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Ser honesto ainda importa?

26 de abril de 20261h23min
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Neste episódio, mergulhamos nas camadas filosóficas da honestidade — não como uma simples virtude moral, mas como um elemento fundamental na construção da realidade individual e coletiva. O que significa, de fato, dizer a verdade em um mundo onde narrativas são constantemente moldadas? A honestidade é sempre o melhor caminho, ou pode se tornar um peso em certas circunstâncias?

A partir de reflexões que atravessam diferentes tradições filosóficas, discutimos o conflito entre verdade e conveniência, autenticidade e aceitação social. Exploramos como a honestidade influencia nossas relações, nossa identidade e até mesmo nossa liberdade.

Um convite para questionar: ser honesto é um ato de coragem, de ética… ou de resistência?

Participantes neste episódio2
A

Alisson Frank

Co-host
V

Veríssimo Furtado

Co-host
Assuntos5
  • Honestidadehonestidade e desonestidade · filosofia de Sócrates · filosofia de Kant · filosofia de Aristóteles · filosofia de Nietzsche
  • Conflito entre verdade e conveniência
  • Impacto da honestidade nas relações
  • Honestidade na política
  • Desonestidade no sistema econômico
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Esse é o podcast Salta Caminho, eu sou Veríssimo Furtado. Eu sou Alisson Frank.

E no episódio de hoje nós vamos conversar um pouco a respeito de se vale a pena ser honesto. O que você acha? Será que no mundo de hoje a honestidade ainda é um valor do qual nós devemos priorizar?

respeitar, colocar como um princípio para a nossa vida? Ou será que não vale apenas ser honesto diante de toda essa realidade que nós vivemos? Em muitas situações, parece que ser honesta é coisa de tolo. Em muitas situações, parece que a honestidade...

que também está ali casada, digamos assim, com a sinceridade, ela não vale a pena. Quantas vezes o exemplo que eu vou dar é até muito clichê, mas acontece, ainda hoje acontece muito, talvez agora menos por causa do dinheiro virtual, mas...

Muito se dá esse exemplo de quando um operador de caixa, por exemplo, dá o troco errado para a pessoa. E a pessoa percebe que recebeu o troco errado.

E muitas vezes, qual é a atitude correta? Aliás, não é correta, porque a correta a gente sabe qual que é. A atitude correta é voltar lá no caixa e dizer, olha, você me deu o troco errado, então aqui eu estou te devolvendo a parte a mais que você me deu. Mas esse exemplo é colocado aqui porque muita gente...

faz isso e eu penso e quero acreditar que a maioria de agir com honestidade, devolver o troco, mas há aqueles que não fazem. Mas antes de a gente julgar, já jogando pedra nessas pessoas que não fazem, a gente deve se perguntar, por que não fazem? Quais foram os critérios lógicos, os critérios sociais, os critérios...

de vida mesmo, de história de vida da pessoa, que levou ela a fazer um outro cálculo e acreditar que era mais valioso ser desonesto numa situação como essa, do que ser honesto. Porque alguns valores na sociedade parecem que são valores sagrados.

a honestidade, o amor, a fidelidade, o respeito, a sinceridade, a verdade. Só que isso é o que se diz em público. E não necessariamente é o que as pessoas praticam.

E aí, às vezes, a honestidade pode ser um presente muito caro. Como ela é um presente caro, algumas pessoas, diria aquele cara que escreveu um livro sobre o jardim, acho que é o Warren, algumas pessoas são muito baratas para receber um prêmio tão caro desse.

Então aí já é uma maneira de pensar em com quem que eu devo ser honesto. Se alguém agiu com falta de honestidade comigo e em uma outra situação, eu tiver a oportunidade de ser desonesto com esse alguém, será que eu devo ser desonesto ou será que eu devo me manter honesto?

porque é o meu princípio fundamental e eu não posso abrir mão dele. O que diriam, por exemplo, filósofos como Sócrates, Platão, a respeito dessa questão, se a honestidade vale a pena ou não? Essa é uma pergunta muito boa. Esse conflito da gente ficar se perguntando, com quem a gente deve ser honesto?

se vale a pena ser honesto com gente desonesta. Porque se você é honesto com gente que é desonesta, todo mundo sabe que ele não é honesto, você também sabe que ele não é honesto. Você não está fazendo papel de besta, você não está sendo voluntariamente besta. Eu vou ser honesto com todo mundo, escolher isso como um valor. Eu vou ser honesto com todo mundo, independente...

do tipo de relação de honestidade e desonestidade que os outros terão comigo. Se você pressupõe que a honestidade é um valor seu, e que ele não pode ser corrompido, e que assim, as pessoas podem ser desonestas com você, que você vai continuar sendo honestas com ela, isso não é meio besta?

não é semeio besta nas relações sociais. Isso é um problema para a gente, eu acho que sempre foi um problema em todas as sociedades, quando a gente pensa principalmente nesse exemplo que tu trouxe, que é o exemplo do negócio no mercado.

uma compra que você faz no cotidiano. Se a gente quiser atualizar isso aí para um Pix, muitas vezes a gente recebe um Pix errado, né? Alguém mandou um Pix para outra pessoa e errou um número lá do celular e esse Pix foi errado. Se a pessoa detectar que recebeu um valor de Pix que não era para ter recebido, a primeira coisa que ela tem que fazer é retornar.

Isso é a atitude de uma pessoa honesta. Mas, assim, parece que a honestidade é uma coisa muito óbvia, parece que a gente está tratando aqui de um assunto muito óbvio, mas não é tão óbvio assim, porque se fosse, não estaria aí sendo assunto...

sendo uma temática de vários pensadores ao longo de mais de dois mil anos. E aí para citar aqui, alguns pensadores são filósofos que se debruçaram sobre questões como essa.

E até mesmo fatores de exemplos religiosos mesmo, como o caso de Jesus, o cara muito honesto e tudo, e que acaba sendo crucificado. Tem um exemplo que eu gosto, um exemplo da Bíblia. O auge da honestidade, me parece, quando Jesus está encurralado e ele fala assim, dê a César o que é de César e dê a Deus o que é de Deus. Eu acho isso muito honesto.

resolve um problema, eu estou dizendo a verdade, não estou mentindo para ninguém, e estou separando as coisas para dar a cada um o que é seu.

E ao mesmo tempo eu ensino, né? E ao mesmo tempo tu escapa de uma cilada política em que te meteram. É, escapa de uma saída muito inteligente. Falando de um ponto de vista literário, é uma saída muito inteligente. E eu acho muito inspirador. A imagem de Jesus como exemplo de alguém que defendia um valor me parece...

lapidar para a gente começar a traçar o perfil aqui do que seria, então, essa tal de honestidade com a qual a gente esbarra cotidianamente e decide se vai ser ou não honesto nas nossas relações com as pessoas. Porque mesmo que a gente não pare para pensar, mesmo que a gente não se ponha à pergunta é honesto o que eu estou fazendo ou é desonesto o que eu estou fazendo,

Mesmo não se pondo a pergunta dessa forma tão elaborada, a gente esbarra com isso todo dia, o tempo inteiro. Por exemplo, alguém que devolve o dinheiro que lhe foi entregue indevidamente.

e faz propaganda da sua imagem, como uma pessoa muito honesta, que teve uma educação muito boa, sabe? Isso é legal, isso é honesto, entende? É honesto usar um pequeno gesto seu do cotidiano para fazer brilhar a sua presença.

como se você fosse o exemplo moral de existência de todos sobre a Terra. Isso eu acho muito complicado. Ao mesmo tempo, a gente está o tempo inteiro, no nosso dia a dia, fazendo escolhas que podem ser honestas ou não. Nas relações com os filhos, nas relações com o cônjuge, nas relações com os colegas de trabalho.

Todas as relações pressupõem algum nível de honestidade que a gente tem que ter. Por exemplo, num debate, quando a gente está dialogando. Quantas vezes eu já participei de debates em que eu falo uma coisa, a pessoa que ouviu sente a necessidade de desfigurar o que eu disse.

só para sustentar uma posição dela diante daquilo que eu estou falando, que eu teria dito, né? Isso não é honesto. Não é honesto desfigurar o argumento de outra pessoa só para você dizer que ela está errada e que a tua posição é a correta, e aí você se calca na sua idade, sabe? Nos anos que você trabalhou nisso ou naquilo. Não é honesto. Em falácias, né?

construir e se apoiar em falácias, né? Ou se apoiar, então, numa hierarquia, dizer que você tem mais alguma coisa do que o outro e, por isso, você tem mais poder. Então, certas... A gente está o tempo inteiro lidando com níveis de honestidade ou desonestidade durante... nas nossas relações com as pessoas. Eu acho...

que um ponto importante é a gente saber fazer, como nesse caso, como Jesus, saber separar. Eu vou ser honesto com fulano, mas ser honesto é exatamente o quê?

Porque a coisa não é tão simples. Ser honesto com as pessoas é sempre fazer o bem para elas? É sempre fazer o bem para mim? O que é ser honesto? Qual é o território que a gente está, de fato, sendo honesto ou não sendo com as pessoas? São questões importantes que a gente tem que se fazer, porque senão as pessoas...

Iludem a gente, enganam a gente, compram a nossa presença e o nosso pensamento para ficar ludibriando, para dizer que nós somos coisas que nós não somos. E a gente tem que ter ciência de quem nós somos. Quando nós nos propomos viver plenamente aquilo que nós acreditamos que é um valor, que precisa ser defendido, que tem que ser preservado.

Com todas as críticas que Sócrates, o filósofo, sofreu ao longo da história, e tem muitas críticas que são válidas, de fato, muitas coisas ali do que ele ensinava, do modo de vida que ele levava, são discutíveis.

Mas eu acho interessante quando o sujeito toma para si uma posição e leva aquela posição no seu modo de vida, ou seja, quando o discurso condiz com a ação. Porque no caso de Sócrates...

Ele foi julgado, eu não sei quantos eram os seus julgadores, mas eram muitos, e ele sabia, quando ele foi lá para o julgamento, ele sabia que ele ia ser condenado à morte. E mesmo assim ele disse, não, já que eu vou ser condenado à morte, eu não vou lá me defender. Ele foi, defendeu e manteve suas ideias.

E como ele se tornou um problema político quando ele já estava condenado à morte, estava preso, aguardando.

a sentença, os caras deram uma oportunidade para que ele fugisse. E chegou essa proposta até ele, né? Olha, Sócrates, hoje à noite vai sair uns navios aí, vão deixar uma porta aberta aí, tu consegue fugir, com fulano e beltrano que vão te ajudar, nisso, nisso, nisso. E Sócrates, qual foi a atitude dele? Foi dizer não. E ele foi subversivo, sendo obediente.

Eu acho isso muito interessante em Sócrates, porque o cara conseguiu subverter ao sistema obedecendo as leis, as regras, o jogo do próprio sistema. E ele disse, não vou, porque primeiro, como é que iam ficar os discípulos? E depois, como é que fica toda a minha vida eu falando isso, pregando isso e agindo de forma diferente?

E não foi. E o problema ficou ainda maior para aqueles que o condenaram, porque ele virou um marte. Então aí, no caso de Sócrates, de Platão também, eles diriam que as pessoas não cometem desonestidade de forma involuntária. Ser honesto...

Ou ser desonesto envolve uma escolha, uma escolha deliberada. Então, é mais ou menos, grosso modo que eles falam, é mais ou menos o seguinte, tá, eu vou ser desonesto, como foi a oportunidade que Sócrates teve para ser, né? Eu vou ser desonesto, mas como é que depois eu vou conviver comigo mesmo? Porque a questão não é conviver com a pessoa com a qual você foi desonesto.

A questão é como você vai conviver consigo mesmo. Porque para Sócrates, agir contra a verdade, sendo desonesto quando sabidamente tu deve ser honesto, isso não é só uma regra que vem de fora, isso não é só uma regra externa, é também uma condição da tua alma se manter saudável. E na medida em que tu...

falta com honestidade, tu está adoecendo a tua alma. E esse é o teu maior prejuízo. Isso é o que talvez, traduzindo aqui para os nossos dias de hoje, eu diria, né? Você vai conseguir dormir tranquilo tendo agido de forma desonesta? Então, em vez de a gente perguntar right now, right now right now right now right now right now right now right now right now right now right right now right now right right now right right now right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right

vale a pena ser honesto? A gente pode se perguntar, quem é desonesto não já está pagando o preço mais alto, que é justamente o de viver de forma desarmoniosa consigo mesmo? Essa parece uma questão, lembra um pouco o modo como Dostoiévski constrói os...

romances dele. Quando, por exemplo, Raskolnikov está perturbado pelas escolhas que ele fez, e a gente sente todo aquele desequilíbrio, toda aquela desarmonia que o personagem tem, que ele está sofrendo, porque parece que, de alguma forma, ele maculou a própria alma. É uma questão muito importante.

Ao mesmo tempo, é uma questão que a gente tem que se fazer. Será que existem indivíduos ainda assim que possuem uma alma que se perturba?

com as próprias ações desonestas? Será que existem indivíduos que não conseguem dormir à noite porque fizeram alguma coisa errada durante o dia? Será que existem pessoas que sabem que as ações delas são frutos da ignorância delas e que por isso elas estão corrompendo?

a própria consciência e produzindo uma ausência de responsabilidade de si mesmo sobre as suas ações, no sentido de que isso incomoda alguém, alguém se incomoda com o fato de não ser honesto? Porque se é vantajoso...

Se é vantajoso, por que eu vou me incomodar? Afinal de contas, quando a gente para para pensar no cotidiano, alguém te mandou um pix errado, você ganhou aí 100 conto a mais, por que eu vou me incomodar com isso? O certo era, eu vou me incomodar porque está errado.

não é meu, independente do se vai ou não fazer falta para outra pessoa, não é meu, então tem que me incomodar. Mas eu não sei se ainda existe muita gente assim, que se incomoda com esse tipo de coisa. Acho que ela fica quietinha, caladinha, e faz de conta que não foi comigo, né? Essa é uma questão. A outra é que, para filósofos como Sócrates, por exemplo, me.

Para você agir de forma honesta, de algum modo você tinha que conhecer a honestidade. Conhecer a honestidade é ver exemplos de honestidade, que se questionar a respeito desses exemplos e saber que a honestidade é o que ela é. Segundo os ensinamentos de Platão, por exemplo, ela é o que é e só pode ser acessado pelo conhecimento, pela sabedoria.

Nesse caso, ela é um bem, né? E a desonestidade seria um mal ou a ignorância. Ou a ignorância, exatamente isso. Ou o mal ou a ignorância. E isso também, eu acho que tem a ver com o tipo de formação que as pessoas recebem.

o tipo de educação que as pessoas recebem. Em muitos casos, as pessoas acham honesto linchar alguém na rua, porque essa pessoa é uma pessoa que feriu a lei de alguma forma, a gente se juntou aqui e linchou. Isso é o certo a se fazer. Por quê? Porque essa pessoa cometeu um crime, cometeu um erro, e a gente está aqui, de alguma forma, fazendo justiça.

Mas isso não é honesto, isso não é certo. As mesmas pessoas, por exemplo, que defenderiam esse tipo de ação, de linchar alguém na rua, são as pessoas que fazem discurso de que é horrível um político desviar dinheiro.

Parece que as medidas são desbalanceadas, são desproporcionais. A honestidade é aquilo que beneficia a minha ignorância. Parece que é mais ou menos por aí que está se medindo o que é honesto e o que não é honesto.

Todo mundo vira a medida de todas as coisas sem que haja um acordo comum ou um entendimento claro a respeito do que é que todo mundo pode ou não fazer. Por exemplo, não faz muito tempo as pessoas diziam que eram, algumas pessoas que diziam que são cristãs, eram a favor de armas.

Aí você podia argumentar com ela, mas Jesus é um cara que foi torturado, foi pendurado na cruz e não sei o quê. Provavelmente Jesus não é a favor da tortura, da violência. Não, mas Jesus veio para trazer a espada. Ele mesmo disse que veio para trazer a espada. Ou seja, você busca argumentos para fortalecer a ignorância, e não o conhecimento, e não a sabedoria. São formas de desumanização.

Para quê? Porque você está a serviço dos próprios interesses. E a honestidade, ser honesto, não necessariamente é estar a serviço dos próprios interesses. Aliás, ser honesto não é colocar a si mesmo em primeiro lugar. Acho que essa é uma primeira coisa que é muito importante. Não é você acima de tudo e acima de todos. A honestidade exige um certo altruísmo. O sistema, como ele funciona, o seu modus operandi,

ele se mostra como um sistema muito desonesto.

Quando uma empresa faz uma propaganda de seu produto, ela está contando mentiras e ela está sendo desonesta. Está sendo desonesta porque ela só aponta o que teoricamente seria vantajoso daquele produto que ela está te vendendo. Ela não conta quais são o lado negativo que aquele produto...

oferece. Quando se vê na televisão ou na internet, no YouTube, nas propagandas em geral, o anúncio de qualquer produto, o que a gente vê no fundo é um monte de mentira sendo contada ali para conquistar o cliente. E esse jogo do mercado, esse jogo do neoliberalismo, ele é um jogo desonesto. Ele mente.

E mente em todos os aspectos. Quando a gente ouve alguém dizer, olha, se você investir nisso, naquilo, você vai lucrar não sei quantos porcento. Tudo aquilo ali é um monte de mentira. Para você que tem pouco dinheiro, porque para quem tem muito dinheiro, lucra sim, e lucra muito. Mas para quem tem pouco dinheiro, o cara vai investir com mil reais até ele conseguir algum lucro naqueles mil reais, já demorou demais.

a vida dele já passou. Não se fala honestamente como as coisas funcionam. Não se fala honestamente, olha, você vai se dar mal nisso, nisso e nisso. Só se fala assim, vale a pena, aproveite essa oportunidade. É tão desonesto que um determinado produto é posto no mercado para vender. Vamos supor uma...

Vamos pegar uma televisão como exemplo. Uma marca de televisão coloca uma TV no mercado e anuncia essa é a melhor TV do mercado, porque ela tem imagem assim, assim, assado. E aí ela faz aquela propaganda toda. Aí daqui a dois anos, essa mesma marca lança um novo modelo de TV mais evoluído e vai dizer assim, agora ainda mais...

revela ainda mais isso, ainda mais aquilo, quer dizer, aquela outra não já era perfeita. Se ela já era perfeita, por que agora tem essa outra que é ainda mais perfeita? Isso só revela o quanto esse modo em que o neoliberalismo trabalha, funciona.

é um jogo completamente desonesto. E aí, quando tu vai numa loja comprar um produto, o vendedor provavelmente vai ser desonesto contigo. Provavelmente vai ser desonesto, né? E se tu chegar a ser honesto nesse jogo aí, tu acaba sendo o trouxa da história.

Acho que a coisa mais honesta que tem nesse processo todo do sistema econômico no qual a gente está é convencerem a gente de que a gente precisa de uma coisa da qual a gente claramente não precisa. E você sai convencido que você precisa, que você quer uma coisa que você nunca nem tinha ouvido falar na vida.

Pois é, aí tu começa a desejar uma coisa que tu nem sabia que existia e aquilo ali passa a ser muito útil, um caso de prioridade. É tão absurdo que esse tipo de coisa aconteça. Eu concordo bastante com Deleuze, por exemplo, quando ele deixa claro para a gente que o capitalismo se apropria dos nossos desejos.

domina os nossos desejos, conhece os nossos desejos, se apropria dos nossos afetos para fazer a gente ficar preso nele, ficar preso na teia das malhas do consumo. O próprio sistema, ele cria desejos em ti. Sim. Ele produz esses desejos. Produz esses desejos.

E aí eu fico... A gente pode fazer essa comparação, essa dualidade, né? Se nós tivéssemos, de fato, uma formação na qual os valores fossem construídos de forma crítica, consciente e sólida, seria possível para o sistema econômico produzir esses desejos em nós?

A gente, desde pequeno, já não diria assim, mas não, não quero, porque eu acredito que isso vai corromper determinado estilo de vida que eu acredito que é a melhor coisa. Por exemplo, o próprio consumo, produção do plástico, a quantidade de plástico que a gente tem no mundo virou um problema. Mas se o cuidado com o mundo, a responsabilidade, aquele princípio responsabilidade de Hans Jonas fosse de fato algo...

como um valor ensinado nas escolas e nas comunidades, nas famílias, no país de modo geral. Será que as pessoas...

o mundo já não teria repensado esse negócio do plástico. Assim como outras coisas que a gente consome e que a gente incentiva à produção, não haveria um embate entre os valores que nós temos e as coisas que nós consumimos no cotidiano.

Essa estrutura comercial é muito desonesta no sentido geral mesmo. Bem, outro cara que também a gente pode trazer aqui para essa conversa é o Aristóteles.

porque quando Aristóteles fala de vícios e virtudes, que a gente sempre, vez ou outra, traz aqui esse ponto de vista do Aristóteles em relação a vícios e virtudes, ele certamente colocaria a honestidade como uma virtude e não como um vício. Mas aí perguntando para...

pensando dentro da lógica aristotélica, o que seria o excesso de honestidade? Porque a falta dela, a gente sabe o que seria. Mas o que seria o excesso de honestidade? Será que tem um meio termo para a honestidade? Tem que ser honesto até aqui, porque se você passar disso, vai ser um excesso e, portanto, vai ser um vício. O Aristóteles...

a honestidade, assim como todos os valores, está de fato ligado a um equilíbrio mesmo. Porque ele constrói muito essa visão de uma espécie de balança, na qual você tem que manter um equilíbrio. Como a gente entende que a honestidade...

Por um lado, na falta dela, a gente sabe bem o que significa. Acho que no excesso, a coisa da honestidade é não bancar o trouxa mesmo, né? É não dar uma de vacilão, não ficar acordado, não botar a bunda na janela para o pessoal ficar passando a mão na tua bunda, né? Eu acho que...

está um pouco relacionado a... ligado a uma espécie de justiça com os outros. E ser justo com os outros como uma forma de virtude moral é você fazer justamente aquele movimento saber separar o que é seu e o que é do outro. O que pode ser dado para o outro, o que pode ser oferecido.

para os outros e aquilo que deve ser preservado da sua vida, das relações. Se a gente pensar, a partir do ponto de vista aristotélico, num relacionamento entre casal, por exemplo, um casal, por mais que conviva um com o outro e tudo mais, só dá para saber, não tem como a gente medir, por exemplo, o amor.

Se realmente a pessoa te ama ou tudo, tu vai depender da honestidade dela de estar falando a verdade, né? De que realmente te ama ou não. A mesma coisa vale para uma amizade genuína. E eu acho que aí no exemplo da amizade é até mais difícil ainda, porque no caso de um casal, as pessoas convivem uma com a outra na maior parte do tempo.

E às vezes com um amigo não. Tem amigo que a gente vê uma vez por semana, passa meses sem ver, né? E essa amizade genuína, muitas vezes ela, aliás, todas as vezes ela vai precisar de que tu de fato esteja sendo honesto com a pessoa de quem tu diz ser amigo, porque...

ela não tem como medir o teu amor por ela. Não tem como medir a tua filia. E aí ela precisa acreditar que tu tá falando a verdade. E muitas vezes a pessoa acha que o amigo traiu ou tudo mais, mas no fundo talvez nem fossem amigos de verdade.

Agiu por interesse, enquanto foi interessante para ele, e quando não foi mais, saiu fora, fugiu, te abandonou, te deixou de lado quando precisou. Nas relações familiares, onde as pessoas se dão o direito de se ferir constantemente, as desonestidades são perdoadas com muita facilidade, os desequilíbrios são tolerados com muita facilidade.

E aí a gente vai só alimentando os monstros, né? Que vão nascendo no cotidiano. Muitas vezes, quando eu ouço certos anúncios de que a coisa vai descambar para o lado desequilíbrio, para mim fica muito claro com algumas frases feitas.

Quando, para dar um exemplo aqui de quando a honestidade se torna desequilibrada, é excessiva em Aristóteles, por exemplo. Quando a pessoa diz assim, olha, falando francamente, aí pronto, tu pode esperar que vai vir um monte de baboseira completamente desequilibrada, sem o filtro determinado sobre o que deve ser. Uma pessoa adulta, é dever dela saber...

como falar, como dizer coisas que incomodam, com mesura. Você está em desagrado, em desacordo, num debate, num diálogo. Falando francamente, aí você mede o que você diz com justiça, com responsabilidade, com saúde mental.

Não vale a pena vomitar tudo o que você acredita que é a verdade só para aliviar o seu peito. Isso aí você faz no psicólogo, não num debate, não num diálogo no qual você está buscando resolver conflitos, resolver problemas.

Então, acho que, falando da perspectiva do Aristóteles, uma pessoa que diz a verdade, por exemplo, sem nenhum filtro, no sentido de não saber medir como as coisas podem ser postas, como as cartas podem ser postas sobre a mesa, como ela vai aparecer.

Acho que isso é um desequilíbrio, né? Isso me parece um desequilíbrio na hora de trazer a verdade para o jogo, nas relações, de forma honesta. Então, esse é um ponto que eu vejo com frequência.

E é tão curioso que às vezes as pessoas falam é, mas fulano disse tudo, falou a verdade, é assim mesmo. E no fundo fulano só foi mal educado, grosseiro, violento, desnecessário, quando ele podia ter sido mais elegante, mais comedido, colocando as coisas de forma mais clara. Porque...

O que diferencia, por exemplo, o adulto das crianças é que as crianças, por exemplo, não têm domínio sobre a linguagem. Elas não têm esse domínio lógico, racional, de medir a linguagem. Tanto é que os discursos das crianças são discursos que são aleatórias. Elas falam muitas coisas aleatórias, trazem muitas referências aleatórias, estão falando de uma coisa, depois estão falando de outra. E o adulto...

deveria ser aquele que tem um domínio da linguagem. Tanto é que, por exemplo, na Grécia Antiga, logos tanto é palavra, como logos é razão, como logos é ciência, como logos é entendimento. Então, é uma palavra para significar uma espécie de relação entre conhecimento, palavra, ciência, entendimento. Me parece que o equilíbrio está justamente em saber como usar a palavra.

na hora de falar com as pessoas, como dizer as coisas. E não simplesmente aliviar seu peito. Se você quer só aliviar o peito, chama um amigo, desabafa. Ah, quando fulano é assim, belto é ameaçado, ele me deixa assim, é triste, não sei o que e tal. Acho que...

A honestidade está justamente em você saber qual é a medida certa, para você poder dizer, como dizer e por que dizer, colocando cada coisa dentro do espaço que lhe cabe. Mas será que... Será que fazer agora uma provocação séria? Será que Aristóteles...

abriria uma exceção para dizer, olha, aqui tu pode ser um pouquinho mais desonesto, porque tu pode precisar de um pouco de desonestidade. Por que eu estou provocando assim? Porque para Kant, e aí eu acho que esse é o cara mais radical que a gente vai mencionar aqui sobre a questão da honestidade,

Para Kant, a honestidade é inegociável. Não tem nada que justifique o cara ser desonesto em circunstância nenhuma. Mas fulano, ele vai morrer se tu for honesto. Então ele vai morrer porque eu vou ser honesto. É mais ou menos nesse caminho aí que Kant iria.

Então, por exemplo, mentir é errado em qualquer que seja a circunstância. Ser desonesto em qualquer nível é errado em qualquer que seja a circunstância. Mas por quê? Porque para Kant a moral se baseia em princípios que são tidos como universais. E aí se tu abre exceção para ti mesmo...

Aqui vale mentir porque há uma necessidade para mentir. A própria ideia de verdade, ela se perderia. A própria ideia de honestidade se perderia. É que o Aristóteles está falando do meio termo, né? Mas Kant está sendo extremamente radical e está colocando para a gente o seguinte, ou é assim ou a gente está brincando de casinha. A gente não está levando a coisa a sério.

Porque se você abre uma exceção, age de tal forma que a máxima da atuação se torne uma ação universal, essa máxima kantiana. Se você abre uma exceção, você corre o risco de esvaziar o sentido das coisas.

Eu vi um exemplo esses dias que eu achei muito bom, inclusive de uma colega minha que fez mestrado junto comigo. Ela disse, usando o exemplo de Kant, ela disse o seguinte, se você abre uma sessão numa aula, uma sala de aula, a aula é um espaço, é o momento em que você tem que ouvir o professor, por exemplo. Nesse momento da sala de aula você tem que ouvir o professor para você entender uma questão muito complexa.

Se você abre essa ação para você, você se dá o privilégio, você pode conversar com o coleguinha do seu lado. E aí você conversa, não presta atenção no professor e não entende a questão que foi apresentada, dada a complexidade dela. Aí a gente volta para a máxima de Kant. Se você se dá o direito de conversar durante a aula,

Agora pensa, age de tal forma que a máxima da atuação se torna uma ação universal. Então, todo mundo tem direito de conversar durante a aula. Se todo mundo tem direito de conversar durante a aula, não tem por que ter aula.

Por quê? Porque aí esvazia completamente o sentido do momento da aula em que o professor tem que explicar, então não faz sentido existir a coisa, né? Por exemplo, é crime pegar o dinheiro dos outros, né? Na mão dura. Seu consentimento do dono. Seu consentimento do dono. Mas aí você abre uma exceção pra você. Eu posso.

Porque eu sou amigo dele, porque eu conheço, não sei... Na verdade, a gente abre a sessão e depois a gente racionaliza, né? Inventa porque que pode. Ah, não, eu posso, porque eu sou o líder. Eu posso, porque eu sou o chefe. Eu posso, porque eu sou o senador, o prefeito. E aí, por aí você vai...

Eu posso fazer um penduricalho aqui, porque eu sou juiz. Então, sempre tenho uma desculpa para a coisa. Aí, a gente volta para o exemplo, para a máxima do Kant. Age de tal forma que a máxima da atuação se torna uma ação universal. Se você abre uma exceção para você, e você está agindo de tal forma que isso pode se tornar universal, se torna universal, todo mundo pode.

se todo mundo pode, esvazia completamente o sentido da lei. Para que vai ter uma lei dizendo que é crime, se todo mundo pode? Para que vai ter uma lei dizendo que é errado, se todo mundo abre uma exceção para si? Então, o Kant, de uma forma radical, está dizendo assim, olha...

Não pode. Não pode, porque senão não faz sentido nenhum. Então, agir de forma ética nesse sentido, ou seja, você não se coloca acima dos outros. Muito pelo contrário. É tudo que é permitido para ti é permitido para os outros. Tudo que é proibido para ti é proibido para os outros. Não tem exceção, não tem privilégio. Viver honestamente é aceitar isso.

Se tiver privilégio, a gente vai para aquele livro do George Orwell sobre a revolução dos bichos, né? E se uma causa está tudo indo muito bem, até que o porco resolve dizer, não, essa regra vale para todo mundo, menos para os porcos. Sim, sim, exato. Às vezes, quando eu estou no trabalho, mediando a opinião das pessoas, as pessoas estão falando,

E aí a gente tem que ter aquele trabalho chato de dizer acabou o tempo, não é a tua vez, é a vez de fulano, não é a tua. Mas essa função só existe porque cada um não está comprometido com o todo. Está todo mundo preocupado só consigo.

Porque é a minha vez de falar, eu quero falar, eu quero dizer tudo, eu quero não sei o quê, eu quero... Mas não é você que está em pauta aqui. Existe um coletivo, e esse coletivo tem problemas que precisam ser resolvidos, e a gente resolve de forma coletiva.

Então, não se trata de eu me colocar, eu dizer o que eu penso, eu tenho que dizer tudo. Se trata de todas as regras, todo mundo tem que aceitar que ela existe, e todo mundo tem que se submeter a ela, porque todo mundo se submete a um coletivo, a um grupo. Agora, pensando a partir disso, desse imperativo categórico kantiano,

Imaginando um cenário, vamos pensar um cenário em que uma determinada situação política exige que um líder de um país vá a público e dê uma posição sobre uma determinada situação. Por exemplo, vai faltar combustível daqui a 10 meses, totalmente. Esse líder

ele tem que ir a público, sabendo já dessa verdade, ele tem que ir a público e já dizer isso? Ou ele tem que dizer, mas com muito cuidado, não sendo totalmente honesto, dizendo, olha, há uma ameaça de que daqui a 10 meses a gente não vai ter combustível em nosso país, mas nós já estamos tomando as providências. Porque isso parece...

Parece uma nota pública geral, né? Toda vez que tem um problema de saneamento, disso, daquilo, aí as secretarias vão lá e dizem, não, mas a gente já está tomando as providências e não sei o quê. É claro que eles estão sendo desonestos, né? Mas aí, será que não está certo, às vezes, ser um pouquinho desonesto para não causar...

um pânico na população, para não piorar ainda mais a situação. Por que eu estou falando isso? Porque se a gente pensar em filósofos como John Stuart Mill, Jeremy Bentham, eles diriam, espera aí, a mentira vai trazer mais sossego para a população? Em outras palavras,

ela vai trazer mais felicidade coletiva ou é a verdade que vai trazer mais felicidade geral? Porque esses caras estão pensando na utilidade mesmo.

Qual é a utilidade da honestidade aí? Sim. Porque se ela for útil para a maioria das pessoas, então ela vale a pena. Ao contrário de Kant, né? Que diria, não, a honestidade tem que ser assim e é imperativo e não tem negócio.

não tem como negociar, esses caras já pensariam o contrário. Porque aí tem uma preocupação política, no sentido coletivo, da administração dos problemas. Você vai pensar num presidente, num prefeito... Primeiro que é raro achar um prefeito que tenha coragem.

Isso é uma coisa rara, achar um prefeito, um governador, achar um indivíduo político corajoso para se colocar diante do povo e dizer temos um problema e nós estamos tentando lidar com ele. Isso é muito raro. É difícil achar um político virtuoso. Outra coisa que eu acho que é interessante da gente pensar é por que a gente calcula a honestidade e assim ficou right.

como dizer a verdade ou mentir, como se ser honesto fosse, eu vou dizer a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade, quando existe um cálculo muito maior nesse sentido dos utilitaristas, por exemplo.

utilitaristas, consequencialistas, quando a gente fala de decisões éticas muito difíceis, no qual você não quer instalar um pânico, no qual você não quer fazer com que as pessoas se desesperem desnecessariamente, como resolver esse problema? Eu imagino que a saída mais certa seria a de Aristóteles mesmo.

O meio termo. Usar o meio termo e fazer o cálculo de dizer sim. Porque o cálculo que muitos políticos fazem é o cálculo do quanto voto eu vou perder, quanto voto eu vou ganhar.

Se eu for a público assumir ou aceitar determinado problema. Quando o cálculo que deveria ser feito é se isso é bom ou se isso não é bom. Fazer o bem está para a honestidade mais do que a verdade? E se o fato de uma pessoa ser desonesta salvar o país de uma guerra? Porque...

Se tu olhar para quem acompanhou a série Game of Thrones, o que tem muitos exemplos lá que a gente poderia tirar aqui para falar deles, mas o que Ned Stark faz ao criar Jon Snow como filho bastardo é justamente evitar uma guerra, evitar umas mortes. Ele não foi honesto.

com a mulher dele, porque ele não falou a verdade para ela e para o resto do reino, aliás, ele não falou a verdade para ninguém. Ele guardou aquele segredo para si, nem o próprio Jon Snow ouviu da boca dele. Ao mesmo tempo, ele foi acusado por todo mundo de ter quebrado com a própria honra dele.

coisa que ele não fez, e ficou nessa situação porque foi necessário. Eu acho que do ponto de vista dos filósofos utilitaristas, Stuart Mill, Jeremy Bentham, a atitude de Ned Stark foi a mais correta possível, porque não se tratava de dizer a verdade ou não.

Se tratava de vai fazer o bem maior, vai manter a paz, vai manter a maior parte das pessoas a salvo. Então a pergunta sobre se ser honesto vale a pena ou não, nesse exemplo aí...

eu acho que ela seria respondida, qual é o resultado disso? Qual é? Porque depende do resultado. Porque o cálculo que ele teria que fazer é esse, se é um bem maior, um bem menor. Porque se a tua honestidade vai destruir o país...

Então é melhor que tu não seja honesto. É melhor você ficar na sua, né? Fica quietinho aí. Se a boa honestidade não vai ajudar ninguém, e por outro lado, se ser desonesto vai salvar pessoas, se ser desonesto vai manter a paz, se ser desonesto vai deixar a economia estável, né? Então nem há o que discutir aí. Sim. Nesse caso aí, então, a questão é...

Quanto de prazer eu produzo para a grande massa e quanto de dor eu evito para aqueles que são administrados. Nesse sentido, o casamento vermelho tem toda a razão de ser. Sim. Salvou-se o reino, mas feriu-se uma lei. Uma lei sagrada, inclusive. Mas salvou-se o reino. No entanto, nós estamos falando aqui da conservação.

de como conservar a ordem. Agora, nessa discussão toda, estou aqui imaginando numa mesa grande, sentado aí, Sócrates, Platão, Aristóteles, esses caras que a gente citou até aqui.

E eles estão lá conversando sobre honestidade, aí chega um bigodudo. Vai entrar nessa discussão, né? Ponto de vista de Nietzsche... Ah, é Nietzsche? Pensei que fosse Belchior. Não. Acho que o ponto de vista de Nietzsche talvez seria aí uma virada de mesa, né?

Talvez a primeira pergunta que ele faria seria dizer, mas que perda de tempo é isso? Perguntar se vale ou não apenas ser honesto, né? A honestidade. Para que vai valer essa discussão? Dependendo da fase, né? Porque a gente sabe que o pensamento de Nietzsche tem algumas fases. Acho que no final...

teria a ver com quanto de poder, quanto de formação cultural e poder isso produz nos indivíduos, nos sujeitos, né? Quanto de autonomia isso dá aos indivíduos, aos sujeitos. O cálculo deveria ser por aí.

Qual a contribuição da honestidade para formar indivíduos livres e fortes. Mas eu acho que os filósofos antigos têm uma questão muito interessante, nesse sentido, quando a gente pensa a história de Édipo, a história de Antígona.

Por exemplo, os filhos de Édipo morrem lutando um contra a cidade, o outro defendendo a cidade, e as leis antigas diziam, as leis dos deuses diziam que todo mundo tem direito a um funeral, e o rei diz que não, que ele que lutou...

que aquele que lutou para invadir a cidade não tem direito a coisa nenhuma. O corpo dele vai ficar apodrecendo, não sei o quê, não sei o quê, isso cria toda uma situação constrangedora. E aí fica esse problema do qual lei a gente deve seguir. É mais honesto, então, seguir a lei do rei ou a lei dos deuses? Isso é, a lei dos antigos ou essa nova lei aí? Porque quando a gente pensa na situação...

do bem a se fazer. O que é o bem a se fazer? Como forma mais honesta, o bem a se fazer. Quando a gente pensa em bem, a gente está tendo o que como referência? Para dizer que é o bem de todos, o bem da maioria. O princípio, por exemplo, dos vigilantes é matar meia dúzia para salvar todo mundo.

para salvar todo o resto. Isso é um bem para quem? Para os que foram mortos, não é. Não, mas é o bem para a maioria, é o bem para... A maioria que ficou viva, quem é que escolhe? Essas questões não são difíceis de ver na realidade.

como, por exemplo, um presidente que manda meia dúzia de pessoas para a guerra em defesa do seu território, para invadir o território do outro, porque diz que vai ser melhor para o país se ele tiver anexado aquele pedaço de terra, porque dá acesso ao mar ou coisa do tipo. Ou um presidente que sequestra o presidente de outro país menor. Não, porque vai ser melhor para eles que eu sequestre o presidente deles e traga para cá.

Quer dizer, que tipo de bem é esse que está se pensando? É muito comum que pessoas que se dizem democráticas façam o discurso de que a democracia é muito boa e que a gente tem que levar a democracia para todo mundo, nem que seja na bala. Eu vou levar a democracia para esses outros países, mas eu vou ter que matar meio mundo de gente para levar essa democracia.

Quer dizer, é honesto fazer esse tipo de propaganda ou esse tipo de anúncio para dizer que você está fazendo o bem para a maioria? Esse é um problema que não é incomum. Ele é um problema presente ainda hoje, é um problema antigo, que é um problema do quando a gente está pensando no tipo de bem, qual que é a nossa referência? Qual que é a referência que a gente tem? Agora vai ser um...

pensando aí no sistema eleitoral das democracias, porque se tu colocou aí essa discussão, nós vamos levar a democracia, tem que ser já na bala. E aí uma das características das democracias é justamente que periodicamente existem eleições, onde o povo, teoricamente,

vai fazer a escolha dos seus líderes, dos seus representantes. Eu olho para a situação de países como o Brasil, e nós estamos agora no ano de eleição, se um candidato, por honesto, durante a eleição, será que ele ganha uma eleição? Vamos pegar, por exemplo, o Lula, que atualmente está no poder aqui no Brasil.

Se durante a candidatura dele, durante o período eleitoral, um jornalista perguntar, Lula, seja muito honesto sobre tal assunto. E aquele assunto, porque os jornalistas selecionam diversos assuntos para colocar o político na saia justa.

E se ele for muito honesto em relação àquilo, muito provavelmente ele vai perder votos. E, consequentemente, vai perder a eleição. E pode ser qualquer assunto. Sobre, por exemplo, feminicídio, sobre juros altos.

Sobre aborto, um assunto básico. Qualquer que seja, se o candidato for honesto a respeito do que ele pensa, e aí eu citei Lula como exemplo, por ele estar no governo atualmente e ter um balanço, vamos dizer assim, de dinheiro mesmo.

e se o PIB aumenta, se o PIB cai, não sei o quê, essas questões econômicas aí que permeiam o cenário eleitoral também, né?

Se o cara for honesto a respeito de algumas coisas, ficou um buraco, um rombo no orçamento, ele vai dizer não, nosso governo não fez rombo nenhum no orçamento, ou o rombo já estava aí, ou nós tapamos o rombo, nós melhoramos isso, melhoramos aquilo. É isso que os candidatos a governadores vão falar, é isso que os candidatos a presidente vão falar. E no governo deles a situação melhorou e que no governo do outro a situação piorou.

Ou seja, não serão honestos. Agora, se fossem, para eles talvez não valeria a pena.

O político tem que ser um equilibrista do discurso, das imagens, porque ele está sempre fazendo campanha. O povo não queira, ele está sempre fazendo campanha. Um exemplo que a gente pode citar de filmes é O Mentiroso, um pedido do filho dele, se eu não estiver enganado, ele passa com Jim Carrey, ele passa a falar somente a verdade.

E tem uma paródia brasileira que é o candidato honesto, né? O Leandro Rasson também começa como político a falar só a verdade. E os dois se dão mal, né? Sim.

Mas é porque a verdade, no sentido do fato, as questões factuais, primeiro que ela não reúne muito voto mesmo, não parece que ela ajuda muito. As pessoas falam que elas querem a verdade, mas no fundo, a gente não gosta muito dela mesmo, a gente tem um pouco de medo da verdade. Depois, a intenção do político é a manutenção do poder. O bom político...

de certa forma, não é necessariamente o bônus de habilidoso. É aquele que consegue usar os instrumentos de poder para ampliar poder, para manter poder, para fazer a conservação do poder. É a filosofia de Maquiavel. Não é uma coisa muito da honestidade. Não tem muito a ver com honestidade. Tem a ver com entender como o jogo funciona, quais são as regras desse jogo. E continuar jogando.

Isso, e ganhando. E ganhando. E ganhando. É que o povo precisa, o povo na verdade é que precisa aprender como é que o poder funciona. É o povo que precisa entender o que é esse poder. Sei lá, parece um político que ele é um outsider, que é alguém que estava numa empresa e quase não parece com a realidade, um cara que era presidente de uma empresa.

ou que era envolvido com milícia, ou coisa do tipo, eu vou acabar com tudo isso que está aí. Ele chega e começa a falar um monte de asneira, um monte de besteira, um monte de bobagem, faz um discurso frouxo, sem lógica, preconceituoso, na verdade. Ele não é engraçadinho, ele é um preconceituoso que dissemina violência o tempo inteiro e as pessoas riem com ele. Essa pessoa...

ela mobiliza os afetos e os sentimentos do povo. E as pessoas pensam que aquilo ali é uma representação daquilo que elas também acreditam.

quando, na verdade, é só manipulação barata. Esse indivíduo está brincando com as necessidades do povo, com os anseios do povo, com os desejos, com o sofrimento do povo. Então, se o povo tiver ciência de que aquele indivíduo é ainda mais desonesto do que o que escolhe não contar a verdade em público, ou não falar tudo em público...

ele vai ter noção de quem deve escolher para governar. Então, um político que diz que tem que matar não sei quem, e diz que tem que fazer não sei o quê, no sentido de destilar a violência, a agressão, esse tipo de indivíduo, uma vez que o povo aprendeu que esse tipo de figura exótica e pitoresca devia existir num bom romance,

sobre atrocidades ficcionais. O Eudorico Paraguaçu. O Eudorico Paraguaçu é um bom exemplo. Embora o Eudorico Paraguaçu fosse mais humano do que esse tipo de sujeito. Do que esses que estão aí na realidade. Estão aí.

O povo entenderia melhor que é mais prejudicial para ele escolher esse sujeito do que escolher aquele que vai a público e faz malabarismo com o discurso. E muitas vezes a sociedade obriga com que a pessoa seja desonesta para manter a própria integridade física.

para manter o emprego, para manter o status que ela carrega, principalmente se ela é uma pessoa conhecida do público. Quando a gente assiste a série Sensei, o Lito, Lito Rodrigues, ele mente para os fãs, mente para a sociedade, fica se escondendo, porque ele não pode ser ele mesmo.

porque a sociedade vai julgar ele, porque a sociedade vai criminalizar ele e porque a sociedade vai cancelar. É o termo que se usa mais hoje, né? Vai cancelar, ele vai sofrer um cancelamento e vai acabar com a carreira dele. Quer dizer, ele não pode ser honesto, porque a honestidade para ele custa tão caro que pode custar a própria vida.

Sim, sim, exatamente. Eu lembrei nesse negócio do... Escolher, não escolher ser honesto, não ser honesto, que ainda está falando ainda, do Jean Valjean, dos Miseráveis. O Jean Valjean, ele é um personagem de Vitor Hugo, que para mim é o exemplo kantiano de alguém...

que está escolhendo fazer o que ele acha que é certo, através de uma espécie de virtude. Jean Valjean tem um... Ele é o cara, inclusive, que tem um detalhe no livro em que um outro personagem é preso, dizem que esse outro personagem é ele, e que esse outro personagem vai ser condenado à morte, ou coisa do tipo, não lembro direito. É uma prisão perpétua, não lembro direito. Vão sair mais de 10 anos que eu li Os Miseráveis.

E aí o Jean Valjean larga tudo que estava fazendo, vai no tribunal e diz, esse sujeito aí não é o Jean Valjean, não, porque o Jean Valjean sou eu. É o tipo de coragem, porque tem aí uma outra coisa sobre a honestidade, você tem que ter uma certa coragem para fazer, para se posicionar.

E esse outro indivíduo sai livre e aí a história do Jean Valjean ganha outros caminhos.

Mas o Jean Vojão, o personagem do Vitor Hugo, que para mim é o exemplo de honestidade em todas as escolhas que ele faz, depois que ele conhece Monsenhor Bem-Vindo, eu acho que é isso o nome, traduzindo para o português, um padre que o acolhe na casa dele, o Jean Vojão tinha acabado de sair da cadeia, estava passando fome, estava na rua.

E aí achou, na casa desse padre, ele achou de roubar o padre, roubou os cartiçais do padre e outras coisas mais, depois a polícia pegou ele no meio do caminho, levou de volta, ele humilhado, sem ter o que dizer, o padre simplesmente o recebeu e disse que não, que ele tinha dado os cartiçais para o Jean Valjean, e naquele momento em diante, ele se converte numa pessoa extremamente honesta.

No entanto, o padre foi desonesto ao dizer que ele tinha dado. Sim, exato. E aí a questão é, o padre estava pensando num bem maior, que era a vida do João Valjean, o bem que ele estaria fazendo.

uma espécie de sacrifício. É um romance? É uma história? É um romance? Isso não é real, isso não aconteceu de fato. Mas há um outro personagem nesse livro que ajuda a gente a equilibrar bem essa história, que é o Gavete, eu acho o nome dele, que é o policial que persegue o Jean Vogel, que é um cara que só segue a lei.

Ele não está se preocupando sobre se a lei é certa ou se a lei é errada. Ele está seguindo a lei. E segundo a lei, Jean Valjean devia estar preso e acabou a história. E só que no final das contas, parece que todas as ações do Jean Valjean fazem com que ele se ponha em dúvida a respeito da lei que ele segue.

Tanto é que, não vou estragar aqui a experiência dos futuros que quiserem ler o livro, dos miseráveis, mas isso tem um impacto muito forte sobre a vida do Javete, sobre as decisões que ele toma depois que ele começa a questionar as leis.

por causa do Jean Vujean. Então, acho que é um personagem que ensina para a gente, você tem que ter, de certa forma, para se posicionar de forma corajosa, para dizer o que é honesto e o que não é honesto, o que é certo e o que não é certo, o que é verdade e o que não é verdade, alguns valores que têm que estar ali consolidados. Porque se você não tiver nenhum valor...

Pode fazer qualquer coisa aí, pode tocar qualquer música aí, pode... Eu danço conforme a música, né? Eu não estou preocupado, eu não tenho valores. Eu faço qualquer coisa para sobreviver. Eu não tenho dignidade, eu não tenho limite, eu não tenho... E quando você não tem limite, não tem dignidade, não tem valores, por que a pessoa vai se preocupar com honestidade?

se ela não tem nada disso? Por que isso seria uma questão pra ela, se ela não tem nada disso? Só que também a gente não pode cair naquele negócio do reacionarismo, né? Tem uma galera reacionária aí que acha que honesto é a satisfação dos meus desejos de vingança com relação ao outro que cometeu um crime.

quando isso, na verdade, é só mesmo violência, né? É só violência, né? É só vontade de me vingar, de, ah, as pessoas que estão no presídio estão sendo torturadas, mas bem feito para elas. Aí diz aqueles que não têm valor nenhum, né?

porque eles não têm um juízo de valor consolidado a respeito da orientação da própria vida. Mas tá certo, porque o cara que roubou tem que ser torturado, porque o cara que matou tem que ser torturado, porque, e no fundo, no fundo não é nada disso. Você, aí a gente volta a Kant, né? Todo mundo tem que estar submetido à lei. Existe uma lei...

que são os direitos humanos, existe um princípio, um limite que garante a humanidade de todo mundo, não importa o quanto você tenha errado, não importa as coisas que você tenha feito, a tua humanidade tem que estar preservada. Nos nossos dias tem uma coisa nova e está todo mundo usando e conversando e tudo mais, que são as inteligências artificiais. E a gente pode se perguntar se há algum tipo de honestidade e at 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김 김

quando uma inteligência artificial toma uma decisão, ou quando ela nos responde alguma pergunta, ou quando ela nos ajuda a desenrolar alguma coisa, porque, primeiro, a inteligência artificial, embora pareça deliberar alguma coisa, ela não delibera. Para deliberar, para fazer uma escolha, só os humanos podem fazer.

Mas ao mesmo tempo, a gente sabe que... E aí há exemplos do que vem acontecendo no mundo hoje, né? Em que há boatos de que estão usando drones com inteligência artificial, em que a própria inteligência artificial toma a decisão se vai atirar ou não e tudo mais. E existe... Se tu perguntar para qualquer Ia, se ela é honesta, ela vai dizer eu sou.

Eu não tenho, como é que se diz, consciência, não tenho isso, não tenho aquilo, então eu não tenho as emoções humanas, então eu não tenho por que não ser honesto. Só que ser honesto depende justamente das coisas, né? Da capacidade de juízo, das emoções. Depende das emoções. É um perigo também, né?

quando a gente para para pensar nessa situação. Muitos filmes abordam questões envolvendo inteligência artificial, tem aquele caso lá do Eu Roubou, o filme, não o livro, porque o livro é, na verdade, um conjunto de contos, mas o Eu Roubou trata de um tema bem interessante.

Existem as três leis, né? Em que os robôs não podem fazer nenhum mal para a humanidade e tudo. E um deles é acusar de ter matado alguém, né? E no fundo, no fundo, a gente vai, no desenrolar do filme, vai descobrir que tem toda uma trama por trás disso, né? Tem todo um jogo de interesses econômicos e tudo mais por trás disso. Mas...

é colocada essa questão do robô ser ou não um robô honesto, no sentido de que ele seguiu os princípios da robótica. E aí acho que vale até a pena perguntar para quem nos ouve se...

já trocou mais ideias, eu acho que todo mundo já sentou diante do computador, do celular, e começou a fazer umas perguntinhas lá para a IA, mas isso, isso, isso, às vezes, claramente, a IA está dando umas respostas absurdas.

Mas está lá afirmando, será que ela está sendo desonesta? Será que ela foi programada para ser desonesta? Ou será que ela foi programada para ser honesta? E aí, para o ouvinte, a gente pode perguntar, será que a IA nos esconde algo? Será que a IA mente para a gente? Mas se mentir exige uma intencionalidade, é uma mentira de fato?

Se as pessoas estão conversando com a IA, é porque está ficando mais interessante conversar com a IA do que com gente. Está ficando esquisito conversar com as pessoas. Agora, conversar com a IA é indiretamente conversar com alguma pessoa. Não existe esse negócio da IA. Não tenha uma consciência.

E por isso ela não tem opinião, e por isso a IA não tem sentimentos, e por isso ela não pode escolher. E as pessoas têm que ter noção de quando elas estão conversando com a IA, na verdade elas estão conversando com uma empresa, elas estão conversando com um conjunto de critérios e valores de uma empresa.

que estão enviesados politicamente, economicamente, têm viés social, têm uma série de complicações. Não tenho honestidade nenhuma aí. Para mim é muito claro e é muito lógico isso daí. E saiba que quanto mais você conversa com uma IA, mais caro vai ficar o seu celular do futuro, mais caro vai ficar o seu computador do futuro, porque menos água nós vamos ter, né?

Porque a IA, ela utiliza muito chip de processamento, ela utiliza muita memória RAM e ela utiliza muita água para responder as perguntas que as pessoas fazem. E no mercado, atualmente, já está em falta certos processadores, chips, né?

GPU, que é falado, e também memória RAM, está ficando mais caro comprar celular, ficando mais caro comprar computador, porque as grandes empresas que estão investindo em inteligência artificial estão comprando tudo, está sobrando quase nada para a gente. Os ditos por elas, usuários. É um negócio tão viciante que chamam a gente de usuário mesmo.

Na verdade, quem está fazendo escolha diante de tudo isso que foi colocado somos nós. Estamos fazendo uma péssima escolha, inclusive. Nós estamos trocando os recursos naturais por vaidades que são programadas para durar pouco tempo, que transformam o mundo muito rápido e fazem a gente acreditar que é melhor do que o que a gente tinha antes. A IA já existe há muito tempo.

só que ela se popularizou recentemente, produziu uma transformação no modo como a gente pesquisa, inclusive conversa, escreve, porque agora você tem aplicativos, rede social com IA, e aí a promessa é o que? Que venha equipamentos tecnológicos com IA mais sofisticada. Tem gente que está...

fazendo tratamento psicológico com IA, isso não é recomendável. Tem gente que está se medicando, perguntando para a IA que remédio que ela toma, se isso, se aquilo, isso não é nem um pouco recomendável. Na verdade, as pessoas estão escolhendo, estão fazendo péssimas escolhas, mas estão escolhendo. A IA não tem condições nenhuma de ser honesta ou desonesta, porque ela é, na verdade...

o conjunto de dados manipulados por uma empresa, e esse conjunto de dados vai aparecer para você conforme o dispositivo que você tenha, o acesso que você tenha a IA, porque se você tiver crana para pagar uma IA muito mais robusta do que a que circula por aí normalmente, você vai ter um serviço muito melhor, claro. No entanto, vai ser no fundo, no fundo não tem nada de pensamento aí. O que você tem são dados...

mais bem minerados, organizados, que são direcionados para você. Mas somos nós, seres humanos, que estamos fazendo escolhas muito ruins e a gente tem que parar para pensar se vale a pena fazer essas escolhas. Se é honesto, por exemplo, com as gerações futuras. Tem menino que vai nascer hoje achando que IA é a coisa mais natural do mundo. Quando ele crescer, quando ele se relacionar com a tecnologia, para ele vai parecer que IA sempre existiu.

E vai se fazer aquela pergunta horrenda, né? Como é possível que eles conseguiram viver no mundo sem IA, sem essa tecnologia toda? Como é que eles se viravam sem toda essa parafernália, sem todo esse lixo útil que a gente tem hoje? A posição mais honesta que a gente pode tomar diante disso é saber que quem faz as escolhas somos nós, seres humanos. E até que ponto também a IA influencia right now. right now right now right now right now right now right now right now right now right now right now right now right right now right right now right right now right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right right

na nossa honestidade, né? Porque os sistemas de monitoramento de câmera e tudo mais, eles hoje têm essa tecnologia embarcada. Nós estamos sendo vigiados por sistemas com IA. E aí que, diante desse monitoramento...

Suponhamos um professor numa sala de aula, ou um médico num consultório com o paciente dele, ou ainda um palestrante, ou um policial com uma câmera no uniforme, até que ponto essas pessoas estão agindo como a sociedade espera que elas ajam, porque elas são honestas?

ou porque elas estão sendo vigiadas por sistemas de monitoramento, cada vez mais eficientes e que influenciam diretamente no nosso comportamento. Até que ponto nós saberemos se as pessoas zelam ou não.

Pela honestidade, pela verdade. Sim. Inclusive, quando você falou mais cedo que o drone está com o IA escolhendo, o drone não está escolhendo coisa nenhuma. Alguém foi lá e disse para ele quem que ele tem que mirar, quem que ele tem que acertar. Quem é que vai escolher se a conduta do professor é certa ou não? É um ser humano. Não é uma IA que vai escolher se a conduta do professor na sala de aula é correta ou não é correta.

A pessoa vai colocar lá um conjunto de dados, vai dizer o que é certo, o que não é certo, que perfil que ele vai colocar, que é o perfil aceitável e o perfil que não é aceitável. Qual é a conduta médica aceitável, qual não é a conduta... Isso tudo é escolha do ser humano. Nada disso é a máquina que escolhe. As pessoas que acreditam. Eu já acho um absurdo a pessoa acreditar que existe uma inteligência artificial, que é um nome para fazer propaganda, e acreditar que uma máquina...

é capaz de dizer para um ser humano que a conduta dele é correta ou não é correta. Quando nós, seres humanos, estamos aqui lidando com elas há milhares de anos, sem saber fazer uma avaliação adequada a respeito da nossa própria conduta, não é uma máquina que vai conseguir fazer isso, porque ela tem todas as informações que nós reunimos. Não é assim que funciona, né?

Porque nós somos complexos, a história é complexa, existem muitas saídas, muitos desvios. E é muito difícil para a gente fazer a avaliação, para dizer assim, fulano agiu corretamente. Em certas situações, é difícil saber quem está certo e quem está errado. É difícil medir.

se uma pessoa está fazendo o que deve ser feito ou o que não deve ser feito. Imagina como é complicado a vida de um jurista que leva a lei a sério. Diz assim, não, para fazer justiça a gente tem que ver exatamente como que é, ver o caso, ver a lei, ouvir as partes, fazer o processo. É demorado, é uma coisa que exige muito entendimento.

Agora, você coloca isso nas mãos da IA, por exemplo, é um absurdo. É pedir para uma empresa dominar o sistema judiciário, controlar o sistema judiciário, entregar as leis nas mãos de uma empresa, para ela dizer quem é livre, quem não é livre, quem pode o quê. Então...

Acho que nós, seres humanos, nós fazemos as escolhas, nós tomamos as ações, nós decidimos o que vamos fazer e o que não vamos fazer na nossa vida, e isso é um problema nosso, é uma questão nossa. Nós vamos desenvolver sistemas filosóficos, teses sociológicas, questões antropológicas, para pensar quem somos nós, o que fazemos com a nossa vida, se determinadas circunstâncias, nossas ações foram honestas ou não foram honestas.

Mas não me parece, por exemplo, viável que uma máquina seja capaz de realizar esse tipo de raciocínio, porque ela vai ser programada por alguém e, na verdade, quem vai decidir é ser alguém que programa a máquina e não a máquina em si. A gente pode finalizar com a afirmação de Miguel Nicoleles?

Eu não sei como é o nome do livro dele, se é Nada Será Como Antes, parece até música de Lulo Santos, mas é um nome assim, né? Nada Será Como Antes. Nesse livro ele diz o seguinte... Nada Mais Será Como Antes. Nada Mais Será Como Antes. Ele diz que a inteligência artificial, ela não tem inteligência. Ela não é inteligente e também ela não é artificial, porque ela é, na verdade, comercial.

É isso que a inteligência artificial é, para ser honesto com os nossos ouvintes. Uma coisa que a gente pode falar é que a honestidade é um problema humano.

É um problema humano, é um problema histórico, é um problema social, é um problema filosófico. E é uma questão que a gente tem que arrastar dia após dia, tentando fazer dele algo para orientar a nossa conduta no cotidiano.

O Tico Tico tá, tá outra vez aqui, o Tico Tico tá comendo meu poupa Se o Tico Tico pensa que se alimenta, que vai comer umas minhas pra não tomar O Tico Tico Tico tá, tá outra vez aqui

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