Pequenos Delitos (Parte III): O Garfo
Você escuta casos de furtos e roubos de carros, motos, cônjuges, dinheiro etc. Isso é o tipo de roubo"normal". Entrar no cinema sem pagar ou ludibriar garçom é diferente, mas pouco radical.
Uma vez vi um programa da Márcia com uma mulher que roubava a água da salsicha de cachorro-quente da vizinha. Isso sim é um roubo radical.
Meu último crime aconteceu em 2016, quando eu finalmente havia conseguido um novo emprego desde que o governo Dilma começou com minha demissão. Ninguém mandou trabalhar para o outro candidato, não é verdade? Saí de uma eleição presidencial para uma disputa municipal. O desafio era muito menor, mas longe de ser mais simples.
Primeiro porque me colocaram para um trabalho de campo. Queria ficar por conta das táticas ninjas de procedência pouco ou quase nada éticas, porém me escalaram para conversar cara a cara com os deputados e vereadores.
Era um caos porque 90% deles viviam no século passado. Nenhum tinha rede social. Não entendiam porra nenhuma do que era Instagram, Facebook etc. Pelo menos arrumei emprego/freela para algumas pessoas. Dentre as atividades mais loucas, estava uma visita na sede de uma das maiores torcidas do Cruzeiro.
Eu sou atleticano. Considerei não ir, mas lembra quando falei que gente jovem faz merda? Com 30 anos de idade, eu ainda fazia muita merda. Além disso, eles não iriam matar um enviado de um parceiro político. Não me mataram, pelo menos.
Brincadeiras a parte, foi quando conheci o Fubá. Ele é o torcedor do Cruzeiro que fica de roupa amarela de costas para o campo. Trocamos uma ideia, ele descobriu que eu era atleticano só de olhar para a minha cara, e encontramos algo em comum para reclamar: Globo, Flamengo e como o Corinthians tirou dois títulos de Atlético e Cruzeiro. Eles estavam fazendo churrasco na sede, mas eu já era vegetariano e fiquei apenas na cerveja.
Cerveja remunerada, diga-se de passagem.
Depois foi o baseado remunerado, balançando o ombrinho observando os preparativos da torcida para o jogo que aconteceria logo mais tarde. Até me convidaram para ir junto. Tive que recusar porque precisava voltar para o QG da campanha e trabalhar a tarde toda, mas ninguém insistiu. Afinal, estavam apenas sendo simpáticos de convidar um atleticano. Mal sabia que se eu tivesse ido, talvez teria evitado cometer um crime…
Antes da visita de campo, dos líquidos e da fumaça, deixei minha marmita na geladeira do QG. Quando voltei, óbvio, adivinha quem atacou de novo? A velha amiga larica. Sempre ela. Maconha pode deixar a gente de boa, mas acabei de perceber que ela foi o elemento em comum para dois crimes. Ela só não é culpada porque existe outro elemento em comum em todos os crimes: falta de dinheiro.
Peguei um copo plástico para tomar café e deixei meu almoço esquentando no microondas. Foi só então que percebi a situação. Eu tinha a comida, mas não tinha como comer a comida. Esqueci a porra dos talheres em casa. E acredite se quiser, mas não existiam garfos ou facas no escritório. Esses políticos economizam até nisso.
Chapado (de fome) fiquei com a marmita na mão e tentando entender como resolver o problema sem precisar apelar para comer arroz e feijão com as mãos.
Foi quando bateu (a ideia).
No dia anterior, eu fui lanchar em um mercado super inflacionado da cidade. Vamos chamá-lo de Azul-grama (risos). Eles tinham garfos e facas lá. Fechei a marmita e saí do escritório para uma caminhada desintoxicante até o mercado. Quando cheguei, não fui para o corredor de talheres. Fui para o restaurante, pedi um pão de queijo e um garfo. Paguei pelo pão de queijo e guardei o garfo no meu bolso. Fui embora sorrindo com a minha coragem e ousadia. Um pequeno passo para o garfo. Um grande passo para minha ficha criminal. Eu era um rapaz de classe média perigoso saindo do Azul-grama com um garfo furtado escondido no bolso. Ei, esfihas! Ainda estou de olho em vocês.
Me senti muito incrível e vitorioso (na minha playlist mental tocava “We Are the Champions", do Queen) enquanto esquentava a marmita novamente e, enfim, pude me alimentar adequadamente. Eu era um ladrão alimentado. Pronto para ter horas da minha vida roubadas por um candidato mequetrefe que não investiu nem em garfos e talheres no QG.
Lavei o garfo, enfiei ele no bolso, fui para a nossa sala e compartilhei toda a aventura com a minha colega Carol. Pois é. Eu era um jovem. Jovens falam demais. Jovens fazem… Ao invés de guardar segredo, tive que abrir a boca para a pessoa mais sacana da equipe — e por isso mesmo, uma das poucas que eu gostava de conversar. A Carol ficou séria.
“Mas… você furtou um garfo no Azul-grama? Eles têm câmeras, cara. Você é muito burro. Imagina quando os seguranças chegarem aqui e falarem com a coordenadora? O que você acha que ela vai fazer com você? E tá esquecendo que o escritório dos concorrentes é pertinho do nosso? A gente perdeu a eleição por sua causa. Isso foi muito idiota.”
Dividido entre acreditar no que ela falou e lembrar o quanto ela tinha um senso de humor ácido, escolhi acreditar. Minha consciência ficou pesada. “Porra, Carol! Eu não quero ser preso e perder outra eleição. Não vai ficar bem no meu currículo ser o cara que fez um muquirana perder a prefeitura porque roubou um garfo no Azul-grama! Vou lá devolver.”
Carol chegou até a me ameaçar. “Se você não devolver, eu vou te denunciar, seu ladrãozinho!” Com o cu na mão, voltei correndo para o mercado. Cheguei no restaurante, agachei no chão perto de um balcão e quando me levantei, falei que tinha achado um garfo no chão. O moço me agradeceu e seguiu a sua vida, levando meu parceiro de aventuras embora.
Quando voltei, aquela filha da puta tinha contado tudo que fiz para algumas pessoas e estava chorando de rir da minha cara. Ela perguntou que porra eu tinha na cabeça de ter acreditado nela e ter devolvido o garfo, afinal, alguém poderia precisar um dia.
E é isso. Essa foi a minha vida criminosa em três atos. Meu último roubo foi o coração da minha esposa, mas isso ninguém vai denunciar — exceto ela mesma, claro.
Quer contribuir com a Newsletter?
Além das assinaturas pagas no próprio Substack, você pode adquirir qualquer um dos meus ebooks. Todos os cinco livros estão disponíveis na Amazon.Três são técnicos — voltados para marketing digital e empreendedorismo.Dois são de ficção — pra quem gosta de histórias que parecem mentira (mas não são).
Também faço consultoria de Instagram.Te ajudo a entender sua conta, parar de postar qualquer coisa e transformar seu feed num projeto com direção estratégica de verdade.
This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit tulliodias.substack.com