Terceira semana de guerra, impasse no Estreito de Ormuz e novas ameaças de Trump a Cuba
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- Mediação InternacionalConversas entre regime cubano e Casa Branca · Possível remoção de Miguel Díaz-Canel · Papel da família Castro nos bastidores · Possível abertura econômica no setor hoteleiro · Comparação com cenário venezuelano · Interesse em exploração turística e investimento privado
- Relacoes EUA-IraAli Larijani como chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irã · Figura central nas negociações e pragmatismo iraniano · Relacionamento com múltiplos setores do regime iraniano · Impacto estratégico de sua eliminação por Israel · Radicalização esperada do regime iraniano · Possíveis sucessores e mudança de liderança
- Crise energética em CubaDeclaração de Trump sobre tomar Cuba · Imperialismo e linguagem agressiva do presidente americano · Diferença entre época de relevância estratégica e situação atual · Interesse simbólico e político de Trump em Cuba · Influência do eleitorado cubano-americano de Miami
- Crise Energética GlobalApagões generalizados afetando 100% da ilha · Dependência de termelétricas soviéticas obsoletas · Falta de diversificação para energia solar e eólica · População sem eletricidade por até 15 horas diárias · Impacto na paciência da população · Falta de investimento em infraestrutura energética
- Estreito de OrmuzBusca de apoio internacional de Trump para controlar o estreito · Recusas da OTAN, China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido · Falta de interesse de aliados europeus em envolvimento militar · Oposição interna de autoridades de contraterrorismo americanas · Caracterização como guerra de escolha dos EUA, não interesse compartilhado
- Cultura e idiomas internacionaisConcentração de poder em Chavez vs. estrutura mais descentralizada em Cuba · Presença de liderança simbólica (Fidel) vs. figuras decorativas · Resistência estrutural a golpes internos em Cuba · Papel da família Castro na continuidade · Maior dificuldade em remover regime cubano vs. venezuelano · Importância estratégica do petróleo na Venezuela
- Diásporas africanas e cubanaComunidade de exilados cubanos em Miami · Eleitorado republicano influente e financiador · Desejo de retorno da diáspora à ilha · Natureza recente e geográfica proximidade da diáspora · Persistência do sentimento mesmo gerações depois · Interesse em investimento turístico e hoteleiro
- Reforma TributáriaReformas de Raul Castro a partir de 2010 · Terceiro da força de trabalho em setor privado · Distância entre realidade econômica capitalista e narrativa oficial · Comparação com modelo chinês · Abertura limitada do setor hoteleiro · Dificuldade política de admitir transição capitalista
Olá, seja bem-vindo a mais uma edição do Mundo em Meia Hora. No primeiro bloco, hoje eu converso com o Gachakra. A gente vai falar sobre quem foi Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irã, morto pelas forças de Israel. No Líbano, há mais de um milhão de deslocados. E Donald Trump procura, mas não encontra apoio de aliados para tentar reabrir o Estreito de Hormuz. Aí no segundo bloco, com Ariel Palacios, diretamente de Buenos Aires,
Guga Chakra, Guga, bem-vindo mais uma vez. Tudo bem, Guga? Oi, Fernando. Oi, Ariel. Oi, ouvintes.
noite dessa segunda-feira, Ali Larijani, que é o chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irã. E você já disse aqui, em episódios anteriores, que era ele quem estava à frente do país, do Irã. Quem era ele, Guga? Olha, Fernando, o Ali Larijani era, na prática, quem estava comandando o regime iraniano desde o início da guerra. Era a figura mais importante nessa guerra contra os Estados Unidos e Israel.
era uma figura muito conhecida dentro do Irã. Um político muito preeminente. Ele foi presidente do Majlés, que é o parlamento iraniano, por muitos anos, de uma família tradicional de Teherã também, muito poderosa. Os irmãos dele, primos, familiares em geral, é muito poderosa na política iraniana. No momento ele era também, antes do início da guerra, a principal autoridade na área de segurança dentro do Irã. Uma rara figura bem relacionada com todos os setores
regime, ele tinha uma boa relação com os clérigos, com o Ayatollah Ali Rahmanem, mas com os clérigos em geral, ele tinha uma boa relação com os políticos do Irã, se fossem da linha dura ou fossem os mais reformistas, ele era próximo de todos, tinha diálogo com todos, e ele era próximo também da guarda revolucionária, muito respeitado pela guarda revolucionária. Então ele tinha essa capacidade de chamar a voz que todos ali,
dentro do Irã, teriam que respeitar caso alguma decisão tivesse de ser tomada. Por exemplo, um cessar-fogo com os Estados Unidos nessa guerra. Ele teria essa capacidade, levando em conta que o Ayatollah, o novo escolhido para como líder supremo, o Ayatollah Mojitaba Ramanei, a gente não sabe exatamente qual é o estado de saúde dele, mas aparentemente está muito ferido e ele não era tão poderoso politicamente quanto o Alila Arijani. Então, é um duro golpe para o regime,
e também para quem teria expectativa, talvez para os Estados Unidos, de ter alguém com poder que pudesse dialogar com os Estados Unidos e que fosse pragmático, porque ele participou das negociações do acordo nuclear. Ele realmente era pragmático. Então, nesse sentido, também poderia ser uma perda. Para Israel, não, porque ele é um adversário israelense, a intenção de Israel é deixar o Irã como um estado falido. Vamos colocar assim, como foi o Iraque até alguns anos atrás, ou a própria Síria,
também até pouco tempo atrás, quer dizer, envolvida numa guerra civil, tudo que não ameace formalmente Israel. Então é um duro golpe para o regime. Mas qual que pode ser a consequência, Fernando? A tendência agora é a radicalização do regime iraniano, com figuras mais radicais e mais jovens, ou não necessariamente mais jovens, mas da guarda revolucionária, assumindo o comando, entre as quais figuras ligadas ao atentado contra
contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires. Então existe essa possibilidade. Então é algo que pode impactar e radicalizar a postura do regime ao longo dessa guerra. Agora a gente não sabe, formalmente, quem está no poder no Irã, embora, claro, o Mohamed Galibaf, que também foi presidente do Magiles, o parlamento iraniano, também é uma figura forte na área de segurança, mas não tanto contra a Lila Arijani, ele pode despontar nesse primeiro momento.
Guga, a gente vai falar do Líbano, porque do Líbano a gente tem informações, tem internet, tem vídeo, tem foto, tem conversas, você consegue contato. Com o Irã já tem um apagão na internet que já dura semanas. O que se sabe? Como é que está a população? Como é que eles estão vendo tudo isso que está acontecendo no país? Você tem alguma informação? Olha, no Irã os relatos que chegam é que o regime tenta passar uma sensação de normalidade.
Mas passados, então, não tem nenhuma área como Dahye, em Beirute, com a destruição de Dahye. E Beirute é bem menor que Teheran. Seria, não diria nem um quinto, menos que um quinto, um sexto do tamanho de Teheran. Então, o impacto da destruição em Teheran acaba sendo menor, segundo relatos. Há, claro, uma tensão muito grande, o barulho dos bombardeios durante a noite. Mas, mais uma vez, depende muito de onde você mora.
com São Paulo, você mora no bairro de Santana, se eu não me engano. Exato. Um bombardeio que seja, não precisa nem ser em Interlagos, não é exagerar muito a distância, mas um bombardeio em Alto de Pinheiros ou um bombardeio no Butantã não vai impactar tanto no teu dia a dia, ou um bombardeio em Taquera, porque são áreas mais distantes. Então depende muito de onde estão acontecendo os bombardeios, mas claro, esse momento de tensão também.
O país já passava por uma crise muito grave, ela se acentua no momento de guerra, então as pessoas vão tentando, vamos colocar assim no modo, sobrevivência, no sentido de que, assim, tentando ir ao supermercado, comprar as coisas ali para o dia a dia, para ter tudo direitinho, para passar esses dias, não tem havido manifestações contra o regime naturalmente, porque se se manifestarem, serão reprimidos com violência, a favor do regime tem havido, sim, mas é claro, aí é um outro cenário.
Provavelmente há mais pessoas contra o regime do que a favor. Agora, o que relata é que, embora muita gente seja contra o regime, eles não gostam de ver sua nação sendo bombardeada dessa forma, em larga escala. Então, é mais ou menos esses os relatos que vêm do Irã. Bom, então no Líbano, Guga, a informação que a gente tem é que mais de um milhão de pessoas foram expulsas de suas casas. A gente está falando de cerca de 20% da população. Qual que é o cenário?
bastante complexo nesse momento, cerca de 15% da população tem de ser expulsa das suas casas, tanto no sul do Líbano e, acima de tudo, na região de Dari, que é a parte sul de Beirute, de maioria cheita, sempre lembrando o leste, a maioria cristã, o oeste é de maioria sunita, com uma enorme destruição, outras áreas de Beirute também foram bombardeadas, como a Universidade do Líbano, por exemplo, a praia de Beirute, pública de Beirute também foi bombardeada, entre outras áreas, até regiões centrais,
capital libanesa foram bombardeadas, Israel tem realizado operações no sul do Líbano, bombardindo mais uma vez território libanês, na verdade Israel já ocupava cinco pontos dentro do Líbano, mas muito próximos à fronteira, agora aprofundando mais essas operações, há especulações de que Israel talvez chegue até o Rio Litânia, ou mesmo passe o Rio Litânia, quer dizer, o Rio Litânia fica 30 quilômetros da fronteira com Israel, então avançando bem para dentro do território
território libanês, o governo do Líbano ofereceu de fazer uma negociação com Israel, sobretudo desde acordos de paz, acessar fogo, o que for necessário, o governo libanês condena as ações militares do Hezbollah, mas também condena os bombardeios israelenses, mas Israel até o momento não está interessado em negociações, então o mais provável nesse momento é sim que Israel realize uma nova ocupação do sul do Líbano, não se sabe,
por qual período que o Hezbollah vai lutar contra Israel dentro do sul do Líbano, o governo libanês que desfruta de respeito internacional tende a sair enfraquecido e um temor de que esse cenário dentro do Líbano também gere conflitos civis, porque a partir do momento que uma parcela grande da população cheita acaba sendo expulsa para áreas sunitas ou cristãs,
atrito, a maioria da população recebe bem os refugiados, mas sempre há aquele atrito dos dois lados, então um temor de que escale para um conflito civil dentro do Líbano, que já teve uma guerra civil entre 1975 e 1990. Uma preocupação, claro, se a população do Sul em algum momento poderá voltar para suas casas, com vilas históricas, ancestrais, cristãs, que nem Rachafukar, Meish, Sunitas, Chiitas,
Drusas, enfim, uma região e com uma população expressiva de libaneses brasileiros ali no sul do Líbano. Um outro assunto, Guga, é o seguinte, o presidente Donald Trump tem buscado apoio de aliados para tentar de alguma forma trazer segurança ou desbloquear o Estreito de Hormuz. Já recebeu um não da OTAN, também buscou China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido. Ninguém se empolgou com essa história. Ele também não deve se empolgar, né, Guga? Não é assim.
Simples, né? É, porque não é uma guerra deles. E o Trump recentemente estava ameaçando anexar o território da Dinamarca, por exemplo, que a Groenlândia não tem dado a ajuda que os europeus esperam para a guerra da Ucrânia. E a guerra do Irã, o fato é que é uma guerra lançada pelos Estados Unidos, é uma guerra de escolha. Os europeus naturalmente não querem se envolver, eles defendem o cessar-fogo, eles não veem como eles podem ajudar.
Eles podem ajudar depois de um cessar-fogo para ajudar na retirada de Minas, ali no Sreito de Hormuz,
mas dentro de um cenário de cessar fogo. A mesma coisa se aplica aos países asiáticos. Essa não é uma guerra deles. Eles não queriam que houvesse essa guerra. Então é um problema do Trump que enfrenta também até aqui dentro dos Estados Unidos. Uma das autoridades na área de combate ao terrorismo nos Estados Unidos pediu demissão hoje afirmando que o Joe Kent, que era o principal oficial de contra-terrorismo, afirmando que ele não apoiou o Trump para isso.
que ele é contra a guerra do Irã, que é uma guerra do interesse de Israel e não do interesse dos Estados Unidos.
O Val, ali, numa conversa com a imprensa, disse que seria uma grande honra tomar Cuba. Ele disse, acho que posso fazer o que quiser com ela. É uma nação muito enfraquecida neste momento. Ariel, o que você acha disso? É impressionante, porque presidentes de qualquer parte do mundo que tivessem aspirações imperialistas,
ou reis ou imperadores, no passado, eram mais sutis, tentavam dar uma dissimulada na coisa. Não eram tão óbvios como Trump, quando digo óbvios, não é o que está nas entrelinhas, é o que diretamente ele fala. Eu acho que algumas figuras que se expressam dessa forma, como, não sei, como no passado, um certo ditador austro-alemão dizia, precisamos espaço vital,
Lebensraum. Isso está mais ou menos, está sendo muito explícito, a sutileza que havia antes. Até o imperialismo perdeu certa nuance, certos eufemismos que utilizava antigamente. Então imagina como é que a coisa está no mundo hoje em dia. Fernando, o fato que sim, Cuba está muito enfraquecida, talvez seja o pior momento desde o início da Revolução Cubana em 59. Recordemos que ao longo destes 67 anos de revolução,
Cubana, desde 1959, quando Fidel Castro entrou com suas tropas em Havana, e horas antes, no meio da madrugada, havia partido de Cuba o anterior ditador, que chegou o novo ditador, que em 59 não parecia ainda que ia ser um ditador, isso ficou claro depois, mas na época aparecia como libertador, e havia partido, no avião carregado de dinheiro com seus aliados, o ex-ditador Fulgencio Batista. Desde esse momento, Cuba teve
situações graves e situações menos graves, situações moderadamente passíveis. Houve épocas nas quais Cuba não é que estava exuberante, mas vivia mais ou menos bem que era a época soviética, quando Cuba tinha como comprador inexorável de seus produtos a União Soviética e os países do leste europeu. Então Cuba tinha um comprador permanente, garantido,
que era basicamente a commodity cubana por excelência, que era o açúcar. Nem os governos anteriores, nem o regime cubano tentaram diversificar muito a economia cubana, ficaram presos nesse monocultivo quase que é o açúcar. Então Cuba conseguiu viver mais ou menos dentro do esquema cubano no período soviético. Quando a União Soviética caiu em 1991, foi o colapso para Cuba.
de período especial, que era um período de vacas magérrimas. E desse período especial, desses tempos apertadíssimos, saiu mais ou menos de novo quando, a partir de 2006, Hugo Chávez fez um acordo com a Havana e começou a dar petróleo, praticamente a preço de banana, de presente, petróleo para Cuba. O problema foi quando Cuba, quando a própria Venezuela, por causa da queda da produção interna da Venezuela, começou a perder produção,
e deixou de enviar a mesma quantidade que enviava para Cuba. Então, Cuba começou a entrar em problemas nos últimos cinco anos e desde janeiro deste ano, com a queda de Maduro e a chegada de L.C. Rodrigues, machavista, ao poder, mas machavista obediente ao presidente Trump. Então, as coisas se complicaram mais de forma acelerada. Então, podemos dizer, essa introdução toda era para dizer que talvez este seja o pior momento de todos para Cuba, pior até que nos anos 90, no denominado período especial,
anos. Nós já falamos aqui na edição anterior que há um diálogo entre Cuba e Estados Unidos e a novidade agora é que exigem a saída de Miguel Dias Canel, a liderança de Cuba. O que você tem sobre isso? Essas são as especulações. O que poderia ser feito? Se seria feito algo tal como aconteceu na Venezuela? Às vezes a tendência é comparar. E o próprio Trump, às vezes, tende a comparar isso. Quando ele comparava a Venezuela com a Irã. Tinha que iria ser igual.
Venezuela, e não foi assim. Então a comparação é, Cuba se parece à Venezuela, é diferente, é diferente, mas o que sim é que o próprio regime cubano, o próprio ditador Miguel Dias Canel, admitiu dias atrás, no início da semana passada, que estava tendo conversas com Washington, que representantes do regime comunista de Cuba, estava conversando com representantes da Casa Branca, e sobre isso houve especulações prévias que Alejandro Castro Espín, filho de Raul Castro, ex-ditador Raul Castro,
de Fidel e depois outro sobrinho de Fidel e um neto de Raul Castro estariam também conversando com Cuba, ou seja, integrantes da família Castro, que seriam então os que estão por trás mesmo do poder em Cuba, já que eles estariam sendo os interlocutores disto tudo. Então uma das especulações é, poderia ser um cenário de remoção de Miguel Dias Canel, que não é um integrante da família Castro, então a família Castro não passaria por uma espécie de vergonha, de vexame,
então poderia ser uma figura substituída por outra figura e aí iniciar uma espécie de abertura econômica para satisfazer os Estados Unidos e continuaria o regime de certa forma no poder, algo assim tal como está acontecendo na Venezuela, porque na Venezuela foi isso, fizeram uma lei de hidrocarbonetos para permitir que empresas estrangeiras, basicamente americanas, possam explorar o petróleo da forma como quiserem na Venezuela,
Biden, também favorecendo os Estados Unidos, favorecendo o Trump. Então, se haveria alguma coisa assim em relação a Cuba. Só que Cuba não tem nem petróleo, nem minérios. Então, qual que é o interesse de Trump em Cuba? Não é mais uma base ideal para atacar os Estados Unidos, da mesma forma como foi no início dos anos 60, quando teve a crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Era porque, naquela época, não havia mísseis intercontinentais
dos russos capazes de lançar desde Moscou um míssel na direção de Washington, da mesma forma como na mesma época a OTAN dos Estados Unidos tinha mísseis na Turquia, coladinhos ali na União Soviética, os Estados Unidos, então era outra época, muito antes da existência dos mísseis intercontinentais e antes dos submarinos que podem se aproximar discretamente e clandestinamente da costa de cada um dos países e disparar os mísseis nucleares.
Então aquela época da Cuba que tinha importância com uma base soviética ao lado,
dos Estados Unidos era outra coisa. Depois que a tecnologia superou o aspecto proximidade geográfica, Cuba ficou descanteio nisso. A questão de Trump e dos Estados Unidos de forma geral com Cuba é uma espécie de vitória simbólica de ter derrotado e tentar conseguir derrotar o regime de Cuba que há 66 anos mantém a resistência perante os Estados Unidos.
O embargo. O embargo que, por outro lado, não impede que Cuba comece com o resto do planeta. Agora é certo na questão do petróleo. Mas, então, Cuba pode oferecer o quê em troca do ponto de vista econômico, como a Venezuela? Petróleo não, minérios não. Alimentos não. Água, tampouco. Não tem grandes recursos. Então, o que é que interessa para os Estados Unidos? Então, basicamente, um trunfo mediático, um trunfo político, um trunfo simbólico,
conseguido que os outros presidentes americanos não conseguiram. Satisfaria de certa forma, de certa forma, e friso aí, os famosos cubanos de Miami, que não estão só em Miami, que estão em várias partes dos Estados Unidos, mas sim estão concentrados ali, exilados, que já numa geração que hoje tem 80, 90 anos, mas que seus filhos também, e os netos também, mais ou menos, querem uma espécie de revide por causa da fuga que eles tiveram que realizar
saindo de Cuba nos anos 60. E isso é um eleitorado republicano de muito peso, muito influente, que financia carreiras políticas. Então, por um lado, está isso, está satisfazer esse eleitorado republicano que pode financiar bem o partido, vários políticos. Oriel, essa diáspora poderia, a gente já falou anteriormente, poderia até investir, voltar a investir em Cuba ou até mesmo voltar para Cuba? Essa que é a grande curiosidade.
porque investimento em Cuba seria basicamente, neste momento, ou nos últimos tempos, seria o setor hoteleiro. Coisa que, nos anos 40 e 50, os americanos pegavam um avião e em poucas horas estavam em Cuba, nos cassinos, nas praias quentes. Era um rival para Miami, para a Flórida. Cuba era como o ponto, assim, de voo para um fim de semana passar lua de mel, viagens, tudo. Então, quer dizer, do ponto de vista turístico, convém muito.
para a indústria hoteleira dos Estados Unidos. E muitos empresários cubanos-americanos também têm essa ideia de voltar a investir em Cuba, porque conhece o lugar, fala o idioma, há todo um vínculo que nunca se perdeu entre a ilha e ali a península da Flórida. Então também poderia ser isso, Fernando. Também poderia ser isso. E aquela coisa simbólica de voltar, porque isso é muito interessante. Há certas diásporas que as pessoas passam o tempo e não desejam mais voltar ao país.
em voltar ao país. E há outras diásporas que sempre persistem essa vontade, até porque esta diáspora é uma diáspora relativamente nova. Não é a diáspora armênia, que tem mais de 100 anos de existência, não é como outras diásporas. É uma diáspora relativamente recente, está muito perto geograficamente, é esse outro fator. Então, isso gera com que haja uma espécie de sentimento de voltar ao país,
seja a pessoa que saiu, mas que seja o filho ou o neto. Então isso é muito forte no imaginário coletivo cubano do exílio, da diáspora cubana. Então não descartemos isso também, além de interesses políticos pessoais, de conseguir marcos de poder no futuro na ilha, etc. Mas pensemos bem que Cuba já não é um ponto estratégico, como foi no passado, e não tem nem petróleo, nem minérios.
e aquele efeito político de peso que Trump teria, ou que qualquer presidente americano teria, neste caso, em relação a Cuba. É como uma espécie de, abre aspas, a vitória do capitalismo sobre o comunismo. Mesmo que, Fernando, Cuba já não é comunista, como era antigamente. Porque 30%, exatamente, uma série de microempresas que são de capital privado desde 2010,
quando Raul Castro, depois que Fidel Castro ficou doente e teve que se aposentar, fez uma série de reformas que não eram possíveis fazer com Fidel, porque simbolicamente não podia ser feito. Raul Castro, então, abriu a economia nesse aspecto. E hoje, um terço do PIB, um terço da Força de Trabalho, é feita pelo setor privado. Então, já não é mais um monopólio comunista, digamos assim, entre aspas. Então, isso é algo que não é muito conveniente para o próprio partido ficar alardeando.
E também não é muito conveniente para os anticastristas, que continuam insistindo que Cuba é comunista e Cuba já não é aquela coisa comunista. É que nem a China. A China já é um outro caso. O Partido Comunista continua no poder, mas a China não é uma economia comunista. A China é para lá de capitalista. Capitalista selvagem. Se é o Mao Zedong Smith ali, faria festa. Mas são coisas que depois continuam no imaginário coletivo. Comunista, comunista, é a Coreia do Norte.
É isso. Só uma última questão. E a população em Cuba? Porque lá tem apagões diários. Nessa segunda-feira teve um apagão geral, um blackout no país. Os cubanos não estão protestando? Então, aí também vem outro fator muito interessante. Os cubanos têm protestado desde 2018, quando a coisa começou a complicar. Recordemos que Cuba teve uma recuperação econômica mais ou menos de 2010 até um pouco antes da pandemia. Havia uma certa recuperação.
havia um certo otimismo, muitas redes hoteleiras europeias e canadenses estavam investindo em Cuba, havia um boom de turismo maior do que havia previamente, aí veio a pandemia, vieram uma sequência de furacões que destruíram parte da infraestrutura da ilha, e aí nunca mais o turismo em Cuba voltou a ser o mesmo, Fernando. E a falta de petróleo, porque a produção de energia elétrica em Cuba é basicamente devido a termoelétricas, porque esse foi outro ponto que o regime
nunca diversificou. Ficaram amarrados as termoelétricas ainda soviéticas dos anos 70 e 80 e nunca pensaram em energia eólica, energia solar, que Cuba tem ambas a granel. Não pensaram nesse aspecto. Ficaram ali acomodados e agora a coisa apertou, porque em matéria de energia hidrelétrica é muito pouco, já que Cuba não possui grandes rios como o Brasil, como a Argentina e outros países. Então, ficaram nessas termoelétricas
quer dizer, quando falta petróleo, evidentemente, vai ter apagão. E é isso que eles estão padecendo nos últimos tempos. Nesta segunda-feira, Cuba sofreu um apagão que atingiu 100% da ilha. Até agora isso não havia acontecido. Era 90%, 70%, mas não acontecia em 100% da ilha. E isso foi, então, dias atrás, se não me engano, foi no fim de semana, quando também, devido aos apagões,
Eu conheço Moron, estive ali em Moron em 99. Moron foi, durante mais de um século, quase dois séculos, uma espécie assim, eles chamavam Atenas Cubana, porque era uma cidade de saraus literários, de produção musical e tal. Moron, que está perto da praia, não está sobre o litoral, mas está perto da praia, está uns 20, 30 quilômetros, se não me engano, do litoral, sofreu um apagão e as pessoas foram fartas, foram protestar e aí a coisa desandou porque invadiram a sede,
do Partido Comunista de Morón, pegaram objetos lá de dentro, quadros, pósters, móveis, jogaram tudo no meio da rua e fizeram uma fogueira ali. Então, isso não havia acontecido nunca antes em Cuba. Então, isso é um fator muito relevante. Tudo bem, foi numa cidade secundária de Cuba, mas aconteceu. Então, isso chamou muito a atenção, porque Cuba já está sofrendo uma série de apagões
parte das cidades umas 8, 12 horas, até 15 horas sem luz e o resto do tempo, 8, 10 horas com energia elétrica. Isso tem sido assim nos últimos tempos, mas 100% já assim foi como a gota d'água na paciência cubana. E o próprio Miguel Dias Canel havia admitido que havia uma crescente irritação das pessoas,
atribuía aquele incêndio feito em Morón ao que chamou de vândalos. Então, no entanto, o regime é um regime que mantém, se aferra ao poder, mantém uma vigilância intensa sobre a população, tem toda uma estrutura de mais de 60 anos nisso, muito mais do que havia, por exemplo, na Venezuela. Então, por isso, são casos diferentes. E há outro caso, e há outra diferença interessante, Fernando. A cúpula venezuelana estava muito concentrada
Então, se saía, morria Chávez, se entrava Maduro, sempre havia uma certa dúvida do que o que vai acontecer agora? Em Cuba, por mais que Fidel fosse o grande líder da revolução, uma figura emblemática, simbólica, blá, blá, blá, que depois foi substituído por seu irmão, que não tinha todo esse carisma de Fidel, nunca houve, digamos, um cenário de colapso do regime se a figura central do regime morresse, desaparecesse ou ficasse,
doente. Não, é um regime onde as coisas estão mais intensamente amarradas, vinculadas, onde todo um esquema interno que não permite qualquer tipo de dissidência. Nunca houve uma tentativa de golpe interno em Cuba. Então, isso mostra como fazer o que se fez na Venezuela não seria tão fácil em Havana. Mesmo que a figura de Escanel, que é bastante decorativa, fosse removida do poder. Se a
família Castro fosse removida do poder e fosse enviada para exílio, aí sim eu diria, ah, agora sim existe uma guinada radicalíssima em Cuba. Mas se a coisa seria manter os Castro nos bastidores, botar alguma figura decorativa no comando do país e alguma abertura econômica para a área hoteleira e tal, para Trump mostrar algo assim como eu venci, alguma coisa assim, algum blá blá blá desse estilo, aí sim, diria que houve uma guinada
que se os castros fossem removidos. Se os castros continuarem e essa abertura for econômica num setor como hoteleiro, então aí sim seria algo parecido ao que aconteceu na Venezuela. Perfeito. Ariel Palacios. Ariel, mais uma vez, obrigado pela participação e até a próxima. Muito obrigado, Fernando Guga e ouvintes. Até mais. Guga Chacra, mais uma vez, obrigado pela participação e até a próxima. Abraço, Fernando. Abraço, Ariel. Abraço, ouvintes. Participaram do Mundo e Meia Hora.
Mundo e Meia Hora tem duas edições semanais no rádio, na CBN, sempre terças às 11 da noite e sábados às 9 da manhã, em podcast, toda terça e sexta-feira.