Episódios de Filosofia Vermelha

O que é fenomenologia?

03 de agosto de 202629min
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Hoje vamos falar sobre fenomenologia, uma das tradições filosóficas mais ricas do século XX e fundamental não apenas para diversas áreas da filosofia, mas também para disciplinas como a psicologia, a psiquiatria, a antropologia, a sociologia e as ciências cognitivas. Nosso foco será principalmente a perspectiva de Edmund Husserl, seu fundador, mas iremos mencionar também algumas contribuições posteriores, como as de Martin Heidegger.

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Participantes neste episódio1
E

Edmund Husserl

HostFilósofo
Assuntos4
  • Fenomenologia e Merleau-PontyFenomenologia · Edmund Husserl · Martin Heidegger
  • Conceito de Fenomenologia de HusserlFenomenologia · Edmund Husserl · Franz Brentano · René Descartes
  • Epoquê e Redução TranscendentalEpoquê · Redução Transcendental · Edmund Husserl · Tensão EUA-Irã
  • Aristóteles e a MetafísicaIntencionalidade · Consciência · Aristóteles · Tensão EUA-Irã
Transcrição4 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
EHEdmund Husserl

Olá, amigos e amigas do saber! Sejam muito bem-vindos, sejam muito bem-vindas a mais um episódio. Hoje vamos falar sobre fenomenologia, uma das tradições filosóficas mais ricas do século 20, fundamental não apenas para diversas áreas da filosofia, mas também para áreas como a psicologia, a psiquiatria, a antropologia, a sociologia e as ciências cognitivas. Nosso foco será principalmente a perspectiva de Edmund Husserl, seu fundador, mas iremos mencionar também, em alguns trechos, contribuições posteriores como as de Martin Heidegger.

E lembrando que este episódio é uma contribuição dos nossos apoiadores na plataforma Apoia.se. Muito obrigado a todos vocês que mantêm esse trabalho no ar. E lembrando também que meu livro Filosofia para a Vida está quase se esgotando. A obra foi publicada pela Editora Vozes, uma das maiores e mais tradicionais editoras do Brasil, e por isso você pode encontrar meu livro nas principais livrarias de sua cidade ou no link que você encontra na descrição deste episódio.

Então vamos lá, vamos falar sobre fenomenologia. Veja, a Fenomenologia é uma das tradições filosóficas mais influentes do século 20. Suas origens remontam a Edmund Husserl, mas outros de seus mais influentes nomes são Max Scheler, Martin Heidegger, Edith Stein, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Emmanuel Levinas. Uma das razões da grande influência da Fenomenologia é que quase todas as novas formulações filosóficas da França e da Alemanha no século 20 são ou extensões ou reações à fenomenologia.

Isso nos mostra que, se quisermos de fato compreender algo sobre a filosofia do século 20, é imprescindível ter pelo menos uma noção básica do que é a fenomenologia. Nós devemos citar ainda as contribuições da fenomenologia a outros campos do conhecimento e também a própria filosofia, como antecipamos na introdução deste episódio. Porque, veja, a fenomenologia lida com temas tais como intencionalidade, percepção, emoções, autoconsciência, intersubjetividade, temporalidade e historicidade e verdade.

E além disso, são valiosas as críticas da fenomenologia ao reducionismo, ao objetivismo e ao cientificismo, contrapondo a tais tendências uma perspectiva mais detalhada da existência humana, em que o sujeito é compreendido como alguém imerso no mundo, na sociedade e na cultura. Vamos começar explicando, então, um pouco sobre a história do termo. Porque, veja, o próprio termo fenomenologia é geralmente associado a Edmund Husserl.

Atenção aqui, não confundir com Bertrand Russell, filósofo inglês com um sobrenome semelhante, mas de orientação filosófica bem distinta de Husserl. São dois filósofos distintos. Edmund Husserl, tá? Então, esse Husserl é em alemão e o Bertrand Russell, isso é em inglês. Husserl, Russell. Agora, quanto ao termo fenomenologia, né? A gente geralmente o associa ao Edmund Husserl, como estávamos falando. Só que a origem do termo é mais antiga ainda, de modo que nós já podemos encontrá-lo em Lambert, no século 18, e também em Hegel, do século 19, mais especificamente em sua obra Fenomenologia do Espírito.

Para quem acompanha aqui o podcast sabe que nós citamos frequentemente esta obra e temos um episódio especificamente sobre este texto. Agora, como frequentemente ocorre na filosofia, o Husserl faz uso desta mesma palavra, tá, que já foi utilizada por outros filósofos, mas agora para designar algo diverso e com pouca relação com o uso anterior do termo. E atenção aqui, ao estudarmos filosofia, nós devemos sempre ter isso em mente: uma mesma palavra pode significar coisas distintas dependendo do período histórico ou mesmo do filósofo, tal qual acontece com o uso do termo ontologia, por exemplo.

Então, nós citamos o Lambert. Veja, o Lambert, no século 18, entendia a fenomenologia como a doutrina da relação entre a aparência e verdade. Ele se interessava pelo problema da passagem da aparência para o verdadeiro ser. Só que esse tipo de investigação nada tem a ver com o projeto de Husserl. Agora, já o Hegel entendia a fenomenologia como uma propedêutica à filosofia, como uma introdução, um estágio preparatório para a própria filosofia.

Isso é, ele via a fenomenologia como a experiência das sucessivas formas da consciência em sua necessidade. Então, de certa maneira, o Hegel já antecipa o objetivo de Husserl de levar a filosofia de volta às próprias coisas, porque Hegel já havia afirmado que nós devemos primeiro abrir espaço para a seriedade da vida plena que leva à experiência da coisa mesma. Agora, qual que é a relação entre a fenomenologia de Husserl, que é o tema deste episódio, e essas concepções de Lambert e Hegel.

Na verdade, o termo nunca foi claramente definido pelo Husserl, ou então por seus sucessores, de tal maneira que nós devemos explicar em que consiste sua filosofia para só então a gente entender mais precisamente o que Husserl faz e chama de fenomenologia. Vamos falar brevemente, então, sobre os primórdios da Fenomenologia com o Edmund Husserl. Husserl nasceu no ano de 1859, na cidade de Prosnitz, na Morávia, atualmente a República Tcheca.

Isso na época ainda da monarquia austro-húngara. Então, após estudar em Leipzig, em Berlim e em Viena, Husserl obteve seu doutorado na Universidade de Viena, na Áustria, onde ele assistiu às aulas de Franz Brentano, uma de suas principais influências. Agora, entre os muitos filósofos que estudaram com o próprio Husserl, ou então assistiram às suas aulas, a gente pode contar Martin Heidegger, Edith Stein, Emmanuel Levinas, e durante um semestre em Freiburg, a Hannah Arendt.

Em seus primeiros escritos, o Husserl buscava interpretar a lógica de maneira psicológica. Agora, ao longo da década de 1890, em um trajeto que foi influenciado também pelas críticas de Gottlob Frege, Husserl se afastou progressivamente do psicologismo em favor de uma abordagem filosófica. E ele buscava, então, agora enxergar essências, no alemão Wesenheiten, nos fenômenos do mundo e extrair dali conhecimentos das estruturas mais fundamentais.

Em sua obra Ideias para uma Fenomenologia Pura e Filosofia Fenomenológica, uma obra de 1913, ele articula ideias da filosofia transcendental com o pensamento de Franz Brentano, assim como de René Descartes. Agora, em uma de suas principais obras, As Investigações Lógicas, Ele critica a interpretação psicológica da própria lógica, tal como aparece, por exemplo, em John Stuart Mill. Porque para Russell, as leis da lógica não podem ser alcançadas através do conhecimento indutivo, sendo verdadeiras independentemente da experiência.

E aqui então ele chega a uma conclusão de fundamental importância para o desenvolvimento da fenomenologia como nós a conhecemos hoje. Veja, é que depois de tanto tempo buscando pelas condições de possibilidade do conhecimento, a filosofia devia se voltar agora às próprias coisas e aos fenômenos. Nós acabamos de falar sobre as coisas e os fenômenos. Veja, para compreender a fenomenologia, nós devemos nos perguntar primeiro em que tipo de atividade ela se envolve.

O que significa fazer uma análise ou reflexão fenomenológica? Por exemplo, uma questão: a fenomenologia trata apenas da mente ou ela trata também do mundo? Quais são as diferentes formas em que podemos nos relacionar com o mundo? Qual a diferença entre falar sobre uma árvore e ter uma percepção dessa mesma árvore? Essas são algumas das questões básicas que devemos responder a fim de compreender o essencial da fenomenologia. Porque, veja, o termo significa basicamente estudo dos fenômenos, né?

Fenomenologia significa basicamente isso: estudo dos fenômenos. Mas perceba que também a palavra fenômeno está entre aquelas palavras muito utilizadas no cotidiano, mas que na filosofia tem outra acepção. Então, uma pergunta: será que a fenomenologia estaria interessada, por exemplo, no estudo do Ronaldo Fenômeno, o jogador de futebol? Um fenômeno seria algo espetacular, extraordinário. Os fenômenos que são objetos de estudo da fenomenologia são então de quais tipos e através de quais métodos nós devemos abordá-los?

Por grande parte da tradição filosófica, os fenômenos foram definidos como algo que se coloca entre o sujeito e o objeto. O fenômeno seria aquilo capturado por nossos olhos, por exemplo, sendo posteriormente apreendido através de nossas categorias. Nessa perspectiva, o fenômeno contrasta com o objeto de tal maneira que, para conhecermos o próprio objeto em si, Nós devemos ir além do que é meramente fenomenal. Então, veja, isso que nós acabamos de descrever não é a perspectiva da fenomenologia, tá?

Essa é uma perspectiva filosófica anterior. Isso não é a fenomenologia, porque, se fosse esse o caso, a fenomenologia se ocuparia apenas do que é meramente subjetivo, aparente ou superficial, em quase nada se diferenciando de tradições filosóficas anteriores. Como afirma Martin Heidegger na 7ª seção de sua principal obra, Ser e Tempo, o fenômeno é aquilo que se mostra, que revela a si mesmo. Em uma passagem de uma clareza incomum no contexto dessa obra, né, porque essa obra é bem difícil, mas tem uma passagem que é muito clara, o Heidegger afirma que É absurdo falar de fenômeno como algo atrás do qual haveria outra coisa da qual o fenômeno seria a aparência.

O fenômeno, então, não é algo atrás do qual existe outra coisa, de modo que nós não devemos buscar algo por trás do fenômeno, porque ele nos dá justamente aquela coisa em si mesma. Os fenomenólogos rejeitam uma filosofia de dois mundos em que há um mundo de aparências por um lado e outro mundo verdadeiro por trás desses mesmos fenômenos por outro. Agora, isso não significa, no entanto, rejeitar a distinção entre mera aparência e realidade, porque de fato há aparências enganosas no mundo.

Então, essa distinção não deve ser vista como uma separação entre dois mundos, mas como uma diferença diferença entre dois modos de manifestação. O fenômeno, então, não é algo subjetivo, um véu, ou então uma cortina de fumaça que esconde o objeto. Isso nos mostra, então, algo importante sobre o escopo e domínio da fenomenologia. Nós podemos dizer que a fenomenologia está interessada não primária ou exclusivamente na estrutura da mente, mas que o foco da análise fenomenológica é essa díade mente-mundo.

Vamos falar na sequência sobre intencionalidade, epoquê e redução transcendental, tópicos importantíssimos quando o assunto é fenomenologia. Mas nós faremos antes a nossa clássica pausa musical. Você ouvirá hoje a Suíte para Cello número 1 em Sol Maior de Johann Sebastian Enquanto você aprecia essa peça, inscreva-se em nosso podcast e nos avalie com 5 estrelas, porque assim você nos ajuda a chegar a mais pessoas. Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos aqui nos intervalos dos episódios, basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify.

Na terceira aba de nosso perfil no Spotify há um link direto para essa playlist. Voltemos então ao nosso tema: o que é fenomenologia? Veja, um dos conceitos mais importantes e fundamentais da fenomenologia é o de intencionalidade. Este conceito quer dizer basicamente que os nossos atos de consciência são sempre sobre alguma coisa. De modo que quando eu vejo, ouço, relembro, imagino, penso ou odeio, todos esses atos são sempre sobre algo.

Nossa consciência é direcionada, é sempre consciência de algo, e isso é o que recebe o nome de intencionalidade. Este é um termo genérico para esse apontar além de si mesmo que é característico de nossa consciência. E como quase sempre é o caso na filosofia, essa noção já tem uma longa história remontando pelo menos até Aristóteles, mas ela sofreu modificações ao longo do tempo, sobretudo nas investigações lógicas de Husserl. Agora, essa característica básica de nossa consciência tem inúmeros desdobramentos.

Um dos mais importantes é o fato de nos mostrar que a consciência, ao ser intencional, se ocupa primariamente de objetos e eventos que, por natureza, são essencialmente diferentes dela mesma. Um dos principais expoentes da fenomenologia hoje, o filósofo Dan Zahavi, nos fornece um exemplo interessante neste ponto. Ele pede o seguinte: olha, imagine que você esteja percebendo um bolo de aniversário. Por mais estranho que possa parecer, o bolo de aniversário que eu percebo é bem diferente da minha percepção dele.

Essa colocação soa contraditória, né? Mas a gente pode explicar da seguinte forma: o bolo de aniversário pesa 3 quilos, ele pode ser comido, Ou então utilizado para ser arremessado no rosto de alguém. Agora, já a minha experiência do bolo não tem peso algum, a minha experiência não pode ser comida e nem arremessada em uma pessoa. Então, se por um lado o bolo não é de ou sobre alguma coisa, a percepção do bolo é exatamente sobre alguma coisa, que é o próprio bolo.

O mesmo objeto pode ser percebido de diferentes maneiras. Cada tipo de experiência intencional é direcionado a seu objeto de uma maneira distinta, seja essa experiência uma percepção, uma imaginação, um desejo ou uma lembrança. Então, uma das tarefas da fenomenologia consiste em analisar essas diferenças em detalhes e mapear a forma com que elas se relacionam. Outros dois conceitos fundamentais da fenomenologia são o de epoquê e redução transcendental.

Eles são parte das considerações metodológicas da fenomenologia e são um dos temas mais complexos e mal compreendidos da obra de Husserl. Porque veja, Husserl insistia que certos passos metodológicos são necessários para que a fenomenologia alcance seus objetivos, de modo que ignorar tais procedimentos revela uma completa ignorância do próprio empreendimento fenomenológico. Lembremo-nos que a proposta da fenomenologia é um retorno às próprias coisas.

Enquanto a filosofia clássica alemã se ocupava da investigação das condições de possibilidade do conhecimento, Russell propõe reformular essa investigação e trazer a filosofia de volta às próprias coisas. É neste contexto que surge a necessidade de uma epoquê. E o que é então essa epoquê? Ela é considerada um tipo de suspensão, um colocar entre parênteses. Mas isso nos coloca a seguinte pergunta: ao nos voltarmos para as próprias coisas, O que é que deve ser colocado em suspensão ou entre parênteses?

E, para isso, há interpretações divergentes na tradição fenomenológica. Uma dessas interpretações afirma que o retorno às próprias coisas é um abandono de teorias, interpretações e construções. Vejam só, é um abandono de teorias, interpretações e construções. Então, o que nós devemos colocar em suspensão são as nossas ideias preconcebidas, os nossos hábitos de pensamento, os nossos preconceitos e pressupostos teóricos. Então, desse ponto de vista, em vez de chegarmos ao objeto já munidos de uma bagagem pesada, não, a tarefa da fenomenologia consiste em se voltar aos objetos sem preconceito algum.

E esse passo metodológico nos lembra a própria empreitada da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, porque também ali a consciência inicia suas experiências sem pressupostos. Agora, há também outra forma de compreender a epoquê. E nessa outra leitura, o que nós devemos colocar em suspensão é não apenas teorias tradicionais e preconceitos, mas, acima de tudo, nossas preocupações naturais e hábitos em relação aos objetos e eventos do mundo.

O objetivo da fenomenologia seria, então, revelar aspectos e dimensões de nossas vidas subjetivas que passam geralmente despercebidas devido ao nosso foco sobre os objetos. Isso de tal maneira que nós devemos expandir o nosso escopo de atenção a fim de tematizar e descrever aspectos despercebidos de nossa própria experiência interna. Isso é, olhar para dentro de nós mesmos e começarmos a enxergar o que é que nós fazemos ao tentar conhecer um objeto, porque tem muito mais em jogo do que a gente pode imaginar.

Perceba, então, que nessa parte do episódio, ao tentarmos explicar a epoquê, nós já apresentamos duas diferentes interpretações que tentam dar conta do que é essa suspensão, esse colocar entre parênteses chamado epoquê. Pois é, essas duas interpretações que apresentamos até agora embora muito influentes, são consideradas equivocadas por autores como o Dan Zahavi. Vejam só, segundo esse professor da Universidade de Copenhague, essas interpretações de fato contêm algum elemento de verdade, só que elas deixariam de fora o que ele considera o mais importante.

Porque a fenomenologia não seria nem uma guinada ao objeto nem um retorno ao sujeito. E, além disso, ela não tem nada a ver com um simples detalhamento descritivo dos objetos. Qual é o problema, então, com essas leituras? É que, ao pender ora para o sujeito, ora para o objeto, elas perdem de vista que o essencial no empreendimento fenomenológico é investigar tanto o sujeito quanto o objeto em sua inter-relação ou correlação. Então, ao compreender a epoquê das duas maneiras anteriormente mencionadas, o caráter essencialmente filosófico da fenomenologia é deixado de fora.

Se a fenomenologia se tornar apenas uma maneira de oferecer descrições detalhadas dos objetos, ela será apenas uma fenomenologia de livros de gravuras, algo rejeitado tanto por Husserl quanto por Max Scheler posteriormente. Então, reunir simples descrições, sejam de experiências pessoais ou de objetos, é um substituto simplório para o trabalho sistemático e argumentativo dos filósofos fenomenólogos. Como compreender então a epoquê?

A proposta de Zahavi é considerá-la não como uma exclusão da realidade, mas como uma suspensão de uma determinada dogmática em relação à realidade. Preste atenção nisso, é bem importante. É a suspensão de uma determinada atitude dogmática. Nós falamos aqui de uma atitude dogmática presente não apenas nas ciências positivistas, mas também em nossa vida cotidiana. Então, para pensar de maneira fenomenológica, nós devemos dar um passo atrás em relação à nossa imersão ingênua no mundo suspendendo nossa crença de que esse mundo existe de forma independente de nossa mente.

Ao suspendermos essa atitude e compreendermos que a realidade é sempre revelada e examinada a partir de uma determinada perspectiva, nós ainda temos em vista a natureza da realidade e a tornamos acessível à investigação filosófica. Como o próprio Russell afirmou certa vez: Nessa atitude de suspensão, nada é perdido, nada dos interesses e fins da vida no mundo. Então, a epoquê consiste em uma exclusão de um certo preconceito ingênuo em relação ao status metafísico do mundo.

Agora, a epoquê é apenas o primeiro passo, ela é apenas a porta de entrada do procedimento fenomenológico. A epoquê deve ser seguida por aquilo que Husserl chama de redução transcendental, quando vamos, então, examinar não apenas como objetos aparecem a nós, mas também como o quê eles aparecem. Então, vejam, ao analisarmos a maneira e como o quê os objetos se apresentam para nós, Nós descobrimos também os atos intencionais e as estruturas experienciais em relação às quais os objetos devem ser necessariamente compreendidos.

Então, a redução transcendental faz com que venhamos a apreciar nossas próprias contribuições subjetivas e a intencionalidade em jogo para que objetos do mundo apareçam da forma que aparecem e com a validade e o significado que possuem. Então, para Husserl, a redução transcendental consiste na análise sistemática dessa correlação entre subjetividade e o mundo, como uma análise mais prolongada levando da esfera natural de volta para os seus fundamentos transcendentais.

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EHEdmund Husserl

A questão pode ser resumida da seguinte maneira: tanto há e por quê. Quanto à redução transcendental, podem ser vistas como elementos em uma reflexão filosófica cujo propósito é nos libertar de nosso dogmatismo natural e naturalístico, nos tornando então conscientes da medida de nossa própria participação, isso é, na extensão de nosso próprio envolvimento no processo de constituição. A epoquê é a suspensão ou neutralização da atitude natural e de suas tomadas de posição, ao passo que a redução transcendental é a mudança de direção investigativa que essa suspensão torna possível, nos levando à análise da correlação entre mundo e subjetividade transcendental.

Este certamente foi um dos episódios mais exigentes que publicamos nos últimos meses, então eu sugiro que você ouça mais de uma vez, a fim de ter uma compreensão maior sobre o tema. E caso você queira aprender mais de filosofia comigo, inscreva-se em meus cursos. Os links estão na descrição deste episódio, em nosso site www.filosofiaepsicanalise.org. E não se esqueça que você pode encontrar meu novo livro intitulado Filosofia para a Vida nas principais livrarias de sua cidade ou em vários sites na internet, inclusive através do link da Amazon que eu disponibilizei na descrição deste episódio. Um grande abraço e até o próximo episódio.

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