E aí, gatinha?
Se você ligar a televisão no Discovery Channel para assistir a um documentário sobre os homens, certamente encontrará certos clichês de comportamento da espécie.
Coisas como coçar o saco em público, não lavar a mão depois de mijar ou virar o pescoço para trás (como se fosse a Reagan, de O Exorcista) sempre que passam por uma mulher são características típicas do comportamento masculino.
Se fosse para comparar com um animal, a melhor opção seriam os pombos. Pode reparar. Na maioria das vezes que um homem encontra uma mulher atraente (ou seja, todas elas), rola aquela mudança de postura. Estufa o peito (independente do chassi), muda o tom da voz e mostra um pouco da tão invejada autoestima do macho hétero.
A pior parte é que a maioria nem percebe que faz isso. Eu mesmo só fui me dar conta quando meu amigo Thiago fez questão de me zoar — na frente de uma garota aleatória que estava na fila do Burguer King que achou graça e começou a rir. Aqui é preciso deixar claro que ela não estava rindo comigo, mas de mim. Humilhante assim.
Talvez seja até mais constrangedor que buzinar para mulheres desconhecidas na rua. Eu nunca entendi essa. É herança do calhambeque do Roberto Carlos? Alguma mulher realmente vai dar atenção para um motorista de Uno?
Reflexões a parte, hoje eu vou compartilhar porque nunca fui o cara que mexia com mulheres (e não foi porque nunca aprendi a fazer “fiu fiu”). Mas antes, preciso confessar que passei o domingo chorando vendo um documentário sobre Jeff Buckley — o que já diz muito sobre o tipo de homem que me tornei versus o que eu queria ser aos dez anos de idade...
Domingo, 12 de outubro, dediquei minha tarde para assistir ao documentário It's Never Over, Jeff Buckley. Bem. Eu sabia que seria pesado e iria mexer demais comigo, mas não imaginava que seria tão pesado assim. Chorei a porra do filme inteiro. Primeiro porque o doc é lindo. Segundo porque é o Jeff Buckley. Terceiro porque eu faço essas coisas.
O problema foi descobrir que o choro me deu crise de sinusite. Acordei com os olhos e a bochecha doendo. Ficar velho é uma desgraça. Nem me emocionar em paz posso mais.
O doc não está disponível em nenhum streaming no Brasil por enquanto. A review sem spoilers está no Cinema de Buteco.
Agora sim eu posso compartilhar meus motivos para nunca ter mexido com garotas aleatórias na rua. Tenho certeza que você vai rir do mesmo jeito da menina do Burguer King. Talvez eu seja mesmo um palhaço.
Tudo começou em 1995.
No alto do poder de observação que é possível ter aos dez anos de idade, identifiquei que um coleguinha chamado Marcos tinha um jeito especial com as garotas. Ele já tinha beijado mais vezes que fez aniversário na vida. Ele era dono de um harém da pré-adolescência.
Éramos tipo versão genérica um do outro. Magrelos, baixinhos e com o mesmo corte de cabelo de Playmobil. A maior diferença era de atitude. Ele tinha, eu não. Mas como eu queria dar meu primeiro beijo na boca, fui pedir ajuda para o Marcos. “Cara, como você faz? Me ensina!”.
Com dez anos de idade, o Marcos exalava confiança. Ou fingia muito bem. O que é praticamente a mesma coisa. Lembro dele sorrir enquanto explicava seu segredo. “É muito fácil. Você só precisa chegar na menina e falar ‘e aí, gatinha?’ e pronto.”
Foi uma revelação estranha. Ao mesmo tempo frustrante e surpreendente. Acho que eu esperava algo diferente, quase místico. Descobrir que tudo se resumia a “e aí, gatinha?” parecia simples demais, mas eu tinha sede de conquista, sem nem ter ideia que beijo envolvia colocar a minha língua dentro da boca de outra pessoa.
Marcos estava perto de mim quando escolhi a minha “gatinha”. Marcos me incentivou a chegar nela. Marcos disse que ela realmente era muito gatinha.
Cheguei perto de uma loirinha e soltei o Avada Kedavra da sedução. Do jeito que o Marcos falava, era quase como um feitiço e nenhuma garota resistiria.
“E aí, gatinha?”
Com dez anos de idade, eu não tinha ideia do quanto falar aquilo era impactante. Me senti otimista. Me senti confiante. Eu seria o novo pavão mirim do pedaço. O menino que encantava garotas. Ou pelo menos foi como me senti durante os poucos segundos entre terminar de falar e a reação da garota.
Enquanto Marcos usava suas armas para salivar, eu fiz a menina começar a chorar. Talvez ela tivesse alguma fobia de gatos. Nunca vou saber. O fato é que aquela criatura desgraçou a gritar e chorar muito na minha frente. Tudo que eu consegui fazer foi correr para o mais longe possível sem entender porra nenhuma.
De repente fui cercado por um grupo de pirralhos. Eles me carregaram e arrastaram até a diretoria. No dia seguinte, os meus pais foram chamados na escola. Os pais da menina também. E ela chorou de novo quando me viu. E chorava todas as vezes que me encontrava no recreio. Precisei evitar sair da sala no recreio. Ou ficar escondido perto dos lugares onde o Marcos ficava com suas peguetes.
A verdade é que peguei dois traumas de uma vez. Não apenas nunca ousei mexer com qualquer menina desconhecida, como evitei ao máximo lidar com loiras. Acabei descobrindo que meu destino era mais próximo do Jeff Buckley que poderia imaginar: emocionalmente confuso, mal compreendido, e com talento pra fazer gente chorar — de rir da minha cara.
Ah. Também aprendi uma lição valiosa: nunca confiar em nenhum Marcos.
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