Episódios de KardecCast

T07E85 - Sem princípios

01 de outubro de 202620min
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Desperte! Estude a Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos!

Utilizamos neste episódio: "Midnight Shoreline", "Gravity S Weight", "Before The Morning", "Rain On The Windshield", "Do Brasil Para O Mundo (4)" By Google Gemini (Modelo Lyria).

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Assuntos5
  • A educação moral como base para a ordem social e econômicaformação do caráter e hábitos adquiridos·crítica a indivíduos sem princípios·desordem e imprevidência como chagas·resiliência prática através da educação moral
  • A educação moral como responsabilidade social ativaespíritos mais evoluídos auxiliam os menos evoluídos·prevenção através da educação dos filhos·correção através do auxílio aos sofredores
  • O progresso moral como motor do desenvolvimento humanoconhecimento sem moral é perigoso·moral sem conhecimento é limitada·moral como fundamento do progresso
  • A solidariedade como consequência da educação moralpais devem educação aos filhos·adiantados devem ajudar os pobres e ignorantes·educação moral em ação social
  • A necessidade de cultivo adequado para produzir bons frutos moraisinfluências perniciosas na formação·falha dos meios para moralizar·cultivo adequado para naturezas refratárias
Transcrição2 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Há um elemento que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, a educação moral pelos livros, e sim a que consiste na arte de formar os caracteres, a que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população sem princípios, sem freio, e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem.

Quando essa arte for conhecida, compreendida, e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, 685-A. Esta passagem trata da educação moral como uma pré-condição para qualquer ordem social e econômica realmente funcionar e não ser apenas um complemento que se deseja. Kardec separa a educação intelectual, conhecimento, livros, atenção, memória, percepção, linguagem, raciocínio lógico, da educação moral, que é a formação do caráter. A moral pelos livros ele já então descarta. Não basta ensinar preceitos, é preciso formar hábitos.

Por isso a frase-chave: a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos, não é uma doutrina memorizada. É um comportamento interiorizado pela prática frequente. Quando ele diz aluvião de indivíduos sem princípios, sem freio, é a crítica ao que hoje chamaríamos de crianças criadas sem formação de caráter. Não necessariamente por maldade, mas por simples ausência de método. As consequências desastrosas seriam a desordem social generalizada, que é resultado previsível e nada misterioso.

E as duas chagas Desordem e imprevidência, que são falta de previsão e planejamento, são males práticos, não abstratos. Elas afetam diretamente a nossa vida, a vida cotidiana, e no argumento do texto, afetam a própria economia. A ideia é que nenhuma ciência econômica funciona sobre uma população sem hábitos de ordem. Economizar, planejar, respeitar compromissos e pessoas são hábitos morais antes de serem hábitos econômicos. Nosso chefe espírita vai afirmar que quando essa arte de formar caracteres for dominada, realmente compreendida e praticada, o indivíduo ganhará resiliência prática.

Por isso ele dirá atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. Ora, isso não é um otimismo ingênuo, até porque os maus dias continuam inevitáveis, mas é a educação moral como um poderoso amortecedor. Isso tudo se conecta com a ideia kardecista de que o progresso moral é o verdadeiro motor do progresso humano, mais até que o progresso intelectual, que sozinho pode gerar uma sofisticação sem caráter. É um argumento recorrente em O Livro dos Espíritos.

Conhecimento sem moral é instrumento perigoso. Moral sem conhecimento é limitada. Os dois precisam caminhar juntos, mas a moral é a base, é o fundamento. M. Ubarro, engenheiro, na Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos de junho de 1868, raciocina o seguinte: hoje todo mundo compreende que os pais devem aos seus filhos uma educação conveniente e que aqueles que são felizes, instruídos e adiantados devem ajudar os pobres, os sofredores e os ignorantes.

O texto de Barrot estende o raciocínio de Kardec em dois ângulos. Que até se complementam. Kardec parte do individual para o coletivo, fala da formação do caráter como um processo, são os hábitos adquiridos, a arte de educar. Barrot já parte do resultado dessa formação, que foi muito bem-sucedida. Felizes, instruídos e adiantados. E vai perguntar: o que esse indivíduo formado deve aos outros? A resposta é justamente a solidariedade como consequência natural da educação moral, não como uma caridade opcional.

Ou seja, Allan Kardec explica o processo de como se forma o caráter, já o Bahá'u'lláh comenta sobre o propósito. Para que então serve esse caráter formado? Que é reverter em benefício de quem não teve a mesma sorte. Barrot estrutura duas responsabilidades em cadeia, a dupla obrigação: os pais devem educação aos filhos, a formação inicial do caráter, exatamente o que Kardec orienta e detalha tão rigorosamente. E os adiantados? Devem apoio aos pobres, aos sofredores e aos ignorantes.

É a educação moral em ação social. É a mesma lógica de Kardec sobre o aluvião de indivíduos sem princípios, sem freio. Se a ausência de educação moral gera a desordem social, a presença dela nos que já a possuem gera o dever, a obrigação de ajudar a corrigir esse quadro nos que ainda não tiveram acesso a ela. Aqui está o ponto mais fino: instruídos e adiantados como categoria moral, não meramente intelectual. Se lermos adiantados como adiantamento moral, que é uma linguagem comum nos livros de Allan Kardec, pois O Progresso do Espírito, a frase de Barroa não fala de elite econômica ajudando os pobres por generosidade, mas de espíritos mais evoluídos, moralmente, tendo o dever de auxiliar os menos evoluídos.

Isso fecha o círculo com Kardec: a educação moral não termina em si mesma, não é só para o indivíduo atravessar menos penosamente os maus dias, Ela se converte, portanto, em responsabilidade social ativa. Em síntese, Kardec diagnostica a falta de educação moral como a raiz da desordem. Barrot prescreve a ação corretiva Quem tem deve transmitir a quem não tem, tanto na educação dos filhos, que é a prevenção, quanto no auxílio aos sofredores, que é a correção.

Os dois textos, lidos juntos, desenham um ciclo. Educação moral bem-sucedida produz indivíduos capazes de ordem e previdência, Kardec, que por sua vez têm o dever de estender essa capacidade aos outros, Barrot, perpetuando o progresso moral coletivo, que é núcleo da proposta espírita de reforma social. Quem acompanhar assim o filho do rico como do pobre desde o instante do nascimento e observar todas as influências perniciosas que sobre eles atuam em consequência da fraqueza, da incúria e da ignorância dos que os dirigem, observando igualmente com quanta frequência falham os meios empregados para moralizá-los, não poderá espantar-se de encontrar pelo mundo tantas coisas erradas.

Faça-se com o moral o que se faz com a inteligência, e ver-se-á que, se há naturezas refratárias, muito maior do que se julga é o número das que apenas reclamam cultivo adequado para produzir bons frutos. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, 917.

?Voz B

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