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, para que Ezequiel os levasse ao Paraguai. Lá, os veículos passavam por uma transformação. Os chassis eram raspados e os carros recebiam novas placas com registros emitidos por contatos que a dupla possuía na prefeitura de Ponta Porã. Portanto, quando os veículos retornavam ao Brasil, estavam legalizados e circulavam sem problemas pelas ruas brasileiras.
Atuaram juntos, Dominique ganhou dinheiro suficiente para comprar uma fazenda no Paraguai. Seus objetivos estavam traçados em sua mente. Ela queria ganhar dinheiro suficiente para comprar gado, se casar e levar uma vida tranquila ao lado da família no país vizinho. Eram esses os seus sonhos. Isso que incentivava ela a trabalhar cada vez mais para o crime organizado. Ela já não era mais aquela adolescente que queria cometer crimes por diversão. Agora ela tinha objetivos.
objetivos familiares. Porém, seus sonhos caíram por terra. O ano de 1988 chegou sem que nada daquilo que ela planejou se realizasse. E, na verdade, ela estava cada vez mais longe de conquistar os sonhos. O relacionamento com Ezequiel foi para o saco. E lá se foram os sonhos de um casamento, pelo menos com ele, e de criar uma família no Paraguai. A parceria com o criminoso também se desfez.
parecia um vingar, Dominique foi então buscar novamente o seu parceiro de crime e colega de vida, Hamilton Jr. Ele contou que havia sido expulso de casa depois de assumir o romance com o jogador de vôlei e que ele queria juntar dinheiro suficiente para comprar um apartamento e se livrar de uma vez por todas dos mandos e desmandos da sua família, principalmente de seu pai homofóbico.
os sapatos italianos que ela havia furtado para ele anos antes. Ela ficou emocionada. A Milton Júnior era aquele parceiro estável e confiável que ela não encontrava em nenhum outro homem. Dominique propôs que traçassem metas claras para que os objetivos deles fossem alcançados. Eles cometeriam crimes por São Paulo pelo período de dois anos, tempo suficiente para juntar dinheiro e conquistar a tão sonhada independência financeira,
Como a jovem já estava inserida no esquema da legalização dos carros roubados, eles começaram dessa forma, mas logo escalaram para roubos à mão armada nas saídas de joalherias e bancos, pois os ganhos eram imediatos e davam menos trabalho, e eram bastante lucrativos. O único combinado entre a dupla era não atirar em ninguém.
o Jorge no filme Cidade de Deus, Hamilton Jr. tinha pavor de ferir inocentes durante os assaltos. Dominique concordava com a visão do comparsa, mas deixava claro que se as coisas saíssem do controle, ela seria obrigada a quebrar essa regra e a tirar. Certo dia, os cúmplices circulavam pelo centro de São Paulo quando avistaram uma senhora na casa dos 60 anos dentro de uma agência do Banco do Brasil. Pela postura elegante e pelo tamanho da pasta que ela carregava,
eles supuseram que ela estava sacando uma grande quantia em dinheiro vivo e decidiram que ela seria o alvo do seu assalto naquele dia. Assim que a senhora deixou a agência bancária, os dois se colocaram a segui-la pelas ruas do centro de São Paulo e viram quando ela entrou na fila de um ponto de táxi. Eles continuaram observando de longe e acompanharam quando a senhora entrou em um dos carros estacionados.
o rosto da vítima. Hamilton foi para a porta oposta e puxou a pasta de dinheiro das mãos daquela senhora, enquanto ele implorava para que Dominique não sucumbisse e cumprisse o acordo de não atirar em ninguém. Só que ali, no meio daquele estresse, um tiro de arma de fogo soou pelo ar. Era a exceção à regra. Uma exceção que não veio da dupla de criminosos, mas sim do taxista precavido.
motorista desceu do carro com uma pistola na mão e atirou no joelho de Hamilton Jr., que caiu no chão. No meio da muvuca que se armou no local, Dominique guardou sua taurus na bolsa e fugiu a pé, deixando o amigo agonizando sozinho. É, é tenso. Por isso vamos dar uma pausa, tomar um gole de café e falar da vida pós-carnaval, que é quando o ano começa de verdade, né? Março chegou e com ele vem algumas decisões importantes.
é preciso começar a planejar o restante do ano para atingir suas metas. Menos impulsos e mais estratégia, inclusive o que você veste todos os dias. É a primeira decisão de toda manhã. Se a gente investigasse o seu guarda-roupa, talvez encontrasse as mesmas evidências de sempre. Peça que perdeu a forma, tecido que esquenta demais, roupa que parecia barata, mas saiu cara, porque você quase não usa. No fim, não é sobre comprar mais roupas, é sobre escolher melhor. É por isso que eu gosto da Insider Store.
T-shirt é uma peça pensada para performar na rotina inteira, do trabalho ao date à academia. É uma peça que performa no seu ritmo e de alta durabilidade. Pensando no guarda-roupas ideal, eu compro olhando o custo por uso, quanto eu vou usar e quanto vai durar. Precisa pensar de forma quase investigativa, na certeza de que uma decisão inteligente economiza tempo e dinheiro.
na Insider Store. Março é o mês do consumidor e o meu cupom CAFÉ COM CRIME dá 20% OFF para novos clientes Insider e 15% para quem já comprou, amou e voltou para mais. Ah, e o cupom soma com os descontos do site, chegando até 30% OFF este mês, se é para comprar, que seja uma decisão inteligente e na hora certa. E essa hora é agora. Obrigada, Insider, pela Super Semana do Consumidor e por dar esse descontão para os crimiseiros. E com isso, podemos voltar para o crime.
Hamilton Jr. foi socorrido da cena do crime quando uma ambulância e a polícia apareceram no local. Ele recebeu atendimento médico e sobreviveu ao tiro sem grandes sequelas. Depois que recebeu auto-hospitalar, ele foi indiciado e encaminhado ao presídio do Carandiru, na Zona Norte de São Paulo. Dessa vez, na verdade, desde que ele saiu do armário, ele não tinha mais a proteção do pai delegado.
como homossexual e sofreu espancamentos e estupros diários. Até que, em 1989, contraiu HIV e morreu em decorrência de pneumocistose, toxoplasmose cerebral e candidíase esofágica. No velório, poucas pessoas compareceram. O delegado Hamilton, que preferiu um filho bandido a um filho gay, não apareceu para se despedir de Hamilton Jr., que, no fim das contas, era os dois.
Nick pelo amigo não a impediu de continuar os seus planos e atingir seus objetivos. No início dos anos 90, conheceu Jailton Costa de Lima, um criminoso de alta periculosidade de São Paulo, com quem passou a trabalhar. Era visível a aversão que ela tinha do seu novo comparsa. Afinal, nada, nem ninguém jamais se compararia ao elo que ela teve com Hamilton Jr. Mas ela respeitava Jailton e sabia como manipulá-lo para que fizesse
que ela queria. Com Jailton, ela voltou a roubar carros à mão armada, sem se importar com o horário, desde que encontrasse a oportunidade perfeita para agir e dando sempre preferência para vítimas do sexo feminino. Irônico, né? Uma mulher preferir assaltar mulheres. Esses carros também eram enviados ao Paraguai para serem legalizados e depois retornavam ao Brasil naquele esquema de receptação que já conhecemos. Com o que ganhava, Dominique comprava cabeças de
para sua fazenda no Paraguai, assim como havia planejado. Ela seguia sonhando com uma vida tranquila ao lado de uma futura família. Com esse objetivo em mente, quando ela completou 30 anos de idade, ela decidiu mudar os seus golpes. Precisava agir mais rápido. A idade avançava e ela não queria ficar para a titia. Dominique passou a ter como alvo homens ricos. Homens ricos e casados. Seu novo plano de mestre era seduzir esses caras
embebedá-los, deixá-los completamente nus na cama e tirar fotos. Depois, ela os chantageava com as fotos analógicas. Era o golpe do nude reverso e vintage, né? Ela não precisava transar com eles, nem mesmo se expor, e mesmo assim conseguia uma boa grana chantageando esses ricaços que estavam prontos para trair suas esposas. Uma de suas vítimas, um doleiro com mais de 60 anos,
teve também a Mercedes, avaliada em 200 mil dólares, roubada do hotel de luxo onde eles estavam hospedados, depois que Dominique descarregou um filme de 36 poses em seu corpo nu. Para a esposa, é claro, esse homem disse que havia sido sequestrado, mas uma semana depois, Dominique foi até o seu escritório no Itaim Bibi, ao lado do seu comparsa Jailton,
carro. Mas, ao invés de se sentir intimidado, o doleiro propôs a ela uma oportunidade de negócio. Pediu que sumisse de vez com a Mercedes para que ele pudesse acionar o seguro. Dominique aceitou e nasceu ali uma nova oportunidade de negócio. O novo cúmplice de Dominique, o doleiro, passou a indicá-la a amigos ricos de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Para ela, foi só vantagem. Em vez de roubar os veículos, passou a recebê-los de
grado, ficando responsável por todo o esquema de legalização no Paraguai, recebendo comissão pela venda e parte da indenização paga pela seguradora. Tá bom ou quer mais? Bem, Dominique sempre queria mais. Circulando por lugares frequentados apenas pela nata da elite, Dominique conheceu em meados de 1991 um fazendeiro mineiro de 40 anos, com quem ela se envolveu amorosamente. O homem era solteiro e podre de rico,
mas era também um tremendo mão de vaca. Mesmo tendo assumido um namoro com a golpista, ele não abria carteira de jeito nenhum, o que a levou a traçar um plano para tirar uma casquinha do amado. Quatro meses após iniciarem o relacionamento, Dominique compareceu a um evento utilizando um colar de diamantes que chamou a atenção de todos os convidados. Ela foi exaustivamente elogiada pelo namorado também, a quem confidenciou que aquela era uma joia de família.
isca havia sido lançada. Alguns dias depois, Dominique passou a se comportar de maneira estranha, chamando a atenção do fazendeiro. Ao ser questionada sobre o que estava acontecendo, a namorada desabou em lágrimas e contou que a avó havia sofrido uma queda na mansão onde vivia e precisava passar por uma cirurgia de emergência. Dominique contou que a fortuna da família havia sido confiscada pelo plano Collor e que estavam sem condições para bancar os gastos
O fazendeiro até se comoveu, mas ele não se ofereceu para ajudar. Eu disse que ele era mão de vaca, e nesse caso, estava certo, né? A Dominique conhecia bem o seu amado, sabia que ele não se ofereceria para ajudar. E então, ela partiu para o seu plano de ataque. Ofereceu a ele o seu colar de diamantes pela metade do preço. Desse jeito, ela poderia artar com os custos e lidar com o pó cirúrgico da avó.
fechado, a golpista levou o namorado até um ateliê para que a autenticidade do colar de diamantes fosse atestada. Assim que chegaram, a peça foi entregue a um gemólogo que examinou o colar cuidadosamente, estimando o seu valor em 100 mil dólares. Convencido do valor da peça, o fazendeiro entregou à amada um maço com 50 mil dólares. Em troca, Dominique entregou o colar.
de negócio, mas mal sabia que naquele momento a vantagem era toda de Dominique. Ela caiu no mundo com a quantia em dinheiro, sem deixar rastros. O fazendeiro passou dias em busca da namorada, mas não conseguiu encontrá-la. Mas ele nem sofreu, muito pelo contrário, o fazendeiro só pensava em recuperar o seu investimento. Foi então que ele levou o colar a outro joalheiro, que após analisar a peça com cuidado, decretou que aquele colar era uma réplica muito
sofisticada, mas as pedras eram zircônia cúbica, uma peça que custava cerca de 300 dólares. Irado com a situação, o fazendeiro saiu da joalheria direto para uma delegacia, onde registrou um boletim de ocorrência contra Dominique e também contra o avaliador do ateliê. A Dominique já era uma velha conhecida da polícia, mas naquele ponto pouco adiantava colocá-la no encalço das autoridades. Quando a vítima percebeu a furada em que havia se metido,
A loira já estava refugiada em sua fazenda no Paraguai, para esperar a poeira baixar. Não demorou muito até que o sonho de formar família no país vizinho caísse por terra de vez. Sem aguentar a monotonia do campo, ela vendeu a fazenda e voltou para o Brasil, onde reencontrou Jailton para retomar a parceria nos negócios. Para despistar a polícia e também evitar esbarrar com a vítima do colar,
de preto. Ela também descolou duas identidades verdadeiras emitidas pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, só que com nomes falsos. Selma Neda Silva e Maria Ângela Pestana. A data de nascimento? 4 de abril de 1975. Ficou um pouco mais jovem. Foi utilizando suas novas identidades que passou a assaltar mulheres no trânsito e a clonar automóveis, usando dados de outro veículo igual para dar legitimidade
a um carro roubado. Ela conseguiu viver assim nesse jogo de gato e rato com a polícia por mais alguns anos, até que, em um vacilo, o seu castelo de cartas ruiu. No dia 17 de agosto de 1995, Dominique foi ao shopping paulista disposta a praticar mais um de seus crimes. Naquela tarde, entrou na joalheria H-Esterne, escolheu um colar de ouro branco,
opásio imperial vermelho cereja em forma de gota, era, assim, um espetáculo de joia. Depois de enrolar um pouco na loja, fingindo que estava avaliando se levaria a peça ou não, Dominique bateu o martelo. O vendedor, Roberto Vicente de Lima, de 34 anos, ficou animado com a venda e preparou tudo para atender a sua cliente da melhor forma possível. A golpista preencheu um cheque, apresentou suas identidades falsas com o nome que constava no cheque e não despertou nenhum sinal
de alerta em um primeiro momento. Roberto aceitou o pagamento, entregou a ela a sacola da loja com a joia dentro e, mais do que rápido, Dominique deixou a loja em direção ao estacionamento. Se o vendedor tivesse ligado para o serviço de telecheque enquanto atendia Dominique, teria sido informado que aquele talão, portado pela golpista, era um talão roubado. Mas ele só o fez assim que a criminosa deixou a loja.
linha. E o gerente ainda disse que descontaria o valor daquela compra do seu próprio pagamento. Aí o Roberto ficou desesperado de vez. Sem pensar em mais nada, o vendedor saiu correndo pelos corredores do shopping até alcançar o seu Fiat Uno no estacionamento e disparou na busca da cliente até encontrá-la no acesso da Rua 13 de Maio. Roberto a seguiu e, quando chegaram à Rua Cincinnati Braga, a golpista percebeu que estava sendo seguida
tentou dar um perdido no vendedor, furando os sinais e fazendo manobras perigosas no trânsito, até ser bloqueada na Alameda Campinas. Roberto desceu do carro e tentou abordar Dominique, mas ela não se curvava, pelo contrário, tentava fugir. Como a estelionatária não cooperava, Roberto passou a esmurrar o vidro lateral do carro para tentar pegar a sacola da loja que estava no banco do carona.
Sem uma resposta de Dominique e tomado por ódio, Roberto conseguiu estourar a janela do carro com um chute. Retirou a chave da ignição. Mas quando ele deu a volta para pegar a mercadoria no banco, ele deu de cara com uma pistola .38 que a Dominique havia acabado de sacar da sua bolsa Chanel. Esquecendo os conselhos do falecido Hamilton Jr., Dominique desceu do carro e atirou cinco vezes contra o vendedor a queima-roupa.
A par dos disparos, Roberto se arrastou para debaixo do veículo. A sorte de Roberto é que, quando ele estava empurralado por Dominique, uma viatura da polícia militar surgiu pela calçada e levou a criminosa algemada para o quarto distrito policial. A surpresa veio quando os policiais puxaram a ficha de Dominique e identificaram ali a mulher do golpe do colar contra o fazendeiro. Os furtos em hotéis, pelo menos seis registros de roubo à mão armada,
autos a idosos na saída de bancos e uma infinidade de cheques roubados. Sua ficha criminal também incluía sequestro e cárcere privado. Dominique havia se livrado de grande parte das acusações anteriores graças ao apoio do delegado Hamilton. Mas agora, sem a cumplicidade do amigo e sem o pai dele para passar pano, Dominique deixou de ser tratada como uma mulher inconsequente e passou a ser vista como aquilo que realmente era, uma criminosa de alta periculosidade.
Encaminhada à penitenciária feminina da capital, Dominique foi indiciada pela polícia, denunciada ao Ministério Público e julgada por uma série de crimes em varas criminais. Pelos crimes já citados e também por apropriação indébita, disparo de arma de fogo em local público, associação criminosa, crimes contra o sistema financeiro, falsidade ideológica, extorsão e adulteração de placa de veículos,
de prisão. A sua situação piorou quando, em 2003, o crime contra o vendedor Roberto foi acatado pela justiça como tentativa de homicídio, sendo condenada a mais 12 anos de pena, um total de 48 anos de reclusão em regime fechado até aquele momento. Em 21 de abril de 2006, todas as suas sentenças foram unificadas e a sua pena foi fixada em 57 anos, 11 meses e 10 dias de prisão.
Apesar de ter aí o seu tempo de prisão, sua pena fixada mais tarde, ela foi presa no ano em que cometeu aquele golpe e a tentativa de homicídio contra o vendedor Roberto, que foi em 1995. A partir desse momento, atrás das grades, Dominique sempre se colocou acima das demais detentas. Ela se recusava a se misturar com criminosas de baixo grau de escolaridade,
pessoa que julgasse inferior. Ela passava os seus dias pensando em como poderia fugir do cárcere. A oportunidade surgiu por volta de um ano depois do seu encarceramento. Era 9h20 da manhã do dia 16 de setembro de 1996, quando ela tomava sol no pátio da Penitenciária Feminina da Capital, no Complexo do Carandiru. Ao lado de Nancy, uma detenta que aguardava julgamento por tráfico de drogas, Dominique
a entrega de insumos para as oficinas do presídio por um caminhão baú e cortou o alambrado com um alicate industrial. Com a falta de tempo e de habilidade, o buraco aberto no alambrado era pequeno demais para que Nancy ultrapassasse. Mas com esforço, Dominique conseguiu fugir. Mesmo ferida pelas arestas do arame, ela ganhou uma mata no entorno do Carandiru, mas não foi longe, sendo recapturada antes que pudesse atravessar um córrego lateral.
Após receber uma punição pelo ato, Dominique foi transferida para a Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto, onde, dez anos depois, conquistou o direito ao regime semiaberto. Em 2006, o fato de seus processos estarem espalhados por diferentes fóruns e ainda não existir um sistema integrado entre eles fez com que um juiz acatasse o pedido da defesa para a progressão de regime.
condenações de Dominique que estavam em vigor e que exigiam o cumprimento da sua pena em regime fechado. E assim, Dominique acabou ganhando a regalia de trabalhar dentro da unidade prisional sem a supervisão de agentes, no dia 21 de maio de 2006. A partir do benefício conquistado com base na falta de organização do sistema na época, Dominique decidiu que não permaneceria muito tempo atrás das grades, mas dessa vez planejou a sua fuga,
com mais calma, para que não desse nada errado. Ela acordava bem cedo para trabalhar na horta de uma unidade prisional, onde também alimentava as galinhas e recolhia os ovos. Imaginem essa mulher, cheia de pose e de marra, entrando em um galinheiro para recolher ovos. Ela detestava, mas era preciso encarar a tarefa para estudar as possíveis rotas de fuga do presídio. Após pouco mais de um ano e meio de trabalho, Dominique percebeu que a oportunidade de fuga
estava nos fundos da penitenciária, onde havia uma plantação de maracujá. Ali, ao lado de um muro de seis metros de altura, uma grande estrutura de ripas de madeira sustentava as plantas e, sem querer, oferecia a Dominique o cenário perfeito para a fuga. Uma semana de estudos depois, Dominique se arriscou. Já na casa dos 47 anos, ela escalou as treliças de madeira, pisou nas ripas e saltou para o outro lado.
lado. Na queda, ela quebrou uma perna e um braço, mas mesmo com muita dor e uma imensa dificuldade de locomoção, ela conseguiu fugir. O que me chama a atenção é que nessa fuga, ninguém se mexeu para tentar recapturá-la. E assim, aos trancos e barrancos, Dominique conseguiu chegar à capital de São Paulo e se refugiou na sua própria casa, na região dos jardins.
o contato com Jailton e recaiu no crime, dessa vez com roubo de cargas e lavagem de dinheiro. Além disso, Dominique circulava com carros importados com placas consulares falsas, o que facilitava muito a sua vida. Dominique estava tão segura de seus novos empreendimentos que passou a anunciar os carros que não existiam a preço de banana nos classificados da Folha de São Paulo e do Estadão, os maiores jornais do estado de São Paulo da época.
interessados chegavam a pagar um valor em dinheiro com uma entrada e Dominique sumia feito fumaça. Ela aplicava o mesmo golpe nas regiões norte e nordeste do país, usando carros populares como isca, mas a lógica era a mesma. Depois que recebia a entrada dos veículos, desaparecia sem deixar vestígios. Em um ano, ela aplicou esse golpe em mais de 50 vítimas. Mas a mesma confiança que elevou o nível de seus crimes
pouco mais de um ano após a sua fuga de Ribeirão Preto. No dia 7 de dezembro de 2008, depois de participar de uma confraternização em um restaurante de pinheiros com os bandidos que vendiam carros fantasmas... E aí, gente, eu fiquei pensando aqui. Que coisa! Era dezembro de 2008, fim de ano, restaurantes ficam cheios, né? Com a galera fazendo amigo secreto, presentinho de Natal, confraternizações, as empresas se unem,
se juntam ali, e aí foram lá os bandidos fazer também o seu almocinho de fim de ano, fazer ser o amigo da onça, ser o amigo ladrão, né? Foram lá de boa, ninguém suspeitando de nada que aquela mesa era tudo bandido. Mas enfim, depois do amigo ladrão, a Dominique foi até o shopping Pátio e Genópolis pra comprar um presente pro seu amigo secreto, e ela foi dirigindo um de seus carros, que por incrível que pareça, esse carro estava realmente legalizado.
A Dominique só não esperava ser parada em uma blitz de trânsito que foi montada na Rua da Consolação, bem em frente ao cemitério. Com os seus documentos originais em mãos, também outro milagre, não sei o que aconteceu com ela esse dia. Esse dia ela estava totalmente legalizada, mas quando o policial leu ali o nome de Dominique, passou para a central de informação, ele foi informado de que essa mulher era uma foragida da polícia e Dominique retornou para a cadeia.
presídio de Tremembé, onde dividiu seus dias com presas famosas, como Ana Carolina Jatobá, Elize Matsunaga e Suzane von Richthofen. Mas ela não se misturava não, viu? Mesmo lá no presídio das famosas, a Dominique também se recusava a desenvolver qualquer relação de amizade com as detentas. A única que conseguiu furar ali as suas barreiras, com quem ela realmente formou laços, foi com a Baronesa, que era o apelido dado à juíza Maria Cristina de Luca Barongeno.
A sofisticação e elegância de Dominique também lhe renderam um apelido na prisão. Em Tremembé, ela era conhecida como Dama do Cárcere, e ela se orgulhava disso. Dominique finalmente parou de pensar em fugas e aceitou o seu destino ali em Tremembé. Todos os habeas corpus impetrados pela defesa de Dominique foram indeferidos. Em 2020, durante a pandemia, ela invocou a sua idade, já 60 anos, para requerer prisão domiciliar,
pedido também foi negado. Os advogados de Dominique tentaram dizer que ela era cleptomaníaca, que ela era doente por furto, por roubo. E aí o juiz a submeteu a um exame de sanidade mental com um psiquiatra e ficou comprovado que Dominique tinha total consciência das atitudes que cometia. E por isso, ela ficou na cadeia sem nenhum benefício. Os refrescos só vieram para a golpista em junho de 2025, quando finalmente deixou o presídio de Tremembé
da Frente, aos 65 anos de idade. Quase metade de sua vida ela passou no presídio. Foram mais de 30 anos. Apesar da dificuldade em encontrar matérias sobre a golpista nos jornais dos anos 70, 80 e 90, a soltura de Dominique foi amplamente divulgada pela imprensa em setembro de 2025, quando a liberdade da maior estelionatária do país estampou diversos sites de notícia.
paz. Ela conseguiu realizar parte de seu sonho e construiu uma família. Eu não encontrei muita informação sobre quando isso aconteceu ou quem são as pessoas, mas Dominique, entre aí os seus crimes, seus vais e vens, ela se casou com um arquiteto e teve dois filhos. Os seus nomes jamais foram revelados. A criminosa, aposentada, agora diz que quer curtir os dias próximos dos netos e da família. Diz que o passado ficou para trás e que
E não há espaço para adrenalina, perigo ou aventuras em sua vida. Ela afirmou. Enquanto adolescente, Dominique buscou liberdade dos pais para ter uma vida de adrenalina. Hoje, em liberdade do sistema prisional,
E estes foram os crimes de Dominique Scharf, a golpista que encantou homens ricos. É uma história cheia de altos e baixos que mostra pra gente que a maldade, o crime, às vezes vem dos lugares que a gente menos espera. Vem de um berço de ouro, vem por motivações também que a gente não entende. Muitos entram nessa vida por dinheiro, outros por diversão.
E pra mim a dinâmica entre Dominique e o Hamilton Jr. também foi muito interessante, porque ela tinha posição mais de líder, ele mais de submisso, ela querendo diversão e ele querendo aceitação. E quando ele não encontra isso dentro de casa, por estar ali cercado por uma família homofóbica, ele busca isso fora, essa aceitação, essa liberdade. E infelizmente ele tem um fim muito triste, quando ele é deixado sozinho,
ali naquela cena de crime, vai pra cadeia e ali dentro ele sofre diversos abusos que levam ele à morte. É um fim muito triste o de Hamilton Jr. Não justifica nenhuma das atitudes e dos crimes que ele cometeu, mas com certeza é uma história bastante triste. Esse é um daqueles raros episódios onde eu foquei bastante aqui na história dos criminosos e se vocês perceberam, o nome das vítimas não é mencionado em nenhum momento, até porque
não encontramos esses nomes durante as nossas pesquisas. A Dominique e o Hamilton, eles tinham como alvos pessoas ricas que muitas vezes estavam ali cometendo atos não apropriados, digamos assim, indo trair as esposas, indo às saunas onde eles não deveriam estar. E por isso eles geralmente não denunciavam. E assim a gente não tem nenhum nome dessas vítimas. Mas, como eu mencionei, existiram outras vítimas
também não foram alvos diretos deles, como os garçons, os cozinheiros, o vendedor Roberto que o diga, né? As pessoas que a gente acha, não, imagina, vão roubar a loja lá, ninguém vai ligar porque é todo mundo rico, mas tem pessoas que acabam pagando pato, né? Enfim, gente, amanhã, quinta-feira, eu vou postar as imagens desse episódio lá no Instagram e no Twitter, no X. Sigam a gente, somos o arroba café com crime no Insta e o arroba café c crime no Twitter. Comentem lá comigo,
o que vocês acharam deste caso. Eu volto daqui a duas semanas, não na próxima quarta, mas na outra, com um novo episódio pra vocês. E até lá, não andem com baratas na bolsa, porque de desgraça, já basta esse podcast. Tchau, tchau!
As pesquisas utilizadas neste episódio foram o Estado de São Paulo, Portal Terra, Jornal do Brasil, Portal Diplomata FM, Balanço Geral, Jornal A União e o livro Tremembé, escrito por Ulisses Campbell.