Episódios de Bom Sai

T2 | Ep.85 - Entrei numa casa por engano, poção da invisibilidade e dizer sim

07 de maio de 202622min
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Às vezes dava jeito voltar a gostar daquilo que me entretinha em criança/adolescente mas, (in)felizmente, já não dá.
Partilho convosco o outro lado, não tão bom, de saber estabelecer limites. Nem sempre respeitarmos as nossas vontades pode ser a melhor estratégia (pelo menos é o que sinto).

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Música: Joseph McDade - Sunrise Expedition
Assuntos4
  • Cansaço e sobrecarga femininaFim de semana prolongado e feriado · Festa de aniversário da filha · Dia da mãe · Tempo instável e sensação de cansaço
  • Birra na FNAC e Lego de FrozenVisita ao Alegro e FNAC · Desejo de comprar Lego de Frozen · Choro da filha e frustração da mãe · Comentário de outra cliente
  • Experiências de Campo e AventuraBaloiço suspenso entre árvores · Entrada em propriedade privada por engano · Reação da mãe e crianças
  • Nostalgia e SaudadeAcesso à informação e falta de clássicos · Relembrando a série 'Uma Aventura' · Poção da invisibilidade como elemento fantasioso · Diferença entre imaginação e realidade · Rejeição a Harry Potter e fantasia
Transcrição64 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do podcast. E vou-vos já dizer que hoje não estou... Ai, filhos, não estou nos meus melhores dias. Eu não sei se foi-te ter vindo um fim de semana mais prolongado, se foi tipo... Sabem quando o vosso corpo sente que, ok, finalmente posso relaxar, finalmente vou ter tempo para mim, não sei. Não é que eu não tenha tido propriamente tempo para mim durante este fim de semana prolongado, mas tivemos muitas coisas. Portanto, feriado, sexta-feira...

Eu fui trabalhar tal como gosto, por acaso é muito curioso porque já há alguns anos eu diria, eu disse sempre, não, desculpem, tendo em conta que eu trabalho por conta própria, é ridículo trabalhar no dia do trabalhador. Chamei-me snob, chamei-me o que quiserem, mas eu pensei, pá, não, desculpem, não vou trabalhar neste dia.

Porquê que tudo mudou este ano de 2026? Porque a minha filha tinha uma festa de aniversário no sábado dia 2 de manhã e eu geralmente costumo sempre trabalhar ao sábado de manhã, mas para poder acompanhá-la a essa festa pedi às pessoas a quem eu tinha consulta no sábado se pediriam no feriado e por isso é que eu fui trabalhar no feriado.

Portanto, tive esse dia em que fui trabalhar, depois foi a tal festa de aniversário, depois dia da mãe e não sei se foi de, assim, vários acontecimentos, agora que penso, não foram assim tantos, não é? Mas, filhos, eu sou uma pessoa com uma bateria social um bocadinho baixa, está bem?

Estou sempre ali nos 15% e já estou a precisar de pôr à carga nos 10%. E então, eu não sei se foi disso. Não sei se também é deste tempo que nunca mais fica gestável. É que assim, daqui a nada a primavera foi embora. Cadê termos usufruído a primavera? Não sei. Eu acho que aquilo que mais me cansa não é propriamente existir...

dias mais nublados, mas é aquela sensação de que parece que o tempo vai ficar bom, mas afinal não está. E quando eu digo bom é em todos os sentidos. Eu gosto de sentir o calorzinho, mas eu também não gosto de sentir que há dias demasiado quentes e depois no dia seguinte está frio. Porque esses dias quentes cansam, porque eu não estava à espera que eles fossem tão quentes. E aqueles dias frios entristecem, porque eu achava que afinal já poderiam ser dias quentes. Porque eu só estou bem.

Aonde eu não estou porque eu só quero ir. Aonde eu não vou, eu sei.

Eu sei que eu sou uma pessoa muito chata, eu sou uma pessoa que parece que está sempre alimentada dessas coisas. Não me estou a lamentar. Eu, atenção, nem sequer sou aquela pessoa que só é feliz na primavera e no verão. Não, eu também sou feliz no outono e no inverno, queridos. Eu vejo a beleza em todas as coisas, mas, epá, estou um bocado cansada. Daqui a nada começa o verão e eu não me senti a primavera. Não sei. E depois é assim.

Este domingo que vem, dia 10, eu vou fazer o meu querido piquenique da comunidade vegetal que já tinha feito o ano passado e estou muito triste porque as previsões meteorológicas é de que vá chover, portanto eu já estou a pensar que se calhar isto vai ter que ser dentro de uma casa e não era nada daquilo que eu tinha planeado e estou triste, estou triste, eu sei que até lá muita coisa pode mudar, mas olha, não sei, estou descrente, estou desmotivada, estou cansada, estou, não sei.

Muita coisa. Bom, mas o que é que eu queria vir aqui partilhar convosco? Queria vir aqui partilhar, primeiro que tudo, o facto de o Cristiano ser uma pessoa eternamente sonhadora e ainda bem que o é, porque eu preciso de pessoas assim na minha vida.

que me levem a ver a beleza em todas as coisas. Então, o que é que ele decidiu dizer? Disse à Mariana que havia um sítio muito giro, que tinha um baloi suspenso entre duas árvores, e então disse que, Mariana, olha, nós estávamos num parque, costumamos lá ir com alguma frequência, mas já estávamos fartos daquilo, até estava desagradável, estava um bocado de vento, etc., e decidimos, o Cristiano até disse, ah, Mariana, anda lá, vamos embora, olha.

vou-te mostrar aquele sítio, lembras-te do baloiço entre as árvores, vai ser muito giro, não sei o quê, tudo certo, pronto, então fomos andando para lá, e nós começamos a sentir que alguma coisa não batia certo naquilo, então entramos e de repente estavam lá, tipo uma mãe com algumas crianças, ok, atenção, é apenas um baloiço suspenso entre duas árvores, ok, não é nenhum parque infantil, é um sítio com alguma vegetação,

Há o que eu digo ao Cristiano entre dentes, eu sinto que nós estamos a entrar dentro de casa de alguém. E ele, oh meu Deus, eu também acho. E então era no meio disto tudo, a Mariana, tipo, mas eu quero ir e nós, não, não filha, temos que nos ir embora. Eu não tive coragem de trocar olhares com aquela mãe que de certeza que estava na sua casa. Eu não vos vou explicar mais do que isto. Eu acho que nós invadimos uma propriedade. Atenção, eu não tenho 100% a certeza se era o quintal da senhora, mas eu acho que era.

A questão é que aquilo, tipo, qualquer pessoa pode entrar lá, mas por outro lado, à medida que nós vamos entrando cada vez mais, nós percebemos que provavelmente aquilo não é um local público. E por isso...

Exato. E na verdade aquele baloe-se é um bocadinho um baloe-se triste, por isso eu acho mesmo que aquilo é a casa da senhora. Não que eu acho que a senhora seja triste, mas aquilo não pode ser uma coisa pública. É demasiado triste para ser uma coisa pública, percebem? Mas pronto, o Cristiano, eterno sonhador, achou que aquilo era um bom sítio para levarmos a Mariana. Não foi.

Passando à frente, o que vale é que ela não fez nenhuma birra e a seguir, para tentarmos compensar o que é que nós fomos fazer, fomos ao alegro, que é uma das coisas que a Mariana mais gosta de ir, é o alegro para, felizmente, estar em coisas que ela ainda não percebeu que é possível colocar uma moeda e aquilo andar de um lado para o outro, mas também ainda bem, ela não gosta de coisas a balançar, ela não gosta de carrocer, está tudo fixe.

Só que acontece sempre isto, que é, entramos numa FNAC da vida e por mais avisos que eu faça previamente,

Eu saio sempre de lá com uma birra. Eu digo, Mariana, nós vamos entrar no Alegre, na Snack.

Mas nós não vamos comprar nada, ok? Filha, só para ver, só para ver, ok? Pronto. Desta vez, o que é que aconteceu? Eu decidi ter um momentinho para mim, como o Cristiano também estava lá presente, eu fui dar uma voltinha noutras coisas, e às tantas, eles estão a demorar imenso, chego ao pé deles, eles estavam na zona dos livros de crianças, mas também de jogos e etc. E ela estava agarrada a um lego de Frozen.

E saímos de lá com ela a chorar porque não teve o leg da Frozen e mais uma vez eu com a certeza de que, pá, não me lembro da última vez que consegui sair da FNAC sem a Mariana a chorar. E achei muita graça porque me estava a cruzar com uma senhora quando estava a sair da FNAC e ela olhou para a Mariana e disse, ai, também me apetecia chorar.

Exato, chorar faz bem à alma, é verdade. A mim também, a minha cara senhora também me apetecia chorar, sem dúvida, porque não sei mais o que é que eu possa fazer a nível pedagógico, devendo dar os olhos à minha filha, talvez, ou então acabar por fazer aquilo que faço 90% das vezes, que é ir sozinha a estes sítios. É tão melhor. Bom, depois, mais coisas que vos queria dizer. É o seguinte.

Houve um destes dias em que eu estava bastante entediada e vocês vão perceber o meu nível tédio quando eu vos disser aquilo que eu decidi fazer.

Sabem, eu acho que hoje em dia nós temos acesso a muita informação, nós temos, podemos ter a Netflix, a HBO, podemos ter várias coisas que nos prometem ter acesso a séries, a filmes, quando nós quisermos, longe vão os tempos em que nós tínhamos que suster o xixi para aguentar a novela à espera do intervalo para podermos finalmente ir à casa de banho, portanto longe vão esses tempos, nós agora temos a informação.

disponível a todo um instante, YouTube na televisão, etc. Mas, às vezes eu sinto falta de um clássico. E comecei a ver que estava a dar, aliás, não estava a dar naquela altura, é que tinha dado, nesse dia, uma aventura. Para quem não se lembra. Vem comigo viver uma aventura, vem.

sentir a emoção que sempre perdura. Tinha uma amiga minha que dizia, sente a ternura. E eu dizia, não, não é sente a ternura, é que sempre perdura. E ela, mas o que é que isso significa? E eu, que dura sempre. E foi nesses momentos que eu senti...

Ya, eu tenho um boé vocabulário, ya, a minha mãe é professora, a minha avó era professora, indubitavelmente, que saberei sempre o que é que significa cada coisa. Estou a gozar, eu não era esta rapariga convencida e nunca fui, mas a verdade é que, pá, como assim não sabes o significado de perdura? Não, querida, não é que sente a ternura, é perdura mesmo, está bem?

Bom, e então eu decidi, oh, que nostalgia, vou ver um bocadinho de uma aventura. Então comecei a ver.

E eu fiz um esforço, eu fiz um esforço, mas depois... Sabem quando vocês sentem que o vosso corpo está contraído? Há ali qualquer coisa que não está a bater certo. E quando finalmente eu decidi pôr uma pausa, eu senti um alívio tão grande, a nível mental, a nível de dor de cabeça que se estava a formar, a nível de tudo. Porque apesar de eu até achar que a representação não é assim tão manhosa,

Porque há más representações, também não era excelente, ok? Mas quando é que eu senti que não estava a dar mais? Aquilo era uma aventura no comboio.

E eu senti que aquilo não estava a dar mais, quando a certo momento aquilo era sobre um rapaz que entretanto tinha desaparecido do comboio, e depois encontraram uma escritora, e a escritora tinha escrito vários livros, e um deles era de...

Ai, já não me lembro, o fantasma não sei o quê. Bom, enfim, e ela falava no livro dela sobre a poção da invisibilidade. E então eles achavam, eles, o grupo dos cinco de uma aventura, eles achavam...

Eles são cinco, não são. Eles achavam que... Portanto, que queriam falar com a escritora para perceberem não, nós temos que descobrir a poção da invisibilidade. Talvez ela nos possa dar alguma informação em relação a isso para explicar o desaparecimento do rapaz no comboio. Sim, vamos lhe perguntar. Será que ela tem alguma informação acerca da poção da invisibilidade? Eu pensei... Ai, é nestes momentos que a pessoa sabe e tem a certeza que cresceu, não é? Porque, no fundo...

Eu não consigo mais acreditar nisto, sabem? Eu não consigo mais, tipo, não, queridos, não há uma poção da invisibilidade. Não, está bem? Não consigo acreditar mais nisto. E vocês podem me dizer, Ana, mas sabes, tipo, a imaginação também faz parte, essa fantasia, não me digas que não gostavas do Harry Potter. Não, não gostava do Harry Potter.

E neste momento estão um monte de pessoas a odiar-me. É assim, vou-vos explicar. Eu li até ao quarto livro, Caliço de Fogo. Quando eu acabei de ler o quarto livro, o primeiro livro estava em filme, no cinema. Eu fui ver. Durante meses eu tive pesadelos com o Voldemort. Meses. E a partir daí eu decidi a minha jornada com o Harry Potter acabou. Eu não quero saber mais nada sobre isto. Eu tive...

pá, bati mal com aquilo, desculpem, aquela cara não pode ser uma cara agradável para ninguém. Ai, tal, mas aquilo não é sério, está bem, mas então é assim, vamos acreditar nas coisas sérias só para o que nos convém, por som de invisibilidade, tenho que acreditar que possa existir, Voldemort, tenho que encarar que isto é tudo imaginação e que não existe ninguém assim tão feio e sem nariz e horroroso, pá, não, não dá, o meu cérebro não conseguia distinguir estas duas coisas, portanto, fiquei com pesadelos, cortei o Harry Potter por ali,

E por isso, não, não tenho gosto nenhum em ler coisas de fantasia e de, pá, não existe aquilo, queridos, desculpem, não há porção de invisibilidade, não quero saber, caguei, desculpem. Ana, mas a magia também é importante, está bem, eu a isso chamo-lhe fé, está bem, portanto, ou seja...

Eu não preciso de ver todas as coisas para acreditar que elas existem, a fé é isto, é nós acreditarmos numa energia superior a nós, e eu isso eu tenho, a minha fé, mas desculpem, não vou acreditar em coisas de magia, etc, não tenho muita paciência para isso, nunca foram um tipo de livros que me atraiu, nunca foi, não. Pronto, e vamos fazer espaços com isso, portanto, eu nesse momento percebi, Ana, eu sei que tu gostavas de replicar momentos na tua vida, tu foste feliz a ver uma aventura.

Mas já chega, querida, está bem? Já chega porque já não faz mais métodos com isto. E de facto a representação também não ajuda, porque apesar, tal como eu tinha dito, não ser péssima, também não era maravilhosa. É sempre muito aquelas coisas muito ensaiadas. Então, malta, o que é que estão aqui a fazer?

Olha, viemos aqui, estamos à espera de entrar no acampamento, ok, ok. Então olhem, não se esqueçam que amanhã às 9 da manhã têm que estar prontos. Sim, sim, já sabemos. Isto até parece bem representado, não é? Mas é tudo tão mecânico, não vos sei explicar, sabe? Não há profundidade no diálogo. E é normal, porque aquilo no fundo é direcionado para...

Um público que também não quer pensar muito. É tipo morangos com sucar, está tudo certo, mas não. E se por um lado isto me deixa orgulhosa perceber que, bom Ana, tu evoluíste, tu já não gostas disto, tu gostavas quando era criança, por outro lado entristece-me. Porque já não dá para voltar mais àquele lugar, percebem? Não dá mais. E dávamos jeito às vezes de conseguir entreter-me com este tipo de coisas, quando, sabem quando vocês só querem ver uma coisa que não vos faça pensar muito.

Mas vocês já estão noutro patamar e aquele já não serve. Bom, enfim. E queria terminar aqui este episódio. E desculpa, eu sei que vai ficar mais curtinho, mas olhem, queridos, já fiz muito para o meu mood. Não, estou a brincar. Eu gosto sempre de vir aqui falar, é verdade. Sinto-me sempre melhor depois de vir aqui.

que tem a ver com o seguinte, eu no outro dia estive à conversa com umas pessoas sobre uma coisa que eu acho que é bastante importante nós refletirmos, que tem a ver sobre esta questão de saber impor limites, aprender a dizer não, respeitarmos as nossas vontades, etc. E eu acho que de facto isto é tudo muito bonito. É tudo muito bonito nós...

Aprendermos a escutar o nosso corpo, aprendermos a perceber o que é que realmente importa para nós. Aquela velha máxima de dizer sim a alguém pode significar estar a dizer não a nós próprios e portanto nós temos que ressignificar isto e nós temos que ter a capacidade para dizer a nossa verdade e não estamos aqui para...

para estar com fretes e não, tipo, eu sou assim, eu só tenho que ser eu, eu tenho que impor os meus limites, chega de me anular, chega de me pôr em segundo plano, eu agora vou assumir a minha própria voz, quem gosta gosta, quem não gosta não gosta, sabem este discurso? Que é importante, mas...

O que é que eu quero trazer aqui à reflexão? Eu acho que é super importante haver vários tipos de pessoas no mundo. Ainda bem que existem diferentes tipos de personalidade. Ainda bem que existem pessoas que têm mais facilidade em pôr-se em segundo plano. Ainda bem que existem pessoas que têm muita facilidade em dizer que não. Porque se toda a gente tivesse esta facilidade em dizer que não e em impor os seus limites, eu acho que, na verdade,

Nós não éramos capazes de conviver assim tanto, porque imaginem, aquelas pessoas super assistivas que sabem sempre impor limites. Alguém propunha num grupo de WhatsApp, estou a inventar, olhem, bora que combinar um jantar esta sexta-feira,

E as pessoas que têm muita capacidade para impor limites, ai, olha, é assim, sexta-feira é o meu dia sagrado para estar em casa, não vou. Eu também não vou. Ai, podíamos ir a este restaurante. Não, eu não gosto deste tipo de comida, se quiserem vão vocês. Imaginem que toda a gente era assim. Pá, ninguém combinava nada com ninguém. A verdade é esta. Portanto, isto é tudo muito bonito, nós sabermos impor os nossos limites. Mas a verdade é que...

Também é importante nós cedermos às vezes, porque senão nós ficamos numa bolha de antissocialidade. Porque é necessário às vezes nós fazermos um esforço para ir para além da nossa zona de conforto. Eu sinto que...

À medida que nós vamos crescendo, é mais fácil termos a capacidade de dizer que não. E é mais fácil nós conseguirmos reconhecer os nossos próprios limites, sem termos que estar a dar justificações. Mas também é importante lembrar-nos, e porque assim, à medida que nós vamos crescendo, o nosso círculo de amigos vai ficando cada vez mais pequeno.

Nós podemos contar com tipo 3, 5 pessoas. Nós não encontramos muito mais pessoas do que isso. Mas quando nós estamos no secundário ou na faculdade, nós achamos que temos tipo 20 amigos. Nós temos sempre coisas para fazer e socializar.

Ok, portanto, aí nós queremos estar sempre presentes em tudo, nós não queremos ser excluídos, nós vamos dizer que sim a tudo, mesmo que não nos apeteça assim tanto, porque faz parte da norma, porque é socialmente aceito, porque etc. Só que eu acho que é super importante nós cultivarmos ao longo da vida essa capacidade também para, ok, não me apetecia nada ir este jantar hoje, mas se calhar para aquela outra pessoa é importante que eu vá.

Irmos fazendo aqui um equilíbrio entre as minhas vontades, mas também aquilo que faz feliz o outro. E aquilo que faz feliz o outro sendo esta outra pessoa, alguém de facto importante para nós. Porque se nós formos só olhar para as nossas necessidades, eu acho que as amizades morrem e acho também que nós vamos morrendo um bocadinho por dentro. Porque falo por mim.

Para mim é muito mais fácil dizer que não, a determinado tipo de coisas, porque eu já tenho a minha rotina muito bem instituída, e imaginem, eu desde que fui mãe, que sou uma pessoa que gosto muito mais de me deitar cedo, às 10 da noite eu adoro já ir deitar-me, eu adoro jantar de pijama, tipo, 6 horas, 6 horas, eu já estou a vestir-me a pijama, estou uma velha, às 6 horas estou a vestir-me a pijama, estou a abrir a cama, estou a jantar para a volta das 7h30.

Começo a adromecer a Mariana para a volta das 8h30, um quarto para as 9h, vou-me deitar às 10h, a dia seguinte acordo por volta das 6h da manhã, esta rotina faz-me feliz. Mas eu também tenho noção que esta rotina me aprisiona, ou seja, lembram-se quando eu partilhei aqui aquela questão do clube de leitura? Ai meu Deus, onde é que eu vou fazer xixi? Ai, como é que eu vou jantar? Porque é uma hora que não dá jeito.

Era muito mais fácil para mim eu pensar assim, ai, bolas, isto também é super complicado e depois de ter que ir de Uber e não sei o que, não me sentir confortável, não, não, não, não, não. Eu vou dizer que não, eu vou dizer que não e vou continuar na minha rotinazinha, mas eu forço-me nestes momentos também a dizer que sim. Eu quero ir, porque eu também sei que eu vou ganhar coisas com isto. Eu posso estar desconfortável por estar a sair da minha zona de conforto, por não ter aquelas coisas, aquelas âncoras que me...

que me apaziguam, que me fazem querer estar tudo dentro dos moldes, a rotina é sempre a mesma, mas pá, é importante, é importante nós também fazermos as coisas de forma diferente, e por isso é que eu acho que isto é tudo muito bonito, de conseguirmos estabelecer limites e deixarmos de ser pessoas que querem agradar aos outros o tempo todo, e termos a capacidade de dizer que não, é tudo lindo.

Mas o caminho também não pode ser só por aí, porque senão nós acabamos por nos fechar, porque eu acho que, sinceramente, a grande maioria das pessoas vai ter muito mais vontade em dizer que não em muitas situações do que dizer que sim, à medida que vai envelhecendo, porque nós temos cada vez menos paciência para algumas coisas. No outro dia uma amiga me dizia, epá, eu estou preocupada comigo, eu estou cada vez mais antisocial.

Exato, mas o que é certo é que nós também, muitas das vezes, quando conseguimos ultrapassar aquela parte do...

Ah pá, que seca! Sabem, por exemplo, quando vocês estão tão bem em casa, está a chover lá fora e tipo, mas porquê que eu vou sair? Mas quando nós ganhamos essa coragem e saímos, nós pensamos, ainda bem que eu vi.

Diverti-me imenso. Foi giro. Ok? Agora, durante uns tempos se calhar não quero, mas foi giro e diverti-me. Por exemplo, este piquenique da comunidade vegetal que eu vou fazer. Imaginem, eu vou fazer por vários motivos. Primeiro, porque eu sinto que, sendo um grupo online, é importante este encontro presencial. Não tem nada a ver. E isto foi aquilo que eu também senti com o Clube Leitura. Eu estou neste Clube Leitura que é online.

mas aquele encontro presencial foi extraordinário, porque não há nada como nós estarmos junto das pessoas, é completamente diferente do que estarmos só numa câmara do Zoom. E portanto, este piquenique da comunidade vegetal vem muito no seguimento de, se me vai dar trabalho, vai, eu vou cozinhar, eu vou cozinhar, podia estar sossegadinha, mas não, eu vou cozinhar, eu tenho que levar várias coisas que têm que estar organizadas, mas vai haver aqui uma logística em que provavelmente o Resten também vai estar presente tal como esteve no ano passado.

e a Mariana também, e portanto vai alterar aqui um bocadinho com a nossa logística do domingo, etc. Mas eu sinto que é uma coisa que é importante eu fazer, não só pelas pessoas que estão na comunidade, confiam no meu trabalho, como também pelo feedback que eu tive na edição anterior, do ano passado que nós fizemos, de percebermos...

Isto é super importante para o convívio e no final daquele dia, quando eu fiz esse piquenique, eu senti, ainda bem que eu fiz isto. Eu estava nervosa, tinha medo que as coisas não corressem bem, mas no final de contas valeu super a pena. Senti que as pessoas estavam contentes por estarem ali à volta da toalha de piquenique a partilharmos coisas, cada uma depois levou um tupperware para levarmos, cada uma levou uma coisinha de cada uma que tinha cozinhado. Foi tão giro que...

Sim, era muito mais prático para mim eu não fazer nada, sabem? Era muito mais prático, mas isso também não me vai levar a evoluir, isso também não me vai levar a ter boas memórias, a também incutir boas memórias nas pessoas que são importantes para mim, portanto é importante nós também sairmos da nossa zona de conforto, acho mesmo que é fundamental e nós ganhamos sempre alguma coisa com isso, a não ser...

Quanto muito é do género? Olhem, não gostei, não valeu a pena, se calhar numa próxima não vale a pena ouvir. Ok, mas é super importante para a nossa evolução, senão nós vamos ficando encarcalilhadinhos, vamos ficando na nossa conchinha e não vale a pena. E é isto, queria partilhar convosco. Espero-vos bem, na próxima semana cá estarei para contar como é que decorreu o Picnic. Eu gostava mesmo muito de conseguir ser ao ar livre, mas enfim, infelizmente...

Não sei se vai ser possível, mas pronto. O que importa são as pessoas, o que importa é o convívio, a comida, portanto, logo se vê. Um enorme beijinho e até à próxima semana.

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