1 bilhão de agentes, e nenhuma pergunta difícil
Um agente compra uma passagem. Trezentos e oitenta reais, no cartão de um cliente seu, três da manhã, sem que ninguém do outro lado tenha digitado nada.
Essa frase cabe num slide. Este episódio desce até onde ela acontece de verdade.
Antes de falar do relatório, eu abro as cinco camadas que um banco precisa resolver para deixar um agente fazer uma única compra: quem está comprando, com que autoridade, como o antifraude reage a um tráfego que não tem ritmo de gente, o que acontece com o estorno quando o cliente diz “fui eu, sim, mas ele comprou errado”, e o momento em que o agente vira modelo e passa a ter dono, documentação e uma pergunta do regulador dezoito meses depois.
Nenhuma dessas cinco é protocolo. O protocolo é a parte fácil.
Só então chego ao FutureScape do IDC sobre a era agêntica — o relatório que prevê mais de um bilhão de agentes até 2029 e tem número para tudo, com casa decimal. Ele repete, no varejo, o mesmo erro que o Gartner cometeu no mainframe: confunde a camada visível com a parte difícil. E, no fim, tem coisa aproveitável lá dentro. Eu separo o que fica e o que vai fora.
Eco. A casa decimal não mede o mercado agêntico. Mede a pressa de quem ainda não entendeu esse mercado. E a única pergunta que o relatório deixou sem número é justamente a que decide se todas as outras viram estratégia: quando o agente comprar errado, quem responde.
Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México.
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