EP12 - Quando a cidade dorme, o delivery vira pesadelo | 3 Histórias de Terror
Quando a cidade dorme, quem trabalha no delivery continua na rua, nas escadas e atrás do balcão. Nesta transmissão da Frequência Anômala, três histórias originais de terror transformam a rotina da madrugada em pesadelo.
Em São Paulo, Everton compra uma bag usada por um preço bom demais. Em Higienópolis, Lucas leva sopa e guaraná até a porta do apartamento 402. Em Porto Alegre, Mateus ouve uma impressora funcionar sem estar na tomada. Três turnos da madrugada, três encontros com o inexplicável.
⏱️ Capítulos:
00:00 - Abertura
00:19 - A Bag de Segunda Mão
06:29 - O Interfone do 402
13:25 - A Comanda da Impressora Velha
19:18 - Encerramento
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💀 Viveu algo assustador? Envie seu relato para frequenciaanomala@gmail.com.
Inscreva-se para acompanhar as próximas transmissões. Toda sexta, tem episódio novo.
As histórias deste episódio são obras de ficção originais da nossa equipe, apresentadas no formato de relatos. A produção utiliza narração e imagens geradas com inteligência artificial para construir a atmosfera dos contos.
#HistoriasDeTerror #TerrorNoDelivery #FrequenciaAnomala
- A bag de delivery usada que esquentava e arranhava as costascompra de bag usada em site de desapego·cheiro de mofo e queimado na bag·calor e arranhados vindos da bag·descarte da bag em caçamba de entulho
- Entrega de sopa em apartamento com morador falecido em Higienópolisentrega em prédio antigo sem elevador·voz rouca pedindo para deixar o dinheiro·notícia de morador encontrado morto·porta trancada com sopa intacta
- Impressora velha que imprimia comandas com nomes e horáriosimpressora fora da tomada imprimindo comanda·gaveta do guichê abrindo sozinha·gravação da câmera sem ninguém na calçada·comanda para o próximo atendente
A bag esquentava nas costas do Everton. Mas o pedido era açaí. Nesta madrugada, 3 histórias de terror no delivery chegam à Frequência Anômala. Uma bag usada, uma entrega no apartamento 402 e uma impressora fora da tomada. Primeiro, São Paulo. Escuta o que aconteceu com o Everton.
Oi pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Eu sou o Everton, tenho 26 anos e trabalho de motoboy de aplicativo na Zona Leste de São Paulo. Lá pros lados de Itaquera. Faço mais o turno da noite, que é quando a taxa compensa. E resolvi mandar essa história porque até hoje, quando eu passo na frente de uma caçamba de entulho, eu olho duas vezes. Quem roda sabe, equipamento é o que mais pesa no bolso. Pneu, corrente, capa de chuva, bag.
Há uns 6 meses, o zíper da minha bag velha abriu de vez, e eu tava sem dinheiro pra comprar uma nova na loja. Entrei num site de desapego e achei uma bag vermelha, grande, reforçada, quase sem marca de uso, por menos da metade do preço. O cara que vendia morava em Guaianazes. Marquei com ele na frente da estação de trem e ele chegou a pé com a bag embrulhada num saco de lixo preto. Falou que tava largando a vida de entregador, que tinha mudado de ramo.
Não quis nem abrir pra me mostrar, disse que tava limpinha. Paguei no Pix, ele virou as costas e foi embora rápido. Na hora eu achei que era só pressa. Em casa eu abri. Tava limpa mesmo, o forro prateado inteirinho. Só tinha um cheiro de guardado, de mofo, e bem lá no fundo um cheiro de coisa queimada, fraquinho, tipo panela que passou do ponto. Deixei aberta na área de serviço a noite toda pra arejar, e no outro dia já saí com ela.
Os primeiros dias foram normais, sabe? Lanche, pizza, marmita, farmácia. Aí veio uma semana de garoa, daquelas de junho, fria. E foi numa madrugada dessas, umas 2 horas, voltando de uma entrega na Radial Leste, que eu senti as costas esquentando. No começo até gostei, pensei: ô, essa bag segura bem o calor. Mas aí eu lembrei que eu tava levando um açaí. Açaí não esquenta nada. Parei no farol, passei a mão pra trás e a lona tava morna.
Morna com garoa caindo em cima, entendeu? Achei estranho, mas segui. Entreguei o açaí e o cliente nem reclamou. Tava gelado do jeito que tinha que tá. Na madrugada seguinte, chuva de novo. E dessa vez o calor veio mais forte. Não era calorzinho de comida. Era um calor que atravessava o estofado da bag, o moletom, a jaqueta e chegava na pele como se tivesse um ferro de passar roupa encostado nas minhas costas. Junto com o calor veio o som.
De capacete na moto você não escuta quase nada, só o motor e o vento. Mas eu escutei um arranhado vindo de dentro da bag, curto, repetido, bem na altura da minha nuca. Parecia unha raspando o forro prateado, tentando passar de dentro para fora. Parei num posto na avenida, tudo fechado. Só a loja de conveniência com a luz acesa e ninguém lá dentro. Desci com as costas ardendo, tirei a bag e abri o zíper com a mão tremendo. Eu tinha certeza que ia sair um gato, um rato, sei lá, algum bicho que tinha entrado na lanchonete.
Não tinha nada. O pedido, 2 hambúrgueres e um refrigerante, tava lá no canto, fechado, frio. Nenhum vapor, nada derramado. Mas no fundo, no cantinho do forro, tinha um pedaço de pano preto, grosso, meio úmido, com aquele cheiro de mofo e queimado do primeiro dia, só que muito mais forte. E eu juro pra vocês que esse pano não tava ali quando eu abri a bag em casa. Enfilei a mão com a luva pra puxar. Na hora que eu encostei, a ponta da luva esquentou tanto que o couro encolheu e ficou duro, igual quando a gente encosta sem querer no escapamento quente.
Aí eu larguei o pano e fechei a bag. Terminei aquela entrega com a bag pendurada numa alça só, no braço, pilotando torto. Cheguei em casa, deixei a bag no quintal do lado de fora e fui tentar olhar as minhas costas no espelho do banheiro. Tava vermelho, tipo como se tivesse queimado de sol forte. Minha mulher passou pomada e perguntou o que tinha acontecido. Eu falei que uma entrega derramou e acabou esquentando a bag. Não sabia o que mais falar.
No outro dia eu procurei o anúncio pra falar com o vendedor. O perfil do cara tinha sumido, número bloqueado no Zap. E aí eu fiz a burrice de sair mais uma noite com a bag porque precisava trabalhar e não tinha outra. Afrouxei as alças até ela ficar longe das costas e fui. Choveu de novo. Duas e pouca na Marginal, o calor voltou. E dessa vez o arranhado veio junto com outra coisa. Nervoso, com uma batida de leve que vinha de dentro, mais ou menos na altura do meu ombro.
Toque, toque, igual alguém batendo numa porta pedindo pra abrir. Olha, eu que não quis entender não, gente. Eu saí da Marginal, entrei numa travessa escura, no tatuapé onde eu tinha visto uma caçamba de entulho de reforma, parei a moto e joguei a bag lá dentro, fechada, com zíper e tudo. Depois avisei na lanchonete que a alça da bag tinha quebrado enquanto eu tava andando e que um ônibus acabou passando por cima. Nem olhei pra trás.
Aí no dia seguinte eu peguei uma bag zerada na loja de peças, parcelei no cartão em 6 vezes e voltei a rodar à noite. Minhas costas sararam em uma semana. Nunca mais senti nada. Mas às vezes, em madrugada de garoa, eu passo pela Marginal e fico pensando naquele cara de Guaianazes que chegou a pé com a bag enrolada num saco de lixo preto e não quis abrir. Hoje eu entendo a pressa dele. Tem coisa usada que é barata por um motivo.
Era isso, gente. Se vocês já compraram alguma coisa usada que veio com mais do que devia, manda pra gente.
O Everton conseguiu se livrar da bag. O Lucas precisou voltar, na memória, a uma porta que ele mesmo fechou. Se inscreve pra acompanhar as próximas transmissões. Agora, São Paulo, 2013. Uma sopa, um Guaraná e a porta entreaberta do apartamento 402. Escuta.
Oi, pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Meu nome é Lucas, tenho 33 anos e hoje trabalho com logística num escritório bem longe de moto e de madrugada. Mas em 2013, quando eu tinha 20 anos e fazia faculdade em São Paulo, eu fazia entrega à noite para pagar mensalidade. Essa história é dessa época. Eu nunca contei para ninguém da minha família. Vocês vão ser os primeiros. Para quem é mais novo, delivery naquela época era outra coisa.
Aplicativo quase ninguém usava. O cliente ligava para o restaurante no telefone fixo, o atendente anotava num bloquinho e o motoboy saía com o endereço escrito à mão e o troco no bolso. E não tinha essa de descer na portaria. A gente subia, elevador, escada, o que tivesse, e entregava na porta do apartamento, na mão do cliente. Eu trabalhava para uma lanchonete que ficava aberta a noite toda, perto da Consolação. Sopa, lanche, prato feito.
De madrugada, o movimento era de taxista, estudante, gente que trabalhava em hospital e uns clientes fixos, uns senhores que moravam sozinhos e pediam sempre a mesma coisa: Era uma quinta-feira de julho, frio de doer, umas 2:30 da manhã. O seu Toninho, o atendente, me passou o papel: uma sopa de legumes e um Guaraná para um prédio antigo em Higienópolis, apartamento 402. E comentou: esse aí pede sempre, mas fazia uns dias que não ligava.
Peguei a sacola, subi na moto e fui. O prédio era daqueles antigos, de 4 andares, sem elevador, com portão de ferro e fachada de pastilha. Toquei o interfone do 402, chiou, fez aquele zumbido elétrico e o portão destravou com um estalo. Ninguém falou nada, achei normal, pensei: ah, o senhor já deve estar me esperando lá dentro. Piso de taco, cheiro de cera velha. E aquelas luzes de corredor com minuteira que você aperta o botão e ela apaga sozinha depois de 1 minuto.
Fui subindo, primeiro andar, segundo, terceiro. A luz apagou no meio da escada e eu tive que ir tateando a parede até achar o próximo botão. No quarto andar, o botão não funcionava. O corredor ficou no breu. Peguei meu celular e liguei a luz da tela. Me lembro bem daquele celular. Era um Motorola Razr. Eu adorava aquele celular. Bom, a porta do 402 era a última, de madeira escura com o número em metal dourado, e tava entreaberta, uns 3 dedos de fresta.
Lá de dentro vinha um ar gelado, muito mais frio que a escada, e um cheiro pesado. Achei que era lixo, sabe, saco esquecido dentro de casa. Prédio antigo tem dessas. Bati a porta devagar e falei: entrega. Nenhuma luz acendeu. E aí, lá do fundo do apartamento, veio uma voz, voz de homem, fraca, rouca, falando devagar, como se cada palavra custasse um esforço enorme: por favor, o dinheiro tá na mesinha da entrada, deixa a sopa aí.
E depois puxa a porta com força para bater o trinco. Empurrei a porta só um pouquinho e apontei o celular para dentro. Com aquela luzinha fraca da tela, deu para ver uma mesinha logo na entrada e em cima dela uma nota de 50 dobrada. No chão de taco, saindo do corredor lá de dentro, tinha umas marcas escuras e úmidas, como se alguém tivesse se arrastado até perto da porta e voltado. Eu não quis olhar mais. Deixei a sacola na mesinha, peguei a nota, falei obrigado, boa noite, e puxei a porta com força.
O trinco bateu com um barulho seco que ecoou no prédio inteiro. Desci no escuro, me deu um medo enorme naquela hora. Eu tava quase correndo pela escada. Aí eu voltei para lanchonete, entreguei o dinheiro para o seu Toninho, e ele olhou a nota meio desconfiado. Parecia antiga. Parecia que já devia ter saído de circulação, mole de tão velha. Ele deu de ombros e guardou no caixa. Terminei o turno e fui dormir. Acordei perto do meio-dia e fui almoçar num boteco do lado da faculdade, desses de prato feito, com uma TV pendurada na parede.
Tava passando o jornal da hora do almoço. Olhei para tela e reconheci a fachada de pastilha na hora. A repórter tava ao vivo na frente do mesmo prédio. Polícia, fita na porta, o carro do IML parado na calçada. Ela contou que os vizinhos do quarto andar vinham reclamando de um cheiro forte fazia dias e que naquela manhã os bombeiros tiveram que arrombar o 402. O morador, um senhor de 70 e poucos anos que morava sozinho, foi encontrado sem vida no banheiro.
Causas naturais, segundo a perícia, Fazia pelo menos 4 dias. 4 dias. Eu fiquei com o garfo parado no ar. E aí ela falou uma coisa que eu nunca mais esqueci: que os bombeiros precisaram arrombar porque a porta tava trancada, com o trinco batido, e que em cima da mesinha da entrada tinha uma sacola com uma sopa ainda fechada, com o nome da lanchonete no pote. Ninguém sabia quem tinha levado. Eu nunca falei nada. Eu tinha 20 anos, fiquei com medo de virar suspeito, de perder o emprego, sei lá.
Mas naquela noite, quando cheguei na lanchonete, pedi para o Seu Toninho me mostrar o bloquinho. O pedido do 402 estava lá com a letra dele e do lado anotado o número de onde tinham ligado. Era o telefone fixo do apartamento. O Seu Toninho reconheceu na hora. Porque aquele senhor era cliente de anos. Ele sempre pedia sopa e sempre com guaraná. Até hoje, quando me lembro, me lembro daquela voz no escuro. Não sei o que ele queria.
Talvez só que alguém subisse até lá mais uma vez, do jeito de sempre. Ou talvez que alguém fechasse aquela porta por ele, porque sozinho ele já não conseguia. Era isso. Se alguém que trabalhou com entrega naquela época passou por alguma coisa parecida, Manda para eles, eu queria muito saber que não fui só eu.
O Lucas ainda lembra daquela voz. Em Porto Alegre, o Mateus passou a temer outro som: a campainha de uma pizzaria. Antes dela tocar, uma impressora fora da tomada deixava uma comanda. Tinha um nome e um horário. Escuta o que o Mateus contou.
Oi, pessoal da Frequência Anônima, tudo bem com vocês? Eu sou o Mateus, tenho 24 anos e sou de Porto Alegre. Até 2 semanas atrás eu trabalhava de atendente no turno da noite numa pizzaria de bairro na Zona Sul, ali pros lados da Cavalhada. Tô mandando isso porque tem uma coisa que eu não contei pra ninguém e acho que alguém precisa saber. A pizzaria funciona das 7 da noite às 4 da manhã, só entrega e retirada. De madrugada a porta de enrolar fica baixada por segurança e o atendimento é todo por um guichê na parede da calçada.
Vidro grosso escurecido com uma gavetinha de metal embaixo pra passar dinheiro e caixa de pizza. E uma campainha do lado de fora pro motoboy tocar quando chega. Lá dentro, numa prateleira em cima do balcão, tinha uma impressora velha, daquelas matriciais, barulhentas, que imprimiam as comandas na época em que o pedido era por telefone. Hoje tudo vem pelo aplicativo, numa impressora nova. A velha ficou lá por preguiça do dono, desligada, com o fio enrolado e o plug pendurado.
Eu nunca tinha visto aquilo funcionar. Era uma terça de inverno, chuva fina, umas 3:30 da manhã. Os aplicativos já tinham fechado, os motoboys tinham ido embora e eu tava sozinho limpando a bancada de inox. Aí eu escutei: réc, réc, réc, réc. Aquele barulho de agulha batendo no papel. Olhei pra prateleira e a impressora velha tava imprimindo. Com o plug pendurado fora da tomada. Parou e a comanda ficou pendurada pra fora. Eu puxei.
Papel amarelado, agulha, tudo em maiúscula, retirada no balcão. Uma grande de calabresa. Nome: Mateus. Horário: 3:58. Bah, eu ri. Achei que era trote dos guris, algum motoboy que sabia mexer naquela coisa, sei lá. Mas não tinha ficado ninguém lá dentro. Amassei o papel, joguei no lixo e continuei limpando. Às 3:58 em ponto, a campainha do guichê tocou. Eu não fui. Não sei explicar por quê, mas não fui. Fiquei parado no meio da cozinha, olhando pro vidro escuro.
A campainha tocou de novo. E de novo. Aí parou. E a gavetinha de metal do guichê, que só se mexe se alguém empurrar do lado de fora, Começou a abrir devagarinho, como se alguém lá do outro lado tivesse com a mão nela, esperando eu colocar a pizza. Fiquei ali até dar 4 horas. Na hora que o relógio virou, a gaveta fechou sozinha. Apaguei tudo menos a luz da cozinha, saí pela porta dos fundos e fui pra parada esperar o primeiro ônibus.
Na noite seguinte, antes de abrir, eu pedi pro dono me mostrar a gravação da câmera que fica em cima do guichê, virada pra calçada. Inventei que tinha sumido o dinheiro no caixa. A gente ficou olhando no celular dele. 3:58, 3:59, 4 horas. Calçada vazia, só a chuva caindo e a luz do poste. Ninguém chegou perto da campainha, ninguém encostou na gaveta. E mesmo assim, na gravação, dava pra ver a gavetinha de metal abrindo e fechando, abrindo e fechando.
Às 4 horas em ponto. No outro dia eu contei no grupo dos motoboys, meio rindo, pra ver se alguém assumia o trote. Ninguém assumiu. Quem me respondeu foi o Jair, o mais antigo da casa, no privado. Ele escreveu: Baguri, isso aconteceu com o Diego. O Diego era o atendente antes de mim, eu nem conheci. O Jair me contou que o Diego também começou a receber comanda da impressora velha, com o nome dele, sempre no mesmo horário, e que numa noite o Diego atendeu, foi até o guichê quando a campainha tocou.
Uns 10 minutos depois, o Jair chegou para buscar um pedido atrasado e encontrou o Diego sentado no chão da cozinha, branco, olhando para o vidro sem conseguir falar. Pediu as contas na mesma semana, nunca contou o que viu. A única coisa que ele falou para o Jair na saída foi: não é para atender. A partir dali, a comanda saiu toda noite. Mesmo papel, mesma pizza, meu nome, 3:58. Pedi pro dono tirar aquela impressora dali. Ele disse que a gaveta tava frouxa, que era o vento e que impressora velha não ia mudar nada.
Riu da minha cara. Então eu fiz do meu jeito. Toda noite, perto das 4, eu ia pro fundo da cozinha, colocava o fone no volume máximo, e ficava de costas pro guichê até o relógio virar. Mas eu sentia, sentia a campainha tocando no peito mesmo sem escutar. E às vezes, pelo canto do olho, via a gavetinha de metal abrindo e fechando, abrindo e fechando. Aguentei 3 semanas, aí pedi as contas também. Só que tem uma coisa, na minha última noite, quando eu tava fechando o caixa, a impressora velha fez aquele barulho de novo.
Rec, rec, rec, rec. Eu fui olhar achando que era mais uma com o meu nome. Não era. Retirada no balcão, uma grande de calabresa, nome Anderson, horário 3:58. O Anderson é o guri que o dono contratou para ficar no meu lugar. Começou na semana seguinte. Eu dobrei aquele papel e guardei na gaveta do caixa. Não falei nada para ele. Eu sei que devia ter falado, mas como é que eu ia explicar isso pra alguém no primeiro dia de trabalho?
Então é por isso que eu tô mandando. Se tu conhece um Anderson que trabalha de madrugada numa pizzaria de guichê na Zona Sul de Porto Alegre, avisa ele: quando a campainha tocar às 3:58, não é pra atender.
A última comanda ficou na gaveta. O Anderson começou na semana seguinte. E o aviso que ele precisava ouvir chegou até aqui. No lugar do Mateus, o que você diria ao Anderson? Conta nos comentários. Você ouviu a frequência anômala, e eu agradeço por não ter me deixado sozinho nesta madrugada fria de tempestade. Até a nossa próxima transmissão.