Cafe Brasil Expresso 1037 - Um chip para chamar de seu
Em Minority Report, as vitrines reconhecem John Anderton, chamam seu nome e oferecem o que ele talvez deseje. Parecia ficção científica. Hoje, celulares, bancos, plataformas e até chips implantados na mão transformam identidade em chave de acesso. Neste episódio, investigamos o preço escondido da conveniência: quando tudo depende de sistemas que nos reconhecem, estamos mais livres ou apenas mais autorizados?
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- Vigilância pública e privadaMinority Report e personalização · Chips implantados na mão · Corpo como chave de acesso · Conveniência vs. Dependência
- A relação humana com a tecnologia e a IASmartphone como parte da vida · Atrofia de capacidades humanas · O corpo como interface
- Uso consciente da tecnologiaDo luxo à necessidade · Aplicativos bancários e governo digital · Exclusão digital
- Tomada de DecisãoDecisões empresariais solitárias · Medo e vieses nas escolhas · Encontro para líderes
From live radio to original podcasts, Surfer Network helps broadcasters, podcasters, and creators grow audiences and monetize their content worldwide. Learn more at surfernetwork.com. Olha só, ao final do dia todo mundo foi embora, mas a decisão ficou com você. É você que tem que escolher se avança ou se recua. Você que contrata ou demite, você que insiste ou encerra. E quase sempre, cara, você decide sozinho justamente aquilo que pode mudar o rumo da sua empresa, da sua carreira e da sua vida.
Que baita solidão! Você já se sentiu assim, sozinho? Bom, essa solidão tem um preço, porque sem alguém confiável para pensar junto, o medo se disfarça de prudência, Os nossos vieses parecem bom senso e a dúvida começa a paralisar. Cara, que problema! Então, nos dias 1 e 2 de agosto, das 9 às 13, eu vou conduzir a mesa. Tem uma crase nesse a, é um convite. Um convite para um encontro online e ao vivo para empresários, líderes e profissionais que estão cansados de carregar sozinhos as decisões que mais importam.
Vão ser 2 dias de casos, reflexões e conversa para melhorar a qualidade das suas escolhas em ambientes de incerteza. Olha, daqui você não vai sair com respostas prontas, não. Vai sair é com muito mais clareza para encontrar as suas próprias respostas. Eu sou Luciano Pires. Reserve seu lugar à mesa acessando o link na descrição deste episódio. Você que pertence ao agronegócio ou está interessado nele precisa conhecer a Terra Desenvolvimento.
A Terra oferece métodos exclusivos para gestão agropecuária, impulsionando resultados e lucros com tecnologia inovadora. A equipe da Terra proporciona acesso em tempo real aos números de sua fazenda. Permitindo estratégias eficientes. E não pense que a Terra só dá conselhos e vai embora, não. Ela vai até a fazenda e faz acontecer. A Terra executa junto com você. E se você não é do ramo, está interessado em investir no agro, a Terra ajuda a apontar qual atividade melhor se encaixa no que você quer.
Descubra uma nova era na gestão agropecuária com a Terra Desenvolvimento. Transforme sua fazenda num empreendimento eficiente, lucrativo e sustentável. Terra-desenvolvimento.com.br. Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro. Um homem caminha apressado por um corredor comercial. É John Anderton, personagem de Tom Cruise em Minority Report. Filme de Steven Spielberg lançado em 2002. Ao redor dele, a cidade parece viva.
Painéis luminosos cobrem as paredes, vitrines digitais se movimentam, imagens publicitárias mudam de forma conforme os pedestres se aproximam. Não são cartazes como aqueles que conhecemos, feitos para falar com uma multidão anônima. Cada anúncio parece esperar por uma pessoa específica. Anderton passa diante de um painel e uma voz feminina o chama pelo nome. O anúncio sabe que ele está ali. Outra tela se acende alguns metros adiante.
Uma nova voz lhe oferece um produto, comenta suas preferências, sugere algo que combina com seu perfil. Ele continua andando, mas a cidade o acompanha. As vitrines não enxergam apenas um consumidor atravessando o corredor. Elas reconhecem um indivíduo, consultam o seu histórico e ajustam a mensagem antes mesmo que ele consiga desviar os olhos. É uma publicidade que não precisa disputar a atenção de todos. Ela fala apenas com Anderton.
A cena dura poucos segundos, mas há alguma coisa profundamente incômoda naquela aparente gentileza. As máquinas parecem atenciosas, tratam Anderton pelo nome, conhecem seus gostos e tentam poupar o seu tempo. Não oferecem coisas aleatórias, não o obrigam a procurar. Entregam exatamente aquilo que, segundo os dados, ele poderia desejar. É quase como entrar naquela pequena padaria do bairro onde o balconista conhece você há 20 anos.
Você se aproxima e ele já pergunta: o de sempre? Pois é, cara, mas tem uma diferença. O balconista conhece você porque vocês construíram uma relação. Ele se lembra do café sem açúcar, do pão mais torrado, da conversa sobre futebol do dia em que seu filho nasceu. A memória nasceu do convívio. No mundo de Minority Report, a máquina conhece você porque o seu corpo foi identificado, seus hábitos foram registrados e o seu comportamento transformado em informação.
O efeito pode parecer o mesmo: você é reconhecido e recebe um atendimento personalizado, mas o caminho que levou até ali é completamente diferente. Anderton se transformou num chip. Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar? Olha, já vai começar o programa. Não, não quero ser um cocô. Voltemos então ao Minority Report. Para oferecer aquela experiência tão eficiente a Anderton, o sistema precisa saber que ele chegou.
Precisa saber onde ele está, por onde passou, o que comprou, o que costuma procurar e talvez o que tem mais chances de comprar em seguida. A personalização depende da vigilância. No filme, os leitores identificam as pessoas pelos olhos. A íris se transforma em documento, senha e cartão de acesso. O corpo já não é apenas aquilo que você é, torna-se também a chave que permite aos sistemas reconhecer, classificar e acompanhar você.
Quando Minority Report chegou aos cinemas em 2002, aquilo ainda parecia ficção científica. A ideia de atravessar uma loja e ser chamado pelo nome por painéis eletrônicos pertencia a um futuro distante, inventado por Hollywood. Mas o futuro costuma chegar sem música dramática. Ele não aparece de repente com carros voadores cruzando o céu e robôs marchando pelas ruas. Chega aos poucos, na forma de uma câmera que reconhece o seu rosto, de um aplicativo que conhece a sua localização, do gov.br que promete facilitar as burocracias, de uma plataforma que sugere o próximo vídeo, de um banco que analisa seus hábitos, de um relógio que acompanha seus batimentos e de uma propaganda que aparece segundos depois de uma conversa.
E a gente aceita, porque funciona. O aplicativo indica o caminho mais rápido, a loja mostra exatamente o produto que procurávamos, o serviço de streaming escolhe a próxima música, o de entrega traz comida em casa, o banco dispensa fila, o celular reconhece o nosso rosto e abre a tela sem que precisemos digitar uma senha. Cara, isso é muito bom! Tudo parece atento às nossas necessidades. Por isso é tão difícil perceber a troca que está acontecendo.
Não sentimos que estamos sendo vigiados, sentimos que estamos sendo bem atendidos. E então aquela cena de Minority Report deixa de ser apenas uma fantasia sobre o futuro e começa a se parecer com um espelho do presente. Outro dia eu vi uma reportagem sobre pessoas na Suécia que decidiram implantar pequenos chips nas mãos. Com um movimento simples, elas podem abrir portas, atravessar catracas, registrar a entrada no trabalho e acessar determinados serviços.
Não precisam procurar a chave, retirar um cartão da carteira, nem lembrar de uma senha. Basta aproximar a mão. Cara, é muito fácil compreender o fascínio. A tecnologia elimina pequenos incômodos que se repetem todos os dias, Tudo fica mais rápido, mais limpo, mais fluido. E foi então que eu lembrei de John Anderton caminhando por aquele corredor. O pequeno chip implantado na mão não é uma ameaça cinematográfica, nem estamos prestes a viver numa ditadura tecnológica.
Essa comparação seria fácil demais e nos levaria para a discussão errada. O que aproxima aquele artigo sobre os chips com Minority Report é algo muito mais sutil. Nos dois casos, a tecnologia promete reconhecer você para tornar a sua vida mais conveniente. Mas para reconhecer você, ela precisa transformar uma parte da sua identidade numa chave de acesso ao sistema. Você é o chip. E vem então a grande questão: o que que acontece quando aquilo que nos oferece liberdade de movimento também passa a ser aquilo de que dependemos para receber permissão para nos movimentar?
Bom dia, boa tarde, boa noite, Cissa, Lala, Luciano. Bom, acabei de escutar pela segunda vez o episódio 1083, A Inflação das Expectativas. Bom, eu queria dizer obrigado. Já aconteceu em vários episódios do Café Brasil e esse foi mais um. Ele explicou por momentos que eu passei na minha vida que eu dificilmente conseguiria entender se não tivesse o Café Brasil. Há um ano atrás eu saí da empresa que eu trabalhava, trabalhei durante 17 anos, e foi o mesmo problema.
A expectativa que eu tinha não foi de acordo com a realidade. Então muito obrigado, pessoal, muito obrigado por ter feito esse episódio, explicado os sentimentos que eu tive naquela época, e Certamente eu vou lidar melhor daqui para frente com o que eu vivi. Muito obrigado. Desculpa, pessoal, acabei não falando quem eu sou, que é Agnaldo, Anápolis, Goiás.
Grande Agnaldo! Olha, às vezes a gente passa anos dentro de uma empresa construindo não apenas uma carreira, mas também uma história, uma identidade e uma expectativa sobre como aquele ciclo deveria terminar. Quando a realidade não corresponde ao que imaginamos, A dor não vem apenas do que aconteceu, mas também da distância entre o que aconteceu e aquilo que acreditávamos que aconteceria. Saber que o episódio ajudou você a olhar para essa experiência de uma outra maneira dá sentido ao nosso trabalho, cara.
O Café Brasil não consegue mudar o que passou, mas quando oferece uma ideia que ajuda alguém a compreender melhor a própria história e a seguir em frente com mais clareza, sentimos que cumprimos a nossa missão. Um grande abraço para você em Anápolis e obrigado por estar conosco, viu? Muito bem, eu quero voltar àquela reportagem mostrando pessoas na Suécia implantando pequenos chips na mão. Nada muito espalhafatoso, o dispositivo fica debaixo da pele e pode substituir o crachá da empresa, a chave de casa, o cartão de acesso à academia, o bilhete de transporte e, em alguns casos, até meios de pagamento.
A pessoa simplesmente aproxima a mão de um leitor e a porta se abre, aproxima da catraca e passa, aproxima de outro equipamento e o sistema reconhece quem ela é. Cara, tudo muito rápido, limpo, moderno e eficiente. Maravilha! Diante de uma cena dessas, a turma reage de maneira quase automática. De um lado, aparecem os encantados pela tecnologia, tratando qualquer inovação como uma prova de que a humanidade está avançando. Para eles, toda novidade digital representa uma pequena vitória sobre o atraso, a burocracia e o incômodo.
Do outro lado, surgem os profetas do apocalipse, enxergando no pequeno chip a marca da besta, controle global, o governo mundial e o fim da liberdade humana. A discussão rapidamente vira uma briga entre a turma do que maravilha e a turma do estamos perdidos. E o mais interessante é perceber que os dois lados, embora pareçam completamente opostos, fazem a mesma coisa: param de pensar. Porque a questão relevante não é se o chip é bom ou ruim, não.
Essa é uma forma muito pobre de abordar tecnologias. Uma faca pode cortar o pão ou ferir alguém. Um automóvel pode levar uma pessoa ao hospital ou atropelá-la. Uma rede social pode aproximar famílias ou destruir reputações. Tecnologias não chegam ao mundo trazendo uma moral pronta, não. Elas ampliam possibilidades. E ao ampliar possibilidades, também alteram comportamentos, relações de poder e formas de viver. E é aí que a conversa começa a ficar interessante.
O chip implantado na mão talvez não seja importante pelo que faz hoje, mas pelo tipo de relação com a tecnologia que ele anuncia. Estamos deixando de carregar ferramentas para começar a incorporá-las ao corpo, a identidade e a própria rotina da existência. Durante muito tempo, nossos objetos permaneciam separados de nós. A chave tava no bolso, o dinheiro ficava na carteira, O documento era guardado numa gaveta, o mapa permanecia no porta-luvas.
A ferramenta podia ser usada, esquecida, perdida ou recusada. Aos poucos, essa distância foi diminuindo. O cartão substituiu o dinheiro, o GPS substituiu nossa memória dos caminhos, o telefone deixou de ser apenas um aparelho de comunicação e passou a funcionar como banco, câmera, mapa, agenda, jornal, carteira, Sala de reuniões, álbum de família, bilhete de embarque, cara, despertador e companhia emocional. E até player de podcasts.
Hoje, quando alguém perde o celular, não perde apenas um objeto, perde temporariamente uma parte operacional da própria vida. Não sabe o telefone dos filhos, nem chegar ao compromisso. Não consegue entrar no aplicativo do banco, nem encontrar a passagem aérea. Não lembra o endereço nem acessa o email, não consegue confirmar quem é. O aparelho continua fora do corpo, mas já está profundamente incorporado à nossa existência. Marshall McLuhan percebeu isso há muitas décadas.
Ele dizia que as tecnologias funcionam como extensões do ser humano. A roda prolonga os pés, o livro prolonga a memória, a televisão prolonga os olhos, o computador prolonga certas capacidades da mente. Mas McLuhan também alertava para o outro lado dessa relação: quando estendemos uma capacidade humana por meio de uma tecnologia, alguma outra capacidade pode atrofiar. O GPS nos ajuda a chegar, mas reduz o nosso senso de orientação.
A calculadora resolve contas, mas enfraquece o cálculo mental. As redes sociais ampliam nossa possibilidade de contato, mas empobrecem nossa capacidade de convivência. A inteligência artificial nos ajuda a organizar ideias, mas também nos acostuma a terceirizar o próprio raciocínio, cara. A mesma ferramenta que resolve um problema modifica quem a utiliza. Eu vou repetir, olha aqui, ó: a mesma ferramenta que resolve um problema modifica a pessoa que a utiliza.
Esse talvez seja o ponto mais importante de toda essa conversa aqui, viu? Nós costumamos avaliar uma tecnologia perguntando apenas o que ela faz por nós. Raramente perguntamos o que que ela faz conosco. O automóvel não só facilitou o deslocamento, ele mudou o desenho das cidades, afastou moradia e trabalho, criou subúrbios, congestionamentos, rodovias, estacionamentos e uma nova relação com a distância. A televisão não só levou imagens para dentro das casas, ela mudou a política, a propaganda, o entretenimento, a relação entre os indivíduos da mesma família e a forma como as pessoas passaram a perceber o mundo.
O smartphone não apenas colocou a internet no bolso, ele alterou nossa atenção, nossa ansiedade, nossos relacionamentos e até nossa tolerância ao silêncio. E o chip implantado talvez esteja anunciando um novo passo. A transformação do corpo em interface. Você vai virar um chip. Pode parecer exagero, mas não é preciso imaginar robôs, ciborgues ou então filmes de ficção científica, não. O processo começa de uma maneira muito mais banal.
Quando aproximar a mão é mais fácil do que procurar uma chave. Quando carregar documentos parece uma perda de tempo. Quando digitar uma senha se transforma num incômodo intolerável. O processo começa quando alguns segundos de espera passam a ser percebidos como uma falha grave do sistema. Toda a tecnologia nasce vendendo conveniência. Primeiro ela elimina um pequeno atrito, depois cria um hábito, em seguida torna-se uma expectativa e finalmente transforma-se numa necessidade.
Foi assim com o telefone celular, que no início era um luxo, Depois virou ferramenta de trabalho e hoje é quase impossível participar plenamente da vida social, profissional e econômica sem ele. Foi assim com os aplicativos bancários. Primeiro ofereceram praticidade, depois fecharam agências, reduziram atendimento presencial e transferiram para o usuário tarefas que antes eram realizadas por funcionários. Foi assim com os serviços digitais do governo.
Eles facilitam a vida de milhões de pessoas, o que é ótimo, mas também criaram uma dificuldade nova para quem não domina tecnologia, perde o acesso, esquece a senha ou não consegue provar para o sistema que é realmente quem diz ser. A conveniência abre a porta, a dependência entra logo atrás. Eu vou continuar essa reflexão na parte exclusiva para impressionantes, falando um pouco mais sobre o perigo de trocar liberdade por conforto.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por 4 pessoas: eu, Luciano Pires, na direção e apresentação; Laila Moreira na técnica; Cissa Camargo na produção; e é claro, você aí que completa o ciclo. De onde veio este programa? Tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de 1.200 no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com. Mande um comentário de voz pelo WhatsApp no 11 96429-4746. E também estamos no Telegram com
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