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Diário Atípico #2 - Rodrigo Oliveira

07 de maio de 202611min
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Neste 02° episódio, Rodrigo Oliveira traz sua perspectiva e suas vivências do que é ser autista e ter TDAH. Em sua visão, ele relata sobre o quão difícil é as pessoas aceitarem, entenderem o espectro e o negligenciamento por parte de empresas.

Participantes neste episódio2
L

Lucas Lucena

Host
R

Rodrigo Oliveira

ConvidadoPessoa autista e com TDAH
Assuntos4
  • Transtorno do Espectro AutistaCompreensão dos diagnósticos de TEA e TDAH · Dificuldades com a literalidade e comunicação social · Experiências negativas pós-diagnóstico · Preconceito e capacitismo no cotidiano · Exercício de direitos de PCD
  • Direitos e garantias individuaisRecusa de médicos em associar diagnósticos · Descredibilização por profissionais (Detran) · Uso indevido e questionamento de vagas PCD · Processo contra companhia aérea por negação de desconto · Dificuldade em exercer direitos em filas preferenciais
  • Interações sociaisDiferença entre comunicação verbal e comunicação social · Desafios na interpretação de brincadeiras e ironias · Entendimento literal versus social
  • Autismo e Ensino SuperiorInterpretação equivocada dos níveis de suporte · Dificuldade de acesso a direitos para pessoas com Nível 1 e 2 de suporte · Percepção social de que apenas Nível 3 é 'realmente' autista
Transcrição32 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá, sou Rodrigo Oliveira, tenho 32 anos, sou pessoa autista, tenho TDAH, entre outras comorbidades. Eu sou uma pessoa branca, cabelos pretos e lisos, uso óculos, um formato um pouco quadrado e tenho 1,68m.

Eu tenho 32 anos, mas eu fui diagnosticado com TEA aos 29, em novembro de 22. E no ano seguinte, em 2023, eu fui diagnosticado com TDAH. E ter esses diagnósticos fez com que eu tivesse o maior entendimento.

De tudo que passou pela minha vida, desde criança até hoje, nessa minha fase adulta. Pela parte do TEA, existem dois momentos cômicos na minha vida. E assim, a primeira delas foi quando eu era criança. Meu tio, ele é engenheiro, né? E na época morávamos eu, minha mãe, minha avó e ele na mesma casa.

Ele ligou lá pra casa, pediu pra que eu pegasse a planta. Aí eu olhei pro lugar que ele indicou. Tinha uma planta. Peguei e levei. Quando eu chego lá na frente do carro, ele disse que não era essa planta. Era a planta de residência. E não a planta advinda da flora, sabe?

Aí depois que eu tive o diagnóstico, entendi o motivo de eu ter dificuldades com a literalidade. Outra parte cômica, porém não tão cômica.

Minha dificuldade de comunicação é, eu já tava na quinta série e eu tava conversando com, até ali, uma menina que eu tava começando a ficar. E ela me fez uma pergunta, não vou me lembrar qual.

Mas eu lembro que ela perguntou se eu fazia questão. Aí eu fiquei na dúvida, não entendi muito bem. E eu falei não. Só sei que a reação dela foi de extrema chateação. E eu fiquei sem entender. Eu não sabia o que era fazer questão de algo. E depois de um bom tempo eu fui aprender a entender o que era isso.

Eu sei que nesses últimos três anos, quase quatro, né? Minhas experiências são as piores possíveis pós-diagnóstico. Hoje eu tô bem pouco good vibes, extremamente não muito esperançoso, né? De que algo vai mudar. Porque, assim, as pessoas não entendem.

O que é que abrange a comunicação quando fala de autismo? As pessoas acham que comunicação é saber escrever e falar. Só que não é bem assim. Tem uma coisa chamada também comunicação social. E pelos dois exemplos que eu dei...

podem até ser considerados um pouco de comunicação social, principalmente esse último exemplo que eu dei. Se uma determinada pessoa falar comigo, eu vou entender na literalidade. Às vezes eu vou pensar que é algo sério, e principalmente se a pessoa estiver brincando e eu não entender que a pessoa está brincando, eu vou encarar como algo que ela está falando sério.

Então, por isso que a parte de comunicação, as pessoas entendem de forma errada. Acham que é somente falar e escrever, e isso é comunicação. Só que não é. Tem uma parte que é importante, que é justamente a comunicação social, né?

as partes que fazem com que a pessoa interaja e conviva socialmente. E essa é uma parte que nós, pessoas autistas, temos uma dificuldade tremenda. E por que não dizer deficiência, né? Já que nós somos PCD, segundo a lei principiana.

que é a 12.764 de 2012. E é nesse ponto que eu quero chegar, porque a minha vivência é uma das piores possíveis. Não que a minha seja mais ou menos que outras pessoas autistas que eu.

Mas é aquela coisa, nenhuma experiência individual. Eu já tive médico recusando colocar o Té e o TDAH juntos. Já tive uma outra médica do Detran, quando a gente vai fazer a renovação. Deu explicar pra ela que eu sou PCD e tal, e falar que eu sou autista, e ela dizer que não, você não é autista, porque autista é a pessoa que bapa.

Aí eu comecei a gravar, ela percebeu e começou a desconversar. Outra também foi quando eu estacionei na vaga de PCD, né? Com aquele símbolo pictográfico de uma pessoa em cadeira de rodas, que as pessoas insistem erroneamente.

em achar que é somente para cadeirantes, porém não. Esse símbolo pictográfico é um símbolo internacional de acesso para pessoa com deficiência. Ou seja, eu que sou pessoa autista, posso sim ser considerado como a pessoa com deficiência que pode estar utilizando essa vaga. Inclusive...

Eu tenho o cartão de vaga especial justamente com esse símbolo.

Isso depois de muita briga e muita argumentação. Consegui que eu precisava de uma segunda via. Aí tive que solicitar. Aí nisso que foi esse rolê todo que eu tive que argumentar juridicamente. E foi aí que aceitaram e eu consegui. É justamente por as pessoas não entenderem, ao me verem que eu sou uma pessoa com deficiência.

que começam essa parte de preconceitos, de deslegitimação, de capacitismo. Mais de 90% aí fila preferencial. Sempre me cutucam, me questionam, dão indiretas. Eu já cheguei quase a...

elevar o tom com uma pessoa que queria passar na minha frente, mas eu não deixei. Eu recentemente processei uma companhia aérea, que eu não vou dizer o nome, pelo simples fato de que...

Em 2023 eu precisei viajar, tive o desconto do meu acompanhante de 80%. Quando eu precisei novamente em 2024, eles negaram das mais variadas formas possíveis e ainda chegaram e tiveram a coragem de me perguntar se eu tinha retardo mental e que se eu tivesse, que eu comprovasse. Ou seja, se vou trocar a palavra preconceituosa deles pelo seguinte.

Se eu fosse uma pessoa com deficiência intelectual e tivesse tido mensurado o QI, com o eficiente de inteligência, se eu não me engano é isso, que eu comprovasse, porque se eu tivesse isso, eles não me dariam o desconto. Pelo que eu pude interpretar, segundo a resposta deles.

O que aconteceu? Ganhei Mas como tá na fase de recursos Vai subir pra segunda instância Vou analisar e bora ver o que aqui vai rolar

E assim, associado a isso, eu literalmente, quando eu saio pra rua, eu fico em um completo estado de alerta. Eu tenho medo na hora de exercer direitos, de pegar uma simples fila preferencial. Eu não uso o cordão de quebra-cabeças, né?

do Té ou qualquer outro, que até qualquer outro pode ser o do Gerasol, né? Que foi regulamentado por lei. Eu não uso porque eu odeio perceber que as pessoas me olham diferente e acabo que eu deixo no bolso e na hora de Deus exercer um direito, eu vou lá, pego, mostro e seja o que Deus quiser.

no momento do atendimento. Mas é isso, eu fico na rua em estado de alerta, com medo, sempre com medo de acontecer algo comigo, como já aconteceu diversas vezes, porque é aquela coisa, o próximo preconceito que eu sofrer sempre será pior. Por conta disso, minha vivência como uma pessoa neurodivergente, uma pessoa PCD, por ser uma pessoa autista, só tem um único lado bom.

de ter descoberto, que é justamente eu ter tido a possibilidade de me entender como ser humano, como pessoa e como é o meu funcionamento. Essa é a única parte boa depois de eu ter tido o diagnóstico. Que outra coisa que as pessoas acham e entendem errado...

ou não querem entender o real significado de existir de vez de suporte, acaba que as pessoas acham que é leve, que é moderado, que é grave, que o nível 1 de suporte é levinho, que o nível 3 de suporte, que geralmente a pessoa com DI, assim, eu falo, geralmente, não é regra. Existem muitas coisas envolvidas.

Mas geralmente há essa ocorrência, por isso que eu falo. E as pessoas acham que essa pessoa do nível 3 é a...

pessoa autista e o 2 e o 1 não são. Isso dificulta muito o acesso a direitos da pessoa nível 1, da pessoa nível 2. Eu só queria que eu tivesse um pouco de paz nesse sentido. Eu só queria exercer meus direitos em paz.

sem ser questionado, sem ser cutucado, sem ser olhado, mesmo com o cordão, juntamente com o cipter, de que não ignorasse isso, me deixasse em paz exercendo o meu direito ali. Aquela fila, aquela vaga, é só isso que eu peço hoje.

É exercer esses direitos em paz. Para que eu não viva em constante estado de alerta. Que é o que eu vivo hoje. Infelizmente. Muito obrigado.