Episódios de Tulices

Nem peixe?

30 de setembro de 20257min
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Fui assistir Uma Batalha Após a Outra (leia a análise) semana passada. Acho incrível quando acontece de em um intervalo curto de tempo, conferir produções fora de série. Nesse intervalo de duas semanas também vi Amores a Parte, A Vida de Chuck, Sirat e O Agente Secreto.

Todos estarão na minha lista de melhores filmes de 2025 lá no Cinema de Buteco.

Ainda não defini meu ranking oficial, mas vou deixar uma pré-lista de indicações especialmente para os assinantes da newsletter.

10- Serra das Almas (Netflix)9- Warfare (Prime)8- Amores a Parte (em breve no streaming)7- Homem com H (Netflix)6- Sirat (sei lá quando estreia)5- O Agente Secreto (estreia em novembro)4- Acompanhante Perfeita (HBO Max)3- A Vida de Chuck (em breve no streaming)2- Reformatório Nickel (Prime)1- Uma Batalha Após a Outra (cinema)

É a primeira vez, desde quando iniciei o Buteco em 2008, que meu top 10 inclui três produções nacionais. Sem bairrismo: são filmes espetaculares mesmo.

Como está o seu ranking?

Uma pesquisa IBOPE de 2018 indica que 14% da população brasileira se declara vegetariana. Outra pesquisa mais recente, desta vez do Datafolha, revela 7% da população como vegana.

Você sabe a diferença?

Vegetariano: não come carne, mas consome ovo, leite, queijo etc. Vegano: não consome nada de origem animal.

Em 2013, decidi parar de comer carne. Dependendo da pessoa (e do meu humor) eu conto duas histórias diferentes para explicar porque adotei esse estilo de vida.

A versão engraçada: prometi que pararia de comer McFish se o Galo ganhasse a Libertadores. A maioria das pessoas fica incrédula — com aquela expressão que somente os desprovidos de entender um amor conseguem ter.

A versão oficial: depois de ver o documentário Blackfish, sobre as baleias no Sea World e seu dever cívico de assassinar os responsáveis por transformar seu cativeiro em espetáculo. Fiquei tão impactado com o doc que tatuei uma baleia no meu antebraço na época em que abandonei as carnes.

Conto qualquer uma dessas histórias porque aprendi que, nessa pauta, o que incomoda não é minha dieta, é o desconforto que ela causa em quem nunca parou pra pensar no próprio prato.Até porque, ainda é socialmente aceito fazer piada com o estilo de vida dos outros. Especialmente quando é diferente do seu.

Depois de quase quinze anos, aprendi a criar silêncios incômodos — antes aliviados com sorrisos que não existem mais — quando perguntam “nem peixe?”.

Peixe é verdura, por acaso?

Particularmente, não acredito em limites para piadas. Qualquer coisa pode ser engraçada (e também precisa estar preparado para lidar com as consequências do que é dito).

O problema é quando tentam te diminuir em comentários disfarçados de “piadas” e se você devolve a “brincadeira”, te chamam de radical.Tipo quando alguém fala: “vegetariano é aquela pessoa que olha para um churrasco e reclama de quantas vidas de alface foram extintas por essa farofinha?”, e você responde: “e carnívoro é aquele sujeito que julga vegetariano como se fosse uma seita, mas passa o sábado inteiro lambendo osso e justificando com ‘instinto primitivo’, quando seu maior instinto hoje é pedir iFood e evitar lavar a louça.”

Não tem jeito.

Nesse assunto é necessário muito controle para não falar tudo que penso e correr o risco de ser igual a todo extremista defendendo a sua causa/crença.

Nada contra discutir e conversar com quem não está no jogo do deboche gratuito. Ou não repete as mesmas piadas de tio do pavê enquanto te oferece um pedaço de bicho morto no prato.

Tanto o Michel, em Edifício Alvorada, quanto o Thiago, em O Almoço de Natal, são vegetarianos. Esse é um tema recorrente em tudo que escrevo. Não ligo de criar personagens extremistas.

Assim como o terrorismo revolucionário é uma esperança em Uma Batalha Após a Outra, uso a literatura como veículo para tentar criar mais consciência nas pessoas. Ou só deixar os sócios da Friboi irritados.

Uns sete, oito anos atrás, inventei uma estratégia para gerar desconforto inconsciente. Não uso mais a palavra “carnívoro”. Simplesmente é “não-vegetariano”.

Parece que o jogo mudou, b***h. É gostoso quando você prova do mesmo prato que serve para os “não-cristãos” ou “não-brancos” ou “não-héteros"? Não ser o padrão é desconfortável?

É uma estratégia passiva-agressiva. É sutil. E incomoda. Se depois de tantos anos ainda acham engraçado perguntar se eu como peixe, tudo bem. Eu rio também. Não da piada, mas da naturalidade com que você mastiga cadáveres.

Bom apetite!

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PS: Defender vegetarianismo tem um impacto muito mais forte/negativo que falar de política, religião, transar de meia ou futebol. Mas sou kamikaze por natureza. Foda-se.


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