Episódios de O Mundo em Meia Hora - Guga Chacra, Ariel Palacios e Fernando Andrade

50 anos da ditadura na Argentina; Paquistão pode mediar cessar-fogo no Oriente Médio

24 de março de 202634min
0:00 / 34:18
Nesta edição do Mundo em Meia Hora, Fernando Andrade recebe os comentaristas Guga Chacra, de Nova York, e Ariel Palacios, de Buenos Aires. Eles falam sobre as negociações com possível mediação do Paquistão no conflito do Oriente Médio. A queda na aprovação do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e a declaração do ministro da Defesa de Israel sobre a ocupação do sul do Líbano. Comentam também os 50 anos da ditadura na Argentina: pesquisas sobre a percepção social dos argentinos, como começou a ditadura, o caso dos bebês sequestrados e o perfil de alguns torturadores.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Assuntos9
  • Ditadura ArgentinaPeríodo 1976-1983 · Percepção social da ditadura · Pesquisa Clacso sobre aprovação · Julgamentos de militares · Relativização de crimes pelo governo Milei
  • Bebês sequestrados durante a ditadura argentinaMulheres grávidas detidas · Partos em centros de detenção · Morte de mães após parto · Entrega de bebês a famílias militares · Investigações e descobertas posteriores · Banco de dados genéticos
  • Mediação InternacionalNegociações entre EUA e Irã · Reabertura do Estreito de Hormuz · Posição geopolítica do Paquistão · Relações bilaterais EUA-Irã · Papel da Turquia como mediadora alternativa
  • Golpe de 1976 na ArgentinaDerrubada de Isabel Perón · Junta militar liderada por Jorge Rafael Videla · Estrutura de poder entre as três forças · Sucessão de ditadores · Características únicas da ditadura argentina
  • Relacoes EUA-IraHistórico de ocupações israelenses (1978, 1982-2000, 2006, 2024) · Criação do Hezbollah durante ocupação anterior · Questão de soberania libanesa · Desarmamento do Hezbollah · Tratado de cessar-fogo de novembro 2024
  • Perfil de torturadores da ditadura argentinaAlfredo Dondatigan · Jorge Tigre Costa · Alfredo Astís · Métodos de tortura · Criadores dos voos da morte · Sequestro de bebês
  • Aprovacao TrumpPesquisa Reuters/Ipsos · Custo de vida para americanos · Eleições de meio de mandato · Controle da câmara e senado · Impacto da guerra no Irã nos preços de petróleo
  • Guerra das Malvinas (1982)Ocupação das ilhas Malvinas · Ditador Leopoldo Galtieri · Derrota colossal para Argentina · Impacto político e desprestígio militar · Consequências para volta da democracia na região
  • Cortes orçamentários governamentaisEliminação de orçamento para museus · Corte ao banco de dados genéticos · Relativização de crimes · Ênfase em crimes da guerrilha · Narrativa de guerra civil fictícia
Transcrição67 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Olá, seja bem-vindo ao Mundo e Meia Hora. Eu converso no primeiro bloco com o Guga Chakra, diretamente de Nova York, para a gente falar sobre negociações no conflito no Oriente Médio. E há negociações, e tudo indica que a mediação por um cessar-fogo será feita pelo Paquistão. E o Guga explica o porquê. Falaremos também sobre a taxa de aprovação do presidente Donald Trump, que caiu nos últimos dias para o nível mais baixo desde que voltou à Casa Branca.

claramente que vai ocupar o sul do Líbano, que é criar ali uma zona de segurança defensiva. Com Ariel Palacios, de Buenos Aires, a gente vai falar sobre os 50 anos da ditadura militar na Argentina. Ele vai falar sobre diversas pesquisas que mostram a percepção social sobre a ditadura por lá. Tem também outra questão que são os bebês, os bebês sequestrados. Ariel vai contar essas histórias pra gente, um pouco do perfil de alguns torturadores e a história.

de como é que a ditadura na Argentina começou. Oi, Guga, bem-vindo mais uma vez. Oi, Fernando, oi, Ariel, oi, ouvintes. Guga, o presidente Donald Trump deu agora cinco dias para que o Irã desbloqueie o Estreito de Hormuz e afirma que sim, que há negociações. E tudo indica que a mediação poderá ser feita pelo Paquistão. O primeiro-ministro paquistanês já publicou que houve conversas produtivas. O Irã nega qualquer tipo de conversa, isso é fato, mas o Paquistão fala até uma possibilidade de uma reunião em breve.

nessa semana ainda. Queria te perguntar por que o Paquistão e por que o Paquistão larga na frente e se há outros países envolvidos nessa negociação, Guga. Oi, Fernando. Olha, o Paquistão surge como potencial mediador por uma série de motivos. Em primeiro lugar, o Paquistão tem uma boa relação com os Estados Unidos e uma boa relação com o regime iraniano. Então, isso facilita muito, claro, na mediação.

fronteira com o Irã, e isso naturalmente deixa o Paquistão como um país que pode ser afetado pela guerra. O Irã não atacou o Paquistão e nem atacará, dada essas boas relações, também o fato do Paquistão ter armamentos nucleares, mas o Paquistão teme o colapso do Estado iraniano, então prefere que haja uma estabilidade. O Paquistão tem a segunda maior população xiita do mundo, embora a maioria dos paquistaneses sejam sunitas,

você tem uma minoria xiita no Paquistão, que em alguns casos apoia o regime iraniano, em outros não, depende muito, mas que claro, acabam acompanhando esse conflito. Então eles surgem, eles se colocaram também nessa posição para serem mediadores. A Turquia seria um país similar e que também tenta buscar alguma forma de diálogo entre o Irã e os Estados Unidos, com uma boa relação bilateral com o Irã e naturalmente, integrante do OTAN, uma ótima relação,

geopolítica com os Estados Unidos, a Turquia seria impactada também, é impactada também pela guerra, mas seria ainda mais no caso do colapso do Estado iraniano. Então, poderia emergir como uma outra potencial mediadora. Outros países que atuaram como mediadores anteriormente, como Oman, o Qatar, o Qatar, ainda mais, o Qatar tem sido atacado pelo Irã, um país diretamente envolvido na guerra, Oman menos, mas Oman,

que divide até o Estreito Jormuz com o Irã, pode atuar, mas perdeu um pouco da força, porque houve o fracasso nas negociações anteriores, não por culpa de Oman, mas o regime de Muscat acabou ficando um pouco insatisfeito com a postura dos Estados Unidos de ter decidido atacar o Irã. Então, eu ficaria de olho, sim, nessa possível mediação paquistanesa.

especulação, da suposição, não há nenhuma garantia de que esse encontro vá ocorrer. Agora, Guga, a taxa de aprovação do presidente Donald Trump caiu nos últimos dias para o nível mais baixo desde que voltou à Casa Branca, segundo uma pesquisa da Reuters Ipsos. Agora, 36% dos americanos aprovam o desempenho de Trump no trabalho dele, abaixo dos 40% da pesquisa anterior, na semana passada. E apenas 25% aprovam a maneira

o Trump tem lidado com o custo de vida do americano. Que cenário é esse, Guga? Fernando, o cenário é complicado para o Trump justamente por haver as eleições de meio de mandato. O presidente americano não quer perder nem a maioria no Senado, nem a maioria na Câmara. No cenário, dados os estados onde ocorrerão as eleições, que são mais solidamente republicanos, é difícil para os democratas conseguirem a maioria. Então, não que esteja garantida a maioria republicana, mas a chance é maior dos republicanos

conseguirem seguir com o controle do Senado. Na Câmara, não. Os democratas são favoritos para retomar o controle da Câmara dos deputados e isso afetaria os dois últimos anos do mandato do Trump. Por isso que há uma preocupação na administração sobre como o impacto do custo de vida será na eleição de meio de mandato. A gente sabe que na eleição para prefeito de Nova Iorque, por exemplo,

e foi eleito com o discurso de tentar reduzir o custo de vida em Nova Iorque, algo que realmente, eu diria que talvez seja prioridade do governo americano. E para complicar, no caso do Trump, e tem a guerra no Irã, que tem feito o preço do petróleo subir, e isso pode gerar um impacto inflacionário que naturalmente eleva o custo de vida aqui nos Estados Unidos. Então, é mais um complicador para o presidente americano. Passamos agora, Guga, para o Líbano, porque o ministro da Defesa israelense, Israel Katz,

que Israel vai ocupar o sul do Líbano até o rio Litane para criar uma zona de segurança defensiva. Você já citou essa possibilidade aqui no Mundo em Meia Hora em outras ocasiões. Logo no começo da guerra você já falava sobre isso. Agora é público. Explica para a gente que situação é essa. Oi, Fernando. Exato. Israel, mais uma vez, ameaça ocupar o sul do Líbano. Antes é importante explicar um pouco a história dessa região. Israel invadiu o Líbano pela primeira vez em 78 e depois voltou a invadir em 82.

dois chegando até Beirute, mas depois recuando para o sul do Líbano, o sul do Rio Litânico, que são uns 30 quilômetros entre o Rio Litânico e a fronteira com Israel. Na época, o objetivo israelense era combater milícias palestinas que operavam na área. Porém, a ocupação israelense, aliada à Revolução Islâmica no Irã e à marginalização dos titas na sociedade libanesa, levou à criação do Hezbollah,

do sul do Líbano ali no sul do Líbano Israel seguiu ocupando esse território até o ano 2000 quando acabou se retirando depois de ter sido derrotado por Israel mas de fato a luta do Hezbollah contra a ocupação israelense acabou desgastando o exército de Israel que optou por uma retirada Israel voltou a entrar em 2006 no sul do Líbano mas uma nova guerra contra o Hezbollah supostamente para desarmar o grupo

de um mês. Israel acabou se retirando posteriormente e o Hezbollah, ao longo dos anos seguintes, tornou a milícia mais poderosa do mundo. Israel, mais uma vez, entrou no sul do Líbano em 2024 para lutar contra o Hezbollah. Acabou tendo um cessar-fogo ali em novembro de 2024. Cessar-fogo que vigorou até o início do atual conflito, três semanas atrás, agora já quase quatro semanas atrás. Cessar-fogo que o Hezbollah, ao longo desse período,

não lançou nenhum míssel contra Israel. Israel seguiu ocupando cinco pontos no sul do Líbano e violou milhares de vezes o cessar-fogo e o exército do sul do Líbano tentou desarmar o Hezbollah, mas não obteve sucesso. Israel, mais uma vez, depois do ataque do Hezbollah, decidiu intensificar as operações militares contra o Líbano e agora ameaçando, mais uma vez, ocupar o sul do Líbano para desarmar o Hezbollah.

obter sucesso, mas é algo bem questionável essa ocupação israelense, primeiro porque fere a soberania libanesa, a gente sempre critica que a Rússia invadiu a Ucrânia, o exército do Líbano não é o Hezbollah, o Líbano como nação soberana está querendo desarmar o Hezbollah, fala isso publicamente, criminalizou o uso de armas pelo Hezbollah, inclusive acabou de expulsar o embaixador do Irã do território libanês, estava trabalhando com os Estados Unidos e a França, insiste

que tem esse objetivo, não quer que o Hezbollah possuara, mas, portanto, cabe ao exército libanês desarmar o Hezbollah e exercer soberania sobre o sul, como o exército vinha fazendo no período de cessar fogo. A melhor alternativa para Israel era trabalhar, talvez, com o governo libanês, negociar com o governo libanês via Estados Unidos, para o governo libanês seguir desarmando o Hezbollah, fortalecer o exército do Líbano. Mas essa parece não ser a intenção do governo Netanyahu, que quer

sem ocupar o território libanês, dizendo mais uma vez que vai conseguir desarmar o Hezbollah. A gente vai aguardar para ver, lembrando que há uma série de vilas ancestrais, inclusive muitos brasileiros descendentes libaneses, como Hasbá e Amar Jaiun, entre outras que ficam nesse território do sul do Líbano. Agora, Gui, para a gente finalizar, o secretário-geral da OTAN, Mark Root, disse que países aliados estão se unindo para garantir a segurança

no Estreito de Hormuz. A gente já falou aqui anteriormente que essa não é uma guerra da OTAN. Você acredita que a OTAN entraria nessa com todos os riscos, ameaças feitas pelo Irã? Olha, Fernando, não está muito claro como que vai ser a ação da OTAN, mas é extremamente difícil, nesse momento, uma operação que consiga reabrir o Estreito de Hormuz. Por quê? Porque o risco para passar do Golfo Pérsico para o Oceano Índico ou vice-versa tem que ser próximo

um dos zeros, então os petroleiros ou outras embarcações não vão atravessar esse estreito. E para o Irã basta alvejar um navio por semana que já está ali, na prática, mantém fechado. Então assim, sem ser pela via negociada, é muito improvável que obtenha um sucesso nessa reabertura, porque claro que o Irã naturalmente vai tentar sabotar enviando drones, usando minas terrestres,

questão mais delicada de todo esse conflito, que até voltando à primeira pergunta, seria com certeza um dos temas das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, Fernando. Valeu, Guga. Até a próxima. Grande abraço. Um abraço, Fernando. Um abraço, Ariel. Um abraço, ouvintes. Até sexta-feira, Fernando. Uma pausa aqui no Mundo em Meia Hora. Daqui a pouco eu volto com Ariel Palácio, diretamente da Argentina. Falaremos sobre os 50 anos da ditadura militar na Argentina. Até já. De volta agora com Ariel Palácio, diretamente

de Buenos Aires, na Argentina. Bem-vindo, Ariel. Como está, Fernando Gustavo, ouvintes? Tudo bem? Tudo bem. Hoje, 24 de março, é a data que marca os 50 anos da ditadura militar na Argentina. O regime militar governou o país entre 1976 e 1983. Uma das mais violentas do mundo, né, Ariel? Cerca de 30 mil pessoas desapareceram. E aí tem uma questão agora, que são pesquisas que indicam, que mostram a percepção social,

sobre a ditadura na Argentina. O que dizem essas pesquisas, Ariel? Bom, uma pesquisa que foi feita pelo Observatório Pulsar, que é da Universidade de Buenos Aires e do Centro de Estudos Legais e Sociais, e que foi publicada agora, dias atrás, pelo jornal La Nación, ou seja, um jornal sóbrio, conservador, indica que 71% dos entrevistados consideram que a ditadura militar foi ruim ou muito ruim, e que somente 7%

afirmam que a ditadura foi positiva. Então, 71% dizem que foi algo péssimo, algo ruim para o país, a ditadura militar de 1976 a 1983, durou quase oito anos, e apenas 7% afirmam que a ditadura foi algo positivo para a Argentina. Isso mais ou menos mostra que não variou quase nada a proporção de pessoas a favor da ditadura, a favor do totalitarismo,

desde a volta à democracia. Eu estou aqui há 30 anos, desde 1995, vim do Brasil para cá em 1995, e cubro isso permanentemente, porque a questão da ditadura, como os julgamentos continuam, é um assunto que está muito presente e muito vivo no dia a dia da Argentina. E durante todos esses anos, mais ou menos, a quantidade de pessoas que se declarava a favor da ditadura oscilava de 5% a 8%. Então temos esse resultado de 7%.

50% ao longo desses anos, neste ano 7%, o que indica que muitas vezes o eleitor de setores da extrema-direita vota na extrema-direita, que é saudosista da ditadura, como por exemplo o caso do presidente Milley e de sua vice, Victoria Vigeró, que aliás, Victoria Vigeró é filha de um ex-golpista, um oficial de menor categoria que esteve na Guerra das Malvinas, mas o eleitorado de Milley não está em total sintonia com Milley

standardizadura, porque senão seria muito mais do que essa proporção de 7%. Então, isso. E a pesquisa também indica que 70% sustentam que é preciso que o Estado argentino continue julgando os militares que cometeram crimes contra a humanidade e 26% não concordam que continuem os julgamentos. Recordando que os julgamentos começaram em 1985 no denominado Nuremberg Argentino, porque levaram de lá pra cá

Nestes 31 anos, nesse caso, desde o início dos julgamentos, ao banco dos réus foram 1.231 militares, policiais, alguns civis que trabalhavam para a ditadura, e um par de padres católicos, e aliás, alguns médicos também, médicos que faziam os partos clandestinos das prisioneiras políticas e sequestravam os filhos delas, os bebês. Dos bebês falaremos logo na sequência. E foram condenados, então, por sequestrar, torturar, assassinar, ocultar cadáveres, sequestrar bebês,

e por roubo de bens, porque os militares além disso, quando prendiam alguém, saqueavam a casa da pessoa, uma boa parte dos quais os integrantes da classe média roubavam joias, quadros, e em alguns casos, como na ESMA, a Escola de Mecânica de Armada, que pertencia à Marinha, no início do golpe comandado pelo Almirante Macera, que é uma figura dessas assim para filmes de Tarantino, eles instalaram uma imobiliária, eles conseguiam,

os documentos dos apartamentos ou das casas, forçavam alguém da família a fazer uma espécie de procuração ou repassar a escritura a nome de alguém da ditadura e revendiam o imóvel. Então era como, além de torturadores, era um bando de saqueadores, de ladrões. Então isso é o que é impressionante. Bom, julgamentos, como disse,

1.231 militares policiais e alguns civis foram condenados. No total, foram investigados e indiciados mais de 3 mil. Então, o que indica que metade foram absolvidos ou as investigações não avançaram por faltas de provas. Então, quer dizer, uma justiça feita de forma correta. Não havia provas em alguns casos, então as pessoas eram absolvidas. Algo muito diferente do que aconteceu durante a ditadura.

quando os civis eram presos, sem ordem judicial, eram castigados, torturados violentamente, tortura é algo ilegal, e depois assassinados, coisa que não está na lei argentina, não existia pena de morte nem naquela época nem agora, então tudo, tudo, tudo, feito de forma totalmente ilegal e detidos em centros clandestinos de detenção. Mais um ponto ilegal da ditadura. Atualmente existem 504 pessoas, militares, policiais e civis,

presos por esses crimes e 12 julgamentos ainda estão em andamento e existem outros 282 processos em investigação preliminar que poderão virar o julgamento ou não no futuro a curto, médio ou longo prazo. Fernando, então, e hoje, em Buenos Aires e nas principais cidades do país, é um dia de marchas e manifestações em memória dos 30 mil civis assassinados pela ditadura e dos 510 mil civis.

bebês que foram sequestrados pelos militares. Antes de passar para a próxima pergunta, só uma questão. O governo Javier Milley, ele de alguma forma tenta relativizar os crimes da ditadura à rainha argentina? Como é a posição dele? Ele tenta relativizar os crimes da ditadura, ele fica dando muita ênfase aos crimes cometidos pela guerrilha, que aconteceu nos anos prévios, e diz como coloca a situação como se a ditadura

tivesse agido para, abre aspas, salvar o país do comunismo internacional, fecha aspas, e fala que havia uma guerra civil, quando na realidade, guerra civil é, quando, por exemplo, a gente vê a guerra civil espanhola, metade do país contra metade de outro país, a guerra da secessão nos Estados Unidos, metade do país contra a outra metade, o que houve na Argentina foi, no máximo da expansão de uma das guerrilhas, o ERP, o Exército Revolucionário do Povo, em Tucumã, a província inteira é 1% do território argentino,

Tucumã, essa guerrilha controlava mais ou menos uns 5% do 1% do Tucumã. Ou seja, a guerrilha controlava uma área mínima no meio do campo, no interiorzão, na Serra de Tucumã. Ou seja, isso não é guerra civil. Até porque é guerra civil, você precisa ter bombardeios, deslocamentos de civis, correndo de um lado para outro, fugindo dos setores, invasão de cidades. Isso é guerra civil. Isso é guerra civil. É bobagem dizer que é uma guerra civil,

um grupo guerrilheiro controla uma pequena porção de uma província que tem 1% do país. Então, Millet vai por esse lado, dizer que houve uma guerra civil, etc, etc, e isso. Então, basicamente, ele tenta relativizar a questão dos crimes da ditadura. Além do mais, ele também, e isso tem a ver com os protestos de hoje, ele reduziu drasticamente, ou eliminou, orçamento para várias entidades, como os museus, que tem a ver com a memória da

na época da ditadura, cortou boa parte da verba para o Banco de Dados Genéticos, que é o Banco de Dados Genéticos que tem ali armazenado para poder comparar as famílias das pessoas, as famílias daqueles bebês que foram sequestrados, para quando se suspeita que alguém poderia ser uma desses bebês, atualmente todos adultos, mais de 40 anos de idade, que aí podem fazer cotejar a amostragem genética.

banco de dados genéticos, hoje está quase sem fundos devido ao corte orçamentário feito por Miller. Um pouco de história aqui, Ariel. No dia 24 de março de 1976, as Forças Armadas derrubaram o governo da presidente Isabel Perón, aí assumiu uma junta militar, era liderada inicialmente por Jorge Rafael Videla. Jorge Rafael Videla, uma junta, junto com Emília Macera e o Brigadeiro Agosti. Como é que começou tudo isso? Foi um caso interessante,

Diferente das ditaduras da região, porque as ditaduras da região tinham esquemas diferentes. Por exemplo, Pinochet, no Chile, praticamente controlava a totalidade do poder. Embora tivesse o apoio das outras forças aeronáuticas e marinhas, ele governava praticamente sozinho. No Paraguai, o ditador Alfredo Stroessner também era a figura absolutista, mas mantinha um congresso nacional de fachada.

eleições, ele sempre ganhava com 95, 98% dos votos, totalmente fake. Ou no Brasil, onde havia uma sucessão de presidentes militares com um congresso que estava limitado, porque havia havido cassações, deputados que foram mortos, exilados, mas havia um congresso também de fachada que funcionava. Então, no caso da Argentina, não existia nem congresso, porque o congresso foi fechado e o poder não estava concentrado numa figura só, como no Paraguai e no Chile, estava dividido entre as três

forças, especialmente a disputa entre a marinha e o exército, e volta e meia eles se matavam entre eles. E outro dado bastante peculiar da caótica ditadura argentina, era que o primeiro ditador, o Jorge Rafael Videla, completou o mandato, estipulado por eles logo no início do golpe, de cinco anos. Aí veio o general Viola, que teria que ter outros cinco anos, só que um ano depois ele foi derrubado pelo general Gautieri. Então, quer dizer, eles se derrubavam, eles faziam golpes entre eles. Gautieri,

enfrentando uma situação econômica complexa, o início de protestos sociais, decidiu dar aquele golpe de efeito que na Argentina teve um resultado impressionante, que foi onde mandar tropas para as Ilhas Malvinas, ocupar as Malvinas e recuperar as Ilhas Malvinas, expulsando os ingleses. Isso teve um efeito político, populista, impressionante. A população foi em frenesi, era uma guerra totalmente delirante,

E essa derrota acabou fazendo com que a Argentina pudesse voltar à democracia. E a volta da Argentina à democracia, um ano depois da guerra, já que os militares ficaram totalmente desprestigiados, acabou tendo um efeito dominó sobre os outros países da região. O Brasil e o Uruguai, em março, primeiro Uruguai, dias antes do Brasil, em março de 85, 89 o Paraguai e 90 o Chile.

colocou o regime em colapso total, é que possibilitou a volta da democracia à Argentina e, de forma geral, à América do Sul. Recordando que a Guerra das Malvinas, primeiro, em 78, eles tinham tentado uma escalada bélica contra o Chile, uma disputa pelo Canal de Bingo, no extremo sul do país, e quase foram à guerra, e o Papa João Paulo II é que conseguiu impedir no último minuto. Já tinham gasto uma nota comprando armamentos naquela ocasião.

absurdo, com todo gasto, todo dinheiro público que se gastou, se incinerou na guerra das Malvinas. Então foi algo muito interessante, porque nenhuma outra ditadura da região se envolveu em aventuras bélicas, e foi o único país, a única ditadura da América do Sul no século XX, que se expandiu territorialmente, porque durante dois meses e meio eles levaram a ditadura às Malvinas.

kelpers que viviam dentro do sistema democrático britânico. Então levaram a censura, a tortura, tudo isso, inclusive torturando os próprios soldados argentinos. Eles continuaram com esse esquema mesmo estando em plena guerra, o que era totalmente uma loucura. Foi uma ditadura que foi um fracasso econômico, porque a dívida externa subiu de 8 bilhões de dólares para 45 bilhões em 7 anos, a inflação chegou a

343% anual, e eles reclamavam da inflação de mais de 100% da Isabelita Perón. Isso levou um êxodo de centenas e milhares de profissionais do país, mais ou menos meio milhão de argentinos partiram em exílio, quer dizer, uma série de cérebros argentinos foram perdidos, porque alguns voltaram, outros não voltaram nunca mais. Então, foi um desastre em todos os pontos de vista, do ponto de direitos humanos, do ponto de vista da economia.

Uma, era um bando de preguiçosos, os militares argentinos, era um bando de incompetentes também, e na parte bélica também foram um desastre total, Fernando. E aí também surgem algumas peculiaridades, porque, por exemplo, além dessa coisa de se derrubarem entre eles, eles botaram militares em todos os postos, inclusive na chancelaria, que não tinham a menor ideia de como era o serviço diplomático.

sobre como é que foi essa desastrosa ditadura militar argentina. Ariel, você já citou que o governo de Javier Mele já cortou verba para projetos que usam a genética para que hoje pessoas tentem localizar seus familiares, pessoas que, quando bebês foram tomados, foram roubados. Qual é a história dos bebês sequestrados na Argentina durante a ditadura? São muitas militantes,

muitas civis que não tinham militância alguma, elas... A ditadura perdeu todo tipo de pessoa. Desde o guerrilheiro até o civil, que tinha alguma simpatia política pela oposição à ditadura, e pessoas que estavam militando em diferentes graus, ou pessoas que eram vizinhos de alguém que poderia ser suspeito. A ditadura era totalmente paranoica nesse aspecto. Então, muitas mulheres jovens foram detidas,

mas muitas estavam grávidas, ou tinham bebês pequenos. Então, às vezes entravam na casa de um casal que eles consideravam suspeitos, matavam o casal e pegavam o bebê. E esse bebê era depois dado para alguma família, ou de militares, ou de policiais, ou de amigos de militares e policiais. Algumas pessoas receberam os bebês na porta da casa, num cestinho, e que não tinham a menor ideia de onde esse bebê vinha. Isso sim, aconteceu.

auditivos não tinham ideia de onde, qual era a origem desses bebês. Outras pessoas, outras mulheres, deram à luz, a maioria, em condições infra-humanas, nada de higiene em maternidades clandestinas dentro dos centros de detenção e tortura, dentro desses campos de concentração que a ditadura tinha, inclusive dentro da cidade de Buenos Aires. Então, as mães eram mortas na sequência depois do parto e esses bebês eram entregues para essas pessoas. Ao longo dos anos,

as avós da Praça de Maio foram investigando, pegando pistas quando havia, e aí conseguiram encontrar vários desses bebês, que hoje são todos adultos, tem entre 40 e 50 anos, perdão, entre 44, 45 e 50 anos de idade, que foram sendo descobertos com o passar das décadas, e já foram descobertos 140 desses bebês, hoje adultos, que são filhos das,

desaparecidas políticas, que é uma história muito trágica, porque muitas avós continuaram buscando seus netos e morreram, e os netos nunca foram encontrados ou foram encontrados pouco tempo depois que essas pessoas haviam falecido. Então, por pouco tempo, às vezes, não conseguiram reencontrar essas crianças. Uma última questão sobre, Ariel, os torturadores ou os psicopatas torturadores. Muitos já se foram, muitos morreram,

os outros em prisão domiciliar, mas você tem aí o perfil de alguns dos piores. Nossa, há uns casos assim como Alfredo Dondatigl, um dos oficiais que ficou famoso por sequestrar seu próprio irmão e a cunhada, os assassinou e ficou com as suas filhas, que eram bebês, uma era loira, outra era morena, ele preferiu ficar com a loira e deu a morena por umas pessoas que ele conhecia. Outro, Ernesto Weber, que era um oficial da Polícia Federal, era apelido a 220 pelos colegas militares,

prazer em aplicar essa voltagem nas torturas. E foi professor de torturas dos oficiais da Marinha. Aí você tem o Tigre Acosta, Jorge Tigre, o Tigre Acosta, capitão da Marinha, que foi um dos criadores dos voos da morte. O voo da morte era voo sobre o Oceano Atlântico e empurrar dali de cima prisioneiros vivos. Depois os corpos apareciam flutuando ali no mar e alguns, inclusive, a correnteza levava até as praias

Uruguai. Ele foi um dos criadores do Vô da Morte e falava sozinho à noite em delírio místico, porque ele explicava aos colegas e também falava isso para os prisioneiros, que mantinha longas conversas noturnas com ressuscito. Ressuscito era o pequeno Jesus, ao qual perguntava qual dos prisioneiros deveria torturar no dia seguinte e jogar dos aviões. E, segundo ele, ressuscito lhe respondia quem tinha que ser submetido a padecimentos e assassinado. Ele era muito famoso pela

pela crueldade que aplicava às pessoas detidas e também foi um dos principais sequestradores de bebês ali na escola de mecânica da Armada. Nossa, a lista é... Depois havia outro que é Luiz Porcio, chefe de segurança do serviço secreto da CID, conhecido pelo apelido de enfardador, porque ele amarrava grupos de prisioneiros com arame farpado, como se fossem fardos, e botava fogo neles.

Ele era Automortores Orlete, que havia sido uma antiga oficina mecânica, que funcionava como centro clandestino de detenção e tortura no bairro Portenho de Floresta. E os casos são impressionantes. Há uma lista longa, longa, de todo tipo de torturadores e psicopatas. Havia o caso do Astiz, Alfredo Astiz, tenente, depois capitão,

apelidado o anjo loiro da morte, que prendeu freiras, as torturou, depois as jogou pelos aviões ali do voo da morte, ele foi designado depois como uma espécie de premier, o garoto mimado de ditadura, ele foi premiado com o comando das Ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 82, ele disse que resistiria a qualquer ataque inglês. As Geórgias foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito, antes do desembarque nas Malvinas em si.

embarcaram, deram um tiro de bazuca, e Astiz já saiu correndo, levantando as mãos, se rendendo, ele que tinha dito que ia resistir até a morte, se rendeu e assinou a rendição incondicional com um copo cheio de whisky em uma das mãos. Então, esse era o quilate das figuras que estavam ali, e cada um tinha um apelido, como disse, Jorge Tigre Acosta, Alfredo Corvo Astiz, e está o caso do ex-chefe da guarda

Nossa. Como vocês dizem aí na Argentina, nunca mais. Nunca mais, que é a frase que foi dita no final do julgamento

da cúpula militar, em 1985, e que está muito bem retratado no filme, em 1985, com o Ricardo Darin, que interpreta o promotor-geral, Jules III, que eu tive o prazer de entrevistar duas vezes, há 18, 20 anos, um cara espetacular, ultra corajoso para ter enfrentado tudo isso. Ariel, muitíssimo obrigado mais uma vez, até a próxima. Obrigado a todos e nunca mais, mesmo em qualquer país do planeta.

Obrigado, Ariel. Grande abraço. Participaram aqui do Mundo em Meia Hora na edição L.M. Neses Trabalhos Técnicos de Altair Cunha. Próxima edição do Mundo em Meia Hora na sexta-feira. Até lá.

50 anos da ditadura na Argentina; Paquistão pode mediar cessar-fogo no Oriente Médio | Castnews Index — Castnews Index