Episódios de Conversa de Elevador

Sabe quem está falando?

04 de maio de 2026
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Participantes neste episódio2
H

Humberto Martins

Participante
M

Marta Vieira

ConvidadoPsicóloga
Assuntos6
  • Carteirada e Hierarquia SocialO conceito de carteirada · Insegurança e estabelecimento de hierarquias · Humildade e simplicidade como características da grandeza · Uso de citações para ganhar discussões · A lei e a pessoalidade no julgamento
  • Dois Pesos, Duas Medidas na SociedadeA lei e a aplicação desigual · A percepção de injustiça social · A frase 'você sabe com quem está falando' como defesa · Revelações sobre a sociedade
  • Credencialismo e Títulos na SociedadeAssociação de nome a cargo · A necessidade de credenciais na cultura atual · Figura de notório saber versus títulos formais · O título como prova de capacidade
  • Incorporação de Prestígio AlheioFilhos, motoristas e funcionários usando o nome de outros · Incorporação de poder e prestígio · Sociedade igualitária e justa
  • Situações Ridículas e Humor em AeroportosDesrespeito a regras de companhia e aeroporto · A funcionária usando humor para lidar com a situação · Crise de identidade e falta de senso de realidade
  • Identidade e AutoestimaA identidade como fabricação e costura · A questão de quem somos e quem o outro é
Transcrição19 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Conversa de elevador, com Humberto Martins e a psicóloga Marta Vieira. Ô Marta, tudo bem? Tudo bom, Humberto. Marta, você sabe com quem você está falando? Com Humberto? Isso, é verdade. Quem é Humberto? Quem é esse? Só falta você me perguntar, você esqueceu quem é você? Não, esqueci. Só o Jandro já não...

primeiro comentário, assim, a gente é uma espécie de fabricação, né, a gente vai se costurando pra ter um senso de identidade, mas quem é Marta? Quem é Humberto? A gente não deixa de ser uma fabricação, né? Mas eu acho danado isso, o cara, eu nunca enfrentei uma situação semelhante, mas o duro é quando você ouve o cara chegar e dizer assim, você sabe com quem está

Ah, a famosa carteirada? É, carteirada. Essa é triste. Tem uma que, para mim, é clássica, que é aquela coisa, você está conversando com uma pessoa numa bolha e diz assim, na verdade, eu sou doutor fulano. A Corrige você? É, a Corrige você e diz, eu sou doutor fulano. É, eu acho que isso mostra uma insegurança, né, de querer estabelecer hierarquias, né.

Pois é, e inibe a pessoa. Você imagina, você chega para uma pessoa e diz assim, não, você, peraí, me chama de doutora Marta. Acabou, acabou a conversa. Você criou um distanciamento. E é interessante, né, Humberto, porque as pessoas realmente grandes, elas não fazem isso. Não, exatamente. A humildade, a simplicidade é uma característica da grandeza.

Não, e tem uma coisa, Marta, que me irrita. Tem outra forma de você saber com quem você está falando, que é quando você está conversando com a pessoa e ele tenta ganhar a discussão. Você não está nem interessado em ganhar ou perder, mas em conversar e ele quer ganhar a discussão citando uma pessoa. Como diria Sócrates, e aí sai uma citação para apoiar o que ele está dizendo. Eu acho isso de lascar.

A gente às vezes pode usar o argumento de outra pessoa emprestado para... Enfim, eu acho que isso é válido de fazer. Eu acho que o problema é só quando a gente esquece que existem pontos de vista, que existem... Enfim, ninguém é dono da verdade, ninguém é tão importante assim. Quando o cara usa esse recurso para silenciar o outro. Isso é o que eu acho da hora. Para intimidação, né?

É, porque aí o cara, na verdade, ele quer criar uma separação social. É. Ele quer mostrar que existe uma hierarquia na sociedade e ele está acima da média. Exatamente, estabelecer hierarquias. É um recurso meio fraco, né? Um recurso fraco.

E esse recurso de você sabe com quem você está falando é inclusive uma coisa básica. Você tem o princípio legal, é um princípio baseado em pessoalidade. Quer dizer, você julga o que a pessoa fez, não a pessoa. Você está interessado no que aquela pessoa produziu de erro.

E aí você estabelece um julgamento, uma pena, seja lá o que for. Mas o camarada chega e quer ser imune à lei. Mas isso também mostra uma questão social de que na sociedade, às vezes, tem dois pesos, duas medidas. Então, às vezes, as pessoas usarem esse tipo de argumento mostra que elas sabem que a lei não vai valer para certas pessoas como vale para as outras, ou que as coisas não são.

nem sempre são justas, né? Então, às vezes, é uma defesa no sentido eu estou do lado, né? Isso também fala muito da sociedade. Existir esse tipo de frase, no fundo, é muito revelador da sociedade, né?

Não, e às vezes nem é a pessoa em si que usa. Tem um, você sabe com quem está falando, por tabela. Que é assim, o cara que trabalha com o doutor fulano, o filho do doutor fulano, e aí diz assim, você sabe com quem está falando? Eu sou filho de fulano de tal. Eu sou motorista de fulano de tal. Eu trabalho com fulano de tal. E aí, esse em si quer dizer, como se eu incorporasse parte do poder e do prestígio do outro.

Pois é, fala também muito da sociedade, né? Acho que quanto mais igualitária e justo uma sociedade, menos vai acontecer esse tipo de coisa.

Você sabe uma forma que eu vejo que existe também? É quando você tem o nome da pessoa associada a um cargo. É fulano de tal ministro. É fulano de tal gerente de não sei o quê. Então, a pessoa que não tem um cargo notório, que não tem esse título... Você sabe quando é que eu sinto isso às vezes, Humberto? Que é o seguinte, a gente hoje na nossa cultura...

As pessoas têm que ter um credenciar, assim, tem lados que hoje em dia todo mundo pode falar, todo mundo pode ter opinião sobre tudo, e isso às vezes cria problemas também.

Mas assim, antigamente existia a figura da pessoa de notório saber, né? Então você era reconhecido como alguém que tinha um conhecimento muito grande sobre o assunto. Você podia dar aula, podia falar daquilo, porque você era reconhecido como alguém que tinha embasamento. Hoje você pode não saber nada, mas se você tem um título, sei lá, fez um título de alguma maneira...

O título é que prova que você pode, né? Falar daquilo. E às vezes a pessoa que não tem o título sabe mais do que aquela que tem, né?

Não, Marta, tem horas que cria situações ridículas, né? Eu estava lembrando um caso, num aeroporto. Poxa, existe regra de companhia, regra do aeroporto e tal, e o camarada queria, porque queria atropelar todas elas, né? Chegou para a funcionária da companhia e disse, sabe quem é o Sul? Aí a funcionária falou assim, gente, espera aí um instantinho, alguém conhece o senhor, ele está com uma crise de identidade aqui, ele não sabe quem ele é. Jura? Jura.

Ela foi no humor. É claro, né? Porque chega numa situação que você está no meio da confusão, está maior pânico, maior tumulto, e o cara sai na carteira. Mas também tem as pessoas que é de estúpido mesmo, né? De personalidade, um senso de autoimportância que não tem senso de realidade, né? E tem isso que fala, eu sou Jesus Cristo. Eu sou Napoleão. Napoleão. É verdade. Ô Marta, chegou o nosso andar. Vamos lá? Vamos lá.

Você ouviu Conversa de Elevador com Humberto Martins e a psicóloga Marta Vieira.

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