Episódios de Filosofia Vermelha

A metamorfose, de Franz Kafka

31 de agosto de 202659min
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Hoje vamos falar sobre A metamorfose, de Franz Kafka. Este pequeno texto é um dos clássicos da literatura ocidental do século XX, sendo possível interpretá-lo de diferentes maneiras.

Falaremos sobre essa obra de Kafka em três momentos: apresentaremos inicialmente um breve esboço biográfico do autor, para depois abordarmos as linhas gerais da obra em um breve resumo. Na sequência, mostraremos algumas possibilidades interpretativas, tais como através da psicanálise, da questão dos sonhos e do complexo de Édipo, como também através dos aspectos sociais relacionados à alienação e à reificação do trabalhador, com base em pensadores como Karl Marx, Walter Benjamin e Georg Lukács.

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Assuntos7
  • Abertura interpretativa da obra A Metamorfose de Franz KafkaLiteratura ocidental do século XX·Indústria cultural·Arte
  • O caráter onírico da obra e a relação com os sonhosSonhos inquietos·Freud·A Interpretação dos Sonhos·Condensação
  • A interpretação psicanalítica da relação de Gregor com seu paiComplexo de Édipo·Freud·Édipo Rei·Deleuze e Guattari·Max Brod
  • A alienação e reificação do trabalhador na obra de KafkaKarl Marx·Walter Benjamin·Georg Lukács·Capitalismo·Mercadoria consciente de si
  • Esboço biográfico de Franz Kafka e sua relação com a obraFranz Kafka·O Castelo·Josef K·Traços autobiográficos
  • A composição e o estilo literário de A MetamorfoseDie Verwandlung·The Transformation·Metamorfose·Tradição literária
  • A vida cotidiana de Kafka e a identificação do público com o autorLord Byron·Trabalho burocrático·Frustrações
Transcrição155 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, amigos e amigas do Saber! Hoje vamos falar sobre A Metamorfose, de Franz Kafka. Este pequeno texto é um dos clássicos da literatura ocidental do século 20, sendo possível interpretá-lo de diferentes maneiras. Essa abertura interpretativa é, inclusive, uma das características das verdadeiras obras de arte? Porque enquanto a indústria cultural nos entrega um pacote completo com a obra e sua interpretação ao mesmo tempo, a arte se caracteriza por deixar livre ao indivíduo o sentido de um texto.

Falaremos sobre essa obra de Kafka em 3 momentos. Apresentaremos inicialmente um breve esboço biográfico do autor, para depois abordarmos as linhas gerais da obra em um breve resumo. Na sequência, mostraremos algumas possibilidades interpretativas, tais como através da psicanálise, através da questão dos sonhos e do complexo de Édipo, como também através dos aspectos sociais relacionados à alienação e à reificação do trabalhador, e isso com base em pensadores como Karl Marx, Walter Benjamin e Georg Lukács.

Quer você já tenha lido essa obra ou não, Este episódio está muito rico e vai aumentar sua compreensão sobre Kafka de forma geral. Antes de iniciar, um agradecimento a todos os nossos apoiadores na plataforma Apoia.se. Obrigado por tornarem este podcast possível. E eu gostaria de lembrar também que você pode encontrar meu novo livro, Filosofia para a Vida, nas principais livrarias de sua cidade ou no link que está na descrição deste episódio.

Mas corra, porque a primeira impressão já está se esgotando. Além disso, você pode encontrar também na descrição deste episódio os links para os meus cursos de filosofia, tais como o curso de introdução geral à filosofia, de introdução à psicanálise e alguns outros. Então vamos lá, vamos falar sobre A Metamorfose de Franz Kafka. Um belo dia, um indivíduo chamado Gregor Samsa acorda transformado em um inseto. Ainda em sua cama, ele abre os olhos e percebe que o seu corpo passou por uma transformação durante a noite, de tal maneira que ele não possui mais o corpo de um ser humano, mas a forma de um enorme tipo de inseto.

Este é o início da obra A Metamorfose, de Franz Kafka, um dos clássicos da literatura do século 20. A primeira coisa que nós queremos saber é: Por que Gregor Samsa se transformou em um inseto e como isso pôde acontecer? Mas isso permanece um mistério sobre o qual falaremos mais um pouco adiante. Antes de iniciarmos nosso resumo e interpretação da obra, vamos conhecer um pouco melhor a mente por trás de uma história tão fantástica quanto bem escrita.

Haveria traços autobiográficos de Kafka em sua obra mais conhecida? Sempre que apresentamos o esboço biográfico de um autor, é inevitável buscarmos paralelos entre ele e seus personagens.

?Voz B

Mas, no caso de Kafka, isso é ainda mais tentador, tendo em vista, sobretudo, um incidente de sua biografia. É o seguinte: é que, no ano de 1922, ao se registrar em um hotel, ele percebeu que o funcionário confundiu o seu nome e escreveu Josef Kafka, que na verdade é o nome do protagonista de sua obra O Castelo, né, que é Josef K. Essa obra, claro, permaneceu inacabada e foi publicada apenas póstumamente, mas tendo em vista que Kafka iniciou sua redação neste mesmo ano, a coincidência mereceu sua atenção, porque ao registrar este episódio em seu diário, o Kafka fez a seguinte pergunta: Será que eu devo corrigi-los ou será que eu deixo eles me corrigirem?

?Voz A

No que diz respeito à obra A Metamorfose, nós podemos dizer de forma geral que alguns traços de Gregor são autobiográficos, mas devemos ressaltar também as diferenças, porque o Kafka dava grande valor às qualidades literárias de uma obra em si mesma, de tal maneira que A Metamorfose vai muito além das semelhanças entre o autor o protagonista da obra e suas respectivas famílias.

?Voz B

Além disso, este esboço biográfico nos mostrará também por que nós nos identificamos tanto com o Kafka. Podemos dizer que a vida de Kafka foi, de certa forma, banal, sem muitas daquelas características míticas, né, de gênios atormentados tão comuns ao falarmos sobre autores excepcionais. Poderíamos dizer que Kafka está para o nosso século como o Lord Byron estava para o século 19, mas com uma importante diferença. Porque enquanto o Lord Byron era um aristocrata sexy, obscuro e sinistro que desafiava a moral e a religião, a imagem de Kafka é mais democrática.

Porque assim como vários de nós, Kafka passava o dia inteiro em um trabalho que detestava preso em um escritório cheio de atividades burocráticas. A maior parte das obras de Kafka foi redigida à noite, depois de um dia de trabalho chato e extenuante. Então Kafka foi um de nós, vivendo com os pés arraigados na vida cotidiana, experimentando os nossos medos e frustrações de uma maneira que corresponde à nossa própria experiência.

?Voz A

Vamos apresentar, então, uma breve biografia de Kafka.

?Voz B

Veja, Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883, em Praga, hoje na República Tcheca. Ele foi o filho mais velho do casal Hermann Kafka e Julie Kafka, sendo o único dos meninos que sobreviveu, porque dois de seus irmãos morreram ainda crianças, ao passo que suas três irmãs sobreviveram ao autor, Mas viriam a morrer em campos de concentração nazistas. Kafka provavelmente teria destino semelhante se não tivesse morrido antes. Não apenas suas irmãs, mas várias pessoas do círculo de Kafka foram capturadas pelos nazistas e tiveram o mesmo destino.

?Voz A

Os pais de Kafka eram judeus assimilados e possuíam uma loja que vendia de tudo um pouco, né, uma espécie de magazine. Uma lojinha de bairro, como a gente conhece bem no Brasil. O intenso trabalho nos negócios da família fez com que Kafka e suas irmãs fossem criados principalmente por babás.

?Voz B

Mas, ao ter idade suficiente para ajudar na loja, os filhos também contribuíam para o sustento da família. No que diz respeito aos estudos, Kafka frequentou uma escola judaico-alemã apenas para meninos no período de 1889 até 1893. Em seguida, ele frequentou um ginásio com aulas em alemão até o ano de 1891, quando ele desenvolveu grande interesse por Charles Darwin e Nietzsche. Observe que, mesmo morando em Praga, Kafka tinha aulas em alemão e escreveu também toda a sua obra neste idioma. Agora, uma pergunta: por que o seu idioma não foi o tcheco?

?Voz A

Tendo em vista que ele nasceu, estudou e passou a maior parte de sua vida em Praga. Isso se explica pela configuração especial de Praga neste período, chamada também de cidade de três nações. É que desde aproximadamente o século 9, Praga era compartilhada por tchecos, alemães e judeus.

?Voz B

Na época de Kafka, os tchecos eram 90% da população de Praga, enquanto os alemães austríacos compunham 5% e o restante era de judeus.

?Voz A

Então, a família Kafka era uma família judia e falava alemão em casa, mas eles utilizavam o tcheco para conversar com suas empregadas.

?Voz B

Os tchecos, a propósito, compunham as classes média e baixa da cidade, ao passo que os alemães austríacos gozavam de melhor posição social. Kafka vai para a universidade em 1901. Ele cursa algumas semanas de química, mas muda logo em seguida para direito, frequentando, ao mesmo tempo, palestras de história da arte.

?Voz A

Durante seus estudos, ele conhece uma das pessoas mais importantes de sua vida, Max Brod, amigo que desempenharia um papel muito importante também na história da literatura do século 20. É porque, se não fosse por Max Brod, várias obras de Kafka teriam se perdido para sempre. Nós voltaremos a este ponto mais adiante.

?Voz B

E em 1906, Kafka obtém seu doutorado em direito, passando a ser chamado deste ponto em diante de Doutor Kafka.

?Voz A

Em 1908, Kafka inicia sua jornada no Instituto de Seguro de Acidentes do Trabalhador.

?Voz B

Ele permanece neste emprego até a sua aposentadoria antecipada por motivos de saúde em 1922.

?Voz A

Ele subiu de cargo diversas vezes no decorrer dos anos, tendo também viajado a trabalho com bastante frequência.

?Voz B

Atenção, este detalhe biográfico nos mostra um paralelo entre o Kafka e o Gregor Samsa, porque o protagonista de A Metamorfose também viajava bastante a trabalho. Por volta do ano 1910, Kafka se mostra bastante interessado em eventos socialistas.

?Voz A

Ele também passa a estudar mais sobre o judaísmo, embora considerasse a sinagoga entediante e evitasse a religião formal.

?Voz B

No ano seguinte, por pressão de seu pai, Kafka se torna sócio de seu cunhado em uma fábrica de amianto, mas, para o seu alívio, essa fábrica vem a falir em 1914. Gente, as atividades da fábrica eram mais uma fonte de desgosto e sufocamento do espírito artístico de Kafka.

?Voz A

De tal maneira que, durante este período, ele pensou até mesmo em tirar a própria vida.

?Voz B

Kafka recebe o diagnóstico de tuberculose em 1917.

?Voz A

Tendo em vista que, naquele período, ainda não havia tratamento adequado para essa doença, a notícia era praticamente uma sentença de morte. Neste mesmo ano, ele também se separa de Felice Bauer, mas, 2 anos depois, ele se apaixona por Julie Wohrytek, enfrentando a resistência de seu pai. É que pelo fato de a família de Julie pertencer a um estrato social mais baixo, o pai de Kafka comentou certa vez, de maneira bem cínica, que seria melhor o Kafka visitar um bordel do que se relacionar com alguém daquele tipo.

?Voz B

E nesse contexto, Kafka escreve a sua famosa Carta ao Pai, publicada apenas póstumamente em forma de livro. A propósito, gente, o Kafka de fato visitava bordéis, mas o comentário de seu pai neste contexto foi ofensivo, insensível e desnecessário. Em 1920, Kafka tem uma intensa troca de cartas com a jornalista Milena Jesenská. Ela era casada, mas mesmo assim ela manteve um relacionamento com Kafka e traduziu algumas de suas obras para o tcheco.

?Voz A

Sua importância para Kafka se revela no fato de ele ter lhe confiado posteriormente todos os seus diários. E com a tuberculose se agravando neste terceiro ano, Kafka se interna por 8 meses na Eslováquia para tentar conter o avanço da enfermidade e ter uma melhor qualidade de vida.

?Voz B

Já com a saúde debilitada, Kafka inicia seu romance O Castelo em 1922. Só que o agravamento de sua doença interrompe a escrita da obra e lhe força também a se aposentar precocemente. E já próximo de sua morte, ele retoma o estudo da língua hebraica que ele tinha iniciado lá em 1917, e Kafka também planejava morar na Palestina.

?Voz A

Neste período, em 1923, ele conhece também a sua última companheira, que foi a Dora Diamante.

?Voz B

Se mudando com ela para Berlim, mas o casal tem que trocar de residência várias vezes devido a problemas financeiros. Kafka morre aos 40 anos de idade, em 3 de junho de 1924, né, ou seja, faltava um mês para o seu aniversário de 41 anos. Durante sua vida, ele publicou 7 livros pequenos e deixou 3 romances inacabados, Além de uma imensa quantidade de cartas e diários. Agora, para ser possível acumular todo este material nos anos de escrita produtiva, estima-se que Kafka tenha escrito cerca de 3 cartas por dia.

?Voz A

E antes de sua morte, Kafka confiou suas obras a seu amigo Max Brod, né, que nós citamos, que eles se conheceram na universidade. E Kafka solicitou que Brod destruísse todo o material. Alguns anos depois, Brod afirmou que o desejo de Kafka, na verdade, era a preservação e a publicação de suas obras, porque, de outra maneira, o próprio Kafka teria destruído o material em vez de confiá-lo a um amigo que era, ao mesmo tempo, o seu maior fã.

?Voz B

Brod não apenas desobedeceu ao pedido expresso de Kafka de destruir suas obras, mas também conseguiu escapar e salvar essas obras dos nazistas. Agora, nem todas as pessoas do círculo de Kafka tiveram a mesma sorte de suas obras.

?Voz A

Como já mencionamos, todas as irmãs de Kafka morreram em campos de concentração nazistas, assim como duas das mulheres com quem ele se relacionou, né, a Julie e a Milena. A última companheira de Kafka, a Dora Diamant, entrou para o Partido Comunista Alemão, se casou com um camarada e conseguiu se refugiar na União Soviética. Se Kafka não tivesse morrido em 1924, é possível que o seu destino tivesse sido o mesmo de suas irmãs. E para finalizar esta parte biográfica, nós devemos acrescentar ainda como o próprio Kafka se enxergava.

?Voz B

Felice lhe enviou certa vez uma carta contando ter mostrado a grafia, a letra do Kafka, a um grafologista. E esse grafologista detectou então interesses literários no autor da letra.

?Voz A

Agora, em resposta a essa observação, o Kafka fez uma de suas afirmações autobiográficas mais conhecidas.

?Voz B

Ele disse o seguinte: eu não tenho interesses literários, eu consisto em literatura. Eu não sou e nem posso ser nada além disso.

?Voz A

Vamos falar agora sobre a composição da obra e seu estilo literário.

?Voz B

Veja, Kafka compôs A Metamorfose no período de 17 de novembro até 6 ou 7 de dezembro de 1912, e ele trabalhava ao mesmo tempo na composição de sua obra O Desaparecido, né, obra que foi publicada posteriormente como América. Em uma carta a Felice, ele conta que a ideia para A Metamorfose lhe ocorreu quando ele estava deitado e deprimido em sua cama.

?Voz A

A ideia era compor uma história pequena, mas ela foi crescendo até incorporar os 3 capítulos que nós temos hoje. Agora, depois de já ter escrito metade da obra, o Kafka contou a Felice estar escrevendo uma história nojenta, mas que esses sentimentos vinham de seu coração e que ele precisava tirá-los de dentro de si, a fim de que ele se tornasse limpo e digno para ela.

?Voz B

No dia 7 de dezembro de 1912, ele comunica feliz ter finalizado a redação, mas ele estava insatisfeito com o final. E cerca de 2 anos depois, ao ler novamente A Metamorfose, o Kafka ainda mantinha a impressão de que o final da história foi ruim, culpando por isso uma interrupção motivada por uma viagem a trabalho.

?Voz A

Se você já leu A Metamorfose, você deve se lembrar qual foi o fim. E a pergunta é: você concorda que o final de A Metamorfose é ruim, como pensava o próprio autor? Vamos falar agora sobre o texto e sua trama. Como nós ensinamos lá em nosso curso de Introdução à Filosofia, nós dizemos sempre que, ao ler qualquer obra, nós devemos começar analisando o seu título. Se nossa compreensão do título do texto for insuficiente ou confusa, nós corremos o risco de ler toda a obra com falsas expectativas e em uma direção equivocada.

No caso dessa obra de Kafka, no entanto, o título da obra é relativamente descomplicado.

?Voz B

Em alemão, o título da obra é Die Verwandlung, e este substantivo significa literalmente transformação.

?Voz A

Sendo muito comum no uso cotidiano aqui na Alemanha. Algumas traduções inglesas dessa obra de Kafka preferem, por isso, o título The Transformation em vez de A Metamorfose, porque esse sentido é mais próximo do original alemão. Isso nos mostra que a tradução A Metamorfose já traz consigo uma certa liberdade interpretativa, mas isso não é de forma alguma prejudicial nesse caso, porque O que acontece a Gregor é, de fato, uma mudança de forma, uma literal metamorfose.

A palavra metamorfose no título dialoga também com a tradição literária. Vejam só, segundo o léxico de literatura alemão Metzler, uma metamorfose é a transformação de um ser humano em um animal, planta ou ser inanimado. Mas pode acontecer também em sentido contrário. Na mitologia grega, por exemplo, Zeus é transformado em touro, Aracne é transformada em aranha e os companheiros de Odisseu são transformados em porcos.

?Voz B

A obra mais famosa da antiguidade sobre o tema é Metamorfoses, de Ovídio, na qual nós encontramos uma compilação de diversas histórias de transformações da mitologia.

?Voz A

Contos populares como aqueles dos Irmãos Grimm também trazem diversas histórias semelhantes, como aquela história do príncipe transformado em sapo, por exemplo. Então, como nós podemos ver, a transformação de Gregor Sansa em um inseto se liga, de certa maneira, a uma antiga tradição literária.

?Voz B

Mas o caráter verdadeiramente kafkiano de A Metamorfose se deve não tanto à transformação em si, mas a outros fatores que exploraremos na sequência. Façamos uma breve comparação entre Kafka, a mitologia e os contos de fadas. Ao contrário do que acontece nessas outras histórias, a metamorfose em Kafka é o ponto de partida, não uma explicação para algum acontecimento. Na verdade, nós nunca ficamos sabendo por que a transformação ocorreu.

?Voz A

E além disso, em contos de fadas geralmente há uma reversão, de tal maneira que aquele príncipe tornado sapo volta a ser príncipe no final. Agora, este não é o caso de Gregor Samsa.

?Voz B

Agora, outra importante influência de Kafka é Dostoiévski.

?Voz A

Ao compararmos o primeiro parágrafo da obra O Duplo, de Dostoiévski, com a abertura de A Metamorfose, de Kafka, nós temos a impressão de que as semelhanças são muito mais do que mera coincidência.

?Voz B

Porque, assim como a obra de Kafka se inicia com Gregor Samsa acordando de uma noite de sonhos e observando o seu quarto, também a obra do escritor russo se inicia da mesma maneira. Agora, a fim de ganharmos tempo em nossa exposição, nós vamos pular essa parte, mas caso você tenha as obras de Dostoiévski e Kafka, leia a primeira página de cada uma e compare.

?Voz A

Você verá que as semelhanças são impressionantes. Vamos entrar agora em alguns detalhes do texto. O primeiro que eu gostaria de abordar diz respeito ao tipo de inseto em que Gregor Sansa foi transformado, porque a maior parte das traduções diz que ele se transformou em um inseto, e algumas traduções dizem até mesmo que ele se transformou em uma barata. Agora, isso parece estar de acordo também com a descrição detalhada oferecida pelo narrador das feições do bicho, mas Kafka realmente escreveu que Gregor se transformou em um inseto?

?Voz B

Veja, no texto original em alemão, nós vemos que Kafka utiliza a palavra Ungeziefer em vez de Insect, o que leva até mesmo algumas traduções inglesas a dizerem que Gregor Samsa foi transformado em um vermin, que é um termo em inglês que se aproxima mais do sentido literal em alemão e abre mais espaço para a imaginação. É porque em inglês a palavra vermin designa pequenos animais e insetos que podem ser perigosos e difíceis de controlar se aparecerem em grande número, tais como moscas, pulgas e baratas.

Em alemão, o termo Ungeziefer, utilizado por Kafka, tem sentido semelhante, abrangendo animais que podem atacar pessoas, plantas, animais, materiais diversos e colheitas. E esse termo ungetzifa pode abranger até mesmo ratos.

?Voz A

Ao ler o início da obra, nós devemos ter em mente então que Gregor Sansa acordou transformado em um ungetzifa, não exatamente em uma barata, como fazem algumas traduções. Agora, essa questão vai muito além de um mero preciosismo etimológico. O próprio Kafka nunca desejou uma representação gráfica deste inseto, como nós podemos ler em uma carta de 25 de outubro de 1915 que ele enviou ao seu editor.

?Voz B

É que foi o seguinte: ao saber que o ilustrador Otomar Starker faria o desenho da capa, o Kafka pediu expressamente que ele não representasse graficamente o inseto.

?Voz A

E nesse trecho da carta, aí sim ele utiliza a palavra alemã Insekt. O Kafka diz literalmente o seguinte, vejam só o trecho dessa carta, abre aspas: o próprio inseto não pode ser desenhado, ele não pode ser mostrado nem mesmo de longe. Se eu mesmo puder fazer algumas sugestões, escolheria algumas cenas tais como o pai e o gerente diante da porta fechada ou Ainda melhor: os pais e a irmã no cômodo iluminado, enquanto a porta para o quarto escuro ao lado se encontra aberta.

Então vejam, o próprio Kafka orientou a não desenhar o inseto ou bicho na capa do livro.

?Voz B

O ilustrador seguiu parcialmente o desejo de Kafka, desenhando a porta aberta de um quarto escuro, embora mostre um homem cobrindo o rosto. Essa é uma cena que não existe no texto.

?Voz A

Agora, o mais importante, então, é que ungetzifa designa animais nojentos e indesejados porque eles são nocivos e podem trazer doenças.

?Voz B

Então, é nisso, literalmente, que Gregor Samsa se transformou.

?Voz A

Nós vamos apresentar, na sequência, um breve resumo da obra e algumas possibilidades interpretativas através da psicanálise e da filosofia. E vamos nos valer de autores como Freud, Deleuze e Guattari, Karl Marx, Walter Benjamin e György Lukács. Mas antes disso, faremos a nossa clássica pausa musical.

?Voz B

Ouviremos hoje um trecho de As Quatro Estações, de Vivaldi, a terceira parte da Primavera. Enquanto você aprecia essa música, clique no botão para seguir nosso podcast e nos avalie com 5 estrelas. Essa é uma forma simples de nos ajudar a chegar a mais pessoas.

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?Voz B

Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos nos intervalos dos episódios, basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify. Em nosso perfil no Spotify, na terceira aba.

?Voz A

Um link direto para essa playlist. Voltemos então ao nosso tema, A Metamorfose, de Franz Kafka. Vamos fazer agora um breve resumo dos 3 capítulos da obra antes de apresentarmos alguns comentários e interpretações.

?Voz B

Veja, a obra se inicia com um fato consumado: Gregor Samsa acordou transformado em um Ungeziefer, em um monstruoso inseto. Nós, leitores, queremos saber por que Gregor Samsa se transformou em um inseto. Só que para isso não há explicação alguma, nem mesmo uma descrição de como tal fato ocorreu. E aqui reside uma das características daquilo que é kafkiano, é que eventos impossíveis acontecem com um ar de inevitabilidade. E sem explicação.

?Voz A

Nem Gregor nem o narrador se perguntam por que a metamorfose ocorreu, como se isso não tivesse muita importância.

?Voz B

A primeira preocupação de Gregor é, no entanto, com seu trabalho cansativo, com suas viagens constantes e o fato de ele ter perdido o trem das 5 horas da manhã.

?Voz A

Enquanto Gregor permanece refletindo em sua cama, Sua mãe, seu pai e sua irmã tentam conversar com ele através da porta fechada. É que como Gregor é um representante comercial viajante, ele tem o costume de sempre trancar a porta do quarto, que é uma medida necessária em suas viagens, mas que agora veio a calhar, dando-lhe mais tempo para decidir o que fazer com seu novo corpo de inseto. Então, como ele viaja muito e tranca a porta do quarto nos hotéis e pensões onde ele fica, ele também tem este hábito em casa.

Então, ninguém invadiu o seu quarto, ninguém viu ainda que ele se transformou em um inseto, e através da porta fechada ele fica ouvindo a sua família se comunicando com ele. Agora, neste primeiro capítulo, chama atenção sobretudo a relação de Gregor com seu trabalho. Preste muita atenção nisso, a relação de Gregor com seu trabalho. É porque o seu trabalho lhe preocupa muito mais que sua própria transformação em inseto.

?Voz B

De tal maneira que, se o seu novo corpo lhe permitisse, ele iria se vestir, pegar seu material e partir para o trabalho.

?Voz A

Gregor é o mantenedor da casa e ele se preocupa com a situação financeira de sua família, tendo em vista sobretudo que o seu trabalho é instável.

?Voz B

Daí o seu esforço em tentar sair do quarto mesmo em forma de inseto, para se justificar com o seu chefe e tentar salvar seu emprego.

?Voz A

Agora, passemos então para o segundo capítulo, cujo tema nós podemos resumir como alienação. Porque no segundo capítulo, Gregor continua descobrindo algumas alterações em si mesmo provocadas por sua transformação em inseto, tal como a mudança em seu paladar. Ele descobre que Por exemplo, o leite deixado por sua irmã na tigela não lhe agrada mais como antes. Algo que sua irmã também percebe ao ver que ele o deixou praticamente intocado.

Porque o que acontece é que todos os dias a irmã de Gregor vai lá, passa uma comida para ele por debaixo da porta, né, ou pela porta entreaberta, para que o Gregor se alimente.

?Voz B

Mas ela começa a perceber que ela coloca algumas comidas que ele gostava Mas agora ele nem mesmo toca nesses alimentos. Então, está havendo aqui uma alteração em seu paladar.

?Voz A

Então, a irmã de Gregor passa a oferecer uma variedade maior de comida a fim de identificar do que o Gregor gosta agora. E ela acaba descobrindo que o mesmo queijo considerado por Gregor intragável 2 dias antes é justamente o que mais lhe apetece agora. Ele prefere agora então aqueles alimentos apropriados assim a serem jogados no lixo. Ele evita comida fresca de maneira análoga a como todo mundo evita a sua própria presença, o contato com ele.

Porque vejam só, antes de sua transformação, o quarto do Gregor ficava trancado e todo mundo queria entrar lá e passar algum tempo com ele. Agora que ele se transformou em inseto, a porta fica aberta com a chave do lado de fora, mas ninguém quer vê-lo. Outra mudança em Gregor diz respeito ao prazer de olhar pela janela.

?Voz B

Essa experiência lhe trazia antes uma espécie de libertação, mas agora ele conseguia ver apenas uma espécie de deserto, com o céu cinza se mesclando de forma pouco nítida à terra. Sua única distração agora é rastejar ou então subir pelas paredes. Mas essa nova atividade acaba deixando rastros nas paredes e leva sua irmã a perceber que ele precisava de mais espaço no quarto. Então tem início uma alteração na disposição dos móveis, a fim de que o Gregor pudesse se locomover mais facilmente, fazendo também com que sua mãe entrasse em seu quarto pela primeira vez em 2 meses.

?Voz A

Tá, então, pela primeira vez, a mãe de Gregor vai entrar no quarto para ajudar a arrastar os móveis e liberar mais espaço para que o Gregor possa rastejar e subir pelas paredes. Agora, a mãe de Gregor se opõe a essas mudanças em seu quarto. Ela se pergunta se o Gregor realmente gostaria de transformar seu quarto aconchegante em um inferno apenas para obter mais espaço para rastejar e subir pelas paredes.

?Voz B

E, além disso, Tal mudança no quarto seria um ato de resignação, seria abandonar as esperanças de que Gregor pudesse melhorar, levando a um esquecimento mais rápido também de seu passado humano. Grete, a irmã de Gregor, continua obstinada em seu plano e enfrenta a resistência do seu irmão inseto.

?Voz A

Agora, essa investida de Gregor é percebida como agressiva e leva a mãe ao desmaio, fazendo a irmã levantar o punho em ameaça.

?Voz B

E nesse momento o pai chega em casa, mas agora o pai chega bem diferente. O pai tem outra postura, tá vestindo um uniforme e nem parece mais aquele pai fraco de antes.

?Voz A

Então, ao saber o que aconteceu, o pai de Gregor começa a perseguir e bombardear Gregor com maçãs, até que uma maçã se encrava em suas costas, causando um grave ferimento. E o Gregor tem a impressão de não mais ser filho de seus pais. O terceiro e último capítulo trata do descarte de Gregor. Se você não leu a obra e se importa em saber o final antes de ler, eu aconselho a adiantar este episódio mais ou menos 1 minuto, tá? Para você não saber o que acontece exatamente no final, porque aí vem spoiler.

?Voz B

É que semanas após o incidente com o seu pai, essa maçã continua encravada em suas costas. O Gregor tem sua mobilidade reduzida, sendo agora incapaz de andar pelas paredes como antes.

?Voz A

A nova distração de Gregor é ficar ouvindo a conversa da família lá na sala, né, porque agora eles deixam a porta aberta para que ele possa pelo menos assim participar um pouco da vida familiar. E há uma mudança na rotina da família, né, o seu pai agora dorme todo dia após a refeição, a sua mãe costura e a sua irmã, trabalhando agora como vendedora, aprende estenografia e francês a fim de conseguir um trabalho melhor. Agora, vocês perceberam que a irmã do Gregor cuidava bastante dele, né?

Mas a partir de agora ela passa a cuidar cada vez menos. Antes, ela queria arrumar o quarto e lhe proporcionar mais espaço para rastejar e subir pelas paredes.

?Voz B

Mas agora o quarto de Gregor virou um tipo de entulho, recebendo todo tipo de coisas inúteis e sujas.

?Voz A

Um dos principais eventos deste último capítulo tem início com a irmã de Gregor tocando violino.

?Voz B

O Gregor se sente profundamente tocado pela música e, mesmo sujo e cheio de poeira e restos de comida, Gregor rasteja até a sala de estar.

?Voz A

Agora, gente, a intenção de Gregor é das melhores.

?Voz B

Ele só queria comunicar à sua irmã que no Natal passado ele a enviaria para o conservatório de música, só que esse plano foi infelizmente frustrado devido à sua transformação em inseto.

?Voz A

Agora, a sua presença na sala causou muita indignação, né? A gente tá resumindo bastante o que aconteceu, não vamos entrar nos detalhes, mas acontece que sua irmã acaba explodindo afirmando não mais suportar aquela situação.

?Voz B

E ela diz que é impossível usar o nome de seu irmão para designar aquele monstro.

?Voz A

Em alemão, ela utiliza a palavra Untier. Ela afirma que aquele animal está perseguindo a família e tá tentando se apropriar da casa inteira, empurrando a família para a sarjeta.

?Voz B

Então, Gregor vai rastejar lentamente de volta para o seu quarto Ele olha pela última vez para sua mãe e morre algum tempo depois em certa paz de espírito, pensando em sua família.

?Voz A

Na manhã seguinte, o Gregor é encontrado morto pela faxineira.

?Voz B

Ela se encarrega do descarte do corpo.

?Voz A

Vejam, não há um funeral, não há um enterro, não há nada disso.

?Voz B

A faxineira se encarrega do descarte do corpo.

?Voz A

Isso vai poupar a família de Gregor de qualquer trabalho que ele pudesse dar mesmo morto. E o pai de Gregor aparece agora transformado nele, reassume o lugar de chefe da casa que era exercido antes por seu filho, pelo Gregor. E após se certificarem que Gregor estava realmente morto, o pai de Gregor vai expulsar os senhores pensionistas que estavam alugando um quarto na casa, e a família sai para ter um passeio feliz logo após a morte de Gregor.

Vamos apresentar agora algumas maneiras de interpretar esta obra, A Metamorfose, de Kafka.

?Voz B

Veja, vamos começar falando sobre o caráter onírico da obra, porque o texto afirma que a transformação de Gregor Samsa em um inseto ocorre em uma noite de sonhos inquietos. Agora, a referência aos sonhos aparece no texto não apenas de forma explícita e e relacionada à metamorfose de Gregor, mas também na maneira como a trama se desenvolve. Porque vejam só que interessante, gente, a família reconhece o inseto como sendo o próprio Gregor em outra forma, mas em nossa vida de vigília, quando nós estamos acordados, se um evento semelhante ocorresse em nossa casa, o que aconteceria?

?Voz A

Nós tenderíamos a pensar que aquele bicho comeu a pessoa que estava antes no quarto, mas, de alguma forma, a família de Gregor sabe que aquele inseto é o próprio Gregor, mas em uma nova forma.

?Voz B

E esse tipo de experiência nós experimentamos apenas em sonhos.

?Voz A

Freud explica tal processo em sua obra A Interpretação dos Sonhos. O pai da psicanálise nos ensina que Através de um processo psíquico chamado condensação, diversos elementos do conteúdo latente são reunidos em uma única imagem no conteúdo manifesto.

?Voz B

Este fenômeno explica o fato de algumas vezes em nossos sonhos nós conversarmos com uma pessoa que nos aparece no corpo de outra, né? Por exemplo, nós sabemos no sonho que nós estamos conversando com João, mas o João nos aparece no corpo de Pedro. Agora, em nossos sonhos, isso não nos causa estranhamento algum, exatamente como acontece em A Metamorfose. A família de Gregor simplesmente sabe que aquele enorme inseto é o próprio Gregor transformado, de tal maneira que em momento algum são necessárias razões ou explicações para tal evento.

Então, o caráter fantástico e onírico da história se revela no fato de que Algo fantástico ocorre com um certo grau de naturalidade estranho ao mundo em que vivemos.

?Voz A

Nem a família, nem o próprio Gregor se perguntam por quê ou então como aquilo aconteceu.

?Voz B

Como se fosse normal, né, que as pessoas se transformassem às vezes em insetos durante a noite.

?Voz A

Agora, a relação com sonhos aparece também em uma provável fonte utilizada por Kafka. No início de A Metamorfose, o narrador nos conta sobre um quadro na parede do quarto de Gregor.

?Voz B

É o seguinte: é que ele recortou de uma revista uma imagem de uma dama com roupa de pele e a emoldurou em uma bonita armadura dourada.

?Voz A

Agora, o valor deste quadro é tão intenso para Gregor que, quando mais tarde sua irmã tentou rearranjar seu quarto a fim de lhe proporcionar mais espaço, O primeiro objeto que o Gregor tentou defender foi justamente este quadro.

?Voz B

Agora, Kafka provavelmente tomou essa ideia do romance Venus in Pelitz, de Leopold von Saramazor.

?Voz A

Observe que o sobrenome deste autor, tá, Saramazor, é Saram-hífen-mazor. É a origem do termo masoquismo, né, porque Mazor termina com CH, né, é como se fosse masoque. Daí vem a origem do termo masoquismo. E foi a partir desse autor, então, que eles acabaram introduzindo o termo masoquismo em 1886, na obra Psychopathia Sexualis. E a ideia era descrever uma forma de comportamento sexual desviante. Então, vejam só o que acontece, porque a gente pode mais uma vez relacionar a questão dos sonhos, a questão onírica e também uma questão sexual.

A metamorfose de Kafka. Vejam só, nós estamos falando desse quadro na parede de Gregor Samsa. Esse quadro é descrito logo no início da obra e depois o Gregor tenta defender este quadro depois de sua irmã. Então, esse quadro aparece duas vezes. E de onde que vem esse quadro no qual aparece uma dama vestida em roupas de pele?

?Voz B

Então, vamos lá. É que no romance de Zaha Mazor, a Vênus em roupas de pele aparece ao narrador da obra inicialmente em um sonho, e ela vai lhe explicar sobre a relação entre homens e mulheres. E ela vai mostrar que quanto mais cruel uma mulher se torna a um homem, quanto mais a mulher for infiel, quanto mais a mulher maltratar o homem, quanto mais ela brincar com ele de forma impiedosa, E quanto menos misericórdia a mulher mostrar ao homem, mais a mulher vai deixar o homem excitado.

?Voz A

E depois desse sonho, o narrador vai encontrar essa mesma imagem em um quadro na casa de um amigo, na qual a Vênus aparece com um chicote na mão e com um dos pés apoiado sobre um homem, como se esse homem fosse o seu escravo ou um cachorro. Então observe, este pequeno detalhe no quarto de Gregor Sansa nos revela que sonhos e questões sexuais podem ter desempenhado um papel mais importante na redação da obra do que nós podemos suspeitar inicialmente.

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?Voz B

Star Wars: The Mandalorian and Grogu, now streaming Agora, além do aspecto onírico de alguns eventos da obra, também a relação de Gregor Sansa com seu pai pode ser analisada em uma perspectiva psicanalítica.

?Voz A

Através do complexo de Édipo, nós podemos compreender não apenas a rivalidade de Gregor com seu pai, mas também aspectos importantes da configuração familiar. Vamos tentar resumir o complexo de Édipo em poucas palavras.

?Voz B

Segundo Freud, o complexo de Édipo é uma dinâmica em que a criança toma um dos pais como objeto de seus desejos eróticos, geralmente propiciado pelos cuidados e afeição dispensados à criança. Geralmente, a filha prefere o pai enquanto o menino prefere a mãe.

?Voz A

O menino busca então substituir o pai em sua relação com a mãe, e a menina quer entrar no lugar da mãe em sua relação com o pai. Agora, os sentimentos surgidos nessa relação não são apenas positivos, mas também negativos.

?Voz B

Só que tal complexo é rapidamente recalcado, mas ele continua operando no inconsciente.

?Voz A

Este complexo é bem ilustrado através da tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles.

?Voz B

Agora, Em A Metamorfose, aqui no Kafka, essa dinâmica não aparece em todos os seus aspectos, embora possamos percebê-la em pelo menos dois aspectos. Um é o fato de Gregor ser o provedor da casa e dois, a hostilidade do pai de Gregor contra ele.

?Voz A

Porque vejam só, ao ser o mantenedor da família, aquele que traz o pão para casa, O Gregor toma o lugar de seu pai, que era retratado até então como alguém fraco, sem energia, praticamente doente. Agora, este quadro muda quando o Gregor perde a sua capacidade de trabalho devido à sua transformação em inseto, levando-o inclusive a observar como que o seu pai parecia transformado agora que ele precisava voltar ao mercado de trabalho a fim de auxiliar nas despesas da casa.

?Voz B

Agora, o Max Brod, aquele amigo do Kafka, que eles se conheceram na universidade, que foi responsável por salvar as obras de Kafka, nós já citamos ele algumas vezes nesse episódio hoje, o Max Brod afirma que essa interpretação psicanalítica é limitada. Ele relembra que o Kafka conhecia bem a teoria freudiana, só que ele pensava que ela descrevia a natureza do conflito apenas de forma aproximada.

?Voz A

É algo que nós podemos identificar também no texto, né, porque de maneira alguma nós podemos afirmar que a intenção de Kafka era descrever o conflito com o pai em todos os detalhes do complexo de Édipo, mas o que importa é que os traços principais do Édipo estão presentes na obra.

?Voz B

E essa posição, a propósito, é defendida também por Deleuze e Guattari. Os autores franceses falam sobre um imenso Édipo em Kafka, que serve como uma saída perversa ou paranoica da opressão. É um tipo de levantar da cabeça, um olhar sobre o ombro do pai. Para Deleuze e Guattari, Gregor se transforma em inseto não apenas para escapar de seu pai, mas também para encontrar uma saída, um lugar onde o seu pai não possa encontrar ninguém para escapar do gerente da loja e dos burocratas.

?Voz A

De fato, se lembrarmos que, segundo Freud, os doentes fogem para a neurose por serem incapazes de enfrentar as exigências que a vida e o mundo lhes colocam, a transformação de Gregor também pode ser interpretada como uma fuga do pai e de um trabalho insuportável.

?Voz B

Mas veja bem, interpretações psicanalíticas como essa que apresentamos agora são rejeitadas por Walter Benjamin, um dos grandes nomes da filosofia do século 20. O pensador da Escola de Frankfurt afirma em seu texto Franz Kafka: Ao Décimo Aniversário de Sua Morte que leituras teológicas e psicanalíticas são duas maneiras de interpretar Kafka erroneamente. Teólogos afirmam que o tema de nossa culpa perante Deus é recorrente na obra de Kafka.

?Voz A

É considerado às vezes como neto de Kirchner e Blaise Pascal. E alguns religiosos interpretam as instâncias jurídicas e burocráticas das obras de Kafka como alegorias para temas como o reino de Deus, juízo final, pecado original e a graça de Deus, por exemplo. São temas que aparecem melhor ou mais claramente em obras como O Processo e O Castelo, não exatamente em A Metamorfose. Mas vejam, o Benjamin vai por outro caminho, né? Ele afirma, por exemplo, que o mundo do pai nas obras de Kafka é o mesmo que o mundo administrativo e burocrático, correlação que nós podemos notar até mesmo no fato de o uniforme do pai e suas roupas íntimas serem sujas, assim como são sujos os elementos da vida dos funcionários burocráticos.

E o pai, além disso, é o punidor e o acusador, funções que pertencem essencialmente às instâncias burocráticas de nossa sociedade.

?Voz B

Então, para Walter Benjamin, a obra de Kafka lida essencialmente com a questão da organização da vida e da comunidade humana.

?Voz A

Isso nos leva para uma outra possibilidade interpretativa, que é a questão da alienação e da reificação do trabalhador. Que é a mercadoria consciente de si.

?Voz B

Porque vejam só, a consciência social de Franz Kafka se revela não apenas em seus próprios textos, mas de forma ainda mais clara em seus diários.

?Voz A

Seu amigo Max Brod conta que certa vez, após ver trabalhadores acidentados devido ao uso de uma maquinaria insegura, Kafka fez o seguinte comentário: Vejam só o que Kafka afirmou, abre aspas: Como essas pessoas são humildes!

?Voz B

Em vez de invadirem o instituto e quebrarem tudo, eles vêm até aqui e apenas fazem solicitações.

?Voz A

Fecha aspas. Devido ao trabalho de Kafka, ele tinha que lidar com vários trabalhadores acidentados, era parte de seu cotidiano. Então, Kafka tinha um conhecimento de dentro do mundo do trabalho e da situação do trabalhador fabril, do trabalhador de fábrica no capitalismo. Ele próprio tinha um trabalho burocrático, mas ele conhecia de perto a realidade da fábrica. Inclusive, em minha dissertação de mestrado, eu finalizei um dos capítulos falando sobre o Gregor Sansa, né, porque o tema de meu trabalho foi o conceito de reificação em Georg Lukács, e é um conceito desenvolvido pelo filósofo húngaro a partir da discussão de Marx sobre a alienação e o fetichismo da mercadoria.

Então veja como é que nós podemos então, a partir de uma perspectiva social, de uma perspectiva de uma filosofia social relacionada à questão do trabalho, ler esta obra de Kafka, ler A Metamorfose. Vejam só como essa obra A Metamorfose é rica, né, porque nós já apresentamos uma possibilidade psicanalítica, mas nós também podemos ver essa obra de uma perspectiva social.

?Voz B

É porque, vejam só, para Marx a alienação significa um estranhamento de nossa própria essência humana enquanto seres sociais e produtivos. Já a reificação, nós podemos descrever de uma forma bem ampla, bem en passant, como se fosse a estrutura específica da alienação na sociedade burguesa.

?Voz A

Eu sei que essas definições são um pouco pouco didáticas e eu não espero que alguém aprenda sobre tal assunto através dessas breves menções. O objetivo aqui é apenas apontar para uma das possibilidades de interpretação mais interessantes de Kafka em uma perspectiva social, tendo em vista que o Gregor Samsa, após ser transformado em um inseto, ele se preocupa mais com seu trabalho do que com sua própria forma física. Então, vejam, a questão do trabalho ocupa um papel central na vida de Gregor Samsa, de tal maneira que nós devemos relacionar também a questão do trabalho na sociedade capitalista à transformação de Gregor.

?Voz B

E por quê? Porque, de certa forma, o capitalismo transforma todos nós em insetos. O capitalismo transforma todos nós em insetos.

?Voz A

Veja o seguinte: o trabalhador é apenas mais uma mercadoria no capitalismo.

?Voz B

Ele é obrigado pela miséria a vender uma propriedade humana, que é a sua força de trabalho, como uma mercadoria, como uma coisa que lhe pertence e que pode ser mensurada ou calculada em horas, né?

?Voz A

Você vende sua força de trabalho, por exemplo, você tem que trabalhar 8 horas por dia. Ou seja, a sua força de trabalho é mensurada como se fosse uma coisa.

?Voz B

Agora, o problema é que aquelas características que aparecem à burguesia como quantitativas, elas são, do ponto de vista do proletariado, qualitativas, porque elas envolvem toda a sua existência física e mental.

?Voz A

Então, o trabalhador, ao vender sua força de trabalho, a sua única mercadoria, entre aspas, e integrá-la a um sistema mecanizado e racionalizado que funciona independente dele, no qual o próprio trabalhador não passa de uma peça da engrenagem, o trabalhador acaba se integrando em sua totalidade a este sistema, tendo em vista que a sua mercadoria, isso é, a sua força de trabalho, é inseparável de sua própria existência. Por exemplo, você consegue separar a sua força de trabalho de você mesmo?

?Voz B

Não, ninguém consegue fazer isso.

?Voz A

A nossa força de trabalho é inseparável de nós mesmos. Então, quando a gente integra a nossa força de trabalho a um sistema mecanizado, a gente tá integrando a nós mesmos por completo, nosso próprio ser, a este sistema mecanizado. Marx afirma que quando o capitalista vai ao mercado para comprar trabalho, ele não se depara diretamente com o trabalho em si, mas sim com o trabalhador. O que ele compra é a força de trabalho, não a mercadoria trabalho.

À medida que o trabalho começa, ela não pertence mais ao trabalhador e não pode mais ser vendida por ele.

?Voz B

E essa situação leva ao que Lukács chama de autoconsciência da mercadoria, que seria um híbrido bizarro de humano e não humano, E isso é exatamente o que Gregor Sansa se tornou.

?Voz A

Repararam que Gregor Sansa é um híbrido de humano e não humano? Por fora ele é um inseto, mas por dentro a sua consciência é a mesma. Gregor Sansa é exatamente um híbrido bizarro de humano e não humano, exatamente como o trabalhador enquanto mercadoria na sociedade capitalista. Gregor Samsa seria, então, o que Lukács chama na literatura de tipo ideal, representando o trabalhador completamente atingido pela reificação.

?Voz B

Gregor acorda certo dia transformado em um monstruoso inseto, mas a sua vida interior permanece exatamente como antes. Ele não parece admirado de ter se transformado em um inseto.

?Voz A

Ele continua tendo as mesmas preocupações de sempre, como com seu emprego e sua família.

?Voz B

Mas agora não é apenas o seu interior que está coisificado, porque a reificação de sua alma se exteriorizou e tomou também o seu corpo, de modo que por fora ele é um inseto, mas por dentro continua um ser humano como antes. Então o Gregor Sansa se torna, né, usando a expressão de Andrew Finberg, um híbrido bizarro de humano e não humano uma expressão metafórica do indivíduo reificado, alienado, tornado coisa, assim como a mercadoria consciente de si. Este foi então o nosso episódio de hoje.

?Voz A

E lembrando mais uma vez que você pode encontrar meu novo livro intitulado Filosofia para a Vida nas principais livrarias físicas de sua cidade ou através do link disponibilizado na descrição deste episódio. Ali você pode encontrar também os links para os meus cursos de filosofia e psicanálise.

?Voz B

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?Voz A

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