#ConversaHumanista | T15 | EP08 | A autonomia corporal de crianças intersexo em risco
No oitavo episódio da 15a temporada do #ConversaHumanista, convidamos a presidente da Associação Brasileira Intersexo e doutora em educação, Thais Emilia Santos para debater sobre diversidade e a autonomia corporal de pessoas intersexo, colocada em risco por uma reolução do Conselho Federal de Medicina. O episódio é conduzido pelos repórteres Guilherme Vivan e Larissa Lunge, com edição de Guilherme Vivan, editor de audiovisual. Ouça!
Guilherme Vivan
Larissa Lunge
- Impactos da resolução do CFMPatologização da intersexualidade · Cirurgias desnecessárias e irreversíveis · Falta de participação de pacientes intersexo · Retrocesso em relação a tratados internacionais · Interesses econômicos na indústria médico-cirúrgica
- Vivência pessoal e registro de crianças intersexoPressão médica para cirurgias em bebês · Dificuldades no registro civil de crianças intersexo · Recorte de classe social nas cirurgias · Autonomia dos pais e crianças
- Autonomia PessoalResolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) · Diferenças no Desenvolvimento Sexual (DDS) · Cirurgias em bebês e crianças intersexo · Consentimento informado · ONU e moratória cirúrgica
- Direito à saúdeReposição hormonal para adultos intersexo · Prótese mamária para mulheres intersexo · Desigualdade de acesso a direitos no SUS · Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo (Lei Jacobo e Cristo)
- Diversidade e InclusãoDiferença entre intersexo e hermafrodita · 150 variações intersexo · Subnotificação de casos · Identidade de gênero e pessoas intersexo · Síndrome de Klinefelter
- Educação Sexual e Planejamento FamiliarEnsino sobre intersexualidade nas escolas · Explicação para crianças · Capacitação de professores · Desmistificação do tema
- O filme 'Minha Querida Senhorita'Privação de esclarecimento e autonomia · Cirurgias sem consentimento · Sofrimento mental e identidade negada · Mutilação e castração
- Diferenças entre LGBT e intersexoConfusão entre identidade de gênero e variação biológica · Sigla LGBTQIAPN+ · Desconhecimento e preconceito
Junho é o mês de celebrar o orgulho LGBTQIA PN+. Não é por acaso que essa sigla é tão ampla. Ela representa um universo plural e diverso de pessoas que não se enquadram na normatividade cis-heterobinária.
Cada letra corresponde a um grupo diferente, carregando particularidades, vivências e desafios próprios. A gente podia passar horas falando sobre qualquer uma delas, mas hoje vamos nos aprofundar na letra I, que representa as pessoas intersexo. Mas você sabe quem são as pessoas intersexo?
Tu deve ter aprendido na aula de biologia do colégio que um bebê pode se desenvolver no sexo masculino ou feminino. Sexo masculino com os cromossomos XY, pênis, testículos e testosterona e o feminino com os cromossomos XX, vagina e vulva, ovários, estrogênio e progesterona.
Mas a realidade é muito mais diversa e complexa também. O desenvolvimento sexual envolve fatores genéticos, hormonais e anatômicos. E pode acontecer de maneiras que não se encaixam necessariamente nesses padrões de masculino ou de feminino. Na medicina, essas variações são chamadas de diferenças no desenvolvimento sexual, ou DDS. Socialmente, o termo que mais se usa para se referir a pessoas com essas variações é intersexo.
No relatório publicado em 2019, a ONU estima que até 1,7% da população mundial seja intersexo. Porém, as pesquisas podem estar subestimando a quantidade real, porque muitos profissionais de saúde não notificam, e algumas pessoas nem sabem que são intersexuais.
Atualmente está acontecendo uma disputa entre ativistas e o Conselho Federal de Medicina. É porque no início de maio o CFM publicou uma resolução sobre o tratamento de pessoas intersexo que gerou questionamentos, sendo acusado de patologizar esse grupo e também de permitir cirurgias desnecessárias sem o consentimento dos pacientes, especialmente em crianças.
Na conversa humanista de hoje, vamos discutir a autonomia corporal de pessoas intersexo. Eu sou Larissa Lung. Eu sou Guilherme Vivã. E para nos acompanhar nesse episódio, a gente convidou a Thais Emília.
Ela está à frente da ABRAE, Associação Brasileira Intersexo, e também é doutora em Educação, trabalhando com a temática das pessoas intersexo a partir de uma perspectiva multidisciplinar. E todo esse trabalho começou com uma vivência pessoal. A Thais viveu a intersexualidade tanto no próprio corpo, como também com seu filho, Jacob. Obrigado, Thais, por topar conversar com a gente. Eu que agradeço.
Bom, a gente vai começar falando sobre terminologia. Talvez nossos ouvintes mais velhos tenham ouvido a descrição inicial e pensado ué, mas isso não é hermafrodita? Atualmente, algumas pessoas consideram o termo hermafrodita pejorativo e preferem a palavra intersexo. Além disso, o significado da palavra hermafrodita é mais limitado, né? São pessoas que possuem testículos e ovários, ou ovotestes, com presença ou não de genitália ambígua.
Intersexo é um termo mais abrangente, englobando diversas variações biológicas que não se enquadram nas definições médicas e sociais típicas de macho ou fêmea, sendo o hermafrodismo apenas uma delas. Em resumo, toda hermafrodita é intersexo, mas nem toda pessoa intersexo é hermafrodita.
Thaís, tu e outras duas autoras intersexo escreveram um livro intitulado 150 variações intersexo, lançado em 2024. Tu poderia nos contar um pouco sobre toda essa diversidade que o termo intersexo abrange? Então, quando a gente até pensou na escrita do livro, foi justamente por causa da subnotificação, que ela é muito difícil. Inclusive, em 2020, a gente...
submete um projeto, né, em 2021 para a ORAIT, para tentar fazer esse levantamento, né, do número das pessoas intersexo, né, a gente tenta chegar a fazer umas reuniões na UNESP, a DEF, para fazer esse levantamento, só que essa pesquisa, né, acaba tendo algumas intercorrências e não vai adiante. Então, assim,
E a gente sabe o quanto é subnotificado. Por exemplo, o Jacob, com toda a história dele, tem ali uma declaração do hospital de sexo indefinido e tudo mais, ele não foi notificado nos sistemas do governo. Então, assim, na minha família tem quatro pessoas intersex, nenhuma foi notificada. Então, a gente sabe o quanto é subnotificado. Do meu doutorado eu trago ali do lado do SINASC, né?
E eu sei o quanto é subnotificado, porque eu levanto ali até os dados do ano que o Jacob nasceu, e eu sei que o Jacob é o ano que não foi notificado, assim como várias outras crianças que depois eu conheci. Então, a gente pensa ali no livro 150 variações intersexo, por duas questões. A maioria das pessoas intersexo não se reconhecem como intersexo, porque elas conhecem a terminologia da síndrome que elas têm.
Então, geralmente, alguma síndrome dos homossexuais, ou de uma DDS, né, que é a diferença do desenvolvimento do sexo, que há anos atrás era distúrbio do desenvolvimento do sexo e antes ainda não havia o desenvolvimento do sexo. Como existe uma postura ética humanizada, os profissionais que cuidam de pessoas, né, eles usam o termo diferença do desenvolvimento do sexo. Agora, os que...
objetificam doenças e pacientes vão usar no termo de estúrbios, né? E aí, o que que acontece?
a gente, isso se torna uma dificuldade, porque quando você vai levantar a população interseps, se você perguntar quem é interseps, vai ter muita gente que tem uma DDS, ou uma síndrome dos cromossomos sexuais, ou uma variação anatômica, que não conhece o termo interseps. Eu mesma não conhecia o termo interseps. Eu fui conhecer o termo interseps com 38 anos, quando eu tive o Jay.
porque o meu médico veio falar para mim, olha Thaís, a condição, lendo sobre intersexo em relação ao seu filho, que ele também nunca tinha escutado o termo, no pré-natal ele falou até, olha, ele tem uma má formação genital, que é outro termo que é muito utilizado, má formação genital. E aí, o que acontece? Quando eu acessei o termo intersexo através ali do doutorado,
eu levo pro meu médico e ele começa a ler muito sobre intersexo. Aí ele falou, nossa, como a medicina tá atrasada, o que se falava na década de 70 é até hoje, né? E realmente o termo intersexo faz muito sentido. E ele falou, e pensando no conceito intersexo, que ele é mais amplo, muitos falam que é um termo guarda-chuva pra várias DDSs, né? Você é uma mulher intersexo, né? Porque a condição que você tem, que a gente cuida desde ali da sua adolescência até hoje,
é uma condição intersex, então você é intersex. E pensando nisso, e tendo ali a partir do trabalho da Abrae, das triagens que a gente faz, e não só o trabalho da Abrae, do meu trabalho também, pesquisa e tudo mais, a gente percebe o quanto é importante que as pessoas pensem, né? Ah, eu tenho tal síndrome, isso é intersex, então isso é intersex, pra gente conseguir fazer esse trabalho de levantamento, né, pra políticas públicas. Então, quando a gente escreve esse livro, né, é um livro,
De luta por direito social. Não é um livro de medicina. Às vezes as pessoas falam, né, a gente já recebeu uma crítica, né. Uma vez um médico me falou assim, Ai, vocês se atreveram a escrever um livro de medicina? Nenhuma é médica? Aí eu peguei e lembrei que a válvula pra hidrocefalia, que foi criada, foi um pai que era mecânico.
E ele não era médico, ele teve um filho com hidrocefalia, e aí ele começou a ler e estudar um monte sobre isso, e ele era mecânico, e ele pensou, nossa, então a questão do líquor, do mesmo jeito que num carro não passa, né, por lubrificação, então vamos fazer uma válvula, e faz essa válvula e funciona. Então, assim, basta, né, pensar, refletir, ou ter o pesquisador que você consegue, né, você não precisa ser médico.
falar de doenças, né, você tem outras perspectivas, né, e ou para falar de saúde ou de condições corpóreas. Então, eu respondi isso, né, da questão ali da válvula de hidrocefalia, e falei isso aqui, olha, não é um livro de medicina, é um livro que a gente está fazendo uma luta por reconhecimento, né. Então, a gente vem dessa ideia desse livro.
de levantar todas as condições corpóreas entre síndromes, má-formações, anomalias, diferenças, distúrbios, como queiram chamar, tá? Então, ali, é intersexo. E aí, funcionou, e funcionou muito, porque a gente põe uma introdução ali mais crítica, apresenta em cada capítulo apenas o que os livros de genética falam, de cada síndrome, e pronto. O que acontece nesse livro? Eu percebo muito quando a gente faz...
Aí, sei lá, Target Autógrafo, lançamento e eu tô junto, as pessoas vão comprar, elas abrem. Nossa, então de Genesia, é... Bonadal é intersexo? É. Ah, então meu neto é. Ah, então Criptorquidia é intersexo? Meu, meu sobrinho é. Então, assim, várias pessoas que estavam ali não se reconhecendo. Então, a ideia do livro tem funcionado muito e muitas pessoas nos procuram. Que é pra gente conseguir levantar essa estatística, né?
Então, a terminologia vem disso, mas eu, enquanto psicanalista, eu acho muito importante respeitar como a pessoa se vê nessa condição. Se eu me vejo, e tem porquê me entender como mulher intersexo e mulher epsogênera, tem um porquê. Epsogênera no sentido de que eu fui registrada como menina, eu me entendo como mulher, porém que o meu...
Corpo ser lido como menina, eu sempre tive que usar bloqueador hormonal, hormônio e tudo mais. E alguns procedimentos estéticos. Que é diferente da mulher cis. A mulher cis não precisa. E a mulher trans também é outra condição. E ali tem a identidade da pessoa intersexo, que se identifica com o gênero atribuído ao nascimento. Então, a pessoa é psogênero. E por que ela é psogênero? Porque a pessoa intersexo, gente, ela é intersexo.
Se eu não tomar bloqueador normal e tudo mais, eu vou ter pelo, eu vou ter uma série de questões no meu corpo que eu não quero. Porque na nossa sociedade não pertence ao feminino e eu me identifico com o feminino da forma que a sociedade entende. É bem complexo, né? Então, por isso que a identidade é o seu gênero.
Porque a identidade da pessoa intersepto se identifica com o gênero do nascimento. Assim como um homem, por exemplo, que tem a síndrome de Kleinfelter, ele vai ter na puberdade uma produção menor de testosterona, a virilização é afetada e tudo mais. Então, o que vai acontecer? Eles fazem uso de reposição hormonal. Se ele não fizer uso de reposição hormonal, ele vai ter ginecomastia e peito.
de ginecomastia, lido como um corpo feminino, e não como um corpo masculino. Por mais que ele tenha pênis, então é algo que também, então se ele identifica como homem, foi registrado como homem, ele precisa fazer uso de reposição hormonal para ser lido como homem, ele também não é um homem cis, mas ele também não é um homem trans. Ele é um homem de psogênero. E do mesmo jeito que o termo mulher de psogênero pra mim é perfeito, porque eu fiquei a vida inteira com uma guerra hormonal no meu corpo, pra...
Minhas gestações eu tive que fazer um monte de tratamento, né, a maioria das mulheres não precisam. Eu precisei tomar vários hormônios para manter a gestação, porque o meu organismo não produz esses hormônios naturais, que as mulheres, a língua que fala, mulheres biológicas, por exemplo, ou um corpo fêmea, né, produz. Então eu tenho que fazer toda essa reposição, então é uma vivência diferente sim. Agora...
O que acontece? Eu acho importante a gente sempre respeitar como a pessoa se vê. Não é porque o intersexo está lá, está na sigla LGBT, que a gente tem que falar, você é LGBT porque você tem uma DDS, você intersexo e pronto. Gente, é a vivência da pessoa. Se é para ela, ela se vê como um homem ou como uma mulher que tem uma síndrome de escromoção homossexuais, algumas vão falar, eu tenho uma má formação.
E aí eu nasci com meio útero, ou eu tenho uma má formação no ovário. E pra essa pessoa, é a forma que ela se sente bem, a gente tem que respeitar. A gente não pode falar sem ter sexo e pronto, ou você tem uma anomalia e pronto. Pra mim é ruim ter uma anomalia, mas pra outras pessoas, o termo anomalia é o que satisfaz. Por isso que é importante a gente respeitar. Nas triagens da Ambrai, a gente tem ali o psicólogo que faz a triagem, a desigualdade social.
a gente respeita como a pessoa fala de si mesma, porque a fala é muito importante, o que ela entende sobre si mesma, e às vezes esse entendimento, essa compreensão também vai mudando, igual quando eu fui me compreender, como mulher intersexo, mulher psorjeira, para mim, nossa, foi perfeito.
né, isso. Antes era aquela coisa, ai, tô com dor, tenho que ir no hospital, ai, tenho que ver meu ovário, ai, tenho que fazer exame, ai, esse hormônio não tá dando certo. Era essa a vivência, mas eu entendia como algo assim, muito doentio, patológico. Então, essa terminologia fez pra mim sair do patológico, mas pra outras pessoas, por isso que eu acho muito importante respeitar a vivência. E o que eu acho muito importante
Voltando ali na pesquisa dos 150 variações intersexo, o que foi mais importante é que a gente queria mostrar que existe muito mais pessoas intersexo do que a gente imagina, do que esse 1,7%. Então, o que a gente fez? A gente pegou de cada variação que a gente foi levantando, tem muito mais de 150, porque tem os novos achantes. Por exemplo, tem carióticos que são feitos, que aparece uma mutação que não tinha uma...
deleção de cromossomo, essas coisas, e isso afeta, impacta o metabolismo e a parte hormonal da pessoa, e vai trazendo a vivência intersex, então tem muito mais. Mas o que acontece? A gente pôs para calcular, a síndrome Kleinfelter, cada 600 de nascimento, uma pessoa é Kleinfelter. A síndrome de Nuna, cada 10 mil, um é Nuna.
Síndrome de... E a gente foi calculando todas essas estatísticas e a gente, quando põe ali, e eu usei um recurso ali da estatística ali, de alguns software mesmo, de estatística da Unesp, que é a instituição que eu fiz graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, a gente chegou nesse número de 10,95% da população.
Esse 1,7% tá muito calculado nos nascimentos. Ah, nasceu com genital que a gente chama típico. Ah, nasceu com genital diferenciado. Então, mas a maioria dos casos descobre na puberdade. Ah, não menstruou, vai investigar. Ah, o menino não tá desenvolvendo, não tá virilizando, vai investigar, descobre. E muitos casos descobrem na vida adulta.
Tá tentando engravidar, não consegue, vai fazer exame, descobre. O homem descobre que não produz espermatozoide, vai fazer exame, descobre, que é intersexo. E já vi muitos casos em idoso. Então, quando a gente calcula pelas variações corporais, pela síndrome...
Como quiser chamar, a gente chega nesse número. Então, é por isso que é um termo tão desconhecido, mas que ainda assim representa tanta gente. Tem essas duas coisas que tu falou. Primeiro, uma diversidade de síndromes ou variações, e pessoas que sabem que tem essas síndromes ou variações, mas...
não usam essa nomenclatura intersexo, se tudo bem, né? Cada um se identifica como se sente à vontade. E, além disso, também tem várias variações que não são descobertas no parto e não são notificadas. A pessoa só vem descobrir depois. A maioria...
E eu acredito também que, eu acredito que tanto no teu trabalho, com as pessoas intersexo, e como a tua formação na área da educação, talvez tu perceba que talvez falte ensinar as pessoas, desde cedo, né?
o que é uma pessoa intersexo, né? Tanto que tu comentou, ah, daquela crítica do livro, que um médico veio, poxa, que bom seria se os médicos falassem mais sobre isso, né? Não, tem que vir de uma luta, né? Então, eu queria saber da tua opinião, né, como...
trabalhando com essa temática e da área da educação, se tu acha que falta esse ensino, quando as crianças estão se socializando, de o que é uma intersexo, que é uma variação, mas que está tudo bem, né? Eu queria um pouco que tu contasse um pouco sobre isso para nós. Então, eu percebo que as crianças que crescem sabendo que são intersexos é de forma muito natural, principalmente as que crescem vindo na Abraia e brincando com outras crianças intersexos. Isso é muito saudável.
E a ponto de uma criança chegar um dia pra mim e falar assim, nossa, na minha escola nenhuma amiguinha sabia o que era intersexo. Tipo assim, nossa, faz tanto parte do universo dela, que ela vai na escola e se surpreende que os outros não sabem, né? Então, assim, é bem interessante como é colocado, né? Então, uma explicação, falaram assim, esse dia, como você explica a uma criança o que é intersexo, né?
E aí, né, e para as próprias crianças eu falo para, às vezes, né, eu tenho que ter a escuta da criança, né, a gente entender como ela está compreendendo essa situação e explicar a partir da escuta da criança. Então, nesse caso, essa criança que eu falei para como ela pode explicar para as amigas, ela na escola dela tem um pouco de educação sexual e eles falam muito assim, tem aquela musiquinha da parte íntima, ah, é aqui, pode furar a mão, aqui não pode, tem uma musiquinha, né.
E da parte íntima, a parte íntima é só o médico e a mamãe cuida, tem umas musiquinhas assim, né? E aí eu peguei e falei assim, olha, o intersexo é assim, é quando a parte íntima da menina ou do menino é um pouco diferente. Olha que simples! E ela entendeu e começou a explicar, e quando nasce com a parte íntima um pouco diferente das outras meninas ou dos outros meninos. Pronto. Tá vendo que às vezes a gente cria tabu, cria...
Nossa, né? Ai, que difícil. E é tão simples. Eu dou muita capacitação em escola. Porque professores, diretores, e olha, gente, do mesmo jeito que tem criança intersex, tem professor intersex, tem diretor, eu vou fazer palestra, ah, Thaís, eu tenho perplasia adrenal, tenho virilização, então eu sou intersex. Tem professor que nem fala, nossa, agora, né? Ai, caiu uma ficha agora na minha vida. Então acontece isso. E muitos professores de ciências...
Muitas escolas, hoje, dão uma aula de ciência já explicando de intersexo, explicando da vivência intersexo, que é a vivência de quem tem uma DDS, né, que é uma explicação mais fácil. O que é intersexo? É a vivência psicossocial de uma pessoa que nasce com uma DDS. A DDS é o diagnóstico médico. O intersexo é a vivência, é o impacto psicossocial de se nascer com uma DDS. Essa explicação tem sido muito boa, assim, nas escolas.
E aí eu vejo as escolas hoje como um espaço não tão assim, quando as pessoas falam das dificuldades de escola, tem, mas tem outras escolas que não, que estão mais abertas. E aí eu acho interessante quando essas situações, assim,
de professor de ciência que conta, eu fui explicar, quando dá aula de genética do oitavo ano, que explica o XX e o XY, aí eles explicam também as outras, o X0, o XXY, o XXX, e aí teve um professor que eu entrevistei, ele até no meu doutorado, que ele explicava que quem tem essas variações são intersexos, de uma forma muito humana. E aí eu falei, e como que o pessoal reage? Você sofre uma repressão dos pais? Não, normalmente...
Os pais vêm agradecer pra mim, e tem alunos que vêm falar, professor, eu sou uma mulher com insensibilidade androgênica, eu sou xifro, eu tenho vulva, ai professor, ninguém nunca explicou de uma forma que eu me senti tão acolhida, e chora e abraça ele. Então a gente tem iniciativas legais, né, no meu doutorado eu trouxe, porque foi uma pesquisa qualitativa, né.
estudo de casa, então eu trouxe entrevistas pontuais de pessoas que estavam fazendo trabalhos bem interessantes. Que legal, Thais, que legal ouvir histórias de pessoas se entendendo, tratando, tratando com crianças, professores tratando com crianças, e ver como esse tema pode ser algo tranquilo, algo...
assim, feliz, né? A gente é muito engessado nos gêneros feminino e masculino e tenta ficar sempre encaixando as pessoas em alguma coisa.
E o próprio fato disso ser um tabu é o que torna isso tão difícil as pessoas lidarem depois. Se isso é uma coisa que já é tratada desde a criança, olha, o teu vai ser um pouco diferente do dos outros e está tudo bem, ninguém é igual a ninguém. Então, a questão de ser um tabu que é o mais difícil. Nossa, eu acho máxima a explicação. Tem uma mãe de uma moça intersexo e ela mora em uma cidade que tem 3 mil habitantes. No interior.
de meninas, e ela tá rindo. Ela fala que a filha dela é intersexo pra todo mundo, né? Aí uma cliente dela um dia perguntou assim, ai, por que você fala que a fulana é intersexo? Mas ela não é lésbica, porque as pessoas confundem. Eles acham que intersexo tem a ver com ser trans, lésbica, gay, e eles misturam tudo, porque tá no LGBT, eles não entendem que é uma questão biológica, tem uma mistura.
um pouco dessa mistura cuba também do movimento LGBT que às vezes faz vídeos essas coisas falando de intersex meio misturando ali com não binário com que faz uma confusão enorme e aí que que aconteceu ela falou assim ai Thais eu expliquei para ela assim ai a minha filha intersex nasceu sem os ovários é isso é
Aí eu falei, nossa, que simples. Em vez dela falar, né? Ai, da congruência. Às vezes eu vou explicar. Eu explico. Ai, de toda congruência corporal, xixis, com vulva, ou vá, não sei o quê. Hormônios femininos. Eu dou uma explicação tão técnica. E essa mãe, um dia que ela falou isso, eu falei, nossa. Que maravilhosa. Ela simplificou, assim. Então, assim, é isso, né? Às vezes a gente complica muito. É mais simples.
É, eu acho interessante que tu falou isso do pessoal que mistura os LGBT, tudo, né? E eu já vi uma entrevista do pessoal da Brai falando que às vezes é por desconhecimento e às vezes é por preconceito, né? Então, só assim, se alguém ainda tem desconhecimento, explicando para os nossos ouvintes, a sigla LGBT, ela envolve tanto uma diversidade de questões de orientação sexual, que é...
quem tu ama, com quem tu escolhe te relacionar, ou se tu não escolhe se relacionar com ninguém, que é o caso dos assexuais, né? Então, aí temos as lésbicas, os gays, os bis, os punks e os assexuais. E nós também temos a questão de identidade de gênero, que é com o gênero que tu se identifica. E aí nós temos...
os trans, os não binários, e o intersexo é mais ligado a uma questão biológica do nascimento. Então, aí, descomplicando a sigla LGBTQIAPN+, que é para ninguém mais falar que não entende, que se confunde, não tem mais motivo para falar errado, né? Boa. Bom, se vocês me permitem mudar um pouco de assunto para a gente falar daquela coisa da resolução do CFM, né? Que...
que está preocupando bastante. Em maio, o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução que regulamenta o diagnóstico e tratamento de pessoas intersexo. Essa resolução foi criticada por alguns ativistas e especialistas, principalmente por duas razões. Primeiro, por nomear a variação sexual como distúrbios de desenvolvimento sexual e não diferenças de desenvolvimento sexual.
e também por ser um pouco permissivo, com cirurgias desnecessárias e irreversíveis em órgãos genitais de bebês e de crianças, e logicamente, como são bebês e crianças, sem poder dar o consentimento. Em resposta a isso, a deputada federal Erika Hilton protocolou um projeto de decreto legislativo pela suspensão dessa resolução. Esse projeto ainda está tramitando.
É importante destacar que desde 2016 a ONU já vem orientando governos a proibirem essas cirurgias forçadas e coercitivas.
e outros procedimentos médicos desnecessários às crianças intersexo, especialmente em casos onde não houvesse consentimento. Inclusive porque essas cirurgias vão contra a moratória cirúrgica, que é, se não é necessário para a saúde física da criança, para ela permanecer viva, não tem por que interferir. E acontece muito de acontecer essas interferências, infelizmente ainda hoje.
e o Conselho Federal de Medicina, essa resolução, está indo completamente contra essa resolução da ONU, que já vem há 10 anos, né? E a gente tem que perguntar, Thais, quais são os impactos que essa resolução pode causar na comunidade intersexo, né? Em bebês que nascem e não têm sua autonomia respeitada.
Na verdade, essa resolução, na minha opinião, que lido na prática com atendimento de pessoas intersexas no Brasil inteiro, que a gente faz triagem, caminha e tudo mais, assim, ela não é nova, né? Ela vem desde 2003. E aí, devido a gente... Uma reunião na ONU, uns anos atrás. 2013, então, foi a última resolução do Conselho de Estado. Vinha 2003. 2013. Super desafio. 2013.
Ah, 2003. É, super desatualizada. Em 2006, a gente tem o consenso de Chicago. Depois, em 2013, a ONU e a Organização Mundial de Saúde consideram essas cirurgias procedimentos estéticos, tá? Tem procedimentos que são necessários em crianças intersexos. Existem bebês que nascem com obstrução ali da origina, sem órgãos e várias coisas precisam, sim, de cirurgias. Mas a gente sempre fala das cirurgias...
estéticas que podem ser postergadas e tratadas depois, cuidadas com autonomia, com a participação. A criança é o sujeito de cita no estatuto da criança e do adolescente. Mas o que acontece? Em 2013, a Organização Mundial de Saúde considera esses procedimentos como tortura. E o Brasil continua com a resolução de 2003. E aí, a gente faz em 2020 ou 21, acho que 2021.
a audiência pública da Defensoria Pública da União. A Abraia organiza ali, junto com a Defensoria Pública da União, e a gente aponta ali, a minha fala nessa resolução, inclusive, ela está publicada, eu faço uma análise dessa resolução de 2003, apontando o quanto ela viola os corpos intersexo e a integridade de não entender a criança quanto sujeito. Posso afirmar, eu enquanto pedagoga...
tem mistério, doutorado em psicologia e educação, a criança é sujeita, ela tem que ser vista como sujeita, e isso está na legislação também, não sou eu que estou falando. E aí, a gente aponta uma série ali de violações, né, e aí em algumas conversas na ONU a gente também aponta isso, e aí tem uma reunião com alguns médicos nesses anos, ali entre 2019 e 2021.
E aí é necessário que eles façam essa atualização. Então esse trabalho vem ali, né? Da nossa militância, da nossa luta e tal. E aí essa atualização tem um ponto muito complicado. Não teve a participação de pessoas, de pacientes. Os pacientes não foram escutados, os pacientes intersexo, né? Ou se teve, teve só um recorte, né? Sabe aquela questão que eu falo de ser realmente democrático muito difícil.
E eu falo isso pela Braia, a gente realmente é democrático e a gente é apartinário. A gente atende todas as pessoas. Se vier uma gestante de um bebê intersexo, a gente atende. Um adulto, um idoso, se a pessoa for de direita, de esquerda, conservador, não conservador, LGBT ou não, nós atendemos todas as pessoas e temos todas as escutas. Ah, eu tenho uma anomalia, tá bom, eu sou intersexo, tá bom. Porque a gente está pensando na integridade daquela pessoa. Ou daquele bebê que está ali na barriga.
E aí faltou isso por parte do CFM. Vamos escutar todos? Por que que tá tendo tanta reclamação? Não vamos escutar só os casos de sucesso. Vamos escutar os casos que essas cirurgias deram muito errado? Então não adianta falar que escutou o paciente, mas tem que escutar todos os pacientes. Não os pacientes só de um ambulatório, referência, que tem equipe multi. Não é a realidade de todo o Brasil. Brasil tem muitos territórios, muitas culturas, muitas singularidades.
senão não existia a Braille que teria que fazer tanta triagem porque nasce pessoas intersex no Brasil inteiro então quando vem essa resolução e afirma
né, abolindo o termo intersexo na conceituação e colocando distúrbios, em 2019 teve um congresso com pessoal que faz parte do consenso de Chicago, lá na Universidade de Saúde, na Faculdade de Saúde Pública da USP, eu participei, e lá estavam todos esses pesquisadores e muitos que estão nessa
no CFM e foi lá votado, vamos mudar o termo de distúrbios e desenvolvimento do sexo para distúrbios e afinal, e foi votado, isso ali tá lá no meu doutorado, tá documentado, tem foto desse dia e gravação. E a gente votou, e diferença foi votado, inclusive por médicos que depois aí no CFM votaram o termo para distúrbios. Então o Brasil, mais uma vez, está retrocedendo a algo que é um tratado internacional.
É um congresso internacional. Então, a gente tem ali OMS falando de tortura, consenso de Chicago mudando terminologia e o Brasil voltando para trás. Por quê? A quem isso afeta? A indústria farmacêutica? A indústria médico-cirúrgica plástica que ganha muito dinheiro com isso? Gente, a questão intersexo não é uma questão de gênero, não é questão de conservadorismo.
tá? Não é, essas cirurgias não existem porque a sociedade é conservadora, porque eu atendo pessoas evangélicas, tem pastor de igreja que manda criança pra gente, eu atendo pessoas de direita, pessoas de esquerda, pessoas da Umbanda, pessoas de toda religião, e eu sei que a questão intersexo não é por conservadorismo religioso, é por uma questão econômica que a gente cairia muito mais numa questão marxista do que numa questão conservadora, tá? Só que ninguém fala disso, né?
E quem fala sofre misoginia, que sou eu, e é silenciada. Então, o que acontece? Vamos além. Eu concordo com a resolução do Conselho Federal de Psicologia, que vai definir pessoas intersexo, com uma variação natural, vai falar ali da função do psicólogo, que ele não pode impor uma identidade de gênero para a pessoa intersexo, vai falar da escuta, do acompanhamento.
E o que é mais legal da resolução do Conselho Federal de Psicologia de 2024, que ela está muito à frente em termos de humanização e de ética, ela foi construída com a escuta de várias pessoas intersexas. Então, quando eu chego lá, eu vou na portinha do Conselho Federal de Psicologia, bato lá e falo, olha, tem psicólogo que não sabe nem o que é intersexo, vamos fazer alguma coisa?
Aí, a presidente ali do CRP São Paulo, a Thalita, faz a primeira nota técnica, depois a gente transforma em federal, a gente faz uma escuta de todas as pessoas intersexas. As felizes com suas cirurgias de beleza, as que não estão felizes, as que se entendem como uma malformação, como intersexas, a gente cria um grupo de trabalho muito grande, que foi o mesmo que a gente criou.
para protocolar o Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo, a Lei Jacobo e Cristo, que está em tramitação no Congresso Federal, que se essa lei foi realmente aprovada, a gente não precisa do CFM fazer isso, é uma lei federal, está acima. E está tramitando, tendo para ser favorável a virtude, da direita à esquerda, porque a gente está falando de uma questão de saúde pública, e de violação da infância, que é muito grave violar a infância.
Então, o que acontece? O CFP escutou as pessoas, o CFM não escutou. Ah, batemos na porta do CFM, alguns lugares no CFM tem escuta, viu? Então, assim, eu quero dizer que não é todo o CFM que concorda com isso que foi resolvido. Algumas pessoas que estão no CFM não concordam.
Então, assim, é um dilema bem complexo, bem complicado, tá? E, assim, é um retrocesso, mas diante de tudo nesse contexto, a gente tem um avanço. Ali fala de finalmente fornecer hormônio para adultos intersexos e reposição hormonal. A outra resolução não tinha isso, que é um grande problema de saúde pública.
Por exemplo, um homem Kleinfelter, se ele vai no ambulatório trans ou no ambulatório do SUS, com a sua receita médica do SUS pegar testosterona, ele não tem direito. Um homem trans tem direito. Existe uma desigualdade de acesso a direito à saúde no SUS, que a gente já apontou isso no Ministério da Saúde, eu já fiz um ofício.
Coloquei tudo lá, já estou tendo reuniões, por quê? Esse trabalho dos bastidores é o mais importante, né? E não ficar ali na rede social levantando bandeira. O mais importante é a gente estar em loco. E aí, o que acontece? Está tendo uma escuta e tudo mais. Não pode ter desigualdade de acesso ao tratamento médico. Por exemplo, mulheres intersexas não têm direito a prótese mamária pelo SUS. A mulher trans tem. Então, isso é uma desigualdade de acesso a direito.
Então, eles vão ter que corrigir isso. Já protocolando o projeto de lei com a Duda, com a Érica, com várias deputadas, tá? Inclusive de pródice mamária para mulheres intersexo, né? De reposição hormonal para homens intersexos. Porque hoje se chegar... O que que os ambulatórios chegam a falar? A gente recebe denúncia de tudo, gente. A Braia é muito grande. O trabalho é grande.
um homem Kleinfelter chega pra pegar a testosterona, eles falam, ah, você não pode fazer uma declaração que você é trans pra gente poder te dar. Aí eles falam, não, isso é falsidade ideológica, não vou fazer isso. Ah, então eu não posso te dar, porque vem pelo recurso do fundo trans, não sei o que, tá. Gente, sim.
desigualdade de acesso, então assim, as pessoas intersexas, por isso a importância de aprovar o Estatuto Federal da Pessoa Nascida Intersexo, da Lei Jacob, porque lá tem tudo isso. E foi super difícil protocolar essa lei, porque sempre tentam distorcer para outras pautas, que é esse movimento que a gente fala das pessoas não entendendo o que é intersexo, porque muitos vídeos que as pessoas fazem, mistura tudo, né? Ou usam a pauta intersexo e aí
pega a carona na pauta intersexo pra apoiar outras pautas, mas deixa a pessoa intersexo ali sendo oprimida sempre. Aí acontece essas coisas do CFM. Então é bem complexo isso, eu falo muito mesmo, gente.
Mas é que é um tema muito complexo, né? Não é só a questão de gênero. Assim como eu afirmo que não é a questão de gênero a maior preocupação dos pais. Gente, os pais de intersexo hoje, a maioria tem 20, 25 anos. São jovens, são LGBT, são pessoas... Gente, quando as pessoas falam, os pais forçaram os pais. Não existe essa realidade, não, gente.
O que existe são pais que chegam, chega um doutor com a roupa branca ali, olha, você tem que operar isso, se você não operar, nós vamos chamar o conselho tutelar. Assim como eu já vi uma menina de 19 anos com o bebê dela intersexo, o conselho tutelar ir na casa dela retirar a criança porque ela não deixou operar. E como ela era pobre, quando eu falo que tem o recorte...
que é uma questão muito mais marxista do que uma questão de gênero. Porque ela era pobre, mãe solteira, morava na comunidade e levaram o filho dela para cirurgia. Mas se ela fosse uma mulher rica, que morasse num condomínio com marido e empresária, ninguém ia ter operado. Eu sei disso, essa é a realidade das cirurgias, tem a ver com recorte de classe social. Quem depende.
às vezes, né, quem vai pro conselho tutelar? Existe um recorte de classe social nesse país. E quem vai, quem não vai pro conselho tutelar? Quem eu pude escolher meu médico particular pra não operar meus filhos? E quem não pôde escolher o médico particular, teve que cair nessas coisas. Mas bem complexo. E existe um comércio médico muito grande dessas cirurgias. Tem pessoa que não quer perder, gente, é muita cirurgia. Sete cirurgias por semana em São Paulo na rede particular.
Ah, gente, é lógico que a pessoa vai estar ali baixando resolução. Tem um interesse econômico em manter essa cirurgia acontecendo pra ter mais trabalho e mais pagamento. Isso. E aí faz a plástica, não é só uma. Na infância, a criança vai ter que fazer umas seis, sete cirurgias. Aí tem que fazer fisioterapia. Aí tem que tomar hormônio, tem que tomar remédio e tem retorno. Gente, é muito, nossa, é igual a indústria do água. Vocês me desculpem.
Mas é igual a indústria ali de o ABAP como única ferramenta terapêutica para autismo. E a gente sabe que não é a única. Ai, 40 horas de terapia ABAP por semana. Nossa, isso aí tem um planquê também.
Inclusive, Thaís, isso foi uma coisa que tu viveu em primeira pessoa, né? Tu aconteceu quando o Jacob nasceu, os médicos, tu já falou em entrevistas que os médicos tentaram te pressionar a fazer a cirurgia, e inclusive, naquela época, ainda não era possível registrar a criança, né, que não era ou no sexo masculino ou no feminino. Então, eu queria que tu contasse um pouco dessa tua vivência pessoal, das primeiras vezes que tu se deparou com isso.
com esse atraso da medicina e na época também do registro, né? E que vocês, como dentro da Abrae, vocês foram atrás de mudar essa questão do registro. Então, contar um pouco sobre esses seus primeiros contatos com isso. É, o que acontece, assim, no caso do Jacob, não tinha proximidade do termo intersexo, apesar de ser uma pessoa intersexo, que isso é muito comum. A maioria das pessoas intersexo não tem contato com o termo intersexo.
Então, quando ele, no pré-natal, eu já sabia, né, que tinha ali, né, eu não me importei muito com essa condição, porque uma mãe tá muito mais preocupada com o filho nascer vivo do que com o gênero, o sexo. Quando eu falo ali, porque eu falei, os pais são novos e eles não tão muito preocupados com o gênero, é verdade, eles tão preocupados. Criança intersexo tem comorbidades, toda pessoa intersexo tem alterações metabólicas e tem que ter mais cuidado com a saúde, isso é fato, senão não seria intersexo, tá?
E aí, porque envolve questões orgânicas, metabólicas, fisiológicas e anatômicas. E isso impacta a saúde. Quem fala que intersexo não tem nenhum problema de saúde, a gente pode desconfiar que não é intersexo. Então, nunca é uma preocupação. Os pais falam, eu não tô preocupada se meu filho vai ser menino, menina, se vai ser gay, se vai ser trans. Os pais falam isso pra mim. Tô preocupada que ele viva. E que a sociedade não violente ele. E que ele tenha o direito igual aos outros.
Então, quando o Jacob nasceu, com um dia de vida, fizeram um modo de exame. Aí descobriram que ele não tinha nenhum órgão interno. Aí tá, vamos lá. Pra registrar, a gente vai fazer um cariótipo, se for XX, registra como menina. Se for XY, como menina. E aí, gente, eu falei pros médicos, gente, sinto muito. Ele nasceu dentro de uma faculdade pública, a qual eu dava aula também, numa faculdade pública na mesma cidade. Ele nasceu em uma, mas eu dava aula em outra.
Então, pra mim, os médicos ali eram todos professores universais. Pra mim, eram colegas de trabalho. Então, eu nunca vi médicos como seres superiores, né? Então, eu peguei e questionei. Não, e se for XXX, XXX, se tiver alguma translocação, e aí? Aí eles falaram, ah, e a gente faz uma vagina nele que a cirurgia é mais fácil e vocês educam ele como menina. Aí eu falei assim, gente, não tem como, eu sou psicanalista.
Repete sua frase, uma vagina nele, educa ele como menino. Tá vendo que é um bíblio? Tá vendo que não existe uma... Não tem como eu afirmar algo nesse momento? E eu falei, eu sou pedagoga. E eu sei que a educação não tem esse poder. Eu posso querer educar alguém como menino à força. Que se a pessoa não for menina, ela não vai ser menina. Aí tinha outro médico quietinho ali no campo. Aí ele pegou e falou, levantou, começou a brigar com a outra equipe.
É, vocês ficam operando esses nenê, quando tá com 20 anos me procurando no meu ambulatório, querendo reverter, não tem como. Ah, então isso acontece? Foi nesse nível de barraco, gente. Ai, acontece muito. Eu, nossa. Aí o meu marido, ah, então nós não vamos fazer cirurgia coisa nenhuma. Gente, mas o que que acontece? Eu pude falar, nós não vamos fazer cirurgia nenhuma e todo mundo parou de me encher o saco, porque a parte urinária funcionava perfeitamente. Não precisava mexer.
Mas eu pude principalmente porque eu estava na rede particular. Olha, esse médico não me serve? Olha, eu não quero mais seu serviço. Eu escolho outro. Médico é o quê, gente? Vamos pensar na relação econômica, marxista. O médico é um prestador de serviço. Ele vende o trabalho dele. Eu não quero mais comprar seu trabalho. Eu não concordo com o que você fala. Eu vou no que eu concordo. Então, eu fui no que eu concordava. Agora, essa não é a realidade de todo mundo.
Assim como tem gente que o médico na rede particular fala, olha, não precisa operar seu filho. Ah, mas eu quero que eu opera. Eu já vi mãe colocar prótese de silicone no testículo do bebê porque ele não tinha testículo. E ela não queria que ficasse com uma estética não sei o que. E a cirurgia prática particular, é lógico, a mãe pagou e foi feita. Por isso que eu falo, existe um interesse muito forte econômico nessas cirurgias. Elas acontecem muito na rede particular. Então...
Só que aí acontece o quê? Quem está na rede pública. Aí vai da ética médica, da perspectiva daquele médico que ele tem, enquanto saúde integral da criança. E aí caía na resolução de 2003, que tem que operar. E a pessoa está no SUS, se não opera, o pai e a mãe não autorizam, chama o conselho tutelar.
Não estou criticando o SUS, porque o SUS tem algo maravilhoso e tem tratamentos principalmente na doença rara, que nem na rede particular tem. Mas criticando o tirar a autonomia, o que mais me incomoda nessa resolução do CFM é que ele tira a autonomia dos pais e das crianças. Tem um parágrafo nele, se vocês olharem, fala que os pais são informados. Eles não participam da decisão.
Isso é muito grave. E a criança é assentida, os pais informados, o que é isso? Então, assim, isso contraria, o ECA contraria um monte de coisa. No primeiro texto que a gente leu sobre isso, sobre essa nova resolução do CFM, o título era O Bebê Chora Uma Vez para o Sim e Duas Vezes para o Não. Ironizando, porque...
E nem os pais, né? Que nem tu comentou, os pais muitas vezes também ficam de fora desse processo, né? Então, é um absurdo. E é legal que a gente apontou tanto a reforma dessa resolução na Defensoria Pública da União, na audiência que a gente fez aqui em São Paulo com a Erika Hilton, com o Suplicy, quando a Erika Hilton era vereadora ainda, a gente faz tantos anos que eu fiz essa audiência com ela, na ONU, todo ano.
E não chamaram a mãe, que mais... Uma vez eu escutei que eu era uma mãe que fica reclamando do biopoder. A misoginia, né? Silenciamento, né? Tipo assim, você traz um monte de argumentos científicos, dados de vida e tudo mais. Aí as pessoas... É uma mãe que fica reclamando. A misoginia contra mulheres que exercem modernidade é muito grande. E eu escutei isso de uma pessoa de muito alto escalão. Então, e a gente não ser chamada.
Nem eu, nem a Dione, nem ninguém da Abrae, e a gente que tem levado isso. E ninguém... Essa discussão é uma discussão entre pessoas que querem exercer autonomia entre o próprio corpo e figuras de autoridade que querem determinar como deve ser o corpo de cada um. Sim.
Outra coisa que colocou esse tema em alta foi o filme Espanhol, Minha Querida Senhorita, lançado na Netflix no início de maio, que é um bom exemplo desses perigos da privação de esclarecimento e autonomia de pessoas intersexo. O filme acompanha a dela, uma jovem que descobre ser intersexo aos 25 anos. Seus pais conheciam sua condição, mas mantiveram-na em segredo, autorizando junto aos médicos a realização de duas intervenções cirúrgicas sem seu consentimento.
e a administração de hormônios femininos. O filme ficou três semanas no top 10 global de filmes em língua não inglesa do Netflix, com mais de 3 milhões de views. Thais, tu conseguiu assistir o filme? O que tu achou? Gente, eu vou ser bem sincera com vocês. O primeiro dia que saiu esse vídeo, a Thalita, é quando a gente... A Thalita, ela que fez, deu a frente ali para a resolução do Conselho Federal de Psicologia, que ela era a presidente de CERN.
Mas eu conheço ela muito antes dela me conhecer, ela conheceu o Jacob e ela acompanhou toda a minha história. Então ela é muito envolvida com essa causa. E hoje ela foi psicóloga da Abrae um tempo, depois foi para o CRP e agora ela voltou para a Abrae como psicóloga.
E eu lembro que ela me ligou, que ela viu o filme no primeiro dia e ela me ligou chorando. Ai, você tem que ver esse filme, esse filme é lindo, é maravilhoso. É toda a realidade do que você passou, os outros passam, todos os atendimentos que eu fiz. É assim, é a realidade. E hoje ela faz doutorado também na área de intersexualidade. E eu, até hoje, gente, eu não consegui assistir. Por uma questão de gatilho. Eu estou me preparando psiquicamente pra assistir.
Porque todo mundo que viu, porque ela viu, ficou daquele jeito. Depois, todo mundo viu. E aí, eu pensei, bom, eu acho que essa semana eu vou assistir. Então, vou ser bem sincera. Eu vi os comentários, eu tô trazendo o que a Thalita me falou, que ela falou que realmente é bem isso mesmo. E ela ficou muito emocionada, muito mexida. E tem coisas assim, que eu aprendi também a respeitar a minha psique. E eu vou assim, bom, hoje eu estou pronta para ver. Aí eu assisto.
mas está chegando esse dia que eu vou assistir. Eu já estava pensando até nisso hoje. Mas aí, aquela postagem que a Adrai fez sobre o filme, quem fez foi a Calita, que assistiu e tudo mais. É, eu perguntei porque eu vi esse post também, né? Mas é um filme que realmente é muito sensível, né? E ele fala muito, ele tem muito a ver. Parece até que foi uma resposta a essa questão do CFM, mas ele saiu antes.
É, tipo assim, saiu o filme no dia 1º de maio e no dia 4 foi publicado essa FM. Parece uma resposta antecedente. Porque é o sofrimento de uma jovem que a vida inteira teve a sua identidade negada. E que sofreu a questão da cirurgia normalizadora. Ela chama até de castração no filme, né? Então é muito essa questão do sofrimento mental de uma pessoa que...
que por 25 anos teve sua identidade negada. Até aqui a gente fala mutilação, né? Até quando a gente usou o termo mutilação, uma vez um médico falou assim pra mim, né? Nessas audiências da vida que eu tenho que... Ai, Thaís, o termo mutilação é muito pesado pra nós. Quando nós estamos fazendo a cirurgia, nós não estamos mutilando o bebê. Eu falei, tá, vocês sentem que não estão, vocês estão corrigindo o corpo, vocês estão fazendo uma adequação.
Mas aquela pessoa, quando ela cresce, e eu tenho uma escuta dessa pessoa, é uma mutilação.
pra ela é uma mutilação. Ela não fez parte desse processo. Sabe? Eu vou arrancar um dedinho da pessoa porque eu acho que tá mal formado. Mas se eu participei dessa decisão, não é uma mutilação. Agora, se eu não participei, é... Então, eu comecei a trazer a explicação. E esse termo, a castração, eu acho que traz muito, assim, na psicanálise, qual que é o maior medo? O da castração, né?
E aí na pessoa intersexo, maior medo, né? E a coisa mais complexa acontece de fato fisicamente, né? E não só psiquicamente, igual nos processos psicanalíticos, acontece psiquicamente e fisicamente. Tem até um texto meu que eu falo sobre a micrústria da castração, as pessoas intersexas.
E acaba, né, Thais, que a cirurgia normalizadora, ela é justificada como uma forma de normalizar a criança, livrar ela de preconceitos, e tem também essa justificativa oculta, né, econômica e tal, mas no fim das contas, como tu falou, como tu contou, né, do médico que falou, ai, vocês ficam fazendo essas cirurgias, e daí depois eles vêm lá na minha clínica para tentar reverter, e não tem como.
acaba sendo uma loteria, né? Tudo bem, algumas pessoas intersexo vão ficar felizes de terem feito essa cirurgia, mesmo sem ter dado consentimento, e outras vão se sentir agredidas, vão se sentir mutiladas, e não vai ter que ser. A questão, não é nem só a questão de gênero, tem a questão de gênero em relação à cirurgia, mas tem a questão também da sexualização do corpo. Quando eu faço uma neovagina num bebê,
eu tenho que ficar colocando os dilatadores. Se a gente pegar as fases de desenvolvimento psicossexual, isso afeta muito. Porque você está fazendo uma estimulação, por exemplo, a criança está na fase oral de desenvolvimento, e eu estou fazendo uma estimulação genital, que seria a terceira fase. Então, pula fases, então isso traz uma questão na construção da psique meio complicada.
E aí a gente tem outra questão, as dores crônicas. Mexendo naquele tecido não vai mais crescer. Então tem que ficar fazendo várias cirurgias. Então tem muitas pessoas que tem dor crônica, dor na relação sexual. Espera, chegou na puberdade, conversa, participa, faz. Eu vejo assim, gente, quando perguntam qual que é a melhor idade pra operar, não tem melhor idade. Essa criança com 9, 10 anos, super incomodada com o corpo que ela tem. Se ela está incomodada e sofrendo, opera.
Mas aí ela estava incomodada. Agora, eu tenho um menino ali de 16 anos, que eu acompanho ele desde os 13, que ele fala pra mim, ele é menino, ele se identifica como menino, ele tem um genital atípico, ele fala, eu não gosto nem de tomar injeção, eu não vou operar, ele não quer operar, ele não tem nenhuma questão de gênero. Mas a questão é que ele não gosta de procedimento médico, então ele não quer operar e pronto. E o incômodo dele do procedimento médico é maior, ele não tem um incômodo com o corpo dele, em relação.
a ser diferente. Então, assim, tem que ter essa escuta. Então, essa escuta tem que ter, porque senão afeta muito a questão psíquica. A gente, às vezes, fala, é só do gênero. Não é só o gênero. É dor crônica, é pular fase, é sexualização, é não ter sido escutado. É uma coisa tão básica. Cabelo. Já pensou alguém que vem cortando o cabelo? Eu vou sentir isso como uma mutilação, como uma violência, como um crime.
Porque eu não quero cortar meu cabelo agora. Então, assim, é bem complexo. Ah, mas vamos supor que eu tô com câncer e eu preciso fazer uma quimio. E aí eu posso escolher. Se eu quero raspar agora ou deixar cair natural com a quimioterapia. Eu pude escolher. Entendeu? Então é bem diferente. E com um detalhe, né? O cabelo cresce. É. O cabelo cresce agora. As cirurgias, não. Elas são irreversíveis. É uma decisão muito impactante.
Perfeito. Que frase, que momento legal para a gente talvez nessa conversa. Tu tem mais alguma pergunta, Lari?
Não, eu queria só agradecer mesmo, saber se a Thais queira falar alguma última coisa, se acha que a gente não falou de algo que você gostaria de falar, e também convidar nossos ouvintes a continuar acompanhando essa temática, porque a gente só começou a falar sobre isso, é um tema muito desconhecido ainda, que afeta realmente, que engloba muitas pessoas, como a gente já falou, então é um tema que deve continuar sendo falado.
A gente sugere aqui as redes da Abrae, arroba Abrae Intersexo, a rede da Thaís também. Como é que é teu arroba, Thaís? O meu tem Thaís Emília Santos. Então, o Instagram de ativismo pessoal é o thais.br. Aí tem o site da Abrae, www.abrai.org.br. Aí tem o do Instituto Jacob, que é o site www.institutodiacob.com.br.
E o TikTok, que é o que mais dá comentários, né? E a gente sente ali o quanto... É bem interessante o TikTok, na parte de intersexo, que é o Thais Beto Jacobi. A gente vê bastante participação ali, na opinião pública mesmo, sobre. E a hora que a gente vê que basta dar informação, que as pessoas entendem. E agradecer a vocês, gente.
Estarem levando esse tema, que é muito complexo. A gente me agradece, Thais. Também que agora, com essa resolução CFE, que na minha opinião, só teve uma mudança. Olha, agora tem hormônios, está escrito lá, que vai ter que dar reposição hormonal para adultos intersex. Então, eles que compram isso, hein? Vamos ver se vão cumprir, porque isso realmente é uma demanda de saúde da população intersex. O restante, eu acho que vai, né? Vamos repensar, né?
Bom, muito obrigado, Thaís, por conversar com a gente. Obrigado pela disponibilidade. Fiquei muito feliz de te conhecer e te ouvir. Sim. Então é isso. Muito obrigada mesmo, Thaís. A gente está muito feliz mesmo de conversar contigo. A gente aprendeu muito hoje. É. Eu que agradeço. Obrigado e parabéns pelo trabalho.
Sim, muito necessário. A gente vai ficando por aqui com mais um episódio do Converso Humanista, um podcast sobre jornalismo e direitos humanos produzido pelo Jornal Laboratório Humanista, da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, a Fabico. A produção é de Guilherme Vivã e Larissa Lung, com edição de Guilherme Vivã. Até o próximo episódio!