LíderCast 422 - Arri Coser - A arte do churrasco
O convidado de hoje é Arri Coser, um daqueles empreendedores brasileiros por vocação. Arri vem lá da serra gaúcha, onde aprendeu a amar o mundo do churrasco e o de servir e encantar clientes. Garoto ainda, veio para Aparecida, em São Paulo e de lá para o Rio de Janeiro, onde decidiu começar sua própria churrascaria junto com o irmão e colegas. Meio século depois, Arri está à frente da NB Steak, que é considerada uma das melhores churrascarias do país e faz parte do MDR Group, do qual é fundador. O MDR Group conta hoje com 24 unidades, entre NB Steak e Maremonti, e 680 funcionários. Uma conversa sobre fazer acontecer, mesmo que o ambiente seja incerto.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
- Mentalidade EmpreendedoraInício na churrascaria aos 15 anos · Aprendizado com donos e gerentes · Paixão pelo serviço e encantamento do cliente · Dom de servir · Fazer bem feito
- Resiliência e Pilares do EmpreendedorismoImpacto da pandemia no setor de restaurantes · Importância de reservas financeiras · Adaptação ao delivery e prejuízos · Gestão de crise e reestruturação · Crise econômica e inflação
- Legado e InfluênciaConstrução de uma história e legado · Formação de milionários e desenvolvimento de talentos · Importância da família e base sólida · Churrasqueiro que deixou mais de 50 milionários · Porta de entrada para o mercado de trabalho
- Rodadas BrasileirãoOtimismo empresarial apesar das dificuldades · Riquezas naturais e potencial do Brasil · Desafios na reforma tributária e juros altos · Importância de acertar o time em investimentos · Brasil como país de oportunidades
- Churrascaria em Sapiranga· NegociosDa estrada para os bairros · Segunda geração: polimento e sofisticação · Terceira onda: conceito premium e cortes nobres · NB Steak · Maremonti
- Inovações na gastronomiaExperiência do cliente como diferencial · Inteligência artificial e robótica no setor · Controle de custos e margem de lucro · Valorização da carne e conceito premium · NB Steak
- Culinária BrasileiraEspeto corrido no Sul · Rodízio no Paraná · Churrascarias de beira de estrada · Mistura de culturas gaúchas · Matz
- Importância da DiversificaçãoNecessidade de diversificação em tempos de crise · Investimento imobiliário e construção · Investimentos Imobiliários · Minha Casa Minha Vida · Investimentos anjo e venture capital
Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um Lidercast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. O convidado de hoje é Henri Kooser, um daqueles empreendedores brasileiros por vocação. Henri vem lá da Serra Gaúcha, onde aprendeu a amar o mundo do churrasco e o de servir e encantar clientes. Garoto ainda, veio para Aparecida, em São Paulo, e de lá para o Rio de Janeiro, onde decidiu começar sua própria churrascaria junto com o irmão e colegas.
Meio século depois, Arry está à frente da NB Steak, que é considerada uma das melhores churrascarias do país e faz parte do MDR Group, do qual é fundador. O MDR Group conta hoje com 24 unidades entre NB Steak e Maremonte e 680 funcionários. Uma conversa sobre fazer acontecer mesmo que o ambiente seja incerto. Muito bem, mais um Lidercast. Vou começar como sempre contando como é que o meu convidado veio para aqui. Eu recebi um, recebi uma mensagem da Visara, é isso?
Visara, uma agência de comunicação. Ó, eu tô com um cliente interessante que quando eu bati o olho eu falei, carai, aí pode dar conversa, né? Mandei a mensagem, rapidamente ele topou, então estamos aqui hoje. Eu começo o programa com 3 perguntas que você não pode errar. O resto você pode chutar à vontade, essas 3 tem que ser na lata, hein? Vamos lá. Seu nome, a sua idade e o que você faz?
Daí é muito complicado. Meu nome é Henrique Ozer, tenho 65 anos e sou empresário de uma série de setores diferentes, de gastronomia, construção, financeiro, um pouco de cada coisa.
Pô, haja tempo para isso, né?
Ari. Ari.
Por que Ari?
Ari foi meu pai, é descendente italiano-austríaco, chegou no cartório, Ari. Daí a moça do cartório falou, com dois R's? É isso mesmo, moça.
Aí então tem dois R's mesmo? Então você tem dois R's mesmo?
Aí ficou Ari.
Aquelas histórias de sobrenome.
Aí eu brinco que o único que falava certo era ele mesmo.
Ari, ele falava Ari, né? Todo mundo Ari, ele falava Ari. Eu tenho uma história boa também. Eu trabalhei muito numa empresa norte-americana, né? E fui para os Estados Unidos várias vezes, né? E eu chegava lá, os caras me chamavam... Meu nome é Luciano Pires. E lá eu viro Luciano... Luciano Pires. E eu, cara, Pires, Pires. Aí eu falei, eu vou começar a escrever Pires, né? Aí eu botei Pires e os caras passaram a ler Peires. Aí eu escrevi Peires e passaram a ler Pires. Não tem como dar jeito lá, né? Você nasceu onde? Nasci na Serra Gaúcha.
Fiquei lá até os 14 para 15 anos, depois mudei para São Paulo, Aparecida do Norte.
Que lugar da Serra Gaúcha?
Encantada, cara. Eu fico, é no Vale do Taquari, no final do Vale do Taquari.
Eu fico fascinado com os nomes das cidades, cara, que tem pelo Brasil, né? Encantado aqui, feliz. Feliz é lá pertinho também, aquela região é uma maravilha.
Você passa lá, encantado, logo fica feliz. Quem nasce aí tem uma cidadezinha, a minha filha adorava quando a gente ia para lá visitar Meus pais, aí tinha uma cidade chamada Antagorda, que era, aí ela ficava perguntando onde é que tá esse bicho.
Quem nasce encantado é encantadense. Puta, que sensacional! Aí você mudou para Aparecida do Norte, a família veio?
Não, vim com meu irmão mais velho e com os amigos do meu pai, que tinha aquelas churrascarias de beiras de estrada, sabe? Tô falando disso 50 anos atrás, então. E daí fiquei um tempinho aí, depois fui para o Rio de Janeiro. Aí do Rio de Janeiro também fiquei com churrascarias e foi na leva dos anos 70. Aí depois entrei no 3º Comar lá, queria ser militar, aí não deu certo, fiquei 3 meses, saí, voltei para o piloto de espeto.
Com esse nome teu, Arry, não precisa ter apelido, né?
Não, também não tenho.
Você não tinha apelido? Não tinha. Era o Arryzinho, vamos lá. O que que o Arryzinho queria ser quando crescesse?
Bom, o sonho de moleque era ser motorista de caminhão e depois piloto de caça, porque ficou fácil lá na região, na Serra Gaúcha onde eu nasci, tinha o treinamento da aeronáutica que os jatos passavam por cima assim quase todo dia no treinamento. E aquilo, imagina um moleque criança crescendo vendo aquilo, você fica louco com aquele bicho que voa naquela rapidez, né? Primeiro você tem que ficar de olho para poder ver ele, porque senão quando você escutasse o barulho já tinha passado.
Era, e aí eu cresci com aquilo até os 17, 18 anos, até entrar na aeronáutica. E aí eu falei, agora eu vou ser piloto. Mas daí minha mãe teve um acidente e amputou um braço e tal, me chamaram porque eu tinha que ajudar no sustento de casa.
Você tá falando de 45 anos atrás?
Não, é 77, né?
É por aí, né?
É isso mesmo.
Era o Mirage aqui?
Era os Mirage.
Era os Mirage? Cara, aquilo era fascinante. Era fascinante. Aí te botaram para trabalhar?
Aí virei piloto de espeto, né? Entrei na churrascaria, tô até hoje na churrascaria.
Então, mas de quem era a churrascaria? Da família?
Não, era de uns amigos do meu pai. Meu irmão também já trabalhava nela. A gente ficou lá, fiquei alguns anos até montar os nossos negócios. Depois nós montamos nossos negócios no futuro.
Quando você fala em churrascaria de quase 50 anos atrás, eu imagino que não deve ter nada a ver com o que é uma churrascaria hoje, quando a gente imagina.
Quer dizer, tem a essência, ainda tem, né? Foi a essência de serviço rápido, de fartura, de ter o rodízio. Já tinha o começo dos rodízios, que nem era nessa época. Tinha começado no Rio Grande do Sul com espeto corrido, subiu até o Paraná, Santa Catarina, ele virou rodízio de Paraná para cá, né?
Chamava espeto corrido, espeto corrido no sul.
E aí o Rodízio foi ganhando às beiras de estrada, Brasil inteiro, né, porque era um sistema fácil, os caminhoneiros paravam, comiam rápido e iam embora, não tinha, era muito rápido o serviço, então era um fast food com comida boa. Eu acho que dá para dar esse nome, ele tinha a rapidez do fast food e a fartura dos italianos, né, das cantinonas.
Você teve curiosidade de tentar procurar a origem de onde é que começou isso? Onde começou?
Até escrevemos um livro, o Dias Lopes, aquele jornalista gastronômico, Ele escreveu um livro, até trabalhamos juntos quando fizemos esse livro, que chama O Churrasco. E aí ele conta essa história onde nasceu a primeira, que foi lá em Sapiranga, no Rio Grande do Sul, a segunda que foi na BR-116 aqui no Paraná.
Sempre beira de estrada?
Sempre beira de estrada.
A ideia era essa rapidez?
Aí ele montou no livro, fez a pesquisa, ficou bem bacana. Aí conta um pouquinho do que é esse conceito brasileiro que nasceu aqui. E foi difundido no mundo inteiro.
Então, isso eu ia fazer uma pergunta para você. A região lá é ascendência italiana, né? Alemão, né? Alemão, italiano, tá tudo ali. Não tem nada, não vem nada de lá?
Daí veio assim, veio exatamente disso. O seu Matz, que foi o primeiro que fez isso, ele começou a ter problema, que na época as churrascarias só tinham carne de boi.
Sim.
E era assim, 2 cortes. Imagine isso nos anos 60, né? 54, parece que foi a primeira que abriu lá. E ali tinha muito alemão, porque Sapiranga é no pé da serra ali, quem vai para Gramado, tinha muito alemão e muito italiano da serra. Aí ele começou a colocar caça, porque italiano gostava de pomba, né, fazia caça, colocava com polenta. Aí começou a colocar frango no espeto, e aí começou a colocar carne de porco também, que a alemãzada pedia carne de porco.
Então foi uma mistura das culturas gaúchas que nasceu o espeto corrido. E aí, de onde o espeto parado, espeto corrido? Porque antes era espeto parado, né? Você chegava lá, pedia um espeto, eles colocavam na mesa o espeto e deixavam lá, e você ia cortando os nacos lá, como nas quermesses.
Eu comi em churrascaria assim, tinha até o, me lembro do aparelhinho, o cara chegava lá, enfiava o espeto e você ia lá e comia nele.
Eu tava com a faca para o lugar, cortava lá e ia dando os nacos na sua cara. E aí ele foi colocando essas coisas todas. Isso é a primeira história. A história se difunde de duas maneiras. Esse é o que eu, nas pesquisas e a história lá durante 50 anos. E essa do Paraná foi um caminhoneiro, né, que trocou o caminhão por um restaurante e começou a fazer um gaúcho, né, começou a fazer churrasco lá. E aí caiu uma ponte lá perto dele, travou toda lá, e ficou gente demais no restaurante.
E ele, se perderam nos pedidos, não sabiam mais o que servir. O dono ficou bravo e falou: serve tudo para todo mundo, pronto. E aí o negócio foi tão bom que ficou. Então tem duas vertentes que contam essa história.
Pô, essa segunda é sensacional, é bem coisa brasileira, hein?
Tudo improviso. Então uma foi mais, acho que os alemães lá, o Mats era mais organizado, porque a turma dos alemães são mais disciplinados. Os italianos são mais, não vai que acontece.
Você foi para lá fazendo churrasco ou servindo? O que que você foi fazer?
Eu fui servindo, comecei lá no Na Aparecida nem era servindo, era o moço dos sucos. Eu tinha uma barraca que vendia lá, era para antes da Aparecida, uns 2 km. Então parava todo aqueles romeiros, que 15 ônibus, 20 ônibus no fim de semana, enchia de ônibus lá na frente. E tinha a churrascaria, tinha um negócio que vendia, tinha uma lanchonete, o posto de gasolina, e eu tinha uma barraca que fazia suco. Então eu comecei com o meio do suco, o suco da churrascaria.
Não, não, eu só vendia suco. Eu tava na barraca que vendia suco. Então me treinaram para fazer suco. Então eu fiquei expert em fazer suco de— tinha uma lavoura que plantava, era meio assim retirado, tinha uma plantação de maracujá. E aí o cara do maracujá trazia fresquinho, trazia melancia, trazia abacaxi, e eu desmanchava isso, fazia lá.
Como é que você foi parar ali?
Porque esses amigos, os Sestari, que eram os donos do restaurante, eram conhecidos do meu pai lá. Eles estavam precisando de mão de obra Levaram o meu irmão e eu quis ir junto. Então eu tinha 15 anos.
Cara, você começou com 15 anos?
15 anos.
Eu vou repetir um negócio que eu sempre falo no Lídercast aqui, né? Hoje em dia, se fizesse isso, prendia o teu pai.
Não, não prendia, porque meu pai me emancipou com 17.
Mas aí, com 15 anos, você ficou morando em Aparecida e trabalhando e fazendo suco lá? Tá. Quando é que você pulou para dentro da churrascaria?
Aí, uns 3, 4 meses depois, 5, aí eu pulei para a churrascaria na parte da cozinha. Aí aprendi como lidar com as carnes, como fazer as carnes, essas coisas todas. E aí depois eu fui atender o salão, que o salão que me encantou, fácil de comunicar, gosto de gente, gosto de comida. Então o salão me encantou. Então até hoje eu gosto muito do salão, do serviço do salão, do atendimento, encantamento com aquilo que você faz.
Era a próxima pergunta que eu ia fazer.
E aí eu me apaixonei por isso.
Quando é que você agarrou o amor?
Eu me apaixonei pelo serviço, é tão simples. Quando você faz qualquer coisa a mais para o cliente, o cliente te retribui com um sorriso, com agradecimento. E quando você é moleque, como eu, 15, 16 anos, eu adorava ver as histórias. Tu parava lá aquele monte de gente com a família inteira que ia para a parecida lá, que estavam construindo a basílica, e o pessoal olhava para aquele molequinho trabalhando e falava para os filhos dele: olha só, olha, olha, ele trabalha feliz.
E provavelmente os filhos nenhum trabalhavam, né? Na minha idade ninguém trabalhava. E para mim era uma alegria fazer aquele trabalho com os clientes. Isso foi a vida inteira, né? Cuidar de gente e servir gente. Eu digo que você tem que ter o dom, ou você tem aquilo, eu falo muito nos meus treinamentos com o time, que tem ou você nasce para servir ou você nasce para ser servido. Quem nasceu para servir, ele qualquer coisa que ele vai fazer, ele vai querer servir bem, ele vai querer agradar, ele vai fazer um trabalho bem feito porque ele gosta.
Tem uma remuneração aí que não é dinheiro não. Isso que você falou da gratificação de você servir alguém.
A palavra, por isso que qualquer lugar que eu vou no mundo inteiro hoje, eu gosto de falar para a pessoa que ela está fazendo certo. Eu gosto de dizer, esse é o teu caminho. Parabéns, serviço foi bom. Parabéns, estava bom. Na loja de roupa, na loja de carro, na loja que troca pneu. Eu acho que as pessoas têm que ouvir isso de volta quando ele fez. Um trabalho que ele colocou o corpo dele, que ele colocou a energia dele para fazer um bom trabalho, ele tem que receber de volta um feedback positivo.
Mesmo que eu esteja no péssimo dia, mesmo que o meu negócio tenha sido ruim, que o meu dia tenha sido ruim, mas eu tenho que dar essa contribuição de volta para a pessoa que fez um bom trabalho.
Eu tenho uma—
isso é motivador, né?
Eu tenho uma pessoa que trabalha comigo, a Bárbara Stock, ela é do Rio de Janeiro e ela com a família, eles tinham lá uma uma empresa de alimentação, faziam eventos, fazia a feijoada da mangueira, eles que faziam. Então ela lidou muito comandando lá o buffet, né? E lidou. Então ela falava, eu ficava, quer me ver louca da vida é ver alguém maltratar um garçom meu, né? E aí ela tomou uma, ela faz uma coisa, ela senta numa mesa de restaurante, o restaurante, o garçom chega, a primeira coisa que ela faz, como é seu nome? E dali para frente ela passa a tratar o cara pelo nome.
A gente colocou o nome de todo mundo, que ela dá para o cliente saber com quem ele tá falando. Então Eu falo para eles que é para reclamar quando ele faz serviço errado e elogiar quando o serviço é bom.
Faz toda a diferença ali, né? Isso é uma coisa que nós estamos perdendo de montão, porque outro dia eu tava comentando, eu fiz uma outra, um bate-papo aqui sobre tecnologia, né? E a gente falando como mudou a tecnologia, pô, que não teve, eu tinha o bolachão, eu ouvia disco bolachão, aí foi para o CD, depois o DVD, e hoje é um É um bait, é um bait que tem aqui na, na, aqui, né? E falou, cara, se perdeu totalmente qualquer contato humano, né?
Pô, no tempo do vídeo, eu ia na locadora, eu tinha que falar com o cara da locadora, então trocava ideia com ele. Já viram esse vídeo? Como é que é? Como é que é? O cara que tem que legal. Então tinha todo um contato lá que a gente se perdeu.
Mas eu acho que tá chegando outra coisa, que eu acho que a inteligência artificial tá ali tão, tão rápido, como GPT, Cloud, tudo isso tá vindo, que ele já— eu tenho muita coisa que eu já faço com eles e que ele sabe tudo da minha vida.
Sim.
E aí eu pergunto, ele responde. Eu tenho uma dúvida financeira, dúvida de construção, dúvida de serviço, eu vou lá perguntando, ele vai me respondendo. Eu fico impressionado porque ele sabe da minha história inteira, ele sabe da minha vida, ele sabe os pontos que eu quero atingir, como. Então já tem um—
a culpa é tua, você que alimentou ele com essas coisas todas aí.
Ele tá ficando cada dia melhor.
Eu tenho um amigo meu que é muito religioso, Ele tá rezando com o ChatGPT, cara. Ele senta lá e tá fazendo a reza dele com o ChatGPT, né? Mas de qualquer maneira, só voltando aqui para o nosso caminho lá, né? Então você é ali, você entendeu que você tinha nascido para isso, né? Sim, cara. Se você perguntar para mim assim, qual é, com o que que eu não quero lidar na minha vida? Eu vou falar para você: comida.
Não, comida tem que gostar.
Não, então eu não quero lidar com comida, de servir comida, porque, cara, para mim a carga de responsabilidade que tem um negócio desse é uma coisa brutal, cara. Eu vou te oferecer um treco que você vai ingerir, sim, você vai comer o que eu tô te oferecendo. Então, cara, se eu não te oferecer redondinho, maravilhoso— outra, eu não sei se você tá de bom humor, de mau humor. Eu chego aqui cheio de amor para dar, toma uma patada, o outro não me paga, ou deu um negócio, cara, é muito rolo, é muita Fiscalização de todo tipo, imposto.
Cara, isso é um horror, não quero trabalhar com isso, eu quero distância disso aí, né? Mas é aquilo que você falou, acho que tem que ter o dom.
Sim, tem que ter. E essas coisas todas têm tudo que é setor, tá? Então fiscalização em todo lugar, entregar você tem que entregar, em todos os setores tem que entregar. O que que eu falo para o meu time? Que o nosso negócio é divertido e alegre. Sim, eu não teria o dom de trabalhar num hospital porque as pessoas estão lá reclamando o tempo todo. Então nós temos algumas reclamações, tem um mau humor, tem, mas a parte de alegria é muito maior. É quase como um show, né?
É, e você falou um negócio importante, no hospital ainda você tem que dar notícias muito, muito ruins para as pessoas, né?
Mas agora quando você faz, fala de comida, ela é um A comida é um negócio transformador, né? Sim, porque os momentos alegres da nossa vida a gente lembra de uma boa mesa. Sim, quase sempre tem uma boa mesa naqueles momentos mais alegres da nossa vida, tem um antes ou depois teve.
Mas deixa eu te, eu te especular uma coisa com você. Você falou que tem que ter o dom, tem que gostar, né? Tem que, tem que aprender a gostar. Então isso eu queria encaixar naquele, especular com você. Você se encantou quando entrou naquele ambiente? Quer dizer, se não fosse comida, se fosse, sei lá, e tivesse também que servir para as pessoas, ou se fosse piloto do caça lá também, você teria encantado igual?
Sim, talvez sim. Eu acho que eu teria feito bem feito qualquer uma das coisas, não ia fazer mais ou menos. Eu ia dar o máximo de mim em qualquer uma das situações, que isso a minha família e o meu avô, meu pai, minha mãe sempre passaram esse princípio muito sólido. Do que a gente tinha que fazer, tinha que fazer bem feito e entregar da maneira correta. Então qualquer coisa que eles pediam para a gente fazer em casa, eles não aceitavam que fosse mais ou menos, tinha que ser bem feito.
Então acho que isso, e não é só Paulo, é isso, meu irmão, minhas irmãs, todo mundo pegou essa doutrina que serve para qualquer coisa que você fizer na vida. Então acho que eles foram de grande importância na nossa criação, na nossa condução de vida.
Eu escrevi um texto um tempo atrás chamado Foi Mal, é o nome do texto, onde eu começo com uma carta que um leitor meu mandou para mim e falou: pô, Luciano, chamei um cara aqui para arrumar o telhado na minha casa, papapá, o cara veio aqui, fez o trabalho, terminou o trabalho, e em vez dele me pegar e falar: seu fulano, vem cá, deixa eu mostrar para o senhor o trabalho que eu fiz. Não, ele virou, tá entregue, virou as costas e foi embora.
E aí deu problema, deu goteira, liguei pro cara, ele foi lá, depois voltou de uma semana, mão de obra, sujou tudo de novo. E eu, pô, cara, aí ele vai, foi mal, foi mal. E aí eu vou em torno desse foi mal, que é o, sabe, nas coxas, de qualquer jeito, se der errado dá um jeito, foi mal, foi mal, refação, custo dobrado, aquela coisa pavorosa lá, né? Tem a ver com isso que você falou, cara.
Se é pra fazer, cara, faça bem feito da primeira vez e não larga É o mesmo trabalho fazer bem feito ou mal feito, atender bem ou atender mal, é o mesmo trabalho.
Você ficou lá como garoto?
Aí fiquei lá, passei para o Rio.
Aí com 18, você foi convidado para ir para um outro, para o Rio, aí numa churrascaria também.
Aí de lá acumulamos dinheiro, eu, meu irmão, mais outros dois sócios, e diziam empreender, e fizemos nosso primeiro negócio. Aí eu já tinha 18 anos, já tava bem velhinho, né? Então, é, não tinha, faltava um pouquinho para 18.
Deixa eu sondar com você essa coisa do bichinho do empreendedorismo aí, porque uma coisa é você tá lá dentro, você tá contratado, tem seu salário, tá tudo certinho, você não tem, não tem muita encheção de saco, né? Não tem que tocar a empresa, alguém tá tocando e você tá lá fazendo teu trabalho e recebendo. Quando é que pintou essa ideia de que quero ser dono da firma, cara?
Foi assim, como essa boa vontade sempre, nesse restaurante que eu trabalhava, os gerentes, os donos, eles trabalhavam muito de dia, eu também, de dia e noite, era full time lá, não tinha esse negócio de 8 horas, era 14 horas, tempo que precisava eu tava lá presente. Mas aí no final da noite todo mundo não queria ficar porque os donos paravam lá pelas 10, 11 horas da noite e sentavam numa mesa lá perto da chopeira e ficavam bebendo chope.
E alguém tinha que ficar para servir, e eu ficava para servir eles. E acho que foi o meu grande aprendizado, porque eles ficavam discutindo toda coisa do dia e todos os problemas que eles tinham para tocar o negócio. Sim. E eu fui por absorção, aprendi tudo.
Você só ouvindo os caras?
Só ouvindo os caras, aprendi tudo. Como é que eles faziam isso? Como é que fazia aquilo? Como é que fazia compra? Como é que controlava dinheiro? Como é que fazia? Como é que, quantos percentuais tinha que sobrar para cada lado? Quanto era o X de comida contra o X de aluguel contra o X de energia e pessoal para trabalhar. Aí eu fazia uma conta, não, mas sobra muito dinheiro nesse negócio aqui. Naquela época sobrava assim tipo 50%.
Aí eu falei, nossa, mas então eu tô trabalhando só por isso aqui, eu acho que aqui isso aí é o meu negócio. Aí eu comecei a mirar que era aquele lá o meu negócio. E aí foi construindo e vamos fazer um negócio desse para nós. Mas você fazia ideia do tamanho de crenca que tinha, porque uma coisa, tudo na vida acontece. A minha grande vantagem é que eu nunca soube o que tinha na frente, eu fui fazendo. E até hoje não sei o que acontece.
Eu trago um monte de gente empreendedor, cara de sucesso, pergunto, o cara começou o negócio, me fala do teu plano de negócio. Que plano, cara? Só tô fazendo aí como do jeito que deu, a gente fez, cara.
E foi fazendo. E aí fazendo, e o negócio foi crescendo, e aí você vai se estruturando, e aí assim foi a vida inteira, e assim até hoje.
Aquilo era um tempo em que dava para ser assim, né? Hoje em dia não dá mais, né?
Mas era um tempo que não tinha tecnologia, que não tinha— quando eu comecei meus negócios, gente, não tinha telefone, só tinha telefone fixo, não tinha computadora, fazia tudo, todas as minhas anotações, todos os meus controles eram numa agenda. As notas fiscais eu botava numa caixinha e mandava pro contador. O faturamento era um rolo, uma maquininha daquelas que você digita assim, que era um rolinho de fita. Eu mandava o rolinho de fita lá pro contador no final do mês.
Não tinha nada, nada. Fornecedor não existia, você tinha que bater na porta do supermercado pra comprar, na porta do vendedor pra comprar. Então era outro mundo. Aí qual que é a felicidade? Toda transformação do mundo aconteceram, aconteceu realmente nesses 50 anos. Eu vou fazer 50 anos em maio do ano que vem.
50 anos de profissão, de profissão na churrascaria, de restaurante.
Então desses 50, tudo aconteceu nesses 50 anos na vida, né?
Então televisão foi aí, computador foi aí, satélite, tudo, tudo, tudo, tudo aconteceu.
Aí não é que eu fui, eu fui me adaptando, né, pegando aqui, pegando ali. Nunca tive preguiça de aprender, de estudar, de ler, de ir atrás e de bater papo com alguém e pegar conselho de outro, consultoria de outro, falar com advogado aqui, falar com contador ali, e depois com as auditorias, depois com os grandes bancos. E aí foi, esse foi o caminho. Então, e aí é uma coisa quando você tem uma loja, uma coisa quando você tem duas lojas, outra coisa é 3, outros que 30, vai mudando, né?
Aí os volumes, quando você tem 10 pessoas trabalhando ou 3 mil trabalhando, já tive todos esses caminhos aí no meio da viagem.
Mas então, o que eu queria sondar com você, você tá bastante ativo, tem vários negócios hoje, aquele ímpeto que a gente tinha naquela época do cara, vou fazer, sai da frente, e do jeito que der, deu, eu me viro. Não dá para fazer isso hoje?
Não, não dá. Hoje tem que ser planejado, tem que ser planejado, porque o custo é muito alto hoje. Vamos supor, quando eu abri os meus primeiros restaurantes, você abria com R$100 mil, você montava um barraco e começava a fazer uma coisa diferente. Hoje, para montar um bom negócio, gasta 4, 5 milhões. Então, se você não tiver planejamento, você vai afundar no barro.
Dinheiro muito mais caro do que era, muito mais caro, muito mais difícil.
O dinheiro é a coisa mais escassa do mundo e a coisa mais cobiçada do do mundo. Então, se você não tiver controle sobre ele, ele vai te estragar. Ele vai te levar para o sucesso e vai te estragar também. Então é assim que eu leio e vejo a parte do dinheiro nos negócios. E para construir um negócio tem que ter um planejamento. Então vamos andar os passos. Então eu tô contando a base lá inicial, não teve, mas depois disso começou a ter planejamento.
Já nos anos 80 começamos, apanhamos já bastante. Começamos a aprender em 4, em 4, aí começamos a aprender. Nos anos 90 a gente foi aprimorando mais e graças a Deus 90 deu a santa abertura de mercado brasileiro, né? E aí a gente teve acesso a uma série de outras coisas, a uma série de tecnologias. E aí eu chamo o Brasil, Brasil mesmo, vale de 80 para cá.
Eu falo que é a segunda abertura dos portos, a primeira foi lá no lá no reinado, né, no império. E aí a segunda foi aí, quando o Collor vai.
E aí a gente conseguiu. E aí a gente não— nessa época eu tinha feito também as primeiras viagens para Europa, já entendia como é que era o mundo lá fora. E aí tinha ficado, visitado, visto. E quando deu abertura, aquelas coisas que eu vi lá, vai tudo para cá.
O modelo de negócio que você tinha aqui você não viu lá?
Não, aquele modelo não tinha nada, mas existia gastronomia, né?
Sim, comida sim, mas o modelo de uma coisa, tudo, tudo linkado.
Quando você fala em gastronomia e serviço, é tudo linkado uma coisa. Hospitalidade, que é hotel, gastronomia, que vai para hospital, vale para tudo, para empresa. Esse segmento, quando é um contexto que um aprende com o outro e um ensina o outro, né? Sim. Então lá eu vi muita coisa que podia funcionar bem aqui. Mesmo dentro de um conceito que era brasileiro. Então a inovação começou aí, né? Começou um pouquinho antes da abertura mesmo. Então de modelos diferentes, de colocação diferente.
Quando foi que a— eu não sei que nome dá para isso aí, mas quando foi que a churrascaria deixou de ser aquela churrascaria do espeto único para se transformar no negócio do rodízio e tudo mais? Houve um momento em que isso virou uma febre, né?
Sim, virou uma febre. Nos anos 80.
Foi anos 80 então?
Nos anos 80.
Tá, que eu me lembro mal.
Nos anos 80 foi quando a gente chegou em São Paulo, quando a gente começou a fazer, aí virou uma febre, abria uma a cada 3 meses.
Mas quem começou aqui?
Quem começou aqui foram nos grandes centros, começou ao redor, né? Então tinha Roda Viva que começou lá em Guarulhos, Osasco, lá na Dutra no comecinho, Roda Viva. Depois teve o Tropeiro lá no Butantã, aí teve O pessoal que era da Ponteio, né, que veio. E aí já entraram nos bairros, já veio aqui para Moema. Foi nessa época que nós chegamos, nos anos 80. E aí, mas era um negócio tudo mais—
o mesmo nome que tem hoje?
Todo mundo tem até hoje. Quase tudo desapareceu.
Não, o teu, a tua, é o mesmo nome até hoje?
Os meus, eu fui mudando, né, de áreas, construindo e vendendo, construindo e vendendo. E hoje que é o o NB, né, que era o Na Brasa em Porto Alegre, ok, que surgiu nos anos 90, que era com a minha irmã mais nova.
Eu comi lá.
E aí do Na Brasa virou NB Steak, porque ele fez essa caminhada, né, de dar uma limpada. E a gente fez o terceiro grande movimento. Então o grande movimento foi das estradas, veio para os grandes. Aí neste que eu chamo a segunda geração do churrasqueiro, que nós entramos, aí nós fizemos Trocemos para os bairros melhores das cidades, pulimos e demos um tratamento diferenciado. Então as churrascarias passaram a ter ar-condicionado, espaço maior, toalha nas mesas, uma apresentação diferente, um outro padrão já de restaurante, que aí já era década final de 80 para início de 90.
Aí nos anos 90 teve uma grande evolução. Aí com isso ela se esparramou pelo Brasil inteiro, virou um grande sucesso no Brasil inteiro. Eu me lembro quando a gente chegou em São Paulo, que era para ter, tinha algumas, eu falava, isso aqui vai ter 10 premium, 100 mais ou menos e 500 de baixo padrão. E hoje no estado, se a gente somar, tem quase tudo isso, tá? E a mesma coisa foi com o mundo, porque um conceito vencedor ele vai ganhando espaço.
E aí nós fomos responsáveis por essa passagem da estrada para polida e a divulgação do conceito e o conhecimento do Brasil inteiro disso. E nisso começou a leva dos estrangeiros. Com a abertura começou a vir a leva dos estrangeiros e estrangeiro ficava louco de chegar aqui. A carne era barata no Brasil na época, muito barata. Eu acho que a gente vendia de $8 a $10 por pessoa. Então hoje a gente vende a $50.
Trabalhou numa empresa americana, eu sei o que acontecia com aqueles gringos.
Ficava louco. E aí chegamos aqui, aí quando chegou agora na fase do Na Brasa e do NB, já é a terceira onda já, que daí a gente tirou todos aqueles excessos, buffet que tinha colocado, um monte de coisa, a gente eliminou tudo e deu uma tranquilidade e criou um conceito mais premium possível. Então vai das melhores cortes de carne que a gente pode encontrar no mercado até o wagyu, tá? Então você pega raças extraordinárias com abate de 20 meses, a gente seleciona na fazenda, sabe a rastreabilidade, sabe o que o boi come, compra sempre do mesmo lugar para ter esse padrão completamente diferente.
Então esse é o terceiro round da sofisticação e da qualidade. Então acho que foi bom que eu participei dos três, tá? Participei do dia de estrada, participei do polimento e ajudei muito nessa empreitada. E agora estamos na fase 3, que é a fase da consagração.
Você considera premium isso? É premium. Então eu vou entrar lá, não vou achar sushi, sashimi.
Mas nós vamos ter a melhor carne do mundo. Nunca misturei, tá, no meu conceito. Eu tenho dois conceitos. Tem o NB, que é o conceito de carnes, e é 100% brasileira, trabalha só com produto premium. Todas as carnes servidas são brasileiras. Exceto o aguilho e o cordeiro, que vem da Nova Zelândia e Chile, e o aguilho vem da Argentina e Uruguai, porque ainda a gente não tem um, mas tem uma parte brasileira também que eu uso. Mas a ideia é ser 100% brasileiro, produto brasileiro, apresentação brasileira.
Porque como é que nós estamos? Nós somos o maior produtor de carne, maior exportador de carne, sim. E eu ficava meio rejeitando até carne de outro país aqui. Então foi essa provocação que foi para cima dos frigoríficos. Falo, vocês têm que me ajudar a ter a melhor qualidade do mundo produzida no no Brasil, e eles toparam.
Isso é um valor de vocês, é um valor de vocês, né? Você definiu que teria que ser assim, deu certo.
Sim. E aí tem um outro segmento que é o Maremonte, que é um conceito 100% italiano, que faço 100% dos produtos. Tomate pelado vem da Itália, farinha vem da Itália, todos os produtos da Itália, porque no grupo são 10 de unidade de um tipo, 10 unidades do outro, e trago tudo da Itália. E tem um faça o melhor possível da Itália.
Cantina Maremonti, não é isso? É isso, hein? Tem em Porto Alegre também?
Não, só tem 10 unidades em São Paulo e uma em Goiânia.
9 em São Paulo, meu velho.
Nasceu lá na Praia da Riviera, veio subindo e a gente fez tudo em São Paulo. E agora começou a expansão nacional, foi para Goiânia.
Você está ouvindo o Lidercast, um podcast voltado para liderança e empreendedorismo. De onde veio este, tem muito mais. Por exemplo, a minha mentoria MLA, Master Life Administration, um programa de treinamento contínuo em que reunimos pessoas interessadas em conversar sobre temas voltados ao crescimento pessoal e profissional. Comunidades online oferecem conexão, compartilhamento, apoio, aprendizado e segurança. O MLA é mais do que isso.
É um mastermind para profissionais com encontros mensais presenciais e online, promovendo uma sensação de comunidade e uma troca muito valiosa de experiências. Olha, tem vagas disponíveis. Se você se interessa em estar comigo, acesse mundocafebrasil.com e clique no link para saber mais. Quando é que você— os 4 sócios ficaram durante muito tempo?
Ficamos 25 anos juntos. Bom, mas depois ficamos só eu e meu irmão.
25 anos é um casamento, né? Uma vida inteira, né? Aí depois a pergunta que é o seguinte: os 4 moleques se juntaram lá, vou montar um negócio, vou montar a nossa primeira churrascaria. Quando foi que vocês se sentaram assim para conversar e falaram, cara, deu certo? Quando começou a sobrar dinheiro, deu certo. Mas então, como é que era?
Quando começou a sobrar dinheiro, já vamos ter que fazer mais. Aí que eu vi que tinha 4 4 caras juntos vai dar problema. Falei, vamos abrir mais loja que daí não dá briga, bota cada um para cuidar de uma. Aí fizemos lá em Porto Alegre, aí andamos mais um pouco, ah, vamos fazer o Brasil. E fizemos São Paulo, aí já dividiu sócio, então dava tempo para brigar, cada um tinha cuidado do seu pedaço. Quando ficamos maiores, aí vamos dividir, vamos para um país, outro para o outro, também não dá tempo de brigar.
Parece que é fácil, bicho, você falando assim, pô, puta, treco fácil, põe 2 aqui, põe 2 ali, põe Não é assim, né? É uma técnica.
É conversa, é convencimento. Você tem a ideia, como é que se implanta a ideia. E ter mais gente na sociedade sempre é bom porque tem a discordância. E na discordância dá tempo de você pensar para ver se realmente você tá no rumo certo. Então tem essa importância de ter discussões. Então a democracia é boa por isso, para o mal ou para o bem, né?
Quando você aceita ouvir o outro, né? Ouvir o outro lado, né?
Mas precisa, né? Você pode ter opinião forte, saber onde você vai, mas ouvindo você faz ajustes.
Como é que você vê hoje em dia o mercado da alimentação no Brasil, né? Ele profissionalizou, sim, mas aquela coisa, é, a gente sabe como é que, mas aquela coisa de aquela carne inicial, aquele churrasco gaúcho feito lá no chão, no tolete no chão, aquela coisa toda, né? Isso meio que foi industrializado e virou uma coisa meio industrial. Quer dizer, daí parece que é a mesma coisa, mas não é, né?
Não, é que o que aconteceu assim, dos 5 mil restaurantes nos anos 80 em São Paulo, hoje tem 50 mil. Então a competição tem que profissionalizar, tem que virar um negócio mais sério, porque é um negócio que emprega muito, gera muito, receita muito alta. Mas o que aconteceu? Aconteceu também isso com todos os mercados. Então vamos pegar, teve a consolidação do supermercado, teve a consolidação das farmácias, teve a consolidação dos frigoríficos.
Quando aconteceu com os frigoríficos, acabou o problema, porque você não tem mais problema com com fornecedor de qualidade. Os caras já, eles se preocupam com isso, eles fazem isso, você tem que pagar por isso. Você quer premium, vai pagar, você quer médio, vai pagar, você quer ruim, vai pagar. Então teve a cadeia de suprimentos, andou junto, né? Então principalmente São Paulo, hoje você tem tudo do mundo inteiro aqui com abertura, então dos importados, de tudo.
Então por isso que automaticamente todo setor teve que evoluir junto. Então veio a parametrização, veio metodologia, cada um criou o seu, criaram-se as redes, todo mundo saiu do balcão. Então vamos ver, 20% que domina 60% do mercado, é assim que funciona, e os outros 40% são as empresas simples, pequenas e de família ainda. E eu acho que isso vai ficar sempre. Nos Estados Unidos também é assim, Estados Unidos até mais, né, 80% é rede e investimento maciço, e 20 é a Europa.
Não, a Europa inverte, né? Aí é 60% de pequenos negócios e 40— eu não sei o que que é o certo. Não sei se o Brasil foi mais para América, então nós temos mais a cara da América e não a cara da Europa, mesmo nós tendo uma colonização muito forte de europeus. Mas a gente pegou a mão, é o modelo americano, modelo americano de funcionamento.
Volume, né? Muito volume.
Então você já tem o supply, já tem os fornecedores. Automaticamente fica mais fácil para você fazer mais lojas, manter qualidade, manter padrão, porque você terceirizou essa padronização e essa qualidade. Então você hoje é melhor. Aí você vem toda essa, falamos da área do mundo que está hoje com inteligência artificial, com robótica, com tudo isso, é o próximo passo que o restaurante vai entrar. Nós entramos na era digital e agora nós vamos entrar na era do robô.
Muitos dos serviços vão ser feitos por robôs, uma série de coisas. Muito dos controles já são feitos por agentes, não são mais feitos por gente. Então, mas isso agrega. E aí, por que que nessa vocação que eu tive lá do comecinho, cada dia ela floresce mais em mim? Porque eu digo que eu sou um homem de salão. Então, homem de salão é encantar as pessoas e ter elas no salão. Então, não é minha praia, não é fazer delivery, não é fazer um formatinho e botar para vender.
É a experiência, é ver a pessoa, a família lá, e ver o namorado lá, é ver o acontecimento que aconteceu, é ver quão feliz as pessoas ficam de chegar no lugar que é bonito, que é bem feito, bem organizado. Então, essa parte é que eu acho que é o grande ganho dos próximos 10 ou 20 anos, é quem conseguir segurar essa experiência, a experiência, a experiência e esse encantamento.
Isso vai ser, isso vai ser o ponto. Fascinante ver o cara da bobina, que entregava bobina para o contador, falando do ChatGPT, do clone, a felicidade da gente viver nesse mundo. Pois é, eu tava conversando outro dia com alguém e tava falando, falei, cara, eu tenho, eu trabalho aqui com comunicação, com mídia e tudo mais. Eu comecei minha carreira como revisor num jornal lá em Bauru, que era o jornal a linotipo. E linotipo era pré-história, chumbo derretido.
Só que eu assisti tudo, eu saí do linotipo e cheguei no e-book, né? Então todo esse processo eu acabei vivendo. E acho que isso é uma, é um privilégio a gente poder estar nessa época aqui.
Foi o Bauru, ele veio de uma história de Bauru.
De Bauru?
É, Bauru. Nós temos a nossa cerveja, a gente faz uma cerveja premium para os nossos restaurantes e é feita lá em Bauru. Pela Cervejaria Servos, sabe? Na entradinha lá tem uma Cervejaria Servos artesanal. Sim, aquele senhor tem uma história fantástica. Ele foi um mestre cervejeiro, dos primeiros mestres cervejeiros da cerveja vienense. A vienense virou a Brahma.
Nossa Senhora!
É, como é que quando ele foi expulso de Budapeste, que o pai dele tinha uma cerveja, uma cerveja e um hotel, na invasão foi expulso, ele foi na Áustria. Na Áustria fez um de mestre cervejeiro. Aí leu num jornal que tava precisando de um mestre cervejeiro no Brasil e ele veio para cá. Era vianense, ele ficou a vida inteira lá. Aí ele aposentou na Brahma, fez essa cervejaria Servos aí, que é pequenininha, e ele e a neta fizeram uma cerveja para nós, a Quatro Mãos, que é uma cerveja excepcional.
Foi, tu devia ter trazido uma para a gente beber. A história do Mauro, muito legal essa história.
Meu caro, curiosidade que eu tenho com todo mundo aqui: o setor de restaurante foi o que mais sofreu na pandemia, né? Foi terrível o que aconteceu ali, né? Eu tenho amigos que trabalhavam com isso, que um deles até morreu muito cedo, e eu tenho certeza que parte das causas dele ter morrido cedo foi o que ele passou durante a pandemia, né? E eu me lembro de eu conversando com ele, ele chorava na minha frente. Eu falei, cara, tive que dispensar, caras estavam comigo aqui há 20 anos, é um negócio terrível, né?
E ele falou, e não é uma dispensa que vai embora e volta daqui um mês, era um negócio totalmente incerto ali, né? Como é que pegou vocês aí?
Eu digo, tem duas coisas que foram os dois grandes choques na minha vida, não foram planos econômicos, não foram crises de subprime, não foram nada disso, foi Azélia Cardoso de Melo, quando ela deixou 50 para cada um, que os restaurantes ficaram— eu olhei para o restaurante, não tinha nenhum cliente.
Caçou o dinheiro de todo mundo, não tinha nenhum cliente.
Chegou, fazia assim 500 pessoas por dia, na semana seguinte tinha 3 clientes lá na hora do almoço. Aquilo foi um desespero. Lembro que assim, falei: corta tudo, vamos ver o que nós temos que fazer, ver o que nós temos no estoque. Nós temos que sobreviver até esse negócio voltar. Então esse foi um choque, o maior primeiro choque de realidade na vida, e me ensinou que eu tinha que ter reservas, reservas financeiras para aguentar o tranco.
Meu pai sempre falou isso, austríaco, daquela doutrina austríaca de primeiro você ganha, depois você dá o passo. Então ele, meu avô também me ensinou isso, mas a gente vai sentir mesmo quando a coisa aperta na gente. Então essa foi a primeira lição. E a segunda maior lição, que daí eu já tava preparado, Foi nesta lição da pandemia. Aí nós já tínhamos um caixa suficiente para aguentar o tranco do que veio, mas a gente tava com caixa para fazer expansão, dobrar de tamanho.
Por sorte, a gente não tava dobrando de tamanho, a gente tava só olhando e não assinamos nenhum contrato de compromisso. Mas quem assinou o contrato nesse tempo aí foi um inferno na vida, porque a gente perdeu todo o faturamento, foi para o delivery, mas delivery fazia 10% do que nós fazíamos de receita, gerando 20%. Se a gente não fizesse delivery, era melhor. Porque quando se vira a chave de um restaurante para fazer delivery, ele não paga a conta.
Então a gente bancava igual, não, porque delivery é muito pouco, você vende 10% do que vendia. E aí o que que acontece? Você não tem como pagar a conta, ele vai dar prejuízo. Então quanto mais vendia, mais dava prejuízo. Era basicamente isso a conta. Então a gente sustentou só para as marcas ficarem lembradas. Aquele ano da pandemia a gente sustentou assim. E aí viu que não ia mais voltar, fechou, reestruturou. A gente não mandou embora a gente, tá?
A gente parou de mandar. Não, a gente fez um— o governo ajudou com metade, a gente ajudava com metade. E aí todo aquele estoque que tinha, que a gente não vendeu, a gente distribuiu para todo mundo, foi dando cesta básica. Aí foi ajudando conforme que precisava, né? A Regina, que era de recursos humanos na época e tá ainda até hoje.
Quantas pessoas estavam envolvidas nisso?
Nessa já eram 600 pessoas, então tinha bastante gente. Hoje tem 800, mas era 600. Então tinha que fazer um jogo de acerto, né? O que que a gente tirou foi só Campinas, a gente tava abrindo uma loja, tinha 60 pessoas contratadas, a gente abria dia, ia abrir dia 16 de maio. O lockdown foi em 16 de março, então 15 dias antes a gente tava com equipe, 60 pessoas para começar tudo. Essa aí não, essa aí eu falei, para tudo, não sei quando a gente vai voltar, vamos ter que dispensar esse pessoal. Acertou o que tinha que acertar e deixou lá.
Voltou? Aí voltou, mas só um ano e pouco depois, mano, no mesmo lugar, no mesmo lugar. O prédio alugado, tudo preparado, tá pronto, só pagou aluguel. Um ano parado. Meu Deus do céu, cara, que loucura foi aquilo!
E aí tem uma coisa mais complexa, Não é que voltou um ano depois, as pessoas só tiveram confiança de voltar ao restaurante 3 anos depois. Ele voltou meia-boca, né? Porque os mais velhos, enquanto não mandou tirar máscara definitivo, eles não vinham. Então ficou naquele chove mas não molha. Então não é um ano, foram 3 anos aí de sacrifícios sem a gente ver resultado. Então por isso que você fala do teu amigo, mas muita gente achou que ia voltar 15 dias depois, porque até Até que eu achava, mas aí eu falava com os meus amigos italianos, espanhóis, portugueses que já tinham passado pelo processo lá, cara, era um ano e não tinha voltado, não tinha voltado, porque eles sofreram tanto quanto aqui, porque era turismo, e turismo é pior ainda, turismo demorou para voltar, para as pessoas terem confiança de voltar no turismo é mais complexo, né?
Aqui a gente vive de uma cidade que a gente consegue ver de uma cidade como São Paulo, mas Muitas cidades que é de turista sofreram muito mais. Esses sofreram uns 4 anos até voltar ao normal.
Aparecida.
Sim, Aparecida. Você pega outra cidade, Praia. Praia ainda foi bem, porque o pessoal saiu da cidade e foi. Campo do Jordão, o pessoal saiu da cidade e foi. Então, cidades próximas assim onde sofreu mais. Gramado sofreu porque não tinha público em Porto Alegre para Gramado. Então, alguns pontos turísticos sofreram mais.
Que loucura, cara.
Então, eu tive duas grandes lições aí de sufoco, sabe? E aí fui salvo nas duas por ter um caixa sólido e garantido. Então, a gente sempre deixa, tenho lá um X que já tá no estatuto da nossa empresa, que tem que ter aqueles X de garantia no caixa, ou no caixa ou no crédito garantido que você possa acionar e pronto. Teve uma época que eu operava até com, não precisava do dinheiro, mas pagava um fizinho lá para o banco me garantir um crédito.
Você não contente em se incomodar com comida, com essa coisa toda, você resolveu diversificar as coisas e foi partir para outras.
É diversificar porque nessas horas eu precisei da diversificação. Você percebeu ali, né, que lá atrás, desde a época da inflação, então quando era inflação de 20%, 30%, Eu pegava o dinheiro daqui, eu tinha que saber onde é que eu colocava. Então eu comprava boi de meieiro, eu comprava terreno e construía galpãozinho, comprava terreno que fazia loja. Até daí partiu fazer prédio, aí fazia para fazer condomínios horizontais.
Você criou uma, aí foi criando uma empresa imobiliária e construtora.
Sim. E aí continua assim, já que fomos, né? Aí virou uma empresa de investimento imobiliário.
Quando cai um negócio, o outro segura um pouco.
Mas nesse caso foram os dois, tá? Engraçado que na pandemia os escritórios, muitos escritórios que eu tinha, começou a esvaziar, ou teve que negociar o aluguel. É também isso, duas pancadas numa vez só. Dizer não, não tem Deus que ajude.
Não tem sim. Aí voltou essa questão imobiliária, volta, porque eu vi muita gente, o cara vai fazer home office, quando passar o home office volta. Eu tinha, eu me lembro, eu tenho uma empresa que é um fornecedor meu de uma parte de TI, essa coisa toda. Pouquinho antes, muito pouco, assim semanas antes da pandemia explodir, eu fui visitar ele lá e tava lá no escritório com ele. Ele vira, vem cá, foi na janela do prédio, tá vendo aquele prédio lá?
Aqueles dois andares ali são nossos, é nosso. A gente vai mudar para lá e vai ampliar. Pandemia. Não só não mudaram como ainda largaram porque esvaziou o negócio dele. E uma hora o cara olhou e falou, cara, eu tô produzindo igual, não tô com a turma aqui, não preciso disso aqui, então não quero mais o andar de baixo. E virou um showroom que ele tinha lá e mudou completamente a razão do negócio dele lá, né? Quer dizer, o dono do—
igual no meu caso, eu fiquei com prédio vazio 2, 3 anos, de 2020 a 23.
Vazio.
Sim, inquilino devolveu, ficou vazio lá.
E aí, o que que você faz com o prédio?
Precisa ter um colchão para pagar IPTU, segurança, você tem que pagar. Ninguém vai lá baixar. Você tem que ter nessa hora que tem que ter um colchãozinho, tá? Ou um creditozinho para buscar, né?
Você não tá fazendo apartamento para morar não?
Agora sim, agora estamos fazendo Minha Casa Minha Vida também. Que é um setor que tá indo bem, então tem que fazer. Já fizemos mais de luxo, agora voltamos para o que vende.
Uma visão boa aí de todos os segmentos do Brasil, né, meu caro? Como é que tá esse? O que que você tá vendo desse mercado maluco aqui? Vou te contar, eu tô com 70 anos agora, então pode ir junto. 65, 70, passei por poucas e boas desse país aqui. O pessoal sempre fala, ah, mas eu falei, cara, sou de uma época que pegaram dinheiro de todo mundo, cara. Tinha inflação de 85% ao mês, cara. Era uma loucura o que a gente passou por aqui, vocês não fazem ideia, né?
Não, porque agora tá ruim, agora vai quebrar. Mas eu tô sentindo que o momento de— o nome não é crise, é o momento de falta de credibilidade como esse que nós estamos vivendo agora Sabe, cara, a economia não tá bem, a justiça não tá bem, a política não tá bem, o futebol tá uma merda, televisão tá horrível, onde você olha tá esculachado, tá meio encrencado, né? Como é que você tá vendo isso?
Mas eu olho o copo nem muito vazio nem muito cheio. Então, a vida inteira sempre olhei assim. Então como é que eu olho? Tem coisas que o Brasil, como falamos de 50 anos, o Brasil fez coisas fantásticas nesse ano. Vamos pegar rodovias. São Paulo tem as melhores rodovias do país e foram feitas nesses 50 anos. Vamos pegar a cidade, ela cresceu desordenada, mas depois estamos tentando organizar ela. O ensino deu uma caminhada para pior, mas caminhou.
E teve uns outros segmentos que foi. O agronegócio é um negócio fantástico. A Embrapa, não, ainda não. A Embrapa tá, mas tem bastante contato por causa desse negócio. Embrapa fez um puta trabalho, então tá aí. Então quando a gente olha, e o Brasil é muito rico, né? Nós temos as 5, nós temos as maiores riquezas do mundo aqui: água, floresta, alimento, sol o tempo todo, clima maravilhoso, 200 milhões de pessoas.
Agora inventaram até uma tal de terras raras, que a gente também tem, né?
Lítio também tem, tá tudo aqui. Então, um país desse não quebra, né? Ele pode estar desgovernado, mas depois qualquer coisa que puxa no manche de volta, ele apruma e vai rápido. Então, ele aceita esses desaforos todos que a gente passa, é por isso.
Mas você como empresário, você como empresário olhando para—
Eu como empresário tenho que ser otimista de nascença, senão eu paro de fazer investimento.
Não sei se você vai parar, né? Mas você já navegou por mares turbulentos aqui no Brasil, né?
Nós estamos passando por um momento de turbulência e vamos passar por um pouquinho mais arrochadinho em 27, 28. Tô desenhando, tem que ter colchão para esses próximos 2, 3 anos. Qualquer governo que ganhar, independente, vai dar uma desestabilizadinha porque nós estamos passando de 100% do que a gente ganha. E sempre você gastar mais do que você ganha vai dar problema. Então veja como resolver. A reforma tributária é boa também, mas até na implantação dá uma chacoalhada, vai ser uma confusão.
A escala por um, é excelente para os colaboradores, vai dar mais tempo, tudo, mas vai ter um ajuste que tem que se fazer nos próximos anos. Isso tudo para mim vira inflacionário um pouco. Então, quando nós estamos mordidos de leão da inflação, a gente tem medo de quando começa a mexer em alguma coisa que a inflação pode acordar, né? E se ela acordar, às vezes você não tem mais rédea. Olha o que aconteceu com a Argentina de um governo para o outro, entre o Macri e o Milei.
Desordenou a inflação e corroeu o poder de compra da população e virou um caos. A inflação me assusta demais. Que corrói qualquer coisa, mesmo que você tenha colchão, mas ele é traiçoeiro. Então a gente tem que acompanhar muito com detalhe essas transformações que vêm nesses próximos. É assim que eu tô preparando, me preparando e preparando nossos times para ficar de olho nos índices, que onde arrocha mais, onde arrocha menos.
Como é que vocês estão se protegendo? Você já falou, você tem uma parte que você tem, você tem recurso guardado ali para segurar alguma encrenca. Mas só isso é só uma parte do negócio, né?
Mas quais são os calos que pega? Aquela coisa que não tá rendendo, você tem que desativar. Esse é o primeiro passo.
O que não tá rendendo, desativar.
Você tem que desativar, porque senão você vai carregar prejuízo. E aí, onde é que você pega mais? No investimento futuro. Então, uma empresa tem que crescer 2 dígitos, 2 dígitos e pouquinho todo ano, porque é isso que motiva as pessoas. Aí você tem que frear essa parte. Foi assim no dia 1 a 2, né, a gente teve que frear na marra os crescimentos, porque senão você acha o muro. Você vai fazendo loja, fazendo loja, não tem consumidor, senão não adianta.
Então o dia 1 a 2 mostrou para nós exatamente o que aconteceu e que teve que reestruturar, redirecionar o plano de negócio. Então a gente tem um plano de negócio que se tudo der certo a gente faz, um plano de negócio que esse é o Brasil, né? Um plano de negócio estável, se não tiver muito solavanco, e um plano de negócio se tiver muito solavanco, o que nós temos que fazer? Então, isso é uma discussão que a gente tem permanentemente.
Este, este e este. Então, para os próximos 7 anos, eu gosto de trabalhar com 5-7, 5-7, 5-7-10, você vai mudando, joga mais para frente, puxa mais para trás, vai mais para esse setor, vai mais para aquele setor. Setor de saúde, quanto mais crise, mais precisa dele, né? Porque você vai tomar mais remédio, é automático. Então, um setor que você tá aí, começa a olhar para um setor, mas eu acho que vamos passar por um processo. Eu espero, porque nós temos 3 desenhos, eu espero que fique no plano A, que não precisa usar nem o B e nem o C.
E aí o plano A é gerar mais negócios, gerar mais emprego, gerar mais receita, gerar mais Imposto para o governo, mais oportunidade para as pessoas. Esse é o cenário ideal. Mas com 15% de juros e com margem de lucro de 6%, você fica pensando, vale ou não vale?
Melhor aplicar teu dinheiro. Eu tenho um casal amigo meu lá de Porto Alegre, ele saiu da empresa, também diretor, tudo, saiu da empresa, pegou o dinheiro todo junto com a esposa lá, falou, vamos montar um negócio de Eu não me lembro, qualquer coisa vegana, sei lá o que que era, um treco qualquer que eles iam montar lá. E prepararam, fizeram todo estudo, montaram, alugar aqui, fazer. No final das contas, decisão: pega esse dinheiro, aplica no banco e deixa quieto lá, porque não vale a pena fazer aquilo.
Cara, perdemos ali um cara que ia gerar 3, 4, 5 empregos, ia gerar imposto, perdemos tudo isso aí.
Ou tem empresas vão Centenas de empresas começaram assim e viraram um Cacau Show, olha um Natura, olha um Boticário, começou assim, é escolinha, né, cara? Olha aqui, ó, você não tem isso, cara, e aí você não vai ter uma gigante depois.
Terminou a Copa, essa vergonha que foi a Copa, né, que é para o Brasil, né? Eu tava vendo várias discussões aí, uma das discussões que eu vi, eu não me lembro quem foi que falou, era um desses comentaristas, né, que ele tava explicando. Ele falou, cara, não tem mais molecada subindo pelas, nascendo nos campinhos de bairro. Se eu pegar um garoto que é bem talentoso e quiser que esse garoto vá fazer uma peneira, eu nem sei como faz.
Não tem mais caminho. Não é que leve ele lá no domingo e faz, nem tem caminho. Então o que abastecia o Brasil de talentos foi cortado, não tem mais. Então o que vem, vem um cara meia-boca que é muito bem trabalhado para ser vendido por muitos milhões para Europa lá. Então moleque com 16 anos vai embora, nem sei se esse moleque vai ser craque, mas um craque de verdade a gente perdeu porque os pais nem entenderam como levar esse moleque. Então cortou na base a alimentação.
Quando você corta empreendedorismo, é isso que acontece. Então, cara, é isso, esse é assusta, mas temos que trabalhar com cenários.
Você tem uma área tua que suporta empreendedores? Você já virou venture capital?
Não.
Investidor anjo?
Já fizemos alguns investimentos assim. Sim, eu descobri que eu sou péssimo para isso, porque quando eu não tenho o manche na mão, eu não sei controlar muito bem eles. Aí dá problema. Então já perdi bastante dinheiro com isso, mas também não parei de investir. Sempre tem alguma coisa que aparece uma oportunidade, você diz, putz, isso aqui vai dar certo. Às vezes não dá, mas às vezes dá.
É assim que funciona. Ô meu caro, a minha pegada aqui é sempre empreendedorismo e liderança, né? Mas eu não resisto a passear e ouvir as histórias da turma aqui, né? E tem um momento bem estranho do Brasil, esse momento que nós estamos passando, porque você tem uma visão positiva. Eu conversei com vários empreendedores, caras de alto nível, todos os caras estão igual, falou: Ó, bicho, o PIB do Brasil vai cair 5%, tá? Bom, tem 95 ainda lá esperando, alguém vai fazer, tem alguém ganhando, entendeu?
E tem uns setores que sempre nessas, se você olhar, analisar na crise se se investiu ou não com o time errado, acertando os times, são grandes oportunidades que aparecem. Então você não pode parar de olhar, tem que continuar olhando as oportunidades que vêm e tentar acertar os times. Brasil é uma coisa de time, você acerta o time, dá muito resultado positivo. Você errou o time, vídeos dos gringos que erram muito time, os brasileiros erram menos, mas os gringos erram muito.
Eles entram numa hora que o câmbio derrete o dinheiro dele, que ele tenta sair na hora que o câmbio não ajuda, então perdem muito dinheiro na entrada e saída do país. Quem vem, investe para ficar longo tempo, tem uma chance de progredir e de ter resultado.
Mas para eles é difícil entender a mecânica disso aqui, né?
Demora.
Deixa eu aproveitar esse teu gancho aqui. E os alemães, meu caro? Você não foi para lá? Você não— por que que você tá no Brasil ainda?
Fui para os Estados Unidos e para Europa. Na Europa tô, um negócio ainda lá.
Por que que você tá morando aqui ainda?
Eu adoro o Brasil.
Você não troca?
Trocar, troco, não tenho problema de trocar, mas a minha família, minha base estava aqui. Agora meus filhos já estão maiores, nas faculdades fora inclusive, aí já começo a pensar de fazer um sabático quando eu tiver 50 anos e ficar um pouco com eles também.
Legal. Sucessão?
Então é isso, estamos preparando eles, é uma sobrinha dos meus dois filhos, Eles estão preparando.
Vocês são quantos hoje no negócio?
Eu, minha irmã e mais sócios, mais 3, 4 sócios que estão juntos.
E não é, vocês não profissionalizaram?
É profissionalizado.
Então você tem lá um CEO?
Você tem, é que eu chamo de sócio porque eles são sócios realmente. Então o CEO tem, o CFO tem participação, é sócio, o diretor de operações é sócio, o de hospitalidade é sócio, o de estrutura também.
E esse modelo é o melhor possível, né?
Eu acostumei que tem que dividir. Eu tinha um amigo que falava assim, a gente passava na frente, tinha um banco que chamava Multiplique, aí ele falava na frente, ele falava Multiplique, porque era caipira no interior, fala: quem não divide não multiplica. Então acho que tem que, era isso que tinha que fazer. Tem, você tem bons talentos, você tem que saber dividir o bolo para que o negócio floresça, né? Então sempre tive, sempre teve essa tendência de meritocracia e reposicionar as pessoas no outro lugar.
Até porque a parte de área de restauração, ela é uma área de não só como eu entrei e floresci, mas ela é uma área de inserção da sociedade. Às vezes é o primeiro emprego dela, é onde ela desenvolve, é onde ela aprende, ela vai se profissionalizar, depois ela sai, vai para outro negócio, mas ela é uma porta de entrada de primeiro emprego e de desenvolvimento de pessoas. Então hoje a gente faz muito esforço em desenvolver as pessoas que vêm para o nosso grupo. Acho que isso é um legado que fica.
Você tem problema de mão de obra, cara?
Mão de obra toda ela, que se você quiser comprar ela pronta. Se você quer treinar, educar, fazer, é um trabalho mais longo, mas você vai ter mais mão de obra qualificada.
Que alguém vai levar embora, mas faz parte do jogo também.
Quando você faz esse trabalho, tem gente que vem. Eu falo que é como uma onda, tem um dia que ela, maré baixa, maré alta, ela vai e volta, vai e volta. Então, 50 anos no mercado, já vi tudo. Então é só não ficar preocupado.
A lição que eu tiro aqui do nosso papo, aqui da nossa conversa toda aqui, né, que é, cara, tem duas margens, né? Tem uma margem pavorosa e tem uma margem azul, linda, maravilhosa. Você não consegue ficar numa delas, você tem que ir no meio. Uma hora vai para cá, vai para lá.
Não dá para ficar só numa margem, não vai dar alguma coisa. É impossível, num tempo, numa história grande, longa, é impossível você não atravessar o rio de um lado ao outro. Tem que nadar um dia contra a correnteza, um dia a favor.
Isso. E quando tiver na margem ruim, não tá tudo perdido. Não, calma. Então temos que aguentar.
Se você cair na água e não conseguir sair, aí é um problema. Então tem que cuidar de ter uma boia para se agarrar nela, né, cara?
Olha para o Arrezinho, o Arrezinho que viu os mirage passando. O que que é, cara? O que que você, como é que você vê essa trajetória aí?
Às vezes que eu acho que construí um bom legado, uma boa história, formou muita gente, deixamos muita gente melhor posicionado na vida. Eu falo que foi o único churrasqueiro que deixou mais de 50 milionários até agora. Então é isso, eu acho que é o grande de aprendizado. E para chegar a esse nível é porque a gente fez um trabalho excepcional com muita gente. Então é muita gente que mudou de posição, muita gente que tava em posição, não só nós que ficaram comigo, que seguiram o seu rumo, que seguiram o mesmo caminho, que fizeram outra caminhada.
Então acho que isso é bem, construir uma família maravilhosa. Então, porque eu acho que a base mais importante que a gente pode ter, não adianta ter sucesso sem uma boa família. Então eu acredito que deu tudo certo, né? Tá dando tudo certo, vamos continuar assim, tem mais uns 30 anos ainda pela frente, vamos tirar um sabático merecido, né?
Só 30? Você tá com 64, só 30? 94? Não, cara, pode botar 120 aí.
Não, mas a geração vai até essa, meu pai foi até essa idade, 90, 100 é a base, né? Então tem bastante coisa para ser feita, tem bastante mesmo, tem bastante coisa para melhorar no Brasil e no mundo ainda.
Então agora uma dica, eu vou olhar, vou olhar para minha câmera aqui, ó. Eu assisti um vídeo, tava comentando com ele aqui, né, umas semanas atrás, tava lá no YouTube, apareceu um vídeo de um cara que fala de comida, etc. e tal. Esse cara veio falar de churrasco, ele veio contar os truques que as churrascarias de rodízio fazem para te empanturrar de coisa e fazer você comer pouca carne, né. Tá ali, ele vai contando as trucagens todas, depois ele visita várias churrascarias, ele faz uma análise das, aquela que ele fala, se você for, você pode ir sem medo que você vai comer um churrasco do jeito que tem que ser.
E de todas que ele analisou, sobraram duas. E ele fala lá, só duas eu garanto que se você for, você não vai se arrepender. Uma delas é a NB Steak.
Eu não vi, eu quero, tô louco para ver agora. Mas eu explico até porque faz, como a gente fez essa lapidação toda E a valorização da carne, como eu tirei o buffet de salada, as pessoas chegavam, iam no buffet de salada, enchia o prato. Aí quando chegava a carne, ele já não dava valor para carne, eu já não tinha. Quando você fala tirou, tirei da mesa, deixei só uma saladinha que você escolhe e coloca lá.
Tem uma saladinha lá?
Tem a saladinha, mas tudo montado, é prato montado. E aí uma outra coisa que tinha, os clientes chegavam e falavam: monta uma saladinha para mim que eu não quero levantar. Então aquele negócio da sala, de encantar o cliente, eu não queria que ele levantasse mais. Então fez todas essas mudanças e com isso deu uma evolução muito grande da carne, porque o astro, a estrela do nosso negócio é a carne. Então a primeira coisa que ele recebe é a carne, depois as outras coisas.
E a carne boa, boa, primeiro nível em tudo. Então não tem mais ou menos, é só o primeiro nível mesmo.
Então quem quiser conhecer NB Steak, vão ser muito bem-vindos. Essa é a casa. Como é que você tá nas redes sociais? NB Steak tá no Instagram, acho, em todo lugar lá. E se alguém quiser conversar contigo, está no LinkedIn?
Tá no LinkedIn e tá no Instagram, @aricozer.
Então, Ari com dois R's, é Ari Cozer, Cozer com Z, né? Então tudo junto, Ari Cozer, A-R-R-I Cozer com S. Meu caro, tudo bom? Parabéns, você foi responsável por um dos grandes churrascos que eu já comi.
Vou precisar voltar lá outra vez para Vamos lá, vamos marcar para a gente comer junto.
Ah, mas vai ser o maior prazer.
Vai ser bem divertido.
Bem-vindo ao Lidercast, cara.
Obrigado pelo convite.
Imagina, um abraço.
Um abraço, Tadinho.
Muito bem, termina aqui mais um Lidercast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.
Você ouviu o Lidercast com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.