Episódios de Os Monstros de Julia

Mudanças

25 de setembro de 202629min
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Mudanças afetam a nossa personalidade? Mudanças que nós planejamos nos afetam menos?

Poesia:

Se um rio se assustasse com o movimento que o vento provoca,Ou com o fluxo que as pedras modificam,Ele continuaria sendo rio?Se não houvesse mudanças, eu continuaria sendo humana?

Pesquisa:

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22059843/

Instagram: @juliariguez

Participantes neste episódio1
J

Julia Riguez

Host
Assuntos5
  • Impacto das grandes mudanças de vida no bem-estar subjetivobem-estar afetivo e cognitivo·meta-análise longitudinal·8 grandes eventos da vida·adaptação às mudanças
  • O custo emocional das mudanças e a necessidade de adaptaçãomudanças exigem adaptação·custo emocional das mudanças·tempo de assimilação·abrir mão de versão antiga
  • Efeitos de eventos específicos na satisfação com a vidacasamento e efeito lua de mel·divórcio e melhora pós-separação·desemprego como mudança difícil·reemprego e recuperação do bem-estar·aposentadoria e reconstrução da rotina·mudança de cidade e aumento do bem-estar
  • A impermanência como condição da existência e a dificuldade de lidar com incertezasvisão oriental da impermanência·sofrimento ao buscar estabilidade·natureza em constante mudança·desejo de controlar o inevitável·dificuldade com incertezas
  • A inspiradora trajetória de Julia Child e sua paixão pela culináriaJulia Child, chefe de cozinha·carreira diversificada antes da culinária·descoberta da culinária francesa·estudo na Le Cordon Bleu·publicação do livro de culinária·sucesso com o programa The French Chef
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JRJulia Riguez

Olá, olá! Como é que vocês estão? Passando por muitas mudanças? Você já viveu um momento em que algo importante acabou, alguém foi embora, você começou uma nova carreira ou se mudou de cidade, de país e teve que reinventar toda a sua vida? Será que mudanças afetam a nossa personalidade? Eu sou a Júlia Riquez, hoje vamos falar de mudanças. Elas assustam, né? O novo sempre assusta, mas não tem como a gente fugir disso, então, bora falar sobre isso.

Bom, independente da mudança ser boa ou ser ruim, mudança exige adaptação. É justamente essa adaptação que costuma cansar, costuma assustar, mas também costuma transformar a gente. Quanto mais reorganização a mudança exigir, mais estresse ela vai gerar. Então, primeira coisa: toda mudança tem um custo emocional. Então, tenham paciência com vocês mesmas nesses momentos. Não tem como não ter esse custo. Cada mudança e cada pessoa vai precisar de um tempo de assimilação.

O grau de dificuldade vai mudando, né? Não existe regra. Mas sempre tem um custo. Tem mudança que a gente mesmo escolheu fazer, beleza, continua tendo custo, né? Mas costuma ser um pouquinho mais tranquilo porque foi a gente que correu atrás disso, né? A gente desejou essa mudança. Agora, quando é uma mudança que a gente não escolheu, aí a gente costuma sofrer mais, porque a que a gente escolhe, a gente dá uma romantizada, sabe?

Não é que não tenha, não seja difícil também, é difícil, mas a gente dá uma romantizada, a gente parece que não quer admitir que tá difícil porque foi a gente que escolheu. Mas no fim, todas elas exigem o mesmo trabalho interno, que é abrir mão de uma versão antiga de nós mesmas, porque diante dessas transformações, dessa mudança, não há como aquela antiga versão de mim mesma existir. Então é profundo e é natural. Gente, desculpa, viu, se minha voz tá meio estranha, nariz tá meio estranho.

É São Paulo, é o clima de São Paulo, estamos em crise climática e enfim, cada vez mais sentindo o peso disso, né, inclusive nas nossas narinas. Mas vamos lá, porque é chegada a primavera, a gente tem que sempre fazer a nossa parte, olhar de um modo positivo para essas questões, porque é o que a gente pode fazer, né? Se informar, fazer a nossa parte e seguir. Hoje a gente vai já deixar a pesquisa logo aqui no início, porque ela é bem interessante e fala de vários tipos de mudança.

Então acho que vai ser bom adiantar ela para nossa conversa. Vamos lá? Vamos de pesquisa? O nome da pesquisa é: Bem-estar subjetivo e adaptação a eventos da vida: uma meta-análise sobre diferenças entre o bem-estar cognitivo e afetivo. Foi realizada em 2012, ela é do tipo meta-análise longitudinal. Meta-análise é aquilo que eu sempre trago para vocês, onde os pesquisadores pegam várias pesquisas E a partir dos resultados delas, da análise delas, eles criam uma conclusão mais robusta.

E longitudinal são pesquisas, né, que se dão ao longo do tempo, acompanhando os participantes ao longo do tempo. Então é uma meta-análise longitudinal. Nesse caso, os autores reuniram dados de 65.911 participantes. É muita gente, né? E, bom, eles analisaram 8 grandes eventos da vida, que são: casamento, divórcio, viuvez/luto, nascimento de filhos, desemprego, reemprego, aposentadoria e mudança de cidade ou país. O objetivo era responder essas duas perguntas.

Primeira: grandes mudanças afetam de forma diferente as nossas emoções? E a nossa avaliação da vida? Segunda pergunta: as pessoas realmente se adaptam às mudanças? Quanto tempo isso leva? Bom, os autores diferenciaram dois tipos de bem-estar, para começo de conversa. O bem-estar afetivo, que se refere ao que a gente sente, por exemplo, felicidade, tristeza, ansiedade, humor. Beleza até aqui? Bem-estar afetivo. E o bem-estar cognitivo, que é o que a gente pensa sobre a nossa vida.

Por exemplo, satisfação com a vida, satisfação com o casamento, satisfação com o trabalho, uma visão mais ampla assim, né, da nossa vida como um todo, como a gente vê ela um pouco mais de cima. Conseguiram gravar? Bem-estar afetivo, que a gente sente bem-estar cognitivo, a nossa satisfação com a vida. Por que essa separação? Os autores defenderam que ela é importante porque uma pessoa, ela pode se sentir bem emocionalmente e, ao mesmo tempo, avaliar a vida dela de uma forma negativa, ou o contrário, né?

Então, a pessoa, ela pode não estar satisfeita com o trabalho dela, mas isso não quer dizer que ela vive triste, que ela vive ansiosa. Pode ser que ela esteja bem emocionalmente, esteja passando por uma fase boa, mas se perguntar, ela não acha que o trabalho dela tá legal, entendeu? Que ela não tá satisfeita com a profissão dela, com a carreira dela, enfim. Assim como em outras áreas, né? As pessoas vão vivendo a vida, né? Elas vão se conformando.

Por isso que é importante ter essa distinção, né? Ou ao contrário, a pessoa tá muito bem, a vida tá boa assim, se você perguntar se ela tá satisfeita com a vida dela, com o trabalho dela, vamos seguir nesse exemplo, né? Com a profissão, com a carreira, enfim. Não, tô satisfeita, eu acho que tô indo num caminho legal, acho que tá tudo bem. Mas emocionalmente ela não tá bem, ela tá triste, ela tá com questões. Isso é normal, né?

As nossas emoções, elas mudam o tempo todo também. Então, por isso é importante essa distinção. E o que que é uma mudança de vida para os pesquisadores? São basicamente transições que marcam o início ou o fim de um determinado status. Isso para eles é um evento de vida que aqui no episódio a gente tá chamando como mudança, mas é claro, existem mudanças pequenas e existem essas mudanças maiores. A gente tá falando dessas mudanças maiores, ou seja, repetindo, né, transições que marcam o início ou fim de um status.

Então, por exemplo, você era solteira, agora você é casada. Você era empregada, agora você é desempregada. Tá morando num lugar, vai morar em outro. Ou seja, mudanças de identidade social. Isso costuma mexer muito com o ser humano. E aí tem uma curiosidade, né, nessa pesquisa, que eles dizem que durante décadas existiu a ideia da chamada esteira hedônica, que era uma teoria que dizia que as pessoas sempre voltariam rapidamente para o mesmo nível de felicidade depois de qualquer acontecimento importante.

Mas essa meta-análise mostrou que isso é uma simplificação excessiva, assim, não é bem assim, porque a direção e a magnitude da reação que a pessoa vai ter ali na mudança, assim como a velocidade com que ela vai conseguir se adaptar, varia bastante dependendo de qual é o evento da vida que está sendo mudado. Ou seja, nem toda mudança é igual e algumas deixam marca por anos. Então, eles foram separando por tipos de mudança. A primeira é o casamento.

Eles dizem que logo depois que a pessoa casa, a satisfação com a vida dela aumenta. Eles até chamam de honeymoon effect, de efeito lua de mel. O que acontece depois? A satisfação vai diminuindo gradualmente até voltar ao nível anterior ao casamento. Ou seja, o casamento gera um pico temporário de satisfação ali, mas ele não produz um aumento permanente da felicidade da pessoa. Pessoas casadas não vão ficar bravas comigo, ou pessoas que querem casar.

A pesquisa que está dizendo, e me parece bem razoável, me parece que faz sentido, porque realmente quando a pessoa vai casar, poxa, é um evento, né? É uma grande mudança, um grande salto. Enfim, é normal que isso cause um êxtase e que depois o êxtase vai passando. Não quer dizer que que casamentos são ruins, tá bom? Não é sobre isso que estamos falando. Espero que isso esteja claro. Segunda mudança: divórcio. Eles dizem que o bem-estar, ele já começa a cair meses antes da separação se oficializar, e que depois do divórcio, surpreendentemente, o bem-estar tende a melhorar ao longo do tempo.

Ou seja, o sofrimento, ele não tá necessariamente no divórcio em si. Muitas vezes, o período anterior ao divórcio, né, toda essa uma pré-separação acaba sendo mais difícil. Desemprego, terceiro tipo de mudança. Esse foi um dos resultados mais fortes da pesquisa, porque a primeira coisa, a reação inicial, é uma grande queda no bem-estar. Eles encontraram um efeito inicial bastante negativo assim, porque é horrível mesmo, né, gente?

Assim, é uma sensação de de incapacidade. E aí a gente vive num sistema capitalista, e aí precisa de dinheiro para tudo. Então assim, várias questões, né, mexe em vários lugares dentro da gente. E as pesquisas confirmaram isso, porque é sempre isso, né, eles analisam a reação inicial e como isso vai amenizando. Então a pessoa está desempregada, tem uma grande queda no bem-estar, e depois com o tempo a satisfação com a vida melhora um pouco.

Mas as consequências não desaparecem completamente. Ou seja, conclusão, né, o desemprego é uma das mudanças mais difíceis para adaptação. Eles destacam que os efeitos de um desemprego é muito mais persistente do que de muitos outros eventos. Então é realmente pesado esse. Quarta mudança é o reemprego, né, conseguir um novo trabalho. Isso costuma melhorar o bem-estar de início, mas nem sempre devolve imediatamente a pessoa ao nível anterior que ela tava de felicidade antes do desemprego.

Então, o desemprego é realmente esse tipo de experiência difícil que deixa marca mesmo depois que a situação melhora, para vocês terem noção. E a quinta mudança que eles trouxeram aqui é a da aposentadoria. A reação inicial é que A satisfação com a vida costuma cair logo depois que a pessoa se aposenta, mas que depois as pessoas tendem a se adaptar e a melhorar de novo, né? Então, aposentadoria é um exemplo típico de um evento neutro, traz custos, mas traz benefícios, né?

Então, ela não é automaticamente nem positiva e nem negativa, ela só exige uma reconstrução da rotina e da identidade também. E a sexta é a mudança de cidade ou de país. Essa é bem interessante porque mudanças e imigrações são eventos estressantes que exigem que as pessoas se adaptem a novas circunstâncias, né, das suas vidas diárias. Então muda tudo mesmo, assim, desde o que você come, os lugares que você vai, as pessoas à sua volta, Tudo, é uma grande adaptação, né?

Mas teve um resultado inesperado, porque depois dessa mudança de lugar, o bem-estar geralmente fica mais alto do que antes. E por que isso acontece, né? Os autores, eles têm 3 hipóteses. A primeira hipótese é realmente a vida da pessoa melhorou, então foi por isso. A segunda hipótese foi porque o estresse de você organizar uma mudança é muito grande, porque envolve toda a organização da mudança em si, da mudança física, dos móveis, das roupas, de tudo, as despedidas, que tem uma grande carga emocional, né, se despedir, não é todo mundo que lida bem com isso, e as burocracias, né, de você mudar de cidade, de você mudar de país, tem um monte de burocracia para resolver, uma grande produção.

Então pode ser que esse aumento posterior seja o alívio mesmo de ter passado esse momento mais estressante, Ah, agora posso me fixar de novo em algum lugar, né? Por mais que esse lugar seja diferente. E a terceira hipótese é que talvez seja pelo fato das pessoas superestimarem que vai ser difícil a mudança de cidade, de país, e daí depois elas acabam descobrindo que, ah não, eu consigo lidar com isso, sabe? Que era menos assustador do que parecia.

Enfim, pode ser um pouco dos três, mas o resultado foi esse, que Depois da mudança, o bem-estar fica maior do que era antes dela acontecer. A conclusão geral da pesquisa é que as pessoas, elas não se adaptam da mesma forma a todas as mudanças, né? Algumas mudanças têm um efeito rápido, passageiro, né? Outras são duradouras, como eu falei, levam anos para digerir, enfim. E que as mudanças, de uma forma geral, elas afetam mais a forma como a gente avalia a nossa vida no geral, ou seja, o nosso bem-estar cognitivo, lembra lá da separação?

Do que afetam as nossas emoções do dia a dia, que é o bem-estar afetivo. Resumão da ópera: quando uma grande mudança acontece, não muda só o que a gente sente, ela também muda a história que a gente conta para nós mesmas sobre quem somos e sobre a vida que a gente tá vivendo. Por isso que é tão profundo, porque a gente conta uma história para nós de como é a nossa vida e de como a gente quer que seja a nossa vida, né? E essas mudanças, elas afetam esse roteiro aí, elas afetam essa nossa biografia, né?

Pensando na nossa vida ser um livro, um filme no final, afeta total a biografia. Isso mexe com a gente. Mas eu gosto muito de pensar na visão oriental para tudo na vida, assim. Eu gosto muito da visão oriental no geral, mais especificamente nesse caso aqui do budismo, né, taoísmo também, que tendem a enxergar a realidade como um fluxo de transformações. No budismo, por exemplo, tem o conceito da impermanência, que é uma das características fundamentais da existência para eles.

Tudo muda, os corpos mudam, os relacionamentos mudam, os pensamentos mudam, e até aquilo que a gente acredita ser o nosso eu também muda, está em constante transformação. E eles dizem: o sofrimento surge quando você tenta segurar algo como se fosse permanente. Ao invés de procurar uma estabilidade absoluta, A prática, na verdade, seria aprender a viver em um mundo que tá sempre se movendo. Eu acho que isso é mais que uma crença, eu acho que isso é fruto de uma sensibilidade aguçada para observar a vida como ela é.

Porque se a gente reparar na nossa natureza interna ou externa, a gente vai ver que tá tudo em constante mudança, né? Desde a nossa pele, as estações do ano, do nosso jeito de pensar até uma explosão de uma estrela, tudo tá em movimento, né? Então como que não vai ter mudança? Por isso que eu sempre, sempre, sempre tive dificuldade em entender qualquer sistema, religião, enfim, que impeça o nosso movimento, a nossa liberdade, que tenha muitas regras, muitos dogmas, porque dentro de ideias fixas não tem espaço para mudança.

E a nossa natureza tem a mudança como condição de existência, é o que é. Mudar é inevitável. Claro que a gente tem o desejo de controlar o inevitável, só faltava a gente não ter esse desejo. Mas é isso, a gente quer controlar uma coisa que é inevitável e isso gera ansiedade. Como assim eu não sei como vai ser o meu futuro? Como assim eu não sei como que isso ou aquilo vai acontecer? Como assim eu não sei como vai ser depois dessa mudança?

A gente tem muita dificuldade de conviver com incertezas, assim, que elas abalem as nossas estruturas. Isso gera muito sofrimento, né? Mas e se a gente pensar que é só mais uma mudança entre outras tantas pelas quais a gente já passou? Porque se você tá me ouvindo, você tá viva. Se você tá viva, você já passou por várias mudanças. E entender que essa também não vai ser a última. E se a gente entender que a condição de estar vivo é sempre passar por isso, não compensa tentar se acalmar?

Não compensa tentar não se desgastar tanto hoje? Guardar seus esforços para tentar buscar um centramento? Olhar um pouco mais de cima assim para essa situação e ver: ah, tá bom, parece o fim do mundo, mas é só uma parte da minha vida, da minha biografia, eu dou conta. Eu acho que vale a pena, sabe? Não é fácil, A gente precisa treinar esse tipo de raciocínio, esse tipo de olhar, esse tipo de análise, se acalmar na medida do possível e tentar incentivar um carinho pela novidade também, gostar de mudanças, não muito a ponto de não ter estabilidade em nada, mas o suficiente para andar no caminho do meio, nem rígida nem instável, Mas uma pessoa que sabe dançar conforme a mudança.

Pegar um trocadilho, né? Seria dançar conforme a dança, mas dançar conforme a mudança. Enfim, trouxe para vocês uma história de vida inspiradora. Sempre bom, né, a gente dar uma recarregada na inspiração. A querida é a Julia Child. Conhecem? Ela é uma chefe de cozinha Foi, né, uma chefe de cozinha muito famosa e autora de livros sobre culinária e participou de programas de televisão também. E ela ficou muito conhecida, ela tinha um jeito muito excêntrico.

E a história dela é interessante para esse episódio porque ela não sonhava em ser chefe desde criança. Na verdade, ela passou boa parte da vida adulta bem longe das cozinhas. Ela nasceu em 1912 em uma família rica da Califórnia. Então tenhamos esse recorte também. Ela se formou em história, aí ela foi trabalhar com publicidade. Vê se pode. Aí durante a Segunda Guerra Mundial ela atuou no OSS, que é uma organização que mais tarde deu origem para a CIA.

Então olha isso, né? História, publicidade. A organização que depois se tornou a CIA. Um caminho bem diversificado. E aí foi nesse período que ela conheceu o Paul Child, com quem ela se casou depois da guerra. A grande mudança de vida dela começou em 1948, quando o marido dela foi transferido para Paris porque ele era diplomata, enfim, foi fazer um trabalho lá. Ela tinha 36 anos, praticamente nenhuma experiência culinária assim.

Relevante. Ela até falou uma vez, nossa, eu comecei a cozinhar quando eu tinha 32 anos, porque até então eu só comia. E aí, logo que ela chegou na França, ela e o marido dela, né, eles fizeram uma parada na cidade de Rouen, não sei como se pronuncia, pararam lá para almoçar. E ela sempre fala dessa refeição, né, sempre falou. Ela já faleceu, faleceu em 2004. E ela falou que era um peixe assim na manteiga, vinho, tinha uns ingredientes frescos, enfim, foi uma experiência que para ela foi transformadora.

E ela sempre falava que nunca tinha se recuperado completamente daquele almoço, porque foi ali que ela descobriu um prazer e um interesse que ela nunca tinha experimentado antes. E ela foi encantada com a culinária francesa, Se matriculou numa escola tradicional de culinária lá, que é a Le Cordon Bleu. Viram? Você tá aqui agora, né? Le Cordon Bleu. Era uma aluna mais velha assim do que a maioria dos colegas dela, né? E em várias turmas ela era a única mulher.

E com 37 anos ela percebeu, né, que ela sabia muito pouco sobre cozinhar. Ela nunca tinha feito um bolo de verdade, nem feito maionese antes de começar a estudar culinária. Então se você aí tem interesse em estudar culinária, mas acha que não manja o suficiente, ela não sabia fazer nenhuma maionese, então, e nenhum bolo. Eu um dia quero fazer um curso de culinária assim pela diversão mesmo. Comecei a fazer bolo agora aos 27, fiz meus primeiros bolos, bolos, é porque eu nunca gostei muito de bolo mesmo, sabe?

De comer assim, só quando é um bolo bem com recheios e tal. Mas isso tem mudado. Teve um que eu fiz de milho com goiabada, meu Deus do céu, ficou perfeito! E é isso, eu gosto de bastante recheio, então botei bastante goiabada. Tá me dando água na boca, gente. E até então eu só fiz bolo de pacotinho, sabe? Pessoal lá em casa fica me zoando, casa da minha mãe. Mas eu já fico mó orgulhosa, velho, porque não é fácil não, tá? Eu gosto de fazer umas artes assim, deixar o bolo bonito, sabe?

Enfim, animada para o momento que eu vou fazer um bolo sem o pacotinho. Mas é que daí eu penso que, nossa, é um empenho, né? Enfim, mas quem sabe quando fizer eu conto para vocês. Mas é isso, né? Voltando para Júlia, outra Júlia, o que começou como uma curiosidade assim logo virou uma obsessão. E ela passou anos estudando técnicas, testando receita, anotando as coisas, enfim, pegando, pegando o fio da meada, né? E aí em Paris ela conheceu a Simone Beck e a Louisette Berthollet, duas francesas apaixonadas por gastronomia.

E juntas elas criaram uma pequena escola de culinária e começaram um projeto ambicioso de escrever um livro que explicasse a cozinha francesa para os americanos, e de uma forma clara, de uma forma acessível. E elas ficaram assim uns 10 anos nesse projeto. Ela insistia em explicar não só como fazer, mas por que fazer. E ela dizia que ela fez isso porque ela sentia falta nos livros que ela tinha encontrado sobre como cozinhar e tal, receitas que ensinassem a lógica por trás das técnicas e não só fizesse a pessoa engolir a técnica arguela abaixo.

E aí em 1961, quando ela tinha 49 anos, foi publicado o Mastering the Art of French Cooking, que é um livro assim que é um grande sucesso. Até postei no meu Stories essa semana que eu tava pesquisando sobre ela para o podcast. Uma amiga minha comentou que tem esse livro em casa. Achei super interessante porque realmente na época fez muito sucesso e mudou a forma como muitos americanos se relacionavam com a comida. E pouco depois ela foi convidada para participar de um programa de televisão em Boston.

E ao invés dela só falar sobre o livro, ela resolveu levar uns ingredientes e fazer uma omelete ao vivo. E o público gostou tanto, assim, a reação foi tão positiva que ela foi convidada a fazer um programa, o The French Chef, que transformou ela numa celebridade assim nacional, né? E eu fui vendo assim uns trechos dos vídeos que tem, né, desse programa e tudo. Ela era super ousada, assim, ela era super alegre, às vezes ela cozinhava bebendo um vinho, ela era super, sabe, à vontade, animada, e de certa forma isso era revolucionário, né?

Acho que uma mulher feliz é sempre revolucionária, e pelo que eu vi isso era algo que destacava ela também, como ela falava alto, como ela dava risada. E é isso, o livro não foi publicado logo de cara. Levou um tempo, mas ela acreditou. Muitas vezes, para muitas pessoas, é assim inimaginável fincar os pés num projeto que leva 10 anos para se concretizar. Mas assim, não porque você sabe que, ah, tem que aguentar 10 anos e aí vai dar certo.

Você aguenta 10 anos na incerteza e de repente dá. Então eu acho que fala muito sobre persistência essa história dela também. Claro que é isso, né? Como a gente falou lá no começo, é uma história de uma pessoa que já nasceu rica, casou com um diplomata também, trabalhou na CIA, trabalhou com publicidade, que hoje em dia já é uma coisa que dá muita grana, enfim, sempre deu, né? Então, claro, tem esse recorte também, porque mudanças para pessoas que não estão com a vida ganha, né, que não nasceram assim, são mais difíceis.

Tudo é mais difícil. E aproveitando a oportunidade para dizer que as eleições estão chegando. Mas é isso, mais curioso é que a carreira pela qual ela ficou famosa, né, não foi nenhuma dessas anteriores. Foi a carreira que ela começou já ali quase nos seus 40, que é um momento em que muitas pessoas acreditam que já encontraram o caminho definitivo e que não há possibilidade de mudar. Tem uma carta que ela escreveu enquanto ela tava trabalhando ainda no livro, que ela diz: pensar que levou 40 anos para encontrar minha verdadeira paixão.

Muito legal, né? E quando ela morreu em 2004, ela tinha 91 anos. E ela era considerada uma das figuras mais influentes da história da gastronomia americana. E é isso, a maior parte dessa trajetória nasceu de uma mudança que no início parecia só, ah, vou me mudar com meu marido, ele vai ser transferido do trabalho, vai para outro país e eu vou com ele. Chegando lá tinha uma nova mudança para ela também, né? Gostaram? Tem muitas histórias inspiradoras por aí.

Eu escolhi essa justamente porque a maioria das ouvintes aqui são jovens adultas. E é isso, gente, ela chegou lá com 16 anos, quando ela começou a sonhar, começou a tomar gosto pelo que viria a ser uma nova profissão para ela. Foi só o começo da história. E é isso, gente, tanto na vida profissional como em qualquer área da vida, pode ser essas grandes mudanças que estão te assustando que vai te levar para um caminho que vai te fazer mais feliz, que vai te levar para mais perto da sua essência.

Então tem que confiar e não tem outro jeito. Tá bom, combinado. Vamos de poesia. Se um rio se assustasse com o movimento que o vento provoca ou com o fluxo que as pedras modificam, ele continuaria sendo rio? Se não houvessem mudanças, eu continuaria sendo humana? É isso, minha gente. Hoje foi bem curtinha, porque eu acho que a ideia é bem profunda. Vai muito nesse caminho da gente também aceitar o que é natural. Não adianta brigar com o que é natural, a gente não tem tamanho para isso, a gente não tem o controle de nada.

Enfim, espero que vocês tenham gostado desse episódio, espero que vocês tenham forças para passar pelas mudanças, porque não é fácil mesmo. Tem dia que vai ser bem difícil. Sintam, se permitam sentir, e aí depois bola para frente. Se você gostou desse episódio, deixa um emoji de mala. Tem um emoji de mala que é cheio de cartões postais. Deixa esse emoji. E se você quiser me seguir no Instagram, é @juliarriguez, R-I-G-U-E-Z. E um grande abraço.

Uma boa semana. Desculpem a voz de gripe, desculpem agora no final a voz de sono. Ai, gente, a vida vai acontecendo, muitas mudanças, mas a gente vai se adaptando, tá bom? Muito bom estar aqui falando com vocês sempre, sempre, sempre. Um beijo e até sexta que vem.

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