Episódios de Conversa Bem Viver

Quem somos nós no dia mundial da Língua Portuguesa?

05 de maio de 202623min
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5 de maio é dia mundial da Língua Portuguesa, mas afinal, é isso que se fala no Brasil? Tão diferente de Portugal e mesmo dos países do continente africano, o nosso idioma tem particularidades que quase impossibilita dizer que é o mesmo destas outras regiões. Reivindicando o título de Língua Brasileira, quem Conversa Bem Viver é o escritor e poeta Marcelino Freire, autor do premiado Contos Negreiros e do recente Escalavra

Participantes neste episódio2
L

Lucas Salum

HostApresentador
M

Marcelino Freire

ConvidadoEscritor e poeta
Assuntos6
  • A obra e a poesia de Marcelino FreireInfluência das ladainhas e rezas maternas na escrita · O texto 'Da Paz' e sua relevância atual · A poesia como denúncia social · O livro 'Escalavra'
  • Variações linguísticas Portugal versus BrasilParticularidades do idioma no Brasil · Influências de línguas Banto e Tupinambá · Reivindicação do 'Preto-guês' · Diferenças de pronúncia entre Brasil e Portugal
  • Proficiência em inglês no BrasilA desvalorização de sotaques e falas regionais · Comparação entre 'compreende' de João Cabral e 'tá ligado' · A correção gramatical de 'nós é ponte' para 'nós somos pontes'
  • Colonialismo e ImperialismoInvasões sem sentido como desculpa para a paz · O papel do imperialismo na provocação de guerras · A hipocrisia da paz reivindicada por líderes em guerra
  • Língua PortuguesaA Sala Falares e o registro de falas diversas · A reconstrução do museu após o incêndio · Proposta de renomear para Museu da Língua Brasileira
  • Teatro da Vertigem e AgropeçaA temporada do espetáculo 'Agropeça' · A importância do teatro como forma de expressão · A relação de Marcelino Freire com o teatro
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Conversa Bem Viver com Lucas Salum. 5 de maio, minha gente, dia mundial da língua portuguesa. Nessa data, a gente vai celebrar com uma pessoa, olha, eu diria um filho, um filho prodígio, um tanto quanto rebelde, que essa altura da vida também já se tornou pai, dando continuidade a esse legado com tantas invenções que ele pôs no mundo.

Quem conversa bem viver hoje é Marcelino Freire, minha gente, escritor e poeta diretamente de Sertânia, Pernambuco, para o mundo. Ele que é autor de livros como Escalavra, recentemente lançado, e também Contos Negreiros, premiado no Jabuti, na categoria de contos. Marcelino, meu amigo, que prazer, que honra falar contigo. Obrigado pela disponibilidade, viu?

Muito obrigado, muito grato, salve, salve, Lucas. Muito grato, muito obrigado, salve, salve. São palavras da nossa língua brasileira, portuguesa, mundial, né? Marcelino, então vamos começar falando sobre isso. Tu consideraria a língua portuguesa uma mãe sua? Língua sertaneja, a ladainha, a reza. Tem falas muito antigas aí dentro de uma língua muito, entre aspas, portuguesa, né?

eu nasci no sertão de Pernambuco, então imagine os ruídos característicos daquele lugar, os sons iletrados dos abismos, também nos complementam e nos completam. Quem fala isso é o Pedro Lemebel, escritor latino, chileno. A gente também tem que estar prestando atenção nas línguas iletradas dos abismos, os ventos, os ruídos, os passarinhos. Tudo isso é língua portuguesa, brasileira, sertaneja, mundial.

língua réptil, língua pedregosa, é tudo língua. Não, é muito bonito tu trazer já essa provocação de contestar um pouco essa língua portuguesa, que era justamente a minha segunda pergunta, né? Nossa língua portuguesa, ela é muito, extremamente composta por influências que vêm de todas as partes, inclusive do outro continente. Língua banto também é língua tupija, natural daqui, enfim, é uma composição a ponto da nossa querida...

é Lélia Gonzalez ser nomeado como preto-guês, reivindicando o preto-guês, muito mais legítimo do que o português. Te parece que é um caminho por aí? O senhor se considera um hablante do preto-guês? Eu sou falador sertanejo, né? Tem muita ladainha, muita reza. Volto a dizer, a língua é um fogo antigo, né? Então imagine os ruídos que vão formando a nossa fala. A gente chega ali no momento que os portugueses chegam aqui, mas as línguas que estavam sendo faladas antes, né?

as línguas indígenas, línguas tão antigas, tudo isso vai nos formando. Quando eu escrevo, eu penso muito nas ladainhas da minha mãe, nas rezas, queixas, ladainhas. Minha mãe dava muito vexame. Então, imagine, quando eu falo dessa língua da minha mãe, a minha mãe trazia consigo línguas muito antigas. Muitas mulheres estavam ali com minha mãe. Imagine de onde se vem vindo.

Isso aí vem vindo de raízes indígenas, de raízes muito profundas, que a gente nem sabe enumerar. Eu ouvi uma entrevista agora há pouco do nosso querido parceiro, ator, artista Gero Camilo, em que ele reivindica a língua brasileira. Nós estamos falando aí uma língua brasileira e dizendo um pouco dessa formação ou dessa língua que já estava sendo falada aqui, que nem Brasil se chamava ainda esse território.

Que legal o senhor citar o Gero Camilo, talvez tenha sido até aqui no Brasil, de fato, que tenha visto essa entrevista, não sei porque a gente publicou justamente nessa segunda-feira uma entrevista com ele, por conta do filme Papagaios, que ele brilhantemente está estrelando e está estreando pelo Brasil afora, mas enfim, sobre toda a trajetória dele, que é vasta, é uma grande estrela do cinema nacional. Grande estrela, grande nordestino, nós falamos nordestinês.

O Gero Camilo está com esse filme lindo, Viu Papagaios, é um filme incrível, ele ganhou o melhor ator lá no Festival do Gramado, muito merecido, é um filme incrível. Foram quatro Kikitos lá em Gramado, e um deles justamente para ele, por melhor atuação, mais do que merecida, recomendo fortemente que as pessoas vejam o filme e toda a trajetória do Gero Camilo, que, enfim, inclusive essa entrevista aqui está muito especial.

Mas Marcelino, então retomando ao final da sua resposta, te parece que é um caminho necessário que o Brasil encampem uma luta de reivindicar que aqui falamos o brasileiro, não o português? Mas os próprios portugueses lá dizem de forma, inclusive, preconceituosa, dizem assim, eles não falam português, eles falam brasileiro. Porra, nós falamos brasileiro, então.

Muito bem, nós falamos brasileiro, e esse brasileiro aí é composto de tantas línguas, e eu estou falando brasileiro-brasil, já dizendo desse Brasil que foi chamado assim, mas essa região aqui tem outros nomes, e a gente sabe muito bem. Quando a gente se depara com palavras indígenas, Aniagabaú, Itaquera, tudo isso aí é muito antigo, isso aí vem vindo há muito tempo, esse fogo é muito antigo.

É a língua do fogo. Falamos a língua do fogo. E é muito bonito que realmente não é só as palavras, mas a pronúncia, o soar. Esses dias eu fiz duas entrevistas com portugueses, uma delas é por conta da Revolução dos Cravos, que aconteceu agora no final de abril, e aí a gente estava falando de Grândola, Vila Morena, que é essa composição que foi a senha, e aí estava entrevistando o sobrinho do João Afonso, que foi... Não, o João Afonso é o sobrinho, o Zeca Afonso, que é o compositor.

E eu, gente, eu tô falando outra língua com essa pessoa, eu tive muita dificuldade de entender, embora as palavras fossem as mesmas, mas uma pronúncia completamente diferente, então tá até nesse pronunciar, nesse jeito de articular a boca, de fato é um outro idioma, né Marcelino?

É um outro idioma e, volto a dizer, a gente é composto dessas línguas todas. Quando perguntam de onde vem a minha escrita, as pessoas acham que a escrita de um autor vem da biblioteca ou dos livros que ele lê ou quando acontece o letramento.

mas a poesia já existia na minha casa há muito tempo. Então, imagina, essa poesia é feita de ruídos, de falas, de palavras que eu nem julgava e nem sabia o que significavam, mas já eram ruídos no meu juízo. Então, tudo que eu escrevo tem muito fortalecida essa linguagem, essa linguagem múltipla, essa linguagem já tão poliglota.

essa linguagem já tão feita de ruídos, de rezas, ladainhas, queixas, barulhos, sandálias, chinelos, pedras. Rapaz, é muita coisa. Aliás, uma curiosidade, não sei se você sabe, eu sou um dos curadores lá de uma sala permanente no Museu da Língua Portuguesa, eu e a Roberta Tela Dalva, que somos curadores de uma sala chamada Falares. Estou falando isso, falando do Falares, porque o Falares é...

de alguma maneira, uma tentativa de registrar essas falas múltiplas, diversas, pelo Brasil afora. Então, está lá, é um acervo permanente.

na Sala Falares, no Museu da Língua Portuguesa da Língua do Fogo. Salve o grande Museu da Língua Portuguesa, localizado no Centro Histórico de São Paulo, que já pegou fogo na Língua do Fogo e ressurgiu como a Fênix, aí foi reconstruído e vale a visita, seja você morador de São Paulo, visitante, é um lugar especial para mergulhar nesse Museu da Língua Portuguesa, que daqui a pouco a gente já tem que reivindicar de Museu da Língua Brasileira.

Aí seja o primeiro passo que a gente possa mudar, mudar o nome do museu, né, Marcelino? Eita, vamos juntar todos esses povos que falam essas línguas todas, que nos comunicam. Você estava falando agora há pouco da comunicação de uma língua em relação à outra, coisas que a gente não vai entendendo. Eu lembro de palavras que minha mãe falava, que eu dizia o que ela está falando. Ela dizia assim, eu acordei com um farnizinho.

Aí eu procurei durante muito tempo essa palavra farnizim, de onde é que vem essa palavra farnizim. Aí fui pesquisando, pesquisando, pesquisando, aí cheguei, na verdade, à origem da palavra que é frenesi. E essa palavra é francesa. Então o que aconteceu? Isso aí colou na minha mãe e isso foi vindo, vindo, vindo e já se transformando numa língua bem brasileira.

Eu gosto da ideia que se chama língua brasileira, ou sei, línguas múltiplas, sei lá, mas, de alguma maneira, o museu tenta, e acho que é uma tentativa muito válida, ele tenta compor-se dessas línguas todas e tenta pensar o mundo também atual.

O bajubá ou pajubá, a língua das travestis, tantas coisas ali misturadas, mescladas, e que formam uma língua tão múltipla em permanente movimento. Exato. E é muito inspirador também como há um respeito grande por todas as formas de expressar a nossa língua portuguesa, a nossa língua brasileira.

Porque esse preconceito linguístico é algo extremamente antigo, que vem algo desde a constituição desse território como país ocidentalizado, mas é algo que nunca se largou. É impressionante como até hoje, de maneiras às vezes diretas, mas às vezes indiretas, mas de todas as maneiras, sempre tenta se colocar como periférico, como fora do centro, fora do respeito àquela pessoa.

que coloca um R, onde no dicionário Aurelio se fala com L e por aí vai, né, Marcelino? Está aí uma luta que a gente não pode desistir, esse preconceito linguístico. Tem muito preconceito linguístico, né? Isso é correto, isso é certo, se fala dessa maneira, olha como fulano fala, né? Quando diz, está ligado, né? Aí eu lembro do João Cabral do Melo Neto, João Cabral do Melo Neto, poeta pernambucano.

quando a cada frase que ele dizia, você pode assistir nas entrevistas, ele dizia assim, olha, eu não gosto de música, compreende? Porque a poesia, compreende?

A poesia tem seus próprios ritmos. Compreende? Então a música compreende, compreende, compreende. E ele falava compreende a cada segundo das frases que ele pronunciava. O compreende do João Cabral é o taligado dos nossos amigos e amigas. Então quer dizer que o João Cabral pode falar compreende e o outro rapaz não pode falar o taligado? É a mesmíssima coisa. Eu lembro também do nosso poeta querido Marco Pezão,

um dos criadores do Sarau da Cooperifa, quando ele, no poema clássico dele, dizia Nós é ponte, atravessa qualquer rio. Nós é ponte, atravessa qualquer rio. Isso toda, uma sala toda lotada ali no bar do Zé Batidão.

gritando e dizendo esse verso, nós é ponte e atravessa qualquer rio. Aí um professor de português chegou e disse, Marco, esse está errado, nós é ponte e atravessa qualquer rio. O certo é, nós somos pontes e atravessamos qualquer rio. E o Marco Pesão respondeu, desse jeito, ninguém atravessa. Nós é ponte e atravessa qualquer rio.

você vê que a própria frase já vai atravessando, há muita urgência nisso. Nós somos pontos e atravessamos qualquer rio, o português vai atrasar essa retomada de território, essa travessia.

Ei, Marcelino, aproveitando que tu já citou aí uma bela poesia que é construída sobre o concreto paulistano, queria trazer mais um texto, no caso, esse é um texto seu, que tive a grata surpresa me preparando para a entrevista que ele está completando 20 anos e recebeu...

um belo presente, uma bela roupagem, que é esse texto, essa poesia da paz, que eu não tenho certeza se essa foi a apresentação original da Naruna Costa, mas pelo menos foi a vez que chegou para mim, e realmente é estonteante, e agora fiquei sabendo que, não sei se de forma espontânea ou calculada, o Emicidas está celebrando esses 20 anos dessa poesia na sua nova turnê.

Mesmas cores e mesmos valores, que também é uma referência a Racionais MCs. Então aí temos uma composição, uma cauda longa, como se diz hoje em dia nos dias de internet, né? Mas enfim, queria que tu comentasse um pouquinho sobre esses 20 anos da poesia poderosa, que agora recebe novas armas. Talvez até seja uma boa brincadeira, né? Dar paz que não é dar paz com novas armas, por conta das palavras sempre certeiras de MC, né?

Emicida eu conheci em começo de carreira, muito no começo, ele vendendo os CDs dele por R$2,00, ele e o irmão dele. Então conheço o Emicida já tem um tempo, ele ouvia eu dizendo meus textos, inclusive eu cheguei a participar de um disco anterior dele, fazendo Trabalhadores do Brasil, eu mesmo dizendo...

entre uma canção e outra do Emicida. Essa amizade continuou muito estreita e ele já tinha um tempo que desejava fazer o Da Paz. Ele fez, ele gravou um clipe que já está no ar. Acho que tem um ano e pouco que esse clipe foi gravado com o Da Paz. Ele já vinha fazendo o Da Paz em alguns shows, o Trabalhadores do Brasil. Ele também faz um texto. Uma vez ele lê um texto meu chamado Homo Erectus, que abre...

o livro Balé-Ralé, ele já fez isso em show, estonteante, ele lendo também o Homo Erectus, interpretando. E o da Paz, eu não sabia que ele ia fazer num show recente, isso eu não sabia, mas eu sei que ele faz em shows e que ele fez esse clipe, mas nesse show agora eu não sabia. Ele faz um trecho do da Paz, assim, estonteante.

Eu fiquei muito honrado e muito feliz, mais uma vez, dessa defesa do Emicida, que é um grande artista, um grande parceiro, um grande interlocutor. E olha só a coincidência, isso aí é coincidência de 20 anos do texto. Ele foi escrito em 2006, publicado em 2008, e sim, a primeira atriz que interpretou o texto, porque eu entreguei o original para ela, ainda não era livro publicado, era um papel impresso.

que eu entreguei o Da Paz, e o Da Paz faz parte do espetáculo Hospital da Gente, que é um espetáculo que faz parte do repertório do grupo Clariol de Teatro. Então, infelizmente...

20 anos e continuam matando os garotos, os jovens pelas periferias do Brasil, e é isso que o texto denuncia. Tristemente atual, né, Marcelino? Realmente 20 anos, quando a gente olha nesse campo mágico de composição da língua brasileira, é pouquíssimo, mas não muda o fato que são duas décadas inteiras e é um texto que poderia ter sido feito ontem.

e mais, interpretado por toda a violência que acontece contra a população negra nas nossas capitais, nas nossas periferias, mas também se a gente fizesse olhar mais macro, olhando para o mundo, é impressionante como ele também super dialoga com o que está acontecendo hoje, que se busca uma paz na intervenção da Venezuela, na intervenção no Irã, mas o que são, são invasões sem pé nem cabeça, usando como desculpa a paz, mas sempre, na verdade, na prática, provocando mais guerra, porque é isso que move o imperialismo mundial.

Eu acho que é isso, de alguma maneira, o que a interpretação do Emicida revela, porque o Emicida faz essa ponte das crianças mortas pela guerra, e ele faz essa referência imediatamente depois de dizer o da paz nesse novo show. E toda vez que esse texto viraliza, toda vez que me marcam lá no Instagram e marcam a Naruna Costa...

com esse texto, a interpretação da Naruna e também a interpretação da Emicida, no clipe que ele fez, eu digo, alguma coisa aconteceu, mataram mais pessoas, mataram mais crianças, mataram mais jovens, mães aí estão chorando a morte dos seus filhos. Então, infelizmente, eu acho que um escritor, uma escritora, quando escreve um texto, testemunha isso.

coloca isso aí, olha o que está acontecendo. E a gente gostaria de ler esse texto, que continua lá denunciando, a gente lê esse texto e dissesse que isso aí não acontece mais. Mas em algum momento da história da humanidade fizeram isso com nossas crianças e nossos jovens. Por isso que um texto é exatamente para essa denúncia e para esse testemunho. Mas o que acontece é que a gente olha o texto e diz que continuam matando nossos jovens e nossas crianças.

falhamos como humanidade, estamos falhando. Espero que não falhemos mais e que esse texto seja algo que diga. Em algum momento, a humanidade não deu certo. Mas, infelizmente, toda vez que esse texto viraliza, toda vez que a gente lembra dele, é porque isso aí não acabou.

É, a certeza que a gente tem, Marcelina, é que a gente deve alcançar esse dia, às vezes é um pouco utópico, mas a gente precisa se agarrar a essa utopia, como diria Eduardo Galeano, e eu tenho certeza que quando a gente chegar nesse ponto, a gente vai olhar e dizer foi a importância desse texto, dessa poesia, dessa denúncia escrita de maneira que consegue atravessar nossos copos e mexer em algum lugar do nosso imaginário que nos levou para esse caminho dessa paz que existe, não dessa paz televisionada que tentam nos imprimir.

Essa paz hipócrita, essa paz em que um Trump chega a reivindicar o prêmio Nobel da paz, porque ele faz guerra para poder alcançar a paz.

Gente, quanta gente morrendo aí, quantas crianças, quantos jovens, quantas pessoas aí sofrendo esses efeitos de uma guerra desigual. Completamente, nem dá para chamar de guerra. Marcelino, o nosso tempo está basicamente se esgotando, eu ainda quero te escutar, recitar, seja alguma poesia, algum texto que dialogue com tudo isso que a gente está conversando.

Mas antes, eu queria fazer um rápido comentário sobre um balanço de mais uma temporada de Agropeça, essa apresentação tão bonita, tão marcante, tão denunciante, interpretada pelo Teatro da Vertigem, que esteve durante dois meses, basicamente, no ar, em cartaz.

talvez na sua própria mente de casa, pela primeira vez chegou em casa, que foi o galpão do MST, o galpão Elza Soares, no centro de São Paulo, e eu, enfim, normalmente a gente faz uma entrevista para anunciar que começou a temporada, no caso a gente está fazendo uma porque acabou a temporada, mas eu tenho certeza que tu vai nos brindar com uma bonita esperança de que já já ela está de volta circulando por aí. Tem previsão, Marcelino?

Não tem previsão, você observa que é uma produção muito grande, uma produção que precisa de apoio, então foi uma luta para ter a retomada dessa temporada, uma temporada que começou em 2023, depois fez uma temporada, uma pequena temporada em Santiago do Chile, e agora voltou, e com sucesso absurdo

na sala, no Espaço Cultural Elza Soares, lá no galpão do MST, na Barra Funda, um sucesso, 350 pessoas por apresentação e as pessoas tomadas de muita vontade, de muita indignação, e com esse grupo extraordinário, com a direção do Antônio Araújo e a Lili Monteiro, é um elenco espantoso.

Eu amo teatro, eu escrevo pensando em teatro e fiz teatro desde pequeno. Quando eu escrevo, eu penso em teatro. Então, toda vez que um grupo, um ator, uma atriz, na Luna Costa, já estamos aqui, toda vez que um grupo, uma atriz, um ator levam um texto para o palco, um texto escrito por mim, é um sonho antigo que volta à cena. E com essa...

fortaleza de uma palavra que se quer inquieta, se quer combativa. Eu vou dizer um texto, trechinho curtinho, do meu livro Escalavra, publicado pela Marcord. Escalavra é a história de um pai, de um filho e de um silêncio sepulcral entre eles. Esse menino que é analfabete, o pai também, fazem trabalhos, os dois fazem trabalhos que ninguém quer fazer, carregar pedra para lugar nenhum.

se passa num sertão, eu sei bem que isso de alguma maneira é sertane, é o sertão penambucano, mas tem um momento que esse menino encontra uns livros na casa de um professor, uma biblioteca, e ele vê aqueles livros, e aqui é o trecho exatamente em que ele encontra esses livros. E os livros são a casa das palavras, né? Então, vamos lá. Eram os livros de cera amarela ou preta, tiras finas, caules de folhas vegetais,

os livros Vivos Animais, de Osso Agila, lidos de trás para frente, nos templos bravios, homoplatas de carneiros, cacocascos cerâmicas, todas as matemáticas babilônicas, forquilhas, livros tijolos arenosos nas margens do Nilo, papiros pergaminhos, papel sagrado, os traços severos e rígidos.

rugas onde estão os rabiscos da vida, passada e futura. Livros são árvores dormindo, parecem pássaros nos ninhos botando ovos.

Eita! Vamos lá para essa geração de sementes, ovos, plantações de palavras pelo mundo. Marcelino Freire, minha gente, escritor poeta de sertânea para o mundo, nos ajudando a celebrar e também criticar, olhar com a devida pimenta e com a devida...

o devido sal, todo o tempero, esse Dia Mundial da Língua Portuguesa, cada vez mais reivindicando que tenhamos o Dia Nacional da Língua Brasileira. Marcelino, só para fechar, devemos ter novas publicações, novas estreias em 2026. Como que anda a tua mente criativa nesse sentido?

Eu estou muito ligado a teatro. Eu sempre fui ligado a teatro, mas tenho convites de grupos para escrita colaborativa, como foi o caso do Teatro da Vertigem. Então, eu tenho sempre esse contato muito estreito cada vez mais com o teatro. Então, tenho escrito algumas coisas nesse sentido. Mas livro novo só o ano que vem. O ano que vem que eu vou fazer 60 anos. Eu estou com 59,99. 59!

Não é a idade, é a promoção, 59, é 59,99, na verdade já é 60, mas deixa chegar aos 60 que a gente comemora e comemora com um livro novo para o ano que vem. Gostoso. Já estamos em uma entrevista pré-marcada e uma comemoração também, já vou escolher a roupa de ir para celebrar esses 60 anos de escrita, de poesia e de brasilidade, de sertanejo, o Marcelino Freire. Obrigado mais uma vez, meu amigo. Até a próxima.

Muito obrigado. Eita! Abraço, Lucas. Abraço a quem nos acompanhou por aqui. Conversa Bem Viver com Lucas Salum.