Episódios de O Mundo em Meia Hora - Guga Chacra, Ariel Palacios e Fernando Andrade

Duas semanas de guerra e a crise do petróleo

13 de março de 202635min
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Nesta edição do Mundo Em Meia Hora, Fernando Andrade recebe os comentaristas Guga Chacra, de Nova York, e Ariel Palacios, de Buenos Aires. Eles falam sobre a segunda semana de guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã: a disputa pelo Estreito de Ormuz, os bombardeios no Líbano e as primeiras ações do novo líder do Irã, Mojtaba Khamenei. Comentam também as expectativas para o novo governo de José Antonio Kast, no Chile.

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Assuntos9
  • Preços de Combustíveis e PetróleoImpacto do fechamento do Estreito de Ormuz · Aumento de preços internacionais · Liberação temporária de petróleo russo pelo governo Trump · Impacto inflacionário nos EUA · Efeito na gasolina brasileira · Rotas alternativas (Mar Vermelho, oleoduto saudita)
  • Relacoes EUA-IraSegundo período de conflito · Novo líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei · Fechamento do Estreito de Ormuz · Ataques a bases militares americanas no Golfo · Mobilização da sociedade iraniana · Morte de crianças em bombardeios
  • Novo governo do Chile - José Antonio KastDiscurso de emergência e combate ao crime · Percepção de criminalidade vs. realidade estatística · Coordenação de forças de segurança · Ajuste de gastos de 8 bilhões de dólares · Simplificação de licenças ambientais · Subsídios para aumento demográfico
  • Grupos aliados do IraPapel do Hezbollah no Líbano · Mobilização de outros grupos pró-Irã · Possível entrada dos Houthis (Iêmen) · Diferenças entre Hezbollah e Houthis · Desejo do governo libanês de conter o Hezbollah
  • Mediação InternacionalConfirmação oficial de conversas entre governos · Possível envolvimento de familiares de Castro · Negociações bilaterais · Possível flexibilização econômica · Abertura econômica já iniciada em 2010 · Diferença entre abertura econômica e política
  • Crise humanitária no SudãoDiversidade religiosa da cidade · Resiliência da população · Vida cotidiana durante bombardeios · Infraestrutura e reconstrução histórica · Características geográficas de Beirute · Explosão do porto em 2020
  • Crise energética em CubaFalta de combustível · Falta de coleta de lixo · Impacto da pandemia de COVID-19 · Redução do turismo · Desastres naturais e infraestrutura · Pressão econômica no regime
  • Geopolítica de Trump, Xi e PutinImigração ilegal alegada · Narrativa política sobre invasão cultural · Políticas de controle de fronteira · Discurso de partidos de direita · Medidas de coordenação de segurança
  • Política demográfica do ChilePrograma Remarce Chile · Subsídios para mulheres terem filhos · Aumento populacional · Necessidade urgente de natalidade
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Olá, sou Fernando Andrade, seja bem-vindo ao Mundo em Meia Hora. Hoje eu converso com Guga Chakra, diretamente de Nova Iorque, com Ariel Palacios, em Buenos Aires. Vamos fazer uma análise dessas duas semanas de guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. A crise do petróleo no mundo, e agora o governo Trump liberou temporariamente a compra do petróleo, que era sancionado da Rússia. O regime do Irã está mais empoderado, apesar dos ataques.

Começaram no sul do país, se estenderam e já chegaram ao centro de Beirute. Depois nós vamos para Cuba, porque o líder cubano Miguel Díaz Canela admitiu agora que sim, está dialogando com os Estados Unidos. E por fim, quais são as primeiras medidas de José Antônio Casti, recém-postado presidente do Chile? Guga Chacra, bem-vindo mais uma vez. Tudo bem, Guga? Oi, Fernando. Oi, Ariel. Oi, ouvintes. Ariel Palacios. Tudo bem, Ariel? Bem-vindo.

Tudo bem? Tudo bem. Bom, vamos lá, Guga e Ariel. Nós entramos já na segunda semana de guerra no Irã. Nada, nenhuma manifestação de que os ataques arrefeçam, nenhum sinal de acordo. Pelo contrário, o novo líder supremo do Irã, Mokhtaba Khamenei, em sua primeira fala, seu primeiro comunicado, ele não apareceu, mas disse que vai vingar a morte de seus mártires, o Estreito de Hormuz vai continuar fechado e que bases militares americanas em países do Golfo continuarão a ser atacadas.

Bom, sobre o petróleo, Fernando, o que acontece? 20% do petróleo comercializado internacionalmente passa pelo Estreito de Hormuz. Na prática, o Irã fechou o Estreito de Hormuz, independentemente de alguns

navio tentar arriscar, praticamente nenhum tenta passar, porque o risco não é zero. Para você passar com um petroleiro ali dessa passagem, seja o que liga o Golfo Pérsico até o Oceano Índico, o risco tem que ser bem próximo de zero, até por causa das seguradoras, tudo é extremamente complexo. Os navios que têm passado são petroleiros que levam o petróleo iraniano para a China, porque obviamente o Irã não ataca e alguns de alguns outros países que acabam

lidando com o Irã. Mas o fato é que praticamente não está saindo petróleo de Bahrein, do Iraque, do Kuwait, do Catar, gás do Catar, que é o país mais importante para gás no mundo, ao lado da Rússia. A Arábia Saudita tem contornado um pouco esse problema, porque lá tem um oleoduto que leva para o Mar Vermelho, ela tem costa no Mar Vermelho, então uma parte tem sido direcionada para o Mar Vermelho. É insuficiente aquém do que se usasse os portos,

no Golfo Pérsico, porque toda a infraestrutura de petróleo da Arábia Saudita é no Golfo Pérsico, na província do leste, próximo da Haran. Os Emirados Árabes, daí tem um pouco mais de sorte, porque a 100 quilômetros de Dubai você tem o porto de Fugeira, que já está no Oceano Índico, então simplesmente com oleoduto ali leva o petróleo de Abu Dhabi, Dubai, para Fugeira, especialmente de Abu Dhabi, para Fugeira, e consegue exportar uma parcela bem elevada.

até que o mercado em transporte de petróleo vê os preços subindo, já subiu bastante, já está tendo impacto na gasolina nos Estados Unidos, já subiu mais de 20% o preço da gasolina aqui no país. Isso tem tido, claro, um efeito inflacionário, o que aumenta as críticas ao Trump, a falta de estratégia do Trump nessa guerra. Vocês dois não são jovens como eu, que tampouco sou, e vocês sabem que há décadas sempre falaram

Olha, um dos riscos de atacar o Irã é que o Irã vai fechar o Estreito de Ormuz. Quantas vezes você já ouviu isso, Ariel? Nossa, desde que eu era adolescente, pelo menos. Bom, desde a Ormuzia iraniana, aí depois na guerra era Iraque e por aí vai. Não é surpresa, a falta de estratégia do governo americano, quer dizer, tudo indica que realmente o Trump achava, o governo Trump, por um amadorismo, incompetência,

Irã ia acontecer a mesma coisa que a Venezuela. Não aconteceu e não tem mais volta, porque o Irã já fechou o Estreito Jormuz. É muito difícil reabrir sem fazer concessões ao Irã. Não tem como, porque mesmo assim se tira todas as minas. Ali naquela região do lado iraniano da costa, montanhoso, desabitado, você consegue disparar ali alguns drones, um drone que atinge um petroleiro já, na prática,

Daí o Trump fala de escoltar, isso é uma bobagem, são 90 petroleiros por dia que passavam por lá. É logisticamente um custo elevadíssimo para você escoltar todos esses petroleiros. Portanto, o cenário para o Trump está bastante complicado por causa do petróleo. Até a ponto, Fernando, que você mencionou a questão da Rússia, que o Trump está tendo que liberar a Rússia para voltar a vender petróleo para países como a Índia, por exemplo, que ele ameaçou com sanções caso comprasse petróleo.

não, agora pode voltar a comprar o petróleo da Rússia. A Rússia que, por enquanto, vem sendo uma das grandes vencedoras desse conflito. O Irã está, nesse momento, mais empoderado? Olha, Fernando, é interessante que o regime iraniano estava muito enfraquecido no começo desse ano. É só narrativa que eles ficaram esse tempo todo falando. Morte em Israel, morte em Estados Unidos. O fato é que, na guerra de junho, eles responderam como tigre de papel, tanto aos Estados Unidos quanto a Israel.

pouco mais, mas aos Estados Unidos foi tigre de papel, foi uma resposta comunicada e calibrada contra a base americana de Al-Dade, na ocasião, fortes protestos no país, com a economia indo muito mal, quer dizer, o regime estava muito fraco, um líder supremo de 86 anos, decadente. O que acontece? Com a guerra, isso mobilizou a base do regime, que pode ser minoritária, mas é muito leal, porque tudo que o Irã falou,

lutar contra os Estados Unidos, o regime iraniano está lutando, está lutando. Outra coisa que tem é a questão do skin on the game, que o Nicolas Nassim Taleb, que é um libanês que escreveu aquele livro que ficou famoso, Black Swan, o Cisne Negro, que é um best-seller internacional, ele fala que quando você tem skin on the game, o cenário muda, e os líderes iranianos têm, porque eles morreram, alguns, e outros podem morrer a qualquer momento. Isso muda a mobilização para a base de baixo, quando você vê seus líderes,

também estão correndo risco, não são só os soldados. Isso passa a força. Se o maior líder do Irã, o líder supremo, foi morto, e eles enxergam essa morte como mártir do líder supremo, se o novo líder supremo, Mojitaba Ramanei, está ferido, mas está ali ainda, adotando um discurso ameaçador, se o Ali Larijani, que é, na prática, a principal autoridade do país, pode ser morto a qualquer momento,

tem medo de aparecer, de ameaçar os Estados Unidos, Israel, tudo isso muda o cenário, deixa o regime empoderado. Nessa sexta-feira, é o dia da Al-Quds, que eles chamam, o Al-Quds Day, da Força Especial da Guarda Revolucionária, foram dezenas ou centenas de milhares as ruas de Teherã para se manifestar a favor do regime. Episódios também como o bombardeio à escola,

que matou 175 pessoas no Irã, sendo a maioria crianças, isso também impactou muito na sociedade como um todo. Quer dizer, os Estados Unidos mataram mais de 100 crianças. A pessoa pode ser bem contra o regime, mas ela não fica a favor dos Estados Unidos, quando os Estados Unidos matam mais de 100 crianças lá em Minabe. Tampouco fica a favor dos Estados Unidos e de Israel quando eles bombardeiam, fazem carpet bombing em Terã, bombardeando tudo.

Porque daí é um pouco diferente do que ocorreu em junho, que era a instalação nuclear, alvos militares, dessa vez é tudo. Isso acaba mobilizando bastante a sociedade iraniana. E a oposição dentro do Irã, claro que fica coada, não tem muito... Ah, vai se manifestar no cenário? Vai sair à rua depois que mataram mais de 100 crianças? O pessoal leal ao regime com certeza não vai tolerar hipótese alguma. E tem uma coisa, em relação à diáspora iraniana, muitos têm...

os bombardeios dos Estados Unidos e Israel. Outros não, mas os que não têm condenado é uma minoria. Os principais especialistas em Irã dos Estados Unidos são Ali Vaz, Vali Nasser, Trita Parsi e Karim Sadiampuri. Todos falam a mesma coisa, que esses que ainda apoiam é porque eles têm uma coisa que acontece um pouco na América Latina também, que eles se consideram mais ocidentais, europeus, americanos e veem o resto dos iranianos como inferiores.

analista de América Latina, eu esqueci quem foi, eu preciso achar, mas que descreveu como a síndrome da dona Florinda, do Chaves, que se considerava superior aos demais da vizinhança, naquela série mexicana, que ela falava gentalha, e puxava o filho como se ela fosse algo superior, ou se enxergando como superior, porque na verdade o ocidental não é superior a persa, nem a latino-americana, só para deixar isso claro, mas essas pessoas enxergam os ocidentais como superior, pensam que

ocidentais e enxergam seus conterrâneos como inferiores. Guga, agora eu queria falar sobre o Líbano, porque o presidente libanês, Joseph Aum, ele sinalizou uma disposição de negociar, de conversar com Israel. E aí Israel chegou e falou assim, olha, é tarde demais. E aí, com relação aos ataques, eu queria te ouvir também, porque nós falamos aqui que os ataques começaram pelo sul do país, ocupação de Israel no sul do país, aí sul de Beirute e agora começou no centro de Beirute. Qual que é a situação?

Bom, começando pelos bombardeios. É o que você disse. Começou pelo sul do Líbano, onde dezenas de milhares de pessoas foram expulsas. Das suas casas, o sul do Líbano são mais vilarejos. Chiitas, cristãos, sunitas. Teve até o padre Pierre Elkay, que se recusou a sair do vilarejo cristão, ancestral dele. E daí um tanque israelense disparou contra a casa dele e ele morreu. Teve um bairro armênio também que foi atingido. Daí já é em Beirute.

que é a parte sul de Beirute, de maioria xiita, já expliquei aqui algumas vezes, mas só para recapitular, o leste de Beirute é mais cristão, o oeste é mais sunita, a parte cristã é historicamente grego ortodoxo e armênia, mas hoje tem bastante maronita também. Mas é mais no sul que estava bombardeando, que é Daria, que já foi bombardeada em 2006, em 2024, e centenas de milhares, quase um milhão de pessoas foi expulsa das suas casas ali no sul de Beirute,

destruindo prédios inteiros, destruindo tudo, ampliou para outras partes de Beirute, para a praia pública, Hamlat al-Bay, que é a praia pública de Beirute, onde tinham muitos refugiados, morreram dezenas em bombardeio israelense, bombardeou um hotel, o Hamadaim, em frente ao mar, no Rauch, que era uma área sumita, o Rauch são as pedras símbolos de Beirute no mar Mediterrâneo, que todo mundo vai para Beirute e tira uma foto na frente do Rauch,

de cristãos, o Comfortin, que estava brigando chiítas, refugiados chiítas, acabou matando pessoas ali também, bombardeou a universidade libanesa. A mais famosa do Líbano é a American University of Beirut, que é a gigantesca em frente ao mar no Mediterrâneo, no centro de Beirut. Mas bombardeou a Universidade de Beirut, que também é no centro, Universidade do Líbano. Também no centro, matou o diretor da faculdade de ciências e mais um professor nesse bombardeio.

como motivo, eles não têm ligação nenhuma com o Hezbollah, mas mataram outras pessoas, bombardeando a universidade. Bombardearam o bairro de Chubeira, que é um bairro que tem muitos restaurantes, inclusive o melhor restaurante Beirute, o M-Sherif, o melhor restaurante libanês do mundo. Talvez o Naranjo, em Damasco, chegue perto, mas o M-Sherif é o melhor do mundo. Acabou sendo parcialmente destruído, não totalmente, porque o bombardeio foi ao lado, não exatamente no M-Sherif.

também acabou sendo alvejado, enfim, bombardeios em larga escala em Beirute. Sobre o governo libanês, eu sempre insisto aqui, o governo libanês é contra o Hezbollah, não queria que o Hezbollah lançasse ataques contra Israel, conseguiu segurar o Hezbollah por um ano e três meses, um ano e quatro meses para o grupo não atacar Israel, a imensa maioria dos libaneses é contra o Hezbollah, o Hezbollah segue os interesses iranianos,

esses libaneses, mas o Hezbollah acabou atacando Israel logo depois de Israel atacar o Irã. Embora Israel tenha, ao longo do período de cessar-fogo, desde 90 de 2024, realizado milhares de bombardeios ao Líbano, mas mais ao sul e contra alvos do Hezbollah. E daí Israel ampliou os ataques. O governo do Líbano é contra os bombardeios de Israel, a sociedade libanesa também, naturalmente, está bombardeando o seu país. O governo libanês já falou que está disposto a negociar

com Israel sem nenhuma condição, negociar tudo, já tem delegação, tudo pronta para o Chipre, para negociar o desarmamento do Hezbollah, mas tem que parar os bombardeios. Falou que pode ter força estrangeira para ajudar o exército libanês, mas o governo Netanyahu não aceita. Só para, mais uma vez, lembrar, o governo libanês tem como primeiro-ministro Nawaf Salam, que é muçulmano sunita, como manda tradição, que era o presidente da Corte Internacional de Águia.

antes de assumir o cargo de primeiro-ministro. O presidente, que é um cristão maronita, com mando consenso libanês, que antes de ser presidente era o comandante das forças armadas libanesas, treinado nos Estados Unidos, ambos com ótimas relações com os países ocidentais e com os países árabes. Kuga, uma outra questão. Bom, o Hezbollah no Líbano está na guerra. Grupos pró-Irã que estão no Iraque também já se movimentaram nessa guerra.

que estão no Iêmen. Não entraram no conflito ainda, existe um porquê? Porque há uma preocupação sobre a Península Arábica, e aí também preocupação da navegação. Os Hutts entrariam se a Arábia Saudita, por exemplo, decidir entrar. Provavelmente, é o que se especula, não dá para saber. Porque os Hutts têm uma diferença em relação ao Hezbollah. O Hezbollah foi criado pelo Irã, de Parmá, totalmente ligado à Guarda Revolucionária. Os Hutts sempre existiram. É um grupo tribal lá do Iêmen,

uma guerra contra Abdullah Salah nos anos 90, ao longo dos anos 2000, quando Abdullah Salah cai na primavera árabe, entra o Mansur Abdullah al-Had, eles se aliam ao Abdullah Salah, aí eles derrubam o Mansur Abdullah al-Had, matam o Abdullah Salah e assumem o poder, mas eles são de uma vertente do islamismo, chamado Zaid, que é muito particular do Iêmen, tribal no norte do Iêmen, então eles são muito, não é toda essa conexão, mas talvez eles sejam usados por causa da Arábia Saudita entrar na guerra.

para deixar claro, os países do Golfo, claro, não estão satisfeitos com o Irã, porque o Irã está bombardeando eles, mas aí lembra um pouco o que ocorre no Líbano, que os libaneses não condenam Israel por bombardear o Líbano e condenam, assim como os países do Golfo condenam o Irã por bombardeá-los, só que os países do Golfo condenam Israel e os Estados Unidos, embora não publicamente os líderes desses países, mas várias figuras importantes, esse país com a pessoa mais rica dos Emirados Árabes, condenam Israel

Estados Unidos por terem bombardeado o Irã, sabendo que haveria a resposta contra eles no Golfo. Então tem essa ironia. Assim como no Líbano, eles são contra os dois lados. Acho que eu falei no último programa, o Bernard Heichel, que é um professor de Princeton, um libanês, que fala que o Oriente Médio tem os países que querem o status quo, que não querem, que querem estabilidade. São todos os países árabes nesse momento.

instabilidade na região, com exceção ali dos ruts no Iêmen. E daí você tem os países que são disruptivos, que são países que causam ameaças, que eles avaliam, que são o Irã e Israel. São os países vistos como extremistas em questões bélicas. Então, só para entender o contexto. Gustavo, eu tenho 59 anos, desde que eu era adolescente ou pré-adolescente, nos 70, eu lembro de sempre ver

Beirute com problemas. Beirute, sempre li, e você já comentou, que é a cidade mais bonita do Oriente Médio. Nos anos 50 e 60, o Brasil tinha uma linha da Panair direta Rio-Beirute, ou seja, Beirute era um ponto importante dentro das rotas mundiais. Era uma cidade cosmopolita, com um toque bastante ocidental também.

de cada volta e meia, pelo menos alguma vez por ano. E como é que é a vida da pessoa de Beirute? Como é que é o cotidiano? Porque é surpreendente ver como a cidade continua funcionando apesar de tudo o que acontece, todos os ataques dos mais variados pontos. Olha, o Beirute ficou em guerra civil de 75 a 90, Ariel. Depois, a partir de 90, seguiu destruída a reconstrução da cidade. Foi terminar em 2003.

em 2004, do centro da cidade de Beirute, que foi mais destruído o centro na guerra civil libanesa. Que era a linha verde. Daí teve os bombardeios em 2006, então teve mais aquele período, voltou a ser bombardeada em 2014, mas lembrando que em 2020 explodiu o porto de Beirute. Então foi a maior explosão não atômica da história da humanidade. E voltou a ser bombardeada agora, em todo esse período.

Tanto, se fosse tração paralela, é como o Rio de Janeiro, que as pessoas compartimentalizam tudo. Elas têm uma paixão pela cidade, sabendo de todos os seus defeitos. É uma cidade mágica e trágica ao mesmo tempo. Como o Rio de Janeiro, que você tem toda a violência no Rio. Às vezes tem as ações da polícia numa comunidade, no complexo do Alemão. Só que as pessoas estão indo à praia em Ipanema. É mais ou menos assim. Claro que num momento de altos bombardeios, comadar e tudo,

o impacto é muito maior, mas mesmo assim, conversando com pessoas lá, as pessoas ainda falam que tem gente indo ao restaurante, tem gente indo ao cinema, tudo nas partes que não estão sendo tão alvejadas, depende também da escala. Muitos acabam indo para as vilas ancestrais nesse momento, nas montanhas. No Líbano é mar Mediterrâneo, Monte Líbano, que são as montanhas nevadas, e aí o Vale do Becá, que é bem verde, e aí as montanhas do Antilíbano.

as pessoas vão para suas vilas, às vezes, depende muito caso a caso. Agora, sobre Beirute, é uma cidade magnífica, porque ela é mediterrânea, a margem do Mediterrâneo, só que logo depois já vem as montanhas nevadas do Monte Líbano. Por isso que é fato que, mesmo agora com os bombardeios, tem gente esquiando ali. É em Beirute que Faraya, que é o lugar que se esquia, são as montanhas atrás de Beirute. Então, é verdade que você pode, Beirute é o único lugar do mundo,

que você pode esquiar e nadar no mar no mesmo dia. Literalmente, assim, rapidamente, né? Coisa de 45 minutos, uma hora. E no mar não é que precisa ser, ah, esse swimmer que nem eu, que nada no fim. Não, precisa ser nada no mar. Sim, a temperatura, às vezes, em Beirute pode estar 15, 20 graus, e lá na neve, subindo a montanha, vai estar zero. É muita diferença. E a cidade, assim, acredito eu que a mais multireligiosa cidade autóctona

do mundo, sem contar pessoas de outros lugares. Claro que se for pegar Nova Iorque, mais multirreligiosos, isso aqui não é autóctone. Ali os sunitas, os xiitas, porque mora em Beirute, tem bairro cristão ortodoxo, cristão armênio, cristão melquita, cristão armênio apostólico, armênio católico, siríaco, copta, cristão latino, que é o católico romano, que a gente fala, mas eles chamam latim, latim catolic. Você tem druso, alauíta, sunita,

Tinha o bairro judaico. Tudo ali na mesma. E realmente, assim, pode falar... No centro de Beirute é mesquita do lado de igreja. E tem tanta igreja em Beirute quanto em Salvador. E eu não estive em Riad, mas eu posso assegurar. Tem tanta mesquita ou mais em Beirute do que em Damasco. E tem a sinagoga ainda também, lá em Beirute. Foi reconstruída. Então, assim, é muito...

impressionante a diversidade religiosa que você vê em Beirute. É igreja que enche de pessoa rezando. E é uma igreja de cada denominação, uma coisa fantástica. Aquela igreja maronita, do lado ali, aquela ali, a Armênia, sabe? Tudo assim. É muito interessante. É uma cidade fantástica. Tem até um ex-correspondente do New York Times que escreveu uma vez, a eterna magia de Beirute é muito mágica aquela cidade. Eu vou continuar com o Ariel no próximo bloco, para a gente falar provavelmente

próximo alvo dos Estados Unidos, Cuba. Até já. De volta com Ariel Palácio, diretamente de Buenos Aires, para a gente falar sobre Cuba, porque Ariel, o presidente cubano, Miguel Dias Canel, disse que está mantendo conversa, está dialogando com os Estados Unidos. E aí a situação na ilha. Ariel, o próprio Dias Canel falou que há três meses não entra combustível na ilha. Eu tenho acompanhado algumas fotos da capital e eu vi o lixo.

Não tem coleta de lixo em Havana. Não tem coleta de lixo há muito tempo. Então, conta pra gente sobre esse diálogo e a situação de lá. Bom, o autocrata cubano Miguel Dias Canel confirmou nesta sexta-feira de manhã que integrantes do seu governo iniciaram, isso de forma bastante recente, conversas com representantes do governo Trump. O governo Trump já faz várias semanas, ou talvez um par de meses,

acontecendo conversas, inclusive houve informações extraoficiais que Alejandro Castro Espín, que é filho de Raul Castro, o ex-ditador cubano, irmão de Fidel Castro, nesse caso seria, Alejandro Castro Espín seria filho de Raul e sobrinho de Raul Castro, havia estado reunido com integrantes da CIA no México, ou seja, território neutro, conversando, tentando fazer algum approach para ver que tipo de negociação poderia ser feita entre os dois lados,

Depois, um sobrinho dele, neto de Raul Castro, e sobrinho neto de Raul Castro, também esteve envolvido em conversas. Então, quer dizer, já há bastante tempo que há rumores, informações extraoficiais, que essas conversas estão acontecendo. Hoje, pela primeira vez, Dias Canel confirmou isso, ou seja, é oficial do lado cubano, e eles argumentam que é para estabelecer alguma espécie de diálogo para resolver,

diferenças bilaterais entre os dois países. Essa é a frase. Uma frase muito ambígua. E depois ele disse que, abre aspas, existem fatores internacionais que facilitaram esses intercâmbios. Fecha aspas. Vamos analisar a frase. Existem fatores internacionais que facilitaram esses intercâmbios. Há uma série de fatores internacionais nesse momento. Com o que ele está se referindo?

Ou é daquelas frases tão genéricas que são usadas quando é preciso dizer algo, mas mesmo sem deixar claro o quê. Então, o que está acontecendo? O regime cubano está negociando alguma espécie de flexibilização com a Casa Branca? Uma flexibilização na área econômica? Cuba, desde 2010, já iniciou sua abertura econômica.

microempresas em Cuba, que podem ter até uma centena de empregados. Ou seja, Cuba já não é formalmente comunista, já que um terço também do seu PIB é produzido pela iniciativa privada, mesmo que seja pequena. Mas será que agora a ideia é que os investimentos americanos possam entrar ou que também está sendo falada em alguma espécie de abertura política?

Isso é um pouco mais difícil, eu considero, porque, por exemplo, aí temos alguns precedentes. O caso mais recente da Venezuela, onde o regime continua o mesmo, mas há uma série de modificações na área econômica, favoráveis todas, altamente favoráveis, do regime chavista para o Donald Trump. Será que a ideia é talvez fazer em Cuba alguma espécie de versão chinesa ou versão vietnamita de uma abertura econômica, mas não de uma abertura política? Vamos ver.

Para que lado vai e com que nome vão batizar esta nova fase? Por quê? Porque nos anos 80, Mikhail Gorbachev, líder soviético, fez ao mesmo tempo a perestroika e a glasnost. A perestroika era abertura econômica. A glasnost era transparência, quer dizer, se referia a transparência política, a liberalizar a área política, tentar alguma via democrática. Bom, a China e o Gorbachev se deu mal,

a União Soviética desapareceu, tal. Então, a China, o que fez, e o Wiedner também, fizeram a versão só perestroika, não a versão glasnost. Não fizeram a abertura política, fizeram a abertura econômica, e a China hoje é uma potência econômica capitalisticamente selvagem, embora no poder continue o Partido Comunista. Mas a economia não tem nada de economista. Mas a turma do Partido Comunista continua no poder. Enfim, então Cuba, será que iria para esse lado?

do que tudo muito ambíguo, tudo muito genérico, o Dias Canelli disse hoje, não dá para saber exatamente qual que é o caminho, mas se levarmos em conta o presidente mais recente da Venezuela, onde sim, aí há uma interferência americana, não no caso da China e no caso do Vietnã, talvez poderíamos pensar que a Casa Branca, que Trump está pensando isso, na entrada de capitãs americanos, na abertura econômica, e deixa o regime ali, talvez uma troca de figuras,

A família Castro controlando as coisas. Talvez seja alguma coisa desse gênero. Vamos ter que esperar uns meses, talvez, para ver para onde a coisa vai. O fato é que Cuba está sendo pressionadíssima, muito mais do que em tempos prévios. A ilha ainda não se recuperou nem da pandemia, que reduziu drasticamente o turismo internacional,

Covid, perdão, nem da pandemia da Covid, nem dos furacões que arrasaram boa parte da infraestrutura energética da ilha e da própria crise econômica que já vem há muito tempo. Então, a situação de Cuba é tremendamente complexa, mas ao mesmo tempo o regime se aferra, como ninguém, ao poder. Então, o que vai acontecer em Cuba? Esse é o grande mistério, mas hoje, pelo menos, o ditador cubano,

Canel deu o sinal não, deixou claro que sim conversas estão acontecendo a grande curiosidade é que tipo de conversas são essas, também porque o cara não pode de uma hora para outra destruir toda a aura da revolução cubana, ele tem que dar algum jeitinho, causando algum eufemismo enfim, eufemismos sobram nos regimes autoritários tanto de direita como de esquerda, então com certeza alguma

palavra, alguma expressão, eles vão encontrar, até porque a própria abertura econômica iniciada em 2010 pelo Raul Castro, o Raul podia fazer a abertura, o Fidel não podia, devido a todo o emblema socialista que era Fidel. Eles chamam essa abertura econômica de atualização do socialismo, embora seja uma abertura capitalista. Passamos agora para o Chile, porque José Antônio Castro tomou posse como presidente nessa semana, e aí no primeiro discurso falou que achou o país lá todo bagunçado, tomado

pelo crime organizado e disse agora que vai montar um governo de emergência. O que aconteceu? Falando em palavreado sutil, agora vamos para o lado do palavreado bombástico. É uma coisa muito interessante, porque o Chile, Fernando e Gustavo é um dos países mais seguros da América Latina. Mas cresceu de uma forma exponencial ali a sensação entre os chilenos que o país é um dos mais seguros. É o país que tem o menor índice de homicídios,

capta na América do Sul, mas um de cada três chilenos acha que vai ser assassinado ao longo dos próximos 12 meses, segundo pesquisas. Então é bastante surpreendente. A questão da criminalidade aumentou anos atrás, depois voltou a cair, e agora tem patamares mais baixos do que eram há 4 ou 5 anos, mas ficou a sensação de que o país está submerso na criminalidade. E as impressões, o imaginário coletivo, sendo real ou sendo irreal,

A gente já viu isso, especialmente com as redes sociais. Então as pessoas acabam tendo às vezes uma imagem de algo que não existe na vida real. Mas o imaginário pesa muito. O imaginário altera a economia, altera a política, enfim. E este é o caso do Chile, me refiro sempre, em comparação com os outros países da região. Bom, o fato é que também existe o outro fantasma que é da migração ilegal.

dos políticos, especialmente mais para a direita, alegaram nos últimos tempos, antes e durante a campanha presidencial, que o Chile estava sendo invadido por imigrantes, que praticamente os imigrantes iam alterar totalmente a cultura chilena, enfim. Castro então designou um almirante para coordenar as ações em terra entre as diversas forças de segurança na fronteira semidesértica, o que também é outra coisa bastante peculiar, o almirante, mas enfim, parece que é um bom administrador, independentemente se está em

ou terra, para controlar e coordenar todas as forças de segurança para impedir a entrada de migrantes dentro do território chileno. Ele também promete um ajuste de gastos de 8 bilhões de dólares, que seria feito ao longo de 18 meses. Ele deu um tom, inclusive, no discurso, dizendo que vai tomar medidas duras, dizendo que, abre aspas, está disposto a fazer o que é preciso fazer, mesmo que seja incômodo e impopular. Fecha aspas. Outro decreto é o de acabar com a denominada

Permissologia. Permisso é licença. Nesse caso, é a forma como o CAST se refere à permissologia às diversas instâncias da área de fiscalização ambiental, à burocracia ambiental, pelas quais deve passar no Chile um pedido para realizar investimentos. Então, CAST quer acabar com essa sequência de fiscalizações para que os investimentos possam ser de forma direta, sem ter que ter um ok se isso vai prejudicar o ambiente

Bom, Cass quer que sejam destravados de forma imediata 51 trâmites pendentes para investimentos que no total, segundo ele, dariam 16 milhões de dólares. Os ambientalistas estão assustados porque dizem que Cass está abrindo o país para investimentos que poderiam prejudicar e muito o ambiente. Ele ainda não assina um decreto sobre o que eu vou comentar agora, mas ele vem falando disso há tempos, então pode haver um decreto em breve, sobre questões demográficas chilenas assim,

para sintetizar. Porque Castro deve decretar, então, a concessão de subsídios estatais. Ele é a favor do ajuste de gastos, de menos gastos. Mas ele quer gastos para considerar subsídios do Estado, ou seja, dinheiro do contribuinte, para dar às mulheres chilenas um subsídio para que elas tenham mais filhos dentro do plano que batizou de Renace Chile. Porque ele diz que é preciso aumentar a população chilena, mais chileninhos e mais chileninhas por todo o país.

urgente. Perfeito. Ariel Palazzo. Ariel, obrigado e até a próxima edição. Muito obrigado a todos. Fernando, Guga, ouvintes. Guga, mais uma vez obrigado pela participação. Bom trabalho para você em Nova Iorque. Obrigado, Fernando. Abraço, Ariel. Abraço, ouvintes. Participaram Daniel Mesquita nos trabalhos técnicos e a edição é de Ellen Menezes. Até a próxima edição.