Episódios de Roda Viva

RODA VIVA | FELCA | 23/03/2026

24 de março de 20261h21min
0:00 / 1:21:27

Para discutir os avanços e os desafios do ambiente digital, o Roda Viva recebe Felca nesta segunda-feira (23/3). 

O Roda Viva vai ao ar toda segunda, a partir das 22h, na TV Cultura, no site da emissora e no YouTube!Acompanhe também no www.tvcultura.com.br

#RodaViva #SomosCultura #Digital #Felca

Assuntos15
  • Segurança digital para crianças e adolescentesAprovação no Congresso · Verificação de idade nas plataformas · Implementação pela sociedade · Pontos positivos e negativos · Fase de implementação até 2027 · Responsabilidade das empresas
  • Exploracao Sexual InfantilImpacto viral do documentário · Revelação de redes de pedofilia · Mobilização da sociedade · Reação das plataformas · Equipe de assessoria jurídica e psicológica
  • Estratégias de MarketingLudomania como vício catalogado pela OMS · Propagação irresponsável em mídia · Influenciadores mirim anunciando apostas · Comparação com regulação do cigarro · Maior taxa de suicídio entre vícios
  • Exploração econômica e laboralInfluenciadores mirim produzindo conteúdo · Crianças em ambientes com adultos · Normalização de comportamentos adultos em menores · Publicidade predatória
  • Influenciadores DigitaisResponsabilidade de quem tem voz · Educação digital através de influenciadores · Diferença entre conteúdo de humor e informativo · Impacto desproporcional de criadores · Tradução de especialistas para audiência leiga
  • Protecao Criancas OnlineRestrição de acesso a conteúdo adulto · Filtros do adulto vs criança · Desenvolvimento cerebral infantil · Importância do controle parental · Entrada tardia na internet
  • Saúde Mental JuvenilImportância da terapia psicológica para crianças · Desenvolvimento de senso crítico fora da internet · Exposição precoce a conteúdo adulto · Sedentarismo e perda de sono · Ansiedade social e desenvolvimento emocional
  • Casos de abuso e exploração infantil nas redesPadrões de comportamento predatório · Grooming online · Mapping de informações pessoais · Falta de discernimento infantil · Consequências para desenvolvimento
  • Manipulação algorítmica e scroll infinitoDanos cognitivos do scroll infinito · Propostas de alteração de design das plataformas · Impacto em visualizações de influenciadores · Sacrifício da saúde mental infantil
  • Violência contra a mulherAumento de machismo entre gerações · Feminicídio e cultura do estupro · Impacto do conteúdo misógino · Criminalização da misoginia online · Desigualdade de gênero em estatísticas
  • Formação masculinidade redes sociaisModelagem de comportamento masculino tóxico · Meninos como referência de influenciadores · Normalização de machismo em crianças · Ciclo de deformação geracional · Masculinidade frágil
  • Regulação de Plataformas DigitaisInteresse comercial vs proteção infantil · Contato com influenciadores após viralização · Padronização de verificação de idade · Pressão da sociedade gerando mudanças · Lucro com conteúdo problemático
  • Debate Político InternetDivisão ideológica esquerda-direita · Crítica de políticos à lei · Loot boxes em videogames · Responsabilização de empresas vs estado e família · Unidade versus fragmentação política
  • Inteligência artificial e seus riscos para criançasSedentarismo cognitivo · Desolamento por relacionamento com IA · Deterioração de relacionamentos reais · Roubo de dados infantis · Falta de desenvolvimento de pensamento crítico
  • Trajetória e carreira de FelcaEntrada na internet aos 20 anos · Produção de conteúdo desde 2012 · Mudança de foco para temas sociais · Parceria com Fantástico · Equipe de amigos de infância
Transcrição145 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Boa noite, estamos juntos mais uma vez aqui no Roda Viva. E o nosso entrevistado de hoje é o influenciador Felca. Felca é nome artístico, de batismo ele é Felipe Bressanin Pereira. Aos 27 anos, Felca é uma das celebridades das redes. Conquistou milhões de seguidores fazendo rir com seu humor ácido. Mas em agosto do ano passado ele publicou um vídeo muito sério. Em pouco menos de 50 minutos, Felipe escancarou a exploração sexual e comercial de crianças e adolescentes nas redes.

que já foi visto mais de 70 milhões de vezes, provocou uma reação imensa. Tanto que o próprio Congresso Nacional teve de agir. E os políticos, que ao longo dos anos engavetaram dezenas de projetos para controlar a internet, aprovaram em poucas semanas todo um conjunto de regras que acaba de entrar em vigor. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital. E para entrevistar o Felca, nós temos a presença dos jornalistas Renata Cafardo, repórter especial e colunista do Cidadão.

Maria Melo, gerente do Eixo Digital do Instituto Alana. Bruno Luca, repórter de cotidiano da Folha de São Paulo. Fernanda Campagnucci, diretora executiva do Internet Lab. E como vamos falar de leis, saúde mental e infância, temos também Daniel Becker, pediatra, sanitarista e ativista pela infância. Iberê Dias, juiz da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJSP. E na bancada, os universitários, alunos de jornalismo da Unesp e SPI.

E, claro, os desenhos sempre atentos do Eduardo Batistão. Felca, boa noite. Muito obrigado por atender ao nosso convite. Você é um cara ocupado e preocupado também. E a gente vê isso claramente. E o que você conseguiu ajudar a gerar, leva até o seu nome, tem gente chamando de Lei Felca, vai interferir com a vida de adolescentes e também de jovens.

e crianças, mas também de adultos, que a partir de agora vão ter que comprovar idade e alguns detalhes antes de poder acessar o conteúdo digital. Bom, isso já provocou reações, tem gente que não está gostando, tem gente que anda te agredindo dentro das redes. E aí, era isso que você queria? Era o que você buscava? Já se arrependeu? Quando eu publiquei o vídeo de adultização, a minha iniciativa, o meu propósito era conversar com os pais,

e relatar problemas que estavam acontecendo na internet, que eram reais, eram factuais. Não era uma coisa de... Era uma coisa de dar luz para problemas que existiam, eram constantes. Outras pessoas tinham falado sobre isso antes de mim, mas eu acabei falando com um pouco mais de voz, porque eu acabo, por ocasião, tendo mais relevância do que essas pessoas. Mas assim, em nenhum mundo, nenhum mundo mais...

exótico que eu pudesse imaginar, eu ia imaginar que isso ia gerar uma lei. A publicação de um vídeo podia, por, talvez, efeito dominó, as pessoas se engajando muito. Você não imaginava que isso poderia provocar essa reação? Claro que não. Para mim era um vídeo. Não é falsa modéstia, não. Não, não, não. Imagina. Para mim era um vídeo que eu falei assim, olha, eu vi algo que está acontecendo, no vídeo eu coloco um momento onde eu mostro como funciona o esquema de pedofilia nas redes sociais,

como que é feito a procura e a busca desses pedófilos e o encontro desses pedófilos uns com os outros. Eu mostro isso e a minha iniciativa era só revelar. Eu nunca imaginava as coisas que iriam surgir. Inclusive, na realidade, eu achava que seria o completo oposto. Eu achava que as redes sociais iriam excluir o vídeo. Eu achava que no segundo vídeo o vídeo não ia ficar no ar. No segundo dia o vídeo não ia ficar no ar. Eu achava que ele ia ser apagado.

Pelka, por que você acha que o YouTube manteve, impulsionou inclusive o seu vídeo?

Eu não acredito que o YouTube tenha impulsionado. Até porque esse vídeo foi desmonetizado. E para o YouTube não tem interesse nenhum em impulsionar o vídeo desmonetizado. Não tem porquê. O interesse das redes sociais em si são duas. Reter a atenção das pessoas. Em segundo, capitalizar em cima da atenção. Esse vídeo retém a atenção, mas ele não capitaliza. Ele não dá dinheiro para o YouTube que está desmonetizado. Eu acho que, na realidade, não foi o YouTube.

As redes sociais, elas engoliram com uma pílula amarga. Puxa, eu não vou poder tirar. E as pessoas que geraram esse engajamento. Foi as pessoas, foi a comoção da população mesmo de indo atrás do vídeo, tentando entender e tentando conversar sobre o assunto, tentando debater. Foi iniciativa mesmo da sociedade para com a sociedade, para com esse vídeo e com certeza as redes sociais. Cara, eu vou tentar estancar a sangria. Acho que teve essa discussão lá dentro do YouTube, na empresa. Você recebeu alguma...

Algum contato, uma tentativa de diálogo das plataformas? Eu recebi vários, na realidade. Acho que todas as plataformas entraram em contato comigo nessa busca de como podemos melhorar, como podemos fazer de uma forma que fique mais de acordo com o que é responsável. Isso antes da lei ser aprovada? Isso antes da lei, quando o vídeo foi publicado. Mas eu imagino que é aquela coisa.

uma equipe de advogados, uma equipe de psicólogos para publicar esse vídeo, para produzir esse vídeo. Então, eu fiz de uma forma que, mesmo que você não queira que esteja no ar, que eu estou expondo você, você não pode tirar. E daí foi nesse lugar que aconteceu essa pílula amarga, mas uma tentativa de estancar a sangria, conversar, tentar entender. Naquele momento, você sabia que tinha um projeto de lei já em tramitação no Congresso, que tinha passado no Senado, que estava na Câmara ali ainda?

abaixo do radar do grande debate da sociedade, mas que já estava sendo encampado por grande parte de organizações da sociedade civil, do campo da infância, do campo dos direitos digitais, ou você soube depois, o PL 2628? Naquele momento da publicação do vídeo, ele foi um intuito muito genuíno, da minha parte, de expor uma situação. Então, eu nem cheguei a investigar se existia alguma tentativa do governo

alguma tentativa de instituições, organizações, eu fiquei sabendo depois. Algumas psicólogas vieram falar comigo e falaram, olha, isso na verdade que você está falando e tudo mais, a gente está tentando iniciar a PL 28, como você falou, a gente está tentando colocar no governo, no Congresso e tudo mais. E eu nem sabia, foi uma surpresa. Puxa vida, eu não esperava. Para mim a iniciativa era outra. E quando você tomou contato pela primeira vez com o texto da lei? Depois que ela foi aprovada ou antes você já tinha tido?

Algum tipo de contato? Eu tinha passado uma lida antes da aprovação, mas após a aprovação, eu passei uma lida um pouco mais atenta para publicar um vídeo, onde eu publiquei recentemente no Instagram, tentando explicar os pontos da lei. É claro que nenhuma lei é perfeita. Existem bônus, existem ônus. E a gente só vai saber na prática, e que foi o que eu falei no vídeo, quando a prática for realizada. Então, na teoria, existem pontos positivos,

e pontos negativos é a prática que vai dizer exatamente, com precisão, se tem mais bônus e ônus. Quais são os negativos, na sua opinião? Um dos negativos que eu acredito sobre a lei do ECA digital é que ela diz para as plataformas que você tem que verificar a idade, olha, vocês têm que verificar a idade, tudo certo, mas ela não diz como. E daí trouxe essa confusão, onde cada plataforma faz de um jeito, cada jogo faz de um jeito,

Cada rede social faz de um jeito. Cada site faz de um jeito. Alguns sites menores simplesmente não vão suportar a pressão e, às vezes, deixam de existir. Outros sites colocam a verificação por facial, que é inefetiva a verificação facial. Outros sites colocam, como o Roblox, por exemplo, ele colocou com faixas de idade. Então, você vai poder conversar de quem tem de distância até três anos de você. Então, cada site faz de uma forma, cada plataforma, cada jogo faz de uma forma.

A tecnologia teria que ter sido indicada? Eu imagino que sim, um método, um método para fazer, para padronizar, para não ficar essa confusão toda de eu entro no site, como que eu vou fazer? Eu quero considerar a sua proposta. Pensar numa proposta para isso é muito difícil, até porque essa lei está em fase de implementação. Então, eu acho que até meados de 2027, ainda não vai ter nenhum tipo de punição,

para as plataformas que fizeram errado. Então, eu diria que é muito difícil pensar numa proposta. O que eu penso numa solução é uma forma de padronizar por token, por exemplo. É como o Google hoje. Você cadastra, você se cadastra no Google, e daí você entra, por exemplo, na Riot, você entra, por exemplo, na Steam, e você consegue, através do Google, colocar a informação. Você deseja logar pelo Google? É aquela coisa. A única coisa é que você vai ter uma verificação de idade,

através do Google. Isso é uma forma de... Através do Google ou de outro sistema. Isso é uma forma de padronizar para não ficar essa bagunça toda. E nesse interim, algumas plataformas, alguns jogos, alguns sites usam disso para fazer, às vezes, o marketing. Então, algumas baniram completamente. Por exemplo, eu sei que o Super Mario, ele deixou para maior de 18. Tudo. Super Mario maior de 18 é um absurdo. É um absurdo Super Mario ser maior de 18. Ele deixou maior de 18, que é para nem correr o risco.

um dos ônibus da lei, como foi aplicado hoje, porque veio de forma imatura. Ele veio de forma imatura, veio verde. Precisava de mais maturidade, mas com o tempo a gente vai saber realmente se na prática é de fato positivo. Claro que toda lei tem seus problemas, mas se espera que pode ser muito positivo. Bom, já que estamos falando de lei, temos aqui o juiz da Coordenadoria da Infância e Juventude, o Ibereiro Dias, que pode talvez dar a sua contribuição.

do jeito que está o ECA digital, ele é eficaz? A mim, particularmente, agrada muito a lei. Eu acho que a lei foi um passo essencial que precisava ser dado, vem em boa hora. Agora, tem uma questão que é a falibilidade de qualquer lei. Toda vez que uma lei é implementada, naturalmente existem pontos de aprimoramento que o tempo vai mostrando. Quando o legislador elabora a lei, ele não tem como saber de todas as falhas. Mas era isso que eu queria saber também. Você que está lá dentro, você vive do meio digital.

Você já foi um frequentador de mídias digitais e vive do meio digital. Onde você acha que estão os principais pontos de atenção para a fiscalização de efetivo cumprimento da lei? Digo do ponto de vista de quem está lá dentro. Os principais pontos de atenção para a fiscalização. A lei, ela se restringe à menor de idade. Basicamente é o Estatuto da Criança e Adolescente, que já existia em qualquer meio. Existe na TV, existe na propaganda, existe na atmosfera da sociedade em si.

foi aplicado no digital. Eu imagino que os pontos mais relevantes é para produtores de conteúdo mirins. Eu acho que isso é muito relevante a gente considerar, porque produzir conteúdo, você está à mercê de uma série de situações, inclusive para quem é adulto. Imagina como que é isso para uma criança. Então, é um ponto de muita atenção e também, principalmente, essa coisa da... O que eu acho que é muito relevante é a criança, quando ela está,

em um meio onde existem adultos. Isso é muito problemático, isso é muito relevante e pode gerar problemas terríveis, que pode vir de um assédio ou de um adulto introduzindo para uma criança algo que ela não deveria saber, ou pode seguir até o escândalo, o crime de onda da pedofilia, do adulto mapeando a criança, onde você mora, qual é o seu nome, que escola você estuda. A criança não vai saber diferenciar. Ela não vai saber,

essas informações. Se não vier dos pais, mas às vezes a criança não tem todo o controle. Então, para mim, o ponto mais importante, se for escolher um, ambientes onde crianças e adultos coexistem. Esse é o ponto mais relevante, onde tem que olhar no primeiro momento é esse. O pediatra Daniel Becker tem uma vasta experiência nesse campo e pode fazer sua pergunta de um ponto de vista muito especializado. Por favor. O Felipe fez um vídeo que explora,

que denuncia a exploração comercial, a pedofilia, isso atravessa toda a sociedade, teve uma repercussão fantástica. Então, acho que nós, ativistas da infância, defensores da infância, temos muito a agradecer a você. Essa lei, como Maria falou, estava dormindo no Congresso um pouquinho, estava pronta para ser discutida, mas você trouxe uma aceleração brutal da discussão. Só que o vídeo que é sobre esse tema, que mobilizou muito a sociedade,

aspecto parcial dos problemas que a infância vive na internet. A gente tem muito mais, especialmente em relação às redes sociais, a gente tem destruição da atenção, perda de inteligência, perda de aprendizado, imediatismo, futilidade, consumismo de outras formas, exploração comercial de outras maneiras, o tal do brain rot, aumento do bullying, da violência, da misoginia, das ideologias do ódio, enfim, tudo isso afetando profundamente crianças, danos físicos, inclusive, sedentarismo, perda do sono, miopia.

ideia de que isso estava acontecendo com a infância e a adolescência? Você tem ideia do alcance do que você produziu? Porque o vídeo contribuiu para a aprovação do ECA, que vai dar conta, vai tentar dar conta de todas essas questões, que são tão prementes e tão prioritárias para a infância. Eu, sinceramente, na minha visão, eu não sei se vem de... Eu não sei de que lugar que vem isso, mas o meu vídeo, eu sinto que, na realidade, ele foi um...

Ele foi um... Quem contribuiu, quem fez acontecer mesmo foi a sociedade. O meu vídeo ele só colocou. Eu só coloquei. Então, pode ser encarado como falso e modéstia, mas é como que eu enxergo mesmo. Eu enxergo dessa forma porque vários outros países estão falando disso, meio que quase como num zeitgeist, onde a gente está vivendo hoje, onde talvez eu acredito que, como a internet é muito recente, existiu um tempo para a gente começar a entender realmente as problemáticas.

desenvolvendo globalmente. Exatamente, Daniel, é exatamente isso. E daí meu vídeo entra nesse lugar onde a ficha estava quase caída, estava engasgada, estava engasgada. Foi um soquinho, mas eu imagino que tudo que está acontecendo é um apelo da sociedade para com as problemáticas que já observamos. A neurociência observa, realmente você citou muito bem, o brain rot, essa coisa de você dar atenção. Hoje, por exemplo, eu acredito que a rede social, na realidade,

Ela é problemática até para adultos. Sim, sem dúvida. Os idosos estão ficando viciados, estão deixando de fazer atividades importantes para a vida deles, para a saúde deles. Existem problemas na rede social, até para adultos. A questão com a criança é que o adulto tem o filtro. Ele tem o filtro para saber se aquilo está afetando ele. Ele tem o filtro de, na hora que ele pega um livro para ler, ele fala, cara, não estou conseguindo prestar atenção.

Deve ser o Instagram que eu fico consumindo, deve ser o TikTok que eu fico vendo. Vou tentar tirar isso. A criança não tem esse filtro. E é por isso que a criança é a preocupação primária.

É a preocupação inquietante. Se a criança fica exposta à rede social durante muito tempo, a aplicativos desse tipo, ela não desenvolve esses filtros. Ela não vai poder desenvolver isso mais tarde, vai ter muito mais dificuldade. Porque existe uma janela de desenvolvimento, mas ela vai desenvolver. Por isso é tão importante a gente proteger crianças e adolescentes. Pois é. O Felca, você começou dizendo, quando você fez o vídeo, você falou, minha ideia era conversar com mães e pais. Se você tivesse filhos aí entre 10 e 15 anos,

um smartphone de Natal. Você daria? E como é que seria essa conversa do Felca com os filhos entre 10 e 15 anos sobre surfar na internet? Eu faria com meus pais. Os meus pais, eu sempre gostei de produzir conteúdo. Desde criança eu tive um interesse nisso. Quando eu tinha 12 anos, eu criei um canal no YouTube. 12 aninhos. Queria falar de Minecraft. Gostava do meu joguinho, queria jogar Minecraft e me mostrar pro pessoal. O meu pai, ele chegou e falou assim, filho, você é muito novo pra fazer isso. Você não vai fazer. Me proibiu. Eu fiquei revoltadíssimo.

Pode? Não, eu quero jogar meu Minecraft e mostrar. Hoje, olhando para trás, meu pai tinha plena razão. Se eu tivesse um filho hoje, na faixa dos 10 anos, como você falou, eu com certeza não daria a rede social para ele de jeito nenhum. Mas eu posso ser um pouco mais radical do que as pessoas costumam ser. Mas nem o celular ou só a rede social? O celular você daria? O celular... É aí que entra a questão do controle parental. O celular pode ser um ambiente onde a criança...

um ambiente onde a criança pesquisa, investiga, um ambiente onde ela consegue ter contato com os amiguinhos ali. O celular também tem animações, uma educação que seja realmente informativa, passada com psicólogos. Existe essa opção. Por que eu não falo dela? Porque para você conseguir colocar para a criança essa opção, você tem que ter um controle parental enquanto pai restrito. Você tem que estar atento. Hoje a gente sabe no Brasil, o pai e a mãe,

sai para trabalhar cedo, joga um tablet na mão da criança e se vira aí. Então, nesse lugar, eu digo, eu fico com a psicologia. A psicologia diz que, a OMS diz que até 13 anos não é para ter rede social. Sobre a internet, eu imagino que dá para se trabalhar com controle parental, com atenção. Agora, se os pais são muito ocupados, têm muita dificuldade para estar ali acompanhando o que o filho anda consumindo, eu digo, restringe. Fernanda? Eu ia pegar a linha do doutor Daniel também, que o ECA Digital,

Celca, ele vai além do conteúdo, né? Ele proíbe as práticas manipulativas, então o autoplay, a rolagem infinita. E você é um produtor de conteúdo que está muito imerso nesse ecossistema da atenção, né? Como que você vê essas propostas de alterar o desenho, a arquitetura mesmo da plataforma? Como que você acha que isso pode afetar o trabalho de quem produz conteúdo como você? Olha, a gente não sabe como vai ser aplicado

scrolling, digamos assim, anti-scroll infinito, a gente não sabe como vai ser aplicado. O fato é que existe uma proposta para ser aplicada, inclusive o Brasil entra em vanguarda nisso, de uma proposta para aplicar uma mudança para proteger as crianças do scroll infinito que a gente sabe que é danoso. Como que eu observo isso? Talvez as visualizações dos influenciadores que advêm de criança, talvez diminuam.

cognitivo infantil? Acho que é um sacrifício pequeno. Você entrou na internet mais tarde, por causa dos teus pais. E eles não te deram um celular também cedo. Você recebeu um celular com que idade? Olha, eu fui ter minha primeira rede social com 20 anos. Você teve tempo de amadurecer, em grande parte, o que a gente chama de córtex pré-frontal, que é as funções executivas, a capacidade de análise, a capacidade de crítica, o controle de impulsos. Você reduz a tua

Quanto mais cedo você entrega um celular para a criança, mais chance ela tem de se viciar. E mesmo um celular sem redes sociais, precisaria de um pai acompanhando o tempo todo. Porque a capacidade de vício daquilo é grande demais. Aquele objeto se torna o mais importante da vida da criança e ela perde as atividades do mundo real que permitem que ela se desenvolva bem, justamente. A minha pergunta é se você entra mais tarde nas redes, se você começa a ver esses vídeos e começa a analisar o que você recebe,

o que o algoritmo te manda, com mais capacidade de crítica, que você desenvolveu justamente fora da rede, que são as experiências sociais, naturais, parentais, escolares, que permitem esse desenvolvimento. Não foi isso que te permitiu, por exemplo, fazer piada com as lives de NVC, com o conteúdo lá, as vendas da Virginia, com o Brain Rot, todas as críticas que você...

chegou nela, você já tinha essa capacidade. Você acha que isso tem a ver com o fato de você ter entrado tarde? Eu acredito, Daniel, que sim. Eu acredito que o senso crítico, ele só pode ser desenvolvido enquanto você está vivendo a vida real. Exatamente. Porque quando você está vivendo a vida digital, o que você está recebendo é a informação mastigada de pessoas que querem que você receba uma informação e não necessariamente aquela informação é para o seu interesse, é para o interesse delas. E o cérebro fica passivo, só absorvendo. Exatamente.

Eu imagino que sim. Eu acho que, inclusive, um apelo para os pais, a sua criança vai se desenvolver muito melhor, de maneira mais saudável, de maneira mais integral, se ela estiver, na tenridade, jogando bola com os amigos, tomando um refrigerante com os amigos, comendo pipoca, sabe? E não internada no celular, passando o dedinho. Amém, doutor Felca.

em relação a essa responsabilidade, essa proteção que está prevista na nossa Constituição Federal, no artigo 227, que vai dizer que é dever das famílias, mas também do Estado e da sociedade fazer essa proteção, garantir os direitos de crianças e adolescentes também no ambiente online. Como é que você vê? A lei abarca basicamente as responsabilidades das empresas nesse processo, levando em conta justamente o fato de que a gente tem no Brasil 11 milhões de mães solo, escala 6x1, ampla desigualdade social, analfabetismo funcional, enfim.

esse centro na responsabilização das empresas, os principais conglomerados econômicos e políticos do nosso globo? Eu, particularmente, é uma cadeia. Até chegar no governamental é uma cadeia. Você fala isso no vídeo, no algoritmo P, do papel das empresas também. Se existisse uma conscientização da sociedade perante a criança, o que é a criança, um respeito verdadeiro pela criança,

não existiria a importância, as plataformas naturalmente se adaptariam. Não tendo. As plataformas também têm os interesses comerciais, os limites que estabelecem são elas e elas agem por interesses comerciais. Sendo assim, antes da lei mesmo, por pressão da sociedade, muitas plataformas houveram alteração. O YouTube Kids, por exemplo, foi um pressionar da sociedade para com o YouTube, de, olha, eu não quero que meu filho entre no YouTube

adultos, a criança não busca aquilo, porque ela não sabe o que é aquilo. A criança vai no conteúdo adulto porque ela escorrega naquilo. Então ela está navegando, vendo a coisinha dela, de repente aparece algo. E o YouTube criou, por pressão da sociedade, o YouTube Kids. A lei, como eu enxergo hoje, ela vem nesse lugar de basicamente falar assim, olha, o que o YouTube fez com o YouTube Kids é o que todo mundo tem que fazer. É como que eu enxergo mais ou menos como funciona. E basicamente dá a responsabilidade na mão dos pais. Agora é o pai que vai...

O pai tem todo o controle parental para saber o que o filho consome. A lei, eu imagino, que vem nesse lugar. Em teoria, na prática, a gente vai ver daqui a uns anos como todas as leis são. Nós vamos fazer um rápido intervalo agora e o Roda Viva volta em instantes com o Felca. Muito bem, estamos de volta com o criador de conteúdo Felca no centro do Roda Viva. Felca, você já fez comentários, alguns meio bem ásperos com relação aos políticos, mas os políticos também,

Retribui, pelo menos eu vi aqui que o Kim Kataguiri, no processo de aprovação do projeto, ele criticou a ideia, porque ele dizia que o projeto que deveria tratar sobre proteção de crianças e adolescentes acabou regulamentando até loot box de videogame. O que criança tem a ver com loot box? O que essa criança tem a ver com erotização ou sensualização de qualquer coisa? O que você acha disso? Bom, eu não sabia desse comentário. Quando eu fiz o...

o vídeo da adultização, eu recebi mensagem de vários políticos tentando entrar em contato. Acho que as pessoas estavam ainda no lugar de entender, tentando puxar para si, sabe? E, sinceramente, eu acho isso muito triste. Muito triste. Acho mesmo. Porque em que momento que a gente evoluiu como sociedade para proteger as crianças ser uma questão ideológica? Onde a esquerda fala, não, talvez seja nosso,

A direita fala, não, talvez seja nosso. E daí fica uma coisa de uma divisão. Eu fico pensando que se as pessoas se unissem, se as pessoas se unissem, ambos os espectros políticos, para se ater ao que importa, porque enquanto tem essa discussão, quem sofre é as crianças. Enquanto tem essa discussão, não, é de direita, é de esquerda, quem sofre é as crianças. Agora, sobre esse comentário específico, sobre o que loot box tem a ver com crianças, tudo. Loot box tem tudo a ver com crianças.

é um sistema de cassino. Eu, enquanto adulto, eu consigo abrir uma lotbox, eu consigo até entrar num cassino. Consigo. Vai mexer com uma série de coisas da minha cabeça, dopaminérgico e tudo mais, vários neurotransmissores, vai me deixar viciado e talvez me faça perder tudo. Mas eu consigo, em algum momento, entender que aquilo foi o fundo do poço. Que eu perdi tudo. Minha esposa está brigando comigo, meus filhos já não me veem mais, eu estou numa clínica de reabilitação, eu me lasquei por causa de cassino. Lotbox é cassino. A criança não tem esse filtro.

falei para o Daniel, a questão da criança é o filtro que não tem no adulto. Então, quando você coloca um sistema de cassino para a criança, tem tudo a ver, tem tudo a ver com a criança. A preocupação que a gente tem que ter é se a criança consegue entender o que é aquilo, consegue entender o que está sentindo e consegue observar quando está viciada. A resposta, não. Precisa de um adulto para falar com ela, olha, você restringiu, você não pode continuar fazendo isso,

ou você não deveria nem ter começado a fazer isso, porque você conheceu um prazer que você não deveria conhecer, que é o prazer dopaminérgico do cassino, é muito prazeroso. A minha resposta é que fico triste que tem essa divisão, acho que todo mundo já se uniu para proteger crianças, e Lutbox tem tudo a ver com crianças. Você falou em política, você tem alguma predileção política? Esquerda, direita, se considera mais conservador, mais progressista? Sabe por que eu não respondo essa pergunta? Porque se eu respondesse,

Tarde da audiência e embora. Exatamente. Porque é a sociedade que a gente vive hoje. E quando tem uma criança, quando eu quero falar de alguma causa, quando eu quero falar, por exemplo, da causa das crianças, ou como eu já falei da causa de Betts, ou, por exemplo, como eu já falei de bullying, como eu já falei de suicídio, quando eu quero falar de uma causa, eu quero falar com todo mundo. Eu não quero escolher um lado, porque eles não estariam gritando sozinhos como a tribo.

Então, na minha carreira pública, eu pretendo continuar sempre dessa forma, querendo falar com ambos os lados,

E eu fico, como eu estava dizendo por Ernesto, eu fico assustado. E talvez eu comece a achar que a gente não tem que pensar só na sanidade mental das crianças, a gente tem que pensar na sanidade mental dos adultos também. Porque em que momento a gente viu para uma criança sendo abusada e falou, isso é esquerda ou direita? Eu diria, inclusive, Felton, que tem um outro grupo totalmente relacionado com as crianças, são as suas mães, as mulheres de forma geral, que também estão sendo atacadas,

Especialmente a partir das redes sociais. Está criando a maior onda de misoginia, de ódio à mulher, de machismo, machismo tóxico da história. Os velhos da minha geração, são estatísticas que mostram, dos baby boomers, 15% acham que a mulher deve obedecer ao marido. Na sua geração, 33%. O dobro. O machismo está aumentando. São pesquisas feitas na Inglaterra. A misoginia está no início da cadeia que leva ao feminicídio.

que leva à cultura do estupro. As mulheres têm medo de andar na rua. Os feminicídios no Brasil, os números são acachapantes. São 3 milhões e 700 mil queixas na justiça de agressão contra a mulher. É uma onda espantosa e que está vindo, eu tenho absoluta certeza, em grande parte pelo menos, a partir da cultura red pill, em céu, que ensinam aos homens como pertencer a esse grupo comendo muita carne, tendo testosterona, botando os testículos no sol para ficar mais forte, mais testosterona.

porque as mulheres conspiram. Começa com um memezinho, com uma piadinha, depois acaba no ódio à mulher. Eu queria saber se você está à par dessa onda, como você acha dessa cultura e como é que a sociedade pode combater. Tem pessoas como eu e muitos outros ativistas que a gente acha que deve criminalizar a misoginia, especialmente a misoginia na internet. Foi uma tentativa do senador Randolph Rodrigues ontem, essa semana, foi bloqueada por um partido em especial.

ver essa onda e o que a sociedade poderia fazer? Você interferiria com o seu trabalho nessa questão? Eu acredito que ninguém em sua sã consciência seria contra punir criminosos, combater o feminicídio, que realmente é uma crescente. Eu acredito que uma forma de combater realmente é o que estamos fazendo aqui agora, dialogando, refletindo, tentando entender.

através desse entendimento que a gente tenta abstrair, seja com especialistas, com o que a neurociência diz, com os dados que você mostrou que eu não sabia, tentar trazer para a sociedade e gerar um debate. Será que é esse caminho que a gente tem que seguir como sociedade? E por que isso está acontecendo? Eu acho que quanto mais uma questão fica esclarecida, porque eu realmente não sei por que isso acontece. Eu não sei por que existe essa crescente.

Mas eu acho que o início, o princípio de tudo é um debate, uma conscientização de trazer para as pessoas. Não é dessa forma que a gente quer seguir, porque não é esse mundo que eu quero que a minha filha viva. Então, eu acho que inicia uma conscientização e o debate é muito importante. Eu acredito muito no poder da voz. O debate é pouco popular, eu vejo assim. O que é mais popular são vídeos como os senhores que denunciam. O debate que se segue, ele fica muito mais entre os convertidos na elite.

O impacto que uma denúncia tem pode sacudir a sociedade. Então te convido a pensar esse tema também. Então eu busco que mais pessoas denunciem. Você está disposto a continuar exercendo esse papel, Felca? Porque isso tem um custo para você também, né? Exatamente. Tem, tem um custo. Eu estou disposto a... Eu não sei se é uma questão de disposição. Acho que é uma questão de não conseguir segurar. Quando eu vejo algo, por exemplo, como eu vi numa adultização, e eu estava vendo tudo aquilo, eu fui pesquisando,

Por uma curiosidade de, nossa, o que é isso que está acontecendo? Criança endotizada? Que absurdo é isso? Eu fui pesquisando, eu cheguei e falei assim, cara, eu tenho voz, eu tenho como falar, eu não vou conseguir me segurar. Então, eu não sei se é uma disposição, é um comichão de, cara, isso aqui é um absurdo. Isso aqui é um absurdo. Nessa linha... E acho que as pessoas deviam fazer mais isso. Eu queria... Bom, Maria, faça a sua pergunta, depois eu tenho...

Deixa um pouco nessa linha, né? Você disse que quem vai aplicar a lei a partir de agora, agora tem obsessão por poder. Você disse isso num vídeo na semana passada.

que uma das conquistas mais importantes do processo de aprovação da lei tenha sido uma agência autônoma para fazer a fiscalização da aplicação da lei a partir de agora, a NPD vai ter autonomia, pelo menos em princípio, autonomia para fazer esse acompanhamento da aplicação da lei. Mas como é que você acha que a sociedade, influenciadores como você, que precisa colocar isso para fora, que não consegue se segurar para fazer isso, e a gente agradece muito como sociedade civil que haja pessoas como você nesse lugar, como é que vocês podem ajudar nesse momento de fiscalização,

a partir de agora? Para as pessoas que têm voz, como eu, eu acho que não só essa lei, mas todas as outras e todas as movimentações da sociedade, como o Daniel citou, nessa coisa da misoginia, eu acho que o que a gente pode contribuir é observando. Observando e relatando. O que eu fiz com aquele vídeo onde eu tento explicar os pontos positivos da lei... Me explica muito bem. Obrigado. Eu li a lei como um cidadão.

eu pra qualquer pessoa que anda pelas ruas é que eu tenho uma rede social um pouco mais conhecida. Então, observar e usar a sua voz, usar o que você observou pra trazer pras pessoas. Eu acho que essa é a melhor forma de ajudar. Inclusive, se a lei for um problema, espero que não. Eu espero que seja positivo pra caramba. Eu espero que dê tudo certo e seja maravilhoso. Mas se for um problema, eu vou ser uma das pessoas a criticar.

Porque a gente tem que trabalhar. O meu trabalho não é pra qualquer... A minha observação e o que eu faço não é pra qualquer coisa.

é pela criança que está sofrendo e que está sendo abusada e também pela rede social que hoje é um problema para as crianças. Então, assim, observar e trazer o que você observa, porque você tem voz. Eu gostaria de abrir espaço agora para os jovens acadêmicos de jornalismo. Nós temos duas perguntas que podem se fundir em uma só. Eu convido, então, a Giulia Peruzzo, da Casper Libero, e o Luiz Felipe do Nascimento, da Unesp, nessa ordem.

perguntas para o Felca. Obrigada, prazer, Felca. Eu queria saber, você está no YouTube desde 2012, tem um tempinho já, e construiu seus seguidores com conteúdo bem humorístico, foram as lives de NPC, testando produtos, essa virada de posicionamento foi algo calculado? Felca, você pretende voltar a fazer seu conteúdo de entretenimento ou pretende seguir nessa linha mais informativa como o seu quadro que estreou no Fantástico ontem? Eu basicamente faço o que dá na telha.

Essa que é a grande verdade. Essa é a grande verdade. É por isso que é tão difícil traquear, né? O que você faz, cara? O que você quer fazer? Você quer fazer o humor? Você quer fazer o que você fez no Fantástico? Eu faço o que dá na telha. Eu acho que o humor é uma forma muito bacana de lavar a alma, rir, é muito importante. O humor é uma coisa que ainda é muito complexa. Como que pode uma coisa que faz uma pessoa rir pra caramba, a outra pessoa acha que é besteira? E outra coisa que faz essa mesma pessoa rir pra caramba...

bonita essa complexidade do humor. Tem gente que eu passo o meu humor, a pessoa casca de rir. Tem gente que eu faço o meu humor, a pessoa fica me olhando com cara de boba. Então, eu acho muito bonita essa complexidade do humor. Eu gosto de usar a minha voz. Quando eu uso a minha voz para o humor, eu consigo impactar as pessoas com uma risada. Eu acho muito poderoso. Quando eu uso a minha voz para falar sobre saúde mental, eu consigo impactar a pessoa.

Quem vai impactar verdadeiramente é o psicólogo e o psiquiatra que a pessoa vai entrar em contato. Mas eu consigo dar, talvez,

uma pequena luz para a pessoa mudar completamente de vida. E quando eu falo de uma causa social, eu consigo gerar uma comoção pública a nível nacional, como aconteceu com a adultização, e gerar transformações reais. Então, o que eu gosto de fazer, o que eu tenho um tesão por fazer, é aplicar a minha voz enquanto tem quem ouça. Quando pararem de me ouvir, talvez eu fale sozinho. Juliano não respondeu a tua pergunta, não. Vai em cima.

Finalizou, né? Principalmente entre os jovens. Então, calculou essa virada, não quer mais fazer conteúdo para jovens a partir da lei agora? Ah, para jovens? Olha, eu, sinceramente, o meu público-alvo, ele acaba seguindo a minha faixa etária. Porque eu não miro em público-alvo. Eu não faço conteúdo para crianças, nem para menores de idade. Mas não tem muita criança que acaba assistindo o seu conteúdo pela sátira, pelo brain rot. E pela fama também. Sim, sim.

A criança, ela se apega a mim de forma diferente do adulto. A criança, às vezes, quando me para na rua uma criança, eu falo assim, nossa, o cabelo é tão engraçado. Alguém já te ameaçou de morte, como no Roblox. A criançada ameaça jogar pedra, né? Não é de morte, é mais tranquilo. Mas, assim, se a criança me acompanha, ela não deveria acompanhar. A responsabilidade está nos pais. E os pais deveriam tratar porque a minha comunicação é para adultos. Eu não quero nenhuma criança me acompanhando, porque não deveria.

Foi calculado ou não foi calculado? Não, foi calculado porque se eu falo com uma linguagem adulta, se eu uso palavrão, a criança não tem que estar tendo acesso a isso. Então não foi calculado, mas deveria ser sabido, deveria ser calculado pelos pais de entender que, olha, eu não quero que meu filho tenha acesso a palavrões. Não, o seu movimento de carreira, profissionalmente, você mudou de patamar. Isso você calculou quando fez aquele vídeo ou foi fruto puro e simples da sua indignação? Porque foi algo que você fez ao longo de um ano.

Sim. Não foi algo de uma hora pra outra. Sendo sincero mesmo, Ernesto, sendo sincero, muito sincero, muito sincero mesmo com você, eu não fazia ideia do que esse vídeo ia dar. Eu não fazia ideia. Eu achei que ia ser só mais um vídeo. Inclusive, eu passei com... Normalmente, quando eu faço vídeo, eu passo com meus amigos. Cara, isso aqui tá bom? A gente fala que tava ruim. Isso aqui não passa, não. Isso aqui tava porcaria. O Felca, agora...

Não sabia, não fazia ideia. Esse é um dos pontos, né? Porque as perguntas deixam isso bem claro. Você tinha um perfil que era um humor mais ácido, cortes rápidos, que é meio que...

É o padrão do sucesso na internet, né? Eventualmente você até brincou com o humor nonsense, aquela história da banana com a manga e tal, né? E de repente você, o seu vídeo mais assistido é um doc de 50 minutos que não tinha nada a ver com o que você vinha fazendo até então. Um baita trabalho de pesquisa, um roteiro genial, tudo certo. Mas é o seu, mais de 50 milhões de visualizações, né? São situações completamente diferentes de lidar com mídias sociais e com a internet, né?

diferentes. Onde mora a atenção na internet? Quem quer ser ouvido nesse mundo histriônico em que todo mundo grita? Como faz? Onde está a receita da atenção na internet? Puxa, essa é uma pergunta muito complexa. Porque realmente o adulto de ação foi um caso extremamente à parte. Porque normalmente quando algo se torna viral é por besteira. Algo se torna viral é porque fulano terminou com o ciclano. E fulano brigou com o ciclano. E daí as pessoas começam a se engajar e começam a falar que precisa de mudança.

precisa acontecer mudanças porque uma pessoa terminou um namoro. Precisa acontecer alguma coisa porque uma pessoa foi para o carnaval. Esse é o viral da internet, o que a gente tem de viral. É o fute, é o superficial. O adultização realmente é um caso à parte. É um caso à parte onde eu consegui trazer, com a psicóloga, que para mim é uma das partes mais importantes do vídeo, é trazer quase que uma terapia para pessoas que... A mulher que sofre abuso sexual,

na infância, principalmente, muitas delas, graças a Deus, conseguem ir lá, compartilhar, fazer uma terapia. Tem muitas que não. Tem muitas que escondem, guardam a vida inteira. Guardam a vida inteira. Essa, para mim, é a parte mais importante do vídeo da adultização, porque eu cheguei a ter a experiência de vir uma mulher na rua e desabar de chorar e falar assim, olha, se não fosse esse vídeo, se não fosse essa parte final com a psicóloga, onde eu recebi pela primeira vez o que eu estaria ouvindo dentro de uma clínica,

vez não estaria aqui, porque eu fui abusado, ela me explicou a história dela e falou, e depois disso, eu saí daquele vídeo falando, eu quero mais disso, eu quero mais daquele espaço de terapia, eu quero conversar mais, eu quero falar mais, e ela começou a terapia e começou a se tratar do abuso sexual que ela sofreu na infância. Para mim, essa é a parte mais importante do vídeo. Agora, sobre o que é viral, normalmente ele pende para o superficial.

Exato. Normalmente pende para o superficial. Definitivamente não é o caso do doc que você fez. Existe espaço ainda para algo tão profundo, para ganhar credibilidade, acho que é o grande ponto, né?

está a credibilidade nisso e por que esse vídeo viraliza? Por que é o mais visto seu de todos? Eu acredito que ele existe, isso é muito delicado e eu vou ser muito sincero, ele existe espaço, questões sérias, quando o especialista quer trazer uma informação séria, existe espaço para chegar e penetrar na sociedade, viralizar, se ele for envelopado com o que a internet busca. Se ele for envelopado com o que a internet busca, o que as pessoas buscam.

No CERN, quando você... É uma questão empática que você faz. O que o usuário busca?

Ele volta do trabalho, ele puxa o celular, ele puxa o computador, ele quer lazer. No cerne, ele quer lazer. Então, quando você torna uma questão complexa e interessante, que foi o jogo que eu usei nesse vídeo, de imagens, de músicas, eu envelopei de uma forma interessante para conseguir penetrar a sociedade. Porque se fosse um doc puramente, se fosse uma coluna muito complexa, onde eu escrevesse uma matéria, não ia conseguir penetrar.

Você tem que fingir que é extremamente dopaminérgico, mas vai causar um impacto na pessoa. E essa é a única forma, infelizmente. Eu queria que as pessoas tivessem, talvez, um cérebro diferente e conseguissem captar informações mais sérias. Pragmaticamente é isso. O Bruno está lá querendo fazer uma pergunta. Certa vez, você disse que em seu planejamento de carreira, havia escolhido não fazer faculdade. Da noite para o dia, você é colocado num espaço de referência, como especialista num tema,

Você refletiu bastante, pesquisou bastante. Você não acha que um tema tão sensível pode ser perigoso que ele seja tratado mais no espaço de influência do que no de especialização? Eu acredito que essa dúvida, será que era você para estar falando isso? Eu acho que é uma dúvida muito genuína. É uma dúvida muito genuína e é uma dúvida que muitas vezes eu tive para comigo mesmo. Será que eu sou essa pessoa para estar falando sobre isso, sobre adultização, sobre abuso sexual? Será que eu sou essa pessoa para estar falando suicídio?

faculdade. Não tem um diploma formal. Então, será que sou eu essa pessoa? Mas eu comecei a entender, e foi aí que a chave mudou, que existem muitos especialistas muito competentes. E eles são muito necessários para a sociedade. A sociedade evolui através de ciência, através de pesquisa, através de busca. Mas, infelizmente, esses especialistas não chegam na casa das pessoas. Quem acaba chegando é quem construiu uma voz.

com humor, nem que seja com... às vezes a pessoa acha interessante o meu cabelo longo, às vezes acha interessante a minha aparência. Eu não sei o que me deu a voz. Mas agora que eu tenho, como que eu vou usar? Eu tento usar da forma mais responsável possível, que é em contato com especialistas, para estar basicamente traduzindo o que eles têm a dizer para as pessoas. Porque, infelizmente, eu queria que fosse diferente. Se o especialista tivesse a voz que eu tenho, eu não entraria em assuntos complexos. Eu não entraria em assuntos...

rebuscados, por exemplo. Mas não é o que eu observo, então eu tento usar a minha responsabilidade porque eu sei o quanto me ajudou, por exemplo, uma terapia. Então eu trago para as pessoas a importância da terapia. Eu sei o quanto que eu fui uma criança, por exemplo, que muitas vezes... Eu fui uma criança que sofreu. E eu sei hoje, depois de adulto, o quanto que até hoje eu tenho que limpar essas coisas. Então eu me compadeço profundamente

com uma criança em sofrimento. Então é com especialistas que eu traduz a voz deles, mas realmente eu preferiria não ter que fazer esse trabalho, eu preferiria que as pessoas ouvissem o que os especialistas têm a dizer. O pessoal de ontem passou mais um bloco, é uma loucura, a coisa vai rápido, mas a gente volta já já com o Felca. Segue o Roda Viva com o Felca. Felca, você estava falando agora há pouco que o que te moveu foi indignação e a coisa ficou atravessada na garganta e você não poderia

deixar de falar. Não foi um movimento planejado, de carreira, nada disso. Assumindo isso, eu te pergunto, você vê o dia em que esse teu ímpeto pode te levar até uma carreira política? Já pensou? Sinceramente, eu nunca pensei nisso. Eu acredito que... Mas poderia pensar? Essa que é a questão. Você se vê ali no meio dos políticos? Não, não. Eu nunca seria um político.

Eu penso que eu consigo gerar mais impacto nas pessoas, que é o meu interesse de fato, gerar impacto no coração das pessoas, com um microfone, uma câmera, na minha casa, com as minhas coisinhas, com o meu roteiro, com os meus editores, com a minha galerinha coordenando, falando se está legal, se não está legal. Eu tenho poucos editores e milhares de conselheiros. Qual é o tamanho da tua equipe a propósito? A minha equipe são amigos de infância, na realidade.

Os meus parças? São meus parças, é, os meus parças. Quem fez a... Claro, a adultização, por exemplo, passa por um time jurídico, que é mais especializado, passa por psicólogos e tudo, mas quem disse o vídeo está bacana mesmo, é meu brother de infância, 10 anos atrás. Então, assim, não, não teria uma carreira política, justamente porque eu acho que eu consigo impactar mais com o microfone do que com a careta. Mas agora você diversificou, né? Você trouxe o teu trabalho para uma audiência muito mais ampla, enfim,

diferente é a da televisão, da televisão aberta. Você, ontem no Fantástico, fez um quadro que eu achei fantástico, inclusive, que é o Sobre Nós, não é isso? Isso. Eu queria saber, isso faz parte desse teu, digamos assim, ativismo de tentar tocar o coração, a saúde mental das pessoas. Você que propôs, quem fez o roteiro, como é que foi essa iniciativa que eu achei muito positiva, inclusive? O quadro no Fantástico estreou ontem, do momento que a gente está aqui. Eles são basicamente...

eu transcorro sobre questões de saúde mental. Em cada episódio, eu faço uma questão de saúde mental completamente diferente da outra. E eu não deixei de falar, tudo que eu falei no quadro do Fantástico são coisas que eu vivencio ou vivenciei. Então, o primeiro episódio que foi sobre ansiedade social, eu vivencio isso. Inclusive, eu tenho ansiedade social. Para mim, inclusive, estar aqui é um grande desafio. Eu tenho ansiedade social desde criança, desde que eu sofri bullying. Eu convivo com ansiedade social.

Então, todos os episódios, eles são muito humanos, são muito verdadeiros, são muito reais. Eu coloquei meu sentimento ali, o roteiro foi todo escrito por mim, eu escrevi todo o roteiro. Claro, a parte do especialista, eu escrevi as perguntas e o especialista faz as respostas, mas é no lugar de eu vivencio isso e talvez se eu trazer o que eu vivencio, o que eu vivo mesmo, o que eu sei como é na prática, as pessoas vão se identificar. Com certeza, vai trazer mais impacto emocional.

Eu vou falar a verdade. É o que é. Então, esse quadro fantástico para mim é muito importante, é muito bacana, porque eu consegui realmente colocar eu ali. Eu consegui entrar numa emissora como a Globo, que é uma emissora de milhares de anos, e consegui colocar eu. Eu sou de verdade ali. E eu propus, olha, eu vou falar disso porque eu acho que ressoa comigo e eu acho que é verdadeiro e as pessoas sentem quando é verdadeiro. Muito obrigado pela pergunta. Esse é um quadro que eu tenho bastante orgulho, inclusive.

Diga, Renata. Você falou muito, denunciou muito a exposição de meninas. A gente já falou aqui de misoginia, mas eu queria que você falasse um pouquinho como é que você vê a formação da masculinidade, a formação dos meninos hoje nas redes sociais. Essa questão da violência contra a mulher, esse ódio nas redes que se faz por posts e por vídeos contra as meninas. Você acha que você pode ser uma referência para os meninos? A gente já tem pesquisas que mostram que 14%, 15% dos meninos vem como sua principal referência masculina um influenciador.

o Papo de Homem. Você gostaria de ser essa referência? Me fala um pouquinho de como você vê a formação da masculinidade. Não, até de você. Como é que foi a sua formação estando nas redes e como você vê hoje dos meninos? Depois que eu fiz o vídeo da adultização, eu vi um vídeo muito delicado e eu já tinha publicado. Eu falei, puxa, se eu não tivesse publicado, eu colocaria isso. Que era uma criança, era um menino, ela tinha uns 9, 10 anos de idade.

Menino, menino, sexo masculino. Ele estava usando cordões de ouro, assim, ele estava com aquelas roupas. Ele estava vestido igual adulto. E ele estava anunciando tigrinho, anunciando bets. E eu olhei aquilo e falei, puxa, será que a criança de 10 anos, ela tem a pulsão que o adulto tem de obtenção do dinheiro? A criança não tem isso. Alguém ensinou para ela isso.

Então, o que eu vejo muito hoje sobre a adultização, ela acontece com meninos, muito. Acontece muito com meninos, não é só com meninas. Então, o que eu vejo hoje é que as crianças estão aprendendo isso de algum lugar. Os meninos estão aprendendo isso de algum lugar, estão olhando referências e se baseando nelas, porque a criança segue pela observação.

como trabalhar nisso. Porque eu sinto que é um problema muito presente essa coisa do menino se tornando cada vez mais... Não, agora eu tenho que ser machão, eu tenho que ser o cara, eu tenho que ser o tal. Eu sinto que é um pêndulo, quase um zeitgeist mesmo, de a geração vai mudando e os pais vão ensinando coisas para a geração e a geração vai crescendo deformada e a deformação dessa geração ensina para uma próxima e vai gerando um ciclo de deformação

até a gente chegar num lugar onde, por exemplo, os casos de feminicídios aumentam. Então, eu acredito realmente que precisamos de mais figuras masculinas que não tenham masculinidade frágil, que não acham que, nossa, eu sou um cara que eu tenho que sempre mostrar que eu sou machão, eu sempre tenho que mostrar que eu estou com um monte de mulher, porque isso acaba sendo uma referência para a criançada. E eu recomendo aos pais que não permitam... Primeiro, não ensine isso para as crianças, o que é uma questão.

primeiramente, e não permita que a criança consuma influenciadores, por exemplo, que traz esse modo de ver a vida, esse modo de ver o sexo oposto. Você não vê essa masculinidade em você. Não passa essa referência. Masculinidade tóxica, eu estou dizendo. É porque falar isso de mim fica um pouco pedante. Então, peço que os outros falem de mim. Peço que os outros falem de mim. A gente vê consequências disso que você está falando nos fóruns diariamente. A gente tem que, diariamente, lidar com violência doméstica,

muito frequente. Feminicídio, infelizmente, cada vez mais frequente. Eu tive que julgar casos de um homem que deu 50 facadas numa mulher, outro que deu uma facada e a mulher vai ser atendida no hospital com a faca ainda encravada na testa. Como é que a gente faz para que esse moleque de 10 anos, que hoje começa a se deixar seduzir pelo discurso de Red Pill, não vai ser o cara que vai estar sentado lá na minha frente em 2035, correspondendo para um feminicídio? Puxa, Berê, essa pergunta é danada, cara. Porque o que a gente faz?

trata na raiz, ou realmente eu acredito que esse cara tem tudo pra estar sentado na sua frente. Tudo. Ele tem tudo, porque ele foi ensinado assim. Ele tá sendo ensinado que isso é ok. Isso tá sendo normalizado no ciclo de amigos dele. Isso tá sendo algo que é retratado com leveza. É algo que quando acontece um abuso, um absurdo, ele não é retratado como absurdo. É retratado com leveza, é uma brincadeira. Então é muito delicado.

que a gente faz? A única coisa que a gente pode fazer é cuidar da raiz. Educar? Com certeza. E o papel dos influencers? Os influencers também não têm papel nisso? Impedir que isso seja difundido dessa forma, maciçamente pelas redes, criminalizar os misóginos que difundem ódio às mulheres, cultura do estupro, feminicídio, etc., para os meninos, naturalizando através de piadinhas mesmo. Você não acha que seria eficaz também? Como é que a digital está fazendo em relação a outras questões? Eu sou completamente a favor

de uma pessoa que induz, como você citou, o estupro, a normalização do estupro, ser amplamente punida. E ninguém seria contra isso, claro. Até porque, como eu falei, quando esse discurso é normalizado, quando esse discurso é repassado e vai se vulgarizando e vai se tornando comum, quem recebe, a princípio, sem os filtros do adulto,

Então, cria, como o Iberi falou, um futuro talvez criminoso que vai sentar na sua frente. O Felca, mas você deu uma pista muito importante no seu vídeo quando você falou dos algoritmos que também empurram esse tipo de conteúdo, no caso da adultização, mas também no caso da misoginia, da violência contra a mulher, das bets, que você já falou, das apostas. Então, tem um papel aí desse ator invisível para a sociedade que é das plataformas, dos algoritmos.

enfrentar isso, mas a gente tem um papel ainda, uma necessidade ainda de olhar para outros temas na sociedade. Então, onde mais que essa regulação precisa chegar? Onde mais que a gente precisa de regras nas redes sociais? Eu acho que se eu fosse impor uma regra, se eu tivesse nesse lugar desse poder de impor uma regra, a princípio de tudo, a primeira coisa que eu faria é impor uma regra na forma como as bets são propagadas.

danoso em um grau que a gente não faz ideia. A gente não tem noção. Porque, por exemplo, a ludomania é um vício que já é catalogado pela OMS e é o vício que tem a maior taxa de suicídio. De todos os vícios. O vício em aposta. E a gente vê isso em televisão, a gente vê isso na internet, propagado como se fosse divertido, como se fosse bacana, um joguinho. A gente vê isso no futebol, a gente vê isso em todos os lugares. Publicidade, né?

Na publicidade. A gente vê isso em todos os lugares sendo colocado essa coisa da aposta.

a sociedade ainda está naquele lugar onde a gente estava com o cigarro, onde a gente não sabia exatamente qual é a integralidade dos danos, e a gente estava nessa coisa de, olha, pode propaganda, e daí quando tentou proibir para a criança, todo mundo foi contra, porque não, como que assim? Vai prejudicar a indústria tabagista. Então a gente está nesse lugar com as apostas, eu vejo. A gente não está entendendo ainda, e quando passar o tempo, a gente vai olhar para trás e falar,

permitiu tudo isso. Então, se eu fosse impor uma regra, eu baniria como as propagandas de jogos de apostas são feitas. Eu acho que é terrível, eu acho que não trata a aposta com a seriedade que ela tem e eu acho que é muito danoso para criança, para adulto, inclusive os adolescentes são os mais castigados com a aposta. Nós vamos fazer aqui rapidamente um intervalo. Maria, segura que a gente volta num instante

aqui no Roda Viva. Até já.

sala de aula, né? Porque não adianta dar a murra em ponta de faca. Os meios digitais estão aí pra ficar. Eu concordo. Concordo plenamente. Você estaria disposto a, sei lá, ajudar nisso? Ir pra sala de aula? Nem que fosse através da sua câmera, né? Que é o teu principal instrumento. Eu estaria disposto, com certeza, mas inclusive seria um grande prazer, algo que eu gostaria muito de fazer, mas inclusive da sua primeira pergunta, eu acho que mais pessoas deveriam fazer.

isso. Eu acho que foi essa chave que mudou na minha cabeça. Eu cheguei a um ponto onde eu falei, olha, eu tenho muita voz, eu falo com muita gente, e eu tô produzindo muitos conteúdos, produzo conteúdo de humor, produzo conteúdo brincando, mas pra que exatamente eu tô usando a minha voz? Ah, beleza, o cara deu uma risada ali, foi seguir a vida. Que impacto que eu tô gerando com o que a sociedade me deu, que a sociedade me deu a voz.

Ela escolheu eu pra ter essa voz. Então eu penso que pessoas que têm voz, influenciam

Comunicadores, pessoas com muitos números nas redes sociais, elas deveriam seguir mais esse caminho. É até um apelo que eu faço. Porque, beleza, você pode fazer sua publi, você pode querer fazer seu conteúdo, acho super bacana, super válido, mas se você deixar qualquer coisa que seja positiva, ou mesmo que você tente deixar algo positivo, nossa, se todo mundo fizer isso, a gente já avança, a gente já caminha. Então, talvez essa chave que virou na minha cabeça, beleza, eu estou fazendo muito conteúdo, estou fazendo muita coisa,

O que eu estou deixando? Maria, você estava fazendo uma pergunta. A minha pergunta anterior era quando o vídeo de Betis ia ficar pronto. O vídeo de denúncia de Betis ia ficar pronto, porque, enfim, concordo plenamente com você, falo pela organização onde eu trabalho, que a publicidade de Betis hoje atinge de uma forma muito nefasta as crianças e adolescentes, porque ela é 360 graus, ela está em todos os lugares. Mas o vídeo que você viu foi o Alano, o Instituto Alano, que denunciou e bloqueou. A gente fez uma denúncia muito séria sobre a presença de,

influenciadores mirins fazendo publicidade de Jogo do Tigrinho numa rede social bastante famosa, bastante ampla. E por isso que a gente puxa muito esse olhar também, chama para a roda de cuidado as grandes empresas que têm responsabilidade também sobre o conteúdo que nela circula, uma vez que elas também lucram com isso, né, Felca? É, porque essa postura de alguém tem que fazer alguma coisa também, né? Todos nós, né, devemos. Se as pessoas fizessem como o Felca, enfim.

Exato. Que resolveu agregaçar as mangas e fazer a parte dele. Pois é. É isso. Minha pergunta final agora, necessária para você, seria um pouco necessária do que a gente pode,

trazer de novo para esse debate. Então, quer dizer, na medida em que a sociedade vai despertando para a possibilidade de a gente ter uma internet melhor para crianças e adolescentes e, em última instância, para todos nós, dá para a gente pensar em estimular o desenvolvimento de uma indústria criativa que ajude positivamente no desenvolvimento de crianças e adolescentes? Como é que você vê isso? Olha, eu acho que toda mudança é um momento onde as cartas são distribuídas e é o momento onde a gente tem que colocar a cabeça para trabalhar.

que tem muita coisa que pode ser feita. Eu acredito que, realmente, eu sou um otimista. Sou um otimista do caramba. Sou idealista. Eu acredito que as coisas podem mudar. Eu acredito que as coisas podem ser melhores. Esse é o meu maior problema. A coisa que eu mais botei para a cabeça foi isso. Porque eu acredito, eu olho para uma coisa que está errada e eu acho que pode ser diferente. Isso é um problema danado que eu tenho. Então, assim, eu acho que é o momento...

Estamos ainda muito recente perante a lei, principalmente. Estamos ainda entendendo, estamos ainda vendo

como que vai ser. A gente está vendo, cara, os bônus que vai ter, os ônus que vai ter, se vai se tornar em algum momento teatrogênico, onde os ônus superam os bônus. Eu espero realmente que não. Mas eu acredito que é um lugar de realmente acreditarmos cada vez mais na própria voz mesmo, sabe? Na própria voz. Parece um discurso nosso, um discurso... Mas o que eu fiz quando eu gerei aquele vídeo,

e que eu vi muitas pessoas fazendo, foi movimentar as pessoas a falarem. E eu achei uma das coisas mais importantes. Quando eu lancei aquele vídeo, eu vi muitas pessoas lançando das suas casas, com seus celulares, falando sobre o assunto. Naquela ocasião era sobre a educação. Por que a gente não faz mais isso? Você não precisa ter números gigantescos, estratosféricos. Você pode ter a sua galera. Fala com a sua galera do que você acha que está errado. Eu acho que o jogo de aposta, como é feito, não está certo.

Fale. Fale o que você acha que está errado. Eu acho que a adusação não está certa. Fale. Inclusive, eu acho que essa lei não está certa. Fale. Vamos gerar debate, sabe? Então, eu acho muito importante que as pessoas percam o medo de usar a voz. Porque a voz é muito mais poderosa do que a gente imagina. Eu falo com toda honestidade que eu não imaginei que um dia um vídeo que eu lançasse, onde eu estou falando por 50 minutos, iria gerar tudo isso que gerou. É o poder da voz.

tem poder. E você não precisa ter grandes números para usar a sua voz. Você pode pactar a sua galera. Você está falando da voz, desculpa, você, na entrevista que você deu para o Bial, quando ele te pergunta o que te motivou a fazer aquele vídeo, sua resposta foi muito forte. Você disse, eu fui uma criança muito sozinha, eu fui uma criança abandonada, eu fui uma criança que não tinha voz e quando falava não tinha ninguém para escutar.

Eu fiz isso pela criança que eu fui e por ver que existem crianças por aí que foram também a criança que eu fui. E se ninguém dá voz a essa criança,

ela cresce desamparada, ela cresce sem perspectiva. A gente está aqui quase todo mundo de acordo que internet não é bem lugar para criança e tal. Como a gente faz, e essa é uma grande luta de quem lida com direitos de crianças e adolescentes, como a gente faz para dar voz às crianças que não a têm e para escutar a voz das crianças que estão tentando falar sem serem ouvidas nesse ambiente digital? No ambiente digital, eu acho que a criança, por não ter o discernimento,

Ela precisa ser entendida através de um adulto. Eu acho que uma das formas mais enriquecedoras de uma criança se entender verdadeiramente é através da terapia, é através de um psicólogo. A criança poder conversar e poder, no ato de conversar, entender que ela pode falar. Ela pode falar. Vamos ouvir. O maior mal da criança, quando a criança tem o maior mal, que ela vai ter que ficar lidando com aquilo a vida inteira,

fala de um sentimento, seja grande, seja pequeno, é bobagem. Isso é frescura. A pessoa não ouve. A deslegitimização. Exatamente. Quando a criança está num psicólogo, ou mesmo quando tem os pais para acolher, acolheu o sentimento dela, o que você está sentindo? Isso faz um impacto muito grande na criança e que quando ela crescer, ela não vai ter que ficar catando os cacos lá de trás e tentar entender os sentimentos com 30 anos, 40 anos, que ela devia ter entendido com 11.

assunto. O que você acha da inteligência artificial? Tem riscos? Você vê riscos da inteligência artificial para as crianças e adolescentes também? Deixa eu completar a pergunta da Renata. Os riscos são claros, existem, quero saber a sua opinião. Existe um risco de sedentarismo cognitivo, por exemplo. O adulto pode terceirizar tarefas para a inteligência artificial. A criança, quando terceiriza tudo, ela não desenvolve as vias neurais que vão permitir que ela pense, que ela agregue visões de mundo, que ela redige, que ela argumente. E o outro risco altíssimo também de isolamento

porque os brinquedinhos, os botes, eles são muito amistosos, eles são sempre agradando a criança e conhecem a criança, desenvolvem intimidade com a criança, a inteligência artificial generativa. Então isso pode deteriorar o relacionamento dela com os pais e com amigos, porque amigos rejeitam, os pais dão bronca e o bichinho de pelúcia cunha vai estar sempre acolhendo ela, dizendo que ela é maravilhosa. Então tem dois riscos já colocados muito graves. Já pensou falar desses riscos também? O Daniel Becker com certeza falaria mais.

Para mim já está explodido. Olha a faculdade. A ideia de fazer a faculdade pode ser... Ah, plenamente. Você está te preocupando também, a inteligência artificial, agora? Não, é com certeza o que eu observo. Essa coisa de você se desacostumar a fazer tarefas difíceis, né, Daniel? Por conta que tem um serviço fácil, ágil, que está sempre presente. Às vezes você faz uma amizade com aquela inteligência artificial

precisa mais se relacionar, porque você tem ali rápido e fácil, a pessoa não demora para responder, a pessoa fala tudo o que você quer ouvir, mas não o que você precisa, como é um verdadeiro amigo. Você tem a inteligência artificial não só no problema do cognitivo, que é muito grande, mas tem o problema também de como que ela utiliza, como que ela recebe os dados e utiliza os dados, toda a questão de roubo de arte e tudo mais.

Então, a inteligência artificial é um problema danado, principalmente para as crianças, porque volta a falar, como eu sempre falei,

O adulto, ele tem uma dificuldade ainda para lidar com coisas que são novas. A criança tem dificuldade plena. Ela está vendo uma coisa nova na própria existência, porque a existência dela é nova. Então, para ela, tudo é receptível, tudo é recebido. Então, você coloca uma IA, ela não vai diferenciar. Não, isso aqui é novo, isso aqui é estranho. Não, ela vai achar que aquilo é vida. Então, é esse o problema para a criança de redes sociais, de IA,

de tudo, é que para ela ela está recebendo todas as informações pela primeira vez. E a IAC está direcionando para essas crianças também, a partir do comportamento delas, está micro direcionando esses conteúdos. Inclusive o ECA Digital também busca prevenir essa situação do uso de dados das crianças para direcionar conteúdo para elas. O ECA Digital é bem completo,

passa por várias coisas. Óbvio que ainda está em fase de implementação, então é aquela coisa. Vai demorar um tempo até as próprias empresas se adaptarem. Não vai ser nada do que estamos vendo agora. Vai ser nada do que estamos vendo agora. Essa coisa da... O Mario Bros para maior 18 não vai ser isso. Não vai ser isso. Essa coisa de, ah, o LOL não vai poder... A criança não vai poder jogar LOL não tem nada a ver com isso. Muita desinformação.

Desinformação. É muita desinformação. O que vai acontecer é o seguinte, basicamente. Qual que é, para mim, a maior mudança

ECA de tal. Eu não tenho nada a ver com a lei, eu não fiz a lei. Mas assim, eu li a lei como qualquer cidadão faria. O que vai acontecer que eu interpretei foi o seguinte. O controle parental, antes, você tinha que entrar no YouTube e ativar o YouTube Kids. Você ia lá e ativava. Você entrava no Roblox, você ativava o controle parental. Tinha que saber ativar. Isso. Toda plataforma tem controle parental já. Já tem. A única coisa que muda hoje é que o controle parental vem por padrão.

O que isso significa? Vamos pensar. Hoje existe uma carência por órgãos. Dá uma analogia. Existe uma carência por órgãos. Muitas pessoas precisam de órgãos, muitos poucos doadores. Por quê? Porque você é um doador, você tem que ir lá e dizer que você é um doador. Se viesse por padrão, todo mundo é doador. Você vai ter que ir lá e falar que você não quer ser doador. Existe uma barreira, inclusive cognitiva, para a pessoa deixar. Então é como funciona, teria muito mais órgãos.

Obviamente tem um limite de ética nessa questão. Mas, assim, na internet, o que existe agora é que os pais vão ter controle parental por padrão. Mas se você quiser permitir que seu filho jogue GTA, você pode permitir. Então, assim, não é tão terrível como as pessoas pensam. Desde que dê uma conta adulta para o seu filho. Estamos caminhando, o relógio está aqui nos perseguindo. Fala aí, Bruno. Felca, você falou muito sobre quem tem voz e queria entrar um pouco mais na sua classe dos influencers. Como você acha que está essa digestão?

do ECA Digital por parte dos influencers, como você tem acompanhado os outros influencers. Você acha que a lei marca o fim de uma era de como é feita a influência no Brasil? Você acha que vai mudar muito a forma como vocês trabalham? Sinceramente, eu acredito que não vai mudar tanto assim, não. Eu acho que não vai mudar tanto assim, não. A gente ainda não entende. A lei diz que não é para colocar algoritmos manipulativos

para menores de idade. A gente não sabe como isso vai ser operado. Acredita que seja pelo escuro infinito, a criança vai ter que entrar no TikTok e escolher os vídeos que quer assistir. Não vai ser mais como aparecer os vídeos que o algoritmo entende que ela quer assistir, que esse é o manipulativo. Eu acredito que pode, em certa medida, talvez, a prática vai dizer, mas em certa medida, talvez melhorar. Porque agora os vídeos chegarão para quem é realmente inscrito.

da sua rede social, que era um conflito, que era um problema que muitos influenciadores têm que, cara, eu tenho um monte de seguidor e não chego para os meus seguidores, porque chega para pessoas aleatórias e o que chega para os meus seguidores é o que a rede social acredita que eles querem ver. Então, eu acho que não vai mudar muito, não. Para as crianças e adolescentes, eu acredito que vai mudar bastante no sentido de como elas consomem vídeos verticais, mas para os influenciadores mesmo, eu não sei. O tempo vai dizer, mas eu acredito que não vai mudar muito, não.

Entendendo a lei que as pessoas trabalham com influência tão digerindo, assim como você tem digerido? Eu busco ler a lei, eu busco entender, eu busco ver o que estão falando na prática, não o que estão falando para mim. Eu acho que está uma epidemia mesmo. Nesse exato momento está uma coisa que está todo mundo querendo, todo mundo tendo a sua própria opinião, que é mais ou menos o que acontece mesmo. Quando o cigarro, a indústria tabagista, existiu a lei,

não poderia vender cigarro para a menor de idade, existiu muitas críticas naquele tempo, olha só que interessante, existiu muitas críticas falando que isso iria prejudicar as indústrias tabagistas. Porque, pô, é os pais que têm que ser responsáveis, você não tem que proibir. Então, assim, eu acho que está todo mundo tentando entender. Tentando entender. Eu espero, eu espero realmente que seja para o melhor, eu espero, no meu lugar de querer proteger as crianças, eu não fiz essa lei, não tenho nada a ver, eu espero que seja para o melhor como cidadão,

se não for, eu vou ser um dos que vai criticar e quem vai dizer se vai ser para ser melhor ou para ser pior vai ser o tempo. Pelka, muitíssimo obrigado. Obrigado. Foi muito legal ter você aqui e todos os colegas especialistas que abrilhantaram esse Roda Viva. Eu agradeço imensamente a todos os estudantes, inclusive. E agora vamos ver o resenho final de Eduardo Batistão que faz agora sua última assinatura ao vivo no programa. Muito bom, como sempre.

Muito obrigado a você que nos acompanhou até agora. A partir de agora você fica com o Metrópolis. Uma boa noite, até segunda que vem.

RODA VIVA | FELCA | 23/03/2026 | Castnews Index — Castnews Index