O que ficou não foi a palestra
O auditório da Fundação Bradesco perdeu energia minutos antes da minha primeira palestra. Não havia gerador. Abriram as cortinas das janelas amplas, a luz natural entrou, e eu palestrei assim: sem projeção, sem o portal na tela, sem a apresentação que eu tinha montado. Sem nada para me esconder atrás.
Quem tinha acabado de descer daquele palco era Mário Sérgio Cortella.
Este episódio da Travessia nasceu de um vídeo do Clóvis de Barros Filho, que conta a primeira vez que enfrentou uma plateia grande — oito mil pessoas, o encontro com John Nash no camarim, o veredito, a plateia de pé no final. É um relato sobre o triunfo, e ele me devolveu uma lembrança que termina de outro jeito.
Não houve oito mil de pé. Não foi a melhor palestra do mundo. O Cortella veio no fim, cumprimentou, disse que eu tinha ido bem — e eu sei ler a diferença entre gentileza e espanto. Foi gentileza. E é exatamente por não ter sido triunfo que aquele dia me ensinou o que ensinou: o gesto de quem me apoiou não era palpite sobre o meu desempenho. Era independente dele.
Doze anos depois, em Londrina, abri o código de um sistema do setor público que a empresa cliente desconfiava do próprio time para validar. A arquitetura estava madura, com DDD aplicado num nível que eu não esperava encontrar ali. Era de um funcionário deles. O que fiz em seguida foi só devolver o que tinham feito comigo, naquele auditório sem energia.
Neste episódio: o camarim do Clóvis · a antessala com o Cortella · a ironia de falar de tecnologia sem nenhuma tecnologia funcionando · o que sustenta alguém no palco quando o slide some · Londrina, 2012, e a porta que se abre sem cobrar retorno.
* 0:00 O vídeo do Clóvis e o senhor do camarim
* 1:06 John Nash: a frase e a primeira fila
* 1:52 Sorocaba, anos 2000: repertório sem palco
* 2:32 O convite do Klick Educação — Fundação Bradesco
* 3:13 Cortella na antessala e a conta errada do estreante
* 3:48 Arrogância, medo e o vento do navegante
* 4:41 A ironia: falar de tecnologia sem tecnologia
* 5:09 Nos bastidores — e o auditório perde a energia
* 5:54 Sala das Máquinas · Travessia
* 6:37 A instrução do Cortella e o terreno conhecido
* 7:20 Ele ficou na plateia
* 7:33 Onde a minha história se separa da do Clóvis
* 9:07 Essa é a travessia: as duas coisas que carrego
* 9:47 O apoio que não mede suas chances
* 10:16 Londrina, 2012: a arquitetura do Joel
* 11:11 A porta aberta — a entrevista, o inglês, a Irlanda
* 12:22 Transmissão não acaba
* 12:56 Onde encontrar a Sala
A versão escrita desta Travessia está no arquivo da Sala. O episódio também está no feed de podcast da publicação, no Spotify e no Apple Podcasts, e em vídeo no YouTube.
Bússola
Quem te apoia no escuro não está apostando no seu acerto. Está fazendo o que se faz, e o que fica não é a sua estreia: é o gesto, que você devolve pelo resto da carreira.
Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México.
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