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Café Brasil Expresso 1035 - O décimo homem

24 de junho de 202611min
0:00 / 11:27

No filme Guerra Mundial Z, uma pequena cena apresenta uma ideia poderosa: se nove especialistas concordam, o décimo tem a obrigação de defender a hipótese contrária. Porque alguém precisa testar as certezas do grupo. Neste episódio, partimos desse conceito do Décimo Homem para explorar um tema muito maior: por que pessoas inteligentes, organizações competentes e até sociedades inteiras podem ficar cegas quando todos pensam da mesma forma. Uma reflexão sobre confiança, conformismo, pensamento crítico e o valor de quem tem coragem de fazer a pergunta que ninguém quer ouvir.

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Participantes neste episódio2
L

Luciano Pires

Host
M

Marcos

ConvidadoEx-jogador de futebol
Assuntos3
  • Teoria do Décimo HomemGuerra Mundial Z · Serviço de inteligência israelense · Yom Kippur · Advogado do diabo · Red teams militares · Arrogância do consenso · Pearl Harbor · Crise financeira de 2008
  • Gestão e LiderançaConfiança excessiva · Excesso de certeza
  • Identidade e RepresentatividadeMarcos · Babica · Representatividade negra
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
LPLuciano Pires

No filme Guerra Mundial Z existe uma cena curta, mas muito interessante, que acabou ganhando vida própria fora do cinema. Ela ficou conhecida como a Teoria do Décimo Homem. Na história, o personagem de Brad Pitt descobre que o serviço de inteligência israelense levou uma ameaça zumbi a sério muito antes do resto do mundo. Quando lhe pergunta por quê, recebe uma explicação simples: "Se 9 pessoas analisarem uma situação e chegarem à mesma conclusão, a obrigação da 10ª pessoa é defender a hipótese oposta, mesmo que ela pareça absurda." E não é porque ela acredita nela não, é porque alguém precisa testá-la.

A lógica é poderosa. Quando um grupo inteligente concorda rápido demais, surge um perigo invisível: todos podem estar compartilhando os mesmos pressupostos, as mesmas informações e os mesmos pontos cegos. Nesse caso, a unanimidade não é sinal de verdade, cara. Ela pode ser sinal é de fragilidade. Bom dia, boa tarde, boa noite. Este Fé Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires.

?Voz B

Posso entrar?

LPLuciano Pires

No filme, o diálogo do décimo homem acontece na cidade de Jerusalém, em Israel. Jerry Lane, personagem de Brad Pitt, viaja para Jerusalém para descobrir por que Israel foi um dos únicos países que se preparou para uma pandemia zumbi antes que ela se tornasse evidente para o resto do mundo. Lá, ele conversa com Yurgen Marbrom, uma autoridade da inteligência israelense, que explica a regra do décimo homem. Ele diz que 9 analistas concluíram que os relatos sobre mortos-vivos que estavam chegando de outros lugares eram delírios e boatos.

O décimo homem assumiu a posição contrária. Peraí, cara, e se for verdade, hein? E a partir daí, Israel começa a se preparar e acaba sendo um dos poucos lugares minimamente prontos quando a catástrofe acontece. Aliás, tem uma camada ainda mais interessante no filme. No romance original World War Z, E nas discussões sobre o filme, a ideia parece inspirada em estruturas reais de advogado do diabo, criadas em Israel após a surpresa estratégica da Yom Kippur, da Guerra do Yom Kippur.

Eles viram a movimentação das tropas e não fizeram nada, e a guerra estourou, né? Existe inclusive uma unidade real de inteligência israelense dedicada a questionar consensos e examinar cenários improváveis. Talvez por isso a cena funcione tão bem. Ela acontece em Jerusalém, mas poderia acontecer em qualquer sala de reunião, conselho de administração ou gabinete de governo do mundo. E o cenário é israelense, o problema é universal.

O que acontece quando pessoas inteligentes confiam tanto umas nas outras que deixam de questionar as próprias conclusões? Essa é a verdadeira discussão que o filme está propondo. O conceito, portanto, não nasceu exatamente em Israel, nem é uma doutrina oficial conhecida dos serviços de inteligência. Os roteiristas do filme usaram uma ideia inspirada em práticas reais de análise estratégica, especialmente o papel do chamado advogado do diabo, dos red teams militares e dos exercícios de questionamento de consenso.

E a essência é essa aqui, ó: quando todos concordam, O risco não é a discordância. O risco é que ninguém esteja procurando os erros da concordância. E a história tá cheia de exemplos. Antes do ataque japonês a Pearl Harbor, na Segunda Guerra Mundial, havia sinais que foram ignorados porque não se encaixavam na interpretação dominante. Antes da crise financeira de 2008, Praticamente todo o sistema financeiro acreditava que o mercado imobiliário americano continuaria subindo.

Antes da pandemia de COVID, muitos governos tinham planos para gripes tradicionais, mas poucos consideravam seriamente a combinação específica de um coronavírus altamente transmissível com o mundo globalizado. O valor do décimo homem não está em ser do contra, sacou? Está em criar um mecanismo institucional para proteger uma organização contra a arrogância do consenso.

?Voz B

Bom dia, boa tarde, boa noite, Luciano Pires. Aqui é Marcos falando do litoral paulista. Faz tempo que acompanho o seu programa e muitas vezes pensei em me manifestar, mas isso acabou nunca acontecendo. Na verdade, eu me manifestava antes de quando dava para ter comentários no site. Me lembro que gostei muito dos primeiros programas seus, um sobre hinos, que deixei lá meu comentário de fazer um novo programa sobre o assunto, mas você nunca o fez.

Bom, eu tava ouvindo Cafezinho 58 a respeito das diferenças, né? Como sou negro, fiquei pensando. Você falou aí sobre comentar, cada um faz a sua parte para sua patota. Cada um tem seu grupinho com quem faz parte. Mas e você, Luciano? Você se identifica com algum grupo? Porque pensando no Café com Leite, eu ouvi vários episódios de você comentando sobre esse programa e a respeito da Babica, de como seria a forma dela, né? Que cor que ela teria, como ela seria.

E você escolheu no fim que ela fosse uma pessoa branca. Mas por que ela é branca, Luciano? Você pode responder para nós? Obrigado.

LPLuciano Pires

Grande Marcos, obrigado pela pergunta, meu caro. Eu acho que muita gente pode ter feito essa mesma reflexão, viu? Olha, sobre o grupo com o qual eu me identifico: eu sou homem, velho, branco, de classe média, embora as classificações que o governo use me coloque como classe rica. Eu sou heterossexual e católico. Eu tô no centro-direita e me considero um liberal eternamente a caminho do conservadorismo. Eu sou praticamente um saco de istas, conforme as classificações de hoje, cara.

Eu sou um exemplar em extinção. Já sobre a Babica, quando a gente a criou, a Babica, não sentamos numa mesa para decidir qual seria a cor dela, e a gente nem fez uma discussão sobre representatividade, não. A Babica nasceu de um jeito muito mais simples que isso. Ela surgiu como uma versão infantil da Bárbara, que é quem dá voz à personagem. Na nossa cabeça, era a Bárbara quando criança. E por acaso, a Bárbara é branca. Se a personagem tivesse nascido inspirada em outra pessoa, teria a aparência dessa pessoa.

Poderia ser negra, japonesa, indígena, ruiva ou até azul, como você brincou. Mas ela é a Bárbara. O ponto é que a escolha não foi feita para representar um grupo específico. Foi feita para representar uma pessoa específica, sacou? Olha, e dá para fazer comentários no site, sim. Não é mais aberto como era antes, até por uma questão de controle, né? Mas basta você se logar no sistema e pronto, no podcastcafeabrasil.com.br. Grande abraço!

Então, com esse conceito do décimo homem, aparece uma ideia que conversa diretamente com liderança e tomada de decisão. Em muitas empresas, reuniões terminam quando todos concordam. Talvez devesse ser o contrário. A reunião só deveria terminar depois que alguém apresentasse o melhor argumento possível contra a decisão escolhida. O décimo homem não existe para provar que os outros estão errados. Ele existe para impedir que todos estejam errados ao mesmo tempo.

Sacou? Eu vou repetir aqui, ó: o décimo homem não existe para provar que os outros estão errados. Ele existe para impedir que todos estejam errados ao mesmo tempo. É uma ideia simples e justamente por isso ela é tão rara. Afinal, quase todo grupo valoriza a harmonia, não é? O consenso. Poucos valorizam a discordância disciplinada. E quando o mundo muda de repente, costuma ser essa discordância que separa os preparados dos surpreendidos.

E talvez seja por isso que a cena mais importante de Guerra Mundial Z Não seja aquela em que multidões de zumbis escalam muralhas ou invadem cidades. Ela é aquela conversa quase banal sobre o décimo homem. Porque a verdadeira ameaça nunca foram os zumbis. Foi a confiança excessiva. A confiança de que aquilo era impossível. De que os especialistas já tinham considerado todas as hipóteses. De que o mundo continuaria funcionando como sempre funcionou.

Quando a ameaça apareceu, ela não encontrou sociedades despreparadas por falta de inteligência, não. Encontrou sociedades despreparadas por excesso de certeza. E essa é uma distinção muito importante. Olha, eu vou mergulhar muito mais fundo nessa reflexão na parte exclusiva para assinantes. Eu quero mostrar que o conceito do décimo homem é muito mais antigo do que você imagina. Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por 4 pessoas: eu, Luciano Pires na direção e apresentação, Lala Moreira na técnica, Cissa Camargo na produção e, é claro, você aí que completa o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de 1.200 no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com. Mande um comentário de voz pelo WhatsApp no 11 964 294746. E também estamos no Telegram com o grupo Café Brasil. Para terminar, uma frase da escritora franco-americana Anaïs Nin: "Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como nós somos."