Reputações manipuladas
Humberto Martins
Marta Vieira
- O Alienista de Machado de AssisDefinição de medalhão · Conselhos para se tornar um medalhão · Controle de ideias e originalidade · Uso de retórica e atividades que não exigem reflexão · Evitar imaginação, humor e ironia · Importância de andar acompanhado · Medalhão não é melancólico, mas comedido · Diferença entre ironia e chalaça · Mediocridade como alavancagem · Vocabulário limitado e fala como o mediano
- Publicidade e atençãoBenefício da publicidade e autopromoção · Divulgação de acidentes e eventos pessoais · Estar no burburinho e nas fofocas · Contratar jornalistas e enviar resumos · Conformidade social e status quo · Incomodo com o pensamento diferente · Pasteurização de ideias
- Escrita e EdicaoUso da linguagem e escolha de palavras · Ironia fina · Expressão de ideias
Conversa de elevador com Humberto Martins e a psicóloga Marta Vieira. Ô Marta, tudo bem? Oi Humberto. Marta, eu estava lendo um texto do Machado de Assis, sempre ele, né? Teoria do medalhão. É muito bom. É muito bom. Tudo que o Machado escreve, escreveu, né? Tem um toque assim de gênio, né?
Não, pior é que a gente tem que lembrar o que é medalhão, né? Porque houve uma época que medalhão era uma coisa que você ainda tinha na língua portuguesa corrente, né? É verdade, é verdade. Agora você precisa lembrar que é alguém importante, que não tem nenhum talento específico, mas as pessoas acreditam no que ele fala, né? É que tem uma posição, né? Uma posição de reverência.
No conto de Machado, um pai chega para o filho e diz que o filho tem que escolher um ofício. Então está na hora dele escolher um ofício e tal. E que ele aconselha que o filho seja medalhão.
E ele fala, né, eu não consegui ser um medalhão, então agora minhas esperanças é que você seja um medalhão. Porque o medalhão, segundo ele, você tem que trabalhar muito tempo para ser um medalhão, e aí em torno de 40, 50 anos você se torna de fato um medalhão. Um medalhão.
E ele tem dicas, então, para como você se tornar um medalhão. Diz, por exemplo, que o rapaz deve controlar, que seu filho deve controlar as suas ideias. Nada de originalidade. Deve ter muitas ideias. Nada de originalidade, por favor. De preferência, assim, ler compêndios de retórica, jogar bilhar, coisas que não exijam reflexão.
Não ter imaginação, não ter esse resto de humor Não, ironia não deve ser utilizada de jeito nenhum E não deve, por exemplo, andar sozinho Não, andar sozinho não O ideal é que você ande sempre acompanhado Porque quem anda sozinho acaba tendo ideias próprias Então, nada de ideias próprias, por favor E ele fala que o medalhão não é melancólico Ele apenas é comedido Uma parte que eu acho engraçada quando ele fala do humor, né?
Então, que o humor é bom, mas não com ironia. Ironia não, né? A ironia é uma coisa inventada pelos gregos, por algum grego da decadência. Ele fala, use antes a chalaça, né? Que ele fala, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala com uma palmada, faz pular o sangue nas veias e arrebenta de risos suspensórios.
O que eu acho mais interessante, a gente pode falar das ideias dele, da crítica que ele faz, é a mediocridade, na verdade, né? Como às vezes a mediocridade alavanca uma pessoa, né? É, porque ele diz, por exemplo, você não deve ter um vocabulário rico. Vocabulário rico, não, por favor, você tem que falar como o mediano. Então, nada de vocabulário.
Mas ele fala dos enfeites, os brocados, os direitos, as expressões, ele fala desse enfeite, né? Mas o que eu acho mais, e aí nada substituiu a leitura do Machado de Assis, é o uso que ele faz na linguagem, as palavras que ele escolhe, a ironia fina dele, a maneira que ele tem de expressar essas ideias, né? Porque as ideias em si podem ser faladas por qualquer pessoa, mas o jeito que ele expressa, a escolha das palavras é que é uma delícia, né, Humberto?
Não, tem uma hora fantástica, né? Ele fala como se fosse hoje, eu acho interessante isso. Ele diz o benefício da publicidade, né? Ah, sim. Que é muito legal, que ele aconselha o filho, por exemplo, se ele sofrer um acidente, mesmo que pequeno, ele deve contar os quatro ventos, deve contar para todo mundo.
Para estar na conversa. Isso, para estar no burburinho. Para estar naquela coisa, nos fatos corriqueiros, nas fofocas. Fazer almoços, jantares. Isso, mas tem que contratar. Comentado. E sempre chamar um jornalista. E se o jornalista não for? Fazer um resumo.
e mandar esse resumo para a publicação. Quer dizer, é uma coisa que, na época, você imagina, não tinha rede social nem nada disso, é muito atual. E sempre será atual, porque é a coisa da conformidade social, do status quo, então todo mundo que...
é diferente, o que pensa diferente incomoda um pouco, né? Então até as coisas diferentes, até os pensamentos diferentes, eles acabam sendo pasteurizados numa coisa que está assimilada a uma ideia, né? Então a tendência de simplificação, né? É verdade. Ô Marta, chegou nosso andar. Vamos lá? Vamos lá. Você ouviu Conversa de Elevador com Humberto Martins e a psicóloga Marta Vieira.