Episódios de Sala das Máquinas

Reputação técnica se constrói no escuro.

21 de julho de 202615min
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Poucos sabem que eu não tive educação formal em tecnologia. Em 1990, no primeiro ano do governo Collor, uma mudança na jornada dos bancários provocou demissão em massa no setor — metade do mercado. Eu fui desligado na terceira onda do Banco Nacional naquele ano. Meu primeiro filho tinha quatro anos, e ficar desempregado não era opção: aceitei qualquer trabalho — vendedor, cobrador, segurança, digitador, às vezes dois no mesmo dia.

O que veio depois foram anos aprendendo pelos manuais que ninguém tinha aberto, pegando ônibus para São Paulo atrás de livro importado que demorava duas semanas, apanhando três vezes numa prova de certificação até aprender a estudar de verdade. Nada disso aparecia na folha de pagamento. E é esse o ponto inteiro.

Esta é a Travessia #006 — agora em áudio. Uns quinze minutos que vão de um aviso de demissão em 1990 ao convite para Microsoft Regional Director — e ao que se acumulou, invisível, no caminho. É a outra metade de uma carta que já saiu aqui, sobre o tempo que ninguém te paga para investir. Esta é sobre o que esse tempo deixa quando passa: uma reputação técnica que ninguém persegue de propósito — ela chega anos depois, no rastro do trabalho que ficou.

Aperte o play. Ou leia a carta, no arquivo da Sala.

Neste episódio

Do chão da demissão de 1990 até o primeiro contato com tecnologia numa mesa colada ao CPD da Brahma, onde aprendi Lotus 123 pelos manuais que o supervisor não deixava abrir. As primeiras certificações — 614 pontos de 614 no exame de Access, e três reprovações no Visual Basic até entender que a prova exigia muito além do uso diário. Como se estudava antes de Stack Overflow e YouTube: ônibus para a Paulista, Livraria Cultura, sábados no Seminar Group da Microsoft. E a virada que não veio de nenhum projeto: em 2001, ao reproduzir um artigo da revista Forum Access, encontrei uma quebra de contrato entre duas versões preview do .NET, escrevi um documento cuidadoso para o editor — e no dia seguinte Daniel Burd, dono da revista, ligou me convidando a escrever. Dali saíram os seis primeiros lugares do Top 10 do Sharepedia, o MVP em 2003, doze anos no programa, e o convite para Regional Director em 2017. O reconhecimento veio sempre atrás do trabalho — nunca na frente.

Capítulos

(marcações do áudio publicado)

* 00:00 — A outra metade da história: o tempo que ninguém te paga

* 00:15 — 1990: demitido do Banco Nacional, um filho de quatro anos

* 01:18 — Brahma e o CPD: aprender Lotus pelos manuais que ninguém tinha aberto

* 03:16 — As primeiras certificações: 614 de 614 — e três reprovações

* 04:30 — Como se estudava: ônibus a São Paulo, Livraria Cultura, sábados na Microsoft

* 06:12 — Quem fala aqui — e porque nada disso aparecia na folha de pagamento

* 06:39 — Andrew e Votorantim: resolver de uma bancada improvisada

* 09:13 — Forum Access: a quebra de contrato e a ligação de Daniel Burd

* 12:24 — Sharepedia: seis dos dez mais baixados — e o e-mail de 2003

* 14:18 — De MVP a Regional Director

* 14:51 — Bússola

O método que não mudou

Pegar o manual antes da ferramenta — Lotus, Excel com VBA, Access: em todos, o caminho foi o mesmo. Ler até dominar, com o computador ao lado, e praticar todo dia. Semanas debruçado nos livros antes de a notícia chegar à gerência.

Estudar de verdade depois de apanhar — a primeira certificação passou raspando; a segunda reprovou três vezes. Foi aí que entendi que a prova cobrava muito além do dia a dia. A partir dali, preparação séria antes de cada exame — e uma nova certificação a cada dois.

Compartilhar sem cobrar e sem agenda — do e-mail que apontava a quebra de contrato aos artigos, às dúvidas respondidas em fórum de graça. O título era o reconhecimento daquilo que eu já fazia, não uma licença para fazer menos. O reconhecimento seguia atrás.

Bússola. O reconhecimento técnico não se persegue. Persegue você, anos depois, no rastro do trabalho que ficou. O que dá para fazer agora é simples: publicar antes de saber se vai ser visto, ajudar antes de saber se vai voltar, errar em público antes de saber se vai pegar bem. O resto chega quando chegar — e chega.

Longe do palco. Perto da máquina.

Carlos Mattos é CTO regional para a América Latina em uma consultoria global de tecnologia focada em serviços financeiros, autor de O Código Invisível e Microsoft Regional Director desde 2017. Escreve da Cidade do México.

Se você está construindo agora no escuro — sem saber se alguém vai ver — esta carta é pra você. Travessia às terças.

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