Episódios de O Mundo em Meia Hora - Guga Chacra, Ariel Palacios e Fernando Andrade

O ultimato de Trump

07 de abril de 202629min
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Neste episódio do Mundo em Meia Hora, Fernando Andrade recebe Tanguy Baghdadi, professor de Política Internacional e cofundador do Petit Journal. Participa também o comentarista Ariel Palacios, direto de Buenos Aires. Eles analisam a intensificação dos ataques no Irã e os possíveis cenários para o Estreito de Ormuz, incluindo o risco de uma invasão terrestre pela ilha de Kharg, estratégica para a exportação de petróleo iraniano, e como países asiáticos estão reagindo à escassez de petróleo no Oriente Médio e as negociações em curso com o Irã. Comentam também o cenário politico sobre as eleições no Peru que acontecem domingo, e como está a popularidade do Javier Milei na Argentina.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando Andrade

HostJornalista
A

Ariel Palacios

ComentaristaComentarista
T

Tanguy Baghdadi

ConvidadoJornalista
Assuntos3
  • Oriente Médio e Estreito de OrmuzAtaques no Irã · Estreito de Ormuz · Invasão terrestre na ilha de Kharg · Reação de países asiáticos
  • Eleições PeruCandidatos e intenções de voto · Instabilidade política · Impacto da corrupção
  • Popularidade e imagem de Javier Milei na ArgentinaEscândalos de corrupção · Desempenho econômico
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Olá, seja bem-vindo a mais uma edição do Mundo Meia Hora. Hoje, eu e Ariel Palácio, diretamente da Argentina, de Buenos Aires, vamos conversar com Tanguy Bagdadi, professor de Relações Internacionais e criador do podcast Petit Jornal. Vamos falar sobre a tensão no Oriente Médio, com a possibilidade de mais ataques, de ataques mais intensos no Irã. Vamos falar também sobre quais os cenários para o estreito de Hormuz.

O risco de uma incursão terrestre na ilha de Karg, que é essencial para as exportações de petróleo do Irã. E ainda, como é que países asiáticos estão se mexendo para driblar a escassez de petróleo do Oriente Médio? Estão fazendo o quê? Estão negociando com o Irã. E ainda a gente vai falar mais sobre o cenário político para as eleições presidenciais no Peru, já neste domingo. E ainda, como é que está a imagem de Javier Milei na Argentina?

Tanguy Bagdadi, mais uma vez obrigado pela presença aqui no Mundo em Meia Hora. Tudo bem, Tanguy? Tudo bem, Fernando. Tudo bem, Ariel. Um prazer estar aqui com você mais uma vez. Ariel Palácio com a gente diretamente de Buenos Aires. Oi, Ariel. Bem-vindo. Como está, Fernando, Tanguy, ouvintes? Tudo bem? Tanguy, há um ultimato, um prazo dado pelo americano Donald Trump para que... Onde estamos trabalhando muito bem. Bem, no nível que ninguém nunca viu antes. O país pode ser tomado em uma noite. E essa noite pode ser amanhã.

acabe com o Irã em uma noite. Esse prazo vence na noite desta terça-feira. Só um aviso, a gente está gravando esse programa na tarde de terça. A ideia, então, aqui é fazer uma análise de todo o contexto. E aí na programação da CBN você tem ali as atualizações. E Trump ameaçou destruir instalações energéticas do Irã, o que caracteriza claramente um crime de guerra. Ele já disse que não se importa. Em meio a tudo isso, Tanguy, há um plano de cessar fogo, mas o Irã não quer um cessar fogo, quer um fim da guerra.

Como é que você define esse momento, Tanguy? Olha, eu defino como momento perigoso, né? Um momento no qual a gente tem um nível de imprevisibilidade bastante grande. Parece que o mundo está com a respiração suspensa, né? Esperando o que pode acontecer. Esse prazo já foi modificado várias vezes. Era um prazo de cinco dias, virou um prazo de dez dias. Depois ele dá 48 horas, que na verdade são três dias, né? Não dá para entender muito bem como é que ele chegou nesse prazo.

Mas o fato é que ele colocou esse prazo para o fim de terça-feira. E ao longo do dia de ontem, né?

da segunda-feira e de hoje, terça, ele continuou subindo o tom. Não dá para saber se ele está blefando, não seria a primeira vez que o Trump estaria fazendo isso para forçar o Irã a promover algum tipo de negociação, mas me parece que também ele chega num determinado ponto no qual ele precisa agir, algo precisa ser feito. Ele já falou várias vezes que poderia fazer uma evasão por terra ao Irã, o que seria algo catastrófico, uma coisa que eu tenho falado sempre, que eu acho muito importante a gente colocar na análise.

É que o Irã é o país mais poderoso com quem os Estados Unidos entraram numa guerra desde a Segunda Guerra Mundial. Não teve ninguém tão poderoso quanto o Irã. Então, me parece que houve uma certa subestimação da capacidade de iraniense de se defender. E se a gente pensa numa invasão por terra, de fato, as consequências são gravíssimas. E o Irã mantém capacidade de reagir também a um ataque aéreo, enfim, que ataca instalações.

estratégicas iranianas, o Irã tem capacidade de reagir contra o país ali da região. Então hoje é um dos momentos mais perigosos dos últimos tempos, né? Eu diria que talvez desde fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a gente não tem um dia tão tenso, vamos ver o que vai acontecer nas próximas horas.

Tanguy, como é que países da Ásia, principalmente da Ásia, estão vendo esse cenário? Porque depois de mais de um mês de guerra, a possibilidade de que o Estrito de Hormuz nunca mais seja o mesmo. E mesmo com cessar-fogo, todas as instalações de petróleo que foram destruídas, atacadas no Oriente Médio, vão demorar um bom tempo para voltar a ter uma capacidade como era anterior.

Ou seja, não dá para esperar. E muitos pensam também nessa questão de não dá para acreditar muito em Donald Trump. Esses países estão olhando para onde? Estão fazendo o quê? Você tem exemplos desses países asiáticos, Tanguy? Olha, a gente pode pegar o principal deles, o país mais destacado da Ásia, que é a China.

que está buscando como alternativas, primeiro, conseguir petróleo de outros lugares. É importante lembrar que a China perdeu também como fonte de abastecimento o petróleo venezuelano. Então, até início de janeiro, grande parte do petróleo venezuelano ia para a China, a partir do momento que os Estados Unidos fazem aquela operação, sequestram Maduro.

A China deixa de ter acesso ao petróleo venezuelano e agora passa a ter dificuldade também para ter acesso ao petróleo iraniano. Agora, uma coisa que é importante é a gente perceber que, antes do início dessa guerra, o Estreio de Hormuz estava aberto, então todo mundo conseguia passar com seus navios por ali. Com o início da guerra, o Estreio de Hormuz foi bloqueado, então teve alguns dias ali com pouquíssimos navios passando, mas ao longo dos últimos dias a gente já tem visto uma passagem de uma quantidade maior de navios pelo Estreio de Hormuz.

Ou seja, a China também, assim como outros países asiáticos, vem investindo de uma certa maneira numa negociação com o Irã para ver se esse aviso consegue passar. O próprio Japão, que é um grande...

sobre a Takahit, que tem ali o Donald Trump como grande aliado, já falou em negociar com o Irã para ver se navios podem passar. Então, essa é uma alternativa que China, Japão, Coreia, enfim, outros países que dependem muito do petróleo daquela região, vem buscando. São alternativas importantes para você conseguir ter um certo fluxo de petróleo, ainda que não no volume anterior.

é a aceleração da eletrificação. Não é de hoje que a China vem investindo, a China hoje é uma super referência em termos de eletrificação, de energia limpa, renovável, exatamente para tentar diminuir a dependência desse petróleo, e a China é um país que vem avançando ainda mais.

mas com alternativa como essa. Me parece que essa vai ser uma saída, principalmente porque todo mundo já colocou na planilha que energia daqui para frente vai ser permanentemente mais caro. Nesse cenário de volatilidade, o barril do petróleo sobe, tudo se torna mais caro e, portanto, talvez a eletrificação comece a se tornar um pouco mais viável do que era há algum tempo atrás.

Tanguy, levando em conta toda essa saraivada de ataques cruzados que ocorreram nas últimas semanas entre os vários países da região, poderia fazer uma espécie de, resumo, se é que se pode aplicar a palavra, uma espécie de lista, melhor dito, de todos os conflitos que estão acontecendo neste momento em todo o Oriente Médio?

Mais além também, toda esta nova guerra devido aos Estados Unidos e ao Irã, porque, por exemplo, já estava entre Iêmen e a Arábia Saudita, já havia bombardeios. Se a gente ampliar um pouquinho além do Oriente Médio, porque tudo bem, está na região entre Armênia e Azerbaijão, então pode nos dar um panorama de tudo que está acontecendo na região de forma sucinta?

Ariel, dá para a gente pensar nisso? E eu acho que o fundamental aqui é a gente pensar que uma guerra envolvendo Estados Unidos e Israel de um lado e Irã do outro é aquela guerra que a gente poderia imaginar como a guerra mais importante que poderia acontecer.

Então, naturalmente, a gente está falando sobre uma região muito integrada, é uma região que tem fronteiras muito porosas, se a gente quiser voltar um pouco na história, a gente vai encontrar a origem disso lá no Império Otomano, enfim. Então, você tem uma região, de fato, muito integrada. E o Irã, que é um país que, aliás, nunca foi, né? A Persia nunca foi parte do Império Otomano, é verdade.

acaba tendo braços exatamente por toda essa região. Então, quando você tem um ataque como esse, o impacto, por exemplo, sobre o Líbano é um impacto gigantesco. Aliás, a gente fala muito sobre a guerra que está acontecendo em terra no Irã, mas o Líbano é um país que está sendo profundamente atingido. Israel tem feito incursões por terra no Líbano. Você tem o resbolar que, ao longo dos últimos tempos,

de 2024, você mantinha ali, não vinha entrando na porção sul do Líbano, para chegar perto da fronteira com Israel, vem se aproximando dessa região, você teve a destruição de pontes sobre o Rio Litane, que é um rio importantíssimo ali, que separa o norte da região, perdão, separa o sul da região central do Líbano, então o Líbano é um país que vem sofrendo muito com isso.

A gente tem naturalmente a guerra que a Arábia Saudita está sofrendo, sendo atacada pelo Irã. Então o Irã vem com uma reação a esse ataque, vem promovendo ataques contra aliados dos Estados Unidos. Então a Arábia Saudita vem sendo atacada, Emirados Árabes, Bahrein, Qatar, Kuwait, são todos os países que vêm sendo atacados.

O que vai trazer consequências econômicas e de imagem muito forte são países que passaram anos e mais anos e mais anos tentando construir uma imagem de países seguros, países onde você pode passar suas férias, hubs de transporte, então de voos, hubs financeiros que vão deixar de ser durante algum tempo, pelo menos vai demorar até que a confiança retorne. E a gente tem naturalmente o Iêmen, que é verdade.

verdade que é uma guerra anterior, mas que de qualquer maneira você tem a renovação dessas tensões e com uma preocupação bastante grande, tá Ariel? Que é a possibilidade dos Ruts, que são esse grupo aliado do Irã, sediado no Iêmen, que já tomou uma parte importante do território iemenita ao longo da última década, volte a fazer ataques ali na região do Mar Vermelho.

O Mar Vermelho é um ponto de escape importante para a Arábia Saudita. A Arábia Saudita tem tido dificuldade para escoar sua produção pelo Golfo Pérsico e, portanto, faz o seu escoamento pelo Mar Vermelho. Se o Mar Vermelho se tornar uma região conflagrada também, é mais um baque no fluxo de petróleo. Então, essa guerra principal acaba tendo vários filhotes, ela acaba se espalhando pela região. Como eu disse, é a guerra mais importante que a gente poderia imaginar no Oriente Médio, nesse cenário contemporâneo.

Bom, Tanguy, independentemente desse cenário agora de todo mundo estar segurando a respiração, há um plano. O Paquistão está tentando, pelo menos, fazer uma mediação. Como eu disse no começo da nossa conversa, os Estados Unidos querem um cessar fogo, o Irã quer o fim da guerra. O que se sabe, em princípio, é que envolveria.

o fim de todos os atritos no Oriente Médio, aí incluiria também o Líbano, como você falou. Também o Irã pede novas regras para o Estreito de Hormuz, fim de sanções, reconstrução do Irã, entre outros pontos. O que você sabe sobre esse plano, Tanguy?

Olha, a gente sabe que é uma tentativa paquistanesa de muito boa vontade, mas muito difícil de ter algum tipo de aplicação prática. Então, claro que é uma ponte importante, uma ponte que tem que existir, tem que acontecer. É importante que o Paquistão tenha tomada dianteira. A China, aliás, tem apoiado, inclusive, o Paquistão nessa tentativa. Mas quando a gente fala sobre os termos, são termos que ou desagradam um ou desagradam o outro.

Então você tem um plano para um cessar-fogo, naturalmente o Irã não quer que seja um cessar-fogo, porque significa que daqui a uma semana, duas, daqui a um mês, daqui a seis meses, o Irã pode ser atacado mais uma vez. É um país que já foi muito atingido, é um país que agora, inclusive, conseguiu mudar o cenário, a despeito de estar sendo atacado, tem por objetivo mudar o próprio status dos três de Hormuz. A ideia é fazer...

do Estreio de Hormuzo, que você tem no canal do Panamá, por exemplo. Para passar por ali tem que pagar. Se você quiser passar, por exemplo, pelo canal de Suez, tem que pagar também. O que o Irã...

passando aqui pelo Estreio de Hormuz, vai ter que pagar, se dispõe, inclusive, a negociar com o Oman e Emirados Árabes Unidos, que também tem uma participação naquele fluxo ali. Naturalmente, são termos que não interessam aos Estados Unidos, que era exatamente o contrário disso. Os Estados Unidos estavam com a expectativa, inclusive, de ajudar a derrubar o regime, que algo assim acontecesse. Então, é louvável a iniciativa paquistanesa.

do que os Estados Unidos aceitam são muito distantes. Tudo isso para não falar sobre o programa nuclear, que é uma questão de mais de 20 anos já dos Estados Unidos insistindo para que o Irã seja isolado, para que não tenha um programa nuclear. A gente chegou a ter um acordo com o Obama que o próprio Trump deixou, o Trump saiu desse acordo lá no seu primeiro mandato.

E até agora também não tem uma solução. O que o Irã diz é um direito legítimo enriquecer urânio, e segundo os tratados internacionais, é mesmo. E o que os Estados Unidos dizem é, não aceita, isso não pode acontecer, Israel também não aceita. Então, a gente tem um impasse muito importante e que não me parece que a diplomacia paquistanesa, nesse momento, ela vai ser capaz de destravar. Quem já percebeu isso foi a Europa, a Europa está distante desse cenário, olha, não tem como resolver isso aqui, vocês que resolvam, mas naturalmente é um início.

de um processo que talvez ainda leve um bom tempo para ser solucionado. Tanguy, no Irã, o governo ameaçou punir quem gravasse os ataques a um apagão de internet lá já há muito tempo, mas o que a gente tem de informação agora é que jovens iranianos formaram correntes humanas ao longo de pontes e ao redor de usinas de energia.

e esses vídeos foram divulgados, imagens foram divulgadas na mídia estatal. Então não dá para saber se é espontâneo ou se é o governo que está por trás de tudo isso. Dá para a gente ter uma ideia do que se passa lá num momento como esse? Olha, é realmente muito difícil ter acesso ao que acontece por lá. Você tem uma internet muito controlada. Essa, aliás, é uma preocupação, Fernando, porque...

o governo iraniano tem medo do que pode acontecer, por exemplo, no caso do cessafogo. Claro que esse cessafogo parece distante, mas há uma preocupação com o que pode acontecer por conta de uma certa sensação de enfraquecimento do regime. Se houver essa sensação de que líderes foram eliminados, de que você tem uma destruição de equipamentos importantes e tudo, isso poderia levar, eventualmente, a manifestações que poderiam levar, eventualmente, à queda.

Então, o governo, ao longo dos últimos tempos, vem reforçando ainda mais o controle sobre a população e isso passa, obviamente, pela internet também. Claro que num momento como esse, você teve uma mobilização do próprio governo iraniano para tentar proteger instalações sensíveis.

teve essa mobilização do governo para colocar intelectuais, artistas, pessoas que são, inclusive, conhecidas no Ocidente, jovens, para fazer essa corrente humana. Agora, eu não sei vocês, eu não consigo imaginar Peter Hegseth, o secretário de defesa dos Estados Unidos, Jade Vance, Marco Rubio, Donald Trump.

dizendo que não vão atacar uma ponte porque tem gente que está abraçada ali. Eu realmente não consigo imaginar isso. Vai colocar a culpa no Irã? Se morrer, gente vai colocar a culpa no Irã? Então, claro que é uma tentativa, é uma forma também de fazer um certo barulho, mas acredito que vai ter uma eficácia relativamente pequena. Agora, é importante notar que algo sim...

não tenta muito esconder para mobilizar essas pessoas para protegerem instalações sensíveis. Nós já tivemos nesta terça, Tanguy, ataques ao polo petrolífero na ilha de Cargue. A gente tem falado bastante sobre essa ilha aqui. Um ataque terrestre dos Estados Unidos de tropas americanas começaria por essa ilha? É uma possibilidade? Por quê? É uma possibilidade, claro que é uma possibilidade.

principalmente do ponto de vista energético. Agora, é uma dificuldade de se imaginar qual seria a melhor decisão para você tomar se você quisesse fazer uma incursão por terra. Uma invasão aérea de carga, ela tiraria do Irã a capacidade de exportar petróleo. Cerca de 90% da exportação de petróleo do Irã passa pela aérea de carga. Isso seria um golpe duro.

Agora, no curto prazo, a ira de carga não tem uma importância tão grande assim. Ela é importante se você estiver pensando numa ocupação, e ao longo de uma semana, um mês, seis meses, o Irã pode estar quebrado se ele não tiver acesso à ira de carga. Agora, quando você pensa em alvos estratégicos...

talvez o objetivo seja muito mais desmobilizar a capacidade iraniana de uma resposta armada e aí você fazer um ataque à ilha de carga seria algo relativamente secundário. Não é um alvo militar por si só. O Irã não reagiria a uma evasão americana pela ilha de carga, a partir da ilha de carga.

Então, isso faz parte, obviamente, de uma dubiedade do que você poderia fazer num cenário como esse. Foi curioso porque na coletiva do Trump ontem, ele queria a todo custo passar informações sensíveis. E as pessoas ao redor dele dizendo, olha, a gente não quer falar sobre isso, porque a ideia é exatamente manter o Irã meio no escuro com relação ao que os Estados Unidos podem fazer. É uma evasão ao território principal do Irã ou à ilha de Khark, isso aí fica a cargo dos planejadores militares. Agora, em qualquer...

Extremamente dramática, perigosíssima para os Estados Unidos, perigosíssima para o Irã, e eu diria perigosíssima para a estabilidade mundial como um todo. Ariel. Tanguy, acha que quando Trump resolva ou de certa forma encerre o capítulo iraniano, ele vai se concentrar? Qual será o novo alvo dele? Poderia ser Cuba?

Olha, Ariel, a minha aposta, na verdade, era que depois de agir na Venezuela, ele tentaria fazer algo contra Cuba. Quando a gente olha para a política externa dos Estados Unidos, os Estados Unidos tinham tradicionalmente algumas grandes dores de cabeça. Então a gente olhava para a Venezuela, um país que tinha sido aliado aos Estados Unidos durante muito tempo, mas que tinha um regime chavista desde o final da década de 90.

Ele foi lá e resolveu aquilo. Você tinha a Coreia do Norte, mas o Kim Jong-un é, de certa maneira, simpático ao Trump. Os dois já se encontraram no primeiro mandato e tudo. Ele tira da lista. Você tinha o governo do Zossad. O Bashar al-Assad caiu do governo. O governo dele caiu no final de 2024. O que faz com que sobrasse na prática dois.

que são o Irã e Cuba, dois países considerados pelos Estados Unidos como países financiadores do terrorismo, o que para os Estados Unidos é algo muito sério, talvez seja a pior classificação. Ele tinha por objetivo fazer uma operação rápida no Irã, eliminar ali o líder supremo e conseguir uma certa rendição.

o que não aconteceu para depois passar para Cuba. Isso não é segredo. Aliás, o Trump não consegue guardar segredo. Ele já falou sobre isso várias vezes, que ele adoraria ser o homem que teria a honra de tomar Cuba. Então, me parece que se ele conseguir se livrar do problema iraniano com uma certa rapidez, Cuba vai ser o próximo alvo. O problema é que eu acho que ele vai demorar para conseguir se livrar de qualquer coisa que aconteça no Irã.

Mas, certamente, Cuba tem que estar preocupado porque pode ser o próximo alvo de Donald Trump, sim.

Tanguy, muitíssimo obrigado mais uma vez pela participação aqui no Mundo Meia Hora. Tanguy Bagdadia, professor de Relações Internacionais e criador do podcast Petit Jornal. Até uma próxima, Tanguy. Até, muito obrigado, gente. Tchau, tchau. Então uma pausa aqui no Mundo Meia Hora. Daqui a pouco eu volto falando mais com Ariel Palacios sobre eleições no Peru já neste domingo.

De volta agora com o Ariel Palazzo para a gente falar um pouco mais sobre eleições no Peru, eleições neste domingo. Ariel, quem que é que está liderando nas pesquisas nessa corrida presidencial por lá? Bom, uma coisa é quem lidera, outra coisa é quem vai continuar liderando. O Peru é uma incerteza permanente, Fernando. Isso já tem uma década que é assim.

O Peru teve nove presidentes nos últimos dez anos. O presidente que será eleito na próxima eleição será o décimo em uma década. Ou seja, quem tomar posse em julho será o décimo presidente em dez anos. E essa instabilidade política fica muito clara em dois números. Um desses é o total de candidatos. Era de 36, morreu um, ficaram 35. É um recorde na história peruana, Fernando.

O outro valor que mostra essa instabilidade política peruana é a fragmentação da intenção de voto. Quer dizer, todos têm baixas proporções e falta menos de uma semana para a votação. Os três candidatos com maiores intenções de voto são todos da direita, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que foi ditador nos anos...

90, Keiko Fujimori disputa pela quarta vez a presidência da República peruana, o outro, Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, capital peruana, ultracatólico, ele próprio faz questão de dizer que não tem relações sexuais desde 1981.

que se autoflagela com silício todos os dias, e está Carlos Álvares, que é um humorista, um roteirista de TV, que se define assim, de direita, de esquerda e de centro. E Carlos Álvares propõe a pena de morte... Autêntico, hein?

Exatamente. Propõe retirar o Peru da Convenção Americana de Direitos Humanos. Esse é o perfil destes três. Então vamos lá? Quais são as intenções de voto? Então vamos dizer que é tudo muito fragmentado. Quando digo, falta uma semana. Mas não é novidade. Já foi assim na eleição anterior. Não era assim nas eleições prévias. Fujimori tem 18,6% das intenções de voto. Álvares teria 12,1% e López Aliagas...

contaria com 10,9%. Essa atomização de votos, mesmo que varie um pouco, isso vai dar que resultado, independentemente quais sejam as duas pessoas que vão passar para o segundo turno, o parlamento já vai ficar definido no domingo, e isso quer dizer que será composto por pequenos grupos.

Isso quer dizer que o próximo presidente, seja lá quem for, não terá maioria própria outra vez na história peruana. E isso é um grave problema. Foi assim de Pedro Pablo Kuzinski para cá. Ninguém teve maioria própria. A última eleição sem fragmentação na intenção de voto foi em 2016. Depois disso, todos os partidos políticos tradicionais...

da direita à esquerda, passando pelo centro, foram abalados por imensos casos de corrupção, basicamente por causa do caso Odebrecht. Por causa do caso Odebrecht, foram para a prisão os ex-presidentes Alejandro Toledo, o Janto Mala, o ex-presidente Alain Garcia não foi para a cadeia porque a polícia foi pegá-lo, ele pediu licença para os policiais, disse que ia pegar uma coisa no escritório dele, entrou, fechou a porta ali da casa.

e deu um tiro na cabeça e morreu com esse suicídio. Pedro Paulo Kuczynski foi para a prisão domiciliar e até Keiko Fujimori, que nunca foi presidente, mas era líder da oposição, também foi para a cadeia por um tempo, pelo caso Odebrecht. Aí tem o ex-presidente Pedro Castilho, que também foi preso, não pelo caso Odebrecht, mas por tentar um alto golpe de Estado. Então olha só o cenário que tem, além de...

Prefeitos, governadores que foram condenados, julgados, que estão na cadeia, enfim. Todos pelo caso Odebrecht ou outros casos. Então, quer dizer, é todo um cenário muito complexo para o Peru para este ano. Por incrível que pareça, apesar de todo esse embrólio político, a economia peruana continua indo bastante bem. A economia peruana não parou de crescer nesses anos.

todos, mas é uma dessas coisas que são peculiaridades de certos países, onde a política vai por um lado e a economia vai por outro. Se bem que também é uma coisa verdade, a macroeconomia vai bem, a microeconomia não, há uma divisão social imensa no Peru, que inclusive foi crescendo ao longo dos últimos anos, Fernando.

Então, eleição nesse domingo, segundo turno em 7 de junho, certo? Exatamente. Então, haverá um tempo ali, recordando que, da outra ocasião, Keiko Fujimori já começou a espernear contra Pedro Castillo, houve o segundo turno e ela esperneou que iria empugnar a eleição, havia uma minúscula margem de votos. O governo americano, na época, a União Europeia, todos os países da região... E aí

Falaram para ela parar, porque a eleição havia sido muito limpa. O sistema eleitoral peruano... O Peru pode ter uma série de problemas, mas o sistema eleitoral é muito sério e passa por uma série de crivos de fiscalização muito rigorosos. Então, naquela ocasião, falaram para ela parar e ela só deixou de chiar quando já quase estava chegando o dia da posse de Pedro Castilho.

Passamos para a Argentina agora para falar um pouco sobre a imagem de Javier Milley. Não está boa na Argentina, Ariel? Pois é, recordando que Milley em 2023 fez campanha presidencial com pose de outsider, prometendo combater a corrupção. Boa parte do eleitorado votou nele porque estava cansado da classe política argentina clássica, peronistas ou antiperonistas, todos mergulhados em casos de corrupção.

Dessa forma, no primeiro ano de mandato, a popularidade de Milley estava na crista da onda. Só que no segundo ano de mandato, ano passado, o governo começou a se envolver em vários escândalos de corrupção, a economia começou a ir mal de novo, então aí foi tudo enterrando para Milley. Um dos escândalos foi o da criptomoedas, que além dele envolvia a irmã Karina Milley em suboros.

que é a poderosíssima secretária-geral da presidência, que é irmã dele. O outro foi escândalo de propinas para conseguir contratos de empresas farmacêuticas para o programa do governo para pessoas com deficiências mentais e deficiências físicas. E aí depois o outro escândalo, o atual, que envolve o chefe do gabinete de ministros, Manuel Adorni, ex-portavoz de Miley.

um escândalo que tem a ver com as viagens de sua esposa em aviões da presidência da República, a esposa não é funcionária do governo, e além de outras irregularidades em imóveis dele e da esposa. Ele, que justamente é o braço direito...

de Milley. Então, isso está abalando muito o governo e abala a imagem do governo naquele quesito que eles juravam que eram imaculados, que eles diziam que não tinham nada a ver com a corrupção, que não se pareciam em nada.

aos governos anteriores e não. E agora a população percebe que, tal e qual, os governos anteriores também protagonizam os seus casos de corrupção. E junto com isso é economia. Por um lado, o presidente conseguiu, na semana passada, uma boa notícia, que foi a queda da pobreza. Mas não conseguiu celebrar isso direito.

Por quê? Porque houve outras más notícias também, superando as boas notícias. O desemprego está crescendo, mais empresas estão fechando, a inflação não para de subir desde o ano passado, desde meados do ano passado a inflação sobe, sobe, sobe e não para. E a perspectiva para este mês é que continue subindo mais ainda. Então, justamente, é outra das promessas de Milley, de acabar com a inflação. Bom, má notícia, a inflação está crescendo novamente e já faz quase um ano que está crescendo.

Uma pesquisa da consultoria Centrix afirma que 83,9% dos entrevistados sustentam que os salários que possuem são derrotados pela inflação. E outra pesquisa da Universidade de San Andrés indica que a imagem do presidente está piorando rapidamente. Essa pesquisa indica que...

33% dos entrevistados, somente 33, estão satisfeitos com a situação atual da Argentina. A pesquisa também mostra que 38% dos entrevistados aprovam o governo Milley e 59% desaprovam o governo Milley. Então, 59% desaprovam, 38% aprovam. É uma diferença imensa ali.

Outra consultoria Atlas, então, em parceria com a agência de notícias Bloomberg, dá um número mais alto ainda de desaprovação, 61%, Fernando. E a consultoria CB, que geralmente dava bons números ao governo Milley, agora indica que, de olho nas eleições presidenciais do ano que vem, 53% dos entrevistados prefeririam uma mudança de governo, enquanto que 41,3%...

optariam pela permanência do atual presidente. Então, o que estamos vendo é um cenário que vai se complicando para a Milley, já desde antes, se alguém for falar, ah, é por causa da guerra, o aumento do petróleo. Não, isso aí já está acontecendo desde antes.

desta guerra dos Estados Unidos com o Irã, que o Tanguy estava antes brilhantemente explicando. É como isso ocorreu com todos os governos argentinos. Uma coisa é o fator mancadas próprias, outra coisa são os problemas externos. Mas este governo, tal como os outros, tem um grande porcentagem de mancadas de autoria próprias. Tá certo. Ariel Palazzo. Ariel, mais uma vez, obrigado e até a próxima. Muito obrigado, Fernando, professor Tanguy. Abraço a todos.

Edição do Mundo e Meia Hora de Ellen Menezes, trabalhos técnicos de Isabel Gomes. Mundo e Meia Hora, duas edições em podcast por semana, terça e sexta, na programação da CBN, terça às 11h30 da noite e sábado às 9h da manhã. Até a próxima.

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