Molho de tomate
Comemorei três anos de casamento no último dia 21 de setembro. O prêmio, além da esposa, foi jantar no Gennaro, um restaurante italiano lotado — mas com tomates realmente gostosos.
Eu tenho uma coisa com tomates. Nas duas vezes que jantamos no Est! Est! Est!, fiquei absolutamente apaixonado pelo tomate. É o melhor que já comi na minha vida. Uma pena que cada visita ao restaurante seja um bônus a mais na conta da minha gerente do Itaú.
A cozinha trouxe duas entradas para a gente (não foi presente, diga-se de passagem), o que dependendo do ponto de vista é um problema. Afinal, quero reduzir meu panceps e economizar. As duas coisas estão diretamente conectadas com o controle da gula e evitar restaurantes indianos, mexicanos e/ou italianos. Mas como você resiste a entradas italianas? Foram quatro brusquetas surreais e depois vieram uns pães com queijo e nozes. Preferi a brusqueta pelos tomates. Natalia preferiu o treco com as nozes.
Depois da entrada, pedi um ravioli de muçarela de búfala. A primeira impressão foi que enviaram pouca comida. Acho que queriam ter papel ativo na minha dieta. Mas esses pratos gigantescos dos restaurantes italianos enganam a gente. Senti como se fosse a porra de uma tijela de açaí de 500 ml, só que com molho de tomate e ravioli de queijo. Era muita comida.
Natalia pediu um macarrão com cogumelo do cheiro forte. Não ousei descobrir o gosto daquilo, especialmente porque o cheiro não era nada convidativo. Quando você pede um prato com shitake, é melhor não irritar o garçom ou o cozinheiro. Ou você não vai conseguir diferenciar o aroma característico de uma possível mijada remunerada de um funcionário irritado.
A comida estava muito boa. O molho de tomate era "real”. Sem essas porcarias industrializadas que a gente insiste em chamar de molho. Não sei você, mas queria encontrar um bom lugar para comprar tomates e preparar molhos tão bons quanto os desses mafiosos. E deu para pagar tudo sem muito choro. Se fosse no Est! Est! Est!, a conta teria ficado 700% mais alta — mas aquele tomate...
Três anos de casamento. É muito tempo. Especialmente para quem nunca teve um relacionamento que durasse tanto sem qualquer interrupção. Ou pausas. Ou tempo. Me sinto o Michael Phelps dos relacionamentos.
Pela minha experiência, o maior desafio de um casamento é a questão financeira. Desde que iniciamos nossa história juntos, passei por três empregos: uma empresa fechou, a outra descobriu que não precisava mais de redatores em um mundo de IA, e a terceira era o bingo da cultura tóxica.
Natalia segura as contas porque eu sou um fodido. O amor é cego e filantrópico. Às vezes me pergunto se ela tem consciência que está pagando todos os pecados das vidas passadas. Ou então, eu devo ser muito engraçado, decidido, parceiro e bom de cama. Uma dessas coisas, definitivamente, é mentira. (Você sabe qual delas!)Talvez ela continue aqui pelo cinema e música de graça. O plano é dar um jeito de ter jantar e viagem de graça também. O comunismo venceu.
Ou porque ela saiba que logo vou ganhar na loteria. Pode ser o plano de investimento financeiro dela. O que é peculiar, já que o perfil de investidor dela é bem conservador. Justo no amor, ela adota um perfil agressivo.
Gosto de ficar casado porque o Steven Tyler não mentiu quando escreveu: “life is a journey not a destination”. Cada novo dia é uma forma de reinterpretar aquela pessoa, acompanhar sua evolução, suas frustrações, suas alegrias, suas conquistas etc. A gente não consegue isso em relacionamentos porção-única. O gostinho da novidade é meio shitake, no final das contas. E eu não gosto de cogumelos. Nem que mijem em mim.
Você sabe o que eu gosto…
Molho de tomate.
Um bom molho de tomate não fica pronto em cinco minutos (quem fala isso, não sabe o que está fazendo — e provavelmente arruinou bons tomates). Precisa de calor para apurar o sabor, deixar a mágica dos temperos acontecer, jogar tudo no liquidificador etc. É como um casamento. A cada dia fica mais profundo e consistente. E o ingrediente secreto da receita é o tempo. Você precisa misturar bons ingredientes. Cebola, cenoura, pimentão, manjericão, alho… e tomates. Você não precisa ter dedo verde para entender que o cultivo, cuidado e preparo desses alimentos são bem diferentes. A mesma coisa acontece quando um perfil investidor conservador se derrete por um louco agressivo. Quando fogo se mistura com água. Quando uma tartaruga se apaixona por um coelho. E precisa de talento para fazer a mistura dar certo. O sabor é afrodisíaco.
Também posso dizer que um bom molho de tomate nunca é uma receita finalizada. Sempre há como inovar, mudar uma coisa ou outra, trocar a ordem (exceto a parte das cebolas com açafrão e páprica. Essa parte é sempre o começo de tudo) e adaptar a receita para o momento. A gente sabe reconhecer o outro pela energia, na vibração, no olhar, nas palavras não ditas. Às vezes, não tem cenoura ou cebola ou pimentão. Ou tudo necessário para fazer um molho. Nesse caso, que bom que existe o sócio favorito da minha fatura de cartão de crédito: iFood.
Por fim, quando acontece o raro caso de sobrar molho de tomate, afinal, pessoas casadas têm fome, você guarda, congela e usa de novo no outro dia (especialmente quando você é pobre). Três anos ensinam a conservar amor, cuidado, paciência e parceria.
Acredite quando digo: não tem nada melhor no mundo que um bom molho de tomate. Cuide do seu molho. Faça mais molho. Quer contribuir com a Newsletter?
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