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Armas Salvam Vidas SQN

16 de setembro de 202511min
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Um influente político norte-americano de direita foi assassinado covardemente na última quarta-feira e a internet só fala desse assunto. Afinal, o que isso muda na vida de quem vive no Brasil?O acontecimento ofuscou até mesmo o curioso cenário atual de presidente ex-presidiário vs ex-presidente presidiário no Brasil.

A maioria nunca tinha ouvido falar de Charlie Kirk. E tudo bem — ninguém é obrigado a consumir lixo estrangeiro fora os filmes da Marvel. Mas eu explico. Ele era uma versão ianque do Nikolas Ferreira com mais capacidade de falar merda e de desafiar seu presidente — dizem que a relação de Trump com Kirk azedou por conta da insistência do falecido em investigar o caso Epstein. O seu legado agora é enaltecido por quem nunca tinha ouvido falar dele e seu arsenal de ideias radioativas. Dizer que ele morreu por suas ideias seria um exagero. Ele morreu apesar delas. É claro que não se justifica a morte de ninguém — mas também não se canoniza o vilão só porque virou mártir.

"Nunca é certo justificar o extermínio em massa de pessoas sob o pretexto de que elas são indesejadas. Foi assim que chegamos a Auschwitz, o maior horror do século XX". Em seguida, questionado se estava comparando a interrupção da gravidez com o Holocausto, ele afirmou: "Absolutamente, estou. Na verdade, é ainda pior." — Via UOL

Kirk não gostava da palavra “empatia”. Nas palavras dele: "um termo inventado da nova era que causou muitos danos".

Vou pular a parte dele falar que se a filha de 10 anos fosse estuprada e engravidasse, ela teria a criança ou seus pensamentos sobre a Lei dos Direitos Civis de 1964. Ele provavelmente defendia o racismo inverso. Ele também tinha um lado profeta, como na sua defesa das armas de fogo.

“Acho que vale a pena ter o custo, infelizmente, de algumas mortes por armas de fogo a cada ano, para que possamos manter a Segunda Emenda e proteger nossos outros direitos dados por Deus. Isso é um acordo prudente. É racional…”

Me chamaram a atenção por “supostamente” celebrar a morte do sujeito. Acho que existe uma grande diferença entre comemorar e não se importar. Podemos lamentar o acontecimento e ser indiferente com a vítima. Complexo e insensível? Calma.

O crime foi covarde. Em hipótese alguma podemos concordar ou apoiar a violência, seja ela contra quem for. Ter esse pensamento não precisa fazer de ninguém hipócrita de lamentar por Charlie. Segundos antes de ser atingido, o sujeito, literalmente, estava com o microfone na mão mentindo sobre pessoas trans serem responsáveis pela maior parte dos tiroteios em massa nos EUA.

No caso de Charlie Kirk, sua grande mensagem foi “armas salvam vidas”. Ninguém vai discordar que ele era um péssimo embaixador da própria causa.

De longe, a gente observa as consequências do crime político ou de vingança dos defensores da empatia. O responsável por beneficiar o PCC a partir de fake news, por exemplo, iniciou uma caça às bruxas querendo que donos de empresa demitam funcionários de esquerda. Como não bastasse, também incentivou a violência: “seja a extrema-direita que eles tanto tem medo.”

Mas por que um assassinato político norte-americano deveria preocupar brasileiros? Porque os mesmos padrões de incitação e polarização se replicam aqui.

Os nervos estão aflorados após a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão do genocida, que muitos chamam de perseguição. Cazuza dizia “eu vejo o futuro repetindo o passado”. Estamos em 2018 de novo? É o mundo invertido dos presidentes brasileiros? Isso me deixa confuso.

Quando um irresponsável incita a sua audiência assim, ele não está defendendo seu país. É apenas o ódio e a desordem falando. Assim como o finado Charlie, Nikole não tem a mínima ideia do que é empatia e muito menos se preocupa com as consequências de mais violência.

Meu receio é que em breve a gente não precise mais viajar para a Disney para se sentir nos EUA. Bastará ir em qualquer evento público, em escolas ou universidades, e correr o risco de descobrir o que a cultura deles têm de pior.

“Você está exagerando… Não é bem assim.”

Essa polarização não é abstração teórica. Ao questionar publicamente a ironia da morte de Kirk em uma publicação no Instagram, experimentei em pequena escala o mesmo padrão de violência verbal que ele ajudou a tentar normalizar.Tudo que fiz foi perguntar: “Qual foi a grande mensagem dele? Armas salvam vidas?” e tive que fazer um grande exercício de controlar meu sarcasmo para não ajudar (mais) o autor do post original.

Uma pergunta pertinente, especialmente porque “armas salvam vidas” é a mensagem do cara. Recebi mil ofensas. Algumas poucas eram engraçadas, embora a maioria escancarasse o baixo nível do brasileiro médio. Não existiu espaço para discussão. Foram direto para ataques e ameaças de morte, como se fosse ficar tudo bem cometer crime em público.

Dizem que não devemos discutir política, religião e futebol. Isso é uma forma de não expor a incapacidade natural de ouvir e respeitar quem pensa diferente. Não existe evolução se a gente vive na zona de conforto. Não discutir política é exatamente o que fez existir um ex-presidente (futuro) presidiário e seus filhotes, como o Nikolas e outras aberrações. A seletividade moral salta aos olhos. Quando Leo Lins foi condenado a prisão por piadas escrotas, muitos dos que agora se doem por Charlie defenderam a liberdade de expressão com unhas e dentes. Na época, defendi o direito de fazer piada — e fui chamado de nazista. Hoje, justiceiros atacam quem ironiza que Kirk não desviou de balas como desviava de perguntas. E, sim, também é curioso ver a esquerda repetindo o que antes chamava de absurdo.Queria acreditar que as pessoas aprenderam que o humor não existe apenas para ser válvula de escape, mas como ferramenta para causar desconforto e reflexão. Mas é só mais um episódio da guerra de direita x esquerda. No fim, nem esquerda, nem direita desviam das próprias contradições, enquanto a maioria das pessoas apenas tenta desviar das balas — algumas de chumbo, outras de ignorância, todas disparadas em nome de alguma causa ‘maior’.

PS: Descobri a existência do termo “Whataboutismo”. Basicamente, é quando você fala um monte de coisa para alguém de direita e a pessoa responde “e o Lula?” de forma totalmente aleatória e sem sentido. Ou seja, responder uma acusação com uma contra-acusação. Foi difícil ignorar o massacre em Gaza como um ponto que realmente merece preocupação e lamentação. E fracassei miseravelmente nisso agora.

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