Comportamento explica mais o endividamento do que falta de renda, afirma economista
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Ahmed El Khatib
- Perfis comportamentaisCrédito fácil e baixa educação financeira · Influência das apostas online (bets) · Regras de sobrevivência financeira · Consumo emocional · Fundo de emergência
- Desenrola Brasil 2Objetivos do programa · Impacto microeconômico · Impacto macroeconômico · Regularização do crédito
- Organização de contas e dívidasGastar menos do que ganha · Criar atrito para gastos impulsivos · Não usar crédito para consumo emocional · Manter fundo de emergência · Tratar apostas como perda
- Juros altos e economiaImpacto do Desenrola na inflação · Política monetária do Banco Central · Cenário macroeconômico externo
Aqui no CBN Madrugada, espaço para a gente falar um pouco mais sobre o novo Desenrola Brasil. O nosso convidado é o professor Ahmed El Khatib, que é coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, a FECAP. Ahmed, muito bom dia. É um prazer tê-lo conosco aqui na CBN. Bom dia. Eu que agradeço. É um prazer enorme estar aqui contigo.
Bom, já havia essa expectativa e hoje o governo oficializou esse novo Desenrola, com a ideia de reduzir o nível de endividamento das famílias, também reorganizar o acesso ao crédito. É uma iniciativa que vai ter duração de 90 dias, poderão participar aqueles com renda de até 5 salários mínimos.
E a gente tem também aqui a informação de que as pessoas vão poder utilizar esse programa com dívidas que tiverem atraso entre 90 dias e 2 anos. Eu quero, é claro, falar daquilo que tem a ver com os endividados, com as nossas ouvintes, os nossos ouvintes, mas quero começar com a macroeconomia média.
Esse programa tem condições para destravar a economia, que é um dos objetivos, o presidente Lula falou nesta segunda-feira, é reorganizar o acesso ao crédito. Isso é factível, ou seja, a regularização da situação dessas famílias, desses devedores, pode aquecer a economia? Excelente, uma excelente pergunta. Olha, o chamado Desenrola 2 é uma continuidade e ampliação do programa Desenrola Brasil.
Ele precisa ser analisado em duas camadas simultâneas. Acho que o primeiro é o microeconômico, famílias endividadas, e o segundo é o macroeconômico, que é o funcionamento da economia como um todo. A resposta, de imediato, é muito curta. Ele ajuda, mas não distrava a economia sozinho. Então, o problema de origem é o Brasil endividado. O Brasil vive há anos um fenômeno estrutural de endividamento das famílias. Quando uma parcela relevante da população entra em inadimplência...
Acontece algo muito parecido com um motor econômico funcionando aí com um freio de mão puxado. Vamos colocar dessa forma. Imagine que a economia seja um grande sistema de engrenagem. Então as pessoas, elas consomem, as famílias consomem, as empresas vendem.
As empresas produzem, as empresas contratam e a renda volta para as famílias. Quando há inadimplência elevada, essa engrenagem trava, porque o consumidor perde acesso ao crédito, o score de crédito cai, o consumo diminui, o varejo se acelera e a produção recua. Ou seja, o problema deixa de ser individual e vira sistêmico. O que o desenrolador tenta fazer na prática? Ele trabalha como uma espécie de multirão de limpeza do passado financeiro. Então, a lógica econômica é simples.
Reduzir dívidas antigas com descontos relevantes. Permitir renegociação com prazos mais longos. E reintegrar o consumidor ao sistema financeiro. Analogicamente falando, como se o governo estivesse dizendo vamos zerar parcialmente o histórico negativo das pessoas para que esse agente econômico volte a jogar. Isso é importante, porque no sistema de crédito moderno o passado financeiro determina o futuro econômico.
O efeito microeconômico é o indivíduo voltar a respirar. Então, para o indivíduo endividado, o impacto é imediato e relevante. Então, ele sai da inédia imprensa, ele recupera o acesso ao crédito, ele reduz o estresse financeiro, inclusive o psicológico, e volta a consumir gradualmente. Aqui entra um ponto muito importante, que a gente chama de ansiedade financeira. Porque quando a pessoa está endividada, ela entra no modo de sobrevivência. Então, o comportamento econômico, ele deixa de ser racional.
e passa a ser defensivo. Então ele evita consumo, mesmo quando poderia consumir. Ele tem medo de compromissos financeiros e opera no curto prazo. Então o desenrola, ele atua como uma liberação cognitiva, não apenas financeira.
Do ponto de vista macroeconômico, a gente tem um estímulo, isso é natural, mas não existe um milagre. Então, a grande pergunta é, será que isso destrava a economia mesmo? A resposta é parcialmente e com limitações importantes. Então, o programa gera, de fato, aumento do consumo das famílias, reduz a inadimplência agregada, melhora os balanços dos bancos e expande de forma marginal o crédito.
engrenagens e o sistema volta a girar melhor. Existem limites estruturais. Acho que o principal deles aqui é a taxa de juros. Os juros ainda estão muito elevados. O crédito continua muito caro. E essa nova dívida, ela vai substituir a antiga. Então, o ciclo de endividamento, ele pode recomeçar. Você até limpa o nome, mas o custo do dinheiro continua proibitivo.
E o que fazer, professor Ahmed El Khatib, para evitar a continuidade desse problema? Você falou aí numa questão estrutural, juros elevados. Agora, a gente tem um comportamento do brasileiro que tem se repetido. Eu queria que você falasse um pouco em que medida também a questão das bets não está influenciando nesse aumento do endividamento. O que o governo precisa fazer?
É questão de educação financeira, para que a gente não tenha a necessidade de um novo, novíssimo desenrola Brasil, hein? Perfeito. Olha, eu costumo dizer que o problema não é só a renda, é o comportamento. Então, a continuidade do problema estrutural do endividamento no Brasil, agora gravado pelo avanço, como você bem disse, das apostas online ou das backs, não é o acaso.
ele é resultado de um encontro perigoso entre crédito fácil, baixa educação ou alfabetização financeira e estímulos comportamentais muito fortes, especialmente vindos dessas BEPs. Se não há intervenção coordenada, o país vai entrar num ciclo que retroalimenta o endividamento. Tentativa de recuperação, novas perdas, maior endividamento. É assim que a engrenagem, no caso das apostas, funciona. Então, o problema, como eu disse, não é só renda, é comportamento. Então, o erro clássico da análise econômica...
É achar que o problema do brasileiro é apenas a falta de dinheiro. Na prática, existem três camadas. Existe uma restrição de renda, ela existe, especialmente nas classes mais vulneráveis, o custo do crédito elevado, cartão, rotativo, cheque especial, continuam ainda aí figurando entre os canais mais caros do mundo e comportamento financeiro desfuncional, que para mim é o ponto crítico. Aqui, a gente tem um ponto central. Busca por ganho rápido.
baixa tolerância à frustração financeira, confusão entre investimento e aposta e uso do risco como saída emocional. É exatamente nesse terceiro ponto que as bets entram com uma força brutal. Na verdade, as bets são uma espécie de novo vetor da fragilidade financeira do brasileiro. O crescimento das apostas online no Brasil não é apenas um fenômeno de entretenimento.
E tem características muito específicas que o tornam economicamente perigoso, porque as apostas têm uma arquitetura comportamental muito perigosa. As plataformas, por exemplo, utilizam princípios conhecidos da economia comportamental, como recompensas intermitentes, ou seja, a mesma lógica de um cassino, feedback imediato, ou seja, dopamina rápida, ilusão de controle, principalmente em apostas esportivas, porque...
O futebol é a paixão nacional, então todo mundo entende de futebol. Isso cria uma falsa sensação de controle. E a quase vitória. Quase ganhou, continua jogando. Perdeu, vou jogar para recuperar a perda anterior. Então isso ativa o mesmo circuito psicológico de um vício.
Então, a gente tem aí um problema bastante perigoso com esse aumento ou liberação do crédito, só que indo ao encontro das casas de aposta ou apostas esportivas ou ainda as bestas. Sim, me vem na cabeça agora, professor Ahmed, uma analogia. Tenho falado muito aqui no CBN Madrugada também na questão da saúde.
nas canetas emagrecedoras. Então, tem muita gente que até sem orientação médica, pega, vai lá, usa a caneta, consegue emagrecer alguns quilos, mas mantém o mesmo comportamento, continua comendo a mesma coisa, continua sem atividade física, e aí o resultado a gente já sabe qual vai ser dali a algumas semanas. E acredito que nessa questão, estou pensando isso aqui neste momento, na questão financeira, você falou em mudança de comportamento, né?
acho que vale um pouco esse aspecto também. Então, eu queria que... Que tipo de orientação você pode dar para nosso ouvinte? O nosso ouvinte é muita gente, né? O governo está estimando 20 milhões de pessoas, então, com certeza, tem muita gente que está nos acompanhando agora que está nessa situação. Que tipo de orientação prática você poderia dar para essa pessoa que vai agora conseguir uma renegociação para não cair numa enrascada de novo daqui a alguns meses, hein?
Olha, a analogia com a caneta emagrecedora é genial, porque é exatamente isso que acontece. As pessoas, elas...
usam a caneta, reduzem o apetite, perdem peso, mas continuam às vezes comendo mal, não fazem exercícios, mantêm os mesmos hábitos, ou seja, há uma melhora no curto prazo, mas há um risco muito alto de recaída. Então isso é absolutamente válido também para a questão da dívida. Então não adianta tratar a dívida como quem toma remédio para emagrecer e continua comendo mal.
sem mudar o comportamento financeiro, o Brasil não vai emagrecer, só vai oscilar de peso. Então, o Brasil está na prática fazendo o seguinte, aplicando a caneta financeira, que seria a emagrecedora, que é o desenrola, mas mantendo um ambiente que estimula maus hábitos, como crédito caro, consumo impossível e, mais recentemente, as debt.
Então, as back, ou as apostas, funcionam como o oposto da caneta. Enquanto desenrola, reduz o peso, as back aumentam o risco, reativam a impulsividade e criam a falsa sensação de solução rápida, pensando aqui nas casas de apostas. Claro, que a questão das dívidas também tem uma analogia muito forte com o que você está dizendo, porque na obesidade, quando a gente pensa nas canetas emagrecedoras...
existe a fome emocional, a recompensa imediata e o baixo autocontrole em momentos de estresse. Nas finanças, existe o consumo emocional, a busca por prazer imediato e o uso do dinheiro como regulação emocional. Em ambos os casos, o problema não é apenas técnico, é comportamental. Então, se a gente for direto ao ponto, em relação às dicas que você me pediu,
Evitar endividamento não é só uma questão de conta ou de matemática, é uma questão de comportamento, mas um sistema pessoal bem desenhado. Quem depende apenas de força de vontade, perde. Quem cria regras simples e automáticas, ganha. Então, eu diria que existem algumas regras de sobrevivência. A primeira delas é gastar menos do que ganha. Parece ser óbvio.
Mas se você fizer isso com um método, você consegue atingir a perfeição. Então, o problema é como fazer isso na prática. Então, existe uma estratégia funcional. O pessoal tem que definir um teto de vida. Sei lá, 70% da renda. Os outros 30% têm que ter um destino. Uma reserva, um investimento, uma segurança. Ou seja, não tem que esperar sobrar para guardar. Tem que separar antes de viver. Acho que essa é a primeira dica. Segundo.
As pessoas precisam criar um atrito entre elas e o gasto. O maior erro das pessoas hoje é a facilidade. Fique na internet, eu vou lá e compro. Um cartão, uma dívida. A solução prática é, tenha dois cartões. Um com limite bem baixo, para uso diário, e um guardado em casa, para emergência. Desativar a compra por aproximação, se você for impulsivo. Remover cartões salvos em época.
Então você não precisa de mais disciplina, você precisa de mais dificuldade para errar. Acho que essa é uma estratégia que muitos acabam não pensando. Outra coisa, não usar o crédito para consumo emocional. Esse é um dos pontos mais importantes. Se você está ansioso, cansado, frustrado, não tome decisões financeiras. A regra é simples. Se eu não compraria isso amanhã, eu não compro hoje. Outra coisa.
Tem um fundo de emergência, isso muda tudo. Sem reserva, qualquer imprevisto vira dívida. Comece com R$ 100, com R$ 200, com R$ 1.000 e evolua para três a seis meses de custo de vida. A reserva de emergência é um airbag financeiro. Então, sem isso, qualquer batida vira acidente grave ou dívida grave. Outra coisa.
em relação às bestas, trate como perda, não como renda. Se a pessoa entra em aposta achando que vai ganhar dinheiro, já perdeu. Então, se for apostar, define um valor pequeno, considere como entretenimento, nunca use crédito para fazer aposta. Se você sair da sua dívida por conta de um programa ou do desenrola dois, não use esse crédito para apostar. Se você aposta para resolver um problema financeiro, você agrava o problema.
Então, eu acho que o ideal é seguir essas dicas e ter uma clareza brutal dos seus números, porque a maioria das pessoas não sabe quanto ganha líquido, não sabe quanto gasta, não sabe para onde o dinheiro vai. Então, o exercício obrigatório para quem nos escuta é, nos próximos 30 dias, anote absolutamente tudo. Isso sozinho já muda o comportamento das pessoas. E, claro, talvez...
mexer com a mente, projetar sua mente. Esse é o ponto mais importante. O maior risco hoje não é o banco, não é a dívida, não é os enroladores. É as redes sociais, a comparação social e a influência de consumo. Porque você começa a querer o que não precisa no tempo errado com dinheiro que não tem. Então, nem tudo que você vê é sustentável. Nem mesmo para quem impostou.
Professor Ahmed El Khatib, a gente tem mais dois minutinhos aqui. Você destacou a questão dos juros altos, que com certeza colabora para toda essa situação. Não há dúvida nenhuma de que para essas pessoas que estão endividadas, essa solução é muito positiva. Agora, se a gente pensar do ponto de vista macroeconômico, o governo está colocando mais dinheiro na economia, inclusive com a possibilidade de tirar 20% da FGTS, ou seja, é dinheiro que está sendo jogado na economia.
Isso, para quem acompanha um pouquinho a economia, sabe que dificulta a ação do Banco Central em reduzir a taxa de juros. O que fazer para que a gente possa ter uma redução dos juros nos próximos meses, diante de um ambiente externo hostil, cheio de incertezas, professor?
É, o desenrola ali pode até aumentar um pouco a demanda, mas dificilmente é sozinho um motor relevante para a inflação ou taxa de juros. O efeito existe, porém ele é pontual e diluído, e até mesmo condicionado a esse cenário mais macroeconômico.
O canal intuitivo é o seguinte, por que isso pode gerar inflação? Quando você renegocia dívidas, acontece o seguinte, a parcela mensal cai, sobra renda disponível e parte dessa renda vira consumo. É isso que o governo quer. Em tese, isso aumenta a demanda agregada. Em macroeconomia, mais demanda pode gerar pressão nos preços. Inflação, uma reação do Banco Central para aumentar a taxa de selic. Esse é o raciocínio clássico.
Mas o desenrola, ele não cria renda nova. E esse é um ponto importante que a gente precisa debater. Ele reorganiza o passado financeiro. Então isso muda completamente a análise, porque ele não é um estímulo puro, como o gasto público. Então, por exemplo...
Vamos imaginar que o governo aumente o gasto, injete dinheiro novo na economia e aumente a demanda diretamente. O Desenrola, ele reduz dívida antiga, libera fluxo de caixa, então ele não coloca dinheiro novo, ele apenas remove um bloqueio. Então parte do dinheiro liberado não vira consumo, porque quando a pessoa renegocia, ela tende a reorganizar contas, pagar outras dívidas e ficar mais cautelosa. Aliás, esse é o meu desejo. Então nem todo alívio do programa Desenrola 2...
ele vira consumo imediato. Então, o impacto mais provável que a gente vai ter é um pequeno aumento de consumo, diluído ao longo do tempo e concentrado em bens básicos. Isso gera uma pressão baixa na inflação. Quando é que isso pode virar um problema?
O desenrola só pressionaria a inflação e juros de forma relevante se tivesse combinado com uma economia superaquecida, com uma alta demanda e baixo desemprego, com um crédito muito expandido, com os bancos liberando crédito de forma agressiva e com uma política fiscal expansionista, o governo gastando mais ao mesmo tempo. Aí sim, esse efeito combinado poderia gerar...
mais pressão para a inflação. Então, o Banco Central olha esse quadro completo. Ele olha a inflação corrente, as expectativas, a atividade econômica. Se o desenrola gerar um impacto relevante, o que é improvável isoladamente, ele poderia, sim, manter os juros altos por mais tempo ou reduzir mais lentamente. Mas acho que dificilmente esse vai ser o fator decisivo. O desenrola pode, inclusive, em última análise, ter um efeito anti-inflacionário indireto, porque ele reduz a inadimplência.
Ele vai melhorar o balanço dos bancos e ele diminui o risco sistêmico. Então, isso pode ajudar a reduzir os exprés dos bancos no médio prazo e melhorar o funcionamento do crédito como um todo. Muito bem. Professor Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP. Mais uma vez, muito obrigado pela gentileza aqui com a CBN, uma aula nesse nosso CBN Madrugada. Muito obrigado, Ahmed, e até uma próxima oportunidade.
Eu que agradeço. Um abraço a você e a todos que nos escutam.
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