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#655: A Odisseia

24 de julho de 20261h35min
0:00 / 1:35:35
Tem gente saindo do cinema enjoada. De verdade. E não é reclamação sobre o roteiro, é o corpo reagindo à escala monumental do IMAX de 70mm que Christopher Nolan usou para filmar A Odisseia do início ao fim, algo inédito na história do cinema de ficção. Nolan foi ao mar aberto, filmou em condições reais e conseguiu deixar até a própria equipe passando mal entre uma tomada e outra.
Matt Damon interpreta um Odisseu que os debatedores comparam a um "Oppenheimer de armadura", um homem assombrado pela culpa de ter criado uma arma que mudou a guerra para sempre. Mas o que mais gerou barulho nas redes antes da estreia foram as escolhas de elenco: Lupita Nyong'o como Helena de Tróia, Elliot Page como Sinon e Travis Scott como um bardo grego. Cada uma dessas decisões carrega uma justificativa que vale a pena ouvir com atenção.
Rafael Arinelli, Wesley Ferreira e Rafael Gonzaga discutem os efeitos práticos de A Odisseia, os paralelos com toda a filmografia de Nolan, e uma crítica que não pode ficar de fora: as mulheres do poema original ficaram mesmo à altura na tela?
Prepare o estômago e vá com tudo.
• 05m56: Pauta Principal
• 1h20m25:
Plano Detalhe
• 1h31m15:
Encerramento

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Agradecimentos aos padrinhos: 
• André Marinho Moreira
• Bruna Mercer
• Charles Calisto Souza
• Daniel Barbosa da Silva Feijó
• Diego Alves Lima
• Eloi Xavier
• Guilherme S. Arinelli
• Thiago Custodio Coquelet
• Wilmar Arinelli Jr
• William Saito


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Plano Detalhe:
• (Rafa Gonzaga): Série: Prazer Máximo Garantido
• (Rafa Gonzaga): Minissérie: Pela Metade
• (Wesley): Curta: Junho Ainda
• (Wesley): Série: Twin Peaks
• (Wesley): Filme: Tróia
• (Rafa): Substack: Desembrulhando Palavras
• (Rafa): Substack: Aquilo Ali
• (Rafa): Artigo: A Odisseia: o que esperar do encontro da realista arte de Nolan com a mitologia de Homero?


Edição: ISSOaí
Participantes neste episódio3
R

Rafael Arinelli

Host
R

Rafael Gonzaga

Convidado
W

Wesley Ferreira

Convidado
Assuntos8
  • O Futuro dos Filmes de HeróiCusto humano da guerra · Culpa e remorso · Oppenheimer de armadura · Matt Damon
  • O Cavalo de Troia como arma de destruiçãoParalelo com a bomba atômica · Violação das leis sagradas · Custo moral da vitória
  • Crítica CinematográficaCinema blockbuster de qualidade · Valorização do cinema físico · Contraponto à produção de franquias
  • Filme em IMAXEscala monumental do IMAX 70mm · Efeitos práticos vs CGI · Sensação de enjoo marítimo · Christopher Nolan
  • Elenco e AtuaçõesMatt Damon como Odisseu exausto · Robert Pattinson · John Leguizamo como mentor · Subaproveitamento de talentos
  • Comparacao de AdaptacoesModernização da narrativa · Dificuldade de adaptar Homero · Tradição oral e rap · Travis Scott
  • Crítica de pleonasmo em 'Detalhes'Lupita Nyong'o como Helena de Troia · Elliot Page como Sinon · Guerra cultural e purismo · Elon Musk
  • Representatividade femininaPenélope subaproveitada · Calipso como ouvinte · Personagens femininas rasas · Anne Hathaway · Samantha Morton
Transcrição111 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RARafael Arinelli

Oi, tudo bem?

?Voz B

Aqui é o Daniel. Nesses 14 anos de podcast de cinemação, a gente já viu de tudo na internet e infelizmente ela tá bem mais tóxica ultimamente, né? Pensando nisso, a gente quer criar uma comunidade mais próxima, mais acolhedora, mais respeitosa, onde a gente possa dividir o nosso amor pelo cinema, por séries e tudo mais, e seguir na contramão desses excessos que fazem tão mal para nossa saúde mental. Eu tô aqui pra te convidar a fazer parte desse grupo.

Além de participar da comunidade, você vai ter acesso exclusivo a uma live mensal, entrevistas com especialistas e muito mais. Pra isso, é só acessar apoia.se/cinemação e fazer o seu apoio. Vem com a gente!

RARafael Arinelli

Seja bem-vindo ao Podcast Cinemação 655. Eu sou Rafael Arinelli e hoje temos aqui comigo Rafael Gonzaga.

RGRafael Gonzaga

Boa noite, boa noite! Estamos aí mais uma vez nesse podcast que eu adoro. Eu tô sempre ouvindo, às vezes eu apareço aqui, e hoje nós vamos falar da Odisseia, que eu tô muito empolgado.

RARafael Arinelli

O Rafa tava já semi-escalado, né, Rafa? Já faz um tempo que a gente tava tentando bater agenda e tal, e finalmente está aqui para falar de Nolan.

RGRafael Gonzaga

Exatamente, um diretor que eu gosto muito, polêmico ali no Twitter, né, que a galera tem uma certa implicância, mas a gente tá vendo que isso é só uma bolha barulhenta mesmo, porque o filme tá fazendo muito sucesso.

RARafael Arinelli

Pois é, Nolan que não vê o Twitter porque nem smartphone tem. Olha aí que maravilha, sadio, tá cagando para esse pessoal.

RGRafael Gonzaga

Ele está certíssimo, certíssimo.

RARafael Arinelli

Pois é, é isso aí. Temos aqui também Wesley Fernandes.

RGRafael Gonzaga

Fala, Rafa!

WFWesley Ferreira

Rafa e Rafa, Rafa e Rafa, é isso.

RARafael Arinelli

Hoje vai ser difícil, hein?

WFWesley Ferreira

Muito bom estar de volta para falar desse Nolan sombrio, realista e mitológico agora, né? Também, e satisfação tá de volta. E vamos lá falar bastante, tem muita coisa para falar desse filme. É um acontecimento, né? O filme mais esperado do ano, um dos mais esperados do ano, e justificou, tem justificado tanto em números quanto em outras coisas.

RARafael Arinelli

Exatamente. E já vou de antemão aqui, né, deixar o convite, porque o Wesley fez aí o sacrifício de ir Lê a Odisseia, né? O Wesley fez esse trabalho e ainda fez depois um artigo e mandou esse artigo que tá publicado no Cinemação. Então quem quiser ler esse artigo, né, antes de ver o filme e tal, para pegar um pouco mais ali também, né, da essência da obra original e tudo mais, acho que vale muito a pena, porque tem que ser guerreiro para ler a Odisseia, hein, Wesley?

WFWesley Ferreira

Olha, foi uma saga gigantesca. Não sei porque eu entrei nessa saga. Eu entrei na saga, aí eu falei, já foi, agora não tem volta. Levou aí quase 2 meses pra ler, porque em meio a tanta coisa pra fazer. Mas deu certo, deu tudo certo. Foi uma experiência muito boa poder ler e depois entender até melhor o olhar que o Nolan quis trazer pro filme, né, em comparação com a obra. Na hora que eu fui ver o filme, eu pude perceber bem assim o que é que ele tirou, o que é que ele deixou, o sentido que ele deu a alguns personagens. Foi legal, foi legal. Com sacrifício que valeu a pena.

RARafael Arinelli

Valeu, é, exato, sempre vale, sempre vale a pena.

RGRafael Gonzaga

E poderia ter sido pior, né? Poderia ter levado 10 anos para ler.

WFWesley Ferreira

Pois é, só foram 2 meses, não demorei tanto quanto vocês acham.

RARafael Arinelli

Pois é, não demorou tanto, é isso aí. Muito bem, meus amigos, olha só, estamos aqui reunidos, né, para falar de um filme que não quer ser apenas assistido, ele quer ser vivido em escala máxima. Hoje o assunto é A Odisseia, de Christopher Nolan. Uma obra que chega como evento, como espetáculo técnico, como reinterpretação de um dos maiores mitos da literatura ocidental. E o mais interessante é que o Nolan parece ter encontrado aqui uma obsessão que já vinha atravessando a sua filmografia, que é o retorno para casa, a culpa, o trauma e a pergunta sobre o que sobra de um herói depois da guerra.

Só que agora tudo isso vem em formato épico, com IMAX 70mm, imagem monumental, efeitos práticos e uma vontade quase insolente de provar que o cinema ainda pode ser grandioso sem pedir desculpa por isso. Mas essa grandeza também gera atrito. O filme vem dividindo opiniões justamente porque mistura reverência ao mito com escolhas muito contemporâneas, né, do elenco, as alterações narrativas, passando pelas polêmicas de recepção e pela discussão inevitável sobre adaptação, fidelidade e liberdade criativa.

No fim, A Odisseia parece se colocar como uma pergunta ao próprio cinema: ainda existe espaço para um épico que queira ser colossal, ambicioso e, ao mesmo tempo, profundamente humano? É isso, vamos bater esse papo agora no segundo ato. Desse podcast. Chegava aos cinemas no dia 16 de julho de 2026 o filme A Odisseia, filme aí de Christopher Nolan, né, que é uma adaptação do clássico poema de Homero, que é estrelado pelo Matt Damon, né, como Ulisses e tudo mais.

E o filme chegou no formato IMAX um dia antes do lançamento oficial nos Estados Unidos e no Reino Unido, que aconteceu no dia 17 de julho. No fim de semana de abertura no país, o filme levou cerca de 850 mil espectadores às salas de cinema e arrecadou R$22 milhões, ficando com a 7ª melhor estreia do ano no Brasil. O Nolan escreveu e dirigiu o filme sozinho, produzindo junto com a sua esposa, a Emma Thomas, através da produtora Syncopy.

Entre seus trabalhos mais relevantes como diretor e roteirista, Está justamente o Oppenheimer, de 2023, que levou aí 7 Oscars, incluindo melhor filme e melhor diretor. Tem também A Origem, de 2010, e Interestelar, de 2014. A Odisseia teve um orçamento de produção estimado em 250 milhões de dólares, tornando um dos filmes mais caros da carreira do Nolan. E até o dia 19 de julho de 2026, o filme já havia arrecadado cerca de 264 milhões de dólares mundialmente, chegando ali a 282 milhões de dólares.

Então é um filme que conseguiu já pagar a parte de produção. Se o filme ultrapassar a casa dos 625 milhões, ele passa a dar lucro para o estúdio, e é isso que a produtora tá de olho, né? Em A Odisseia, né, nós vemos ali que após a Guerra de Troia, né, o guerreiro grego Odisseu enfrenta criaturas mitológicas deuses vingativos e provocações sobrenaturais em uma longa jornada de volta para Ítaca, sua cidade natal, onde a sua esposa Penélope e o seu filho Telêmaco residem.

Eles precisam lidar com os pretendentes que querem tomar o trono justamente por conta da ausência de Odisseu. O filme trata-se de um drama, mas o filme tem uma camada muito sóbria assim no horror também, né? Tem alguma coisa ali muito visceral dentro do horror e que funciona muito bem para esse filme, que começa já com uma mensagem falando justamente sobre os elementos fantásticos que ele vai carregar com ele. Tem um lettering logo no começo que já fala sobre isso.

E para lidar com essa parte de fotografia, é óbvio que o Nolan foi atrás do Hoyte van Hoytema, que assina a fotografia. É a sua quinta colaboração, né, ali junto com o Nolan. E ele trabalhou justamente em Interestelar, Dunkirk, Oppenheimer e tal, e levou inclusive melhor fotografia, o Oscar, com Oppenheimer. Então eles são parceiros de longa data. Já na montagem, a gente tem a Jennifer Lame, que é uma colaboradora também frequente do Nolan.

Entre os seus trabalhos aí está justamente Oppenheimer, onde ela também levou o Oscar de melhor montagem, mas ela também esteve em Tenet de 2020 e Histórias de um Casamento de 2019. Já na trilha, a gente tem o Ludwig Göransson, que faz a sua terceira participação aí, terceira parceria com Nolan, cuidando da trilha sonora. Ele também, que tinha trabalhado em Oppenheimer, também levou o Oscar por melhor trilha sonora original. Mas ele esteve também em Pecadores de 2025, que também foi premiado com Oscar, e Pantera Negra de 2018.

Já no figurino, que é uma parte muito importante do filme, afinal de contas estamos falando de um filme de época e tudo mais, nós temos a Eri Mironjenic, que é a figurinista e também parceira do Nolan, trabalhou também em Oppenheimer e esteve também, por exemplo, em Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme de 2010. E na série The Crown. Já no elenco, nós temos que citar aqui que é um elenco estrelar, né, mas a gente pode citar aqui o Matt Damon como Odisseu, né, o rei de Ítaca.

Temos o Tom Holland vivendo aí o Telêmaco, que é o filho do Odisseu, né, e da Penélope. Temos a Anne Hathaway vivendo a Penélope, o Robert Pattinson que faz o Antínoo, um dos pretendentes aí da Penélope, a Lupita Nyong'o vivendo Helena de Troia. A Zendaya, né, como Atena, deusa da sabedoria e tudo mais. A Charlize Theron, né, como a Calipso, uma ninfa da ilha de Ogigia. Temos a Samantha Morton também como a Circe, que é a feiticeira da ilha de Eia.

E também temos que mencionar o Jon Bernthal, que faz o Menelau, que é o rei de Esparta, e o John Leguizamo, que faz o Emeu, que é o servo fiel ali do Odisseu. E tá aqui fantástico nesse papel, vivendo um idoso, né, que tem problemas visuais e tudo mais. Então o filme é muito bom na sua parte de elenco e nossa equipe técnica, né. E vamos lá, gente, pra gente começar aqui esse papo sobre A Odisseia, eu queria abrir, né, com uma provocação aqui pra vocês.

Porque assim, Christopher Nolan pegou lá um poema de quase 3 mil anos gastou 250 milhões de dólares, filmou tudo isso, né, inteiramente em câmera IMAX de 70mm, a primeira ficção da história, né, a fazer isso, e criou o que críticos já estão chamando de evento cultural de 2026. Antes da gente entrar, obviamente, né, no filme e tudo mais, nos detalhes do filme, eu queria saber se vocês sentiram que estavam assistindo um filme com tudo isso, né, que ele prometeu, ou vivenciando, né, algo maior assim?

Queria saber como que foi a recepção de vocês olhando para esse filme, estando ali no cinema e olhando para ele assim. Vocês sentiram esse impacto colossal que o Nolan imprimiu aqui em A Odisseia?

WFWesley Ferreira

Eu, em cada centavo desses 250 milhões, estão na tela. Valeu assim cada centavo. E o filme, ele é gigantesco, ele é colossal, ele tem uma escala de produção absurda, como Nolan sempre faz. E ele, o filme, ele te impacta de várias formas. Assim, você, eu vi numa sala dessas, não consegui ver no IMAX, não, porque em Salvador o IMAX já tá todo lotado. Mas eu vi numa sala, né, dessas mais caras aí, especiais, que eles colocam aí, tinha um som legal.

E o som é absurdo, o som do filme é algo surreal assim. O filme é tecnicamente incrível e os efeitos nem se fala. A lógica, utilizar efeito prático. Eu fiquei pensando enquanto eu assistia e depois mais ainda, como assim é tão impactante a gente ver um filme que é tão bem apurado tecnicamente, sabe? Os efeitos funcionam, que a coisa é muito bem pensada. Avançada. Você sente não só o trabalho, mas sentiu o peso das cenas com muito mais propriedade por conta das escolhas técnicas que ele faz.

E tá assim, tá tudo lá na tela, assim, tá tudo perfeito lá na tela, tudo, tudo que envolve CGI, o que envolve efeito prático, tudo tá lá.

RGRafael Gonzaga

Eu consegui assistir o filme IMAX e assim foi a experiência, eu achei. Você consegue sentir a textura daquele universo na tela, você consegue imaginar ali dentro daquela situação com aqueles personagens. É tudo muito, muito rico, os detalhes, sabe? É um filme assim que não dá vontade, você não sente a hora passar porque é tudo muito bem arquitetado, é tudo, a montagem eu achei muito boa, as atuações eu acho que nem teve ninguém do elenco que ficou devendo.

E é isso, eu acho que uma das grandes das grandes qualidades do Nolan é fazer uma adaptação genial desse tipo, que traz um texto complexo e dá uma linguagem acessível de blockbuster moderno, e ao mesmo tempo que ele respeita as bases do que é original, acrescentando uma outra camada e sempre conversando diretamente com o estilo dele. Ele não abre a mão, ele não abre mão de suas convenções. Então acho que isso é muito legal.

RARafael Arinelli

Eu acho interessante até, né, para as pessoas entenderem, porque assim, quando a gente fala do Nolan e fala de IMAX, assim, a gente tá falando de uma parceria criativa, né, de já faz tempo que isso acontece. Ele não usa esse formato só como um efeito, né, de sala grande e tal, mas como parte central justamente da linguagem, né, dos filmes dele e tal. Lá desde quando ele fez Batman: O Cavaleiro das Trevas, que foi em 2008, ele vem empurrando o IMAX para o cinema de grande ficção, usando essas câmeras gigantes e tal, né, em vários filmes, em cenas justamente pensadas especificamente para explorar essa imagem mais detalhada, a imersão e tudo mais.

Então assim, isso já é uma coisa que vem acompanhando o Nolan há muito tempo. O Nolan tem ajudado, né, a transformar o IMAX de tecnologia de exibição em linguagem de cinema, assim, isso é evidente para quem conhece a filmografia do Nolan. Mas para além disso, para as pessoas entenderem, porque tem gente que pode falar assim, ah, na minha cidade não tem cinema IMAX, por exemplo, ou, né, o que que eu estou perdendo, qual que é a diferença e tal.

Então assim, quando a gente fala de IMAX de 70mm, né, é quase como comparar uma câmera profissional gigante com o celular que a gente usa todo dia. É basicamente essa comparação assim. No cinema, entre aspas, normal assim, né, o filme geralmente ele é gravado numa película de 35mm, ou então, né, direto com sensores digitais e tudo mais. O mesmo tipo de tecnologia que está por trás justamente da maioria dos filmes que a gente vê no streaming ou na sala de cinema e tal.

Já o IMAX de 70mm, ele usa uma película física, né, que é bem mais larga assim. E o pulo do gato é que essa película ela roda de lado dentro da câmera, então cada quadro fica gigante dentro da câmera, cerca de 10 vezes maior do que um quadro de 35mm. E quanto maior essa área de captura, mais detalhe, mais luz, mais nitidez, né, a câmera consegue guardar. Então a imagem final sai muito mais rica, Quase como se você trocasse ali uma foto tirada de celular por uma foto tirada com uma câmera profissional enorme e tudo mais.

E isso se reflete justamente direto na tela do cinema, né? Porque as salas verdadeiramente de IMAX, 70mm e tal, ela tem uma tela gigante e ela é curva. Esse tamanho, né, é de cerca ali de 16 metros de altura por 22 de largura, que é bem maior do que uma tela reta comum de 12 por 20 metros. Então esse formato de imagem, ele muda de proporção e a gente consegue ser imerso, a gente consegue entrar dentro do filme quase assim. Tanto que esse filme especificamente tem relatos de pessoas que estão indo para o cinema e estão saindo nauseadas nas cenas do barco, porque como a câmera tá ali, né, acompanhando no barco e tal, e a tela é muito maior, a pessoa que tá indo assistir em IMAX e tal tem uma sensação de nauseamento assim. Isso é muito doido de acontecer.

WFWesley Ferreira

E assim, é absurdo, além dos números que você tá falando, a sensação ela é, ela te passa tudo isso, né? Como eu te falei, eu não vi numa sala IMAX, mas o impacto de cada cena de ação, o impacto de tudo que acontecia assim era muito real. Assim é uma coisa, ele tem essa coisa de pensar nos detalhes técnicos, pouquíssimos diretores têm, né? Porque o Nolan é meio chato, então ele tem uns haters dele, né? Então ele é chato. Eu tava até conversando com um amigo outro dia dizendo assim, é, o pessoal hoje já não gosta mais muito celebridade chata.

Celebridade, além de celebridade, ela tem que ser legal. O Lula sofre um pouco com isso porque ele não é legal, ele é o cara chato. Então assim, mas ele tem uma coisa ambiciosa tal qual James Cameron tem, cada um do seu lado. Mas assim, eles são muito parecidos nesse sentido. Se eles não chegam, não levam uma obra ao cinema sem pensar em tudo isso aí que você falou, toda essa parte técnica, todo esse apuro todo o cuidado de fazer uma obra em que na construção da obra toda essa parte técnica também tá pensada, é para fazer parte, para levar uma imersão e que dialogue de forma muito perfeita. Então é um absurdo, é um absurdo, um absurdo que o Lohan faz.

RARafael Arinelli

Exatamente.

RGRafael Gonzaga

Eu, como alguém que sofre de talassofobia, né, que é a fobia específica de corpos de água profundos, Dava uma sensação muito de pânico, de pavor, eu não sei como explicar. É mesmo? É, mas no meu caso é que eu tenho já, eu tenho muito medo de mar. Então assim, ver aquilo naquela proporção tomando conta da sala é uma situação assim que dá até uma falta de ar. Você fica se sentindo até desconfortável. Eu acho que a última vez que eu me senti dessa forma foi em Avatar: O Caminho da Água, né, que foi o segundo filme do Avatar.

Que eu senti, eu tive esse mesmo sentimento, porque é uma coisa muito imponente, é muito grande a escala do filme. Então você se sente assim meio que oprimido ali, de certa forma, na sala, vendo aquela tela daquele tamanho.

RARafael Arinelli

E é muito doido, né, porque o Nolan, ele optou por gravar as sequências marítimas justamente em mar aberto, assim, para justamente capturar, né, o esforço físico o risco real dos atores ali e tal. A equipe, o elenco, né, passaram meses em embarcações enfrentando ali o oceano turbulento e tal. E o resultado foi justamente que alguns membros da equipe chegaram a vomitar no mar, né, entre uma tomada e outra ali e tal. E aí é legal, porque quando você vê que alguns espectadores relatam, como você falou, né, Rafa, que tem essa imersividade com as imagens em IMAX de 70mm e tal, é tão intenso que pode causar justamente esse leve enjoo marítimo assim.

É impressionante como você é levado justamente, né, para dentro do filme, como isso funciona no sentido de imersão mesmo. Você tá ali assistindo e de repente você faz parte daquela tripulação. E isso para uma obra, independente dela ser boa o ruim, já é uma vitória, porque tecnicamente ela quase te coloca lá como fisicamente, né? Isso é muito legal de ver, realmente.

RGRafael Gonzaga

A sensação que eu tinha enquanto assistia o filme e após assisti-lo é que aquela jornada foi um terror você passar por aquilo. É um pânico você ficar aquele tempo todo no mar, além de tudo que o Odisseu enfrenta na jornada dele. A viagem em si é de total pavor, né? Eu acho que o Nolan pegou toda a fantasia dessa história e ele adapta pros cinemas como um filme de terror. E eu acho que é aí que o filme me ganha muito. Eu, como fã de filmes de terror, eu me senti assim totalmente, como eu disse já, oprimido ali naquela situação. E eu falei, nossa, é algo colossal que fica até difícil colocar em palavras.

RARafael Arinelli

Essa questão do terror, né, que o Rafa bem falou aqui, é uma das coisas que encantam no filme, assim, como ele consegue trazer elementos de outros gêneros e tal para calibrar cada vez mais ali a história e tal. Agora, tem uma leitura interessante que diz que o Nolan sempre esteve fazendo a Odisseia, de um jeito ou de outro. Porque lá em Interestelar a gente tem um pai que fica tentando voltar para casa através do espaço e tal.

Em A Origem a gente tem um protagonista que busca a família através dos sonhos e tudo mais. E o conceito grego de nostos, que é esse retorno ao lar, parece ser a obsessão secreta da carreira dele. Aqui a gente tem novamente a história de um herói que precisa voltar para casa, mas dessa vez ele vem carregado de traumas e problemas pós-traumáticos, depois de de tanta guerra, de tanta coisa que ele viu. E aí assim, e é uma das linhas, né, de que a gente pode observar assim.

Vocês concordam que esse é um tema que o Nolan gosta de explorar assim? E vocês acham que sim, esse olhar dele se encaixa com o filme, que com que o filme pede?

WFWesley Ferreira

Aí eu acho que encaixa bastante. Eu acho que ele gosta muito disso, né? Ele gosta também figuras megalomaníacas, né, assim, né. Já tinha visto o Oppenheimer, que é uma pessoa que também quando ele passa dos limites ele já foi, ele já tinha criado a bomba atômica. A mesma coisa na Origem, o protagonista vai entrando no sonho, no sonho, no sonho, e também não conhece os limites. E o Odisseu, ele escolhe também essa narrativa para falar de limites que são ultrapassados, e é esse retorno para o eixo, né, a tentativa do personagem retornar para o eixo do limite para reconquistar o que ele deixou para trás ao longo desse processo mesmo de expansão do personagem, de crescimento, e de não perceber os limites, né, da coisa toda.

No caso da Odisseia, o Odisseu, ele foi para a Guerra de Troia, e durante a Guerra de Troia— e aí eu achei uma sacada legal, de novo, ele muda isso em relação à obra original, mas eu achei legal a sacada dele de falar sobre a guerra, né. A Odisseia em em si ela não fala praticamente da Guerra de Troia, ela é citada vagamente. Só que Nolan queria criar uma ponte com a Guerra de Troia, até porque se ele fosse seguir demais a obra, ele iria acabar falando muito demais de deuses mitológicos do que da Guerra de Troia em si, e ele não queria falar sobre isso.

Mas quando ele vai falar, justo quando ele escolhe falar sobre a Guerra de Troia, é justamente para falar desses limites, né, dessa coisa que é você passa do seu limite, depois você precisa retornar Então, o Odisseu do Nolan no filme, ele é isso, ele vai pra Guerra de Troia, excessos são cometidos, né? Tem a questão dos deuses que não são respeitados, os sacrifícios não são feitos, pessoas, né, que acabam morrendo de forma desnecessária, digamos assim, principalmente por parte dos soldados dele, né?

E ele tenta não só retornar, mas no filme ele também quer manter a unidade, né, do exército dele o máximo possível pra voltar com o máximo de gente pra Ítaca. Então é muito isso, o Nolan gosta dessa narrativa, ele faz muito bem, ele fez muito bem Interestelar, ele fez muito bem Na Origem, fez muito bem no Oppenheimer e faz de novo agora muito bem com a narrativa que ele escolheu para Odisseu, com esse perfil, né? Não só Odisseu, como todo mundo.

Tanto é que lá no final do filme ele fala sobre ter uma— Odisseu olhando meio perdido, né? Aparece o Cavalo de Troia lá no final em chamas e ele falando um pouco sobre sobre como a guerra é complicada, mas essa também não é a última guerra. Novas guerras infelizmente vão continuar acontecendo. E isso achei extremamente positivo do novo, ele se posicionar também no momento em que a gente vive, se posicionar antiguerra. No final das contas, ele justificou utilizar tanto a Guerra de Troia com a cena lá do final do filme.

RGRafael Gonzaga

Eu acho que vamos falar de Oppenheimer, que foi o último filme dele, né? Ambos Tanto Oppenheimer quanto A Odisseia são filmes sobre homens em posições de poder lidando com as consequências de suas decisões em guerra, né? Eles venceram a batalha, mas devastaram a humanidade no processo. E essa escolha do Nolan de não fazer um filme sobre o lendário rei que derrotou Troia, mas sobre esse homem que precisou conviver com as consequências dessa vitória, é uma distinção assim muito boa, né?

Que orienta praticamente todas as escolhas criativas no filme. Eu acho isso muito interessante porque dessa forma ele permite que a narrativa conduza o espectador pelas memórias fragmentadas do Odisseu, pelo esgotamento do personagem e sobretudo pela culpa que ele carrega.

RARafael Arinelli

Eu acho muito interessante isso mesmo e tem uma coisa que também eu queria saber a opinião de vocês, porque quando a gente pega o Oppenheimer, por exemplo, que é um filme Né, que assim, aliás, todos os filmes do Nolan, né, quando você para para pegar, uma das coisas que as pessoas costumam falar é justamente da obsessão dele pela parte técnica, por às vezes ele ser até meio burocrático assim. Eu aqui no podcast já falei, putz, às vezes tem uns filmes do Nolan que parece que ele quer que eu faça uma pós-graduação em física para eu entender como é que funciona A bomba atômica e tal.

E aqui a gente vai para uma ficção assim, né? Quer dizer, ele muda de rota dentro da filmografia dele. E é óbvio que quando a gente começa a olhar para o conto, né? Se a gente for lá olhar para o poema e tal, você adaptar um poema de quase 3.000 anos não é fácil. E o Nolan, ele faz várias mudanças bem curiosas assim, para deixar a história com a cara dele, né, e também acessível hoje em dia. E isso é uma parada que eu acho que funciona assim, você modernizar algumas coisas, sabe?

Porque eu não sei se vocês acompanharam, mas teve muita encheção de saco com, né, algumas adaptações que o Nolan começou a fazer, algumas notícias que começaram a sair e preconceitos e tudo mais. E assim, a gente tá falando da visão de um diretor pra uma obra, né? Lógico, a gente vai falar um pouco sobre essas questões, mas o Nolan mesmo, né, ele chegou a comentar, ele sentia que tinha um vácuo cultural, que ninguém tinha tentado uma adaptação nessa escala hollywoodiana, né, desse texto que é tão fundamental pra civilização ocidental em décadas, né?

E essa é uma afirmação de alguém que quer ser ousado, assim. Vocês acham que para além da parte técnica ele conseguiu ser ousado nessa adaptação? E por que que, por que que não existia uma adaptação de A Odisseia assim? O que que vocês veem de dificuldade em adaptar uma história desse tipo? A história é complicadíssima de adaptar, disse o cara que demorou 2 meses para ler.

RGRafael Gonzaga

Deixa eu te falar, só 2 meses, não é bom focar nisso.

WFWesley Ferreira

Aparecendo o livro 200 páginas depois, você faz 200 páginas vendo lá os pré-tendentes, querendo saber do pai, pá pá pá, viagem daqui, viagem dali. Então assim, é um texto muito difícil, é a estrutura do texto, ele é muito, ele é maravilhoso assim, ele é ou se você, se você for parar para pensar ainda que é um texto de 3000 anos atrás, é mais genial ainda, sabe? E você adaptar é muito complicado, porque você, você pega o personagem que só vai aparecer lá quase na metade do livro, e aí você, e ele para numa ilha que no filme ele para com a Calipso, né, e começa a contar as histórias, a história do que tinha acontecido com ele, né.

No livro ele para numa outra ilha, não é com Calipso, ele conta nessa ilha o que foi que aconteceu com Calipso e as outras histórias todas. E assim, é um cara que sempre começa a contar história. Então eu fiquei pensando assim, velho, como é que você vai adaptar isso, sabe? É muito complicado você arranjar uma forma de narrar essa história que também seja atraente para o contexto que a gente viu, porque tem todo um bastidor que acontece na Odisseia que não é mostrado na tela.

Que no final das contas, quem decide o destino do Odisseu e de todos os personagens e tal são os deuses. É Zeus que vai dizer, Atenas vai lá, vai chegar para deus e vai dizer, ah, vai, quero libertar o Odisseu porque ele lutou na Guerra de Troia, vai argumentar tal, tal, tal. Aí vai lá e vai, Poseidon não quer que libere porque tá irritado porque ele mata um fiel dele. Então assim, toda essa parte de bastidores assim, o Olimpo, isso, isso era muito difícil de adaptar, ao mesmo tempo que tem essa história poderosa.

Então assim, por isso que se leva tanto tempo pra, pra você conseguir adaptar. E eu acho que nisso o Lula foi muito feliz. Eu não vou, não consigo nem criticar as mudanças que ele fez, as coisas que ele cortou, os novos sentidos que ele deu, né, para trama. Porque assim, ele fez um trabalho que é absurdo, é absurdo a forma como ele pega para adaptar uma obra que é complexa por todos esses sentidos. Imagina se ele vai ter que explicar, por exemplo, os bastidores do Olímpico cinematograficamente.

Como é que você vai simplesmente, sei lá, separa narrativa e dizer assim, não, pera aí, agora vamos lá no Olímpico que Zeus vai conversar e dizer o que vai acontecer e tal e tal e tal. E assim, é uma realização maravilhosa, sabe? Eu achei no artigo, até coloquei isso, eu achei que ele iria abordar mais o drama, sabe? Porque o que permeia toda a Odisseia, né, do livro, é o drama dele, a vontade dele, tá o tempo todo querendo voltar para casa e não pode.

Ele sempre tem uma divindade que aparece e atrapalha ele de voltar para casa, justamente porque ele tá sujeito a isso. Então a angústia dele é que permeia todo o filme. E aqui não, aqui o Nolan conseguiu dar essa adaptada, apesar de ter tido os probleminhas que Nolan sempre tem, né? A Penélope do Nolan é um problema. Penélope do Nolan é problemática. Não sei se a gente vai chegar na hora, mas é problemática. As mulheres do Nolan são problemáticas.

RARafael Arinelli

Era isso que eu ia falar, é o Nolan sempre teve problema com personagens femininas assim, impressionante.

WFWesley Ferreira

E você pega a Helena, por exemplo, você coloca a Helena lá, que é uma personagem principal, você tá falando o tempo todo da Guerra de Troia, a Helena aparece ali, vai, vai, vem, aparece, some. Se você souber sobre quem é Helena, tudo bem, senão acabou. Mas apesar de tudo isso, é uma realização que tinha um grau de dificuldade absurdo de se fazer. E é uma coisa que assim, a gente não pode contestar do Noah, é que ele não tem medo de se arriscar, vai fazer a obra dele, ele vai lá, vai se arriscar E vai tentar fazer da forma mais mirabolante que ele possa e mais aprofundada e com maior qualidade, ele vai tentar fazer.

Então isso para mim é um acerto. Então a dificuldade passava muito por isso, né, de ter coragem de um estúdio querer investir. Qual estúdio quer chamar o diretor para dizer: não, toma aqui R$250 milhões e faz lá uma odisseia, vê que história você consegue contar? Então eu acho que no contexto atual do cinema, inclusive, só o Nolan ia conseguir convencer o estúdio a pegar 250 milhões e dá pra fazer uma adaptação da Odisseia.

RGRafael Gonzaga

Eu acho fascinante como ele decidiu adaptar a Odisseia sem abandonar as convicções dele como cineasta, mesmo quando o mundo parecia estar contra essas escolhas, né? Porque desde que foi anunciado que ele faria a Odisseia, começou um Deus nos acuda, uma guerra na internet de muita gente criticando, muita gente abraçando a ideia. E uma das grandes belezas de de poder dar a nossa própria interpretação às coisas é justamente a liberdade de reimaginá-las da nossa maneira, a partir de tudo que somos, do que vivemos, da bagagem que a gente carrega.

Nenhuma grande obra permanece viva apenas porque foi escrita ou criada. Ela permanece porque de tempos em tempos alguém enxerga por um novo ângulo e encontra nela novos significados. E eu acho que o Nolan trazer Homero de volta ao centro da cultura popular através de uma adaptação dessa envergadura, só isso já faz o projeto valer a pena.

RARafael Arinelli

Exato.

WFWesley Ferreira

O Rafa tocou no ponto que é central. O Nolan trazer uma literatura de Homero para o momento atual do cinema é um feito fantástico, literalmente, porque a gente vê que Hollywood tá meio que Sabe, sem saber para onde vai, nenhum que vai fazer. Então você trazer um épico, há muito tempo que a gente não viu, é verdade, nessa magnitude sendo feito, né?

RGRafael Gonzaga

Assim, eu acho que a última vez que a gente viu um tipo de filme assim, que não tem a ver com Homero, né, não é dessa qualidade, mas acho que a última vez que a gente viu um filme assim com esse grau de investimento por um grande estúdio foi Fúria de Titãs, né, se eu não me engano. Teve dois filmes pela Warner ali dos anos 2010, acho que depois 2012, né? Assim, não chega— o que eu quero dizer, não tô comparando com a Odisseia, não acho que são histórias que estão em pé de igualdade, mas fazia muito tempo que a gente não via um tipo de história assim na tela do cinema.

RARafael Arinelli

Uma modernização, né, de uma história que é uma história central na cultura ocidental, realmente, né, uma história que assim incentivou, né, a importância de A Odisseia para a cultura e tudo mais. Ela é fortíssima no sentido justamente de ajudar a gente a estruturar as histórias, né, e como contar e trazer o lúdico e tudo mais. Então a Odisseia tem um papel importante culturalmente assim. E aí o Nolan pegar uma obra dessa e ele adaptar e trazer com uma linguagem mais moderna e tal, ele acaba preenchendo um buraco enorme que existia justamente na cultura pop atual assim.

Porque é isso, a gente não tem, não teve mais grandes épicos nesse sentido assim. E o que é doido é que apesar de A Odisseia ser base de quase todas as histórias que a gente conhece, Hollywood não fazia uma adaptação desse tamanho há décadas realmente, né? E o Nolan ele percebe isso, pega esse vácuo na cultura aí e aí ele vai lá e adapta e faz isso para essa, para uma nova geração, né, que talvez nunca tivesse tido contato real com esse texto fundamental da nossa civilização.

E ele serviu como uma porta de entrada realmente para muita gente que, né, que começa a conhecer Homero pela primeira vez e tal. Então isso é realmente importantíssimo. E aí, junto com isso, a gente pode ver também que em tempos de streaming, né, de filmes feitos aí para ver no celular, por exemplo, o Nolan ele quis provar que o cinema ele ainda pode ser esse evento monumental, né? Porque ele não usa as telas verdes, né? Ele constrói os barcos, ele constrói o Cavalo de Troia, né?

O cavalo de 10 metros, gigantesco e tal, e vai lá e filma tudo nesse IMAX de 70mm e tal. Pela primeira vez na história da ficção ele faz isso. E aí ele força as pessoas a saírem de casa para ter essa experiência que você simplesmente não consegue ter no sofá assim. E então a gente tá vendo ali um cinema puro na sua essência assim. Eu acho que isso é realmente impactante, né, para nossa cultura agora assim, né. E lógico, Wesley pode falar muito melhor do que eu que o Ezra, ele leu, né, justamente a Odisseia e tal.

Mas tem várias coisas que ele faz umas adaptações em relação ao poema, né, e tal, que eu acho que fica assim, que dá para a gente observar aqui. Por exemplo, uma das coisas é justamente a questão dos deuses. Assim, no poema, os deuses gregos, eles aparecem o tempo todo, né, eles conversam, eles dão ordem, Eles brigam, tem isso que o Wesley falou desses bastidores do Olimpo e tal.

WFWesley Ferreira

É assim, é assim, Rafa, é tipo, é porque a mitologia grega como um todo, para não ficar aqui na palestrinha de história, é a mitologia grega como um todo, os deuses da mitologia grega, eles são, eles eram vistos pelos gregos com características humanas exageradas. Então, ou ele era muito irritado, ou Deus é muito, sabe, voluntarioso, é tudo muito em excesso. Então acaba que para o Nolan tirar isso do filme foi interessante, mas lá para quando Homero escreveu, isso fazia todo sentido dentro daquela sociedade, né?

Porque a natureza dos deuses era muito respeitada, né? Então todo mundo sabia exatamente as características de cada divindade daquela cultura, sabe? Que Poseidon é conhecido como o deus furioso dos mares, né? Então uma divindade que se irrita com muita facilidade, que furioso ele quer derrubar todos os barcos, afundar tudo e destruir tudo, sabe? E então assim, tem tudo isso. É Calipso, né, onde o Odisseu fica. Na verdade, ele fica preso.

Ela é chamada de Calipso, a ninfa, é assim que ela é chamada. E além dele ficar preso lá, ele, ela escolhe ele para casar. Ele fica preso. Ele não esqueceu, ele não perdeu a memória da casa dele. Ele quer voltar, mas só que ele precisa se sujeitar, que ele não consegue sair da Ilha da Deusa. E ela entende que se ele se relacionasse e eles continuassem ali, ele iria se apaixonar por ela. E quando Zeus manda libertar ele, né, que Hermes vai lá pedir para libertar, ela argumenta dizendo: ah, vocês podem se relacionar com os outros humanos, eu não posso eu, meu, para mim relacionar.

Então essa foi uma mudança que ele fez, porque no filme ficou uma coisa mais suavizada. Mas na obra de Homero é basicamente isso aí, são os deuses com sentimentos humanos extremamente aflorados o tempo todo.

RARafael Arinelli

Não, e ele meio que concentra tipo a ilha, né, esse lance da flor de lótus e tal, ele concentra tudo isso na Charlize Theron, né, tipo em uma personagem só. Então, porque no poema são São coisas diferentes ali, né? Você tem a ninfa, né, a Calipso, você tem o lance do truque da flor de lótus, que é outra coisa e tal, que é da ilha. Então são coisas diferentes, é que ele meio que deixa tudo nela assim, né? Então assim, é lógico, a gente vai ter várias adaptações, é um filme, né, de quase 3 horas de duração e tudo mais, e faz parte, né?

Óbvio, faz parte a visão dele sobre essa obra. E tá feita e filmada desse jeito porque ele achou que era dessa maneira, ia ser melhor de ser contado. E isso me leva a um outro ponto que daí eu ia falar com vocês também, que é justamente esses problemas que o filme teve antes, durante, depois, né, do seu lançamento. Porque se você der uma passadinha ali pelas redes sociais, por fóruns, né, de cinema e tal, nos últimos meses, você vai ver um um clima pesado, né, de gente reclamando.

E tem um lance meio de guerra cultural ali também, principalmente trazendo essa galera de extrema-direita e tal, e os mais puristas, né, assim, que reclamaram de algumas escolhas assim. Então, por exemplo, uma das polêmicas que teve foi, né, uma gritaria ali quando anunciaram que a Lupita Nyong'o, que é uma mulher negra, ela seria Helena de Troia. E aí figuras como Elon Musk, por exemplo, e o comentarista Matt Walsh, eles foram pra internet pra dizer que o Nolan tava destruindo a civilização ocidental e se rendendo à cultura woke e tal.

O Musk chegou a dizer que o diretor tava mijando lá no túmulo de Homero e tal. Umas coisas assim que eram um show de churume, né? E isso por si só já é um absurdo, né? Porque a gente tá falando de uma figura mitológica, né? Não é uma pessoa histórica, tipo, a gente tá falando de uma mitologia. Só isso já é um absurdo.

WFWesley Ferreira

E assim, Rafa, tem um detalhe nisso tudo, né? Que historicamente não se sabe nem se Homero existiu.

RARafael Arinelli

Pois é, pois é.

WFWesley Ferreira

Fala sobre o debate histórico, né? Eu peguei um material de história para ler antes e fala justamente sobre isso, como um debate historiográfico. Isso assim, Homero existiu, não existiu? Há quem diga que um grupo de pessoas ao longo de diferentes momentos escreveu a obra e usou o pseudônimo de Homero. Tem quem acredite nisso, porque seria impossível alguém escrever assim durante tanto tempo. Por outro lado, a escrita é tão perfeita que ninguém imagina que não tenha sido uma pessoa pessoa só que escreveu, mas é um debate.

Então assim, a galera tá querendo, a galera quer destilar o preconceito e fala assim, sem, de uma coisa que não tem o menor sentido, um autor que nem sabe se existiu. Aí você quer falar do personagem de um autor cuja existência é discutível, inclusive.

RGRafael Gonzaga

Então eu acho que as pessoas encontraram uma forma, né, de expor seus preconceitos. Algo terrível, porque hoje em dia é assim, qualquer brecha que tem. Eles não têm mais vergonha de fazerem isso na internet. E para mim, ó, eu acho que é de aplaudir de pé a maneira como o Nolan fez esses haters de palhaços, porque ele nunca veio a público desmentir nada disso, né, desses rumores, dessas fake news que o LH Page seria o Aquiles. Que para mim também acho que é muito lindo, emocionante ver o LH Page que é um homem trans, abrir esse filme e sendo apresentado como o homem mais jovem e corajoso que Odisseu já conheceu.

Essa, tipo, é só a cena de abertura do filme, eu já tava todo arrepiado porque é de um peso simbólico tão bonito, me deixou tão emocionado.

RARafael Arinelli

É verdade.

RGRafael Gonzaga

E até agora eu não consegui superar essa cena de tão bonito que foi.

RARafael Arinelli

É verdade, é verdade. É, teve esse, isso, mas eu acho que isso É porque por isso que eu acho que é importante da gente mencionar, né, justamente porque, cara, é tão absurdo assim. A gente tá falando de uma obra, sabe, ficcional e tal, que faz sentido assim as pessoas ficarem entrando numa discussão que é isso, é uma, acaba sendo uma discussão muito mais voltada para os próprios preconceitos, né, do que propriamente alguma discussão sobre o filme em si e tal.

WFWesley Ferreira

Então realmente é bem absurdo, porque as pessoas são preconceituosas e elas vão buscar qualquer brecha que elas possam ter para deixar lá o preconceito. Vão chegar, vai ser com filme, vai ser com um game, vai ser com a série, vai ser a estreia. Eu acho que esse ano tem Anéis de Poder. Esse ano, se tiver Anéis de Poder, vai ser a mesma história de novo, tá? Enfim, não sei o quê e tal, tal. Então assim, vai, é um círculo infinito.

Então é o Lula, a cena de abertura, como o Rafa falou, é maravilhosa com a Eliott. Enfim, então vamos, vamos para frente e seguir, né, enfrentando tudo isso.

RGRafael Gonzaga

Imagina dizer que a Lupita Nyong'o é feia, que não é a mulher mais linda do mundo. Ela é maravilhosa, maravilhosa, uma atriz daquele que late, sabe? Nossa, que paixão! Que era apaixonante. E ela tá linda no filme, né, como duas pessoas. Ela faz duas personagens e assim, maravilhosa. E eu concordo com Wesley, eu acho que ela teve pouco tempo de tela. Por mim assim, tinha que ter mais Helena o máximo possível, porque eu fiquei encantado por ela nesse filme.

Eu já acompanho o trabalho dela faz tempo, desde 12 Anos de Escravidão. Gosto muito dela no terror do Jordan Peele, o Us. E assim, Gente, falar que a Lupita Nyong'o não é linda é de uma heresia tremenda. Aquela mulher é maravilhosa.

RARafael Arinelli

Total, total. É, e aí tem uma outra coisa também, né, da questão da adaptação e tal, que eu queria saber também como que vocês viram. Porque a gente tem o personagem principal, né, o Odisseu, do Matt Damon, que é o, enfim, o fio condutor, né, de tudo que a gente que ele tá vendo ali e tal. Também houve algumas reclamações porque durante, quando você vai ler a Odisseia, o Odisseu ele é bem descrito como esse cara que é um cara astuto, inteligente, estratégico, né, um cara que consegue lidar com as situações ali e tal.

E aqui na Odisseia do Nolan a gente tem um cara que não tem essa malandragem no bom sentido assim, né, ele Ele é sim inteligente, ele é hábil, né, e tal, mas a gente vê também um lado dele de um homem exausto, né, e assombrado acima de tudo ali, né. Então o Nolan, ele foca muito mais no custo humano da guerra, e a gente vê justamente que o cara ter passado 10 anos, né, vendo gente morrer, depois, né, perceber que a sua grande ideia, ideia genial, que é o Cavalo de Troia, foi na verdade um ato de barbárie, né, destruiu a sua alma e tal.

Então no filme o Odisseu ele carrega esse remorso, assim, uma coisa pesada que a gente vai vendo pela história, né, conforme ele tem essa vai e volta ali na linha temporal, né, do filme. A gente vai vendo como ele foi ficando cada vez mais, ele tem um remorso, ele tem uma tristeza e tal. Ele tem ainda assim uma autoconfiança Mas ele carrega esse peso. E aí existia crítica nesses dois campos assim. Primeiro desse retrato de um Odisseu mais cansado, assombrado ali, traumatizado e tudo mais.

E por um outro lado, justamente a Penélope, que no livro, né, no poema ali, você tem uma Penélope que é tão astuta quanto o aconteceu assim. E aqui houve uma crítica porque ela acaba sendo reduzida a uma rainha que tá ali esperando, né, o rei chegar e tudo mais. E ela meio que fica reduzida a isso, mas ela tinha toda uma artimanha também, uma inteligência política sobretudo, para lidar com esses pretendentes e conseguir ir enrolando ali para que o Odisseu efetivamente voltasse, né? Como é que vocês veem esses dois personagens, Odisseu e Penélope?

WFWesley Ferreira

O Odisseu é porque assim, no livro realmente ele é um cara astuto, mas ele também é um cara muito cansado. Então são duas vertentes dele que são muito fortes no livro. Esse aí, um para mim é um acerto e o outro foi um erro de novo. Meu Odisseu foi o acerto de escolher o cara cansado, cara cansado, arrependido, que só quer voltar para casa, né? O trabalhador 18 horas no metrô só quer chegar em casa. Então ele faz uma escolha aforar esse lado, né?

Ele só utiliza ali na parte da Circe, né, da bruxa lá, quando ele chega, que ele percebe que tem alguma coisa estranha com os animais e tal. E aí é o único momento em que se ressalta mais esse Odisseu mais astuto. Então eu acho que é uma escolha narrativa extremamente acertada. O caso da Penélope é vergonhoso assim, não dá cabo. Eu fico assim, parece que Nolan ele não sabe o que fazer. A personagem feminina tá lá, ele precisa desenvolver, mas ele simplesmente não sabe o que fazer.

Aí ela fica chorando, ela passa 3 horas chorando no filme, e como se ela ficasse sujeita o tempo todo. E no livro não, no livro ela passa o tempo todo buscando meios de esperar lá e enfrenta os pretendentes, e ela tenta os seus momentos ali de se impor também diante deles e tal. E no filme isso fica, isso quase não existe, ela fica lá parada. E enfim, definitivamente o Lula não sabia direito o que fazer com a personagem. E para mim, é da crítica, né, que tem que ter ao filme, da minha parte pelo menos é essa, eu acho desenvolvimento da Penélope assim em qualquer coisa da parte do Lula, né?

Ele não aprofunda nada e ela vira só a mulher que fica esperando o marido chegar, voltar da guerra. Basicamente isso.

RGRafael Gonzaga

É, produziu, a gente tem essa história, né, do herói quebrado em busca de reconquistar a honra, a glória, mas fazer isso de uma forma diferente e reconhecer o mundo pela sua beleza, pela vida, e como isso pode gerar um mundo melhor. Depois de tudo que ele passou e as consequências da criação dele. E para Penélope é igual o Wesley falou, concordo com ele. Eu não li o livro, mas eu sinto que é uma personagem que é deixada de lado por muito tempo na história.

E por mais que o filme mencione ali, né, que ela tava, como fala, ela tava tecendo uma grande peça de tecido grande, que ela fica tecendo Aí toda noite ela vai e desfaz, né, para no dia seguinte começar a fazer. Esse é um pequeno resquício que o filme mostra para gente, como ela é inteligente, tá trabalhando. Mas assim, não vai além disso, né, não tem um aprofundamento, não tem um embate dela com os pretendentes ali, que seria maravilhoso, porque a Anne Hathaway vem sendo bastante elogiada pela atuação dela no filme.

O que eu acho que inclusive pode até render uma indicação para ela ao Oscar. Posso estar precipitado, enganado, mas eu acho que pode vir a acontecer. Mas assim, a gente poderia ver muito mais, né? Sim, porque as mulheres desse filme, como eu falei, a Lupita Nyong'o, a Anne Hathaway, a Samantha Morton, a própria Zendaya, né, Rafa? Também que é muito pouco tempo de tela, mas assim, tem uma importância, uma é tão significativo para a história que esses personagens poderia ser assim o trunfo, do grande trunfo do filme, sabe?

Eu ainda acho que elas são, mas elas mereceram mais tempo de tela. Eu concordo plenamente com Wesley.

WFWesley Ferreira

Não é só uma questão do tempo de tela, é a questão também de desenvolver minimamente. Porque, por exemplo, a Calypso, ele mudou completamente a personagem. Ela tem, ela tem uma função de até de alavancar o sofrimento do apareceu muito grande no livro. E ele escolhe ela para ser a ouvinte da história dele e suaviza completamente, não aprofunda absolutamente nada da personalidade dela, suaviza tudo. Ela se torna ouvinte, aquela que basicamente acolheu ele, que depois liberta ele também sem muita explicação, né?

Da Helena e da Penélope a gente já falou. Então as personagens femininas, elas ficam meio soltas ali no filme. E é incômodo, é incômodo, porque todo o resto, toda a parte técnica que a gente começou falando, todo o uso do IMAX, os efeitos práticos, os navios e tal e tal, tudo isso é muito bem desenvolvido. Mas é assim, as personagens femininas são muito rasas.

RGRafael Gonzaga

Exato, é aquilo, né? O roteiro, quando ele tá trabalhando assim, é tudo muito cíclico. Tudo leva alguma, alguma recompensa narrativa no fim. A narrativa ela se retroalimenta, mas igual você falou, Wesley, as mulheres estão sobrando ali. Elas poderiam ter mais tempo de tela e mais desenvolvimento, eu quero dizer. Na verdade eu falo tempo de tela, mas é mais desenvolvimento, aprofundamento adequado para essas personagens que são tão ricas, né?

A personagem da Charlize Theron, a Calypso, é a única personagem do filme para mim assim que eu não consegui ter nenhum tipo de envolvimento. Não senti raiva, não senti amor, não me apeguei. Eu simplesmente não senti nada por essa personagem.

RARafael Arinelli

A Melanto da Mia Goth também é bem qualquer coisa, né?

WFWesley Ferreira

Também esqueci, esqueci.

RGRafael Gonzaga

Teve isso também, é verdade.

WFWesley Ferreira

Não, teve isso também, teve a Mia Goth. Esqueci da Mia Goth, foi tão assim utilizada de qualquer forma que eu acabei esquecendo de citar ela na minha fala, porque a Mia Goth ela não é praticamente utilizada assim, é Chega a ser até constrangedor a forma como ele trata as personagens femininas, porque estão lá, mas realmente é tudo muito raso, não tem. E no caso da Atena, o Rafa falou da Zendaya, Atena tem que— ele tinha material na literatura para desenvolver, mas até por ser uma deusa mitológica, ele não queria tocar muito nisso.

Beleza, não desenvolver tanto, mas ele poderia ter desenvolvido melhor Penélope, ele poderia ter desenvolvido melhor a Apocalipse. O Apocalipse, ela é central no sofrimento. Vou dizer, até para ele poder explorar ainda mais essa parte do sofrimento, ele poderia utilizar muito bem Apocalipse, poderia ter desenvolvido, ele tinha material para isso.

RARafael Arinelli

Não, e eu acho que a gente tem aqui, é muito sintomático, né, quando você olha. E obviamente a gente daqui algum tempo, olhando, né, em perspectiva para esse momento histórico, para filmografia, né, do Nolan e tal, E quando você for ver que ele faz Oppenheimer e depois ele vem com A Odisseia, né, você vê um diretor que tem nesse momento da carreira dele tem seguido uma linha narrativa e algum tipo de história ali que ele tem perseguido assim, com características que se repetem filme após filme.

Porque quando a gente foi falar de Oppenheimer, a gente falava a mesma mesma coisa. Cadê as personagens femininas? Por que elas não são bem aproveitadas aqui? E em A Odisseia, a mesma coisa. E tem um outro ponto que eu acho interessante, é que a gente pode fazer uma comparação do cavalo de Troia com a bomba atômica. E a gente poderia até dizer que o cavalo aqui é a bomba atômica da antiguidade, porque o Nolan trata o cavalo de Troia não como um golpe de mestre heroico e tudo mais, Mas ele trata como uma arma de destruição em massa dessa Idade do Bronze aí, né, que a gente acompanha aqui.

Então, assim como a gente vê o Oppenheimer usando a sua inteligência, seu brilhantismo e tal para criar a bomba que encerrou a Segunda Guerra, aqui a gente vê um Odisseu que usa a sua astúcia e tudo mais para criar um cavalo que encerrou o cerco de 10 anos em Troia. Só que isso a custo de vidas, é um custo da vitória ali que é pesadíssimo. Então nos dois filmes o foco não é a explosão ou a invasão em si, mas o homem destruído por sua própria criação.

O cavalo deu a vitória aos gregos, mas ao fazer isso o Odisseu violou as leis sagradas de vitalidade e confiança e tudo mais, que é a famosa lei de Zeus ali, e o que acabou destruindo a sua própria alma ali e atraindo justamente a fúria dos deuses para ele. E aí, se a gente for fazer essa comparação, a gente vê que sim, em Oppenheimer, né, a gente vê o cientista assombrado justamente pelas visões, né, das vítimas da bomba e tal.

Em A Odisseia, a gente vê esse Odisseu consumido pela culpa, né? Ele não consegue voltar para casa de verdade porque o que ele fez em Troia transformou ele em outra pessoa. Aquele cara morreu. E eu acho muito legal como ele vai colocar isso no texto do Odisseu quando ele, quando ele reencontra a Penélope, né? Quando ela pergunta sobre Odisseu e tudo mais, e ele fala: bom, e se eu te disser que Odisseu não é mais o mesmo? Que ele não voltou igual do que aconteceu em Troia e tudo mais.

E esse paralelo é tão claro que a gente pode dizer justamente que o Odisseu acaba sendo o Oppenheimer de armadura, que é meio que um gênio que traz a paz através de um ato de barbárie e agora ele precisa viver com as suas mãos sujas de sangue pelo resto da sua vida. Então o Nolan, ele usa o cavalo para nos dizer que grandes avanços, sejam eles militares ou tecnológicos e tal, muitas vezes vêm com preço moral pesado demais para um homem só carregar, né?

E aqui a gente vê o Odisseu, que ele não tá apenas perdido no mar, né? Ele tá perdido dentro da sua própria consciência, assim. E eu acho que isso é muito bem construído assim, né, nesse personagem. O que que vocês acham?

WFWesley Ferreira

Eu achei, eu acho o paralelo fantástico esse que você fez. Não tinha pensado por esse lado desse dado, o cavalo de Troia, né, similar a bomba e tal. Mas faz todo sentido porque ele quebra a regra da guerra ali, né. Utilizar o cavalo de Troia é uma trapaça que ele cria e ele acaba sofrendo as consequências. E tal qual em Oppenheimer ocorre dele depois viver o drama de ter criado a bomba atômica de forma solitária, porque se acontece a mesma coisa, não consegue voltar para casa.

E o filho dele inclusive encontra com Menelau e Helena lá em Esparta, e foi o motivo, foram os atores ali principais do início da guerra, né, a ida de Helena para Troia, tudo. Eles estão lá. Então assim, quem começou a guerra toda com Troia e etc., tá lá, mas a pessoa que e terminou a guerra, digamos assim, infringiu todas as regras, ele entra nesse, nesse mar de angústia, de solidão, de sofrimento, de remorso. E é o que acontece.

E nesse ponto realmente é muito, muito parecido com o que aconteceu com Oppenheimer.

RARafael Arinelli

O Rafa, que que você achou justamente dessas atuações, né? Porque a gente tem um Matt Damon que perdeu peso, treinou intensamente, para interpretar esse soldado exausto por 20 anos de conflito. Temos Robert Pattinson, que faz esse vilão, o Antino, que é um sujeito oleoso, cínico e histórico também. Ele é histriônico, inspirado— ele disse que foi inspirado no personagem do James Woods, do Cassino. E a gente tem também a própria Anne Hathaway, né, que enfim acaba dividindo opiniões porque para alguns ela é intensa, para outros ela acabou sendo passiva demais, só que por conta do roteiro e tal.

Mas enfim, como que você vê as performances assim? Como que você acha que há essa interpretação, o peso emocional dos personagens?

RGRafael Gonzaga

Eu gosto muito das atuações do elenco. Eu acho que todo mundo brilha ali um pouquinho, embora alguns atores estejam subaproveitados na história, né? O que é algo assim que o Nolan já vem fazendo há muito tempo, escala aquele grandioso elenco, a nata de Hollywood, e coloca esses personagens para aparecer ali 2 minutos de tela. Tem muitos, muitos nomes nesse elenco, inclusive, que depois eu fui olhar na técnica do filme, são pessoas que eu nem consegui perceber que estavam lá.

E eu acho as atuações todas muito boas. O Matt Damon, ele me passou muito essa força e ao mesmo tempo a fragilidade do Odisseu. Eu acho que a partir do momento que o Odisseu abre Troia, ele também abre a ferida que o personagem vai carregar durante o filme. E isso muda, assim, não muda completamente porque a gente já encontra o personagem no começo, né? Com essa ferida que ele traz da guerra. Mas no geral, eu acho todos os personagens muito bons.

A Samantha Morton, eu acho que é quem tem a melhor atuação. O tempo de tela que ela tem ali, que ela aparece no filme, é assombroso o que ela faz com o Circe. Ela passa da aparente fragilidade ao domínio absoluto da situação. E eu achei, nossa, incrível. Nesse momento, uma cena meio horror, uma cena meio horror, como fala, num body horror. E eu fiquei assim sem acreditar que da forma que o Nolan fez aquilo. Mas é isso, eu acho que todo mundo se destaca a seu modo.

Tem essas críticas ao Nolan aí por ele não aprofundar as personagens femininas, mas eu ainda acho que se vier indicações ao Oscar vai ser por essas personagens. Pela Anne Hathaway, pela Samantha Morton, o próprio Matt Damon, Robert Pattinson também, que a cada filme, nossa, fica cada vez melhor. É um ator assim maravilhoso, tô adorando ver ele nessa safra de vilões aí, né? Ele fez o drama esse ano, que fez um personagem assim bem covarde, bem ruim assim também, e vai estar em Duna também, que é mais um antagonista.

E então eu gostei bastante. A única pessoa que realmente assim não me cativou de alguma forma é a Charlize Theron.

RARafael Arinelli

É mesmo?

RGRafael Gonzaga

Alice, ela tá maravilhosa, ela tá linda, mas eu acho que a personagem, ah, eu não sei, faltou alguma coisinha ali.

WFWesley Ferreira

É, tem pouca coisa, aprofundar a personagem, né?

RARafael Arinelli

Faltou aprofundar.

RGRafael Gonzaga

Exatamente.

WFWesley Ferreira

Eu só queria comentar uma coisa, que é a atuação do John Leguizamo, que ele faz. É verdade, ele tá maravilhoso no filme, maravilhoso. Vi uma entrevista dele falando que ele ficou muito feliz pelo convite porque Ele não foi convidado para fazer um latino que é agressor, que é gangster. Ele tem sido muito convidado para fazer esse tipo de filme e ele ficou feliz de fazer um personagem que é um mentor, né, da, tanto tinha sido do Odisseu quanto é do Telêmaco.

Então eu achei, achei a atuação dele assim maravilhosa, muito, muito linda mesmo.

RGRafael Gonzaga

É um filme que tem uma pluralidade muito grande, né? Eu acho isso muito interessante como o Nolan trabalhou isso. Igual ele traz o Elliot Page, um homem trans, para abrir o filme e fala aquilo sobre ele, sobre o personagem, que é o homem mais corajoso que o Odisseu conheceu. Depois tem a Lupita Nyong'o como a mulher mais linda daquela história, sendo a Helena. Aí tem o John Leguizamo como o produtora. Então assim, é uma pluralidade muito legal que a gente não vê muito Hollywood fazer isso.

RARafael Arinelli

Exato. E aí tem uma outra, um outro detalhe que eu acho muito bom. Wesley pode até falar mais sobre isso, porque historiador que é, né, vai conseguir explicar um pouco mais sobre isso. Porque assim, a gente tem uma participação do Travis Scott, né, que é um rapper. E o Travis Mas ele não tá ali só para atrair o público jovem, assim, né? Ele interpreta o Fêmio, ou Fêmios, né, enfim, que é um bardo, né, em Ítaca. E o Nolan justificou a presença dele dizendo que, enfim, muita gente esquece ou nem sabe que 3.000 anos atrás as pessoas não liam A Odisseia.

Ela nasceu de uma tradição oral. Era uma história cantada, rimada e ajustada pelos poetas conforme eles passavam de cidade em cidade. E era literalmente uma performance musical feita para entreter o povo em volta das fogueiras e dos banquetes e tudo mais. Então o Nolan explica justamente que o rap é a versão atual dessa poesia oral. E daí, para ele, os rappers são esses bardos de hoje que usam o ritmo, a rima e tal para contar as histórias e manter viva essa cultura através da fala.

E colocar o Travis Scott ali para abrir o filme em Ítaca, cantando as histórias de Odisseu e tal, foi uma forma do diretor de lembrar o público que aquele mito é algo vivo e vibrante. Não é uma peça de museu empoeirada e tal. E eu achei isso assim incrível, sabe? É daquelas coisas que você fala, putz, tá aí um diretor que tem um quê diferente assim, sabe?

WFWesley Ferreira

Eu gosto dessa coisa de falar bem, falar mal, falar bem, falar mal do Nolan, sabe? Falar do Nolan é isso, mas você fala bem, é maravilhoso. Porque eu achei muito, muito Muito bem sacado isso que coloca o Travis Scott e de relembrar da tradição oral. A gente, as sociedades lá da antiguidade, a escrita, o acesso à escrita, à leitura, ele era muito restrito. Então a tradição oral ela é muito, ela foi muito utilizada, né? A perpetuação dessa história ela é muito através da oralidade, né?

Não é à toa que o teatro era a céu aberto, né? E as pessoas iam lá para ouvir repetidamente essas histórias. Tinha isso, você via várias vezes a encenação daquela história da Guerra de Troia, e você vai falar da Guerra do Peloponeso, você vai falar de todas aquelas guerras que envolvem a Grécia Antiga sendo cantadas e declamadas o tempo todo. E além de tudo isso, você tinha ali uma galerinha que guardava tudo escrito, mas de forma mais popular, digamos assim.

Isso realmente era passado de forma oral e foi uma sacada muito boa, né? E essa ponte com Travis Scott a colocar, né, fazer essa, essa analogia com rap foi muito boa, muito bem sacado mesmo assim. Ele foi muito bem nessa.

RARafael Arinelli

Exato.

RGRafael Gonzaga

Eu também gostei muito, achei, nossa, muito bonito. E mais uma vez o filme abre, mais uma vez eu fico arrepiado ali vendo essa cena. Eu acho que passa a sensação de que estamos diante de algo ancestral, algo quase ritualístico ali. Começa muito bonito. Com o Travis Scott como esse bardo que tá narrando a história.

WFWesley Ferreira

E até sobre um pouquinho a preservação dessa história do Odisseu, ela é muito, ela é meio, ela passa por momentos assim na preservação da antiguidade, ela é muito complexa, né? O Odisseu, ele é chamado de Odisseu lá na Grécia Antiga, mas depois o Roma invade, destrói a Grécia, e Odisseu passa a se chamar Ulisses. É por isso que muita gente chama de Ulisses, outros chamam de Odisseu. Porque quando Roma assume e vai pegar essa história para deixar lá em Roma para ser preservado, essa preservação guarda o nome dele como Ulisses.

Aí depois você passa a Idade Média toda com essa história esquecida, e os renascentistas vão ressuscitar essa história e vão trazer essa documentação. É muito bom isso, esses detalhes, sabe, da história que permanece, seja através da escrita ou através da oralidade.

RARafael Arinelli

Vocês sabem que tem uma outra coisa que eu acho legal também, né? Como Wesley falou, a gente fala mal e fala bem do Nolan no mesmo podcast.

RGRafael Gonzaga

Os melhores são assim, né?

RARafael Arinelli

Exatamente, são polêmicos, rende bastante. Exatamente, porque uma coisa que eu acho muito legal também é assim, a gente começou, né, esse papo falando do Nolan ter desenvolvido e ajudado a desenvolver cada vez mais, né, a captação com IMAX, 70mm, essa parte técnica de tamanho de imagem que muda e e tudo mais e tal. E aí você falar que um cara tá fazendo uma captação dessa com esse tipo de câmera, com esse tipo de película, com, sabe, com tudo que a imagem te dá na captação, é óbvio que você olha para isso e fala assim, cara, se ele tá com essa tecnologia na mão, não faz sentido o cara ir lá e gravar um monte de coisa com tela verde, né?

E lá e ficar colocando depois um monte de efeito e tal. É lógico. Que o CGI ele ainda vai existir, principalmente na pós-produção. Às vezes você, né, precisa ir lá fazer um retoque, enfim, remover cidades modernas que estão ali, que enfim apareceram na captação e tal. Mas o cara tendo uma câmera dessa na mão, ele vai querer captar tudo que é possível para que a gente tenha cada vez mais essa sensação tátil ali né, do que a gente tá vendo em tela.

E não à toa que uma das coisas que aconteceram nesse filme foi justamente isso, que ele meio que fez um filme mão na massa assim. Então a gente tem muita coisa que foi feita ali que foi realmente construída, montada e tudo mais. Então, por exemplo, ao invés dele ir lá e desenhar o cavalo no computador, a equipe foi lá e construiu, né, múltiplos cavalos de 10 metros de altura. Os cavalos tinham cerca de 4 toneladas, pesadíssimo.

E eles levaram essa estrutura pesadíssima e tal lá para as areias do Marrocos só para filmar a cena assim. Então é disso que eu tô falando, né, que a gente consegue observar esse tipo de coisa na tela, porque daí a gente consegue ver aquele ambiente sujo, apertado, apertado e tal. Aliás, a cena deles dentro do cavalo, que troço desesperador, hein?

RGRafael Gonzaga

E foi, eu li essa semana, e eu li essa semana que ela foi gravada com os atores ali dentro mesmo, todo mundo espremido. Eu acho que foi o John Bertal que falou que eles, que ele começou a se afogar ali, que tinha água até o pescoço. Eu imagino a situação desesperadora, eu tava quase morrendo assistindo isso. Imagina situação.

RARafael Arinelli

Pois é, o próprio Matt Damon tava lá também e tal, e depois ele deu declarações, né, falando que essa era a ideia, que ele queria, o Nolan queria que eles sentissem essa claustrofobia real, né, essa sensação de aperto ali e tal. E é isso, a gente vê isso, né. O próprio Ciclope, né, que é uma coisa à parte também, muita gente acha, olha ali e fala assim, ah, aquilo ali é CGI puro, e tal. Não, não é só CGI, tem CGI, óbvio, mas o Nolan ele usou um boneco animatrônico de 12 metros de altura também.

E aí ele misturou, né, o CGI com o boneco. E isso, usaram também umas técnicas lá com marionete, né, e tal. E tem obviamente atuação de um ator que é o Bill Irvin, para dar essa criatura essa textura e um perigo ali, né, que parecem reais mesmo em tela. A gente vê aquele bicho, você vê a textura da pele assim, né, você vê ele ali e tal, é angustiante também. E isso ele repetiu várias vezes, como eu já falei aqui, né, a parte da captação em mar aberto, né, a própria parte de iluminação também.

Eles fizeram todo um trabalho trabalho de iluminação com tochas, calor de luz de tocha, de fogueira real e tudo mais. Então assim, no fim das contas, é óbvio que o Nolan usou o CGI, mas ele usa mais como uma ferramenta de apoio e nunca como uma base, né? Então ele prefere justamente gastar esses milhões carregando essa câmera de 136 kg, né, por trilhas aí de pedra na Sicília e tudo mais, ou filmando nessas praias vulcânicas na Islândia e tal, do que ir lá e sentar e criar esses cenários no estúdio.

E o resultado é justamente isso que a gente vê em tela, um filme que você não apenas assiste, mas você sente essa poeira, o suor, o sal do mar e tal. E eu acho que essa é uma das grandes virtudes desse filme, assim, né? A parte técnica dele é É impressionante, é impressionante.

WFWesley Ferreira

E assim, eu gosto como Nolan usa o prestígio que ele tem em Hollywood para fazer cinema de verdade, sabe? Porque poderia ser muito cômodo para ele também se só fazer, ah não, vamos fazer aqui o filme, bota aí, produz aí, gasta 300 milhões com efeito, a gente vai lá, faz. Mas ele usa o prestígio dele justamente para levantar a bandeira do cinema, né? Porque, por exemplo, ele tá, ele desenvolve o IMAX. O IMAX, ele é algo trabalhoso.

Ele desenvolve uma tecnologia que ainda é muito trabalhosa de se fazer, de se usar, de se aplicar. Então, é, é, eu acho isso, eu acho que assim, o que ele agrega para o cinema atual é assim, algo que talvez só lá para frente que a gente vai entender. Se a gente for olhar ao redor do cinema que o Nolan faz, acho que tem cinema de marcas tipo Marvel, DC, que não tem nem nome de autor, né? Aí você tem um cinema do Nolan no meio de tudo isso.

E é muito bom ele pegar para mostrar que o jeito de fazer cinema é esse, é arquêtipo, é botar a mão na massa. Não tem como você querer simplificar. Os estúdios, eles têm simplificado as coisas, né? Os prazos são curtos. Toma aqui R$300 milhões, gasta em efeitos, aí não dá tempo de fazer o efeito direito. Aí você vai ver o filme que custou R$200, R$300 milhões, você fala, velho, que R$300 milhões aí? Como que tem R$300 milhões ainda nesse filme?

Exato, porque são efeitos duvidosos. Exatamente. E o Nolan não, ele vai lá, ele faz, ele mostra assim, ó, é assim, é trabalhoso, é cansativo, mas é prazeroso também. E é assim, o cinema é isso, né? Ele meio que lembra o cinema blockbuster, o que é fazer cinema na prática, sabe? É uma coisa, é um legado que vem lá do Spielberg com Tubarão, que vem lá do George Lucas com Star Wars, sabe? De você fazer o cinema ali de uma forma muito, você buscar fazer de forma muito original, muito crua também, sabe?

RARafael Arinelli

Exatamente.

RGRafael Gonzaga

Muito bom. É, não é à toa que o filme tá com essa procura, né? Eu tenho amigos que ainda não conseguiram assistir porque não estão conseguindo comprar ingresso. Todos os dias as salas estão lotadas. Aí você vai comprar no outro dia, só tem lugares ruins sobrando. Aí eu tava vendo agora há pouco, um amigo meu falou que conseguiu comprar para assistir no domingo. Porque as pessoas estão com falta disso, sentem saudade desse cinema blockbuster de qualidade, da matéria-prima, onde você sente que aquilo que você tá vendo em cena é real, é um universo de verdade, sabe?

Essa, a forma como o Nolan filma usando os efeitos práticos e cenários reais, dá toda uma dimensão diferente ao filme, né? Não só esse, outros filmes dele também. Outros cineastas também optam fazer dessa forma, como o Wesley mencionou, o próprio George Lucas, o Steven Spielberg. Então assim, as pessoas estão com saudade disso, né? Fazia muito tempo que eu não vi uma procura tão grande por um filme como tá acontecendo.

WFWesley Ferreira

E é importante que é um filme de autor, gente. É isso que é legal, sabe? Não é, não é o filme novo, sabe, da franquia da franquia, não é um filme novo de um estúdio, não é o filme novo de nada disso, né? Porque a gente vive dias muito de apagamento do autor, né? O autor tem sido apagado do cinema. Exato. Até A24, como um estúdio de lançar novos diretores e tal, hoje em dia já tem a coisa do filme da A24. Então a gente tem ido muito nessa toada, e o Nolan ele vai na contramão disso, quando o pessoal tá indo ver o filme do Nolan, sabe?

De um cara, um artista que lá e fez um filme, não é uma franquia, não vai ter 10 filmes sobre aquilo, é aquele filme, aquela experiência. E cara, é um ponto totalmente fora da curva no contexto atual do cinema.

RARafael Arinelli

Plano Detalhe da semana, aquele momento em que a gente dá dicas para você aí, ouvinte, né, para você fazer coisa diferente aí na sua semana. E Rafa, vamos começar com você. Que que você trouxe de bom aí para gente de Plano Detalhe para essa semana?

RGRafael Gonzaga

Eu preciso indicar para vocês uma série que eu assisti nos últimos, nas últimas semanas na Apple TV, se chama Prazer Máximo Garantido. É uma surpresa muito boa. Eu recomendo que as pessoas nem saibam muito. O que eu posso dizer é que é uma série que mistura suspense, humor e drama de um jeito bem divertido. A história vai ficando cada vez mais maluca conforme avança. Protagonizada pela Tatiana Maslany, que está ótima e faz você comprar completamente a jornada da sua personagem, Paula.

É o tipo de série fácil de assistir, cheia de reviravoltas e que sempre deixa a gente com vontade de ver mais um episódio. São, se eu não me engano, 9 ou 10 episódios, e todos ali, ó, 40 minutinhos. Gente, não é série comprida de 50 minutos, 1 hora de duração, hein? Tem episódio até de 32 minutos. É uma delícia de assistir para terminar a noite. Prazer máximo garantido na Apple TV.

RARafael Arinelli

É minissérie? Não, né, Rafa?

RGRafael Gonzaga

É uma série porque ela ficou com finalzinho em aberto, mas ainda não confirmaram se vai ter uma segunda temporada. Mas a história é bem redondinha e é bem gostosa de assistir. Outra que eu preciso indicar já é uma minissérie do HBO Max que se chama Pela Metade. Essa série me pegou, essa minissérie me pegou completamente de surpresa. Ela fala sobre a amizade, traumas e relações familiares de um jeito muito sensível, mas sem deixar a história muito pesada o tempo todo.

Ela tem um drama ali bem potente O roteiro é excelente e vai revelando os conflitos dos personagens aos poucos, sem entregar tudo de forma muito óbvia. No protagonismo tá o Jamie Bell e o Richard Gadd, que ficou muito famoso por Beber Rena, da Netflix. Eles estão incríveis, têm uma química absurda, principalmente nos momentos mais delicados da história. É uma minissérie curta também, acho que são 9 episódios. É bem intensa, muito bem construída, muito bem atuada.

E vale a pena assistir, gente. Eu super indico esses dois programas aí que me pegaram muito esse ano. Fiquei muito feliz.

RARafael Arinelli

Muito bom, tá aí então série, minissérie aí que o Rafa trouxe pra gente. Lembrando você, ouvinte, né, que tudo que a gente tá falando aqui vai ter link, né, na descrição desse episódio ou no post desse episódio. É só você ir lá, clicar, e você vai ser direcionado aí para tudo que a gente tá falando aqui. E você, Wesley, que que você trouxe de bom para gente aí de plano detalhe?

WFWesley Ferreira

Então, Rafa, eu trouxe um curta, tem uma série e vou colocar um filme também para indicar para o pessoal. O curta é um curta de um novo cineasta baiano, né? Inclusive estudou comigo no ensino médio, tá lançando seus primeiros filmes agora. E ele lançou um curta, o nome dele é Thiago Igor, o nome do curta é Junho. Ainda tá lá disponível no YouTube. É um curtir de 9 minutos e fala um pouco do sentimento sobre as festas juninas, né?

Como isso, como funciona essa coisa das festas juninas, o sentimento para quem vive aqui na região Nordeste, né? Como é que é essa coisa de você sair da capital e ir para o interior durante alguns dias ali no mês de junho? E como essa tradição ela é mais intimista, que às vezes parece, né, quando passa as festas, os grandes nos palcos, nas praças e tudo. E ele faz isso de uma forma muito, muito delicada. E é um curta ali que você passa 9 minutos e você consegue pegar muito bem o sentimento do que é a festa junina.

E é muito pessoal, e ao mesmo tempo que é particular, ela é um tema muito geral, sabe? Assim, é muito fácil de se identificar e é muito bem feito, muito bem trabalhado, né? Ele consegue trazer imagens belíssimas. Ele gravou uma cidade aqui chamada Castro Alves, né, interior da Bahia. Sensacional, sensacional. É 9 minutos assim que você passa rápido e depois você fica bem, bem reflexivo sobre isso. A série que eu vou sugerir é Twin Peaks, do David Lynch.

Eu vou sugerir Twin Peaks porque eu terminei de ver agora. Eu tô vendo umas séries que já terminaram, eu tô cansado de ver série que ainda tá em execução. Eu não sei se vai acabar, se eu vou ver 2 temporadas, não vai ter mais. Então Eu tô assistindo série que já acabou, que eu sei que não vai ter, então eu vou indicar Twin Peaks. Adorei assim a série, eu assisti as duas primeiras temporadas, né? E é uma série muito colorida. E o plot da série, um detetive que ele vai para uma cidade chamada Twin Peaks para investigar o assassinato de uma jovem chamada Laura Palmer.

E a partir dessa investigação a gente entra naquela cidade e entra num universo que só o Lynch poderia criar. Sério, assim, é um mundo colorido, com criaturas o real, o não real convive no mesmo espaço, sabe? E me encanta que principalmente na segunda temporada, o caso da Laura Palmer, ele é resolvido, mas a trama continua porque você, ela é tão intimista que você se conecta com a cidade de Itupi, sabe? Você já tá ali totalmente envolvido.

E em tempos de cinema tão cinza e de audiovisual tão cinza e cores opacas, eu acho que trazer o colorido de Twin Peaks, pode ser legal, faz bem aos olhos e diverte bastante, certo? É bom ir de coração aberto porque é muito divertido e muito criativo assim, criatividade absurda que a gente usa na narrativa Twin Peaks. E o Twin Peaks tá disponível e não tá na MUBI, tá na MUBI, tá disponível na MUBI e vale a pena, vale, vale demais.

E a última dica eu vou indicar Troia, né, de 2004, do Oliver Stone. Não acho um filme dos mais maravilhosos assim. À época eu também não achei lá dos mais maravilhosos, mas eu acho que ele narra bem a Guerra de Troia. Então, para quem assistiu A Odisseia e quer falar, pô, quero saber mais aí como foi essa Guerra de Troia, como foi a preparação, o que é que tava em jogo, qual foi nos conflitos que estavam envolvidos, quais eram as questões entre gregos e troianos.

E o filme do Oliver Stone, eu tava até pensando outro dia, acho que ele envelheceu até bem assim, né? Na época não foi muito, não esteve muito barulho em 2004, mas ele envelheceu bem assim. Ele, ele, eu olho hoje para ele e acho ele legal. Então se gostou da Odisseia, quer se aprofundar um pouco, o filme do Oliver Stone vai, vai divertir bastante. Tem Brad Pitt, tem Eric Bana, o rapaz lá de Senhor dos Anéis, o arqueiro, esqueci o nome dele, Orlando Bloom, isso, e grande elenco.

Enfim, é diversão garantida. Tá certo, era isso. Essas são minhas dicas de hoje.

RARafael Arinelli

Muito bom. Você sabe que teve uma galera que ficou lá olhando o filme esperando Aquiles, né?

WFWesley Ferreira

Não, deixa eu te falar, deixa eu te dizer que no livro Aquiles aparece. Eu tava esperando, eu tava esperando na hora do sacrifício de sangue que aparece o povo que morreu. Aquiles tinha que ter aparecido.

RGRafael Gonzaga

Nolan tirou Aquiles.

RARafael Arinelli

Pois é, rapaz, ficou lá. E aí o Pensou, pô, cadê Aquiles?

RGRafael Gonzaga

Eu pensei que ele fosse aparecer também depois de tanta polêmica, né?

RARafael Arinelli

Pois é, pois é.

RGRafael Gonzaga

Eu gosto muito desse filme de 2004, é Troy de 2004. Eu acho, nossa, quando eu era criança assim era um épico para mim. Ele é um épico, né? Muito bom também, eu gosto bastante.

WFWesley Ferreira

É bem feitinho, é bem feitinho. Inclusive, se a gente for comparar com as coisas do cinema atual, ele ele mereceu bem assim. Você assiste, você se diverte bastante, ele é legal, tudo legal.

RGRafael Gonzaga

Eu fui assistir A Odisseia na quinta-feira, aí na sexta-feira eu acordei, eu já fui procurar o meu Blu-ray de Troia, tirei da estante, coloquei em cima da estante da TV e falei, vou assistir no final de semana Troia. Tá lá até agora, não assistiu, coitado. Mas sábado eu vou conferir. O Wesley falou, me deu vontade. Eu vou assistir.

WFWesley Ferreira

Boa, Moura!

RARafael Arinelli

Muito bom, muito bom. Bom, para fechar aqui o Plano Detalhe, eu vou fazer uma indicação de um amigo, né, que já esteve aqui várias vezes e tal, que a galera que acompanha o Cinemação sabe, que é o Daniel Cury, né. Daniel Cury já foi co-host aqui no Cinemação e tal, e o Dani tem um Substack onde ele vira e mexe coloca lá textos, né, onde ele enfim faz ensaios basicamente, né. Então ele escreve lá, faz reflexões, escreve um pouco sobre tudo assim.

O nome do Substack dele é Desembrulhando Palavras, mas dá para encontrar também como danielcuri.substack.com. E eu queria indicar justamente porque ele tem soltado alguns alguns textos muito bons assim, e eu acho que vale a pena para quem gosta, né, de pegar um texto e dar uma refletida também, né, sobre enfim a vida e tudo mais. O Dani soltou um pouco tempo que ele fala Por Que Escrever, é o título. Então ele vai falar um pouco, né, sobre o ato da escrita e tudo mais, tem citação Alice Lispector, né?

E enfim, ele vai falar sobre essa arte de se escrever. E também tem um outro texto dele muito legal que se chama Pequenos Atos de Resistência, onde ele também faz uma reflexão ali e tal sobre isso, sobre você, né, se colocar, fazer coisas que você gosta, né, estar presente em coisas que você acha necessárias para você e tudo mais. Então é tipo isso, é tipo, pô, eu vou lá e compro, sei lá, meu Blu-ray, meu DVD, né, e tal. E eu tenho isso, são pequenos atos de resistência no sentido de você estar ali, pertencer àquilo, né, é um pertencimento.

Então queria fazer essa recomendação para vocês irem lá e assinarem, né, o Desembrulhando Palavras. Tem obviamente uma versão paga do Desembrulhando, mas tem uma versão gratuita que você também consegue. E aproveita e vai no meu Substack também, que chama Aquilo Ali, o meu, que eu quase nunca escrevo nada, mas quando eu consigo eu vou lá, escrevo também, solto alguns textos reflexivos. Mas o do Dani é mais regular e tal, e o Dani escreve muito bem.

Então fica a minha recomendação aí para vocês acompanharem o Desembrulhando Chegando aqui ao final desse podcast, podcast Cinemação 657. 5. Batemos esse papo sensacional aqui sobre A Odisseia, né? Batemos esse papo sobre um filme que certamente é um filme que marcou, já marcou esse ano, né? Um filme que certamente chega aí com um peso. A gente tá falando de um Nolan que é sempre polêmico, tanto nas suas produções, nas suas narrativas e tudo mais, mas sobretudo é um cara muito talentoso, e é por isso que a gente sempre tá de olho, né?

Não é uma adaptação tranquila, reverente, né, de um clássico. É justamente uma reinterpretação corajosa, tecnicamente obsessiva, filosoficamente carregada ali e tal. E por isso mesmo ela é cheia de atrito, e atrito é algo que é muito bom para que a gente saia do nosso ponto de comum acordo e consiga olhar as coisas de outras formas assim. Então queria agradecer aqui a presença dos meus convidados que me ajudaram aqui, né, a conversar, destrinchar um pouco sobre a Odisseia.

É, Rafa, muito obrigado pela sua presença aqui com a gente mais uma vez, por doar seu tempo aqui. E por favor, deixa aí meios de contato, como que as pessoas fazem para acompanhar o seu trabalho, sua escrita, suas análises, falar com você, tirar dúvida, enfim, como que as pessoas se conectam com você, Rafa?

RGRafael Gonzaga

Primeiramente, é sempre um prazer estar aqui com vocês e eu sempre acabo conhecendo pessoas muito legais, algumas que eu já acompanho na internet, outras que eu passo a acompanhar. E então assim, é sempre prazeroso, eu fico muito grato quando recebo seu convite. Eu tô no Twitter, é onde eu tô mais ali falando cinema. Lá vocês me encontram como Filmes do Rafa, Rafa Gonzaga Filmes do Rafa. E também eu tenho o Instagram e o Letterboxd, onde eu coloco as minhas análises, que é Rafael Gonzaga T.

Mas se você colocar Filmes do Rafa, você já me encontra, viu? E quero agradecer todo mundo, agradecer o Wesley, ao Rafa pelo convite mais uma vez. E é isso aí, precisando estamos aqui.

RARafael Arinelli

Muito bom, muito obrigado mais uma vez. E obrigado também, Wesley. Wesley foi uma das inspirações aqui para a gente gravar esse podcast. Primeiro com o texto dele, né, que já tem a recomendação dupla aí para que vocês vão lá ler dentro do Cinemação. Mas também por conta disso, Wesley, depois de ler, a gente falou, meu, não tem jeito, vai ter que vir aqui gravar um podcast sobre o filme.

WFWesley Ferreira

Não teve jeito. Agora que você escreveu o artigo, a gente grava um podcast.

RARafael Arinelli

É isso mesmo, não vai ficar só no artigo não.

WFWesley Ferreira

É isso, quero agradecer o convite, agradecer o espaço também, né, quanto para o artigo quanto para estar aqui conversando. Foi uma delícia ter participado mais uma vez. Precisando, sabe que lembrou aí, você pode chamar que eu apareço. Minhas redes, @wesley_fernandes, 1899 no Instagram e no X, barra, o Twitter, é @wesley_1899.

RARafael Arinelli

Muito bom, sensacional! Muito obrigado, Wesley, mais uma vez, viu, pela participação aqui.

WFWesley Ferreira

Eu que agradeço. Valeu!

RARafael Arinelli

É isso, pessoal, o podcast Cinemação 655 fica por aqui e a gente se vê no próximo. Esse podcast foi editado pela Isso Aí Design. Tudo isso é forma com função, é design estratégico.

WFWesley Ferreira

É isso aí!

#655: A Odisseia | Castnews Index — Castnews Index