DAMAS
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- Mulheres na HistóriaVoluntariado de senhoras da alta sociedade portuguesa como enfermeiras em França · Descoberta da história através de arquivos e a busca por participação feminina · A criação do Hospital da Cruz Vermelha com apoio do Canadá · A figura de Dona Maria Antónia Atouguia Ferreira Pinto como Dama-Chefe · O propósito de vida e a busca por causas por parte das mulheres · O treino das damas enfermeiras no Hospital da Junqueira · A influência de exemplos europeus e o movimento sufragista · A criação da personagem fictícia Maria Inês Vaz Luiz para unir a narrativa · Empoderamento feminino e luta por direitos trabalhistas e liberdade de movimento · Crónicas de guerra e a inspiração em relatos de repórteres · A fadista e guitarrista que inspirou uma cena musical no filme · O plano de exibição do filme em festivais e salas de cinema em França · O legado dos soldados portugueses que permaneceram em França após a guerra
Isto faz-se por cá.
Durante a Primeira Guerra Mundial, houve um grupo de senhoras portuguesas, bem na vida, que decidiu ir para a França trabalhar como enfermeiras para prestar cuidados aos soldados portugueses que já lá estavam. Esta história, pouco conhecida e passada há mais de 100 anos, é o eixo central de Damas, um filme-documentário que está agora a chegar aos ecrãs de cinema. Foi realizado e também parte narrado pela convidada do Isto Faz Por Cá de hoje, a Cláudia Alves. Bem-vinda à RTP Mundo, Cláudia. Obrigado.
Obrigada pelo convite. O filme começa contigo sentada a uma mesa, uma mesa grande, a revelar que foi por acaso que cruzaste com os arquivos que depois foi onde encontraste esta história. O que acaso foi esse? Acontece que eu normalmente não faço documentários sobre personagens do passado, porque gosto de me encontrar com as pessoas no presente.
É a primeira vez que isto me acontece, em que eu sinto que estes personagens, ou estas pessoas, porque antes de se tornarem personagens, foram pessoas reais, estavam a querer falar comigo. Bom, mas não é nada assim muito místico. Acontece que estávamos em 2018, 100 anos depois do armistício do fim da guerra, da Primeira Guerra, e eu estava precisamente a fazer um documentário para a RTP, um programa com entrevistas e arquivo,
a propósito do Soldado de Milhões, que foi um filme que, na altura, homenageava um herói da Grande Guerra e era produzido pela produtora onde eu se trabalhava naquele momento. Portanto, fui fazer esse trabalho de investigação à procura de fotografias, não sobre os homens, mas sobre as mulheres, porque, na altura, esse documentário que se chama A Vida nas Trincheiras tinha vários aspectos da vida dos homens na guerra.
A comida, a fé, a roupa, a saúde. E eu decidi incluir ali um bocadinho sobre a participação feminina. Agora, eu desconheci, era por completo que as mulheres tinham ido mesmo para a França. Eu pensava que elas já tinham feito...
alguma recolha de dinheiro, portanto, festas de beneficência, enfim, desconhecia por completo esta história e pensei, se eu desconheço, talvez os outros também gostassem de conhecer. E sentiste logo que tinha ali potencial para ser uma história contada no ecrã.
Sim, sobretudo pensei, eu tenho os ingredientes que são necessários para contar uma boa história, porque não é só a ficção que precisa de uma narrativa dramática. O documentário também convém atrair o espectador, no sentido em que tem avanços, retrocessos, como uma boa... A história é uma história, não é? É uma história. A história é uma história.
E eu sentia que havia um objetivo do personagem, neste caso um personagem coletivo, que era este grupo de mulheres. Tinha também o suspense, porque eu própria, quando comecei a ver que elas iam construir um hospital, pensei, mas elas ergaram mesmo um hospital? E depois havia cartas que falava dos obstáculos. Ainda não conseguimos o terreno.
Agora, já conseguimos falar com... Já conseguimos, eu estou a falar no plural, mas na verdade as cartas eram quase todas assinadas pela Dama-Chefe, Dona Maria Antónia Atouguia Ferreira Pinto. E ela, como era uma senhora que tinha dotes para as línguas...
conseguiu negociar diretamente com a Cruz Vermelha Britânica, conseguiu o terreno, conseguiu mais tarde, isso vê-se no filme, os vários avanços, portanto, agora estou a dizer as conquistas, mas também, portanto, conseguiu também o recheio para o Hospital da Cruz Vermelha do Canadá, e isso para mim, pronto, foi uma surpresa, e pensei, isto parece mesmo, sei lá.
Um filme. Eu já estou a ver o filme, basicamente foi isso. O que é que levou, porque as mulheres que foram para lá, as senhoras que foram para lá, eram pessoas com um estilo de vida muito confortável aqui em Portugal, a guerra era uma coisa longínqua lá em França. O que é que levou essas pessoas, essas mulheres, a largarem o que tinham cá e a ir para a guerra?
para perto da guerra, portanto, abdicarem do conforto para irem para o desconforto. Eu penso que, acima de tudo, nós procuramos um propósito na vida. E estas mulheres, apesar de serem privilegiadas, pertencerem à alta sociedade portuguesa, elas sentiram que tinham que agarrar uma causa.
Mas também há que dizê-lo, elas quando começam a fazer o treino como damas enfermeiras, elas não sabiam ainda que iam para a França. Portanto, isto houve um processo quase de adaptação à ideia de ir para a França. Portanto, elas primeiro começam a fazer o seu treino no Hospital da Junqueira. Ali, para os lados depois da Alcântara.
E então, aí começa o treino e supostamente os soldados haveriam de vir de França para recuperarem Portugal. Quando se percebe que havia muitos homens que nem sequer tinham condições para serem transportados, para viajarem, então é que a dama enfermeira, a dama chefe, propõe, se calhar vamos nós para lá.
Porque assim estamos muito mais perto da frente de combate e os homens podem já fazer a sua convalescência aqui. Se bem que elas também tinham, como eram mulheres muito bem conectadas, como se diz hoje em dia, estas mulheres eram monárquicas. Vamos lá ver. A dona Maria, a rainha, a ex-rainha.
estava já em Inglaterra e, portanto, eles tinham ecos do que estava a acontecer no resto da Europa. E no resto da Europa havia mulheres aí de todos os estratos sociais que se voluntariavam para ajudar os soldados. Portanto, é isso. Elas tinham um exemplo das suas congéneres europeias.
Nesta história há obviamente toda a parte factual A parte real, mas também há uma parte que é ficcionada Que é encenada, o que é real e o que é encenado Aqui neste Damas
Mesmo as partes encenadas têm uma parte que vem da própria investigação. Agora, todos os diálogos que eu crio para os personagens são completamente ficcionados. Agora, partem de factos reais, mas depois eu extravaso, eu liberto-me a imaginação.
E fiz isto em conjunto com o realizador e guionista, que admiro muito, Marcelo Gomes, que é um realizador brasileiro. E ele impulsionou-me, foi ele uma grande força para eu me libertar das amarras históricas, digamos assim, precisamente para que a história pudesse voar. Portanto, que eu pusesse também o meu desejo.
E aquilo que eu achava que era pôr-me nos pés, vestir a roupa destas mulheres. Portanto, ao fim de ler coisas, também, quando eu digo ler coisas, nem sempre eram cartas delas, porque as cartas que encontrei na Cruz Vermelha, sim senhora, lias, mas as das famílias, eu imaginava, ah, elas escreveram as famílias, eu não as encontrei.
portanto eu recorri a material que está no Imperial War Museum diários também a autobiografia da Agatha Christie que teve na guerra portanto eu li várias coisas e a partir daí comecei a fazer o meu puzzle o meu próprio diário viajando no tempo
Agora, há cenas que estão completamente, correspondem exatamente, e essas são sobretudo as cenas de arquivo. Por exemplo, há um episódio, sem querer me alongar muito, que eu fiquei admirada. Havia uma fotografia no próprio Espólio da Cruz Vermelha, com um barco de pescadores portugueses.
O bar que era francês foi oferecido por uma universidade francesa aos pescadores para que eles pudessem ir buscar peixe ao mar, uma vez que muitos dos... Portanto, eram homens saudades que estavam lá em França. Portugueses, sim. Portugueses que... Que começaram a exercer atividade também de pescadores para poderem nutrir.
os convalescentes que estavam no hospital portanto isto era muito importante porque eles precisavam de uma boa proteína e nessa altura não era tão fácil portanto essa história está ali descrita e eu coloco-a no filme e muitas outras
Tu já falaste aí numa das personagens que foi uma pessoa que existiu mesmo, a Maria Antónia Ferreira Pinto, mas aquela que é talvez a personagem principal deste filme, a Maria Inês Vaz Luiz, não existiu. Não, ela não existiu. Ela não existiu, foi uma personagem que eu criei.
para unir as pontas soltas, digamos assim, de tudo aquilo que eu tinha investigado. E eu como desejava um retrato mais íntimo destas mulheres. Primeiro eu não queria pôr na boca dos personagens reais sentimentos que eu não sabia se tinham vivido.
Então criei uma que pudesse, através do olhar dela, ver aquilo que se passava à sua volta. E, portanto, ela interage com as outras mulheres que existiram. Sim, Angélica Plantier, Angela Boto Machado, Eugénia Machado. Sim, acho que sim. Agora os nomes também já me escapam. Mas sim, houve uma série de mulheres que aparecem no filme que existiram...
Todas as outras existem. Ela não. Mas ela acaba por ser a verdade que eu encontrei para unir todos os interstícios. Não sei como é que lhe posso chamar. Também há uma vertente do filme que tem a ver com o empoderamento feminino, a luta pelos direitos das mulheres relacionados com trabalho.
A própria liberdade de movimentos, de poderem sair do papel delas na sociedade, do direito ao voto. Essa parte também se cruzava ali ou foi já uma adição tua, uma adição criativa a este filme? Porque era uma coisa que também estava a acontecer no mundo naquela altura, no Atos Sítios.
Não há referência no Arquivo da Cruz Vermelha a essas interseções. Fui eu que pensei, estas mulheres são mulheres do seu tempo, não é? Elas estiveram em Paris. Elas liam jornais estrangeiros, sabiam línguas estrangeiras. E, portanto, a certa altura, a protagonista lê os jornais ingleses.
americanos, talvez tenha sido uma liberdade poética da minha parte, mas é verdade que elas estavam a par daquilo que acontecia na frente europeia. E, portanto, ao inspirarem-se na vida também destas sufragistas, apesar de que eu coloco o comentário da protagonista a dizer não estarão a ir longe demais estas mulheres, porque elas vão para a rua, como sabemos, as sufragistas.
E a certa altura têm mesmo atritos com a polícia. E isso mostra-se nos jornais que elas leem, no arquivo que eu mostro. Realmente eu não encontrei nenhuma frase nas cartas que li a falar disso. Agora, que elas tiveram, por exemplo, a Dona Maria Antónia Ferreira Pinto, ela esteve em Paris na mesma altura em que as Midinets, que eram as costureiras e as modistas parisienças,
estiveram na rua a reivindicar aumento de salários, sim, elas estiveram lá ao mesmo tempo. Eu pensei, é muito provável que tenha assistido a essas manifestações. Então, eu também aproveito e coloco-as no filme. E pronto. E não só. A ilustração portuguesa mostra essas mulheres nos jornais, as mulheres inglesas, de facto, macaco, nas fábricas de munições.
a trabalhar. Portanto, se a ilustração portuguesa nos mostra essa realidade, elas, como liam estes jornais, muito provavelmente tiveram acesso. Aliás, deve ter sido isso que as impulsionou a ir também. E a parte das crónicas de guerra, portanto, o relato do que se passava lá, trazido para cá.
Essas crónicas foram escritas por mim. Sim. Sim, são escritas por mim. Portanto, é uma forma de unificar. Há também um documento que me inspirou, não, que me levou a criar esta ideia da cronista de guerra, que foi a seguinte. Houve um repórter do Diário de Notícias que acompanha estas mulheres.
ao longo do seu trajeto, desde elas partem aqui da estação do Rocio, que era a estação internacional de comboio, e vão em primeira classe até, elas fazem várias paragens, primeiro em Madrid, depois vão para San Sebastián, de San Sebastián vão para Andaya.
Enfim, e ele relata tudo isso e põe nas suas crónicas as fotografias das várias enfermeiras e descreve o que é que se fizeram em Madrid, diz que elas deram um concerto. É aí que eu descubro que uma delas era fadista e guitarrista, porque faz parte do programa... Portanto, ele põe mesmo o programa... Do concerto. Do concerto.
E isso foi-me inspirando. Ela, no filme, é efadista, é a que canta com as outras. Lá está, eu não tive acesso ao fato que ela cantou, mas escrevi as letras, inspirada por esse seu talento. E depois, com a ajuda da própria atriz, que estudou composição e música,
Ela ajudou a musicar essas canções. Foram momentos super emocionantes durante a rodagem do filme, porque as outras enfermeiras juntaram-se ao coro e, inicialmente, isso não estava previsto no guião. Portanto...
Foi uma feliz coincidência elas também saberem cantar tão bem. Eu não poderia cantar porque estragaria ao filme todo, mas elas têm uma voz super límpida. Depois, aonde dizer se gostaram ou não, mas pronto, eu gostei pelo menos de fazer. Espero que gostem também de ouvir.
Estamos quase sem tempo, Cláudia. Queria só perguntar-te qual é o plano para mostrar o Damas em mais ecrãs. Estou a pensar, por exemplo, se vai chegar lá fora. Estou a pensar, por exemplo, em França, onde parte da ação também se passa. Sim, senhora. Nós estamos à espera, ainda não temos datas confirmadas, mas de estrear também num festival em Paris. E esse é o meu desejo, pelo menos numa sala de cinema em Paris. Eu estou a viver atualmente em França.
venho muitas vezes e tenho projetos cá mas esse é o meu desejo e espero que se concretisse também estou em contacto com o presidente da câmara da Merri de Dambletas que mostrou logo muito interesse onde era o hospital
e também o adito da defesa, várias pessoas com quem me fui cruzando ao longo deste percurso. Agora vou retomar o contacto com elas para ver se consigo mostrar o filme. E também as pessoas em França. É muito curioso, só para rematar.
que houve uma outra leva antes dos anos 60 de portugueses em França. E normalmente nós falamos muito do Idonville. E esquecemos que na Primeira Guerra Mundial, muitos dos soldados portugueses ficaram em França a viver. Porquê? Porque arranjavam uma namorada.
Ou porque, como eles não podiam ser transportados para Portugal porque estavam em convalescência, há que dizer que depois do fim da guerra as enfermeiras continuam a prestar serviço, não todas, mas muitas, no hospital. Portanto, ele só é desmantelado no final de 2019. Em 1919. Exatamente. Desculpem, em 1919. Que disparate.
E pronto, então, esses soldados acabam por ficar mesmo a viver em França e hoje em dia têm descendentes. Portanto, este senhor que eu fui encontrar à frente da câmara, Dambletaz, ele é português e eu estive lá nas cerimónias de há dois anos e o pai dele...
pronto, só fala ainda quase praticamente português, tem uma casa de vinho do Porto, portanto, isto para mim já dava outro filme. Quem sabe, quem sabe, se não daste aqui um filme na sequência deste Damas também, este é um filme sobre um grupo de senhoras portuguesas que decidiu ir para a França como enfermeiras durante a Primeira Guerra Mundial. Cláudia Alves é a criadora deste filme, de Damas, esteve aqui connosco no Isto Faz Por Cá. Obrigado, Cláudia. Obrigada, João, foi um prazer.
RTM