Episódios de O Mundo em Meia Hora - Guga Chacra, Ariel Palacios e Fernando Andrade

Líbano no centro da guerra

10 de abril de 202635min
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Neste episódio do Mundo em Meia Hora, Fernando Andrade recebe Stefani Costa, jornalista brasileira direto do Líbano, e o comentarista Ariel Palacios, de Buenos Aires. Eles falam sobre os ataques que o Líbano vem sofrendo e o bombardeio de quarta-feira (8), quando foram disparados 160 mísseis contra o país, além de como a população está lidando com a situação e quais são os impactos no dia a dia. Comentam também as eleições no Peru, que registram um número recorde de 35 candidatos, e analisam o cenário político diante de tantas candidaturas.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando Andrade

HostJornalista
A

Ariel Palacios

ComentaristaComentarista
S

Stefani Costa

ConvidadoJornalista
Assuntos2
  • Maior ataque a BeiruteBombardeios israelenses · Impacto na população · Hezbollah · Crise humanitária
  • Eleições PeruCandidatos nas eleições · Fragmentação política · Keiko Fujimori
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Olá, seja bem-vindo ao Mundo e Meia Hora. Hoje, no primeiro bloco, eu vou conversar com a jornalista Stephanie Costa, brasileira radicada em Portugal, correspondente de guerra, está no Líbano. E aí, no segundo bloco, eu converso com Ariel Palacios, a gente vai falar sobre eleições no Peru. Stephanie, obrigado por acertar o nosso convite aqui na CBN. Tudo bem com você por aí? Olá, Fernando. Olá a todos os ouvintes da CBN. Eu que agradeço pelo convite.

Bom, bem na medida do possível, né? Eu imagino, eu imagino. Bom, nessa sexta-feira tem ataques acontecendo, mas eu queria voltar para a quarta-feira, começar nossa conversa com a quarta-feira, dia 8, que foi o dia com o maior número de ataques no Líbano, em muitas áreas da capital, Beirute, a gente está falando de cerca de 100 ataques em 10 minutos. E você estava lá, estava no centro da cidade, pode descrever para a gente como é que foi esse dia, Stephanie?

Olha, foi um dia de muita tensão, de muito pânico. Inclusive no momento do ataque, eu estava fazendo uma reportagem, a produção de uma reportagem para a Globo News sobre a questão dos ataques de Israel contra infraestruturas hídricas aqui no Líbano. E era por volta de umas 2h20 da tarde, quando a gente escutou uma forte explosão, eu estava a duas quadras.

de um dos locais atingidos, o local onde teve o bombardeio mais forte. Foram momentos de muito pânico, pessoas deitando no chão para procurar um refúgio, ambulâncias passando a todo momento. Aqui no Líbano eles têm o costume de usar moto, muita moto. Então eram as pessoas pegando moto, tentando fugir de alguma forma para procurar um lugar seguro.

muita gritaria e aquela fumaça, né? Aquela fumaça preta, densa, que sobe, que afeta a nossa respiração. E o emocional, né? Ficou todo mundo muito abalado. A gente teve, inclusive, que parar, né? Obviamente, a gente teve que parar a reportagem. E foi, assim, algo inacreditável, porque...

Depois que a gente escutou essa explosão, que eu estava a duas quadras, a gente foi ouvindo outros relatos de outras explosões que aconteceram em simultâneo. Naquele momento do choque, do impacto, a gente fica meio que sem entender o que está acontecendo. Mas depois, uns 10 minutos, depois de tudo que aconteceu, a gente recebeu a informação de que 100 pontos em todo o Líbano e vários pontos da capital Beirute haviam sido atingidos, inclusive uma zona.

onde eu estou próxima aqui agora, que tem muitas pessoas vivendo em tendas improvisadas, pessoas que sofreram um deslocamento forçado, aqui foi uma região que também foi atingida pelos ataques. Stephanie, é regra avisar, nesse caso não houve aviso prévio das forças de Israel com relação a esse ataque? Bom, quando eles soltaram o aviso, eles tinham incluído os bairros da região sul.

do subúrbio sul de Beirute, que é ali a região do Dahre, que tem uma população de maioria xiita, que tem uma presença do partido Hezbollah, que é importante dizer que o Hezbollah é um partido político, que tem representação no parlamento libanês, que tem ministros de Estado. Então ali é uma região que tem uma presença forte e Israel costuma...

direcionar os seus ataques para aquela zona. Mas alguns pontos aqui da capital Beirute não estavam nesse aviso prévio. Inclusive, no ataque de domingo, a região de Genar, que é a região que é conhecida por ter apartamentos de luxo, que abriga o maior hospital do Líbano, tem ali um pedacinho que tem uma área mais periférica, que moram pessoas...

mais empobrecidas, muitos imigrantes da Etiópia, do Sudão, e eles fizeram um ataque naquela região sem nenhum tipo de aviso. E naquela parte da cidade, muitas famílias já estavam deslocadas, porque elas saíram do Dari, da grande região do subúrbio sul, para procurarem refúgio nesse bairro de Genar. Só que nós fomos surpreendidos, não tinham aviso de que aquela região seria atacada.

E foi assim, a uma quadra do hospital. Se você... Quando eu cheguei na zona, né, de bombardeio, eu fiquei assim, impressionada, porque você atravessa a rua, tá ali o hospital. E foi assim, outro momento de pânico, de caos, uma adolescente de 15 anos foi atingida, né, perdeu a vida, oito pessoas morreram. E no ataque da quarta-feira, quando eu cheguei no dia seguinte, né, porque...

No dia da explosão, a gente não teve acesso. Eles barraram acesso para jornalistas, porque alguns jornalistas já tinham ido, aí causou um probleminha lá, e eles pediram para que a gente não fosse. Só que na manhã do dia seguinte eu fui e tinha gente ainda nos escombros. A Defesa Civil estava retirando corpos. E eram corpos de crianças, bebês, uma coisa assim, uma cena horrorosa.

Stephanie, Israel sempre usa o argumento de que nos locais onde bombardeia, há integrantes do Hezbollah. Havia nesse caso? Olha, nesse ataque da quarta-feira, que foi o mais brutal de todos, eu entrevistei dois agentes da Defesa Civil, e eles deram uma declaração muito forte, dizendo que é comum que na sociedade libanesa se tenha armas, as pessoas têm armas, mas eles falaram.

Stephanie, nós não encontramos absolutamente nada. A única coisa que nós encontramos aqui foram bebês dilacerados, queimados, idosos com fraturas expostas, pessoas mortas. Tanto que quando a gente chegou lá, eles estavam ainda tentando retirar corpos dos escombros. E quando um dos agentes da Defesa Civil deu essa declaração, ele estava extremamente emocionado.

E ele reforçou, ele disse que, imagina o pânico das crianças, que para ele a parte mais difícil de todo esse trabalho tem sido...

lidar com as crianças, a saúde mental das crianças, o psicológico dessas crianças. Então, naquela região ali do bombardeio da quarta-feira, eles não encontraram absolutamente nada. Mas essa tem sido uma estratégia de Israel. O porta-voz do exército israelense que faz os anúncios em árabe disse hoje pela manhã que...

Segundo ele, sem apresentar nenhum tipo de prova, nenhum tipo de evidência, segundo ele, o Hezbollah está usando ambulâncias para fazer o carregamento de armas, de armamentos. Ou seja, eles já estão dizendo que ambulâncias podem voltar a ser atingidas, porque já foram atingidas. Mais de 50 médicos, paramédicos e profissionais de saúde já perderam a vida só no conflito de agora, sem contar a guerra anterior de 2024, que também...

Muitos civis e profissionais de saúde foram assassinados. Stephanie, você falou no começo da nossa conversa que estava fazendo uma reportagem sobre instalações hídricas. Falta água hoje em Beirute ou no sul do Líbano, por exemplo? Qual é a situação? Olha, no sul eles estavam tentando fazer um levantamento, porque na guerra de 2024, cerca de 45 redes de tratamento de água foram atingidas.

E agora, em 2026, eles estavam tentando fazer o levantamento e reformar essas estruturas que tinham sido danificadas.

Só que como começou a guerra agora em março, eles foram impedidos de dar continuidade ao trabalho. Então hoje eles ainda não têm os dados concretos de quantas redes foram destruídas e quantas pessoas neste momento estão sem esse serviço básico de água. E esses dados são da Oxfam, que a gente fez a entrevista com... E pensando que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as

com a responsável da Oxfam, e ela passou esses dados para a gente. Em 2024, mais ou menos meio milhão de pessoas foram afetadas em todo o país com falta de água, falta de tratamento de água, mas nesse momento eles não conseguem dar dados sólidos, porque é impossível você ir para uma região que está sendo bombardeada. Israel tem mirado em infraestruturas civis, não só nessa questão hídrica da água.

mas também pontes, estradas, e são ações que são consideradas crimes de guerra, pela Convenção de Genebra, pelo Estatuto de Roma, pelo Conselho de Segurança da ONU. Então, esse é um ponto muito grave, porque aprofunda a crise humanitária que já existia, que já tinha sido aprofundada na guerra de 2024, que se soma com uma crise econômica que o Líbano já vivencia há muito tempo.

Você falou também sobre as pessoas deslocadas. Há mais de um milhão de deslocados no Líbano. Pessoas que foram expulsas de suas casas, acho que essa é a melhor forma de falar. Principalmente do sul do Líbano. O que você vê? Onde eles estão? Por onde estão? Olha, muitos vieram aqui para a capital Beirute, quando ainda era possível fazer isso. Porque, como eu te disse, Israel, principalmente na região sul do Líbano, tem atingido infraestruturas civis, bombardeado pontes, estradas.

Inclusive, a própria ONU informou que cerca de 150 mil pessoas estão impedidas de deixar aquela região porque elas simplesmente não conseguem atravessar. Todas as ligações entre a região sul do Líbano e o restante do país foram praticamente danificadas. Então, antes disso acontecer, muita gente veio aqui para a capital.

algumas pessoas foram para a região norte do país. A crise é gigantesca, porque além dessas pessoas que vieram do sul, a gente também tem esse problema do próprio deslocamento dentro da capital. Ontem, Israel emitiu um alerta colocando oito bairros.

como possível local de ataque. Então essas pessoas ontem, em estado de pânico, às pressas, pegaram tudo que era possível, começaram a pegar a estrada para fugir. E aí muitas não conseguem deixar a grande Beirute. E acabam se alojando ou em outros bairros, que são um pouco mais tranquilos, vamos dizer assim.

Ou vem aqui, por exemplo, para a zona de Zaituna Bay, que é onde eu estava há poucas horas atrás, que é uma região nobre da capital Beirute, para viver aqui em tendas improvisadas. Hoje, o governo disponibilizou mais de 600 abrigos públicos em escolas, universidades, espaços religiosos, mas a demanda é tanta que eles não conseguem receber tantas pessoas assim.

Então, hoje é comum você caminhar aqui pelas ruas de Beirute e encontrar as pessoas vivendo na rua, ou numa tenda, ou numa barraca, ou mesmo na rua, dormindo num colchão. E é preciso lembrar que nesse momento a gente está numa transição de clima, então o dia às vezes é um pouco quente, mas a noite é muito fria e tem chovido muito no Líbano. Então isso faz com que a situação se agrave ainda mais, porque essas pessoas que estão...

Aqui na zona de Zaituna Bay, em vendas e barracas, elas não têm, por exemplo, acesso a banheiros químicos, porque o governo não disponibilizou, então elas não têm condição de fazer as suas necessidades mais básicas. Tirando o clima de tensão, porque querendo ou não, a situação é tão grave, a crise humanitária é tão intensa que a gente encontra às vezes pessoas brigando entre elas.

quando vem, por exemplo, grupo de voluntários entregar comida, entregar utensílios de higiene, às vezes naquela tensão para tentar pegar o básico ali, as pessoas acabam brigando umas com as outras. Eu entrevistei uma senhora, uma família síria que está desalojada, e além de toda essa situação, de todo esse sofrimento, tem também uma questão em relação ao preconceito, à discriminação.

Ela me contou que quando ela foi pegar comida para as filhas, que ela estava desalojada com as quatro filhas, eles perguntaram se ela era síria. E quando ela disse que era síria, eles negaram a comida. E ela voltou sem poder fornecer alimentos para os filhos. Então, além de toda essa tensão de perder suas casas, de ter que ficar fugindo de bombardeios por conta dos ataques israelenses, ainda tem essa...

essas questões internas que, infelizmente, o Líbano não consegue resolver porque Israel não permite que o país tenha um mínimo de organização interna.

E o Líbano, Stephanie, ele tem divisões sectárias muito fortes. Tem os cristãos, tem os maronistas, os muçulmanos, sunitas, fiítas, drusos. Alguns apoiam o Hezbollah mais do que os outros. E ainda existe esse colapso econômico que você está falando para a gente. E tem um trauma muito forte, acredito eu, da Guerra Civil de 1975 até 1990. Com tudo isso que acontece no Líbano hoje, você acha que há um risco de uma nova Guerra Civil?

Olha, aqui no Líbano eu tenho presenciado uma união da população em torno dessa questão da ocupação israelense. O povo libanês é um povo muito forte, muito aguerrido, e eles têm muito orgulho da história deles e defendem a sua terra com muita convicção. Mas é claro que como toda a sociedade existem as divisões, existem as contradições.

E aqui no Líbano a gente tem uma extrema-direita que apoia Israel, que está alinhada com Israel e que sempre tenta promover um discurso de que o importante para resolver a questão do Líbano é desarmar o braço armado do Hezbollah. Entretanto, eu sempre reforço que isso não é apenas uma opinião pessoal, é o que eu estou vendo, é o que eu estou registrando.

Se não fosse a defesa que o Hezbollah tem feito dos territórios libaneses, provavelmente Israel já teria feito a ocupação completa, já teria avançado muito mais do que já avançou. Até porque essa não é a primeira vez que Israel invade o território libanês. A primeira invasão foi em 1978, se não me engano, na operação que foi conhecida como Operação Litane.

Inclusive, o Hezbollah só foi criado em 1982, bem depois dessa primeira invasão de Israel. Então, o Hezbollah praticamente surgiu para impedir esse projeto de expansão do que os israelenses chamam da Grande Israel.

Inclui não só o Líbano, mas inclui também a Palestina, inclui o Iraque, inclui até mesmo um pedaço da Turquia, da Síria. Então, como eu disse, existe uma parcela da sociedade libanesa que fala sobre essa questão do desarmamento, do Hezbollah. Mas se hoje a gente olhar para o exército libanês...

eles não têm condição alguma de enfrentar o poderio bélico israelense. É uma disparidade muito grande. Na semana passada eu entrevistei um militar do exército e ele falou justamente sobre essa questão, que existe ali uma divisão dentro do exército libanês, justamente por essa questão da divisão sectária que há no país. Existem militares que são xiítas, existem militares sunitas, maronitas.

E hoje o estado de degradação da instituição, das Forças Armadas Libanesas é muito grande. A maioria dos soldados hoje recebe entre 80 e 100 dólares de salário.

E o armamento que eles possuem é muito ultrapassado. Não tem nem comparação com o que Israel tem utilizado. Então, hoje, a defesa, quem faz mesmo a defesa territorial do Líbano é o Hezbollah. O exército fica mais numa questão de proteção, vamos dizer assim, social, de uma certa estabilidade interna. Mas a proteção das fronteiras...

completamente realizada pelo braço armado do Hezbollah. E nós tivemos nessa quinta-feira, Stephanie, uma declaração do Benjamin Netanyahu, do primeiro-ministro israelense, dizendo que aceita-se uma negociação direta com o Líbano, quer discutir o desarmamento do Hezbollah. E desde o cessar-fogo de 2024, o governo do Líbano já estava fazendo, já estava fazendo isso, fazia parte do acordo, não na velocidade que Israel desejava, mas isso já era discutido.

Isso parece que está cada vez mais distante? O que você percebe aí na sociedade libanesa? Olha, a sociedade libanesa tem acompanhado esses pronunciamentos do Netanyahu com muita desconfiança, o que é completamente normal devido ao histórico, mas como você mesmo disse, em 2024, na guerra passada...

houve um acordo de cessar fogo, só que desde então Israel nunca respeitou esse acordo de cessar fogo. Foram mais de 10 mil violações, mais de 300 mortos. Então sempre que o gabinete de governo israelense fala em acordo de paz, fala em cessar fogo, as pessoas ficam meio desconfiadas. Será que dessa vez eles vão respeitar?

E assim, o presidente libanês Joseph Aum tem reforçado a questão da diplomacia, que o caminho é a diplomacia, é a conversa, e eles já tentaram por diversas vezes fazer esse diálogo de forma pacífica, de forma diplomática, entretanto o outro lado infelizmente nunca respeitou. Então, nesse exato momento...

Nessa situação que nós vivemos aqui, eu posso dizer que a sociedade libanesa olha para isso com muita desconfiança, principalmente depois do acordo que o governo de Donald Trump e Israel fecharam com o Irã. E todo mundo aqui achou que Israel respeitaria, porque a mediação paquistanesa afirmou que o Líbano fazia parte, sim.

desse acordo de cessar fogo. Só que um dia depois, não deu nem 24 horas, a gente sofreu aqui no Líbano o ataque mais brutal. Em Beirute, principalmente, foi o ataque mais violento desde o dia 2 de março. Então, hoje, o sentimento do povo libanês é de...

extrema desconfiança. Há debates aqui sobre essa questão do resbola, do desarmamento. Tem uma ala da sociedade, como eu disse, da extrema-direita e mais a direita cristã.

que fala não só do desarmamento, mas também do desmatelamento político, porque eu volto a lembrar, o Hezbollah é um partido político, tem representação no parlamento. Então eu acho que esse ainda é um debate que tende a se prolongar. A gente ainda não tem como dizer de fato o que vai acontecer, o que vai gerar dessas conversas entre Estados Unidos e Israel.

Irã e Líbano, mas a nossa expectativa é que haja pelo menos uma trégua para que as pessoas possam respirar, porque a tensão aqui é muito grande, as pessoas estão num sofrimento muito, muito grande, é de cortar o coração.

Stephanie, Stephanie Costa, jornalista, radicada em Portugal, correspondente de guerra, está no Líbano nesse momento. Bom, quero muito agradecer o seu tempo e por aceitar o nosso convite e te perguntar onde nós, brasileiros, conseguimos acompanhar o seu trabalho aí. Olha, atualmente eu escrevo no Jornal Expresso.

Eu também, nesse momento, estou fazendo correspondências para o Jornal da Band. Eu também escrevo para a Ópera Mundi e também colaboro esporadicamente na Jacobin Magazine, na versão Jacobin Brasil. Perfeito. Stephanie, muito obrigado pela conversa aqui na CBN. Força aí, bom trabalho e cuide-se.

Obrigada pelo convite, obrigada pelo espaço. E é isso, vamos continuar aqui acompanhando com todo cuidado. Muito obrigada. Eu quem agradeço. Obrigado, Stephanie. Então uma pausa aqui no Mundo em Meia Hora. Daqui a pouco eu volto falando mais com Ariel Palacios sobre eleições no Peru.

De volta agora com Ariel Palazzo, diretamente de Buenos Aires, na Argentina. Tudo bem, Ariel? Bem-vindo. Como está, Fernando, ouvintes? Tudo bem? Tudo bem. A gente vai falar sobre eleições no Peru. Primeiro turno marcado para este domingo. Uma eleição, um cenário de muita fragmentação. Ariel, são 35 candidatos. Queria te ouvir sobre isso e saber qual é o tamanho dessa cédula nessa eleição do Peru.

É uma cédula enorme, tem 40 centímetros, mais de 40 centímetros, e todas as carinhas bem exprimidas dos candidatos. É um número recorde na história de candidatos presidenciais, não só no Peru, mas na América do Sul. E o fato é que bate o recorde da eleição de 2021, no Peru também, a eleição presidencial, quando naquela ocasião...

Todo mundo falou, nossa, mas que grande quantidade de candidatos, que absurdo, que overdose de candidatos. Eram 18. Agora são quase o dobro, porque são 35. O dobro teriam sido 36. E o fato é que durante uns meses foram 36, só que o 36º candidato, Napoleão Becerra, morreu num acidente de Carlos semanas atrás. Senão teriam sido 36, exatamente o dobro daqueles 18 de 2020. Eu quiser uma overdose.

de candidatos, o que faz com que as intenções de voto dos 35 são proporções muito baixas, o que também mostra uma coisa, não é um país polarizado, então ninguém use...

no Brasil a frase eleições polarizadas no Peru. Não. Polarizado quando você tem dois grandes candidatos e pouquíssimos candidatos com quase nulas intenções e votos restantes. Dos três primeiros candidatos, que são todos de direita, temos as seguintes proporções. Keiko Fujimori.

que tenta pela quarta vez, é déjà vu, tenta pela quarta vez ser candidata presidencial em todas as três vezes anteriores, inclusive ela chegou ao segundo turno, ela está com 15% das intenções de voto, logo depois dela vem Carlos Fusimor, isso é para recordar a filha do ex-ditador Albert Fusimor, ditador nos anos 90.

Logo atrás vem Carlos Álvares, com 8%, metade quase do que ela tem. É um humorista, roteirista, é um modelo de outsider no extremo, porque ele se define simultaneamente como de direita, de esquerda e de centro. Essa frase dele, sou de direita, de esquerda e de centro, ele diz. E ele propõe medidas como a pena de morte, além da retirada.

da Convenção Americana de Direitos Humanos. Ele quer que o país esteja fora da Convenção de Direitos Humanos. Logo aí na sequência vem uma figura para lá de suas gêneras, Rafael Lopes Aliaga, com 7% nos calcanhares de Carlos Alvarez, ex-prefeito de Lima, até pouco tempo atrás, foi representante de uma direita ultra-mega conservadora, um católico fervoroso.

E para o cenário ficar mais complexo ainda está o empresário e ex-prefeito de Lima, Ricardo Belmond, de 80 anos de idade, que estaria em empate técnico aí entre Alvarez e Alhaga, segundo alguns levantamentos de último momento. Ou seja, e não descartemos que possa aparecer outra pessoa...

Tal como Pedro Castillo foi na eleição de 2021, que ele não aparecia quase em nenhuma pesquisa, estava lá com 6% das intenções de voto em quinto, sexto lugar, e de repente ficou em primeiro lugar com 19%, que também era uma eleição muito...

fragmentada naquela ocasião, em 2021. Então, a única certeza que existe perante essa atomização de votos, e recordando mais uma vez, ninguém diga eleição polarizada, porque não é polarizada, essa atomização, essa eleição fragmentada com um cardápio descomunal para os peruanos escolherem, e também sem muito entusiasmo, porque a qualidade tampouco é grande coisa.

O parlamento que desponta dessas eleições, que são agora, no primeiro turno, o Senado e Câmara de Deputados serão eleitos agora, é também um cenário de enorme fragmentação. Então tudo tende a acreditar que nenhum partido ter a maioria, serão todos partidos com pequeníssimas ou pequenas participações. A diferença será, ah, esse partido tem uma pequena representação no parlamento, aquele outro tem uma pequeníssima e aquele outro tem uma microscópica representação.

Será assim? O que quer dizer isso? É que o próximo presidente da República, seja lá quem for, terá enormes problemas de governabilidade, mais uma vez. Porque isso tem sido a tônica, especialmente...

dos últimos 10 anos. O Peru teve 9 presidentes nos últimos 10 anos. 3 presidentes eleitos, 7 presidentes interinos, o próximo presidente que será eleito será o décimo em uma década. Então é um cenário para lá de complexo e vou citar uma coisa que é um dado de realismo fantástico. Quando o José Geri, que foi o penúltimo presidente,

Agora é o José Maria Balcaça Meses atrás foi destitudo Ele ficou quatro meses no poder, apenas isso E com o Natal, veio no meio Aí ele tinha encomendado De praxe em vários países da América Latina Que nas repartições públicas Tenha lá a foto do presidente Imoldurada Em todos os ministérios, secretarias As repartições públicas A foto oficial do presidente com a faixa Então

quando ele tinha tomado posse como presidente interino, depois da destituição de Dina Boloarte, e os retratos oficiais finalmente ficaram prontos, quando? Na semana de sua destituição. E começaram a ser distribuídos, e foram entregues nos ministérios minutos depois do Congresso peruano ter votado o impeachment dele. Quer dizer, os quadros mal chegaram e o presidente já tinha ido embora. Então o Peru precisa de uma espécie de catraca que dá pra que o que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que que

no Palácio Presidencial, porque é um atrás do outro. Vamos explicar aqui para o nosso ouvinte, Ariel, os motivos dessa falta de representatividade. É um cenário que tem pouco entusiasmo, muita fragmentação. De novo a gente vê um sobrenome Fujimori nas eleições, a quarta vez que Keiko tenta. Por que isso?

Pois é, porque o Perú tem um sistema muito peculiar, que não é nem presidencialista, nem parlamentarista. É um mix bizarro, que funciona para um presidente quando ele tem maioria parlamentar. E aí não ocorre nenhum problema, tal como foi entre os anos 2000 e 2016, com os presidentes Alejandro Toledo, Jean Tomala e Alan Garcia. Todos tiveram maioria parlamentar, e aí governaram tranquilamente. Mas entre 2015 e 2016, começaram a pipocar...

E aí pensando que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que as pessoas que

um monte de escândalos de corrupção relativos ao caso Odebrecht, que afetaram os grandes partidos políticos peruanos. Até então, a política peruana era marcada pelos grandes, tradicionais partidos políticos, e de vez em quando surgia algum partido novo. A partir daí, tudo se esfacelou. Então, entre 2015 e 2016, vários ex-presidentes foram acusados de corrupção. Nesse caso, os ex-presidentes Toledo, Humala e Garcia. Em 2016,

No meio da crise dos partidos políticos, foi eleito Pedro Pablo Kuczynski, que era um tecnocrata, com um partido novo, pequeno. Foi eleito, não tinha maioria parlamentar, aí as coisas começaram a se fragmentar, mas ainda, em 2018, Kuczynski foi destituído, um escândalo que também abalou.

o principal partido opositor, o Fujimorismo, da família Fujimori, aí o vice-dermar que o Biscarro tomou posse, só que foi destituto posteriormente, e isso foi gerando um debilitamento imenso dos presidentes perante o parlamento. E o parlamento ficou, Fernando, ficou acostumado a derrubar presidentes, porque as normas do trâmite de impeachment são muito rápidas. Aliás,

Já fica o aviso para os próximos anos. O Senado peruano, que havia deixado de existir, agora volta. E, de acordo com as novas normas, o impeachment será muito mais fácil daqui para frente. Então, podemos esperar situações mais complexas daqui para frente. Bom, o que aconteceu? Foi derrubado, o Martim Vizcarra também, e foi aquela troca-troca de presidentes interinos. Aí, em 2021...

Última eleição presidencial foi eleito Pedro Castillo, com partido também minoritário. Um ano depois ele tentou dar um alto golpe de Estado, fracassou, foi destituído, foi preso, está preso ainda. Sua vice de uma bulwarte tomou posse, não tinha um deputado sequer a favor dela. Ela foi destituída no ano passado, até que durou bastante, e assumiu conselheria, que durou quatro meses.

e agora governa internamente José Maria Balcázar. Então, quer dizer, nada no horizonte político, se alguém falar, ah, bom, agora esperemos que os peruanos consigam colocar o seu país em certo prumo e que vá para frente, lamento, isso é colossalmente difícil, porque no horizonte político não indica nada que essa instabilidade vai terminar. Ela só tem a persistir com a eleição deste domingo, porque inevitavelmente...

vão eleger um parlamento fragmentadíssimo, a não ser que o próximo presidente seja um gênio do jogo de cintura, uma maravilha da diplomacia política e possa governar. Mas o cenário que desponta vai na contramão disso.

Muito bem, uma passada rápida então agora na Venezuela. Delce Rodrigues continua no poder. Mas o parlamento, Ariel, não renovou a presidência interina dela? Como assim? Pois é, o prazo de 90 dias, recordemos que no dia 3 de janeiro, um comando americano...

Chegou em Caracas, bombardearam a cidade Pegaram o Nicolás Maduro, sequestraram o Nicolás Maduro O levaram, capturaram e levaram para Nova Iorque Para ser julgado, ele está preso lá E um dia depois, Délice Rodrigues assumia como presidente interina da Venezuela O prazo de presidente interina é de 90 dias E esse prazo esperou dias atrás

E a Assembleia Nacional, que é controlada pelo chavismo, o parlamento, não formalizou uma prorrogação do mandato. Então, quando ela tomou posse interinamente, há mais de três meses, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, controlado pelo chavismo, aliás, presidido pelo próprio...

Irmão dela, a Corpoa Dorivis, previa a possibilidade da extensão por mais de 90 dias. Isso dependia, então, como eu disse, não era um problema, porque o parlamento comandado pelo irmão ia aprovar isso daí. Só que até agora não fizeram isso. E ela é interina, porque o regime chavista considera que Maduro continua sendo presidente da República, embora esteja preso em Nova Iorque.

E não há um instrumento jurídico que sustente a continuidade de délices sem a prorrogação no cargo, e tampouco acionar o mecanismo constitucional de convocação de eleições, que está reservado para casos de vacância definitiva. Como eles dizem, que o Maduro continua sendo presidente...

mesmo preso lá em Nova Iorque, então não é uma vacância definitiva. Então isso quer dizer o quê? Ela está se prolongando no poder, mas sem nada que um respaldo legal para isso, ou seja, ela é mesmo uma autocrata. E dias atrás o secretário dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse que os jonesiolanos teriam que ter paciência, essa foi a frase, a palavra que ele usou.

para futuras eleições na Venezuela. Quer dizer, a Casa Branca não tem pressa nenhuma pela volta da democracia no país caribenho. Délice continua no posto com o apoio do presidente Trump, que disse que ela é uma pessoa fantástica e muito dócil aos pedidos da Casa Branca. Dócil foi o adjetivo que usou. O fato é que Délice...

reatou relações diplomáticas com Washington, reabriu a embaixada venezuelana nos Estados Unidos, aprovou a reforma da lei dos minérios, que vai permitir, isso foi agora nesta quinta-feira à noite, vai permitir imensas vantagens das empresas internacionais de mineração, especialmente americanas, porque acaba com a proteção nacionalista dos tempos do falecido Hugo Chávez.

E aprovou a reforma da lei do petróleo, que está feita totalmente à medida de Trump. E é interessante destacar que continua o regime chavista no poder, mas nem a direita venezuelana em toda a história fez tais concessões aos Estados Unidos ao longo de toda a história, da mesma forma como o chavismo está fazendo para Trump. Perfeito. Ariel Palacios, mais uma vez, obrigado.

Muito obrigado, Fernando, ouvintes. Bom fim de semana a todos. E na semana que vem, teremos... Resultados. Saberemos quem serão as duas pessoas que, com pequena proporção de votos, foram, como descarte, designados para disputar o segundo turno presidencial peruano. Perfeito. Obrigado, Ariel. Edição de Ellen Menezes, trabalhos técnicos de Isabel Gomes e Bruno Carvalho. Até a próxima edição do Mundo Meia Hora.

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