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194 | CASO PISSARDO: o crime que destruiu uma família perfeita

13 de maio de 202659min
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Em outubro de 1994, um crime brutal abalou o interior de São Paulo. Em São José dos Campos, três membros da família Pissardo foram encontrados mortos dentro de casa. No mesmo dia, em Campinas, parentes enterravam os avós da família, também assassinados a tiros dentro da própria residência.

Dois massacres. A mesma família. Coincidência?

A investigação logo revelou uma trama capaz de chocar até os investigadores mais experientes. Os assassinatos da família Pissardo se transformaram em um dos casos criminais mais perturbadores da história paulista.

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Créditos:

Produção, apresentação e roteiro por Stefanie Zorub

Edição e desenho de som por Luigi Calistrato

Roteiro e pesquisa for Ana Paula Almeida

Participantes neste episódio3
E

Esté Zorubi

Hostpodcaster
G

Gustavo Pissardo

ConvidadoEstudante
M

Maria Helena Rosseto

Convidado
Assuntos4
  • Caso Pissardo: Duplos AssassinatosAssassinatos em São José dos Campos · Assassinatos em Campinas · Família Pissardo · Gustavo Pissardo · João Pissardo · Antônia Pissardo · Gumercindo Pissardo · Adelaide Medina Sanches Pissardo · Maria Paula Pissardo · Maria Helena Rosseto · Joaquim Rosseto · José Manuel Carvalho · Maria Cristina Salles · Adriano Pissardo
  • Investigacao Fabio Luis da SilvaSuspeitas iniciais · Álibi de Gustavo Pissardo · Confissão de Gustavo Pissardo · Motivação do crime · Laudos médicos e lesão cerebral · Síndrome neuropsiquiátrica · Luiz Valias · Talmir Russo · Hélio Souza Lima · José Carlos de Oliveira
  • Juízo contra Sodoma e GomorraPrimeiro julgamento · Novo julgamento · Revisão da pena · Progressão de regime · Perdão familiar · Carlos Alberto Benedito
  • Comparação com casos anterioresCaso Susanne von Richthofen · Caso Aristófem de Santos
Transcrição156 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Era fim de setembro de 1994. O estudante Gustavo Pissardo levava uma rotina semanal bastante puxada. Ele era funcionário da General Motors Brasil durante o dia e estudava durante a noite. Fazia cursinho, sonhava em cursar direito na USP. Quase não sobrava tempo para namorar. Mas naquele fim de semana, ele decidiu quebrar a rotina e simplesmente relaxar. Um pouquinho de folga para sua cabeça seria bom.

Na segunda-feira, voltaria a labuta, renovado, energizado, pronto para enfrentar qualquer coisa. Gustavo passou o fim de semana no litoral paulista com a namorada, o cunhado e o sogro. Um fim de semana feliz, leve, de muitos sorrisos e carinho. Era exatamente o que ele precisava. Mas nada daquilo o ajudaria a enfrentar o que ele encontrou segunda-feira ao chegar em casa.

Tudo começou com um cheiro. Um odor tão forte que Gustavo se estremeceu todo ao colocar os pés dentro da residência onde vivia com os pais e a irmã, em São José dos Campos. Aquele cheiro o levou a uma cena devastadora. Sua mãe, irmã e pai estavam mortos, corpos ensanguentados pelos cômodos da casa. Assassinados a tiros dentro de casa.

Desesperado, Gustavo correu para a casa da namorada para pedir socorro, e entre lágrimas e soluços, quase não conseguiu explicar a cena que acabara de testemunhar. Como o rapaz mal conseguia falar, o seu sogro resolveu comunicar o restante da família do genro, começando por uma tia que vivia em Campinas.

Mas ao fazer a ligação, ele não só dá as más notícias, como também recebe uma informação devastadora. A tia informa que os avós de Gustavo, que também moravam em Campinas, estavam mortos. Assassinados a tiros dentro da própria casa. Quem estaria perseguindo a família Pissardo, assassinando friamente os seus membros, um por um?

Esse é o episódio 194 do Café com Crime, o caso Pizarro. O crime que destruiu uma família perfeita.

Ah, alô, olá, alô, vai tudo bem? Bem-vindos ao Café com Crime, o podcast onde você pode ser o aficionado por crimes reais que você é, sem julgamentos. Eu sou a Esté Zorubi, ou Dona Café, como preferir, e hoje vamos falar sobre o caso Pissardo, que ocorreu na primavera de 1994.

O crime brutal abalou São José dos Campos e transformou o sobrenome Pissardo em manchete em todo o país, sendo até hoje um dos casos mais enigmáticos da história criminal paulista. Uma família, aparentemente perfeita, é assassinada a sangue frio. Depois, em outra cidade, outra parte da família morre da mesma forma. Tudo sem motivo. Sem sentido. Do mais absoluto nada.

E o que é que sobra? É o restante dos familiares, tentando entender o que foi que destruiu aquilo que eles mais amavam. O caso Pissardo foi uma sugestão dos ouvintes Hugo Santos, Conceição Lupo, Miriam Marcondes Faria, Rafael Silva, Rogério Lucas, Debbie Marcondes e Letícia Giordão Zanini. Obrigada por enviar a sua indicação.

Antes de começar o caso, não deixe de seguir a gente aí na plataforma onde você está ouvindo. Ative também as notificações, assim você não perde nenhum episódio novo. E se puder, deixe a sua avaliação também. Parece pouco, mas para Dona Café aqui, para toda a equipe, isso é tudo, faz realmente a diferença. E se você gosta muito dos nossos episódios aqui no Café com Crime, saiba que você pode escutar ainda mais casos com a gente. Todo mês eu lanço um episódio exclusivo para os apoiadores do podcast.

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Lembrando que esse podcast faz uso de efeitos sonoros, então se puder escute de fones de ouvido e alerta de gatilho. Vamos tratar de temas como saúde mental, morte e violência. Ouça a seu critério. E com isso, bora começar do começo?

Maria Helena Rosseto morava com o marido, Joaquim Rosseto, e os dois filhos em Campinas, no interior de São Paulo. Naquela cidade também viviam seus pais, João e Antônia Pissardo. Era uma proximidade que a colocava em contato constante com eles.

O casal de idosos era bastante independente. No auge dos seus 74 anos, ele ainda andava para baixo e para cima com a sua inseparável motoneta, surpreendendo sempre Maria Helena com suas visitas inesperadas.

Dona Antônia não ficava atrás. Ela era responsável por todos os afazeres domésticos e sempre estava disposta a receber os filhos e os netos com um bom cafezinho. Mas naquele fim de semana, o silêncio de João e Antônia chamou a atenção da filha. Desde a sexta-feira, dia 30, seu João não aparecia com a motoneta como de costume e Dona Antônia não ligou para dar notícias ou convidar para o seu costumeiro cafezinho.

No sábado, dia 1º de outubro, Maria Helena tentou contato algumas vezes por telefone, mas o casal de idosos não atendeu a nenhuma das ligações. Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa postal e estará sujeita à cobrança após o sinal. Ela estranhou, mas não deu muita importância aos próprios pensamentos. Até porque os dois eram bastante ativos e caso um deles tivesse passado mal ou tivesse, sei lá, precisando de ajuda, o outro certamente a avisaria para pedir socorro.

Na manhã de domingo, dia 2 de outubro, Maria Helena percebeu que não dava mais para esperar. Ela resolveu ir até a casa dos pais. Avisou o marido, o Joaquim, e pouco tempo depois, das 9 da manhã, ela já estava na Rua das Hortências em busca de respostas. Ela chamou do portão e não teve retorno. Então, abriu o portão, acessou a varanda e bateu insistentemente na porta.

Mas ninguém atendeu. A falta de respostas deu um nó na cabeça dela. João e Antônia raramente saíam de casa. E quando saíam, a avisavam. Não por obrigação, é claro, mas pela consideração de não preocupá-la. Como Maria Helena estava sem as chaves da casa dos pais e não queria incomodar os vizinhos, ela voltou para sua própria casa e continuou insistindo com as ligações telefônicas.

As horas passaram sem que ela tivesse uma resposta, e ela decidiu ir mais uma vez à casa dos pais, dessa vez munida com as chaves da casa. Quando abriu a porta...

O cheiro forte e a presença de moscas varejeiras lhe deram um choque de realidade. Na hora, pensou em seu irmão Gumercindo e imaginou que a sua mãe tivesse ido para a casa dele sem avisar e que João pudesse ter sofrido um infarto e morrido sozinho ali dentro de casa. E se esse pensamento já era horrível, o que ela encontrou foi muito pior.

Dessa vez, ela veio acompanhada do marido. Maria Helena não quis entrar na casa sozinha. Coube a Joaquim a missão de verificar o que havia acontecido. Ao chegar à casa, ele encontrou João sentado em sua poltrona, encharcado com o próprio sangue e já exalando um forte odor. Como Antônia não estava ali, a esperança de que ela realmente estivesse na casa de Gumercindo invadiu o coração do genro. Mas ao entrar na cozinha, essa esperança acabou.

Antônia estava caída no chão, também bastante ensanguentada. Sobre o fogão, havia uma frigideira com um ovo que provavelmente estava sendo frito. Quando Joaquim confirmou o que havia acontecido, Maria Helena deu um grito visceral, tão forte que os vizinhos logo apareceram. Foram os vizinhos que, diante da impossibilidade da filha enlutada, chamaram a polícia para notificar os assassinatos.

Os policiais militares foram recebidos pela família. Eles isolaram a área, recolheram as primeiras informações e acionaram a polícia científica para a realização da perícia antes do recolhimento dos corpos. Era demais para Maria Helena lidar sozinha com tudo aquilo.

Por isso, ela solicitou à delegacia de Campinas que entrasse em contato com o 7º Distrito Policial de São José dos Campos, para que o delegado de plantão localizasse e informasse a família de seu irmão, Gumercindo Pissardo, sobre o que havia acontecido.

Maria Helena e Gumercindo sempre foram irmãos muito próximos. Coisa de melhores amigos da infância, sabe? Mas Gumercindo havia se casado com uma mulher chamada Adelaide. Eles viviam agora em São José dos Campos, ele cuidava da família de três filhos e trabalhava bastante.

Então os irmãos, apesar de ainda próximos e ter todo o amor do mundo, eles já não tinham aquela constante ligação de antigamente. Claro que num momento como esses, a única pessoa do mundo que poderia entender a dor de Maria Helena e a ajudar a lidar com tudo que vem depois da morte dos pais, seria ele, o irmão Gumercindo.

O pedido dela foi atendido pela delegacia de Campinas e um funcionário foi enviado ao bairro Bosque dos Eucaliptos, na zona sul de São José dos Campos, onde Gumercindo vivia. Lá foi o funcionário para dar as más notícias. Ele tocou a campainha, bateu palmas, chamou Gumercindo, fez barulho no portão, mas não foi atendido.

Sem alternativas, Maria Helena e a sua família agradeceram aos policiais pela tentativa e assumiram a responsabilidade de comunicar os parentes. Ao longo do domingo, entre o dia e a noite, enquanto cuidavam das burocracias para o enterro dos idosos, Maria Helena, Joaquim e os filhos tentaram entrar em contato com Gumercindo e Adelaide.

mas sem sucesso. O telefone tocava sem que ninguém atendesse. Um vizinho, localizado por Maria Helena, também bateu a porta da casa da família Pissardo, mas não obteve resposta. Gumercindo costumava acampar, pescar em alto mar com os amigos e tudo mais, então o seu sumiço não era exatamente estranho. Mas havia um detalhe. Era 2 de outubro, dia de eleições presidenciais, e Joaquim sabia bem que o cunhado não deixaria de votar.

Joaquim, que apesar da dor, se mantinha lúcido, começou a temer pelo pior. Como não havia tempo a perder, porque os corpos de João e Antônia estavam em avançado estado de decomposição, Maria Helena decidiu dar continuidade aos trâmites sem a presença do irmão. Ela sabia que Gumercinho entenderia a urgência e a perdoaria.

A liberação dos corpos aconteceu na manhã de segunda-feira e a família se reuniu no cemitério para as despedidas. Por volta das três e meia da tarde, enquanto o padre encomendava os corpos de João e Antônia, Maria Helena recebeu uma ligação telefônica de um homem chamado José Manuel Carvalho. Ele era sogro de Gustavo Pissardo, o seu sobrinho, filho de seu irmão Gumercindo.

Esse homem informou que Gustavo havia encontrado parte da própria família morta ao voltar de uma viagem que fez com a namorada para a praia no litoral de São Paulo. Gustavo estava tão abalado que ele nem conseguiu falar com a tia, deixando ao sogro essa responsabilidade. Imagina só, gente. Você está ali, enterrando seus pais, e recebe a notícia de que seu irmão e a família dele também estão mortos.

Não tem como. Maria Helena entrou em colapso emocional. A cena foi tão forte que até mesmo o padre se sentiu mal. As memórias com o irmão invadiram a mente de Maria Helena, e por alguns instantes ela voltou à infância difícil que viveram juntos, enquanto a mãe, Antônia, colhia café, e o pai, João, trabalhava como pedreiro. Ela lembrou do primeiro emprego do irmão, da conquista de Gumercindo ao ingressar como mecânico na General Motors Brasil.

e de como todos comemoraram aquele momento, uma grande conquista. Agora que Maria Helena e Gumercindo estavam trabalhando, os pais João e Antônia também conseguiram melhorar de vida com o auxílio deles. E com muito esforço, a família, enfim, começou a prosperar.

As lembranças seguiram surgindo. Veio à mente de Maria Helena o dia em que o irmão conheceu Adelaide, e depois o casamento dele. Isso, apesar de ser um momento feliz, o tirou do seio familiar e separou Gumercindo e Maria Helena pela primeira vez. Talvez aquele havia sido o primeiro luto que Maria Helena enfrentou, a separação de Gumercindo, seu melhor amigo e companheiro de vida, ali da sua casa, para viver a vida com a sua mulher e formar a sua própria família.

Maria Helena não conseguia aceitar que toda sua família de origem havia deixado de existir. Mesmo com Joaquim e os filhos ao seu lado, sentia-se completamente sozinha. Ela era mãe e esposa, mas naquele momento havia deixado de existir como filha e irmã.

Todos os dias pela manhã, Adelaide Medina Sanches Pissardo, de 44 anos, deixava sua bela casa nas esquinas da Avenida Cidade Jardim com a rua Lázara Augusta Lisboa. Isso ficava no bairro Bosque dos Eucaliptos, na zona sul de São José dos Campos, interior de São Paulo.

Ela saía de casa para ir à padaria, buscar pão fresquinho para a família. Na volta, por vezes, dava uma passadinha na farmácia, em uma loja de artesanatos que ficava por ali e também costumava dar uma escapadinha na bomboniere, do outro lado da rua, para ir lá.

comprar um docinho, né? Afinal, ninguém é de ferro. Ali no bairro, Adelaide era conhecida pelos comerciantes e vizinhos pela sua espontaneidade e alegria contagiante. Ela estava sempre sorrindo, brincando, jogando conversa fora, e quando não tinha tempo de parar, ela pelo menos acenava feliz do outro lado da rua, antes de fechar o portão da casa, onde todos acreditavam, vivia uma família feliz e sem qualquer problema aparente. Uma família perfeita.

Mas se por um lado a dona de casa tinha sua simpatia como marca registrada, o marido, Gumercindo Pissardo, de 47 anos, era poucas ideias, podemos dizer assim. Ele, que trabalhava como mecânico de manutenção na General Motors do Brasil, pouco ou nada falava, apesar de também ser conhecido no bairro.

Se precisava ir vez ou outra a alguma loja, Gumercindo entrava, cumprimentava todos e saía calado. Mesmo assim, ninguém nutria antipatia por ele. Todos entendiam que aquele era o seu jeito, mais calado, mais reservado, e o consideravam um bom homem.

e um ótimo vizinho. Gumercindo e Adelaide tinham três filhos, o estudante e estagiário de mecânica na mesma empresa onde o pai trabalhava, Gustavo Pissardo, de 22 anos, o jogador de basquete Adriano Pissardo, de 19 anos, e a caçula da família, a estudante Maria Paula Pissardo, de 18 anos.

Em 1994, a vida de Adelaide Gumercindo já estava bem encaminhada. Com os filhos praticamente criados, a casa ampla e confortável já paga, uma caminhonete D20 na garagem e a dádiva de poder proporcionar aos pais de Gumercindo, João e Antônia Pissardo, a tranquilidade de não pagar aluguel em uma casinha em Campinas

Eles estavam bem, não queriam guerra com ninguém. Já a vida de Maria Paula era como a de qualquer estudante de 18 anos. Ela era uma menina muito apegada aos pais, não era de sair tanto de casa, estava concluindo o último ano do colegial, como o ensino médio era chamado na época, e se preparava para o vestibular, pois queria ser professora.

Os filhos mais velhos, no entanto, eram muito próximos e costumavam passar bastante tempo juntos. Gustavo e Adriano dividiam também a paixão pelo basquete, esporte que praticavam lado a lado em um time da cidade. Mas foi Adriano quem chamou a atenção dos olheiros.

E por conta de seu bom desempenho em quadra, foi convidado a jogar em um time de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. A proposta foi levada à família e Adelaide e Gumercindo apoiaram a decisão do filho de tentar ascender como jogador profissional de basquete. O jovem partiu para a região serrana do Rio de Janeiro para viver esse sonho. Mesmo sofrendo com a repentina separação do seu companheiro de vida, o Gustavo apoiou o sonho do irmão.

Apesar de também amar os esportes, ele tinha como objetivo cursar direito na USP e seguir carreira como advogado.

Assim como o pai, Gustavo havia se formado como mecânico de manutenção pela Escola Técnica Professor Everardo Passos e conseguiu um trabalho na mesma empresa de Gumercindo, primeiro como estagiário, mas depois como funcionário efetivo do setor de produção e manutenção de alumínios da AGM. Ao mesmo tempo que ele era dedicado, o jovem era também educado, atencioso e querido, como a mãe Adelaide. Ele cativou a simpatia do chefe.

chegando a orientar alguns cursos de relações industriais para funcionários da GM. Conhecendo os sonhos do filho de imigrar para a área do direito, o Gumercindo, que era um homem rígido quando o assunto era educação, propôs a Gustavo o seguinte acordo. Gumercindo seria o responsável pelo sustento do filho desde que ele se dedicasse aos estudos e ao trabalho e que não houvesse distrações. E quando ele falava em distrações, Gumercindo se referia a namoros. Música

O Gustavo até podia ter uma namorada, mas o relacionamento deveria se restringir aos finais de semana, com pouco ou nenhum contato de segunda a sexta-feira, já que a prioridade nesse período seria, depois do trabalho, ir para as aulas do cursinho para que ele pudesse passar no vestibular. Afinal, para o Gomer Sindo, sustentar um filho adulto que queria viver a vida doidado namorando por aí não estava nos seus planos. Se Gustavo queria ajuda...

era justo que ele lutasse por esse apoio neste acordo. Ok, o acordo foi feito, Gustavo aceitou. Mas como os finais de semana eram livres, nada impedia a Gustavo de curtir aqueles dois dias e relaxar da semana puxada. E foi numa dessas que o rapaz conheceu Maria Cristina Salles, por quem acabou se apaixonando e se envolvendo.

Gumercino e Adelaide não se opuseram ao namoro, desde que o acordo não fosse quebrado. E assim, Gustavo e Maria Cristina iniciaram um namoro que não demorou a ficar sério. Depois de cinco meses de relacionamento, com os laços bastante estreitos e as famílias já bastante próximas, Gustavo decidiu convidar a namorada para uma viagem de última hora.

Na manhã do dia 30 de setembro de 1994, o jovem ligou para Maria Cristina e perguntou se ela topava passar um fim de semana em Caraguatatuba, cidade do litoral norte de São Paulo. Se faltar no trabalho, no cursinho à noite.

e levar a namorada para uma viagem em plena sexta-feira de manhã fosse quebrar o acordo com Gumercindo e lhe causar problemas, o Gustavo simplesmente não se importou e ignorou esse fato. Uma atitude estranha vinda de um rapaz que sempre foi muito respeitoso com o pai.

mas também aceitável para um jovem que estava iniciando um namoro ali, na loucura da paixão, queria fugir da sua rotina exaustiva que ele levava durante a semana, até dá para entender. Certamente ele daria um jeito de amolecer o coração de Gumercindo na volta da viagem.

A verdade é que Gustavo estava decidido em passar um final de semana na praia com a namorada e ninguém seria capaz de fazê-lo mudar de ideia. Maria Cristina estranhou essa disponibilidade toda do namorado, mas o programa não parecia má ideia. Tanto que o pai e o irmão da moça, que também se davam muito bem com Gustavo, decidiram se juntar ao casal no fim da noite. E o Gustavo não se apôs. Pelo contrário, achou ótimo ter a companhia do sogro e do cunhado naqueles dias tirados exclusivamente para o descanso.

Com tudo certo, Gustavo pegou a caminhonete do pai, passou na casa da namorada por volta da uma da tarde e às três o casal já estava respirando a brisa do mar em uma sexta-feira de primavera. E o fim de semana foi ótimo. Longe das obrigações que tinha que cumprir, Gustavo pôde fazer alguns passeios, dormir juntinho com Maria Cristina, pegar uma praia com a amada.

se aproximar ainda mais do sogro e do cunhado, e o mais importante, né? Em muito tempo, ele não estava se preocupando com nenhuma de suas cansativas obrigações, com trabalho, estudos, cursinho e tudo mais. Mas como tudo que é bom dura pouco, o fim de semana dos pombinhos também chegou ao fim. E na segunda-feira, dia 3 de outubro, eles acordaram cedo, curtiram uma manhã na praia e depois levantaram o acampamento para retornar para São José dos Campos.

O casal chegou à cidade por volta da uma da tarde. Gustavo deixou Maria Cristina e voltou para casa para sentir o clima da sua pisada fora da linha. O Gumercindo certamente estava no trabalho, mas Adelaide poderia passar o relatório do que o esperava aquela noite.

O Gustavo estacionou a caminhonete D20 na garagem, tirou as malas do carro e percebeu que a casa estava toda fechada, com exceção da porta da cozinha. Aquilo não era comum. Adelaide abria todas as janelas logo pela manhã. Ela gostava do ar circulando pelos cômodos para que tudo ficasse bem arejado. Assim que colocou os pés na casa, sentiu um cheiro insuportável. Chamou pela mãe, mas não houve resposta.

Gustavo entrou pela cozinha e seguiu em direção aos quartos, e à medida que se aproximava, o odor ficava ainda pior. Ele pensou em muitas possibilidades para o que estava acontecendo, mas nenhuma delas chegava perto do que encontraria. Assim que abriu a porta do quarto dos pais, quase caiu para trás ao se deparar com os corpos da irmã e da mãe sobre a cama, e o corpo do pai caído no chão.

os três alvejados por tiros e já em avançado estado de decomposição. Em um misto de emoção e desespero, Gustavo deixou a casa correndo e foi buscar consolo na namorada, Maria Cristina. O seu sogro, José Manuel Carvalho, também estava na residência e recebeu o rapaz, que chorava muito e tinha dificuldades de explicar o que estava acontecendo. O sogro e a namorada o acalmaram e ficaram estarecidos com o que estavam ouvindo do rapaz.

Foi José Manuel quem acionou a polícia para comunicar o falecimento dos pais e da irmã de seu genro. E foi ele também quem entrou em contato com o irmão de Gustavo, Adriano, e com a tia Maria Helena Rosseto, a irmã de Gumercindo, para avisá-los da tragédia que havia acabado de cair sobre a família Pissardo.

O que José Manuel não esperava era que, ao informar Maria Helena sobre a morte de seu irmão, descobriria que, no dia anterior, ela mesma havia encontrado os próprios pais, João e Antônia, mortos na casa onde viviam em Campinas, um município localizado a 150 quilômetros de São José dos Campos. Apesar da distância entre as cidades, tudo era uma coincidência.

Horrível. Porque apesar do casal, com uma idade bastante avançada, eles não tinham tido uma morte natural. Mas foram vítimas de um assassino frio, que disparou contra a cabeça dos idosos e os deixou jogados na sala antes de partir. O mesmo que aconteceu com Gumercindo, Adelaide e Maria Paula. Enquanto Gustavo chorava a perda dos pais e da irmã, os avós João e Antônia estavam sendo velados.

Infelizmente, não havia como José Manuel poupar o genro das más notícias. E Gustavo, que não foi localizado pela tia no dia anterior, porque estava na praia, né? Ele foi informado de que os avós que ele tanto amava também haviam sido vítimas de um atirador impiedoso. Aquilo tudo foi demais para o jovem de 22 anos lidar, e ele entrou em estado de choque.

A história era tão bizarra que até o sogro de Gustavo ficou sem palavras. Não havia coincidência no mundo que fosse capaz de explicar o fato de que membros de um mesmo núcleo familiar fossem mortos dentro de casa por assassinos distintos em cidades distantes. Aquilo não parecia possível, e a única hipótese que lhe vinha à cabeça era de que todos os membros da família Pissardo tivessem sido vítimas do mesmo algoz. Mas quem poderia ter feito isso?

Até onde se sabia, tanto a família de Gustavo quanto seus avós não tinham inimizades. Eram queridos por todos. E a verdade é que nada desses crimes fazia o menor sentido.

É, é tenso. Por isso vamos dar uma pausa, tomar um gole de café e falar de coisas boas. Já parou pra pensar o quanto de energia você gasta em coisa pequena? Uns detalhes da vida adulta que quanto menos você percebe, te sugou por inteiro? É trânsito, fila, boleto, calor e roupa pra passar.

Um detalhe que talvez passe despercebido, mas para um bom detetive, são as pequenas coisas que se tornam evidências centrais de um grande caso. E para nós aqui, o caso é, você sai de casa cedo, passa o dia resolvendo o problema, correndo de um compromisso para o outro e ainda tem que lidar com roupa, que além de não ajudar em nada, começa a dificultar sua rotina? Tem que passar, fica com cheirinho de CC embaixo do braço, é desconfortável e não cai muito bem.

Não dá, né? É justamente aí que a Insider entra de forma inteligente para solucionar esse grande caso que é a vida adulta. A proposta deles não é inventar moda, é facilitar a vida com roupas inteligentes. A minha favorita do coração é a wingsuit. É uma peça feita para acompanhar a rotina sem atrapalhar. Ela é leve, confortável, respirável e...

desamassa no corpo. Prática para quem passa o dia inteiro em movimento, como eu. E eu vou te contar que depois que você se acostuma com uma roupa que realmente funciona no dia a dia, fica difícil voltar atrás. Principalmente quando você percebe que não precisa escolher entre conforto, aparência e praticidade.

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Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais. Em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.

Assim que se acalmou, Gustavo teve que ir à delegacia para prestar depoimento e contou como encontrou os pais ao retornar de sua breve viagem. Maria Cristina e José Manuel confirmaram que eles passaram o fim de semana ao lado de Gustavo. E após ser ouvido, o rapaz foi dispensado para cuidar da liberação dos corpos dos pais e irmã.

Seu irmão Adriano e a tia Maria Helena chegaram a São José dos Campos a tempo de velar os corpos de Gumercindo, Adelaide e Maria Paula, e se juntaram a Gustavo Nador. O jovem também recebeu o apoio da namorada, dos sogros e dos amigos, que foram até o cemitério Horto São Dimas, na zona leste de São José dos Campos, para prestar solidariedade. Sempre de cabeça baixa e demonstrando bastante sofrimento, Gustavo chorou diversas vezes nos ombros de Maria Cristina.

Alguns dias depois do velório, as investigações começaram oficialmente. Isso foi no dia 5 de outubro de 1994. As polícias de Campinas e de São José dos Campos decidiram conduzir seus inquéritos de maneira independente, mas trocando informações importantes entre si para que os crimes pudessem ser esclarecidos o quanto antes.

Em São José dos Campos, sob a liderança de Luiz Valias, o chefe da Delegacia de Investigações Gerais, a primeira possibilidade levantada, com base nas condições em que a casa foi encontrada, era a de latrocínio. Ao retornar de Caraguatatuba, Gustavo deu de cara com os cômodos da casa totalmente revirados e alguns itens, como o videocassete, haviam sido levados.

Em contrapartida, não havia sinais de arrombamento ou de luta. Pelo estado dos corpos, os legistas calculavam que as mortes haviam acontecido ainda na sexta-feira, mesmo que o horário exato não pudesse ser cravado. Os vizinhos também foram ouvidos e declararam não notar movimentações suspeitas na casa.

Tampouco ouviram os barulhos dos tiros. Os comerciantes, que de certa forma conviviam com a família diariamente, não poderiam imaginar o inferno vivido por Gumercindo, Adelaide e Maria Paula, tamanho era o silêncio na residência. Assim, a investigação ficou momentaneamente travada naquela cidade.

Já em Campinas, sob a responsabilidade do delegado Talmir Russo da Delegacia de Investigações Gerais, as investigações pareciam render mais frutos, e o que foi levantado acendeu um alerta nos agentes. Enquanto a família de Maria Helena aguardava a chegada da polícia na cena do crime, lá em Campinas,

Um dos filhos dela disse ao pai que um morador ali da Rua das Hortências, no bairro Chácara Primavera, onde os avós moravam, havia visto a caminhonete D20 de Gumercindo estacionada em frente à casa dos idosos na manhã do dia 30 de setembro, sexta-feira. E que o motorista era um rapaz jovem, alto, de cabelos claros e aparentemente íntimo da família.

Ao escutar essa informação de seu filho, enquanto esperavam ainda a polícia chegar, o coração de Joaquim gelou, tomado por um mau pressentimento. Adriano estava no Rio de Janeiro jogando basquete. Então, o rapaz jovem só poderia ser Gustavo. Será que o seu sobrinho teria ido visitar os avós sem avisar ninguém? Era possível, mas o que o inquietava era o fato de Gumercindo não permitir que os filhos dirigissem o seu carro.

Ainda assim, Joaquim tratou de afastar aqueles pensamentos. Afinal, o sobrinho não seria capaz de uma atrocidade daquelas. Seria?

Ao mesmo tempo que essa informação chegou para dar um norte à investigação, impactou os policiais, que voltaram a sua atenção para Gustavo Pissardo. O delegado Talmir Russo passou a considerar a possibilidade de que Gustavo fosse o autor das mortes dos pais e dos avós, restando a ele traçar apenas a dinâmica do crime.

Já Luiz Valias, em São José dos Campos, em um primeiro momento, não parecia se convencer das suspeitas do seu colega. Até porque o álibi do Gustavo foi confirmado pela namorada, pelo pai dela e também pelo irmão. Como que Gustavo estaria em dois lugares ao mesmo tempo?

era impossível. Mas ele concordava que havia muitas semelhanças entre os crimes, principalmente quando recebeu, da perícia feita em Campinas, o laudo das mortes de João e Antônia. Ao comparar com as mortes ocorridas ali em São José dos Campos,

Ficava claro a exatidão no modo das execuções. As cinco pessoas daquela família haviam sido mortas com tiros na cabeça, e esse laudo ainda levantava a possibilidade de que os disparos tivessem sido feitos pela mesma arma, um revólver calibre .32.

Não foi preciso muito tempo para que a verdade começasse a aparecer. Ainda no dia 5 de outubro de 1994, Gustavo Pissardo foi novamente convocado para prestar esclarecimentos na delegacia, sob a promessa de que seria apenas uma conversa informal, um bate-papo para colocar os pingos nos is.

A conversa começou de maneira amistosa. Adriano também estava presente e acompanhou o depoimento do irmão. A princípio, Gustavo sustentou a versão de que havia viajado com a namorada, deixando os pais em segurança, mas ele não conseguiu mantê-la por muito tempo. Experientes?

Os policiais repetiam as perguntas de diferentes formas, e o estudante começou a entrar em contradição. Quando foi informado de que duas testemunhas haviam visto a caminhonete D20 de seu pai em frente à casa dos avós na manhã do dia 30 de setembro, o rapaz não resistiu e confessou o crime.

Em um primeiro momento, Gustavo justificou os assassinatos, dizendo que a família o irritava e que por isso decidiu matar todos. Pouco depois, voltou atrás e passou a afirmar que não sabia o que o havia motivado. Mas mais do que a confissão, o que chamou a atenção de todos os presentes foi a reação de Adriano. Em vez de se revoltar, ele confortou o irmão, abraçando-o longamente na sala de interrogatório e cochichando em seu ouvido.

Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo em abril de 1997, Adriano explicou por que não abandonou Gustavo diante das atrocidades cometidas por ele contra sua família. Eu estou com ele porque eu o conheço. Nós somos irmãos. Eu sempre estive com ele. Sei quem ele é.

Nervoso e chorando muito, Gustavo teve o direito de ser acompanhado por Hélio Souza Lima, psiquiatra renomado de São José dos Campos, que classificou como preocupante o estado emocional do rapaz. Ele está prestes a perder o controle emocional de vez.

Com a confissão, o juiz Joaquim Guilherme, de São José dos Campos, decretou a prisão provisória de Gustavo. Com a detenção garantida, a polícia passou a buscar também autorização judicial para a realização de um exame de sanidade mental a fim de determinar se o jovem seria considerado imputável ou semi-imputável, ou seja, se ele seria plenamente responsável pelo crime ou parcialmente responsável por alguma perturbação da saúde mental no momento do ato.

Depois de assumir realmente o crime, Gustavo também contou o que aconteceu entre a noite de quinta-feira, 29 de setembro, e amanhã do dia 30.

Segundo ele, já havia algum tempo que Gustavo sofria com fortes dores de cabeça, e naquela quinta-feira não foi diferente. Por volta das dez e meia da noite, ele procurou o seu pai, Gumercindo, para avisar que o incômodo havia voltado, e pediu para o pai o levar à emergência de um hospital particular. Gumercindo o atendeu e o levou ao pronto-socorro e aguardou enquanto o filho era medicado e liberado.

Gustavo foi tratado tomando liçador, um medicamento analgésico e antitérmico composto principalmente por dipirona. É indicado para o alívio de dores intensas e febre. De volta em casa e se sentindo um pouco melhor, Gustavo se despediu da família e se recolheu dizendo que precisava dormir. Por volta das duas horas da manhã do dia 30 de setembro, o estudante acordou e...

simplesmente pegou o revólver calibre 32 que o pai guardava em casa e uma placa de isopor. No quarto dos pais, Adelaide e Maria Paula assistiam TV e Gumercindo estava na sala. Gustavo foi ao quarto primeiro. Sem dizer uma palavra e com uma placa de isopor nas mãos para abafar o som do revólver, ele apontou a arma e disparou três vezes.

Duas contra a cabeça de Maria Paula e uma contra a da mãe. O pai ouviu os disparos, correu até o quarto e se deparou com a mulher e a filha mortas sobre a cama. Ele tentou fugir de Gustavo, mas foi atingido por um tiro fatal na luta. Gustavo também contou que assim que tomou consciência do que havia feito, decidiu se matar e que chegou a colocar o cano do revólver na boca, mas não teve coragem de puxar o gatilho.

coragem mesmo, ele só teve para acabar com a vida das pessoas que o amavam.

Depois de assassinar os pais e a irmã, ele revirou a própria casa e levou um televisor, um aparelho de som e um videocassete para simular um assalto. Porém, ele deixou R$ 30,00 em cima da mesa da sala e também teve o cuidado de cobrir os corpos com cobertores antes de sair. Me diz que bandido pensaria em cobrir suas vítimas depois de matá-las, né? Isso é um sinal, muitas vezes que mostra aos peritos daquela cena de crime, aos investigadores.

que a pessoa, o assassino, era próximo das vítimas, quis cobrir, não quis olhar aquilo, uma cena difícil de encarar. Esse foi um detalhe que chamou a atenção e contribuiu para colocar o Gustavo no radar da investigação.

Bem, com a cena montada dessa forma, manipulada dessa forma, o Gustavo pegou outras duas armas, recarregou o revólver calibre .32 usado nas execuções, tomou as chaves da caminhonete do pai e seguiu para Campinas, em direção à casa dos avós. Pelo caminho, nos pontilhões da rodovia Dom Pedro I, ele descartou os objetos que havia roubado da própria casa.

Na direção da caminhonete D20, ele dirigiu cerca de 150 quilômetros até chegar à Rua das Hortências, em Campinas. Gustavo chegou no início da manhã, bem, bem, bem cedinho. Os avós ainda estavam deitados quando ele chamou no portão.

João e Antônia levantaram imediatamente e o convidaram para entrar. O neto chorava copiosamente, enquanto era acalmado por João e Antônia, que, entre lágrimas e soluços, contou o que havia feito. Gustavo confessou o crime aos avós.

Ele foi consolado pelos idosos, que nem acreditavam no que ele estava contando. Certamente pensaram que Gustavo estava delirando, porque o neto era realmente um rapaz muito certinho, seguidor de regras, respeitoso. Dona Antônia perguntou ao neto se ele queria comer alguma coisa, talvez encher a barriga ou ajudasse a se acalmar e contar o que realmente havia passado. Gustavo aceitou, e a avó foi até a cozinha fritar um ovo e passar um café.

Mas em questão de minutos, ele decidiu que o final daquele encontro não seria feliz. Gustavo se levantou, sacou o revólver calibre .32 que estava na cintura, mirou na cabeça do avô que estava sentado na poltrona da sala e atirou. Depois, ele foi até a cozinha, mirou o revólver na cabeça da dona Antônia, que estava em frente ao fogão, e puxou o gatilho. A avó caiu, sem terminar de fritar o ovo que estava fazendo para o neto.

Gustavo deixou os corpos para trás, trancou as portas e o portão e saiu da residência. Mais tarde, revelou que pretendia ir até a casa da tia Maria Helena Rosseto para matá-la, assim como também pretendia assassinar o tio Joaquim e os primos. Mas ele acabou desistindo, por qualquer motivo que seja, e pegou a estrada de volta para São José dos Campos.

Mais tarde, o Joaquim chegou a declarar que, caso Gustavo decidisse seguir com esse plano inicial, ele seria o único a morrer da sua família, já que Maria Helena havia acordado bastante cedo para fazer feira e os filhos estavam na Unicamp, onde eles estudavam. Ou seja, ele seria a única vítima de Gustavo.

Gelou sua espinha aí? Porque aqui sim. E mesmo após Gustavo ter confessado o desejo de matar os tios e os primos, Maria Helena concedeu entrevista elogiando o sobrinho e dizendo que agora era ele quem precisava de ajuda e que ela não o temia. Ela afirmou que tinha pena dele e ainda falou que perdoava o sobrinho porque, na verdade, quem morreu foi ele, ali quando cometeu aqueles crimes.

No trajeto de volta, Gustavo jogou todas as armas do pai nas margens da estrada, mas a bolsa com os projéteis ficou no porta-luvas. Mais uma evidência para o inquérito policial. Quando ele chegou em casa, Gustavo encarou a dura realidade, mas respirou aliviado quando soube que a polícia ainda não havia descoberto os corpos. Foi então que ele ligou para a namorada, propôs o passeio para o final de semana, e como ela aceitou, nasceu ali o álibi perfeito.

Antes de buscar Maria Cristina, o rapaz arrumou as malas, foi ao Center Valley Shopping para comprar bermudas, fez um lanche e foi para a casa da namorada para seguir viagem. Ele ainda teve tempo de sacar dinheiro. Precursor de Susanne von Richthofen, né? Mata os pais, simula um assalto, chora no velório e vai curtir a vida depois.

Frio e calculista. A frieza de Gustavo chamou a atenção de todos os policiais envolvidos na investigação, já que, de acordo com o depoimento de Maria Cristina e de sua família, ele se comportou normalmente durante todo o final de semana que passaram na praia e que ninguém desconfiou de absolutamente nada de errado. Não havia nenhum traço de preocupação no seu semblante, nenhum resquício de remorso no coração do seu namorado. Gustavo estava normal.

Normal depois de ter assassinado cinco membros de sua família a sangue frio e do mais absoluto nada. Gustavo, agora um assassino confesso, chegou a culpar o remédio que havia tomado no hospital como se o medicamento fosse capaz de o fazer perder a cabeça e cometer tal crime. Ele disse que perdeu a noção do que estava fazendo.

Mas essa versão foi derrubada por um médico que explicou que para o liçador, o medicamento que ele tomou naquela noite, causar um distúrbio mental, seria necessário ingerir cerca de 20 vezes a dose administrada a Gustavo no pronto-socorro.

Após confessar os crimes, a defesa, liderada pelo advogado José Carlos de Oliveira, insistiu na necessidade de tratamento médico e Gustavo foi levado para o Instituto Psiquiátrico Chuí, no Jardim Maringá, em São José dos Campos, onde foi sedado e dormiu sob vigilância policial.

Estava definido que a estratégia da defesa demonstraria que Gustavo Pissardo tinha problemas psicológicos, buscando sustentar a tese de inimputabilidade, ou em um cenário menos favorável, de semi-imputabilidade.

Ou seja, que Gustavo Pissardo não tinha controle ou ciência ou capacidade de ser responsabilizado totalmente por aquele crime. Além de reforçar as questões mentais, o advogado também queria se preparar para convencer o futuro júri de que, apesar da família viver bem,

Sustentada exclusivamente pelo trabalho de Gumercindo e não do acúmulo de patrimônio, eles não eram herdeiros nem nada, o jovem Gustavo não tinha como objetivo lucrar financeiramente com a morte dos pais. Enquanto a defesa trabalhava, o Gustavo continuava alegando que não estava lúcido no momento dos crimes e que não sabia por que havia matado a família, versão que seu advogado atribuía a uma suposta alteração mental violenta.

Para o delegado Luiz Valias, porém, essa tese não passava de um papo furado. Acostumado a lidar com criminosos de alta periculosidade, ele via o jovem como um criminoso frio e inteligente, mas de atos muito comuns. O delegado também classificava como precipitada a análise da defesa e também descabida a avaliação inicial do psiquiatra Hélio Souza Lima, que ainda em 8 de outubro afirmou que Gustavo era.

Sem dúvida, uma pessoa doente. O psiquiatra comentou ao jornal O Estado de São Paulo que, após confessar os crimes, Gustavo teria tentado acabar com a própria vida novamente. Voltou nele com muita intensidade a ideia de se matar e ele está muito deprimido.

No entanto, os laudos médicos acabaram frustrando essa análise inicial do delegado Luiz Valias de que tudo não passava de um papo furado. Os exames indicaram a existência de um desvio neurológico, já que uma tomografia computadorizada revelou uma lesão cerebral próxima ao sistema límbico, responsável pelas emoções.

levando os médicos a enquadrar o Gustavo em um quadro de síndrome neuropsiquiátrica. Hélio Souza Lima chegou a afirmar que Gustavo nutria grande submissão e admiração pelo pai, mas que, ao mesmo tempo, a figura paterna enérgica despertava medo e raiva contida no estudante. Segundo Hélio, a lesão cerebral teria funcionado como gatilho para o ataque contra toda a família.

A defesa sustentava também que as fortes dores de cabeça poderiam ser um indício do distúrbio que o Gustavo estava sofrendo. O laudo final classificou Gustavo como um indivíduo de alta periculosidade e que deveria ser mantido sob tratamento médico e psiquiátrico, devendo permanecer confinado para sua segurança e dos outros também.

Mas se a ideia de manter Gustavo no Instituto Psiquiátrico tinha a ver também com a sua segurança, essa tentativa da defesa foi um tiro na água. É que desde a primeira noite de internação, o Instituto passou a viver um clima de tensão com o recebimento de telefonemas anônimos com ameaças de que se Gustavo permanecesse ali, o criminoso seria linchado.

A situação se agravou tanto que as pessoas passaram a esmurrar os portões do Instituto, o que aumentou a preocupação da equipe em relação à segurança de Gustavo. O patrulhamento foi ampliado, mas estava difícil conter as manifestações. Isso sem contar que a preocupação de uma invasão à unidade era uma possibilidade real.

Por isso, a justiça determinou a transferência de Gustavo para a casa de custódia de Taubaté, no dia 12 de outubro de 1994, onde ele permaneceu em tratamento na ala psiquiátrica do presídio. Gustavo Pissardo permaneceu preso por cerca de dois anos e seis meses, até ser levado a julgamento pelo Tribunal do Júri por cinco homicídios qualificados.

O caso, de grande comoção nacional, estava prestes a receber um veredito, e todos queriam saber. A justiça seria feita? Gustavo seria considerado culpado pela morte de sua família?

Chegar a um veredito no caso Pissardo não foi nada fácil, e o processo se arrastou por anos. O primeiro julgamento aconteceu em abril de 1997, dois anos e meio após o crime. A defesa sustentou a tese de inimputabilidade, alegando que Gustavo não tinha plena capacidade de discernimento no momento dos crimes, com base naqueles laudos médicos e exames anexados ao processo.

A acusação, por sua vez, defendeu que os crimes foram premeditados e cometidos com plena lucidez. E a acusação veio com provas. Gustavo, uma semana antes do crime, teria encomendado um silenciador ao seu ex-professor de mecânica da escola técnica, chamado Carlos Alberto Benedito. Essa encomenda aconteceu no dia 22 de setembro de 1994.

O croquis para o desenvolvimento do artefato foi levado pelo próprio Gustavo, que insistiu para o professor que a peça fosse feita no dia seguinte, sob a justificativa de que a utilizaria em uma das máquinas da General Motors e que, caso desse certo, ele receberia uma premiação no trabalho. A explicação convenceu o professor.

que confeccionou o silenciador em poucas horas. Após o crime, no entanto, Carlos Alberto constatou que o objeto se encaixava perfeitamente no eixo do suporte do tambor e na mira do revólver calibre .32 que foi usada no crime. Para garantir maior eficácia desse dispositivo, Gustavo preencheu parte do cano com um pedaço de isopor. A tentativa foi bem sucedida. Nenhum vizinho ouviu os disparos, tanto em São José dos Campos quanto em Campinas.

Além disso, Gustavo havia tido experiência como monitor de tiro durante o serviço militar obrigatório, e as investigações da polícia indicaram que ele sabia atirar muito bem.

Ele também foi instrutor de tiros no tiro de guerra do município. Considerando tudo isso, a pena solicitada pela promotoria era próxima de 100 anos de prisão. O argumento da acusação era forte e foi muito convincente. O júri decidiu pela condenação de Gustavo Pissardo com placar de 7 a 0.

Ao final, o júri reconheceu a responsabilidade penal do réu, entendendo que ele agiu com consciência e premeditação, e fixou a pena inicial em 63 anos e quatro meses de prisão em regime fechado. Porém, a história não acabou por aqui.

Em janeiro de 1998, o Tribunal de Justiça anulou a sentença, acolhendo o recurso da defesa sob o argumento de que o júri não teria considerado adequadamente o laudo médico que indicava semi-imputabilidade. Um novo julgamento foi realizado em julho de 1998.

mas o resultado foi mantido. Por seis votos a um, o júri reafirmou a condenação e a mesma pena, entendendo novamente que Gustavo agiu de forma consciente e planejada. Já em fevereiro de 1999, o Tribunal de Justiça de São Paulo revisou o caso e acatou novo recurso da defesa.

reduzindo a pena de Gustavo para 42 anos, sete meses e seis dias de prisão em regime fechado. Naquele momento, Gustavo permaneceu preso na casa de custódia de Taubaté. Em 2002, já havia sido transferido para penitenciária de Presidente Wenceslau, município a cerca de 700 quilômetros de São José dos Campos.

Com o passar dos anos, Gustavo passou por um processo gradual de progressão de regime. Em fevereiro de 2008, foi autorizado a cumprir pena em regime semiaberto. Mas a decisão foi questionada pelo Ministério Público, que alegava que ele ainda não havia cumprido o tempo necessário exigido pela legislação e que não preenchia os requisitos para conquistar o direito à progressão. Ainda assim, ele foi transferido para o presídio Nestor Canoa, em Mirandópolis.

onde passou a ter direito a saídas temporárias, chegando a ministrar aulas de mecânica em uma escola profissionalizante. Em 2012, já na penitenciária Danilo Ribeiro, em Sorocaba, um novo pedido de progressão de pena foi negado pela Justiça. A decisão foi baseada em laudos psiquiátricos e psicológicos que apontavam indícios de dificuldade no controle de impulsos.

indicando que o condenado ainda não estava apto a retornar ao convívio social. A progressão ao regime aberto só foi concedida a Gustavo 20 anos após o assassinato da família em 2014, quando passou a cumprir a sua pena em Sorocaba.

Já fora do sistema prisional, Gustavo passou a trabalhar na reconstrução de sua vida pessoal. Em 2017, oficializou seu casamento e abriu uma empresa no ramo de serviços de pintura em edificações, atuando como pintor de paredes a partir de sua própria residência. Ele precisaria trabalhar, e muito.

Afinal, na esfera cível, Gustavo foi declarado indigno e legalmente deserdado, perdendo qualquer direito à herança e aos bens acumulados pelos pais e avós que ele mesmo executou. Atualmente, Gustavo leva uma vida discreta e reservada no interior de São Paulo, sem registros de entrevistas ou exposição pública. Se, por um lado, o jovem assassino encontrou o perdão de seu irmão Adriano e da tia Maria Helena,

Por outro, ele não escapou da caneta da justiça. Mais de 30 anos depois, o caso Pissardo continua sendo um dos mais enigmáticos da história criminal paulista. E eu digo isso não porque é um caso sem solução, é um mistério. Não, mas é um crime difícil de entender. É um crime que carece de uma motivação clara.

O que fez um rapaz de 22 anos, aparentemente querido e responsável, acordar às duas da madrugada e assassinar os pais, a irmã, e depois viajar mais de 100 quilômetros para também matar os avós na mesma noite? Esse é o grande mistério. É a motivação. O que aconteceu? E a resposta para isso só Gustavo tem. Mas desde o crime, nega revelar suas motivações.

A não ser quando é culpar os remédios ou um desvio neurológico. Duas razões que foram desconsideradas em seu julgamento. Ele sabia o que fazia. A gente só não sabe por quê. Ouso ainda dizer que o caso surpreende ainda mais com o perdão da família próxima. Se a gente traçar um paralelo com os crimes de Susanne von Richthofen... E aí

Há muitas semelhanças por se tratar de um parricídio e talvez por famílias um pouco mais estritas e rígidas, mas tem uma grande diferença quando a gente está falando aqui da família. Ninguém da família de Suzane ficou ao lado da assassina. O seu irmão nunca mais quis nenhum tipo de contato.

É compreensível, né? Mas no caso Pissardo, Gustavo conquistou o apoio e o perdão dos familiares ainda ali, no calor do momento, durante a sua própria confissão, onde já foi abraçado pelo irmão. E eu não estou julgando a família por o acolher. Abençoados são os corações deles por perdoar e seguir em frente.

Mas é uma elevação espiritual que eu acho que poucas pessoas têm. Eu mesma não sei se tem. Gustavo também recebeu certa graça, digamos assim, da justiça. O término de sua pena, que estava previsto para 2033, foi antecipado para 2025.

Tiraram aí cerca de oito anos da sua pena inicial. O seu processo hoje está classificado como extinto, tendo sido arquivado definitivamente em 22 de outubro de 2025. Ah, e apesar de eu ter feito certas comparações com o caso Pissardo e o caso Richthofen,

Vale lembrar de um outro caso semelhante que ocorreu, na verdade, também em 1994, como o caso Pissardo, alguns meses antes apenas desse caso. Em março daquele ano, no litoral paulista, uma garota chamada Andréia Pereira Gomes Amaral matou os pais em casa com a ajuda do namorado. É um outro caso de parricídio chocante e inacreditável, de jovens matando os pais.

Eu contei essa história no episódio 73 do Café com Crime, é o caso Aristófem de Santos. Fica aí a dica de um episódio para escutar enquanto o próximo cafezinho com crime não chega para vocês. Amanhã, quinta-feira, eu vou postar as fotos relacionadas ao caso Pissardo lá nas redes sociais do Café com Crime. Você encontra a gente no Instagram, no arroba Café com Crime, ou no X, no arroba Café C Crime.

Eu volto daqui a duas semanas com um novo caso criminal brasileiro para vocês. E até lá, desconfiem de convites de viagens muito inesperadas. Porque de desgraça, já basta esse podcast. Tchau, tchau.

Esse episódio foi roteirizado, produzido e apresentado por mim, Stephanie Zorbi. Design de som por Luíde Calistrato. Pesquisa e roteiro por Ana Paula Almeida. As fontes de pesquisa utilizadas neste episódio foram Jornal O Estado de São Paulo, O Fluminense, Revista Manchete, Folha de São Paulo, Portal G1 e Portal Ovale.