Episódios de Imposturas Filosóficas

#316 te explicando pra te confundir | Anne Carson, metáfora e metonímia

08 de maio de 20261h19min
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A metáfora triangula. Pela sobreposição de duas imagens heterogêneas, ela abre na selva da linguagem uma trilha misteriosa que leva de uma à outra. Assim, vamos do A ao B, mas nos vemos obrigados a desviar pelo desvario do C. No programa dessa semana, partimos da brincadeira de diferenciar as metonímias e metáforas para pensar a linguagem.

Participantes

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Ficha Técnica

Capa: Felipe Franco
Edição: Pedro Janczur
Ass. Produção: Bru Almeida
Texto: Rafael Lauro

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Participantes neste episódio4
R

Rafael Lauro

Host
M

Matheus Guimarães

ConvidadoPsicólogo
P

Pedro Tiné

Convidado
R

Rafael Trindade

Convidado
Assuntos4
  • Metáfora e MetonímiaDiferença entre metáfora e metonímia · Analogia e linguagem · O desejo como cavalo sem rédeas · A natureza poética da linguagem · Anne Carson
  • A linguagem como ferramenta de pensamentoLiteralidade vs. Metáfora · Linguagem como violência e opressão · O papel da poesia e da filosofia no pensamento · Lakoff · Roland Barthes · Foucault
  • A impossibilidade de nomear o desejoO desejo como algo inominável · A dificuldade de expressar emoções profundas · A relação entre terapia e linguagem · Filosofia oriental e a abdicação da palavra
  • Oficina de Escrita e ReflexãoAnálise de texto e escrita criativa · Leitura do livro 'A Louca da Casa' de Rosa Monteiro
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A montanha-russa me dá emoção do mesmo jeito que a metáfora me dá emoção. Por esses saltos, por essa velocidade, por esse alguma outra coisa que de repente eu tô de ponta cabeça e não sei como eu vim parar aqui. Porque a gente esquece que racionalidade é desejo também. Quem tá guiando a racionalidade então, sabe? Tipo, a racionalidade também tá em cima do cavalo sem rédea.

pensando na literatura, que tem uma certa má consciência disso, né? Tem um sofrimento quase patológico dessa impossibilidade de nomear, né? E não sei, parece ter outras possibilidades de viver isso, né? Que são mais corajosas, assim.

E aí, gente? Vocês estão ouvindo Imposturas Filosóficas, o podcast do site Razão Inadequada. E hoje estamos aqui para fazer um programa com dois amigos muito queridos. Além de mim e do Rafael estão aqui Matheus Guimarães. E aí, gente? E Pedro Tinar. Olá, tudo bem? Rafael, você tá bem? Tá doidão.

Eu tinha sugerido de todo mundo relinchar no começo, ninguém quis ir comigo. Ficou só eu, vocês já vão entender o porquê que isso aconteceu. Perfeito, eu adorei.

Antes de começar, queria dizer que tem vagas na oficina de escrita e que a gente vai entrar em um novo tema. A gente vai começar a ler um livro chamado A Louca da Casa, da Rosa Monteiro. Uma série de crônicas dela pensando vida e escrita. A gente vai fazer análise de texto e basicamente se perguntar por que esses textos são tão bons. Eu vou tentar dar mil justificativas pra depois a gente tentar.

fazer os nossos próprios textos. Claro, escrever, pensar junto, tá? As oficinas de escrita acontecem terças-feiras, das 19h às 22h e quartas-feiras, das 15h às 18h. São turmas diferentes, você escolhe participar de uma ou de outra. Ambas no momento tem vagas, não muitas, mas entre em contato com a gente se você quiser, se você quiser pensar junto o que é escrever e ter um motivo pra escrever, mostrar pras pessoas e tal. Então aí, abertas as vagas e agora é um momento bom porque estamos mudando de tema. E tem desconto pra quem é assinante.

Outras duas coisas muito importantes é, o tema desta vez é de um livro que eu dei de aniversário pro Rafael. Então se você também quer ter o seu livro na oficina, né, vá no aniversário do Rafael e dê um presente bom pra ele. Só ser um bom livro que tenha essa… Se você acertar na mosca, vai dar certo.

Com certeza. E a segunda coisa é que se você tá ainda em dúvida se você vai se inscrever ou não, aguarda 10 segundos, porque a gente vai começar a ler o texto. E esse texto tem tudo a ver com a oficina. E o texto tá muito bom. É isso. Vocês sabem que a gente é sustentado por vocês, né? Mas eu vou só lembrar, tá bom?

Vocês que ouvem a gente são diretamente responsáveis pela continuidade desse trabalho. Então, se vocês quiserem fazer uma assinatura, 54 reais por mês, vezes uma centena de pessoas, é o que permite a gente ter dinheiro para pagar as contas e continuar fazendo esse trabalho. Se você não puder ajudar financeiramente, dá uma compartilhada aí.

Tá bom? Continuamos sem YouTube, infelizmente Vocês souberam disso? Pois é Que coisa horrível, não é mesmo? Estamos desesperados Eu estou fingindo que está tudo bem, mas eu não consigo Tá bem difícil, a gente está bem preocupado Porque a gente perdeu uma das nossas Frentes de divulgação nesse trabalho Estamos correndo atrás, avaliando Vias legais e tudo mais pra recuperar nosso conteúdo Mas compartilha de outro jeito então Fala na mesa do bar, manda no WhatsApp Em qualquer outro lugar, Instagram, o que vocês quiserem já ajuda a gente Tá bom?

E quem tiver como ajudar a gente nesse sentido, entre em contato, né? Nossa página do YouTube Caiu Injustamente. É isso. Bora pro programa? Bora. Metonímica metáfora. O desejo é um cavalo sem rédeas.

Uma provocação onde vemos a impertinência semântica que é uma metáfora. Uma força de linguagem que nos invade com imagens, no caso, a imagem de um animal indomável chamado querer.

A primeira conclusão a que chegamos quando olhamos a frase bem de perto é a de que não sabemos o que é o desejo. O que é curioso, porque a proposição é afirmativa e contém o verbo ser. O desejo é. Três palavras que prometem. Sabemos que não sabemos porque o desejo não é um equino de fato. Ou seja, a frase contém tanto o é quanto o não é.

Ninguém avisou, mas uma quarta palavra foi omitida. O desejo é como. Sumiu porque expunha a nudez da analogia e enfraqueceu o truque. O escritor, voraz, a comeu. Nela, porém, reside nossa ignorância e também inteligência. Justa postas em quatro letras.

A analogia é um modo de saber não sabendo. Ora, falar sobre desejo é propor uma aventura. E essa começa com um salto. O desejo é como um cavalo. Essa é uma frase que se percorre assim. Anda, trota, corre e pula.

Onde caímos? Não sabemos ao certo. Afinal, o que é um cavalo? É forte, é belo, é bravo e mais. Na ideia de cavalo, cabe um infinito. Impossível saber de antemão quais serão os pontos que irão embaraçar os abstratos traços do desejo com as imaginadas crinas do cavalo. No entanto, metáforas são imprecisões que funcionam.

É um jeito de falar, olha, eu não sei muito bem o que eu quero dizer, mas sabe tipo um cavalo? Você entende quando eu te falo que o desejo é meio isso? E a pessoa na sua frente responde, sim, exatamente, e acrescenta, mas esse cavalo aí não tem rédeas. Então, vocês concordam que entendem alguma coisa sobre algo que não entendem.

A gente faz isso o tempo todo. Dizer de uma coisa que ela é outra. O processo parece fadado ao fracasso, mas por alguma espécie de milagre dá certo. Por meio do verbo, estabelecemos relações de identidade entre coisas distintas e nos tornamos mais capazes de navegar entre elas. Às vezes é só um passinho, como este. O cavalo é sua crina.

Entre um nome e outro, a distância é curta. Digamos que são vizinhos semânticos. Essa relação de contiguidade é, para alguns apaixonados obsessivos pela linguagem, a diferença entre metonímia e metáfora. Ao menos é isso que está inscrito nas entranhas dessas palavras.

Na etimologia, metonímia significa mudança de nome, meta mais onoma. E metáfora, mudança de lugar, meta mais ferain. Então, a distinção é essa. Enquanto uma respeita a distância entre os nomes, a outra a despreza.

Talvez uma analogia ajude. A metonímia é um passo. A metáfora é um salto. É difícil, porém, dizer o que é metáfora e o que é metonímia nesse último caso. Os professores de português precisaram domesticar essa diferença para o vestibular, que de maneira um tanto perversa pede, em questões ditas objetivas, que se calcule o vão entre analogias. Ao menos não se pede ainda o cálculo da área.

Ora, qual régua poderíamos usar para dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa se tudo o que fazemos o tempo todo é dizer que uma coisa é outra coisa? Às vezes a gente acredita tanto naquilo que inventa que esquece que é invenção. Sorte é lembrar de nossa natureza lúdica. Ao brincar, qualquer bobagem pode galopar. Então, pensar o vão pode ser interessante.

A busca pela resposta correta tantas vezes leva ao fracasso certo. Este é um caso em que mais vale o exercício de encaminhar as dúvidas para quem sabe chegar a múltiplos acertos.

Os manuais de semântica apelam à distinção entre contiguidade e similaridade. A metonímia dá passos, mas não salta. A metáfora é um sapo, anda aos pulos. No entanto, por precaução, é melhor voltarmos aos equinos. Dizer que o cavalo é sua crina e que o desejo é um cavalo são procedimentos analógicos que se distinguem pela distância que o pensamento percorre entre um nome e outro.

Crin e cavalo habitam o mesmo prado. Cavalo e desejo são criaturas que se estranham. Mas se a analogia é a base da linguagem, como acreditar que exista qualquer coisa mais próxima ou mais distante daquilo que descreve? Nisso está o problema, ou a graça. Onde termina a metonima e começa a metáfora? Poderíamos dizer que a fronteira entre elas é a malícia.

A metonímia quer te explicar. A metáfora está te explicando para te confundir. A metáfora triangula.

Pela sobreposição de duas imagens heterogêneas, ela abre na selva da linguagem uma trilha misteriosa que leva de uma a outra. Assim, vamos do A ao B, mas nos vemos obrigados a desviar pelo desvario do C. Como vimos, os linguistas mais ousados dizem que metáfora e metonímia se distinguem pela lógica. O que é no mínimo engraçado. Lógica? Parece melhor pensá-las em termos de sentimento.

A força de uma metáfora reside no caminho que ela nos faz percorrer. No mapa da palavra, ela aponta dois lugares distantes e nos convida a inventar um jeito de chegar. É como se dissesse, olha, lá longe, vê. A frase é pronunciada. E nada podemos fazer se não persegui-la como a um balão. É uma misteriosa espécie de encantamento. E talvez a diferença entre metonima e metáfora seja a de um gracioso sequestro.

O desejo é um cavalo sem rédeas. Começamos assim, com esta metonímica metáfora. O que será que ela quer dizer? Uma maneira de entender mais, sobre isso que continuaremos sempre a não entender, é continuar as analogias. Querer é uma arte.

Mas ninguém sabe dizer o que a arte é. Pedacinhos quebrados de porcelana que se rejuntam em mosaico. Naco de terra úmida do qual se inventa um vaso. Ruído de cordas que se amadeira em canção. Fios coloridos que se entrelaçam no tecer de um tapete. Corpo que se empresta aos desvarios de uma personagem.

Luz que se captura, palavra que se profere, gesto que se dança, paixão que se escreve. Querer é um verbo que move as mãos e também os ventres, os olhares tanto quanto as ideias. Querer são os calores atrás dos quais migram as aves, a cor das flores a enlouquecer os insetos, o luar pelo qual anseiam os lobos, o ar em que tomam fôlego as baleias.

A carícia de que gostam os cabelos. Querer, ninguém sabe o que é. Querer, ninguém sabe o que. Querer, ninguém sabe. Mas sabe que quer.

É isso! Texto brutalmente poético, maravilhoso. E estamos aqui com dois amigos muito queridos, mas estamos aqui por um motivo ainda mais especial, porque a gente tá com uns episódios bem temáticos, digamos assim, né? Esse texto, ele é escrito muito pensando na oficina.

de escrita que o Rafael vai falar um pouquinho, né? Oficina de Reflexão Escrita é o que ocasionou esse texto. Eu dei uma aula sobre a diferença entre metanime e metáfora de forma provocativa para levar as pessoas a escrever. E o último parágrafo desse texto, Querer é uma Arte...

ninguém sabe o que quer, mas sabe o que quer, ele veio como eu escrevi esse exercício durante a oficina nessa aula. E aí foi um jeito até em termos de processo do texto, ele entra no texto, mas a parte explicativa não tinha. A parte explicativa foi uma aula que eu dei e aí eu transformei em texto numa oficina que a gente fez sobre a Annie Carson e aí deu nesse texto que agora tá pronto e que eu tô trazendo pra vocês.

Mas foi um dia encontros das oficinas de reflexão e escrita. Então quem estiver interessado, é esse tipo de reflexão que a gente faz lá, entre várias outras, depende da autora, do autor que está guiando nossos estudos. Mas é esse tipo de discussão que a gente faz na primeira hora. Na segunda hora a gente escreve. Na terceira hora a gente compartilha o que escreveu uns com os outros e comenta. E aí esse foi um dos exercícios que eu compartilhei também. Isso é uma coisa muito legal, porque é perceptível no texto a quebra.

E o final, ele diz muito de algo que acontece na oficina, e é muito legal que você também faz, né? Então, não é uma posição de quem está acima, é uma posição de quem está estudando e também quer fazer. Com certeza. E é muito legal o começo do texto, porque mostra bastante também esse lado que tem nas oficinas, que é de expor alguma coisa, expor alguma ideia. Então, a ideia das oficinas é perfeitamente ilustrada nesse texto. Que legal. Muito bem.

Fala se vocês não querem aprender a escrever bem assim, igual esse texto. Obrigado, querido. Tô satisfeito com ele, foi divertido de escrever. É um texto que ele tá te explicando pra te confundir, tá? Ele é um texto que ele tem já no título, né? Metonímica, metáfora já é uma brincadeira. Mas que serve pra gente pensar essa discussão que eu adoro, que é a natureza analógica da linguagem. E o que é que a gente faz quando a gente inventa nome pras coisas, enfim.

Mas eu queria começar com uma brincadeira. E nisso participaremos os quatro. O que, aliás, é uma ótima oportunidade. Quatro pessoas. Faz tempo que a gente não grava um episódio de quatro. E aí a gente vai... E aí a gente vai... Vai aproveitar esse momento. E aí a brincadeira é a seguinte. Eu vou falar quatro frases.

Vou falar uma de cada vez. Então, vou falar a primeira. Vou contar até três. E cada um de vocês vai falar junto. A gente vai falar junto. Se a gente acha que é metonímia ou metáfora. Putz, vai. Tá bom? Vai, vou acertar todas. Vai. Tá bom. Posso começar? Então, a primeira. A primeira frase é... O suor do meu trabalho. Um, dois, três... Metonímia. Metáfora. Ah, não vai ser. O Gui me atrasou.

Eu não pensei que a gente fosse falar junto no microfone porque eu achei que não ia pegar nada. Tipo, todo mundo falando ia ficar meio, sei lá. Metáfora, metáfora. Mas você tem a resposta ou você tá dizendo o que você acha? Não, ele tem. Não tem resposta. Não tem resposta. É o que eu ia dizendo, é possível. Porque pra mim soa muito como uma metonímia. Pra mim é metáfora de sacrifício.

hum, pode crer pra mim é metonímia de você pega o suor e joga no conjunto o trabalho você soa muito no seu trabalho? mas o trabalho no começo era suor então, eu já faria essa comparação também que acho que inclusive tem um respaldo linguístico

Tá, vamos lá. Que é que as coisas começam com o metonime, como o metonime vão se abstraindo, assim. E aí, temos uma hipótese. E aí, tem... Eu digo que eu já vi pesquisas nesse sentido da linguística, que a língua evolui desse jeito mesmo.

Em direção à abstração. Então, tem algumas expressões que a gente tem, quando eu digo, por exemplo, além disso. Em algum momento, a gente usou isso de forma literal. Tem algo e tem algo que está além disso. E aí, isso vai se meio que desprendendo e virando uma expressão corriqueira, assim. Tipo, isso de fato aconteceu na evolução do português. Então, eu diria que, de fato, assim, em algum momento a gente suava pra trabalhar.

E aí, isso foi ficando mais abstrato, né? Tipo, o suor do meu trabalho, às vezes, sei lá, trabalho no escritório, não sua. Não sua. Mas essa expressão vale, né? A gente pode usar ainda. A gente pode usar. Eu sou uma pessoa caloreita que sua muito. Dependendo do paciente, eu tô suando muito. Gostei, gostei da brincadeira. Faz sentido, não faz? Faz tudo sentido. Vamos para a próxima, segunda frase.

Engolir o choro. Um, dois, três. Metáfora? Metonímia. Não sei nenhum, acho. É. Eu acho que é literal. Você tem que engolir mesmo, assim, pra segurar o choro. Mas é um literal que já tá um pouco estranho. Porque a gente usa o engolir num sentido bem direto de comida. E aí quando você fala de engolir o choro, você já tá...

É, sim. Um pouco deslocado, eu diria. Engole, se chora, tipo, para de chorar. Eu tô querendo dizer para de chorar, na verdade. É, sim. Porque aqui quando você chora, você tá meio rirento. Você engora, faz sentido. Mas eu acho que já tem um deslocamento já. É, acho que sim. É, não tem... Enfim, já entramos aqui em uma certa discordância, né? Vamos pra terceira.

O que que você falou? Eu falei metonime, acho. Agora eu já nem lembro direito. Eu falei metonime. Que é tipo, eu imagino um líquido escorrendo e a gente engolindo. Eu imagino uma coisa meio parte a parte. Uma coisa meio choro fisiológico. E aí eu penso em metonime por causa disso, mas...

Até porque o que você engole é o ranho que cai do choro. Mas você toma isso pelo choro como um todo. E aí é bem metonímico esse jeito de pensar. Mas aí se você for pensar em choro… Você não engole o choro como um todo porque você não engole a lágrima, sabe? É, mas sabe essa coisa que você tem meio que respirar e meio que engolir pra não chorar, sei lá? Eu pensei meio nisso. Mais um, mais um. Terceira frase. Eu tenho sangue frio. Putz. Um. Ah!

Desculpa, vai. Queima uma largada. Volta. Um, dois, três. Metáfora. Olha agora. Se o ouvinte também disse isso, é porque...

Tamo bem. Pleno, eu duvido. Impossível alcançar pleno acordo em qualquer uma. Qualquer frase, né? Basicamente é o tema da coisa, mas... O que vocês pensam? Sangue frio. Sangue frio. Pra mim é metáfora porque é tipo dizer que uma pessoa é meio reptiliana, assim, que ela é quase não humana. Isso. Eu penso, tipo, tem um salto que eu já imagino... É tipo lágrimas de crocodilo.

Exatamente, então é meio isso pra mim É como se você tivesse sangue frio De um réptil Porque o réptil é meio visto como uma coisa imoral Tanto pela cobra Tanto pela cobra bíblica Quanto tipo, sei lá, cobra em geral É verdade É meio esquisito, sei lá É a discussão dos Utopia 2, hein Não percam

Porque é contra os répteis, é isso? É, os répteis são vendidos como vilões, assim. E aí tem toda essa narrativa que é construída em cima. A Pixar tinha que chamar a gente pra fazer umas discussões filosóficas. É, achei que a gente não ia concordar em nenhuma, pô.

Surpreta, tô quebrando meu argumento. E ainda tem a quarta. Como é que eu sigo com a moral da brincadeira? Tem mais uma. Tem mais uma. Quarta frase. Perdi o chão. Um, dois, três, metonímia. Metáfora. Sem dúvida. Metonímia? Eu tenho uma metáfora. Você acha que não é tão grande o salto semântico assim?

Eu acho que não, a sensação de perder o chão é local, assim, mas é metáfora também. É, eu diria que é uma metáfora porque ninguém perde, ninguém tá relacionado diretamente com perder o chão em nenhum momento. Então é uma experiência muito diferente, muito distante a sensação de queda livre.

A gente usa metaforicamente, né? Ah, perdi o chão quando você tá desesperado. É. Mas a frase sem contexto nenhum, pode muito bem ser uma metonímia, não? Ah, não sei. Acho que tem a sensação de, tipo, você não perde o chão por muito tempo, né? Porque se você perdeu na passada, você se esborrachou, ele já tá pertinho, sabe? E aí, pensa numa pessoa que está andando na rua.

E aí ela cai e aí ela fala perdi o chão. É metonime. Porque não é literal também. É verdade. A pessoa falaria, ah, eu caí, eu tropecei. Perdeu o passo, né? Perdi o passo. Então aí tem a troca da metonime é o que é? Mudou só o nome. Mudou o nome de passo pelo chão. Então fora de contexto é que... Me estatelei. Me estatelei. Me esborrachei. Como é que é? Como é que se cai literalmente? Me diz. Não quero falar.

Tenho alguma experiência no assunto, porém prefiro não me pronunciar. E esborrachar também é muito bom, né? Não quer dizer nada, assim, porque tem a ver com borracha. É porque a borracha, você raspa ela, assim, ó. Eu me esborrachei, tá ligado? Quando você raspa a borracha. Deixou um pouco pelo onde passou. Deixou um pouco ali, no concreto.

Mas bom, pensei essa brincadeira pra colocar a gente no tom da conversa, porque é um assunto difícil e eu acho que ajuda a gente a evidenciar essa dificuldade que a gente inventou, que é de pensar a linguagem e encontrar nome pra processos diferentes de analogia. E aí, tem dois processos que a gente nomeou, um deles chama-se metonímia, outro deles chama-se metáfora.

E aí, como é que a gente diferencia uma da outra? Metonímia é aquilo que existe uma substituição de nome, mas o nome está... Eles estão dentro de uma proximidade semântica. Existe um campo de significados que estão mais próximos. Então, você substitui um nome por outro. Aí tem aquelas categorias que se organizam para vestibular, tipo a parte pelo todo, o autor pela obra. Então, sei lá, eu bebi um copo.

Você não bebeu um copo, você bebeu água, você bebeu cerveja, você não bebeu um copo, mas é uma metonímia no sentido mais que é porque beber e copo são coisas que semanticamente se aproximam. Então, relação de contiguidade. Metáfora, por outro lado, seria uma mudança, seria um transporte, né? Metáfora em grego, para contar uma pequena anedota, se você vai para a Grécia, está escrito nos caminhões.

Atrás de caminhão de mudança. Tá escrito metáfora. Por quê? Metáfora significa, em grego, simplesmente dá pra traduzir diretamente como transporte. E aí, a metáfora seria um processo analógico que despreza a distância. Ela pula de um salto, de uma região semântica da linguagem, pra outra completamente diferente.

E aí a gente não tem mais uma relação de proximidade. Beleza, até aí tem coisas que a gente consegue falar, não, isso é uma metonímia claramente. Ah, eu li Machado de Assis, beleza, metonímia, ok, tá claro. O desejo é um cavalo, beleza, metáfora, tá claro. Agora, chega uma zona, tem uma zona cinzenta muito grande entre essas duas coisas.

que é muito interessante de ser pensada. Porque, de repente, a gente já não consegue mais dizer exatamente o que é um passo e o que é um salto, o que é uma metanímica e o que é uma metáfora. E aí, em vez de pensar em diferenciar essas duas coisas pela lógica da língua...

Porque a lógica da língua é muito ilógica, é muito difícil de ser, de colocar, de encontrar lógica nos processos de linguagem, embora tenha, é um desafio absurdo, né? De pensar uma distância de sentimento, uma distância do que a metáfora faz. O procedimento da metonímia e o procedimento da metáfora em termos de pensamento e processo de pensamento, eles se distinguem. E aí é muito interessante voltar ao Aristóteles quando ele diz a metáfora é o pensamento pensando a si mesmo.

Ele propicia um... Na retórica ele fala, né? Ele propicia um prazer do pensamento que é o de pensá-lo. A metáfora, ela é alguma outra coisa. Então, é um pouco esse o convite que existe nesse texto. De pensar que tipo de experiência a gente tem com uma boa metáfora. E metáfora serve aqui pra analogias poéticas de maneira geral. Pra mitos. Total. Total.

Sim, acho que isso me chama muito a atenção, me chama muito a atenção no texto, assim, porque isso de fato é como a gente pensa, né? Eu dei esse exemplo da linguística, e na linguística isso foi uma grande coisa, quando a gente começa a analisar a mudança, né? Eu falei desse ponto de vista, porque, assim, ela primeiro revela que a língua obedece a processos cognitivos gerais, né, Lanoé?

Uma coisa à parte, como algumas vertentes da linguística tentam defender. Mas mais do que isso, pensando de um ponto de vista mais filosófico, a gente de fato depende disso e depende desse processo para tentar fazer sentido mapear o mundo.

E a gente usa isso o tempo inteiro. Então, levar isso até o limite, que eu acho que é o que você faz no texto, no fundo é deslocar esse deslocamento que a metáfora tem. E nessa linha de fuga, vamos colocar assim, mostrar como ela funciona, como ela é importante para o nosso pensar. Eu achei isso muito bom do texto.

Tô pensando que talvez tenham duas direções que a gente escolhe fazer a língua ir, que é, você pode tentar ser o mais literal possível, e aí você vai fazer um esforço nesse sentido, você vai inclusive tentar defender que existe uma literalidade plena, sei lá, e tem autores que eu acho que vão nessa direção.

Ou você pode dizer que, já que é impossível a literalidade plena, porque como apontar o mais absoluto, como descrever o mais absolutamente a maçã, se não sendo a própria maçã, apontando para ela ali, ou dando na mão da pessoa. Então, quando você abdica um pouco dessa ideia...

Sinto que a língua também tem esse outro lado, que é... Ela começa a brincar, ela começa a perder esse desejo de uma objetividade plena pra começar a ir por um outro lugar. Eu não sei, eu me mudei há pouco tempo e eu tava montando armário. Ah, vem a metáfora. Olha lá.

Começamos. Historinhas para conseguir ilustrar. Eu me mudei há pouco tempo e aí eu tava montando armários, sabe? E aí eu fiquei imaginando agora nessa nossa conversa como seria se o manual de montagem do armário fosse poético. Quanto tempo!

eu ia ficar montando o armário se falasse, aí você pega o galho retornecido e pontudo e insere ele na cavidade mais alta, para que os picos se elevem e você soerga a madeira ao seu, né, ápice

Tipo, mano, eu ia ficar horas montando armário, sabe? Ia ser muito legal, mas eu ia falar, tipo, velho, me descreve quantos centímetros tem um parafuso, porra. Eu quero montar isso logo. Então, eu tô pensando nesses dois movimentos da linguagem, né? Isso é uma definição da linguagem literária que você tá falando, me lembrou, que vem dos formalistas russos, que é já dizer de cara, é violência.

Ela é uma violência com a linguagem comum. E é nessa violência que a gente consegue um novo tipo de expressividade, vamos dizer assim. Faz sentido? É. O Bartz diz que essa violência é anterior, né? Que a linguagem é uma estrutura opressiva.

Porque a linguagem é uma estrutura normativa. E aí o Bartz, ele, o Roland Bartz, né, fala sobre a literatura e a ficção como formas de reação a uma violência de estrutura da linguagem. É o jeito como a gente consegue pensar coisas como desejo. Porque eu entendo quando a gente tem, precisa de um manual de instruções para montar um armário. Mas e quando a gente precisa falar de desejo? E aí você quer um manual de instruções? Você acha que um manual de instruções vai dar conta de falar sobre desejo?

E aí, tá, não só desejo, mas sobre vida, sobre natureza, sobre relações humanas, sobre os problemas que a gente enfrenta. O Rainer Maria Hilke tem uma ideia muito boa também, que é o acontecimento é um lugar em que palavra nenhuma jamais pisou. Isso é demais. A linguagem, a maior parte do nosso tempo, a linguagem é um procedimento de tangenciar as coisas.

Tipo, passar assim, uf! Então, por mais que a gente acredite que a linguagem tem função, e eu acho que todos nós acreditamos nisso, a gente monta um armário graças... Eu concordo com isso, jamais desprezaria isso. Mas eu diria que os processos que a gente precisa pra viver a maior parte do tempo, a gente usa a linguagem de outra maneira. E aí, só que a gente é obrigado a habitar um outro território de linguagem o tempo inteiro também.

Então existe um autoritarismo que eu diria que é anterior, ao qual a gente confronta com a poesia, com a literatura.

Uma violência reativa, talvez. A violência que eu sinto quando eu leio alguém, um poema muito poeticamente estruturado, na verdade é uma violência da própria estrutura da linguagem que suprimiu a possibilidade disso acontecer outras vezes. É, não tem poética... A linguagem funcional, ela quer eliminar a margem de múltiplos entendimentos.

Então ela é uma estrutura opressiva nesse sentido. É preciso que você entenda por parafuso, parafuso. Ou pensando nas relações de trabalho, pensando nas relações de função dentro dessa estrutura normativa. Então, no caso, voltando ao Barthes, o que ele está dizendo é existe um autoritarismo já de saída e a gente recusa isso para ampliar o que a gente pode sentir e dizer através da linguagem.

de reunite, temo que não nos livraremos de Deus enquanto ainda acreditaremos na gramática tem algo de estruturante e estruturado nisso

E gramática é mó legal, esse é o problema também. É uma bosta isso. Figuras de linguagem, legal. Gramática, também legal. É uma questão de uso. E eu acho que, até na linguística, assim, esse olhar maior pra metáfora que eu tava falando, né? Botando meu diploma em letras pra jogo, assim.

É que você não consegue, então, analisar a língua só formalmente. Porque esse processo, ele tá nos níveis mais básicos. Você tá usando isso o tempo inteiro, né? Então, não sei até que ponto essa ideia da linguagem funcional...

Não existe mesmo, não existe mesmo, né? Exato. E na linguística a gente vê isso. O Lakoff, né, que é o linguista que fala isso, ele tem um livro que chama Mulheres, Fogo e Coisas Perigosas. E o que ele tá dizendo nesse livro, né? Mostrando essa metáfora e esse sentido de significado nas categorias de uma língua africana, se eu não me engano, que da mesma forma como a gente organiza os substantivos em masculino e feminino,

Essa língua tem tipo 30 dessas categorias. E aí, se você quiser aprender, você vai ter que aprender a conjugar 30 dessas categorias. E uma delas conjuga objetos que são mulheres, fogo e coisas perigosas. Mano, que brisa! Que brisa! Então, isso, de alguma forma, se traduz pra parte mais, entre muitas aspas, formal da coisa, né? É muito interessante. Muito.

É, acho que tem a funcionalidade de um pensamento mais materialista, que se desenvolveu muito na descrição dos objetos, né? E aí, a partir disso, a gente pode pensar em taxonomia, né? Nas categorias que a gente cria, o quanto que a biologia vai pra esse lado, né?

mas o que acontece quando a gente não pensa o mundo via categorias, mas pensa o mundo via predicados, via ação, né? O que aparece no seu texto, né? Como os verbos, né? O que seria possível se a gente pensar por meio do verbo? Quais são as identidades que se tornam possíveis? Então, as aproximações com coisas que estão em classes totalmente distintas E eu acho que nós podemos ver nós podemos ver nós

Passa a ser possível. E aí eu acho que a gente começa a falar mais. De uma outra coisa. Que acontece de comum. Nesses corpos. Nessas vivências. Isso é muito bom. Porque a gente forma categorias. A partir de coisas. Que compartilham. Substantivamente. Alguma coisa. Em termos de. Uma categoria de coisas que compartilham.

É, né, geralmente as categorias são assim, funcionam como essências de coisas, né, então, utensílios de cozinha, então, né, função, que nem você tava falando, né, tipo, a gente cria categorias que são muito, a gente escolhe os predicados que mais são sujeitos, né, que a gente identifica como sujeitos nessas coisas.

Quando a gente passa a distanciar os predicados, a gente cai num terreno de metáfora. Porque aí, a gente tava falando sobre isso, né Guiama? Sobre o silogismo que você trouxe. Quer falar disso? Fala disso. É massa.

Ai, meu Deus. Tem um silogismo mais famoso que diz Sócrates é um homem e os homens morrem. Então, Sócrates morre. E aí isso já está dentro e está enquadrado, né? Está dentro dessas categorias, né? Então, a gente não meio que é homem, o Sócrates está dentro dessa categoria e aí os homens... E aí

E o Sócrates também morre, né? É uma característica desses sujeitos. São coisas que eles fazem. E aí uma outra bem interessante para pensar as coisas de um outro modo é o silogismo da planta, né? O homem morre...

Não, a planta morre, os homens morrem, os homens são plantas. Sim. Tá bom, sim. A gente, aí nesse processo, é um processo de analogia muito mais distante, onde a gente tá pegando dois predicados que são possíveis se dizer as duas coisas e elas podem se aproximar por esse predicado.

E aí o contra-argumento disso é que seria algo muito poético. E além disso, que esse tipo de estrutura de pensamento tá muito mais próxima dos esquizofrênicos. Que eles pensam por predicado, pensam pelas ações. E aí, me alongando um pouquinho mais, dá pra gente ir aqui do lado, né? O espanhol tem isso como característica na língua, né? Você não fala, eu quebrei o copo, né? Aí você fala, lobazo sirumpio.

mais voz passiva é a coisa que acontece né, então tem essa inversão do sujeito que é o autor da ação e aí a gente sai um pouco dessa lógica de ação consequência sabe? sim, que é um pouco como a gente se enxerga né, no mundo

E acho que até a lógica, a partir de algum momento, se desenvolve com essa ideia de que o âmbito gramatical é diferente do âmbito do pensamento. Então, no fundo, quando eu coloco em linguagem, eu estou traduzindo um processo que foi interno. E acho que quando a gente olha para essa metáfora, é meio que...

cada vez mais difícil dizer isso, né? Separar essas coisas. A gente tá... Não sei se tem uma separação clara entre o que a gente diz e o que a gente pensa, né? Essa é uma outra pergunta e ótima pergunta.

E aí eu também lembrei do Don Quixote, das palavras e as coisas. Aham. Porque ele... No Foucault. No Foucault, é. Porque ele fala dessa personagem que ele vê o moinho, o moinho é grande, logo o moinho é um gigante, né? É um pouco esse processo, assim.

O processo todo da era clássica pro Foucault é meio... Tá, a gente precisa aprender a nomear, classificar, analisar todas essas áreas. Então a taxonomia, mas também a língua, a economia, etc. E aí o Foucault vai fazendo a análise dele. Mas é totalmente o esquizofrênico. Né? Esse retrato do Don Quixote, assim. Bem legal.

E aí, então, fazendo o elogio das metáforas, voltando ao elogio das metáforas, né? Que é... É muito diferente você falar o corpo dele é bonito e falar o corpo dele é como a curva de um rio. É muito diferente.

É muito diferente o que acontece no processo de pensamento dessas duas frases. O que a frase pronunciada por meio da metáfora faz com o pensamento é a pessoa ter que encontrar pontos.

pra triangular, pontos de apoio dentre as duas coisas. Então ela é obrigada a pensar o que é um corpo, qual é a experiência que eu tenho de um corpo, o que é a curva de um rio, qual é a imagem. E de alguma maneira ela tem que fazer essa atividade. E a boa metáfora convoca o pensamento a funcionar.

Quando eu descrevo apenas da maneira mais literal possível e mais... Você tá querendo ir falar da experiência que você tem lá com o corpo do boy. Você quer falar sobre isso? Você vai falar, ah, tal... Nossa, porque é muito bonito e porque, sei lá... E isso nada vai comunicar o que de fato você precisa. Ou seja, existe algum tipo de comunicação muito mais...

É inteligente no uso da metáfora e que não passa pela lógica. E que não é previsível. A metáfora, você nunca sabe se a pessoa vai... Quando é muito previsível é chata, né? É chata e às vezes não funciona. Às vezes a pessoa fala, ah, não saquei, não entendi.

Mas existe um processo de cruzar as coisas de uma forma absolutamente imprevista que faz esse gracioso sequestro. Que, de repente, você junta duas coisas, né? E que tá também na frase escolhida do texto, que é o desejo a um cavalo sem rédeas, uma alusão a Platão e o mito da parelha alada.

Isso não é um pouco da linguagem menor, assim? Num sentido de produzir um desvio na linguagem habitual, né? O lugar que você tá nesse campo de descrição, que as coisas estão muito contidas, né? Num campo muito seguro, que não produz nada na interlocução, né? Sim, é tipo se propor a mobilizar isso como uma arma, né? Isso é bem legal.

Gostei muito dessa ideia. Tava tentando ir por um outro caminho. E eu acho que esse caminho é legal, que é... Se eu vou descrever a minha comida favorita, a minha pessoa favorita, o meu lugar favorito... Eu corro o risco de perder a própria intensidade que passou por mim... Quando eu uso uma descrição de um campo semântico muito dado. Sei lá, eu fui... Sei lá, eu passei o fim de semana num parque de diverso.

E aí perguntam pra mim como foi. E eu falo, ah, sei lá, eu fui na montanha russa, ela é muito rápida e alta. E aí eu fui depois na roda gigante e eu dei um beijo na pessoa que eu gostava. Que eu tô descrevendo, tá correto? Eu tô falando as coisas que tem que ser ditas pra pessoa entender o que aconteceu no fim de semana. Mas é um campo semântico.

de roda gigante e velocidade, montanha-russa, que é tão óbvio, a passagem de um para o outro é quase tão... Não gera surpresa que a emoção que eu senti quando eu fui na montanha-russa e a emoção que eu senti quando eu peguei na mãozinha da pessoa que eu gostava ali, no pôr do sol da montanha-russa, não vai passar com essas palavras. E aí acho que a montanha-russa me dá emoção.

Do mesmo jeito que a metáfora me dá emoção. Por esses saltos, por essa velocidade, por esse alguma outra coisa que de repente eu tô de ponta cabeça e não sei como eu vim parar aqui. Tem até uma emoção, né?

Que é diferente do cientista descrevendo, né? Ah, tô vendo aqui que tal faixa de frequência de luz foi... Até tem emoção nisso, mas eu vou deixar pra outro momento, né? É, tem o campo da surpresa nisso que você tá dizendo, né? É, acho que vai por aí. Você não tá percorrendo o mesmo caminho que você já sabe o que esperar, né? Você tá dentro daquele grupo semântico de palavras, nada muda. Por isso que eu falei que tem metáforas chatas, sabe? E aí a gente pode chegar num lugar muito doido que é...

A associação livre, que do nada você tá num campo semântico de palavras e tem um salto bizarro. E aí nesse salto é tipo, tá, mas como é que esse desvio é produzido, né? Me fala desse atalho, sabe? Como é que você chegou de um lugar até o outro?

outro. Como é que isso apareceu aqui? E aí é uma brisa, porque você começa a ver que todo o processo semântico tô inventando, não sei se existe essa palavra, mas eu tô tentando entender que você usa determinadas palavras em determinados contextos, que é uma normalização da língua, que é aceito.

E, mano, por que essa outra palavra apareceu aqui do nada, né? Não é do nada. É porque todo esse campo semântico que é normalizado, quando chega essa pessoa singular, ela tem alguma outra coisa nela que, né?

passa sorrateiro pro discurso. Chama-se triangulação e a crítica de las Guatarrías é sempre a triangulação é edípica. Essa é a crítica deles na linguagem, pensando, né, a triangulação é sempre edípica, então tudo que liga todos esses pontos é sempre papai ou mamãe. Eles estão falando não, e eu concordo muito com isso. Não, não é isso.

Porque a triangulação, e a triangulação aqui evitem pensar apenas geometricamente, né? Não é que a gente faz, liga um ponto reto, uma reta, né? Tem um caminho de A a B, e aí você faz um ponto reto até o C, e aí depois um ponto reto até o B. Não é a triangulação no sentido puramente geométrico. É triangulação no sentido de que você precisa de um terceiro termo pra chegar de um lugar a outro.

Então você não consegue chegar entre um significado e o outro em linha puramente reta. Você precisa de passar por um terceiro lugar. E é isso que é um outro jeito de pensar a metáfora nesse texto. Você aponta num mapa da linguagem, você aponta um lugar e aponta o outro e fala, chega lá, sei lá como você vai chegar, dá um jeito aí. E aí podemos, se vocês quiserem pensar geometricamente, então podemos pensar até em termos de integral.

que fazer várias triangulaçõezinhas assim, você vai tendo que fazer tipo, puxa vou ter que fazer vários esforcinhos pra chegar lá mas você vai fazer um caminho maluco no fim das contas uma forma muito doida pra conseguir associar desejo e cavalo, sabe não tem como chegar de um pro outro sem fazer esse desvio, e esse desvio é um processo de enriquecimento ou elaboração dos nossos processos cognitivos e aí

E que aí a gente tá jogando como final do processo da linguagem, mas ele tá na base. Ele tá na base. A linguagem sempre triangula. Porque não existe caminho direto entre a palavra e a coisa. É, até porque dentro do campo do pensamento que a gente só tem imagem, né? Tipo, nunca tem a coisa. E aí são imagens se relacionando com imagens.

E onde fica a coisa? Na relação, nas muitas relações que a gente estabelece pra conseguir manter essa relação de identidade coesa. É isso que eu tava falando, que a metáfora pode ser muito sem graça. E esse que você tava falando do desejo é um cavalo, eu acho que vai muito...

ao encontro da aula que eu dei nos seminários de formação sobre o pequeno Hans, onde o cavalo é, obviamente, o pai. Você citou a triangulação que o Deleuze Guattari criticam, e aí é exatamente isso, né? A criança, ela tem um vocabulário tão esquizofrênico, acho que dá pra gente usar exatamente essa palavra.

Que é tão maluco o jeito de uma criança descrever o mundo, o jeito de uma criança falar sobre as coisas, falar sobre como as coisas afetam ela, até experimentar as coisas no mundo. É um jeito esquizofrênico. E, obviamente, as palavras que a criança também usa vão refletir essa maneira de sentir, essa maneira de pensar. O que é o desejo para uma criança?

Daria pra perguntar pro pequeno Hans, o que que é o desejo pra uma criança e também o que que é um cavalo pra uma criança? E uma criança, ela nunca vai fazer as definições que a gente espera que ela faça, né? O Freud fala, o cavalo é o seu pai. Mas uma criança tá o tempo todo se perguntando o que que é o desejo, o que que é um cavalo.

Sim, perfeito, perfeito. E aí a gente chega numa outra brincadeira que eu queria propor pra este episódio, que é que cada um pegasse essa metáfora na mão e falasse livremente um pouquinho, assim, o desejo é um cavalo sem rédeas.

O que isso significa pra vocês? Qual o caminho o pensamento de vocês percorre quando eu pronuncio este encantamento? Eu posso começar, pode ser? Pode ser? Eu posso começar. Eu acho que eu tenho duas ideias de desejo que me marcam muito. E a primeira é exatamente nessa metáfora. A sensação de desejo como algo impetuoso, algo forte, algo que simplesmente vai... E aí

levando a gente. Tem uma frase legal do Schopenhauer que às vezes, que eu guardei muito e que às vezes eu falo, que é sela bem o cavalo e cavalga sem medo. E aí, por que que sela bem o cavalo e cavalga sem medo? Porque se você sela mal o cavalo, você certamente vai cavalgar com medo, porque o cavalo sem rédeas é uma coisa, o desejo como um cavalo sem rédea é algo assustador, é algo que vai levar a gente, sei lá pra onde.

Muito consistente com o Chopin, que quase diria não deseje. Não deseje. O Chopin vai por esse caminho. Não deseje. E às vezes a gente tem medo do desejo e quer não desejar. Agora, o desejo é um cavalo sem rédeas é uma...

digna, né? Digno de quem está vivo. Eu desejo como um cavalo sem rédeas. E porque, assim, a gente não tem como descer do cavalo. Entendeu? Não é isso, é uma metáfora. Não é um cavalo literal. Se o cavalo quiser sair correndo e fazer o que ele quiser, ele meio que vai fazer, assim. Se tem um rato, como é que é? O cavalo tem medo de que mesmo? Não, o elefante tem medo de rato. Se o cavalo tem medo de alguma coisa, fodeu.

Sim, totalmente. É, eu penso nisso, assim. E lembro muito do Fedro também, o diálogo do Platão, que a gente vai falar daqui a pouco. Pode falar agora. Mas que em determinado momento existe essa metáfora do cavalo alado, né? E que tem... Aliás, que a alma tem dois cavalos, né? Aham.

E um deles é da parte irascível, da parte desejante, e outro seria da parte racional, que é, enfim, contemplar as formas, e eles vão meio que disputando, assim, a nossa vida, no fundo, é uma biga desgovernada por esses dois cavalos, assim.

Maravilhoso, maravilhoso. Foi muito inspirada essa frase, muito inspirada no Fedro. Mas, ela surgiu um dia em que eu estava conversando com o Matheus Guimarães, que aqui está presente, estávamos falando da vida, não é mesmo? Ai, Matheus, como está a sua vida, Guimarães, meu bem querido? Tá tudo bem, tô tudo tranquilo. E aí, mandou um desejo é um cavalo sem rédeas. Anotei, anotei. Falei, acho que eu concordo. Isso que dá, você vê, né, esse conversa com as pessoas, elas estão ali, ó, anotando as frases boas.

Mas nessa aí eu prefiro ser o Sócrates do que o Platão, então estamos bem. O que você pensa sobre essa frase, amigo? Primeiro que é ótimo cavalgar. É verdade. Mas que há momentos em que a gente não sabe no que se agarrar.

Porque se não há rédeas e se há esses disparos e tal, a gente fica um pouco sem saber como se equilibrar, se sustentar nisso, sabe? Mas vai dando jeito. Só que o processo é um pouco angustiante.

Só que também tem essa coisa de pensar que não é algo num ritmo contínuo, né? Que o campo do desejo não é só esse momento de desespero, né? Ele acelera, ele desacelera, ele salta, né? Tem várias possibilidades, assim. Mas acho que indica o quanto a gente não tem muito controle disso.

Que é ir na contramão, basicamente, de tudo que a gente escuta enquanto neurose universal, sabe? De, tipo, de contenção dos desejos, de tomar boas decisões e se você tá certo e se você tá seguro, né? Acho que é uma crença numa racionalidade que é muito ingênua, porque a gente esquece que racionalidade é desejo também. E quem tá... Cara, eu...

Quem tá guiando a racionalidade então, sabe? Tipo, a racionalidade também tá em cima do cavalo sem rédea. Minha vez, né? A primeira coisa que eu penso é sobre um cavalo mesmo. Eu tenho um exercício, em toda metáfora tem um exercício de literalidade que é muito interessante. E um cavalo é um bicho muito bonito, né? É um bicho muito interessante, assim. E ele é belo e ele é bravo.

Então, tipo, né, o D'Anton, eu coloquei no texto, né, ele é belo, ele é bravo, ele é forte. E aí, beleza. O desejo, aí uma outra coisa que eu penso é, o desejo, muitos dos meus estudos, muitas das coisas que eu pensei até hoje é, a gente é meio constituído de desejo. O texto termina falando, todo mundo sabe que quer alguma coisa. A gente não sabe o quê, nem sabe o que é isso, mas a gente quer.

Meio que isso é constitutivo da nossa experiência, o querer é constitutivo da nossa experiência no mundo. E aí, dizer que o desejo, parando aí já, o desejo é um cavalo, parece pra mim já levar pra um, o desejo é um outro, o eu é um outro. Tem alguma coisa que em mim...

Que tá fora do meu campo de compreensão e de conhecimento. E a primeira coisa que eu penso, tipo, né? Um cavalo, ele é muito diferente de mim. Então eu já fico pensando um pouco o desejo como sendo uma coisa que me constitui, o cavalo como sendo uma coisa muito diferente, muito bonita, muito mela, muito brava. E aí o Sem Head, as traz uma coisa de eu quero montar esse cavalo.

Eu quero ser um com esse bicho. E aí, legal, mas não tem onde se segurar. E aí me leva pra um campo de pensar a experiência de desejar como uma convocação pra um desafio, assim. Porque a gente se vê muitas vezes fazendo decisões pra controlar melhor as situações.

né? Então você vê o cavalo e fala, ele tá bonito lá, né? Deixa ele lá, deixa ele lá, eu vou ficar aqui na minha. Eu vou ficar aqui na minha, eu prefiro... Então, o cavalo, ele é descontrolado, mas eu sempre, sei lá, a gente tem um espaço doméstico e protegido em relação a esse cavalo. É como se esse cavalo estivesse meio livre numa pradaria, e aí parece que o desejo é esse processo assustador de falar, ah, eu vou correr junto aí nessa porra, eu vou montar nesse bicho aí, vou tentar dar um jeito, eu sei que eu vou me esborrachar.

O Sam Hedges me traz isso. Eu vou cair do cavalo. Eu vou cair do cavalo. Não existe um cavalo que começa a trotar e você fica em pé se ele não quiser que você fique. Então, você vai cair. Você vai ser derrubado. Então, pra mim, a frase leva muito pra esse lugar de, tipo, o desejo vai te machucar. Mas ele é bonito. Ele é breve. Ele é breve também. Ele é bravo também. Então, me faz pensar nesse campo selvagem.

de desejo. Que bonito, né? Esse breve aí aparecendo, lindo demais. A união sublime é o cavalgar, porque o cavalgar é o ato de estar em cima do cavalo trotando. É a simbiose, né, do ser humano e o cavalo equino.

Vira um verbo, cavalgar, né? Você não vai cavalgar se o cavalo estiver lá na pradaria, se você estiver longe dele. O cavalgar é, já tá ali, assim, já tá alguma coisa acontecendo. Ele cavalga sozinho, né? Mas pra gente cavalgar, a gente precisa... Eu diria que ele trota, eu diria que ele corre.

É, talvez dê pra dizer que ele cavalga. Sim, acho que dá. O cavalo cavalga. É verdade. Eu cavalgar... Então, mas percebe que louco? Porque aí eu tô conjugando um verbo de um outro ser, sabe? É, se tornar junto com outro. É essa brisa, né? Beleza, o cavalo cavalga sozinho, mas e eu quando cavalgo? O que é isso?

Sim, ou ele galopa sozinho E a gente cavalga ele Então é por isso que eu pensei assim Tá faltando galopar O que que é quando você Vai, vai, pra ser Bem, bem Bem porco, né É um devido cavalo Um devido cavalo Pra ser bem porco Vamos nos manter nos equinos Vamos nos manter nos equinos

O que é esse dever cavalo? O que é cavalgar? O que é cavalar? O que é, né? O cavalar, inclusive, é advérbio de intensidade, né? É verdade. Cavalar, uma dor, cavalar, sei lá, né? E me chamou a atenção na sua fala que é que existe sempre esse momento de estranhamento, né? A gente sempre estranha esse cavalo num primeiro momento porque ele tá nos deslocando, né? E cavalo é medida de potência, né? Não é à toa que tá no termo dos motores, né?

Filosofia dos cavalos. Mas isso é uma coisa que eu fiquei pensando também, saindo um pouco do âmbito cavalar, que é justamente como na filosofia as metáforas são muito produtivas. E aí eu pensei tanto no Bergson, como as metáforas meio geológicas de tempo, que a geologia é duração pura. A geologia não acabou.

A geologia está durando, né? E na nervura do real, que é, porra, uma metáfora botânica incrível pra descrever a relação dos modos, né? Dos modos não, né? Dos atributos. Em Espinosa. Da Shaui. E aí você fala, cara, quer dizer, ela tava lendo, sei lá, alguma coisa de botânica, não sei de onde veio essa metáfora, e pô, isso aqui eu posso usar pra explicar o mundo. Pô, isso é foda.

E tem uma crítica da metáfora na didática, pensando a filosofia como didática. Mas aí, nossa. A filosofia não é tão fã das metáforas. A gente tem ótimos autores, mas várias vezes tem crítica. Porque a filosofia é racional, lógica, analítica.

Por que que existe uma crítica da metáfora na filosofia muitas vezes? Porque a metáfora não te ensina o caminho. A metáfora, ela te lança, ela te joga. Mas aí a gente tem Platão falando assim, é por isso que ela é boa, quando é uma boa analogia, quando a gente tem uma boa metáfora.

A gente vai ser lançado em direção a pensar. A gente não vai se apropriar da letra morta e aprender a repetir o que é um conceito e explicar o que é conatos. A gente vai ser levado, quando a gente diz que o conatos é um orgasmo cósmico, a gente vai ser levado a pensar de novo o que é as coisas explodindo em afirmação para todos os lados.

e aí a potência da metáfora ela é pra mim muito maior e merece muito mais respeito do que a crítica da metáfora que eu entendo, porque pode ser que com uma metáfora alguém não entenda nada da filosofia específica de um determinado autor

Mas também porque a gente tá tendo um emprego em autor também, sabe? A gente volta pra crítica anterior a essa, eu acho. Então eu entendo numa aula, às vezes, a pessoa, né? E é muito comum, né? Como didática mesmo. Tipo, eu vou tentar não usar metáfora pra vocês entenderem quase em abstrato o que que eu tô falando. E aí depois a gente pode ir pros exemplos. Depois a gente pode pensar coisas e situações e imagens e poesia e etc.

Mas eu acho tão... esse caminho do pensamento, ele é tão frio. Ele é tão... parece uma vontade de compreensão que perde o tesão da coisa, sabe? Eu prefiro ser lançado e pensar, né? Diretamente.

E é algo que, pensando no Fedro, é justamente o ponto, porque também é o diálogo principal, assim, que o Platão critica a escrita, né? E fala que, ah, e aí o pessoal meio que, nossa, olha que hipócrita, ele critica a escrita e tá escrevendo, uou, lá crê o Platão, assim. E na verdade, assim, nesse diálogo, né, ele tá tentando...

converter, no sentido que o Pierre Hadot diz, assim, o Pedro que é um jovem e ele começa o diálogo encantado com um discurso de outra pessoa que tá escrito e aí o Platão vai tentar, aliás, o Sócrates um discurso sobre o amor, que dá lá as regrinhas de como você não se dá mal no amor, um livrinho de 10 dicas para não cair no golpe da paixão

E aí o Sócrates vai dialogar com isso e vai justamente propor a metáfora depois do cavalo, enfim, e outras. E aí a gente vê, bom, então o que ele tá fazendo isso? Justamente ele tá usando isso, e são metáforas que tem um conteúdo filosófico ali no fundo, justamente pra trazer o Fedra e dizer, olha...

através da metáfora a gente vai chegar num lugar muito além. Não dá pra gente fazer isso aqui porque a gente precisa praticar dialética. Nesse discurso ele tá só discursando. A gente precisa debater e pensar junto, né? É um diálogo também que o Solcresta tá doido pra comer o fedor. E como tem esse subtexto da sedução, exato.

A metáfora é um artifício sedutor, é um encantamento, é uma hipnose, mas que faz com que tenha que pensar. E aí é isso, né? É diferente você ter um manual, é querer o manual de montagem do armário para pensar o amor.

E é o que tá todo mundo procurando. É o que muita gente tá... É, acha que existe esse manual. Só que aí a gente é obrigado a pensar mesmo. A gente, com uma boa metáfora, a gente é obrigado a pensar. Que é também o que o Sócrates tá fazendo, né? Que é, eles tão discutindo também a retórica. E aí é, quem pode falar sobre as coisas, né? Como que a gente pode falar exatamente sobre as coisas? E aí...

De um jeito não óbvio, assim, mas tem um pouco essa atualização dessa pergunta socrática, que é, tá, o que que permite que o poeta fale do mundo, assim? Onde tá, né? Como que a gente pode falar do mundo? E aí no seu texto é, como é que a gente pode falar do desejo? Essa pergunta fundamental da filosofia, meio que...

E nesse campo, na relação entre poética e filosofia, eu não tomo lado, não. Eu não vou tão longe a ponto de dizer que a filosofia é apenas um gênero literário, que nem iria o Derrida, né? Eu acho aí já é um pouco a mais. Mas...

Eu não acho que a filosofia ganha em se afastar dos processos de pensamento literário como a poética. Eu acho que a poética, ela é parte do que encanta a gente no pensamento. Então, essa relação pra mim, ela é de proximidade.

Mas até na vida, né? Assim, eu não sei como é que eu quero dizer isso, mas eu tô pensando, a poética, ela faz um texto ficar mais literário, legal. Use recursos de figuras de linguagem, blá, blá, blá. Mas o que acontece quando você sobe...

Você lê uma poesia muito foda. O que acontece quando você levanta o olho do livro? O parque que você está está mais bonito. Sabe? A vida está mais bonita. Esse olhar literário, ele vivifica, a arte vivifica a vida mais do que eu dizer que desejo é meus genes querendo se reproduzir. Traz muito mais.

A estética vai mudar a sua experiência no mundo. É, é, é. Sim. E é algo que, mesmo na filosofia, é um pouco uma relação alma e corpo, essa tentativa que a filosofia faz e se desvincular do próprio corpo, que é o texto.

É extremamente localizada. Assim, porque vão ter os autores que vão criticar a retórica e a gente meio que até hoje tem isso, né? Esse fetiche logicista, né? Em algumas áreas da filosofia. Vou te convencer pela verdade, única e exclusivamente. E o que importa no texto é essas relações lógicas, né?

Mas isso, tipo, até, sei lá, o Descartes meio que não tá em jogo, assim. Porque tá todo mundo, tipo, todo mundo estuda retórica. Às vezes você vê uns vídeos na internet que é assim, ah, se você quer um livro fácil de filosofia pra começar, lê o Sêneca. E assim, pode até ser, o Sêneca é um pouco mais palatável.

Mas se você não entende o que é o gênero epistolar, e todas as formas de se construir um raciocínio dentro desse gênero, que era como as pessoas estudavam, enfim, como pensavam filosofia, pô, você vai perder muita coisa também. Então, esse movimento, ele tá na filosofia o tempo inteiro, no Montaigne, né? Não é... Tipo, isso é uma coisa muito recente, você conseguir tentar separar essas coisas, né? Total.

Então, pensando o próprio Platão e a escolha por escrever diálogos, né? É um pouco isso, né? Como se a filosofia pudesse se despreocupar da forma da palavra. O tipo, a maneira como se fala sobre a coisa, é tão importante para a filosofia quanto é para a literatura. São procedimentos...

relativamente distintos, e a gente pode discutir essa distinção. Mas aí falar que a filosofia não pode usar de metáfora, que a filosofia precisa se bastar por uma estrutura lógica, eu acho um tanto... Eu acho que a gente perde a mão nessa distinção. A gente vai dizer que a filosofia é apenas metonímia no máximo. Ela não pode dar esse salto.

Sendo que ela é esse salto, na minha opinião. Entre filosofia e poética tem muito mais relação do que parece ter a princípio. Não vou dizer que filosofia é poesia, nem de que poesia é filosofia. Aí talvez é um pouco a mais para mim, mas estou me repetindo. Não acho que filosofia seja um gênero de poesia.

Mas é poética, em vários sentidos. E no sentido de que faz a gente ter que inventar um jeito de entender aquele negócio. A filosofia, quando propõe determinadas ideias, a gente só alcança se a gente inventar um jeito de chegar. A gente, às vezes, não entende mesmo. A gente é tomado, a gente é colocado num campo de discurso em que a gente só não compreende nada.

E a gente precisa inventar um jeito de se organizar naquele discurso. Inventar um jeito de se organizar naquele discurso, se for em texto, é entender também a proposta do texto. A maneira como as palavras aparecem no texto. A maneira como aquilo se insere em um discurso. Não é só entender o conteúdo do texto. Se você não entender que Platão escreveu diálogos porque ele não acreditava que a filosofia poderia ser esgotada ou exercida numa dissertação...

você não vai entender direito coisas muito fundamentais da filosofia platônica. Se você não entender que o Montaigne escrevia ensaios porque ele não acreditava em conseguir manter a mesma opinião do começo ao fim no processo da escrita, porque ele acreditava que o processo da escrita era um processo de modificação de si, que era o de tentar entender ao escrever, usar a escrita como um modo de compreensão...

Se você não entende isso, você vai achar que ele não tem graça, porque ele não sustenta a tese nenhuma. Então, o processo de filosofar e o processo de escrita tem relações muito íntimas, e a gente nunca pode esquecer disso. A Carson é a referência fundamental desse episódio, eu acho, e uma das minhas referências fundamentais. E numa frase muito simples, ela diz, eu escrevo para tentar entender aquilo que eu penso sobre alguma coisa.

E faz até os grandes sistemas soarem um tanto engraçados, né? Assim, e todo o meu respeito à Spinoza, né? Ou Schopenhauer, Leibniz, tem vários, né? Tem o Aristóteles, talvez, como o maior nome. E como é engraçado, como chega a ser engraçado isso? Porque todo grande sistema tá fadado a desmoronar.

Por ele próprio, caso o autor viva muito tempo, a não ser que seja um puta teimoso, como tem também na filosofia, mas um autor vai mudando de ideia ao longo do tempo, ou desenvolvendo essas ideias, e todo grande sistema está fadado a ser questionado por outro grande sistema, de uma outra pessoa bem inteligente também, que veio depois e que pensou que você estava pensando, mas por outros caminhos. Então, eu sinto...

Vocês falaram, o Rafael tava falando agora, mas a gente tá conversando e eu lembrei da terapia, da pessoa sentada num divã, deitada no caso, num divã, que ela tá falando pra entender também, né? Ela tá, é um diálogo enorme dela, meio que com ela própria, né? O terapeuta tá lá, ele intervém, mas ele intervém não no sentido de uma troca dialógica, né? É muito mais uma intervenção na fala da pessoa.

E ela tá tentando entender uma coisa que o discurso dela, como tá configurado, não entende. As palavras que eu tenho pra explicar o que é o desejo, eu não consigo explicar o que é o desejo. Eu ainda não sei que o desejo é um cavalo sem rédeas, eu ainda não disse isso. Eu tô tentando descrever o desejo de um jeito que não bate ainda, não bate, não dá certo, não vai.

E aí é um trabalho até poético de uma certa forma, que é, é, eu sei, isso foi traumático, você não tem palavras pra isso ainda. Eu sei, você tá triste de um jeito que nem a palavra tristeza dá conta de descrever. E como é que a gente faz? Pra que lado que a gente vai agora? E não é só na terapia. O que eu tô dizendo é, a gente tá o tempo todo usando as palavras pra tentar se localizar ou se deslocalizar também, né?

em vários momentos. Porque é ter essa consciência do uso e dos limites desse uso, que vai virar a grande questão ética socrática, assim, né? Que é, tá, a gente pode viver uma vida sem refletir.

sobre o nosso discurso, sobre as coisas que organizam o nosso comportamento. Então, beleza. Então, quando eu começo a pensar sobre isso, quando eu começo a, não sei, né, pensando, vou falando, falando na terapia, e aí vai o... Eu vou dando corda pro analista me enforcar, né, vamos dizer assim. Aí ele dá aquela pergunta... Ai, que ótima metáfora! Que, tipo, que quebra completamente. Aí você fala, bom, é, então...

Tipo assim, eu podia viver a minha vida inteira nesse discurso que é... Tem uma contradição ali fundamental. Que me impede de sentir coisas doloridas. E pô, eu tô tendo a coragem de olhar pra isso, né? E acho que é o que o Sócrates faz também. Total, total. Quero escrever sobre isso, hein? Total. Sobre o desapego da compreensão. Ou o apego à compreensão. É tipo, eu quero entender um pouco das coisas que eu sinto e das escolhas que eu faço.

E isso não é uma posição assim tão... Ah, é uma coisa que eu faço aí, sei lá, esse negócio de pensar sobre a vida é uma coisa que eu faço. É uma coisa que requer assim, requer da linguagem especialmente, tem muitas formas, muitas linguagens diferentes, muitos jeitos diferentes de fazer isso. Mas pensando ética, né? E eu acho que é isso. É encontrar boas metáforas pro desejo, por exemplo.

É, porque tem um lado da, sei lá, pensando na literatura, que tem uma certa má consciência disso, né? Tem um sofrimento quase patológico dessa impossibilidade de nomear, né? E é, não sei. Digno do neurótico. Bem Fernando Pessoa, pensei assim. Fernando Pessoa é neurótico total, completo, assim. E não sei, parece ter outras possibilidades de viver isso, né? Que são mais corajosas, assim.

Eu tenho visto, não acho que vai dar pra gente entrar, mas eu tenho visto essas questões de filosofia oriental que abdica da palavra, né? Que fala, olha, eu acho que tem algo de muito interessante nesse contorcionismo da palavra, né? Nessa estripulia, nessa encavalgar a palavra.

E tem um momento também que parece que você abdica da palavra e meio que tenta chegar nisso por outros meios, né? Então acho que tem esses dois lados também. Tá do lado do desapego da compreensão. É. Talvez venha esse texto no futuro, mas eu acho que o misticismo também tá um pouco. É.

É que o misticismo é louco, porque ele é meio que uma compreensão, mas é uma compreensão que não tá nesse campo... Não é esse campo. A compreensão de um místico que tem uma postura... Eu diria que é uma postura compreensiva. É totalmente diferente da postura do especialista, do cientista que entra lá. Porque o cientista faz troça na sua lofa. Uma pessoa puxou um termo português, né? Fica zoando o...

O místico. E o místico, ele parece estar num lugar que ele não compreendeu com as palavras. Ele abdicou dessa compreensão. Mas eu diria que tem algum tipo de compreensão. Que é o que... Acho que talvez nem dê pra usar essa palavra, então. É alguma outra coisa. Mas tem.

Eu concordo muito, assim. A minha experiência com o budismo, né, que inclusive já até gravamos, é bem essa, assim, porque o discurso budista, ele circula em vários registros diferentes, em vários níveis, nesse tensionamento da linguagem, e você vai meio que indo além dela, assim, né? Muito doido.

Vamos voltar aos cavalos. Voltando aos equinos e permanecendo aqui nesse terreno... Vamos ficar de quatro de novo, vai. Nesse terreno hípico do qual partimos. Eu acho que a gente tem uma coisa muito engraçada na linguagem, que é, tá no texto, a gente tá o tempo inteiro...

fazendo operações do tipo, essa coisa é outra coisa. Essa operação, que é a base da linguagem, ela parece que a gente não dá o devido maravilhamento a esse procedimento, eu acho. A gente acredita demais que é na linguagem de uma forma que às vezes ela se volta contra a gente. E aí eu acho que quando a gente propõe continuar com as analogias, quando a gente propõe para entender isso mais...

eu vou ler poesia, pra entender isso mais, eu vou tentar escrever, eu vou, sei lá, eu vou usar, eu vou flexibilizar a palavra, eu vou usar a palavra de jeitos pro qual ela parece não ter sido feita, ou pro qual ela não respeita nenhum tipo de função, é porque a gente tá tensionando as...

O verbo ser, basicamente. Numa frase como o desejo é um cavalo sem rédeas, essa frase só funciona como atividade de pensamento se a gente sabe que ela tá dizendo que o desejo é um cavalo, mas que ele não é um cavalo. É um modo de saber não sabendo, tá no texto? E aí, por que que é triangular de novo? Porque não funciona se você entender literalmente.

Não funciona se você entender e falar, tipo, desejo não é um cavalo, para de piada. Só funciona se tiverem contraídos, é e não é, gerando uma terceira coisa, que é a coexistência dessa contradição. E aí que tá a beleza da coisa. E aí a gente continua as analogias, falando que o desejo é a carícia de que gostam os cabelos. O desejo é o calor atrás do qual migram as aves.

E aí, pra cada um desses processos é a gente tentando dar a palavra e confiando nessa imprecisão semântica ou nessa impertinência semântica, nesse processo que ele é brincalhão. Ele se apropria da natureza comum, da natureza da linguagem de forma lúdica.

E lúdica, porém séria. Lúdica, porém, né? No sentido de... É uma brincadeira de verdade, né? É uma invencionice. E aí é nesse sentido que tem o elogio da metáfora.

Eu gosto muito, eu lembrei do João Cabral. Ah. Porque esse é um procedimento que ele usa muito e acho que ilustra muito bem. Quando ele diz, por exemplo, uma faca só lâmina. Ele dizia, uma faca, mais que faca lâmina, lâmina, mais que lâmina, não sei o quê. E porque no fundo ele vai chegar o quê? No fio.

Ele tá dizendo de algo afiado, que ele quer que a palavra dele seja como esse fio. Mas ele vai jogando vários termos que são e não são, né? Pra ir como se fosse abstraindo esse significado mais abstrato, mais seguro, assim. É muito legal.

Usos poéticos, né, de novo. Usos poéticos. Pra chegar num significado tão simples como o afiado, todo um processo de analogias pra traduzir isso na palavra, na experiência da linguagem. Acho que esse é um outro caminho também. A gente não consegue, na linguagem escrita especialmente, a gente não vai conseguir fazer ninguém pensar.

E por isso que eu sou tão elogioso do ensaio, tão elogioso das analogias dos mitos, da contação dentro da filosofia. Porque a gente não consegue fazer ninguém pensar se a gente não chegar, se a gente não propor uma experiência de linguagem.

Eu adorei esse é e não é ao mesmo tempo. E aí quando você falou da brincadeira, eu pensei que às vezes as pessoas fazem isso, né? Elas falam alguma coisa e aí é uma brincadeira. É uma brincadeira. Não tô falando isso. Mas você falou isso.

Você acabou de falar isso. Não, mas eu tô brincando. Não é isso. É e não é. Porque às vezes só dá pra dizer uma coisa não dizendo ela. Você diz como uma brincadeira. Você diz como uma metáfora. Você diz sem dizer.

Este foi o Imposturas 316 A capa do Felipe Franco A edição de áudio do Pedro Jansur Assistência de produção da Bru Almeida Texto meu, Rafael Lauro Na companhia, Rafael Trindade Com quem eu divido A criação e coordenação desse site Matheus Guimarães, convidado Querido amigo

E meu amigo querido também, Pedro Tiné. Só pode responder com uma interjeição. Que nem a gente. Uau!

Repetindo uns recadinhos do começo, pra quem chegou até aqui o fim, você gosta do nosso trabalho? Ajuda nós! Faz aí uma assinatura pra fazer com que esse trabalho continue e receba benefícios como desconto em oficinas, seminários, participação em grupo de estudos, acesso a mais de 100 aulas que tem lá no site, tá? Na verdade, a gente contou, né, recentemente, tem 638 vídeos no site. É, não é pouca coisa, né?

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É, esse é o que menos tem ação direta na divulgação do trabalho, né? Na divulgação do trabalho, eu acho que... Não, você grita um oi pra gente, aí você dá uma cotovelada pro cara do lado e fala ó, aquele cara ali é gente boa. Aí é divulgação. Pois é. Aí é divulgação. Mas dito isso, eu adoro quando... O pessoal que escreve no ônibus assim, né? Ouça, razão inadequada. Isso aí, ó, tá vendo? Picha no muro. Picha a sua cidade. Responsa, aí eu já acho o responsa. É isso.

Mas é isso, fala com a gente também, chega mais. Fechou, gente? Muito obrigado pela presença de vocês, pela escuta de todos. E até semana que vem. Beijo! Falou!

Semi Breves, edição de podcast.

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