Episódios de Papo Delas Podcast

Papo Delas #93 – Pressão Social

03 de agosto de 202645min
0:00 / 45:58

Papo Delas #93 – Pressão Social

Olá Amigos e Inimigos do Papo Delas!  
Conforme combinado, graças aos nossos apoiadores de julho de 2026 , temos o Papo Delas #93 – Pressão Social. No Ep. 93 do Papo Delas Podcast, Cafeína e Patsy conversam com #OuvintesIncríveis sobre as pressões da vida que a sociedade nos impõe e como lidamos com elas.

👉 Dá o play no seu tocador favorito! #PapoDelasPodcast #PodcastBrasil #2026 #Pressão Social #Podcast #mulherespodcasters – Porque Quem ama ouve, quem ouve comenta!

Edição
Drika Sanchez (Cafeína)

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Participantes neste episódio2
C

Cafeína

Host
P

Patsy

Co-host
Assuntos6
  • Redes Sociais· TecnologiaNecessidade de performance constante · Algoritmos e regras mutáveis · Pressão estética e comentários agressivos · Dependência de plataformas digitais
  • Desigualdades no mercado de trabalho· SociedadeSer mulher em ambiente dominado por homens · Preconceito contra mulheres no trabalho · A necessidade de provar o valor constantemente
  • Adolescência e Mudanças ComportamentaisObrigação de ir para a faculdade · Popularidade escolar · Primeira menstruação e mudanças de comportamento
  • Infância e responsabilidade precoceSer o exemplinho · Diferenças de gênero em brincadeiras · Joelho ralado e estereótipos
  • Saída de casa e independênciaJulgamento dos pais sobre morar sozinho · Crises de ansiedade e pânico · Necessidade de provar sucesso
  • Influencia Familiar e Social· SociedadeExpectativas de casamento e filhos · Julgamentos sobre escolhas de vida · Intervenções religiosas e familiares
Transcrição159 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Papo Delas Podcast. Olá, amigos e inimigos do Papo Delas! A gente chegou aqui com o Papo Delas 93 para celebrar um tema que está em todas as idades e na nossa vida: pressão social. Paty, sugestão, hein? Sugestão de ouvinte. Pressão social, parece que alguém está sendo pressionado.

PPatsy

E não estamos todos?

?Voz A

Estamos todos.

PPatsy

Você está ouvindo Papo Delas Podcast.

?Voz A

Bom, eu pensei em dividir as coisas por fases da vida, porque assim, ouvinte, se a gente for falar pressão social na nossa vida hoje, cada um tá passando por uma fase, mas tem trocentas mil, dá um episódio inteiro também, né? Para organizar, Paty, primeira coisa que eu pensei é, cara, eu enfrentava pressão desde criança. Sim, assim, no meu caso, eu tinha ser exemplinho, sabe? Então eu tinha que ser o exemplinho. Olha, você tem que ser o exemplinho de melhor aluna, o exemplinho de melhor filha, o exemplinho de melhor neta, que eu era filha única, mimada, eu tinha que sentar direito. Eu fui meio criada para ser o exemplinho.

PPatsy

Nossa, não, aí você se ferrou muito. Eu, graças a Deus, eu vim ali, ó, já tinha uma galera que veio antes.

?Voz A

Pois é, eu não, eu fui a primeira. Então aí eu era a primeira neta, única neta, aquela coisa assim das avós e tal. Então eu meio que eu não lembro mais porque as coisas se misturaram, se me fizeram ser assim ou se eu me fiz assim, sabe? Porque eu tinha que ser o exemplinho. E aí, desde criança, eu ficava me segurando: não, não posso fazer isso que vão reparar que eu errei, que vão reparar que eu não sou o exemplinho e tal. Isso foi uma pressão para mim geral, geral, de criança.

Eu tinha que fazer as coisas direito. Se eu errava: nossa, que vergonha, vão ver que eu errei. De criança foi isso, cara.

PPatsy

Te falar que eu não tive essa pressão por alguns motivos. Primeiro, Eu não era a primeira de nada, pelo contrário. A primeira geração de primos meus já tem 50 e poucos anos. Então esse barco zarpou muito antes dos meus pais sequer casarem. Fácil. Dentro da minha família, eu sou a caçula. Então já também não tem muita pressão por conta de não ser a primeira, o filho mais superprotegido. Eu sou aquele filho que os pais viram, ah, os outros sobreviveram, esse vai viver.

E tem o terceiro adicional, que eu fui uma criança extremamente pentelha. Minha mãe refere que uma vez um vizinho dela virou para a mãe dele falou assim, ai, mãe, eu tenho tanta pena da Kelly. Da minha mãe Jaqueline, o apelido é Kelly. Aí a mãe dele, por quê, meu filho? Você viu a filha dela? Tá sem o tampão do dedo, o joelho ralado, a testa costurada, tirou um dente com a colher. Aí a mãe dele, ai, meu Deus, tadinha dela!

?Voz A

Mas tá vendo que loucura? Você falou disso, eu lembrei, se eu tinha um roxo, eu tinha, tava sempre com o joelho roxo, né, que eu de criança e tal. E aí eu já tinha minha avó falando assim, menina não pode ficar com a perna assim, aí isso é coisa de menino.

PPatsy

Primeiro é o primeirão, a pressão aí, ó.

?Voz A

Eu morria de vergonha Porque era coisa de menino, não era coisa de menina. Tinha muito isso nos anos 80, na minha família, no meu núcleo, assim. O que era coisa de menina e de menino. Então, menino não chorava, não pode chorar. Você vê um menino chorando, você fala: Nossa, mas menino chorando não pode chorar. Era assim. E menina tinha que fazer coisas de menina. Não podia ter joelho ralado.

PPatsy

Nossa! Né?

?Voz A

Não podia pular muro, não podia fazer as coisas... Jogar bola. Imagina, jogar bola é coisa de menino.

PPatsy

Eu fazia tudo isso.

?Voz A

E eu lembro que os meninos na rua empinavam a pipa. Meu sonho era empinar pipa, porque eu achava mó legal os meninos empinando pipa. Aí eu falei, ai, eu queria ir lá ver os meninos jogar, empinar pipa. Não, isso aí é coisa de menino.

PPatsy

Não, é, tu se ferrou muito, cara. Assim, meus pais se ferraram comigo porque eu não tinha limite. É pra você ter noção, essa coisa de, ah, coisa de menino, coisa de menina. Depois de uma certa idade, meus pais começaram a falar, centro de perna fechada, que não sei o quê. Porque quando eu era mais novinha, até uns 7 anos mais ou menos, eu brincava na rua, sabe aquele shortinho de homem piriguete? De jogador da década de 70? Tactel.

Sim, eu era criança apenas com esse shortinho correndo pela rua. Ninguém sabia se eu era menina, se eu era menino. Eu tava de shortinho sem blusa correndo. Aí quando eu fui crescendo, eu fui virando uma menininha, aí eu tive que estar sempre de blusa. Mas se tu ver minhas fotos com 4 anos, 5 anos, eu estou de shortinho de jogador de futebol da década de 70, descalça, com o joelho ralado, sem o tampão do dedo, uma testa costurada. Sempre assim, eu tenho duas cicatrizes na testa, para você ter noção.

?Voz A

Nossa! E ó, ponto de virada foi porque eu menstruei muito cedo. Eu tinha 10 anos quando eu me instruí.

PPatsy

É, aí você se ferrou.

?Voz A

Então eu automaticamente senti, vamos conversar. Tive a conversa: daqui para frente você não pode sentar assim, daqui para frente você não pode usar roupa assim. Eu tive a conversa. E aí eu pensei, nossa, tudo vai mudar, a minha vida vai mudar, meu mundo mudou. É, foi uma grande coisa. Quando eu contei para minha mãe, minha mãe chorou, chorou, sabe? Então você já imagina o que que aconteceu, aquela pressão, tipo, e agora, o que que vai ser da minha vida?

PPatsy

A vida vai mudar.

?Voz A

E aí eu tive que não sentar desse jeito, não falar desse jeito. Tipo, eu não podia falar, gritar, não podia isso. Você tá rindo muito alto, não pode isso. Não podia chamar atenção.

PPatsy

Nossa, você foi muito podada!

?Voz A

Porque não podia chamar atenção, porque agora você já é mulher, entendeu? Tinha isso. E eu entendo, porque assim, minha avó, elas foram criadas assim, né?

PPatsy

Então tinham muito medo pra passar despercebida.

?Voz A

É isso, muito medo de chamar atenção. E eu já era uma menina que menstruei 10 anos, com 11 anos eu já era mocinha. Então assim, de corpo, de comportamento. Eu achava todo mundo infantil. Era engraçado porque com 11 anos eu falava, ai, eu acho ele tão infantil, tão infantil.

PPatsy

E você era uma criança.

?Voz A

E eu era uma criança, mas eu achava os outros infantis porque eu fui criada mocinha, eu já sou mocinha, né? Então eu já me sentia assim, eu falava que nem mocinha e tal, e não queria mais brinquedo, sabe? Era toda assim. Então isso hoje eu vejo que foi uma puta de uma pressão. Sim, foi muito grande para mim, tanto que eu cheguei despirocada na adolescência.

PPatsy

Ligou o foda-se, né? Liguei o foda-se. Você virou e falou assim, agora eu sou rebelde quando não sigo os demais.

?Voz A

É engraçado que isso foi consequência de um tempo de que eu tinha que fazer tudo certinho, né?

PPatsy

Foi uma vida inteira sendo podada, e quando você viu que não tinha ninguém para te observar, você quis fazer tudo ao mesmo tempo.

?Voz A

Foi mais ou menos isso, foi mais ou menos isso que aconteceu. Claro, não consciente, né? Não tava consciente disso, né? A gente entende hoje, depois, anos depois, que isso aconteceu.

PPatsy

Mas é um reflexo, claro.

?Voz A

Tinha uma pressão na época de você— eu fiquei 9 anos na mesma escola, então a gente é popular, a gente conhece todo mundo, tá?

PPatsy

Deus me livre.

?Voz A

Aí quando eu fui para o colégio, que hoje é o ensino médio, né, eu fui para uma outra escola que eu enchi o saco dos meus pais, porque eu queria ir para aquela escola porque era boa, porque era chique, porque era isso, aquilo. Meus pais se ferraram para pagar aquela escola e eu fui infeliz 3 anos porque era uma escola de gente que não era do meu nível social, completamente diferente, que me excluíram por causa disso, que tu era pobre, porque eu era pobre, porque eu não podia ir nos mesmos lugares que eles.

Assim, eu não fiz amizade lá, eu fui extremamente infeliz ali e eu não consegui ser popular, que tinha essa pressão, né, de você tem que ser popular, conhecer todo mundo. Isso atrapalhou meus estudos, porque era basicamente o que eu tinha que fazer, era uma escola boa para passar no vestibular, era isso. E eu queria muito falar para aquela adolescente que eu era, tipo, dane-se as pessoas, vai estudar, manda todo mundo para puta que pariu, vai focar no que é importante. Eu ficava tão preocupada. Por quê?

PPatsy

Porque eu cresci preocupada com o que os outros iam pensar, porque te ensinaram que isso era importante.

?Voz A

É. Aí quando eu cheguei com 15 anos no colégio, ninguém tava me dando atenção, ninguém tava prestando atenção em mim, ninguém tava nem aí comigo. E isso ocupou um triplex na na cabeça e eu não consegui aproveitar a escola direito. Puta arrependimento, puta! Ainda que eu consegui passar a faculdade de boa e continuar a vida, mas aquela fase foi um puta arrependimento. E eu acho que foi muito por causa dessa pressão de eu tinha que, eu tinha que me esforçar para ser reconhecida, para as pessoas gostarem de mim e tal. E foi isso, não aconteceu.

PPatsy

Você queria que gostassem de você porque toda adolescente quer ser gostado também, isso é natural da época, você quer se sentir inserido. É foda, cara, é foda.

?Voz A

Claro, eu queria ser daquela turma que o professor sabe o nome das pessoas, entendeu? E Não era aquela turma. Professor não sabia que eu tava lá. Então, como lidar com isso hoje? Porra, queria tanto que eu tivesse com uma cabeça melhor na época para falar: pô, dane-se isso, aproveita, escola é mó boa, estuda e tal, né? Mas não tem jeito.

PPatsy

Ah, cara, mas assim, conforme a gente vai ficando mais maduro, a gente fica pensando: se eu voltasse naquela época com a cabeça de hoje, tudo seria diferente. Mas a gente já não é mais aquela pessoa. E talvez a gente seja hoje quem a gente é porque naquela época a gente fez aquela merda. E assim a gente tem que ir aceitando.

?Voz A

Agora, a maior pressão dessa época, eu não sei se a sua geração viveu isso, a minha geração é assim: terminou o colégio, terminou o ensino médio, você tem que ir para faculdade.

PPatsy

No caso, a gente é pobre, né, Cafeína? É assim, o rico que tem é coisa do ano sabático.

?Voz A

Mas era uma pressão de até o professor falar: se você não for direto para faculdade, você vai perder um ano da sua vida, você vai ficar para o resto da vida um ano atrasada da sua geração. Eu ouvi isso do meu professor. Para o resto da sua vida você vai ficar atrasada da sua geração inteira. Eu ouvi isso professor, Paty. Imagina eu com 16 anos ouvindo isso. Eu fiquei tão desesperada na época do vestibular. Foi a maior pressão da minha vida. Olha que maluquice, com aquela idade.

PPatsy

Não, assim, eu entendo, porque na minha vida, isso é uma coisa importante também sinalizar para galera, meus pais eles nunca botaram muita pressão em cima de mim porque eu fazia isso sozinha. Eu trabalhava muito bem esse aspecto de me pressionar. Então os meus pais, eles tinham medo de ficar maluca, de me pressionar demais, de querer sempre fazer mais, mais, mais, mais, mais. E aí eles falavam, eles pisavam no freio para mim, falou assim: calma, respira.

Então quando chegou na época da faculdade, teve a questão de que eu não queria fazer vestibular, eu queria entrar no mercado de trabalho, apesar de eu ter entrado numa escola inicialmente para fazer vestibular. E aí teve todo aquele rolê, teve algum episódio de papo delas lá do começo do podcast que eu comentei que meu pai virou e falou assim: não, faz o vestibular porque você já veio para uma escola voltada para isso e vê o que que acontece.

E aí eu passei para o FRJ, fui para lá, mas a princípio eu não pretendia fazer. Acho que foi a única vez em que eu não fiquei botando pressão em mim para seguir a cartilha certinha. E aí meu pai falou assim, tá, mas tenta. Ele não virou e falou assim, você vai fazer, você tem que fazer. Não, ele só virou e falou assim, cara, tu não já estudou voltado para isso? Então faz. Aí eu, tá. E aí inclusive fiz tudo lá, né, faculdade, mestrado, as coisas todas.

Mas em geral os meus professores, eles botavam pressão com relação ao vestibular para a gente estudar para ele, não voltado para você vai perder um ano da sua vida. Porque perder um ano da sua vida é uma frase muito pesada, cara.

?Voz A

Nossa, mas era tudo que a gente ouvia na época.

PPatsy

Foi uma escola pré-vestibular vestibular, né?

?Voz A

Era uma escola que era voltada para isso. A gente ouvia isso todos os dias.

PPatsy

A minha também. Os meus professores, eles não eram— eles eram muito assim pais e mães da gente. Eles estimulavam, mas era uma coisa meio educação positiva. Então sempre tinha um que ficava meio descaralhado das ideias, sempre tem um, mas eram poucos. Em geral, a gente só estudava e ficava ali, ó, vamos, vamos conseguir. Não conseguiu? Onde que você errou? Vamos resolver. Não ficava falando assim, vocês vão perder a vida de vocês.

Não, Não, graças a Deus. Sinceramente, quando eu avalio essas questões da vida, eu acho que eu dei um pouco de sorte nos lugares que eu fui seguindo, com adultos que tiveram sempre muita paciência com o meu eu criança, meu eu adolescente. Tinha um professor ou outro que gritava e eu tremia na base, sim. Mas em geral, não. Foi bem tranquilo o meu trajeto, até na faculdade.

?Voz A

E você nunca teve essa pressão de comportamento? Ter que se comportar de um certo jeito, né?

PPatsy

Cara, não é que eu não tive. A minha educação, ela... Minha família, minha mãe é cristã e tal, então tem um pouco desse apelo. De cunho religioso. Eu acho que na igreja, de uma maneira sutil, isso acontecia. Só que mesmo assim, minha família sempre me permitiu ser questionadora. Então eu era a pessoa chata, eu sempre fui a chata. E eles sempre me permitiram ser eu mesma. E é engraçado porque quando eu comparo meu irmão comigo, eu noto que meu irmão, ele teve algumas travas que provavelmente com ele a educação, apesar de ser parecida, não foi exatamente igual.

Igual, meu irmão, ele fez a primeira tatuagem dele, ele escondeu a tatuagem por anos. Imagina, dos meus pais.

?Voz A

Meu pai vai brigar e que não sei o quê, e que não sei o quê lá.

PPatsy

Ai, nanã. Ele ia pra praia de camisa. E aí, quando ele ia entrar na água, ele se posicionava de forma que a tatuagem ficasse para o outro lado dos meus pais, pra entrar na água.

?Voz A

Nada suspeito, né?

PPatsy

Eu só fui reparar que ele fazia depois que ele me contou. Porque eu realmente não reparei que ele tava fazendo isso. Aí teve muito disso e tal. Eu, quando fui fazer a minha primeira tatuagem, eu escolhi a arte, eu escolhi o tatuador. Eu virei pra minha mãe e falei assim: Mãe, vou fazer uma tatuagem. Vai comigo, que eu não quero ir sozinha, não. Aí ela, do nada... Eu falei: Do nada não, tô planejando essa tatuagem há anos. Essa aqui, olha que linda, vai comigo, eu já tenho dinheiro.

Aí ela: tá, vamos lá para eu ver onde é que você vai, quem é a pessoa que vai tatuar você. Aí eu: tá bom. Saindo de casa, falei assim: pai, estou indo com a minha mãe, vou me tatuar. Ou quando eu voltei, eu fui direto no meu pai, estiquei meu braço, falei: aqui, pai, acabei de fazer, não tá linda? Aí quando eu contei para o meu irmão, ele virou e falou assim: eu fiquei 2 anos andando de blusa. E assim, eu sempre fui, acho que o fato de eu ser, eu sempre fui espivitada, eu sempre fui faladeira.

Os ouvintes sabem que eu sou tagarela para cacete. Eu sempre não me escondi. E aí acho que eu simplesmente prefiro não me esconder. Obviamente que com o passar dos anos, principalmente no mercado de trabalho, eu fui entendendo que eu não posso ser eu todo tempo, porque ninguém pode ser quem é de fato todo tempo, principalmente ambiente profissional. Em ambiente profissional você tem que assumir o seu eu corporativo, você é aquele personagem corporativo.

Saiu dali você pode ser você, mas ali dentro do ambiente de trabalho você tem que ser aquela, aquele shape que é o shape que aquele lugar precisa. Mas saiu do ambiente de trabalho onde eu preciso ser a persona Patrícia Severo, nutricionista. Eu sou só a Paty. E aí, se não gostarem de mim, não tem nada que eu possa fazer.

?Voz A

É, ouvinte, esse tema não é para nossa heroína Paty.

PPatsy

A pressão social não cola nela, só no trabalho.

?Voz A

É, aí a gente vai falar.

PPatsy

Pausa para agradecer.

?Voz A

Muito obrigada às assinantes do mês de julho de 2026 no Catarse apelo.me/papodelaspodcast, que nos ajudaram a manter o Papo Delas no ar e a continuar sonhando com a vida de madame. Priscila Armani, Eduardo Ramos, Diego de Paula, Fabrício Guson, Marcos Colucci, Caroline Witt, Carol, Marco Antônio Júnior, Mairão, Mayra Santos, Samuel Sobrinho e ele, eles, Ney Menezes. Obrigada! Seus lindos, obrigada. Pois é, tem a parte profissional, que aí eu senti mais naquela, começa estágio da faculdade ali, eu tive uma pressão grande, coisa que eu já contei aqui, mas que eu descobri que ser mulher é um problema.

Eu descobri ali na faculdade, engraçado, eu demorei, né? Eu demorei bastante porque não tinha caído essa ficha. E caiu a ficha ali no estágio da faculdade, ser mulher é um problema, você tem que fazer o dobro, ser reconhecida só se fazer o triplo e tal, do que os outros caras que tinha lá. Eu trabalhei no lugar que tinha 11 estagiários, 10 homens e eu. Você imagina, né?

PPatsy

E você sempre tava errada.

?Voz A

E aí eu tinha que fazer 11 vezes mais, tempo todo, porque era assim: ah, mas os meninos fazem mais rápido. Ah, mas os meninos— era sempre assim, sabe? Aí eles têm mais facilidade. Mas como assim? Eles vão mais rápido. Eu tinha que entender por quê. E eu comecei a entender naquela fase que ser mulher era um problema e que eu tinha essa pressão de querer me provar o tempo todo, que nenhum dos 11 tinha. Nenhum dos 11.

PPatsy

Sim, porque eles não precisavam.

?Voz A

Era homens não chorarem. Eles não podiam chorar.

PPatsy

São 10 homens, 8 são ruins, 2 são medíocres. Já vão falar assim, ah, porque homem faz melhor, né? Fulano e ciclano fazem bem.

?Voz A

Era só não chorar. Se eles não chorassem, eles já são melhores, né? E eu tinha que ficar fazendo esse tempo todo e tal. E foi me caindo a ficha durante tudo aquilo assim, mas por que comigo é diferente? Será que eu sou o problema? Sou eu, pessoa física, o problema? Então fui entendendo que não é assim, né? Até que eu fui fazer uma entrevista em que o advogado claramente na minha cara falou para mim, olha, eu não gosto trabalhar com mulher, sabe como é que é? A mulher menstrua. Falou isso na entrevista para mim, cara.

PPatsy

E assim, hoje em dia eu tenho a percepção, não só porque ele usou o exemplo da menstruação, porque antigamente isso era um marcador muito grande do que é ser mulher, mas você ser lido como mulher, você ser lida como mulher, você já sofre preconceito. Porque mulheres trans não menstruam e sofrem o mesmo preconceito, e ainda sofrem mais ainda o preconceito da transfobia, que é muito comum também.

?Voz A

É, não, isso ele quer dizer, ele coloca num pacote, é uma mulher tem problemas emocionais e tudo isso, né? Saberia eu com 10 anos que tudo ia mudar na minha vida por ter menstruado, né?

PPatsy

Exato, o sofrimento aí. Talvez era tua família tentando te preparar para você notar que vai ser diferente.

?Voz A

Exatamente.

PPatsy

Tem essa questão também, né, que são os nossos pais aprendendo a serem pais enquanto a gente tá sendo criança.

?Voz A

E aí você começa, que nem eu no estágio, essa coisa de você tem que ter sucesso porque há um caminho natural que a sociedade diz que você deve seguir, né? Então aí você faz a faculdade, você consegue o estágio, você é efetivado e você ganha bem e tá feliz da vida. É isso, né? É esse caminho. E aí quando alguma coisa acontece, que não necessariamente quer ser assim, né? É, a minha vida tava programada até os 30 anos, era isso. 30 anos eu tinha meu apartamento, meu carro, tá tudo certo. E não, não deu certo.

PPatsy

E aí você descobriu que na prática a teoria é completamente diferente, completamente diferente.

?Voz A

Eu tive uma Eu não tive muita pressão como mulher. Eu acho que nem você ou da sua família, de tipo, tem que casar, tem que ter filhos. Não tive isso. Até porque os relacionamentos, eu namorei muito. Eu emendava um namoro no outro, 2 anos, 3 anos e tal. Mas os relacionamentos que eu tive todos naquela época eram bem ruins. Eram bem mais ou menos assim. Então acho que meus pais já falavam assim, tomara que passe pra outro logo. Era meio isso.

Não tinha uma pressão de casar e tal. Minha mãe só queria, meus pais só queriam que eu parasse quieta, né? Assim, arruma alguém bom e tal. Mas não tinha essa pressão, ainda bem, era uma menos, né? Não tinha essa pressão aí, cara.

PPatsy

Esse tipo de pressão sinceramente nunca tive, continuo sem ter hoje em dia. Porque quando eu era solteira, meus pais sabiam dos meus pulos e tal, a família não. Então para família eu era ou virgem de 40 anos ou lésbica escondida no armário. E meus pais, eles só queriam saber onde que eu tava, com quem que eu tava, como que eu ia voltar, para saber se eu tô viva, se não tivesse para acionar chamar a polícia. Agora, depois que eu comecei a namorar, e aí, Bergzinho, a gente já tá juntos aí 6 anos, 6 anos, 6 anos, é, 6 anos.

Aí os meus pais só querem que eu esteja com uma pessoa que me respeite, goste de mim, cuide de mim e seja meu parceiro, sabe? Agora, quando vem parente, amigo, porque minha família não pressiona, o mundo ao meu redor tenta fazer pressão em mim. E aí vem alguns parentes, vem conhecidos, colegas, vizinhos, amigos dos meus pais, e eles vêm com esses argumentos, a galera da igreja, né? Ah, mas na Bíblia Deus diz para procriar. Eu falei assim, não tem necessidade, tem muita gente procriando.

Então procriando aqui é uma beleza, deixa eu ficar aqui. Quando eu falo isso, eles usam o argumento, mas os seus pais não querem netos? Aí minha mãe já vem lá de trás, não quero.

?Voz A

Já ajuda, né? Sempre tem.

PPatsy

Exato. Aí o pessoal para. Então eles não só não me pressionam, como eles também argumentam para defender o fato de eu fazer o que eu quero fazer. Então assim, essa parte de família, parente, ah, vai casar, vai isso, vai aquilo, nunca tive. Inclusive, minhas sobrinhas, quando eu comecei a namorar, elas ficaram em choque porque elas achavam que eu nunca ia aparecer namorando ninguém, porque elas sempre souberam que eu nunca procurei namorado.

Eu tava aí dando meus pulos, me divertindo, mas nunca tive como foco da minha vida um relacionamento. Se ele fosse acontecer, é porque a pessoa era maneira, eu queria ela do meu lado.

?Voz A

Essa parte do relacionamento não teve tanto não. Eu acho que teve a grande susto de família, que nem você falou, de parentes e tal, foi quando eu quis sair de casa aos 23 anos. Então você imagina, uma filha única com tudo em casa bonitinho, e tal, mas você quer sair para quê? Ah, porque a vida, eu quero ver a vida, essas coisas, né?

PPatsy

Você quer poder dar em casa?

?Voz A

Não ia falar isso, mas eu quero. Não, mas também eu quero viver, eu quero conhecer, eu quero ir para outra cidade, meu trabalho tá lá. Era uma desculpa o trabalho, eu queria, mas eu fazia uma hora de viagem ida e volta para o trabalho na época. E aí quando eu decidi sair, e eu ainda não tinha toda a grana para me bancar, né? E tipo, eu tinha o do trabalho, mas Mas o que deu? 3 meses depois eu fui mandada embora, fechou o escritório, e aí a casa caiu.

PPatsy

Eu morava, eu morava, dividia com colega na época que tinha vindo de BH, na Cracolândia.

?Voz A

E eu fui morar na Cracolândia, que é um lugar lá do centro. Então na cabeça dos meus pais é tipo, minha filha vai virar puta assim, tá no centro, minha filha agora fuma, minha filha bebe, mora com gay, mora com gay na Cracolândia. Pronto, já era, era isso. Então assim, não falava a palavra, mas a sensação toda era essa. E aí veio até, você falou da igreja, tem umas tias da igreja, teve uma que me convidou para um almoço surpresa, sabe?

Almoço surpresa, que eu fui lá assim, ah, eu passo aí para o almoço. Na hora que eu cheguei era uma intervenção com direito à televisão passando um culto, e que elas começaram a rezar em cima de mim para eu tomar consciência e voltar para os meus pais, sabe? Foi isso que aconteceu.

PPatsy

Te exorcizaram?

?Voz A

É, teve um rolô isso porque eu tava possuída por ter feito isso na época. E eu, tipo, eu só queria viver, né? Eu só queria. E é claro que as coisas deram muito errado, e eu fui tentando, tentando, tentando. E a vida—

PPatsy

e suas tias crentes falaram que isso tudo aconteceu porque você se afastou dos seus pais.

?Voz A

Exatamente, exatamente. Porque aí tem uma passagem da Bíblia, sei lá o quê, o filho pródigo, bababá.

PPatsy

Aí começa, exato, e lá baixuras de canto.

?Voz A

Aí assim, eu fiquei tão puta na época. Imagina, eu tinha 23, 24 anos assim. Eu fiquei tão puta que eu rompi ali aquela uma coisa de jovem também, né? Porque hoje em dia você só fala assim, tá bom, abraço, gente, pega o meu carro, vou embora. Mas na época, né, você só fica, rompi, fiz o câncer, vocês estão loucos e tal. Bom, segui minha vida, mas ficou, ficou essa pressão de que eu tenho que mostrar que eu consegui, que eu venci.

Ficou uma pressão assim que foi pesado para mim, assim, foi pesado psicologicamente. Eu entrei, eu tive crise de pânico, eu tive crise de ansiedade, eu comecei a ter problemas sérios anos, até uns 30 anos assim, foi bem difícil me recuperar, foi aos poucos. Mas acho que essa foi a maior pressão que eu tive assim. Geralmente mulher fala de relacionamento e tal, no meu caso, e talvez seja no seu também, foi trabalho, né? Foi sucesso, sucesso, você conseguir provar. Eu tive que querer provar o tempo todo e nunca consegui provar nada.

PPatsy

É uma raiva isso, cara. Eu acho que de tudo eu só fui ter noção de pressão social de verdade quando eu me mudei para o interior. Antes de mudar para o interior eu não tive, eu não tinha noção que era essa pressão tão grande. Por quê? Porque eu tenho uma família que sempre me protegeu diante das minhas escolhas, né? Eles conversavam comigo, entendiam meus motivos, e quando alguém vinha questionar, eles já vinham me defender. Então não tinha muito essa pressão, porque em casa eu tava, eu tava blindada.

Quando eu saí para um ambiente novo, completamente desconhecida, as pessoas não sabiam quem eu era. Eu passei a não ser eu, eu passei a ser a profissional que eu era lá, porque naquela cidade eu não era filha de ninguém. Isso foi muito foda porque lembra que eu falei que eu sempre me coloquei sendo quem eu sou e fora? Ou que no meu caso o fora era no ambiente profissional, eu era a persona profissional. Quando eu me mudei para o interior, que ninguém conhecia eu, eu tive que performar o meu eu profissional por muito tempo.

?Voz A

Teve que criar a sua persona.

PPatsy

Exato, eu tive que, fora do meu ambiente de trabalho, reproduzir o meu eu do trabalho, o meu eu mais sério, o meu eu que não fala bobeira, o meu eu que não ri alto, o meu eu que não xinga, né? E eu xingo mais que um marinheiro bêbado, vocês sabem. Então assim, é o meu eu que escuta K-pop, sabe? Então assim, ninguém sabia quem eu era. Eu era o meu eu profissional. E assim, engraçado que com o passar dos anos lá eu não mostrei quem eu sou para todas as pessoas que convivem comigo.

Tem um outro que sabe do podcast, então meio que já sabe quem eu sou porque ouviu daqui. Mas quando eles convivem comigo em âmbito profissional, eu sou a profissional que eu tenho que ser. Eu sou a pessoa séria, eu sou a pessoa questionadora, mas uma pessoa que fica sempre ali na ética profissional. Eu não sou a Paty, eu sou Patrícia Severo, o CNPJ Patrícia Severo. E isso para mim sempre foi muito dolorido. Tanto é que lá na cidade tem o Mateus, que é o irmão do Crau, que foi quem me acolheu quando eu cheguei lá, a família dele.

Ele me apresentou alguns amigos dele, aí essas pessoas com o tempo eu consegui mostrar quem eu era, porque eu tava tão habituada a ser o meu CNPJ que eu era também essa pessoa com eles. E aí eu demorei para entender que eu não preciso ser o CNPJ com eles, que eu posso ser o meu CPF. No meu ambiente de trabalho tinham 3 pessoas que eu de fato era quem eu sou, e dessas 3, 2 já saíram porque passaram em concursos públicos para outros lugares e foram embora.

Eu tenho um amigo no meu trabalho que de fato é meu amigo, que inclusive de vez em quando joga comigo online. Eu apresentei para alguns amigos meus aqui do Rio de Janeiro, ele me conheceu completamente fora do meu ambiente de trabalho. Ele já jogou comigo com os meus amigos da adolescência, e aí quando ele jogou com a gente a primeira vez, que ele me viu com os meus amigos, quando Eu fui para o trabalho, ele virou e falou assim, cara, tu é outra pessoa, quem é você?

?Voz A

Aí você fala, eita, falhei.

PPatsy

Não, e eu virei para ele e falei assim, então eu sou aquela pessoa, o meu eu do trabalho é o meu profissional, que é quem eu devo ser nesse ambiente, porque eu tenho pessoas que confiam no meu saber e na minha ética. Então aqui eu sou essa pessoa porque eu tenho que ser, porque é o jeito correto de eu tratar quem confia em mim. Agora fora daqui eu vou falar merda, eu vou brincar, eu vou xingar, eu vou falar um monte de falo baboseira porque é o meu eu do CPF.

Ele falou, cara, é muito engraçado, porque eu esperava que você fosse mais solta, mas eu não esperava que você fosse essa pessoa.

?Voz A

Aí eu, chocou o menino, meu pai.

PPatsy

Não, e é engraçado porque aí agora, quando eu tô com ele no trabalho, longe das pessoas, eu converso com ele, eu sou, eu falo alto, eu gesticulo muito, eu falo um monte de palavrão. Aí chega alguém do trabalho, eu já volto aqui, ó, não, porque como você pode observar que mediante essas questões, a gente não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê, não sei o que lá. O pessoal saiu, porra, é engraçado. Mas aí, pelo menos agora com ele, que é o Marcelo, beijo Marcelo, ele se tornou um respiro para mim, porque sinceramente é o único momento em que eu posso ser eu. É foda, cara, ó.

?Voz A

E é cada vez mais difícil.

PPatsy

Sim. E eu só fui sentir isso lá. Mas assim, ao mesmo tempo em que eu me distanciei daqui e conheci esse conceito da pressão social por ter que ser meu consultoria Jota 24 horas por dia inicialmente lá, porque é o que estavam esperando. Eu, com esse distanciamento, eu comecei a reparar pequenas pressões que eu sofria dentro do âmbito familiar, não do meu núcleo familiar, mas com parente. Situações onde eu meio que normalizava, eu meio que abalizava, meio que eu rebolava assim, sabe?

E aí eu me colocava em situações de muito desconforto para que a outra pessoa não se sentisse confortável. E eu só fui notar esses momentos quando eu fui para muito distante, porque aí eu não encontrava essas pessoas sempre e eu podia escolher encontrar essas pessoas ou não. E aí, nesse meio tempo, algumas dessas pessoas eu simplesmente não convivo mais e eu usei a justificativa da distância.

?Voz A

Tem uma hora que a gente para de querer ser sempre a legal, né?

PPatsy

Sim. E assim, depois que eu fiz isso, para algumas dessas pessoas eu passei a ser a pessoa que não presta. E aí é aquele negócio, para algumas pessoas você vai ser o vilão da história mesmo, e foda-se. Ó, o que gostosinho, ele é libertador.

?Voz A

Hora de mais um obrigada.

PPatsy

Um muito obrigada ao nosso ouvinte incrível Elcinho Off, que nos apoiou no PicPay @papodelas no mês de julho de 2026. Obrigada, querido.

?Voz A

Ouvintes incríveis, agora a gente pode, Paty, com palavrão mesmo, pensar um pouco nos dias de hoje, né? Porque aí vai ter trocentas coisas para se falar, que a gente já falou de redes sociais, de internet, de networking, de tudo que a gente tem que viver online online para ter alguma coisa fisicamente, né?

PPatsy

Que que a gente tem que performar para os outros?

?Voz A

É performar o tempo todo, ser produtivo o tempo todo, produzir conteúdo o tempo todo, aparecer o tempo todo. Eu, principalmente que presto serviços online, é o lugar que eu tenho que divulgar. Aí eu sigo algumas pessoas que orientam de RH, de coaching, bababá, e é um tal de você não existe se não postar 5 vezes ao dia, de falar sobre você, sobre o seu trabalho, de mostrar suas coisas, o que você faz. E aí você fica agoniado, tipo, eu não existo.

E aí você sente realmente que você não existe, porque, né, talvez não veio o trabalho, então eu não existo. E aí, como é que eu faço para existir? As coisas estão muito difíceis. Você tem que performar. E o algoritmo não vai te reconhecer se você só postar de segunda-feira e não postar não sei o quê. O algoritmo— e eu sinto muita pressão há muito tempo de que você tem que sempre estar online fazendo alguma coisa. Eu vejo dias que eu não tenho trabalho e que eu em vez de estar arrumando meu armário, fazendo uma comidinha, sentar no sofá, ver alguma coisa, eu tô na frente do computador fazendo redes sociais, comentando, curtindo, porque eu tenho que estar ativa produzindo alguma coisa para alguém saber que eu tô aqui.

PPatsy

Porque eu podia agora tá fazendo, cara, isso é desesperador.

?Voz A

Por que que eu tô fazendo? Não, porque assim, na minha cabeça fala: se eu tiver fazendo outra coisa, eu tô perdendo a minha produtividade, eu tô perdendo, eu tô desaparecendo. É horrível. A gente já desaparece no perfil do Papo Delas Podcast, né?

PPatsy

No Instagram, não aparece muito, justamente porque a gente não fica fazendo esse monte de presepada que tem que fazer. Só que assim, é foda porque quando a gente fala do Papo Delas em si, Papo Delas é uma coisa que a gente faz que não é o nosso principal trabalho, é uma coisa que a gente faz porque a gente gosta, não tem um retorno financeiro absurdo e tal, beleza, a gente gosta de fazer, a gente segue fazendo. Agora, quando vai para uma questão de um trabalho em si, porque por exemplo você é editora, você precisa ser vista, as pessoas precisam contratar você para que você continue trabalhando seu trabalho.

Isso bota em você uma pressão muito grande, onde você precisa que as pessoas lembrem que você existe, porque senão eles vão procurar outros editores que aparecem mais no feed. E puta que pariu, gente, as redes sociais em geral, elas são muito— não é ingrata, porque para algo ser ingrato exige a questão de ter gratidão— ela é agressiva. Porque cria-se todo um painel de como deve ser feito para que aquela rede social— e cada rede social tem as suas regras— para que aquela rede social entregue bastante o que você produz para ela.

E você modela tudo para que aquilo seja daquele jeito. Dá um pinote na cabeça do filho da puta que cuida dessa rede social, que é o dono dessa merda, ele muda a regra. E aí tudo que você fazia, que você se organizou, você estudou, você se preparou, você arrumou meia dúzia de programas que vão ajudar você a montar aquele produto naquele formato, mudou. Foda-se, você tem que reestudar tudo novamente. Para mim é sádico, é uma brincadeira sádica.

Ah, todo mundo agora foi, vamos mudar e deixar todo mundo ficar maluco agora. E foda-se, mas o meu dinheiro continua entrando.

?Voz A

Você já pensou se o seu Google um dia acorda e fala, quer saber, cansei, e desliga o YouTube, fodeu. Quantas pessoas vão para vala?

PPatsy

Tem uma galera que vai estar desempregada, muito sério, muitos.

?Voz A

Assim, é porque depende daquilo, o trabalho tá terceirizado ali no YouTube, né? Vai ter que recomeçar em algum lugar. A gente, pelo menos no podcast, esse era o grande medo de todo mundo falar, Spotify centralizar tudo, Spotify ter podcast só no Spotify. É outra coisa se amanhã o seu do Spotify fala cansei, sim, já era, você perde tudo.

PPatsy

Igual tipo no começo Spotify não tinha podcasts, chegou 2020, o mundo acabou, introduziu podcast, mas não era, não tinha essa plataforma, não existia para produtores de podcast antes.

?Voz A

E veio como a salvação, agora seu podcast é só aqui, todo mundo vai ouvir só aqui. Aí gente, ser exclusivo Spotify, teve um monte exclusivos.

PPatsy

E aí na pandemia ficaram exclusivos e tal, acabou a pandemia, as pessoas voltaram a viver, falaram assim, ó, um grande beijo, tchau. E foda-se. Então assim, e não é só assim plataformas em geral, todas as plataformas de rede social que financiam, né, que dão retorno financeiro, elas vão criando. E esses algoritmos, eles vão mudando. A gente mesmo, a gente já passou para os ouvintes algumas vezes em episódios antigos para como que a gente preferia que eles interagissem naquela época.

Por quê? Porque o algoritmo reconhecia maior divulgação do conteúdo se você interagisse daquela forma. Ah, tem que comentar, mas tem que ter no mínimo 5 5 palavras especificamente, no mínimo 5.

?Voz A

Muda tudo a cada mês.

PPatsy

Isso. Aí quando tava todo mundo, os ouvintes se engajaram, tavam lá, ó, não tenho o que falar, mas estou aqui falando 5 palavras, até quando não tinha, entendeu? Aí mudou porque você agora tem que ficar tantos segundos olhando pra tela do celular. Então bota o vídeo e deixa. Entende? É sádico, é sádico. Isso gera, principalmente pra quem trabalha majoritariamente em rede social, que não tem uma equipe grande pra poder ir fazendo tudo ao mesmo tempo, a pessoa tá sempre trabalhando porque ela é, ela é o produto que ela vende.

?Voz A

E sabe o que é louco? Parece que cada vez mais gerações que vêm estão dependendo exclusivamente de rede social.

PPatsy

Sim, tudo é rede social. Não existe mais você buscar uma informação em alguma outra via. Você vai no TikTok, agora TikTok, antes era Wikipedia.

?Voz A

Agora, como segundo vi no TikTok, num perfil do Batatinha Frita 123, os anéis de Saturno, lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá podcast era indicação de amigos, de alguém e tal.

Hoje 11% é por indicação, 60% é para o YouTube. Sim, ou seja, as pessoas estão escolhendo seus conteúdos por indicação de uma plataforma, pelo algoritmo.

PPatsy

Sim, mas isso não tá só no podcast, está em linhas gerais. Não existe mais você entrar numa rede social e você ver aquilo das pessoas que você escolhe acompanhar. Você entra em rede social, vem 1, 2 de uma pessoa que você escolhe seguir, e depois vem um monte de coisa patrocinada, coisas relacionadas a você gosta de animes, então mostra outros animes, perfis aleatórios. E aí você, em algumas plataformas, você consegue selecionar e sinalizar: quero ver apenas aquilo daqueles que eu sigo.

Tem outras que nem essa opção dá mais. Você realmente não acha mais o que você gosta de consumir, você vai simplesmente seguindo a manada de acordo com aquilo que a plataforma escolheu para você acompanhar, para você saber. E é bizarro porque, como a gente tá com essa nossa, com o nosso cérebro derretendo com esses vídeos curtos, isso tudo muito pequeno, a gente não tem mais memória para nada. Dia desses eu me peguei e pensando que o que eu consumia de conteúdo há 6 anos atrás, no início da pandemia, dificilmente eu consumo hoje em dia.

E são coisas que eu gosto muito, mas simplesmente porque quando eu entro em qualquer plataforma fica: olha isso aqui que você também já gosta agora. E aí eu não vou naquelas coisas que eu gosto. E são coisas muito específicas. Vou citar um exemplo. Tem um álbum de 1976, se eu não tô enganada, do Odair José, chamado Os Filhos de José e Maria, que é um álbum que ele fez todas as músicas contando uma forma de interpretar a história de Jesus Cristo, pegando assim parte do que era na história da Bíblia, mas ele criando toda uma lore ao redor disso.

?Voz A

É um clássico.

PPatsy

É, e assim, é muito legal porque, por exemplo, tem uma música que ele fala sobre o casamento de José e Maria sendo feito na igreja. E aí eles chegam e eles vão no sacristão para poder falar, a gente precisa casar. O cara chega, a gente precisa casar esses dois aqui e tal, não sei o quê. Aí o sacristão pergunta por quê. Ele fala, porque é do plano de Deus. Ele não, não é só ser plano de Deus, não é motivo suficiente. Ele fala: não, ela tá grávida.

Ele: não, então vamos casar. E casa. Então assim, é um álbum que ele foi muito transgressor para época, tanto que ele foi proibido pela ditadura, ele foi censurado.

?Voz A

Censurado, é.

PPatsy

E curiosamente, nesse álbum, que é um álbum que eu ouvia muito em 2020, que hoje em dia eu ouço quando eu lembro, e aí eu tenho que ir no Spotify para procurar porque ele não aparece para mim, apesar de ser um álbum que eu ouvi muito, principalmente 2020, 2021. Ele tem uma frase que para mim ela resume bem a vida de maneira geral, porque tem uma música que ele fala que é Não Me Venda Grilos. E aí ele fala no refrão, ele fala não sei o quê, mas por favor não me venda grilos porque viver já pesa muitos quilos.

E a sensação que eu tenho é de que hoje em dia, com a gente tendo esse tudo é para ontem, as redes sociais elas dizem o que você tem que consumir, você não tem escolha mais praticamente, você é induzida a não ter. Na verdade, tudo você tem que responder correndo, essas pressões de resposta rápida para qual você não tem o direito, mas para virar e falar assim: não sei, preciso estudar. Se você fala, as pessoas se assustam que você não tenha resposta na ponta da língua, mas a gente não é computador.

E aí eu tenho a sensação de que se na década de 70, quando Odair José fez essa música, ele já sentia que viver pesava muitos quilos, hoje em dia viver pesa toneladas por conta dessa pressão.

?Voz A

E a gente nem tá sentindo. É isso que eu— enquanto a gente tá segurando isso, é, a gente nem tá sentindo. Muito louco, muitas pressões. A gente A gente tá divagando.

PPatsy

Vamos lá, olha o obrigada chegando. E aquele GratPix para os ouvintes incríveis que apoiaram o Papo Delas pela chave Pix contato@papodelas.com no mês de julho de 2026, que são Edinaldo da Mata, Adrian Lemos.

?Voz A

Olha aí quem apareceu! Elaine Barbosa, Henrique Oliveira e Marcos Robles.

PPatsy

Obrigada!

?Voz A

Ouvintes incríveis. É, Fácia, a gente divagou bastante. Olha, tem pressão pra caramba ainda. A gente pode fazer até parte 3, parte 4. Tem um monte de coisa ainda. Mas eu acho que dá pra falar, encaixar nesse finalzinho uma pressão que a gente já falou em vários episódios também. Mas a gente tem que enfatizar que tem uma pressão estética muito forte nas redes sociais.

PPatsy

Sim.

?Voz A

Que as pessoas estão enlouquecendo mentalmente com isso. Assim, seja você da área de saúde, de nutrição. Mas seja na área estética, é sempre estético, né. É magra demais, é pele perfeita de porcelana, é o cabelo perfeito, é a boca do tamanho certo, é tudo perfeito. Tem uma pressão muito grande. E se você não tá seguindo essa pressão, eu entendo, porque eu acompanho, eu sou a louca de acabar com meu mental lendo comentários. Não devia, mas eu sempre, a curiosidade vai lá.

E sempre, eu não sei como, por isso que as pessoas estão enlouquecidas, Paty, é porque os comentários são muito agressivos, sabe? Gente xingando, de gente falando, sua orelha tá feia, seu olho tá feio, não sei o quê tá feio, você não sei o quê tá feio, olha isso, que monstro, não sei o quê. É sempre para mulher, a grande maioria.

PPatsy

Claro, porque homem não tem defeito, que homem não tem isso.

?Voz A

Mas ainda assim, para alguns homens, quando é gay, tem bastante no mundo gay.

PPatsy

Ou se for calvo, o homem hétero só sofre com o preconceito da calvície.

?Voz A

Mas é uma pressão muito grande que essas mulheres sofrem. Sofrem e que isso respinga muito, claro, em todas nós. Às vezes eu vou gravar um story e fico, ai, mas eu tô feia, que não sei o quê, eu tenho vergonha. Eu tenho uma vergonha assim de vídeo, mas assim, da onde vem isso, né? Você assiste várias, aí você ouve tudo isso, você fala assim, meu Deus, o que que vão pensar até eu não ter feito a unha, sabe?

PPatsy

Sim.

?Voz A

Isso tá crescendo, pelo menos no meu algoritmo assim, tá crescendo de forma insuportável, cara.

PPatsy

E te falar essa questão do patrocinando mesmo, né, as atualizações do Patriciando eu queria fazer há muito tempo. Eu criei coragem esse ano de fazer porque eu simplesmente virei e falei assim, sabe uma coisa, foda-se, e vou fazer, e seja o que Deus quiser. Porque críticas vão acontecer. Se você faz, criticam. Se você não faz, criticam também. Então eu só vou me divertir no processo, seja o que Deus quiser. Se eu cansar, paro. E aí, mas acredito que eu só vou, como eu só pretendo me divertir no caminho, acho que é mais tranquilo. Se eu tivesse esperando muito rendimento, talvez estressasse mais.

?Voz A

Mas é essa, essa super exposição que a gente tá virando também dá uma super abertura para as pessoas se sentirem à vontade de falar sobre isso.

PPatsy

Para falar, sim. E o argumento sempre vem muito.

?Voz A

As pessoas falavam da Eva Wilma na televisão, falava da Glória Pires, entendeu? Assim, é porque era o que a gente via na tela, né? Aí falava, olha, você viu ali, você viu aqui. Hoje em dia é de qualquer um de nós, qualquer um de nós está se expondo e qualquer um de nós vai ser falado como antigamente era se falar na televisão, só que em HD, em 4K, mostrando todos os poros.

PPatsy

E assim, o argumento das pessoas atualmente é sempre o mesmo: você colocou nas redes sociais, você colocou na internet, você está querendo a opinião dos outros. As pessoas podem falar o que elas quiserem, mas ninguém bota a mão na consciência de que você pode falar o que você tá pensando. Mas custa você ter um pouquinho de cuidado com a palavra que você vai usar? Você precisa ser um escroto, um cuzão? Você não precisa ser um cuzão.

Você não é um cuzão no seu dia a dia. Se você for um cuzão no seu dia a dia, você não tem amigos. Mas se você tem amigos, você provavelmente aprende a medir as palavras. Você pode ser minimamente gentil e as pessoas não vão ser.

?Voz A

Pois é, a vida inteira, até nas famílias mais zoadas e tal, a vida inteira a gente sempre detestou o tio que virava no churrasco e falava: tá gorda, hein?

PPatsy

Exato. Só que na rede social as pessoas, elas esquecem que tem alguém do outro lado. É isso, eles acham que estão sempre falando com um bot, acha que a internet tá morta, 100% morta, e tu só xinga robô.

?Voz A

É outra coisa que talvez a gente fale em outros episódios aí, que também é uma necessidade de atenção, chamar atenção muito forte, né?

PPatsy

É, mas isso também eu não critico por conta do ego. Todo mundo gosta de ter o seu ego massageado. É foda, cara, viver pesa muitos quilos.

?Voz A

É, eu sinto que a gente falou um terço, nem isso, um dozeavos do que precisava de pressão social, que tem muita coisa que eu sei que os nossos ouvintes vão inteirar com brilhantismo, Paty.

PPatsy

E aí, galera, conto com vocês no comentando os comentários deste episódio para contar para a gente quais são as pressões sociais que vocês mais enfrentaram, quais foram aquelas que vocês tiveram mais facilidade para se livrar conforme vocês foram amadurecendo, e quais foram aquelas que vocês conseguiram de fato abandonar sem peso nenhum depois desses anos todos.

?Voz A

Exatamente, maravilhoso! Você tem que ser produtivo o tempo todo? Como é que você lida com isso? Depois me conta, me ensina, me dá um abraço.

PPatsy

Vamos junto, galera!

?Voz A

É, e assim, a nossa pressão aqui, Paty, é curtidas, é comentários, é por apoiadores, é por ouvintes, compartilhamentos. Por favor, a gente precisa crescer mais esse ano, então fica essa pressão podcastal para vocês. Esse foi o Papo Delas 93 sobre pressão social, que eu comecei achando que teria alguns temas temas para falar, Paty, e terminei achando que tem mais 50 milhões.

PPatsy

É, gata, normalmente quando o assunto é pesado é assim.

?Voz A

Ai, que gostoso! É um ótimo tema para esse meizinho, hein, dos desgostos de agosto. Ai, gente, antes de ir embora, nosso muito obrigado gigante para você que ouviu o Papo Delas até aqui. É claro, nosso amorzinho especial para os ouvintes incríveis que apoiaram o podcast podcast do Papo Delas esse mês.

PPatsy

Sério, pessoal, por causa de vocês que o Papo Delas continua.

?Voz A

E por favor, quer ajudar? Ajuda o Papo Delas se manter vivo no seu feed.

PPatsy

Assina, assina lá no catarse.me/papodelaspodcast, ou então manda aquele Pix maroto pra gente, né, com a nossa chave que é contato@papodelas.com. E se você tiver sem grana pra contribuir financeiramente com a gente, então curte, compartilha, comenta, passa adiante, faz aquilo que você sabe que você tem que fazer, meu amor.

?Voz A

Bora! Beijo do lábano, vida longa e rica para todos nós, seus lindos.

PPatsy

Nós contamos com vocês e com mais alguns outros, né, para o próximo mês.

?Voz A

Por favor, tá terminando o ano, gente, dá aquela força.

PPatsy

Hashtag grataze, hashtag gratifiques.

?Voz A

E até o próximo. Tchau, tchau, tchau! Você ouviu Papo Delas Podcast.

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