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#656: Monogamia e amor romântico no cinema

31 de julho de 20261h30min
0:00 / 1:30:11
Você sabia que o beijo de língua como conhecemos hoje foi praticamente "autorizado" pelo cinema? Pois é. A telona não só narra o amor, ela ensina como amar, como desejar e até como o corpo deve se comportar. E se boa parte do que você chama de "alma gêmea" for só uma construção cultural bem contada?
Rafael Arinelli conduz esse mergulho junto com Débora Fofano, Raquel Rocha e Isabella Alencar, que trazem Adorno, Byung Chul Han e a psicologia de consultório para desconstruir a fórmula do romance de Hollywood. A conversa passa pela ligação incômoda entre monogamia e propriedade privada, pela ideia de que a tragédia é o auge do romantismo, e pelo hábito de esperar que o parceiro "adivinhe" nossos desejos sem dizer uma palavra, um reflexo direto de décadas de Disney e comédia romântica.
Tem também um raio-x sobre dating apps, o retorno arrasador dos doramas e uma pergunta de classe que incomoda: quem realmente tem acesso ao cinema que questiona esses clichês, e quem consome só o que está pronto no Reels e no TikTok?
O amor é incerto por natureza. A indústria só nos convenceu do contrário.
• 06m07: Pauta Principal
• 1h10m38:
Plano Detalhe
• 1h23m28:
Encerramento

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Agradecimentos aos padrinhos: 
• André Marinho Moreira
• Bruna Mercer
• Charles Calisto Souza
• Daniel Barbosa da Silva Feijó
• Diego Alves Lima
• Eloi Xavier
• Guilherme S. Arinelli
• Thiago Custodio Coquelet
• Wilmar Arinelli Jr
• William Saito


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Plano Detalhe:
• (Raquel): Filme: Uma Linda Mulher
• (Raquel): Filme: Flashdance
• (Raquel): Podcast: Perdidos na Paralaxe - Afetos
• (Débora): Filme: O Guia Pervertido do Cinema
• (Débora): Filme: O Guia Pervertido da Ideologia
• (Débora): Filme: Alta fidelidade
• (Isabella): Filme: O Convite
• (Isabella): Livro: Descolonizando afetos
• (Isabella): Livro: Felizes por enquanto
• (Isabella): Livro: Tudo sobre amor
• (Rafa): App: Wispr flow
• (Rafa): IA: NotebookLM

Edição:
ISSOaí
Participantes neste episódio4
R

Rafael Arinelli

Host
D

Débora Fofano

ConvidadoFilósofa
I

Isabella Alencar

ConvidadoPsicóloga
R

Raquel Rocha

Convidado
Assuntos10
  • Amor romântico e expectativas irrealistasMonogamia e capitalismo · Propriedade privada e herdeiros legítimos · Mulher como corpo-território · Trabalho reprodutivo feminino · João Barradas
  • O filme Jejum de AmorPedagogia emocional do cinema · Construção cultural do amor · Monogamia e propriedade privada · Tragédia como auge do romantismo · Expectativas afetivas
  • Análise crítica de cinema e sériesBeijo de língua como convenção social · Rita Segato e pedagogia da crueldade · Colonização de comportamentos
  • Amor e relação como fundamentoDiário da Minha Vagina (Fitting Is a Bloody Hell) · Agenesia útero-vaginal · Recursos para educação sexual · Desmistificação do sexo e afeto
  • Outras formas de amor e vínculosDiferenciação entre amor e afetos romantizados · Amor em relações cotidianas · Influência da indústria cultural
  • Crise do romance normativo e cansaçoExaustão social e desesperança · Excesso de positividade e desempenho · Relações como performance emocional · Frustração com ideal de amor fácil
  • Filmes românticos trágicosAmor não realizado como ideal romântico · Werther e o efeito Werther · Romeu e Julieta
  • Cinema e CulturaCinema de arte vs. cinema hegemônico · Monogamia naturalizada na população · Economia dos afetos e consumo · Desejo incontornável e incontrolável
  • Monogamia vs. Não-MonogamiaTrisais e relações conturbadas · Cinema europeu e amor cru · Spike Lee
  • Dicas culturaisApanhar de mulher bonita · Flashdance · O Guia Pervertido do Cinema (Zizek) · Ocupy Wall Street e o Discurso de Žižek · Fidelidade e Pressão · Convite para chá de panela · Decolonizando Afetos (Jeane Nunes) · Coração satisfeito
Transcrição121 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RARafael Arinelli

Olá, ouvintes do Cinemação! Aqui é Fred Costa e tenho um convite para você que acompanha esse podcast e gosta de debates sobre a cultura pop que atravessam filosofia, psicologia, sociologia, mas com muita leveza, como a vida deve ser. Então convoco todo mundo aqui para conhecer o podcast Perdidos na Paralaxe. Estamos em todas as plataformas de áudio e nas redes sociais.

DFDébora Fofano

Abraçem todos e a gente se encontra por lá!

RARafael Arinelli

Seja bem-vindo ao Podcast Cinemação 656. Eu sou Rafael Arinelli e hoje temos aqui comigo Débora Fofano!

DFDébora Fofano

Oi, gente, já estou aqui preparadíssima.

RARafael Arinelli

E aí, estreia hoje aqui com a gente, hein, Debs?

DFDébora Fofano

Ai, tô muito feliz de estar aqui, tava devendo essa visita fazia tempo.

RARafael Arinelli

E com um assunto que fiquei sabendo que você tem uma certa familiaridade.

DFDébora Fofano

Eu tenho uma curiosidade imensa sobre essas questões de relações afetivas, aí inventei um negócio que se chama pós-doutorado sobre isso. Aí agora eu tô aqui tendo que estudar de verdade.

RARafael Arinelli

Pois é, vamos extrair muita coisa da Debs aí. Temos aqui também Raquel Rocha.

RRRaquel Rocha

E aí, gente, bom estar de volta! Voltei, a saudade me trouxe pelo braço. E aí tem alguns temas que o Rafael convida e eu fico quase que me oferecendo voluntariamente para participar também do programa, porque é muito bom estar aqui com vocês.

RARafael Arinelli

Não, vocês no Perdidos têm uns temas que eu acho muito legais, e daí eu fico pensando em como a gente consegue encaixar temas do Perdidos na Paralaxe no Cinemação. E daí eu vou propondo para o Fred assim, dessa vez eu mandei tipo uns 3 temas para ele, ele falou assim, vamos nesse daqui porque eu tenho uma galera boa e é um tema que você gosta também, hein, Kel?

RRRaquel Rocha

É, eu gosto dos 2 temas, né, o cinema e esse tema aí do pós-doutorado da Débora, que eu nem vou dizer que eu fiz um pouco o incentivador dizendo, vai mulher, no pós-doutorado a gente não precisa provar nada para ninguém. A gente só pesquisa.

DFDébora Fofano

Ela que foi minha incentivadora mór. Se tudo der errado, a culpa é dela também junto comigo.

RARafael Arinelli

Muito bom. E temos aqui também Isabela Alencar.

IAIsabella Alencar

E aí, galera, bom estar aqui de novo com vocês. E assim, olha, Rafa, sendo muito sincera, dá para colocar muito tema, viu, do Perdidos aqui. A gente gosta muito de trabalhar com cinema e Sem contar que a Débora agora, né, estamos, a Débora, grande idealizadora da nova série de episódios do Perdidos, tem tudo a ver com o que a gente vai conversar aqui hoje também.

RARafael Arinelli

Pois é, cara. Então deixa eu já explicar para os nossos ouvintes, porque isso é bem legal. Primeiro assim, hoje a gente tem aqui um episódio, né, que é um crossover, né, como se chama na cultura pop. Ou aqui nós estamos fazendo uma parceria, mais uma, né, com o pessoal do Perdidos na Parallax. As três meninas estão lá no Perdidos e o Perdidos está com uma uma série nova, né, falando sobre monogamia, relacionamentos e tal. E é um papo muito legal.

Lógico que lá o mergulho é muito mais profundo na parte de filosofia, enfim, psicanálise e tudo mais, né, um papo bem legal. Mas aqui a gente vai cruzar isso com o cinema, né. Então, meus amigos, nós estamos aqui reunidos justamente para falar de um dos temas mais antigos, mais universais e ao mesmo tempo mais construídos do cinema, que é é o amor. E quando o cinema fala de amor, quase sempre ele acaba falando também de monogamia, de destino, de ciúme, de exclusividade e daquela promessa de que uma única pessoa vai dar conta de tudo o que falta em nós.

Porque é curioso, o cinema não apenas mostra casais apaixonados, como ele ajuda a ensinar o público a desejar de um jeito específico. Durante décadas, ele organizou as nossas expectativas afetivas, transformando o casal em centro de narrativa e o sofrimento em prova de verdade e o final feliz em sinônimo de união exclusiva. Só que hoje esse modelo já não passa tão ileso assim. E entre novas formas de vínculo, novas sensibilidades e a crise do romance como promessa absoluta, o cinema passou a revelar também as rachaduras desse ideal.

E é justamente aí que o debate fica interessante. Porque falar de amor romântico no cinema não é só falar de histórias bonita ou de melodramas bem feitos. É falar de uma pedagogia emocional que molda o que a gente entende como amor, o que a gente aceita como normal e o que a gente aprende a chamar de relacionamento sério. É falar de um imaginário que parece natural, mas é profundamente histórico, cultural e ideológico. Ao mesmo tempo, o cinema contemporâneo começa a abrir espaço para outras perguntas.

Será que exclusividade é mesmo a única forma legítima de amar? Será que sofrimento é prova de profundidade? Será que o casal precisa continuar sendo o destino final de toda boa história? E talvez a resposta não esteja em negar o amor, mas em olhar para ele com menos mito e mais realidade, sem perder a emoção, mas também sem engolir a fantasia inteira. É isso, vamos bater esse papo agora no segundo ato desse podcast. O ideal de que existe uma pessoa certa, uma alma gêmea, né, uma completude afetiva que só se realiza, né, no casal exclusivo e tal é tratado como construção cultural moderna e não como uma verdade biológica universal e tal, né?

Isso contraria praticamente tudo o que a cultura pop, né, nos ensinou a vida inteira. Eu queria saber se vocês, com esse olhar mais atento, né, para essa construção do amor, o amor como construção cultural assim, né, Como vocês conseguem separar o que sentem de amor de verdade daquilo que foi moldado por filme, por música, por novela? Porque eu acho que isso é uma das grandes questões, né, quando a gente vai falar de relacionamentos afetivos assim.

O que é nos dado e o que é genuinamente humano assim? Vocês conseguem perceber isso já?

DFDébora Fofano

Eita, Rafael, Tu chega já com uma pergunta assim que é voadora, né, no peito da pessoa.

RRRaquel Rocha

A pergunta começa o programa todo.

DFDébora Fofano

É, agora não faz mais nenhuma pergunta não, porque já essa não dá para fazer. É mentira, faço muitas perguntas. Aí a gente vai fazer também. Ai, mas a tua provocação é maravilhosa, né? E assim, adorei a tua introdução atenção, porque já problematiza, já coloca o amor-cinema em problematização. Agora sim, eu acho que é importante a gente fazer essa diferenciação que tu também insinua aqui entre o que seria esse amor mesmo, né, em si, talvez um pouco idealizado e tudo mais, para essa versão de afetos romantizados, né.

O amor, eu acho que ele vai muito além dessa forma casal, vai muito além desse modelo pronto monogâmico que nós fomos homogeneizados, vamos dizer assim, que existe uma normatividade que nos ensina a agir nele, né? Então tem uma diferença aí entre o amor, o amor, né, uma projeção astral quase, e o que a gente vive dentro desse cenário que a indústria cultural reforça. Falo indústria cultural aqui de uma maneira muito genérica, né, em termos adornianos e tudo mais, mas eu acho que o cinema ele é essa mola propulsora desse romantismo que ainda hoje, desde a modernidade, ele se reforça através do cinema.

Então tem essa diferença que fica na minha cabeça assim, e todo dia eu me pergunto isso que você tá perguntando aqui: será que a gente ama mesmo genuinamente, ou a gente só reproduz o que de uma certa maneira foi enlatado para a gente querer encontrar nas nossas relações? E uma resposta meio banal assim Pelo menos eu tento não ver amor só no amor romântico. Eu vejo o amor nas relações mais cotidianas da vida. Na relação, sei lá, que a gente tem com o nosso pet.

E aí o cinema vai lá e explora isso também, lógico, né? O amor na relação que a gente tem com... Fora dessa centralidade sexual afetiva, né? Dessa centralidade do casal romântico. Então acho que quando a gente olha pra outras formas de amor na vida, Aí a gente tem respostas mais interessantes, né?

RRRaquel Rocha

O cinema dificilmente nos mostra, né? E eu falo cinema, esse cinema blockbuster hollywoodiano, é difícil mostrar pra gente esse olhar o amor em outras coisas antes de olhar o amor romântico. Você tava falando, eu tava lembrando aqui do grande clássico que é o filme O Meu Primeiro Amor, que já traz essa menina, traz muito essa menina que é muito romântica, porque já vem de uma construção desde a infância. Quer dizer, ela ainda é uma criança, né, uma pré-adolescente, quer dizer, que desde a infância vai pensando no amor, nesse príncipe encantado, nesse amor que vem da poesia, da literatura, dos lugares que ela vai fazer o curso lá de poesia.

E essa menina que já tá— e eu tô falando muito do ponto de vista da mulher, né, dessa construção da visão de amor que a gente tem, né, que nós mulheres temos, que é um pouco diferente da construção de amor que os homens têm, né. A gente tem uma diferença de gênero aí. E aí nesse filme fica bem claro assim que a gente vai sendo já criada, como o Rafael bem falou, né, nessa pedagogia do amor a partir da cultura, da arte, da literatura, enfim.

Então é difícil a gente fazer esse movimento de separar, de encontrar o amor em outras relações, de encontrar o amor em outras coisas na vida. Esse é um movimento que eu fico pensando que é um movimento muito de uma maturidade, mais do que do cinema, da cultura pop, da indústria cultural, né? Porque a indústria cultural, ela nos coloca sempre nesse lugar dessa mulher que tá esperando, assim, um amor, que ela pode conquistar tudo, mas se ela não Não foi escolhida, aí o amor é outra coisa.

IAIsabella Alencar

E é importante lembrar que no meu primeiro amor o que acontece? O menino morre no final do livro.

DFDébora Fofano

Mas tragédia, tragédia, sádico.

IAIsabella Alencar

Aí ninguém alerta.

RRRaquel Rocha

Ou também faz parte dessa idealização, porque ele ficou sempre marcado como o primeiro amor dela e esse amor não realizado.

DFDébora Fofano

Mas isso é o auge do romantismo, é isso. Desde Goethe, o amor não se realizar é que é o auge do romance, né? O Werther— eu vou dar spoiler de um livro antigo, não tem problema, né?

RARafael Arinelli

Não, não, por favor.

IAIsabella Alencar

Você vai dar spoiler de livro do século 19, né?

DFDébora Fofano

Exato, inclusive, nem lembra nada. Mas enfim, o Werther, o auge do amor é ele se matar. Entendeu? Então assim, que causou o efeito Werther, né, que ficou conhecido na época como assim, o amor é tão sublime, tão irrealizável, que ele não pode ganhar existência. E depois o Schiller, um outro grande romântico, vai escrever também vários livros sobre isso, várias peças de teatro sobre isso. E ele teve uma vida pautada nisso. Ele escrevia peças de teatro, era apaixonadíssimo pela atriz dele, mas ele nunca realizou esse amor, porque a realização dele quebrava com o ideal romântico. Entendem a loucura que é isso, gente? O romantismo é uma doença.

IAIsabella Alencar

Pois é, um dos casais mais emblemáticos que a gente conhece é Romeu e Julieta.

DFDébora Fofano

Exatamente. Então por isso que eu falei, a tragédia ela precede o trágico, no caso ela precede o que é o romantismo, né?

IAIsabella Alencar

É, mas eu queria falar um pouquinho sobre a pergunta do Rafael ainda, porque foi— eu gosto, eu gosto muito dessa pergunta, eu gostei muito dela, porque assim, né, Na minha concepção, quando a gente tá trabalhando com uma questão da subjetividade das nossas relações, a gente tá falando sobre uma sociocultura que vai constituir, não é? Então, pra mim, é muito difícil a gente falar sobre o que é um amor de verdade e o que é um amor idealizado e romantizado.

Porque, na verdade, a própria construção do amor, ela passa por esse viés sociocultural, que é o que a gente acaba aprendendo também. Então, até pra gente pensar sobre o que é esse amor romântico que é problemático, ou pensar historicamente sobre a própria construção do amor, a gente só consegue muitas vezes, né, quando a gente tá pensando em termos históricos e até termos de trajetória de vida, a gente só consegue ver isso em retrospecto.

Quando a gente tá vivendo aquele determinado sentimento, quando a gente não tá fazendo, por exemplo, um processo de reflexão crítica que seja um pouco mais aprofundado, é muito difícil que a gente às vezes não se pegue nessa quase naturalização do que é o amor. Então assim, para mim não existe uma grande diferenciação sobre quando esse amor tá em mim, né, porque, gente, eu sou psicóloga, então às vezes é muito difícil falar sobre termos de macrogenéticos, apesar de estudar sobre isso também.

Mas quando a gente tá pensando sobre como é que esse amor é construído em mim, através também dessa sociocultura que tem o cinema, e aí a gente tá falando sobre um amor romântico de hoje em dia que é muito baseado em filmes da Disney, né, década de 90, a gente também tá falando sobre o que que a gente ainda acredita desse amor. Então muitas vezes as pessoas aparecem num processo processo psicoterapêutico em que acredita-se que o amor é você confluir tanto com a pessoa que você ama que você não precisa dizer nada.

A pessoa precisa descobrir, ela precisa saber, porque ela precisa sanar as suas faltas, precisa sanar. E é isso que a gente vai meio que desconstruindo nesse processo, né, de que calma, o amor é uma construção sociocultural. A partir disso, como é que a gente sente também perpassa por isso. E aí, como é que a gente pode problematizar? Como é que a gente pode refletir sobre isso? E assim, infelizmente, a gente tem vários exemplos de filmes, as nossas rom-coms, né, do início dos anos 2000 ali são grandes exemplos.

Inclusive, gente, nada contra rom-com, eu adoro uma bobajada, mas sempre com olhos críticos, mas adoro. E assim, quando a gente para para pensar sobre como é que a gente ainda tá produzindo esse amor, mesmo que hoje em dia ainda apareçam alguns filmes em termos mais críticos, A gente acaba sempre caindo na heterossexualização do casal, nessa monogamia, em aspectos que são assim cooptados também pelo capital, né, gente? É o que vende.

Como a Débora falou, eu amo meu cachorro, fazer um— aí vou fazer o quê? Um filme onde a pessoa ama o cachorro e o cachorro morre? Marley e Eu, choro até hoje, traumatizada.

DFDébora Fofano

Ai, mas aquele que o cachorro visita todo dia, que é uma história, fizeram a estátua do cachorro, lembra, gente? Aquele também é muito triste. Nossa, eu choro mais ainda com aquele. Daqui a pouco eu lembro o nome desse filme.

RARafael Arinelli

E aí tem uma coisa que a gente sempre acaba entrando nisso, né, quando eu converso com vocês do Perdidos, porque é uma coisa uma coisa que eu adoro ler, estudar e tal. E lógico, já até falei aqui que eu sou um amador nisso, né? Mas quando eu tava estudando aqui para o tema, eu percebi assim que tipo o Foucault, ele ajuda a enxergar que o amor, ele não é apenas um sentimento, né? Mas ele também é um discurso, é poder, é norma social e tal, como a Bel tava falando dentro dessa cultura, né?

E o cinema, ele participa disso o tempo todo, quando ele trata o casal monogâmico como uma forma legítima, madura, né, desejável de viver e tal. Ou seja, não é só uma história bonita, é também uma pedagogia do comportamento ali. E aí o que aparece na tela, né, acaba influenciando justamente as pessoas que entendem aquilo como certo, como como bonito, como aceitável nas relações e tudo mais. E isso vale também para ciúme, fidelidade, exclusividade, né, e até para o que a gente chama de traição.

O filme, nesse sentido, ele não só narra o amor, mas ele ensina a obedecer certa ideia de amor e certas regras que esse amor construído ali se coloca para a gente. Mas quem que decide que essa é a forma mais válida de amar?

RRRaquel Rocha

O patriarcado.

RARafael Arinelli

Obrigado, obrigado.

DFDébora Fofano

Pronto, acabou o programa.

RRRaquel Rocha

Vamos ver os créditos.

DFDébora Fofano

Ai, mas Rafael, tu tava falando sobre isso e eu tava lembrando que molda tanto o comportamento, molda tanto a forma que as pessoas idealizam o amor e tal, que quando houve, eu não vou me lembrar em qual filme, né, o primeiro beijo cenográfico que apareceu nas telonas foi um grande escândalo, obviamente, né, um escândalo programado porque gerou muita repercussão, mas ensinou até as pessoas a beijarem, porque as pessoas não beijavam de língua como a gente faz hoje, né, passando a língua no dente das outras, explorando ali a boca dessa forma insinuante que a gente faz.

Claro que isso é coisa de séculos, né? As pessoas provavelmente beijavam assim, óbvio. Mas eu digo assim, publicamente o beijo de língua, ele não existia. E quando ele veio para a telona, ele foi consolidado, ratificado. Agora pode, né? Vamos dizer assim. E eu acho isso uma perspectiva interessante porque fala do nosso corpo, né? Fala como é que o nosso comportamento mesmo fisicamente, ele vai sendo, a gente vai aprendendo. Então é legal quando você fala dessa pedagogia, né?

Você falando disso, eu lembrei da Rita Segato, que é uma pensadora aqui latina de Buenos Aires, e ela fala da pedagogia da crueldade, que a gente vai sendo ensinado paulatinamente a determinados comportamentos, e muitos desses comportamentos são colonizados, né? São dos colonizadores. Não nessa forma de beijar, que eu acho que aqui no sul global, do lado de baixo do Equador, a gente provavelmente beijava bem melhor do que a galera mais travadona lá de cima, né?

Mas eu digo assim, dessa forma que a gente vai moldando os comportamentos, né? Da forma que a gente vai aprendendo e colonizando o nosso corpo, né? Acho que a Raquel pode falar até melhor disso, ela é foucaultiana, que pelo menos que eu saiba do nosso grupo, né?

RRRaquel Rocha

Ô gente, eu tento me afastar do Foucault e vocês ficam É bom, mas assim, essa colonização, essa forma, né, esse corpo que deseja, esse corpo que beija e que beija de língua. Diz que estadunidense não beija de língua, não sei, foi uma coisa que eu tava lendo outro dia.

DFDébora Fofano

Mas esse corpo, quer dizer que agora a gente vai ter que pegar um americano para saber, né? Ai, amiga, americana, melhor não, né?

RRRaquel Rocha

Vamos estar passando essa possibilidade Tá, nem pelo amor à pesquisa, mas vamos lá.

DFDébora Fofano

Americano não, estadunidense, né? Porque americanos somos todos nós.

IAIsabella Alencar

É, eu já ia falar, só se for americano brasileiro, né? Vocês podem ficar o quanto vocês quiserem, aí tá tudo bem. Agora estadunidense, gente, tem que ter coragem.

RRRaquel Rocha

Eu vou fazer igual a Xuxa: no Brasil não tem homem para mim. Mas enfim, quando a gente pensa, né, nessa construção do amor, essa construção do desejo. E a gente vai pensar como isso é expressado, é expresso nos corpos. A gente vai pensar também num regime de comportamentos, né? Como a Débora falou, é quando o cinema passa o primeiro beijo, tem toda uma mudança de comportamento, porque o cinema é como se o cinema desse uma autorização para as pessoas se beijarem na rua, um beijo mais provocativo, né?

Beijar na rua não é mais uma coisa de de gente vadia, de homens, e beijar no cinema, e beijar no cinema também. Aí eu tô lembrando daquela música do Belchior, né, de beijar minha garota no cinema. Mas a gente, se a gente pensa nessa questão, né, é onde que eu quero chegar, vai ser rápido. Se a gente pensa nessa questão de como o cinema, a cultura pop, a indústria cultural nos habilita a determinados comportamentos em público, A gente pode começar a pensar também o seguinte: a própria monogamia e o próprio questionamento da monogamia, a própria questão das traições, elas vão sendo também habilitadas no cinema.

Questionar a monogamia, filmes que questionam a monogamia, que apresentam trisal, que apresentam relações que são mais conturbadas, relações com mais pessoas, um final não tão feliz que a gente— aí eu já tô pensando num cinema, não esse cinema anos 90, mas esse cinema anos 2000 para cá, no cinema europeu também, porque o cinema europeu tem essa coisa ainda trágica, tem essa coisa de um amor que sofre, de um amor questionador, que as pessoas nem sempre terminam juntas, né?

Tem sempre uma, uma crueza, digamos assim, né, uma coisa mais crua de tratar o amor romântico, que também nos habilita, né, não só se comportar de outro jeito, né, não só se comportar questionando esse amor romântico, questionando as formas de amar, mas também habilita de certa forma a trazer isso para público, né, a tirar da esfera privada a questão dos desejos por outros corpos que não daquela pessoa que amando. Acho que é mais ou menos isso assim, né?

Quando eu vou pensando, pô, relacionamento, corpos, desejo, é essa questão de diferenciar, né? Enquanto a gente, algumas coisas eram debaixo do tapete, digamos assim, ou de uma esfera privada, começa a ser questionada mais abertamente, né? Estamos questionando a monogamia hoje, trazendo em pauta na Maldição da Múmia. Se a gente chega lá no cinema do Spike Lee com Ela Quer Tudo, a gente tem um questionamento ali. Então a gente tem uma certa habilitação para que se faça isso em público, né, se questione, para que se deseje vários corpos, para que se naturalize, naturalizem determinados discursos e determinadas práticas também, né, e determinados modos de ser.

IAIsabella Alencar

Eu acho que um grande exemplo inclusive dessa pedagogia que o Rafa tava falando, e que a gente também pode falar sobre essa questão das relações de poder do Foucault, é quando a gente tá pensando, por exemplo, em filmes de pornografia, né? Obviamente não são filmes que passam no cinema, mas que constituem grande parte da subjetividade das relações entre homens e mulheres. Então a gente tá falando sobre filmes que muitas vezes demonstram como é que essa relação de poder ela precisa se dar, como essas relações no dia a dia também acabam acontecendo, sobre qual é o tipo de forma que a gente acaba se relacionando com as pessoas no sentido sexual, sim, mas também afetivo, né, do dia a dia.

Como é que passa a ser, como a Débora falou, ratificado, legitimado, a forma que a gente acaba reagindo a essas pessoas. Eu acho que o cinema tem um papel extremamente pedagógico também em relação a essas questões. E eu tava, eu tenho um filme de 2023 que o nome é Diário da Minha Vagina. Eu prefiro o nome em português, que é Fitting Is a Bloody Hell. Eu acho que faz mais sentido. Quando eu penso assim nesse filme, ele foi muito pedagógico para mim, primeiro porque eu descobri que existe uma condição genética chamada agenesia útero-vaginal, coisa que faz ideia, né, que são pessoas que são lidas como mulheres que não têm útero ou nasce com canal vaginal encurtado e tudo mais.

E aí nesse filme é tão interessante porque a personagem principal, ela passa sobre— ela primeiro descobre essa agenesia não porque ela não menstrua, ela tem 17 anos, ela não menstrua, mas ela descobre porque ela quer começar a ter relações sexuais com garoto da sala dela e tudo mais. E aí ela vai ao médico e ela descobre essa condição. E uma das coisas que o filme vai retratando durante todo, e de forma muito bonita, através das cores, através da forma que a filmagem é feita, como é que o modelo biomédico ele acaba tentando moldar esse corpo para que nele caiba uma relação heterossexual, né?

Ela como uma mulher cis e o garoto como um homem cis, né? O tipo de sofrimento que a gente faz com que essas pessoas passem. Então assim, era uma coisa que eu não fazia ideia, mas que tá mexendo exatamente com essa sexualidade que aparece de uma forma, uma sexualidade e um amor, um afeto, né, que vai aparecendo de uma forma que é diferente do que a gente tá acostumado a ver como um determinado padrão, né, de vidas que são dissidentes, que a gente na verdade tá, são que são vistas através dessa determinada margem.

E aí tem uma fala inclusive que eu achei, eu falei, gente, muito interessante como esses filmes de hoje em dia estão vindo nesse modelo muito pedagógico da sexualidade, do amor, né? Não só esse filme, mas por exemplo aquele, como é que é o nome, gente, daquele seriado muito interessante que teve? A Sex Education, né? Que ele vem assim muito para ensinar. Então, por exemplo, tem uma fala dessa menina com o o médico pergunta para ela, né, você já, você é virgem?

E ela vira e fala assim, sou, porque eu nunca tive. Aí ele, não, ser virgem não é só esse ato de penetração, mas é você, é sexting, masturbação, é isso, é aquilo. Então ele começa a desmistificar através desse filme a concepção de um sexo, de uma questão afetiva muito relacionada a uma penetração. A uma questão heterossexual e traz assim, não, você explorar o seu corpo, você, as preliminares são sexo, né? E então assim, eu achei, gente, eu já indico, tá?

Eu acho que é um filme adolescente, trágico-comédia, eu acho que vale muito a pena a gente dar realmente essa vista, porque quando a gente vai realmente parando para pensar sobre como é que esses filmes hoje em dia principalmente estão mostrando essas novas formas de amor e de amar e saindo um pouco dessa questão do relacionamento e tentando quebrar, mas ainda assim tangenciando relações de poder. A gente tá falando sobre um novo mundo que tá se abrindo no cinema, né?

E também um novo mundo que tá se abrindo junto com essa sociocultura que também tá mudando, que tá pedindo que essas mudanças aconteçam.

RARafael Arinelli

A gente tem um episódio aqui no Cinemação onde a gente questiona, né, se a comédia romântica, né, morreu, o que que aconteceu e tal. Porque é isso, nas últimas décadas o cinema ele tem mostrado os sinais claros assim de desgaste, né, do romance normativo, né, a gente pode dizer. E não porque a monogamia tenha desaparecido, né, mas porque ela deixou de parecer uma resposta suficiente para as angústias, né, contemporâneas que a gente vê na sociedade, né.

E aí a gente vê mais filmes sobre separação, sobre ambiguidade, sobre crise conjugal, desejos difusos, adultério sem aquela coisa da redenção e tal, relações fluídas, não monogâmicas, famílias reconfiguradas e tal. E esse deslocamento não significa que o cinema abandonou o casal, mas significa que o casal já não basta como uma promessa totalizante assim, né? Vocês percebem isso também assim, que o público mudou, a indústria mudou, a sociedade agora tá pedindo uma outra visão quanto a isso assim?

Como é que vocês veem essa produção cultural para isso assim, para essa indústria especificamente?

IAIsabella Alencar

Eu acho que as coisas coisas que emergem, né? Eu acho que tem esse fluxo do— obviamente cinema é uma das produções dessa sociocultura, que hoje em dia, se ele não conseguir se adaptar a determinadas formas— e claro, gente, sempre vai ter pessoas que vão idealizar a masculinidade, a feminilidade, e que vão existir esses filmes para essas pessoas. Esse movimento ainda de ruptura, de, por exemplo, a gente ter um filme como aquele história de um casamento e depois uma pequena resposta em Anatomia de uma Quesa para essas relações e tudo mais.

São alguns desses movimentos, porque é isso, a gente tá vivendo num período onde muitas pessoas elas continuam tendo um discurso de não, porque antes que os relacionamentos eram bons, porque antes. E hoje a gente tá vendo essa ruptura com calma, não é bem assim. Às vezes as pessoas ficavam juntas de forma compulsória. Agora, como sociedade, a gente tá crescendo a pensar e intencionar exatamente esses padrões, esses parâmetros.

Então, como é que isso também vai se mostrar através da nossa arte, né? E como é que a arte vai, inclusive, co-constituir essa sociocultura e vai ajudar, por exemplo, a disseminar esses outros tipos, essas outras ideias?

RRRaquel Rocha

Eu acho que assim, tem uma coisa, um movimento que a gente observa, né, lá pelos anos 2000, a partir de 2010 mais ou menos, anos esses filmes de comédia romântica, eles foram parando de ser produzidos, é tanto que fizeram muita falta alguns, né, porque eu gosto desses filmes. Acho que o último produzido assim que eu lembro foi O Diário de Bridget Jones. E agora, depois de um tempo que eu observo que esses filmes têm voltado, inclusive o próprio Diário de Bridget Jones voltou, né, tem aí um filme 3, porque isso é muito reflexo reflexo também de uma sociedade que tá voltando a um padrão cis, heteronormativo, que vem junto com esse movimento mais conservador, com esse movimento das hashtags wives também.

É isso junto, né? A gente sempre acha, tende a achar que o cinema, que as séries, elas não são reflexo também da sociedade ou não fazem parte também de um projeto de poder social, mas tá totalmente inserido. Por que que agora tá tendo comédia romântica de novo? Por que que agora as pessoas estão começando a gostar e a querer consumir um tipo de filme que era muito consumido lá nos anos 90? É, o que é que tem mudado do nosso comportamento enquanto sociedade?

Ou como que a indústria tá moldando de novo os comportamentos e a forma de se emocionar. Durante um tempo a gente não precisava, né, a gente não sentia falta. Eram mais filmes sobre amigas, sobre questões existenciais, sobre amigos, filmes que o romance em si não era tão importante. E agora já tem esse retorno de alguns filmes, né, já desse modelo de filme romântico. Eu acho que assim, para mandar aí meninas, essas jovens, essa nova geração a buscar esse príncipe encantado assim como a gente lá foi moldada nos anos 90.

Embora o príncipe encantado fosse o Sérgio Malandro lá no filme da Xuxa, né? Não vou dizer Xuxa não, mas a gente tava, né? Desconstrução, a gente hoje, né, nossa geração, eu, Débora, Bél, você também, Rafael, tudo, ter desconstruído essa ideia e olhar o amor. Aí eu volto lá para sua primeira pergunta, né? Conseguir separar essa coisa do romance, do amor romântico, do que é de fato o amor. Acho que o pessoal tá aí sendo moldado de um jeito meio estranho, mas que bom que a gente ainda tem outros filmes que nos ajudam a a não cair de novo completamente nessa cilada de esperar, né, esse romance que vai se realizar e que vai ser o grande ápice da minha felicidade.

RARafael Arinelli

Ô Debs, eu tava até pensando enquanto a Raquel tava falando e a Bel e tal, uma das coisas que me veio na cabeça é justamente o cansaço também, né? E eu tenho lido justamente A Sociedade do Cansaço do Byung-Chul Han. E uma das coisas que me vem à cabeça assim é justamente pensar o nosso tempo, né, como uma era de excesso de positividade também, de desempenho, né, dessa cobrança constante e tal. Isso também chega ao amor, aos relacionamentos e tal.

Esse cinema romântico muitas vezes ele vende a relação perfeita, intensa, sem ruído, como se amar fosse uma espécie de performance emocional impecável assim. Só que a vida real ela é lenta, né? Ela é bem mais lenta, ela é muito mais confusa, né? E muito menos organizada assim. Então quando a gente consome esse tipo de imagem, o tempo todo, acaba achando que uma relação boa é aquela que parece fácil, intensa, que tá sempre feliz e tal.

E o problema é que isso vai gerando uma frustração, cansaço também. Então, será que a gente ama mesmo ou a gente só tenta corresponder a esse modelo de amor que o cinema ensinou a gente, por exemplo?

DFDébora Fofano

Eita, é de novo uma pergunta difícil, né? Mas assim, eu vou tentar. Eu acho que tem muito a ver com o que tu tava falando antes. Assim, eu acho que a sociedade em geral, gente, a gente tá falando aqui de cinema, mas a gente vai lembrar que é uma pequena parcela da população que acessa o cinema. Eu trabalho na periferia, a gente pesquisa pessoas dos mais diferentes cantos e as pessoas ainda têm muita dificuldade de acesso ao cinema, apesar desse imaginário, né, já fazer parte da cultura e chegar para elas hoje em dia através do TikTok, do Instagram e do acesso às telas em geral de alguma forma, né.

Mas o cinema assim que a gente chama de cinema de arte, um cinema mais questionador, esse cinema que a gente tá falando aqui, que traz outras formas de amar que questiona os modelos e tal, ele geralmente, infelizmente, não chega numa boa parte da população. Então, pensar que o cinema molda as relações, eu concordo, mas que ele tá desmistificando e de alguma forma assim questionando a forma da monogamia pro grande público, eu acho que eu vou fazer papel aqui de advogada do diabo, eu acho que isso não tá acontecendo.

Cada vez que eu vou estudando mais sobre essa questão da monogamia, isso não é um problema para a maioria das pessoas assim. Elas não estão problematizando isso, elas sabem que a monogamia, elas vivem numa naturalização da monogamia, né? E por mais que às vezes tenham atitudes não monogâmicas, porque a gente sabe que ninguém vive a monogamia plenamente, né? Essa monogamia de viver com uma única pessoa a toda, ela não se realiza na realidade.

Mas o questionamento de uma não monogamia mais politizada, isso não tá na cabeça das pessoas em geral. Então quando a gente fala desse cinema mais questionador, que tá assim questionando a forma das relações românticas, com filmes aí que vocês citaram muito bem, no geral isso não chega na cabeça das pessoas, não por ignorância, mas porque a indústria cultural ela produz uma uma determinada forma de fazer cinema que ainda é hegemônica e que acaba assim, a meu ver, ainda moldando um comportamento bastante machista e patriarcal.

E quando a Bel tava falando sobre essa questão da, até do cinema pornô, e eu fiquei, fico sempre pensando sobre isso, como por exemplo o cinema pornô, os filmes pornôs, eles são moldados por uma determinada forma de sexo que agrada aos homens, né? Aí a indústria explora isso. Hoje em dia tem filmes que são feitos para mulheres, mas então você vê, você muda o paradigma, mas não muda a forma de explorar. E aí eu acho que chega nessa questão que você pontuou agora, Rafael.

Isso traz um cansaço mesmo para gente, isso traz uma forma assim que tudo tem que ser um produto para ser vendável. Então a gente passa a administrar as relações afetivas a partir dessa ordem neoliberal, de uma uma forma de produção do desejo que seja consumível. Então a gente transforma o nosso afeto em consumo e a gente passa a administrar ele como quem administra um ativo, uma coisa de uma economia dos afetos. E o cinema, ele entra nessa jogada, né?

Então ele não vai produzir algo que não vai ter um público específico. A gente tem que ter um cuidado, porque quando a gente fala assim, ah, foi um filme para questionar as relações românticas. Mas ele também tem ali, e eu não tô falando assim de uma teoria da conspiração não, é porque tudo a indústria produz porque tem um público que vai consumir e que vai colocar ali uma intencionalidade. Mas a realidade que tá todo mundo cansado de modelos, de modelos prontos de afetos, porque eles na realidade não atendem às demandas do desejo, porque o desejo é incontornável.

O desejo não é administrável. Então a gente vai assistir um filme, vai gozar com ele, né, de várias formas diferentes, mas eles não podem ser essa pedagogia que nos ensina, porque o desejo ele não é ensinável, né? Cada um deseja de forma muito diferente. E isso é interessante porque o cinema ele continua colocando roteiros de amar, mesmo que esses roteiros sejam agora dissidentes, ele continua produzindo novos roteiros, novas formas, né?

E aí eu lembro de uma crítica que a anarquia relacional faz a esses roteiros prontos, né? E o cinema não tem como fugir disso porque ele tá sempre roteirizado, né? Ele tá sempre colocando alguma forma, mesmo que seja questionando esse roteiro. E aí essa é, como é muito imagético, isso atravessa a nossa estética, o nosso corpo, o nosso ser, e as pessoas querem encontrar sua Dança na Chuva, né? Querem encontrar sua bonequinha de luxo. E isso atravessa o nosso imaginário, não tem jeito.

RRRaquel Rocha

Que as pessoas querem viver um pouco o que foi aquele filme, né, o La La Land, mas não entende que o final não é nada agradável aos moldes desse amor romântico que a gente tá falando. Mas é viver um musical romântico, viver não dá, né, gente?

IAIsabella Alencar

Mas então, com essas duas coisas que vocês falaram, adorei. Débora, clap, clap, clap, maravilhosa como sempre. Raquel também maravilhosa como sempre. E concordo plenamente. Mas a pergunta que vem na minha cabeça é: existe realmente esse cansaço então? Porque assim, a Débora parte de um, de um, só para vocês compreenderem, o referencial da Débora sobre o desejo tá muito ligado à psicanálise. Análise, eu suponho, né? E eu não sou psicanalista.

E aí a Débora falou: desejo não é ensinável. Para mim ele é, porque para mim o nosso desejo ele é canalizável, ele é canalizado. E essa, por exemplo, a questão do próprio filme, dos filmes, das artes visuais, seja quais elas forem, ele faz com que a gente aprenda, ele ensina na verdade a como desejar, o que desejar, E quando eu tô falando sobre o desejo, a gente parte de um pressuposto que o desejo, ele não é só o desejo sexual, né?

Ele é o desejo, quais são as projeções de futuro que eu faço, como é que eu desejo que minha vida seja, como eu desejo em vários outros aspectos. E aí, no final das contas, é o que que eu desejo? Porque quando a gente vai parar para pensar, e aí só saindo um pouco da questão do cinema especificamente, mas entrando nas plataformas de streaming, em séries, etc., um dos maiores consumos hoje em dia são os doramas. Então concordo plenamente com a Débora quando ela fala que esse modelo, né, específico, ele ainda tá muito vendível nas plataformas onde as pessoas na verdade conseguem ter mais acesso, seja no TikTok, seja no, seja no Instagram, mas também seja numa Netflix, caso as pessoas consigam ter esse determinado acesso.

Mas esse desejo acaba sendo ensinável, porque o padrão do príncipe encantado, ele ainda quer ser encontrado. Então, quando a gente para para pensar que hoje em dia os doramas são, né, os doramas são algumas das obras mais visualizadas que a gente tem, principalmente por mulheres 40+, e não só mulheres 40+, mas, né, por grande parte da população geração hoje em dia jovem e mulheres e etc., a gente vai pensar: existe realmente esse cansaço?

Não sei se existe esse cansaço, se ele ainda é um ideal, se ele ainda é uma expectativa da forma que a gente espera se relacionar com as pessoas, né?

DFDébora Fofano

Ela vai me provocando, eu adoro, eu amo, eu adoro. É, gente, eu Eu sou bem dessa linha da psicanálise mesmo. E assim, eu penso que o desejo ele não é disciplinado, né? As pessoas não, elas desejam aleatoriamente e às vezes não tem acesso a esse desejo de forma consciente. Mas o desejo ele é muito explorado pelo capital, pelo cinema hollywoodiano e por esse cinema que a gente tá falando aqui que vende, né? E se o desejo ele é explorado, ele gera o que a gente, que eu entendo através do Žižek, que é um filósofo que eu gosto muito, que gosta muito de cinema, usa muito cinema, né, o Žižek, gera-se mais gozar.

Então assim, essa exploração do desejo leva a todo tipo também de perversão, inclusive, e o cinema se apropria disso. Assim como não só o cinema, mas toda a indústria cultural, a música, a literatura também, assim, nada escapa das garras do capitalismo, né. Vou bater aqui a minha Vou bater aqui a minha meta de sempre falar que tudo é culpa do capitalismo. E é mais ou menos por aí, né? Então a gente não tem assim— eu sempre gosto, eu falo sobre isso, parece que é tudo uma grande tragédia, que o amor está perdido, mas eu não acredito nisso.

Eu acho que a gente ainda pode amar muito de outras formas, de formas mais marginais, dissidentes. Se a pessoa quiser amar de forma monogâmica, tá tudo bem também. Enfim, só que cada um tem que inventar o seu modelo. E eu acho que isso é cansativo, sim. Eu acho que existe um cansaço nisso, da pessoa tentar saber o que ela quer e não se ela foi cooptada, que é a tua pergunta inicial. E isso já era um desconforto, que se você fica reiteradamente nisso, você já cansaça, eu acredito sim.

E com esses novos modelos relacionais aí agora, é mais trabalho ainda, gente. Agora, em vez de administrar um relacionamento, você tem que administrar vários. Olha só que coisa mais maluca!

RRRaquel Rocha

E não é tipo administrar contatinho, é relacionamento. Eu vou concordando assim com essa questão do cansaço, porque a gente vive realmente numa sociedade do cansaço, que é isso. O capitalismo, neoliberalismo coloca a gente num estado de exaustão. E quando a gente vai pensar nos relacionamentos, gente, quem é que quer ter dois cabeças? Um relacionamento romântico, amoroso romântico? Ninguém quer. E a gente ainda encontra as facilidades dos aplicativos de relacionamento.

Então é assim, cria-se uma ideia de que você vai encontrar o amor da sua vida, e esse amor da sua vida tem que ser fácil. E eu vou criar ali aquela lista, né, a pessoa ideal, para que a pessoa esteja ali encaixada em tudo aquilo que eu desejo. Seja porque eu desejo genuinamente ou porque esse desejo foi moldado, né? Aí também vou na escolinha de que o desejo não é disciplinado, ele é indisciplinado e indisciplinável. E a pessoa vai assim, tá, tô no aplicativo, conheço alguém, essa pessoa me decepcionou com isso aqui, me deu uma dor de cabeça, me deu um ataque, sei lá, cardíaco, me frustrou de alguma forma, eu já descarto essa pessoa e vou procurar outra.

E isso é um sintoma de cansaço, que é um sintoma de cansaço que o cinema não mostra, porque o cinema vai mostrando assim: não, você tem que insistir em encontrar o amor da sua vida ou em ser escolhido por alguém que vai ser o amor da sua vida. E aí entra essa coisa que é até paradoxal: eu tô cansada de procurar, ou eu tô cansado de pensar que o amor vai ser essa coisa trágica, difícil, complicada, que eu tenho que investir muita coisa, porque eu quero uma coisa fácil.

Tenho uma facilidade, principalmente por conta dos aplicativos de relacionamento, mas também só isso não me satisfaz, porque eu tenho as opções, então eu vou descartando. Então, em que medida também essa própria forma de construir uma ideia de amor e construir uma ideia de romance ela não tá também nesse lugar de exaustão. Ah, eu queria amar, mas amar dá trabalho, então eu não vou amar, eu vou ter uma coisinha que eu tô ali, essa coisa, só para sacanear aqui.

DFDébora Fofano

Olha, amiga, sempre amor romântico, afeto romântico vai dar dor de cabeça, sempre. Então assim, se quiser amar, tira o romantismo da jogada, gente, que aí vai dar tudo Certo, eu trazendo roteiro aqui para vida dos outros. Tira o romantismo e vai dar tudo certo.

RRRaquel Rocha

Ai, mas outras coisas na nossa vida. E vamos deixar o amor romântico para o cinema, para esses filmezinho conforto, sabe? Para assistir Uma Linda Mulher, para assistir, sei lá, Meu Primeiro Amor, para assistir Sob o Sol de Toscana. E a gente vai se realizar aí nessa projeção, tá ótimo. E vamos romantizar a vida de formas.

IAIsabella Alencar

Mas quero deixar claro, eu não disse que o desejo é disciplinado. Não tem como desejo ser disciplinado realmente, mas que ele pode ser canalizado de alguma forma. Só para deixar claro, porque eu falei ensinável, mas não disciplinado.

DFDébora Fofano

E outra coisa, eu concordo com essa questão do desejo e poder ser— a gente tem que colocar isso em outras coisas. Total, concordo muito.

IAIsabella Alencar

Em relação ao cansaço, aproveitando só pra falar sobre essa questão. O cansaço, na verdade, eu não tava falando nas relações, mas no que a gente tá consumindo no cinema. Não tem um cansaço nosso em consumir o amor romântico. Mas talvez existe um cansaço nosso de viver na idealização de algo que não chega na realidade. Mas assim, não tem o cansaço da expectativa. Do querer, do próprio desejo de, por exemplo, viver com, no meu caso, uma princesa encantada, né, não príncipe encantado.

Mas é realmente pensar que no final a gente tá cansado da realidade, mas querendo consumir exatamente a gente, que eu falo como sociedade, tá, mas a gente querendo consumir às vezes o fácil, o amor romântico, o dorama. O príncipe que chega, a pessoa que tem ciúmes de você. Porque se, né, hoje em dia a gente vê às vezes até em filmes, e até tinha muito na década de 90, início dos anos 2000, o amor é ciumento. Porque se o amor não for ciumento, essa pessoa não gosta de você, ela não se importa com você, ela te trata mal.

E a gente consegue ver isso, né, dessas relações também sendo moldadas através do cinema, através das séries, etc. Então é aquilo, o cansaço da vida real muitas vezes não se reflete exatamente no que a gente acaba querendo consumir no fim das contas. Talvez um comer, rezar e amar, não vou falar o final do filme, não sabemos, mas fiquei aí.

RARafael Arinelli

Mas você acha que teve uma mudança então? Porque sei lá, em algum momento a gente tem um período de construção dessa dessa visão, né, dos relacionamentos por conta da cultura e tudo mais. E agora a gente vê a cultura também sendo usada quase que como um escapismo de algo que, enfim, não consegue ser tangível ali para as pessoas.

DFDébora Fofano

Eu acho, eu acho.

IAIsabella Alencar

Desculpa, Débora, pode falar.

DFDébora Fofano

Eu concordo contigo que assim, as pessoas continuam reproduzindo os mesmos modelos, né? Então elas podem falar que estão cansadas, mas na prática, em relação às relações amorosas românticas, elas permanecem no mesmo lugar. E aí, Rafael, acho que a mudança é para uma parte muito, muito, muito pequena da sociedade, tipo assim uma elite intelectual que pode ter acesso a essa mudança. É igual quando a gente fala desses recortes interseccionais, que a gente vai falar assim: quem é que pode viver a não monogamia plenamente?

É uma pequena parte da população que tem tempo para se dedicar a vários relacionamentos, a desconstruir sua forma, que tem dinheiro para sustentar uma vida com vários parceiros e tal. E aí, se a gente for fazer um outro recorte interseccional também, tem muitas famílias que são não monogâmicas porque são grupos e rede de mulheres que precisam se apoiar para você conseguir sustentar os filhos e uma vida mais comunitária, mais horizontalizada, organizada.

De uma forma mais anárquica, vamos dizer assim, porque a família burguesa nuclear não funciona para a maioria das pessoas. Mas se a gente for olhar para o cinema, se ele tá produzindo essa mudança na cultura, eu acho que isso é muito lento, porque é para uma pequeníssima parte das pessoas, que é uma espécie de elite intelectual que acessa a essa cultura elevadíssima de ir, por exemplo, aqui Em Fortaleza a gente tem um cinema de arte.

Quem é que frequenta a Fundação Joaquim Nabuco? Quem é que frequenta realmente essas salas que passam filmes mais questionadores assim do status quo, do que é um relacionamento? Então assim, eu acho que a gente tá muito longe de produzir uma mudança na forma de se relacionar. O grosso da população e as pessoas em geral estão querendo ali aquela relaçãozinha básica, casar, sustentar os filhos e sobreviver no que der.

RRRaquel Rocha

É, e até o modelo assim de relacionamento tá um pouco diferente, né? Porque não é mais só o cinema que molda, é o Instagram, né? Os relacionamentos totalmente instagramáveis. Então a forma de amar também passa muito nesse lugar da rede social, né? De como, ah, você me ama, por que que você não coloca foto? Nossa, na sua rede social? Por que que não tem declaração de amor na rede social?

DFDébora Fofano

Por que que não tem?

RRRaquel Rocha

Você já viu as novelinhas do kawaii, gente, que é uns novelinhas verticais que estão aí dominando essa população, que chega em casa cansado, não vai assistir jornal, vai assistir uma novela ou já vai dormir. Mas que quando tá no ônibus tá vendo novelinha vertical de 2 minutos. E que essa novelinha vesga tá passando também.

DFDébora Fofano

Aí eu lembrei das nossas séries turcas, Raquel, Rafael. A gente tem uma paixão investida por séries turcas.

RARafael Arinelli

Ah, é?

DFDébora Fofano

É maravilhosa. Assim, são o auge do romantismo, breguíssimas, mas elas trazem reflexões muito profundas. É maravilhoso.

RRRaquel Rocha

Bom, gosto de novela colombiana, de série turca, questiono horrores, mas tô aí assistindo para distrair minha cabeça, porque também chega uma hora que não dá para a gente ficar nessa só de cinema de arte, de coisa questionadora. Eu sou uma pessoa crescida na periferia e que não tinha TV a cabo em casa, então a minha educação cultural começou assistindo Sessão da Tarde, Tela Quente. E o que é que passava na Sessão da Tarde? Lagoa Azul, Romeu e Julieta não era tela quente, mas passava Lagoa Azul, passava O Meu Primeiro Amor, passavam filmes de romance que foram moldando sim, né, que moldou a forma de compreender o amor de grande parte da população que também era nessa condição, né, de pessoas de outras classes sociais que não essa classe social que tinha TV a cabo em casa.

IAIsabella Alencar

É muito bom.

RRRaquel Rocha

Vou negar que eu gosto de novela turca? Não, gente, eu adoro. E tenho assistido muitas agora que eu tô num certo recesso da vida acadêmica. Tô assistindo muita novela turca, novela colombiana. É um deleite.

IAIsabella Alencar

Eu amo que todo acadêmico fala um certo recesso. Mas eu concordo muito com o que vocês falaram. E principalmente assim, quando a gente vai pensar sobre essas formas de se relacionar que são fora desse padrão da família nuclear, né, papai, mamãe, filhinho, família margarina e esse tipo de amor, na verdade esse, o não padrão, né, ele a gente conhece inclusive de forma histórica, né. Não, a gente não precisa, aqui no Brasil mesmo a gente tem várias discussões sobre isso.

Tem Jeane Nunes, que é uma pessoa que geralmente a gente cita também para falar sobre essas relações e que é uma pessoa indígena. Então a gente não tá falando dessas, desse tipo de relação, ela não é necessariamente novo, não é algo novo de se relacionar dessa forma dissidente. Porém, eu concordo muito com a Débora também quando ela fala que não é a maior parte dos filmes que estão problematizando e que estão tensionando isso.

Definitivamente não é, principalmente quando a gente pensa que esse acabou sendo um assunto que, mesmo que não seja novo, né, essas outras formas de se relacionar, ou que a gente vê na realidade brasileira de cuidado comunitário— quando eu falo cuidado comunitário, é tipo viver em comunidade mesmo, né, para além de uma família nuclear. Mas quando a gente para para pensar, essas discussões que estão acontecendo sobre essas novas formas de relação E esses novos tensionamentos, eles estão começando a entrar numa sociocultura um pouco mais agora.

Então não tem como o próprio cinema— ah não, então majoritariamente o cinema vai fazer isso. Não, o cinema vai acompanhar a própria forma que a gente tá trazendo essas discussões e vai, na verdade, como fala, vai cooperar na verdade com essas discussões, mas também vai produzir as próprias questões que vai trazer para essa sociocultura de novo, né? Sociocultura vai produzir esses questionamentos, o cinema vai cooptar muitos deles, o capitalismo também, porque como Débora falou muito bem, é o que vende, o que passa a ser vendível para um determinado público.

Mas ao mesmo tempo, claro, é uma, é um tipo de discussão muito insurgente, muito insurgente, e que a gente não sabe como é que vai ser daqui para frente, né? Como é que vai ser a questão do cinema daqui para frente? A gente já, a gente vê mudanças históricas acontecendo, mas ao mesmo tempo é aquilo, ainda tá tímido, ainda tá insurgente, ainda tá difícil de encontrar um público mais amplo, ser um público de massa. Sim, porém tá acontecendo, tá aparecendo.

Eu acho que isso também é importante, né? E não, gente, eu nunca vi nenhuma coisa do kawaii. Eu nem sei o que que é isso. Me senti uma velha.

RARafael Arinelli

Tem uma coisa que a Debi falou que ficou na minha cabeça aqui sobre essa questão, né, da maioria das pessoas não estão sendo impactadas e tal. E eu acho isso interessante da gente pensar, porque realmente, né, primeiro que fura a nossa bolha, que quando a gente para para pensar nisso. Mas essa ideia do amor romântico sendo construído com a ideia de que existe a pessoa certa, o casal ideal, uma felicidade completa, né, dentro da exclusividade e tudo mais.

A monogamia, né, ajuda a sustentar esse modelo, e o cinema meio que reforça isso o tempo todo ao tratar o casal como o centro da história, né, como final feliz e tal. E não só o cinema, mas as novelas, as séries e por aí vai. E quando a gente pensa no capitalismo, quando a gente inclui o capitalismo nessa história, esse amor ele também vira consumo, né, porque ele vira meta de vida, vira produto cultural, vira casamento, vira casa, vira data comemorativa, vira, sei lá, rotina a dois, né.

Tudo isso vira parte de uma lógica é muito lucrativa assim. Só que esse ideal, ele não é vivido da mesma forma por todo mundo. E a experiência amorosa também, ela é atravessada por essas diferenças de classe que a gente vê, né, no nosso cotidiano. O tipo de relação que você consegue sustentar, o tempo que você tem, né, para o afeto, a pressão por estabilidade, E até a forma como o casal aparece socialmente, né, mudam muito conforme a condição material.

E a Raquel bem falou também do Instagram e tudo mais. Será que o amor romântico que o cinema vende, né, como universal e tal, não é no fundo um ideal de classe disfarçado de sentimento para todo mundo? Mundo também.

DFDébora Fofano

É perfeito, com certeza eu acredito muito nessa tese aí, porque assim, a monogamia ela tá intimamente associada ao capital, ao capitalismo, né? A gente pensando a partir da modernidade, porque a ideia de monogamia ela não tem nada a ver com amor romântico, ela tem a ver com o fato de você poder definir quem são os herdeiros legítimos, né, daquela procriação de um determinado homem e mulher. Então quem vai ficar com aquele patrimônio?

Então isso começa com a propriedade privada, com a ideia de propriedade privada, não só da terra, mas da mulher como esse corpo, território que é privado para o homem, colocado para o homem. Por isso a necessidade da criação da exclusividade, da fidelidade, e você definir quem vai ser o herdeiro dessa terra, dessas posses. E aí que para essa equação funcionar bem, é, você bota o elemento do romantismo junto para que essa argamassa se assente aí, né?

E aí o cinema, ele contribui com isso, principalmente no século 20, né, para que esse, esse monólito da monogamia com o capital se assente de uma forma palatável e possa funcionar socialmente, né? Então nesse sentido mobiliza que o desejo seja articulado em torno desse ideal. Então por isso que a gente fala de desejo ter sido colonizado. A Jeane Nunes fala sobre isso, a Rita Segato também. Aqui no Brasil a gente tem algumas psicanalistas que eu gosto muito que falam sobre isso, como a Sueli Ronick, a Rita Kehl, e algumas, muitas mulheres principalmente que estão problematizando, porque esse sofrimento, esse cansaço que a gente falou aqui, ele se articula muito com a mulher.

Porque ela que faz o trabalho reprodutivo, né? Ela faz o trabalho socialmente necessário para sustentar essa economia afetiva, vamos dizer assim. Enquanto os homens estão assim fazendo parte, sofrendo nisso também, mas eles são os donos da bola, né? E o cinema reproduz muito isso, coloca a mulher nesse lugar de ser a escolhida, de ser aquela que vai poder ser feliz, né? Esse ideal felicidade que a relação monogâmica traz, né, esse grande encontro, que tudo você nomeou aqui logo de princípio.

Então eu acho que ainda falta muito para a gente desconstruir isso, porque depende de uma coisa muito simples, que é o fim do capitalismo.

IAIsabella Alencar

Uma coisa básica, entendeu?

DFDébora Fofano

Ai, gente, tocou!

RRRaquel Rocha

É isso mesmo, caraca. Eu acho que no comunismo também ia ter esse mesmo problema, não dessa mesma forma, mas o bicho—

DFDébora Fofano

mas eu falei fim do capitalismo, eu não falei que era para ter comunismo não.

RRRaquel Rocha

Na minha cabeça eu já tô aí, comunismo, aí depois vai para anarquia, aí depois vai para uma sociedade de, né, Interestelar, de ETs. E eu acho que teremos os mesmos problemas em qualquer modo de sociedade, é isso que eu quero dizer.

DFDébora Fofano

Então, melhor o fim da sociedade.

RRRaquel Rocha

Eu me sinto pronta para nave, me buscar.

DFDébora Fofano

Pode mesmo dizer, né?

RRRaquel Rocha

Mas hoje até pode vir me abduzir já.

RARafael Arinelli

E assim, eu fico pensando, sabe, Sabe, tem uma coisa que sempre me pega muito quando a gente entra nesses debates, que é perceber o quanto o nosso jeito de pensar ele tá completamente moldado pelo sistema em que a gente vive, né? No nosso caso, o capitalismo. Afinal de contas, é basicamente o único que a gente experimenta na prática assim. Então não é só só economia assim, mas é cultura, é política, é comportamento, é tudo, né?

O capitalismo engloba tudo isso. E aí, quando a gente tenta imaginar soluções fora disso, ou pensar o mundo de outro jeito, parece que dá um curto na cabeça assim, porque a gente tá muito condicionado. É difícil demais sair dessa lógica, dessa bolha que a gente E isso não vale só para o sistema econômico, né, mas para a visão de mundo em geral mesmo. Porque assim, tem um conceito na antropologia que eu acho muito interessante e tal, que é o de relativismo cultural, que é justamente a ideia de tentar entender práticas e valores, né, dentro do contexto daquela sociedade e não a partir dos nossos critérios.

Então, por exemplo, quando os europeus chegaram nas Américas, eles frequentemente descreviam os povos indígenas como atrasados, como selvagens, né? Mas isso dizia muito mais sobre o olhar europeu do que sobre esse povo. Porque na prática, muitas dessas sociedades tinham relações muito mais equilibradas com a natureza, com o coletivo, com a própria ideia de propriedade, né? Tecnologia, era um povo assim que tinha soluções tecnológicas incríveis, assim coisas que hoje inclusive a gente revisita como alternativas ao modelo dominante, né.

Então no final das contas o que que parece ser natural, entre aspas, né, para gente é só o que a gente aprendeu a considerar como normal assim. E tentar sair disso é muito difícil, mas ao mesmo tempo é o que torna esse tipo de conversa que a gente tá tendo aqui tão instigante assim, porque você começa a perceber que talvez o mundo pudesse ser organizado de várias outras formas assim, e a gente simplesmente não consegue enxergar todas elas ainda, né?

Então eu acho que aí que mora a graça, né, nesse conforto de a gente não ter uma resposta pronta, mas a gente continuar tentando imaginar outras formas de viver e de organizar o mundo, né?

RRRaquel Rocha

Aí ainda bem que a gente não precisa ter resposta para tudo, né? O bom e o gostoso é ficar pensando, problematizando, né? A resposta, se tiver de vir, ela vem.

DFDébora Fofano

É, eu acho que é interessante a gente a ficar com essas anteninhas ligadas, né, Rafael? Porque tem muita coisa que é naturalizada, que é colocada como normal. A gente normaliza, naturaliza processos que são históricos, que passam por fantasias, que passam por ideologias, atravessamentos que são assim, fazem parte dessa constituição do que eu chamei de capitalismo. Tem um filósofo que eu gosto muito, que é o Wallenstein, que ele de sistema mundo, né, para não falar de capitalismo e outras.

É, mas a ideia é essa, né, é desnaturalizar coisas que a gente acha que sempre foram assim, sempre serão, e a gente não tem resposta realmente, não tem.

IAIsabella Alencar

Inclusive a própria ideia de amor, né? Sim, porque a gente naturaliza tanto essa questão de não, o amor ele é tão humano, ele é isso, ele é aquilo, que a gente não fala o que é amor. Amor. No fim das contas, a gente não discute sobre quais são as formas de amar, o que que é saudável e o que que não é saudável. A gente aprende o que é amor na experiência, porque a gente acredita que isso faz parte da essência humana, e não, isso é uma questão sociocultural.

Então, o que que é o amor? Como é que a gente quer mostrar esse amor, né? Quais são essas formas que estão sendo mostradas? Mas também começar essa discussão inclusive bem basilar. O que que é isso, né? O que que é? E outra coisa, gente, eu adoro, adorei essa conversa, tô adorando conversar com vocês, é sempre muito bom. E assim, é lembrar que a base da experiência humana é a incerteza e a indeterminação. É isso que inclusive move a gente para frente, mesmo isso causando tanta angústia.

Mas é isso, eu acho que a gente precisa discutir mais Inclusive, o que que é amor. Porque senão a gente sempre vai falar, gente, a gente precisa aprender a amar, aprender a amar de verdade, tá? Mas o que que é amar? Me direciona, vamos se direcionar como comunidade, como grupo, sobre quais são essas formas saudáveis de viver o amor, de ter o amor. Porque senão vai continuar sendo cooptado pelo capitalismo e, né, apenas com o fim dele talvez a gente tenha alguma paz, mas talvez também não tanta.

Nada garante, mas é realmente pensar em como é que, como é que os sentimentos, eles estão sendo naturalizados de uma forma tão bizarra que a gente não discute mais sobre eles. É como se eles fossem intrínsecos à nossa experiência, né? Então é isso.

RARafael Arinelli

Plano Detalhe da semana, aquele momento aqui que a gente dá dicas para vocês, ouvintes, para vocês fazerem coisas diferentes aqui, né, durante a semana. Raquel, vamos começar com você. Que que você trouxe de bom para gente de plano algum detalhe aí? Que que as pessoas podem fazer? Que que você recomenda, Raquel?

RRRaquel Rocha

Eu recomendo que depois desse papo que a gente teve, que a gente volte lá nos filmes dos anos 90 e 80 e assista um romancezinho. Assista Uma Linda Mulher, assista Flashdance, para a gente pensar aí o que é que ficou da nossa conversa, né? O que é que Qual o olhar que a gente vai ter depois desse papo que a gente teve para esses filmes românticos?

RARafael Arinelli

É verdade.

RRRaquel Rocha

Homem da Mulher é o filme conforto predileto, gente. Todo ano assisto. Então sempre que eu puder eu vou recomendar Homem da Mulher. Caraca, toda vida que eu assisto eu tenho perspectivas diferentes, porque é isso, né? Vai mudando. Então assistam aí um romance conforto dos anos 90, dos anos 80, e com outros olhos depois desse papo.

RARafael Arinelli

Você sabe que deve sair um novo filme, né, de uma linda mulher, né?

RRRaquel Rocha

Aí é, eu achei meio nojento, que é uma velha de 70 anos. Vamos, cancele. Mas é porque assim, é uma pessoa de 70 anos com um jovem de 20 e poucos anos, né? É problemático, é mais problemático do que ser atalista.

RARafael Arinelli

Pois é, pois é. É assim, né, aquelas coisas que as pessoas também não consegue largar. Mas me diz uma coisa, que você assiste então todo ano Uma Linda Mulher?

RRRaquel Rocha

Ah, eu assisto. Assim, tem sempre época do ano que a gente tá muito cansado, né? Então eu tenho umas séries conforto e uns filmes conforto, e Uma Linda Mulher tá nessa lista junto com Rocky Balboa, junto com outros filmes, Sob o Sol de Toscana também. A Vagina Dentada, que é um filme bem legal, que não tem nada a ver com romance, mas que é bem legal de assistir. E tem alguns assim, tem uma curadoria aí de filmes e séries com força. Quando eu tô muito cansada, eu assisto.

RARafael Arinelli

E não confundir Flashdance com Dirty Dancing e nem com Footloose, tá? Que é tudo da mesma época.

RRRaquel Rocha

É um romance mais legal.

RARafael Arinelli

É isso aí, também acho muito bom. Tá aí então, lembrando, né, vocês ouvintes, que tudo que a gente tá falando aqui vai ter link no post. Então a gente tá falando, é só você ir lá clicar, você vai ser direcionado para tudo que a gente tá falando. Debi, você, o que que você trouxe de bom para gente aqui na sua estreia aqui no Cinemação?

DFDébora Fofano

Ai, gente, eu vou puxar a brasa para minha sardinha, para as coisas que eu gosto. Tem a ver com o que a gente falou aqui, talvez vocês já conheçam, Mas o Zizek, ele faz, era um grande, é um grande crítico de cinema, e ele também produzia. Eu não sei se ultimamente ele tem produzido filme, né, mas tem dois filmes dele que eu gosto muito, que é O Guia Pervertido do Cinema. Então já fica essa dica. E O Guia Pervertido da Ideologia, porque no Guia Pervertido da Ideologia ele vai falar muito sobre umas coisas que a gente discutiu aqui, né, como é que certas coisas convencionam o nosso costume coletivo, principalmente através do cinema.

Então não sei se tu já viu, Rafael, é uma loucura porque ele entra dentro dos filmes, sabe? E aí ele fica questionando as cenas do filme e fazendo a gente refletir sobre a realidade, inclusive também sobre o amor. Então tem tanto o Guia Pervertido do Cinema, vocês encontram no YouTube mesmo, e o Guia Pervertido da Ideologia, mais palatável, é mais fácil de entender, porque lá no Guia Pervertido do Cinema é muito filme antigo, clássico, Hitchcock e coisas assim.

E ele delira bastante, o Zizek. Mas no Guia Perverso da Ideologia vale muito, muito a pena. Mas fica essa dica.

RARafael Arinelli

Me tira só uma dúvida, porque o do cinema consegui visualizar assim, ele pegar o filme e falar sobre ele. Agora, e o da ideologia?

DFDébora Fofano

Ele entra em outros filmes e vai falar sobre as ideologias dominantes que constrói os nossos costumes e as nossas convicções de vida. E aí ele também faz isso em cima do cinema.

RARafael Arinelli

Que legal! Poxa, eu vou colocar aqui para ver.

DFDébora Fofano

É bem doido. Mas eu também quero falar do meu filme conforto, por favor, que também é uma comédia romântica dos anos 2000. Eu também assisto quase todo ano, que é Alta Fidelidade, com o John Cusack e o— daqui a pouco o Jack Black.

RARafael Arinelli

Pronto, lembrei.

DFDébora Fofano

Ai, gente, é um filme tão bobo, mas tão divertido.

RARafael Arinelli

Eu amo. Esse também é uma vez por ano?

DFDébora Fofano

Ah, eu não sei se todo ano não, mas de vez em quando eu reassisto.

RARafael Arinelli

Muito bom. Tá aí então. Fala para a gente só sobre o que que é, Dani.

DFDébora Fofano

Ah, é o cara que tem uma loja de disco e ele tem uma nóia com uma menina e ele fica lá na loja do disco com o cara, é o John Cusack. E aí ele fica lá com o Jack Black julgando pessoas, fazendo listas de melhores músicas, de melhores filmes, e falando aleatoriedade da vida, perseguindo a mulher dele, enchendo o saco dela, tendo uma relação completamente tóxica, mas que no final é muito engraçado. Inclusive, o roteiro é tão bom que fizeram uma série, que é até com a Zoë Kravitz.

IAIsabella Alencar

Tem, eu acho que tem, verdade.

DFDébora Fofano

É muito boa a série também. E assim, a série é muito fiel ao filme, sabe? Eles redesenham exatamente os mesmos cenários, a mesma cena do filme, e é maravilhoso porque é a Zoe Kravitz, né? Então é o mundo que lute, porque depois de Zoe Kravitz a gente não tem mais o que falar.

RARafael Arinelli

Sensacional! Tá aí então, filme em alta fidelidade. E você, Bel, o que que você trouxe para gente? Imagino que uma das suas dicas seja durma 8 horas, de repente, no mínimo, por noite.

IAIsabella Alencar

Durma 8 horas da noite, né? Porém, eu trouxe um filme que eu assisti há pouco tempo e que eu recomendo muitíssimo, gostei demais, que é O Convite, que tem como diretora e protagonista Olivia Bom, contando um pouco da história para vocês, sem spoiler obviamente, porque já deve sair daqui a pouco um episódio sobre isso no cinema. Mas é um casal bem normativinho que já caiu naquela, naquele, o tédio, aquele tédio, mas bem tédio, que já deixou de ser amigo, que já deixou de ser tudo para apenas cumprir funções como pais, conhece um casal que assim, eles mudam, né, para esse apartamento, eles conhecem um casal que é simplesmente formado por Edward Norton e Penélope Cruz.

Sinceramente, esse casal para mim é completamente tipo assim, gente, como assim eles vão juntar Penélope Cruz e Edward Norton? E ficou maravilhoso. Eu gostei muito do filme, dei boas risadas. Em alguns momentos o que que me deixou desconcertada com o filme foi o público, não o filme em si. Mas eu gostei bastante. E assim, outras coisas que, outras questões, e puxando também para o meu lado, né, como psicóloga e leitora ávida, eu queria indicar alguns livros, né.

Eu sei que aqui é sobre cinema, mas já dei a minha dica, gente. Agora vamos lá, mas eu queria indicar os livros da Jeane Nunes, tanto Decolonizando Afetos, que é algo que eu já indiquei lá no Perdidos 852 milhões de vezes, eu acho, mas também um livro que ela lançou há pouco tempo, ano passado, que é o Felizes por Enquanto. Mas também indicar um pouquinho de Bebel Books, Tudo Sobre Amor. Acho que, acho que é bom, é bom essa, essa leitura, principalmente para a gente conseguir não achar respostas definitivas, porque esse não é objetivo, como as meninas muito bem colocaram.

Mas para a gente começar a pensar como a gente quer colocar esse amor no mundo, como a gente quer viver o amor, como a gente pensa que esse amor, né— uma vez a Débora falou aqui em um dos episódios que o amor salva, e eu acredito nisso também. Mas a gente tem que saber qual é o amor que salva, né? Eu acho que esses livros, eles dão uma boa base para, na verdade, a gente construir este amor, né, de produzir este amor que é muito saudável.

RARafael Arinelli

Caraca, adorei! Tá aí, muito bom livro, filme. Bom, gente, para fechar aqui, eu trouxe dois planos detalhes. Um eu já indiquei, mas vou reindicá-lo aqui porque tenho falado disso com algumas pessoas e acho que ele ajuda, né, no dia a dia. Primeiro é um aplicativo que funciona tanto para Windows quanto para Mac, funciona também em celulares e tal, que se chama WhisperFlow. Então você que trabalha escrevendo, você que precisa, né, ir lá digitar, digita email, digita enfim prompts e enfim textos para blogs e tudo mais, o WhisperFlow ele é um aplicativo que depois que você instala ele, você aperta um botão no seu teclado ou aperta e e aí ele abre o microfone, você vai falando e ele vai digitando o que você tá falando.

Diferente do, do, como que fala, transcritor, sei lá, eu não sei como é que fala, diferente desse que é do WhatsApp, que você tem que ficar falando, coloca ponto final, ponto de exclamação, próxima linha e tal, o WhisperFlow ele já formata o texto da maneira correta. Então você pode ir falando e ele vai escrevendo tudo lá para você. Inclusive, se você solta no meio da frase um é e você dá uma gaguejada e tal, ele ignora esse tipo de coisa e escreve a frase correta para você.

Então ele ajuda demais assim para quem, sabe, precisa mandar uma mensagem rápida, precisa escrever um email rápido e tal, e aí não quer ficar lá digitando usando o WhisperFlow resolve esse problema. Então vai ter link aqui para que vocês possam usar. E a segunda dica que eu tenho é uma IA do Google que se chama Notebook LM, que para quem não usa acho que vale a pena, que diferente de, enfim, ChatGPT, Cloud e tantas outras, o Notebook LM ele funciona com base de dados daquilo que você sobe.

Então quando você entra lá, você abre um novo Notebook LM e você precisa colocar todas as fontes que você quer que ele consulte. Então você coloca PDF, coloca vídeo de YouTube, você coloca várias coisas e ele só consegue acessar isso. Então ele não vai lá e pesquisa em site ou ele vai, sabe, pega de fonte e tal. Não, é só o que você coloca como fonte. E a partir essa fonte, você consegue fazendo perguntas para ele, pedindo para ele criar material para você.

Isso facilita muito. Então vou dar um exemplo: se você tem um contrato, por exemplo, que você precisa, um contrato extenso, você precisa encontrar alguma coisa dentro desse contrato, você joga o PDF lá dentro do contrato, ele já consegue ler o contrato inteiro. E aí você chega lá para ele e pergunta: bom, tem alguma coisa referente referente a, sei lá, pets no contrato. E aí ele vai lá e vai dizer para você, na cláusula tal, tá lá escrito isso.

E é isso. E ele é, e ele vai ser assertivo porque a única fonte dele é o contrato que você colocou. Então ele não inventa informação. E para além disso, ele tem algumas funções lá automáticas, como ele gera um podcast para você ouvir. Então se você jogou o contrato, né, vamos ficar no exemplo do contrato, você pode pedir para ele resumir o contrato em um podcast para você. Ele gera um podcast de alguns minutos ali explicando o que que é aquele contrato, para que que serve, não sei o quê, tá, tá, tá, por aí vai.

E tem várias outras ferramentas lá. É muito bom, é muito prático, e eu acho que ajuda demais no nosso dia a dia. Fica então essas duas recomendações aí de produtividade para vocês aí. Chegando aqui no final do podcast, podcast Cinemação 656. Batemos esse papo sensacional aqui sobre relacionamentos, né, essa construção. Estamos falando aqui sobre monogamia, amor romântico, narrativa, cinema, tanta coisa legal que a gente conversou aqui.

Obviamente analisando, né, esse cinema contemporâneo, comportamento. Acho que isso ajuda a gente realmente a olhar de uma forma mais crítica para aquilo que a gente consome, como a gente se relaciona com aquilo que a gente consome, porque isso que vai moldando, né, o nosso ser nessa vida, né, passageira aqui. Então é demais poder conversar com vocês. Eu queria primeiro agradecer o Perdidos na Paralaxe, que é um podcast que eu adoro, eu ouço, e não à toa vira e mexe eu trago vocês aqui para que a gente possa trocar essa ideia, porque eu acho que o conteúdo de vocês conversa muito com o que a gente se propõe a fazer aqui no Cinemação.

Então já queria agradecer, reforçar o convite para que vocês vão lá ouvir realmente essa nova temporada do Perdidos, onde estão tendo esses, esses papos, né, como a Kel bem falou. E eu tenho que agradecer meninas que estão aqui comigo hoje. Sem vocês esse podcast não teria existido assim. Vocês foram fundamentais. Então muito obrigado por vocês doarem o tempo de vocês, estarem aqui, dividir com a gente um pouco desse papo, dessa visão de mundo, desses estudos que vocês fazem e tal, porque isso realmente é muito importante para que a gente consiga, né, desvendar um pouquinho, né, uma camadinha ali da nossa vida, né, da nossa existência.

E eu acho que quando a gente problematiza, isso ajuda também a gente a entender a nós mesmos, né. Então muito obrigado, Kéo. Muito obrigado por você tá aqui. Por favor, deixa meios de contato, redes sociais, como que as pessoas fazem para encontrar você aí.

RRRaquel Rocha

Ah, eu agradeço sempre o convite, e às vezes a minha autoescalação quando o Fred chegar lá. E gente, Rafael chamou de copa, pera aí que eu vou querer também. Então muito obrigada pelo convite sempre, abertura. E vocês me acham no Instagram, gente, a Raquel R. Rocha, né, que é cortando aí o Rocha do final do meu nome. Vocês me acham, e vocês me acham no Instagram do Perdidos também, Perdidos na Paralaxe. É só procurar, vocês me encontram lá.

RARafael Arinelli

Muito bom, vamos lá, pessoal, encontrar Raquel. Deb, também queria te agradecer. Muito obrigado também por estar aqui, por dividir com a gente esse conhecimento que você tem. É riquíssimo. Espero que você volte mais vezes aqui para a gente poder falar sobre outros assuntos também. E por favor, também, como que as pessoas fazem para te acompanhar, ler você, ouvir você? Como faz, Deb?

DFDébora Fofano

Ai, Rafael, fiquei muito feliz de estar aqui com vocês compartilhando, batendo, discutindo as ideias, porque assim, não faz sentido para mim eu ficar pesquisando sobre isso e não assim conseguir entender o que as pessoas estão entendendo sobre o assunto, não conseguir ter esse feedback para que a gente possa discutir. Não faz sentido eu estudar só para mim, né? Ainda mais sobre relação afetiva, e ela não acontece sozinha. Então agradeço demais e agradeço as meninas também, porque esses nossos debates eles são são sempre muito generosos.

E aqui com você foi muito acolhedor, a gente se sentiu muito à vontade para falar as nossas loucuras, as nossas insanidades. E espero que tenha sido bom para todo mundo que ouviu. E quem quiser debater mais pode me procurar lá no @perdidosnaparalax ou no meu Instagram pessoal, que é o @deborafofanofilosofa, aonde vocês podem discordar, me xingar, falar que eu tô louca, e aí a gente conseguir debater mais sobre tantos assuntos polêmicos.

Porque a gente pode até achar que não é, que é um assunto tranquilo para falar aqui entre nós, mas é um assunto polêmico. As pessoas se incomodam muito, elas se sentem afetadas quando a gente de certa maneira fala mal, vamos dizer assim, sobre essa forma casal ou sobre a monogamia. Isso afeta muito as pessoas, e por isso que eu acho que é um tema tão interessante. O cinema ainda tem muito para debater sobre isso.

RARafael Arinelli

É isso mesmo, eu também acho que a gente tem que conversar, né, sobre sobre tudo, conversar para a gente se desconstruir. É isso, muito obrigado, Debs, mais uma vez. E Bel, muito obrigado também por você tá aqui. Eu sei do seu esforço, do sono. A gente tá gravando à noite numa terça-feira fria, a cama chama, e você está aqui depois de um dia inteiro trabalhando e tal. Então tenho que te agradecer aqui, Bel. Muito obrigado mais uma vez.

E também deixa meios de contato aí, quem quiser te ouvir, te ler, como é que faz, Bel?

IAIsabella Alencar

Gente, eu tenho tanto Instagram, mas eu tenho meu Instagram de psicóloga, que é o @psi.isabela, com S2L, Alencar. Tenho o pessoal, que é o @zezezabela, com 2L também. E por último, eu tenho meu Instagram de livros, que eu tô tanto tirar do estado de barril, que é o bel.biblioteca. Também espero que vocês me encontrem cada vez mais no perfil do Perdidos na Paralaxe. Lembrando, sigam a gente, curtam a gente também. É um grande prazer, Rafael, tá aqui.

Foi muito bom porque eu passei muito tempo também sem gravar com os Perdidos, e hoje encontrei duas perdidas que eu estava morrendo de saudade. Gravei o último episódio com a Débora, mas tava morrendo de da Raquel. Então obrigada também por propiciar este encontro. Mais uma vez fico extremamente feliz de ter participado daqui hoje.

RARafael Arinelli

Obrigado mais uma vez, obrigado meninas, vocês são demais. E é isso, o podcast Cinemação 656 fica por aqui e a gente se vê no próximo. Esse podcast foi editado pela Isso Aí Design. Tudo isso é forma com função, é design estratégico, é isso aí.

#656: Monogamia e amor romântico no cinema | Castnews Index — Castnews Index