Episódios de Frequência Anômala

EP11 - A BATIDA VINHA DE DENTRO DO GUARDA-ROUPA | 3 Histórias de Terror em Condomínios (RELATOS ORIGINAIS)

20 de setembro de 202624min
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Três histórias de terror originais que acontecem dentro de prédios residenciais brasileiros, onde a gente só deveria dormir em paz. Uma moradora que desce pra passear com o cachorro e sai do elevador num térreo que não é o dela. Um porteiro que abre uma cobertura fechada há dois anos e encontra a mesa posta pra duas pessoas. E um monitorista que vê, na mesma imagem de câmera, o porteiro passando ao lado de uma coisa que o porteiro não vê.


💀 Viveu algo assustador? Mande seu relato para: frequenciaanomala@gmail.com


⏱️ CAPÍTULOS

00:00 - Abertura: o prédio nunca está vazio

00:33 - Relato 1: O Andar Errado (moradora, zona norte de São Paulo)

08:25 - Intervalo do apresentador

08:54 - Relato 2: A Cobertura Vazia (porteiro noturno, Moema)

15:54 - Intervalo do apresentador

16:26 - Relato 3: A Câmera Seis (monitorista, Curitiba)

23:44 - Encerramento


Se você chegou até o fim, deixa o like e se inscreve no canal. É o que mantém a nossa frequência no ar. E me conta nos comentários: você já ouviu alguma coisa no seu prédio que nunca conseguiu explicar?


Aviso: Este vídeo utiliza narração imersiva e paisagens visuais criadas artificialmente para ilustrar os contos de terror, criando uma atmosfera de suspense psicológico sem exibir violência gráfica, em conformidade com as diretrizes da comunidade. As histórias deste episódio são criações originais da nossa equipe.


#RelatosOriginais #HistoriasDeTerror #Terror #Sobrenatural #ContosDeTerror #TurnoDaNoite #Condominio #Suspense

Assuntos3
  • O monitorista que vê uma figura batendo na porta do 604câmera 6 com piscadas estranhas·figura alta de capuz batendo na porta·moradora não vê ninguém no corredor·batida vindo de dentro do guarda-roupa·porteiro passa ao lado da figura sem vê-la·batida sem contato físico com a porta
  • A moradora que desce no andar errado do condomínioelevador com luz piscando·térreo com cores e pisos diferentes·quadro de avisos com comunicados antigos·condomínio Santa Helena sem H·silêncio e escuridão no condomínio·segurança parado de costas
  • O porteiro que encontra a mesa posta em apartamento vazioapartamento fechado há dois anos·moradora reclama de barulho·barulho de cadeira e talheres·hall frio e cheiro de poeira·mesa posta com pratos e talheres desenhados na poeira·cadeira se move sozinha
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

3:20 da manhã. Um operador de câmeras vê um homem de capuz batendo na porta do apartamento 604. Ele liga para moradora para avisar e ela responde num sussurro que está olhando pelo olho mágico, que o corredor está vazio e que a batida que ela está ouvindo está vindo de dentro do guarda-roupa dela. Boa noite, você sintonizou a Frequência Anômala. A transmissão de hoje vem de dentro de prédios no horário em que o portão está fechado e a gente se acha seguro, fica comigo.

?Voz B

Oi, pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Eu sou a Renata, tenho 32 anos, e o que eu vou contar aconteceu comigo em abril do ano passado, no condomínio onde eu moro até hoje, na Zona Norte de São Paulo. Eu trabalho com edição de vídeo, faço freela, então minha madrugada é sempre acordada. Resolvi mandar para vocês porque faz mais de um ano que eu carrego isso sozinha e eu precisava contar para alguém que entendesse.

Eu moro num conjunto residencial do fim dos anos 70, ali para os lados de Santana. 5 blocos iguais de 11 andares cada um, todos virados para dentro. No meio deles tem a área comum, um gramado grande com uns ipês velhos, o playground de trepa-trepa enferrujado, a quadra de cimento e uma alameda de bloquete que liga tudo até a portaria. Eu moro no 8º andar do bloco B. Os elevadores são os originais, daqueles de porta dupla. A de fora a gente abre na mão e a de dentro é automática do elevador.

Eu tenho um cachorro, o Paçoca, um vira-lata pequeno de uns 6 kg. Ele já é velhinho e não segura mais a noite inteira, então virou rotina. Umas 2, 2 e pouco da manhã, ele começa a andar em círculos perto da porta e a arranhar o tapete. Eu desço com ele até o gramado, ele faz o que tem que fazer, eu recolho e a gente sobe. É tudo dentro do condomínio, ninguém põe o pé na rua. Portão fechado, guarita com 2 seguranças, câmera em cima da Alameda.

É o único motivo de eu fazer isso de madrugada em São Paulo sem achar que tô maluca. Faço isso já tem uns 3 anos, eu já conheço esse caminho de olho fechado. Naquela madrugada não teve nada de diferente. Vesti um casaco por cima do pijama, peguei a coleira e a sacolinha, e nós dois entramos no elevador. Apertei o T. O elevador desceu normal. Enquanto o elevador descia, não aconteceu nada demais, foi tudo tranquilo, e é justamente isso que me assusta até hoje.

Foram 8 andares, no tempo de sempre, com o mesmo rangido de sempre. A única coisa que eu notei é que a luz da cabine deu uma piscada, uma só, na altura do 4º andar, e mais nada. O elevador chegou no térreo e a porta abriu, e parecia quase tudo certo. Eu preciso que vocês entendam essa parte porque é a mais difícil de explicar. Não era um lugar estranho, era o meu bloco, o mesmo pé direito alto, a mesma escada do lado direito, A mesma porta de vidro dando programado.

Só que a parede, que é verde água desde o dia que eu me mudei, estava de um bege encardido. O piso parecia que tava mais gasto, onde todo mundo pisa, e ele tava com aquela cera vermelha antiga que, até onde eu lembrava, o meu prédio não usava. Naquela hora eu nem pensei, juro. Eram 2 e pouco da manhã, eu tava meio dormindo, sabe? O cérebro meio que aceita qualquer explicação boba. Eu até pensei: nossa, mudou e não avisaram no grupo?

Foi por isso que eu parei no quadro de avisos. Ele fica do lado da porta de vidro, é um quadro de cortiça com os recados do síndico presos com fita crepe. E os comunicados eram todos comunicados que eu nunca tinha visto, papel amarelado, tudo datilografado, não impresso. Falavam de coisa de condomínio mesmo: limpeza da caixa d'água, horário de uso da quadra, com uma letra de máquina que borrava nos cantos. E o cabeçalho de todos eles dizia Condomínio Santa Helena, sem o H.

O meu é Santa Helena com H, está na placa de bronze da portaria desde antes de eu nascer. Eu passei o dedo em cima do papel. Parecia estranho, uma textura diferente, esquisita. Eu arranquei aquele papel do quadro sem pensar direito. A fita já tava velha e ele saiu inteiro na minha mão. Dobrei, enfiei no bolso do casaco e empurrei a porta de vidro para fora. O gramado tava lá, os outros 4 blocos estavam lá, o playground, a quadra, o mesmo bloquete torto que todo mundo tropeça.

Só que não tinha nenhuma janela acesa. Nenhuma, em bloco nenhum, em andar nenhum. 5 prédios de 11 andares completamente apagados. E os postes da Alameda estavam acesos, mas com uma luz amarelada puxando para o esverdeado, sabe, que nem antigamente. Pareciam lâmpadas velhas. E o som, gente, o som! Aquele condomínio fica a 3 quarteirões de uma avenida grande. O barulho nunca some, você só para de escutar de tão acostumada. Ali não tinha nada, nem avenida, nem ar-condicionado pingando, nem cachorro dos outros apartamentos.

Era um silêncio que apertava o ouvido, igual quando o avião muda de altura. O Paçoca travou as patinhas no chão e começou a puxar para trás, esticando a coleira na direção da porta. E ele não latiu. O Paçoca late para o entregador, late para o vento, late para o elevador chegando. Ele só puxava, calado, com o corpo baixo. Foi aí que eu vi que tinha um homem em pé no meio do gramado. Era um dos seguranças do condomínio, de colete, com a lanterna na mão, daquelas grandes e pesadas.

A lanterna tava apagada. Ele tava de costas para mim, parado, olhando na direção do bloco da frente. Não mexia um dedo. Eu conheço os dois caras que fazem a noite ali, o Wesley e o seu Adilson. Aquele homem parecia o Wesley e eu quase falei o nome dele, mas em vez disso eu falei boa noite, porque é o que a gente faz. E ele respondeu sem se virar, numa voz normal, educada, de quem tá explicando uma coisa simples para alguém que se perdeu.

Ele falou: A senhora desceu no andar errado. Eu não respondi nada. Peguei o Paçoca no colo, voltei de costas olhando para ele, passei pela porta de vidro, atravessei correndo o hall, puxei a porta de ferro do elevador, apertei o 8 e fiquei olhando para o chão da cabine até parar. Quando a porta abriu no meu andar, tava tudo como sempre foi: a lâmpada queimada do corredor, o tapete torto da porta do 82, o cheiro do amaciante da vizinha, Eu entrei em casa, tranquei e fiquei sentada no chão da cozinha com o Paçoca no colo até o sol nascer.

O comunicado continuava no meu bolso, tá aqui até hoje numa gaveta da cozinha embaixo das contas. Eu não mostrei para ninguém, não falei com o síndico, não postei no grupo do condomínio, nem desci para conferir o quadro de avisos no dia seguinte, e nem quis. Pensei em me mudar e não me mudei, porque aluguel tá impossível, e porque no fundo eu não acho que o problema seja o prédio. Eu só mudei o horário. Hoje o Paçoca desce comigo antes das 23h, todo dia, chovendo ou não.

Se ele quiser descer depois disso, ele espera, e eu troco o tapete higiênico da área de serviço. Não é medo, é só um acordo que eu fiz comigo mesma. No meu prédio, depois das 11 da noite, eu não aperto o T. Era isso, gente. Se vocês saíram num lugar que era o seu e não era, manda para eles também.

?Voz A

A Renata guarda aquele papel numa gaveta da cozinha até hoje, embaixo das contas, e nunca mais leu. Ela saiu daquela noite com uma regra: depois das 11, não aperto o T. Se essa primeira história te pegou, Faz uma coisa por mim antes de continuar, deixa o seu like e se inscreve no canal, é o que mantém essa frequência no ar. A próxima vem do outro lado de São Paulo, de um apartamento que estava fechado há 2 anos.

?Voz C

Boa noite pessoal da Frequência Anômala, meu nome é Carlos, tenho 58 anos e fui porteiro noturno durante 22 anos no mesmo prédio, em Moema, aqui em São Paulo. Me aposentei no ano passado. Eu só tô contando isso agora porque eu não trabalho mais lá e porque, depois de tudo, eu acho que não tem nada de ruim nessa história. Mas na hora eu quase morri de susto. O prédio é de alto padrão, desses antigos, bem construídos. 12 andares, um apartamento por andar, um elevador social e um de serviço.

Meu turno era das 10 da noite às 6 da manhã, sozinho na portaria, com os monitores das câmeras e um radinho de pilha no volume baixo. Quem nunca trabalhou de madrugada num prédio assim não faz ideia de como é. Depois da 1 da manhã, aquilo ali é um bloco de concreto oco. Você escuta o elevador se acomodando no poço, escuta a bomba d'água ligando, escuta a tubulação estalando quando alguém dá descarga no cesto. Você aprende os barulhos todos.

É assim que você sabe quando aparece um que não é da casa. No 12º andar ficava a cobertura duplex do seu Arnaldo. Ele morreu antes de eu ver o que eu vi. Foi de causa natural, já era um senhor de bastante idade. Depois que ele se foi, aquele apartamento ficou fechado. Os filhos entraram numa briga de inventário que se arrastou por anos, dessas que só quem ganha é advogado. E o apartamento ficou ali, parado, com a água fechada e a energia cortada no quadro.

Não tinha lacre na porta, não, isso é coisa de novela. Ele só tava trancado, a chave reserva ficava no cofre da portaria e só podia ser usada caso o síndico permitisse ou em caso de alguma emergência, tipo vazamento, incêndio, alguma coisa desse tipo. Era um sábado e já passava das 3 da manhã quando o interfone da recepção tocou. Era a Dona Vera, do 11º. Ela é bem mais nova no prédio, tinha se mudado fazia alguns meses e não sabia que o apartamento de cima tava fechado sem ninguém, e ela tava brava, daquele jeito de quem já acordou brava.

Ela falou que a pessoa do apartamento de cima tava arrastando móvel em cima da sala dela e que já tinha interfonado lá, mas ninguém atendeu. E falou mais, que dava pra ouvir direitinho um sapato de salto andando de um lado pro outro no piso duro. Eu tentei explicar, com toda calma, que a cobertura tava vazia, que tava fechada fazia 2 anos, que não tinha ninguém lá. Ela cortou e disse que ou eu subia pra ver ou ela ia ligar pra polícia às 3 da manhã e o problema era meu.

Eu conheço o serviço, discussão com morador de madrugada não tem vencedor. Peguei a lanterna grande, peguei a chave no cofre e subi. Fui de elevador até o 11º porque eu queria escutar antes. Toquei no apartamento da Dona Vera e ela me mostrou de onde tava vindo o barulho. E gente, eu escutei. Parado ali na sala da Dona Vera com a mão no bolso segurando a chave para ela não tilintar, eu ouvi vindo do teto uma cadeira de madeira raspando no granito devagar, do jeito que a gente arrasta quando vai sentar.

Depois, um tilintar de talher batendo em prato, não uma vez, umas 3, 4 vezes, com pausa no meio, no ritmo de quem tá comendo. E eu não ouvi voz nenhuma. Eu penso muito nisso até hoje. Se eu tivesse ouvido uma voz, eu tinha descido correndo e chamado a polícia, mas era só a louça, o talher e a cadeira, barulho de gente jantando. Subi pela escada do prédio até o 12º, aquela que fica do lado do elevador. O hall da cobertura tava escuro e tava muito frio, sabe aquele frio de doer os ossos?

Coloquei a chave na fechadura e a chave girou duas voltas certinhas, com aquele estalo seco. Quer dizer, que tava trancada. Quando eu empurrei a porta, O ar que veio de dentro era quente e parado, com um cheiro forte de poeira e de papel velho, cheiro de gaveta fechada. Acendi a lanterna e joguei o facho na sala. Tava tudo do jeito que os filhos deixaram, os móveis grandes cobertos com lençóis, já com uma camada de poeira em cima de tudo, grossa, dessas que você vê a espessura.

E foi aí que eu reparei no chão. O piso inteiro da sala tinha uma camada uniforme de poeira, Sem pegada nenhuma, nem a minha, eu ainda tava do lado de fora. Ninguém tinha entrado ali, ninguém tinha pisado naquele chão em 2 anos. Mas na sala de jantar, os lençóis das 2 cadeiras da ponta da mesa tavam caídos no chão, um de cada lado. Eu andei mais 2 passos, iluminando o tampo da mesa, e aí eu vi. Na poeira da mesa tavam desenhados 2 círculos, como se fossem um prato de jantar.

Um de cada lado, e do lado de cada círculo, riscado na poeira, algo como o contorno de um garfo e de uma faca. Algo ou alguém tinha posto a mesa pra dois, desenhando na sujeira, dentro de um apartamento onde não tinha nenhuma pegada no chão? E enquanto eu tava ali parado, com a lanterna tremendo na mão, a cadeira da ponta deu um rangido e moveu pra trás, sozinha, abrindo espaço pra alguém sentar. Eu não esperei pra ver quem ia sentar, puxei a porta, tranquei com a chave, desci correndo e me tranquei na portaria.

Liguei pra Dona Vera e falei que tava tudo trancado e vazio, que devia ser o vizinho do outro bloco. Ela murmurou e desligou. Não contei pra ninguém. Porteiro que sai falando esse tipo de coisa perde o emprego, e eu tinha filha na faculdade. Uns meses depois, teve a despedida do seu Genésio, o zelador antigo que tava se aposentando, voltando depois de uma vida ali. No meio da conversa, eu puxei o assunto do seu Arnaldo, assim, sem querer nada, e o seu Genésio me contou com a maior naturalidade do mundo que o seu Arnaldo tinha morrido num sábado de madrugada, sentado na mesa de jantar da cobertura, jantando.

Eu perguntei se ele tava sozinho, e o seu Genésio falou: sozinho, mas ele nunca achou que tava. A esposa dele, a Dona Ivone, tinha morrido uns 6 anos anos antes, e desde que ela se foi, todo sábado o seu Arnaldo punha a mesa pra dois. Dois pratos, dois talheres, a cadeira dela puxada, e ele jantava conversando com o lugar vazio. Os moradores antigos do 11º já reclamavam do barulho de cadeira arrastando naquela época, e no condomínio todo mundo ria, achava bonitinho, coisa de velho apaixonado.

A ficha caiu ali no churrasco, com um copo na mão. O barulho que a Dona Vera ouviu naquela madrugada não era festa, não era invasor, não era eco de outro bloco, era só um casal cumprindo o sábado deles no lugar onde os dois moraram a vida inteira. E o salto que ela ouviu andando de um lado pro outro não era do seu Arnaldo. Eu nunca mais peguei aquela chave no cofre. E se a Dona Vera tivesse interfonado de novo num sábado de madrugada, eu ia dizer pra ela que subi e tava tudo trancado e vazio.

E ia tá falando a verdade. Ano passado eu me aposentei e o inventário finalmente saiu. O apartamento foi vendido e reformaram tudo por dentro. Eu só espero que na mudança os dois tenham ido juntos. Era isso, gente. Obrigado por escutarem um velho porteiro.

?Voz A

Um casal cumprindo o sábado deles numa casa onde já não moram. Eu queria que todas as histórias que chegam aqui terminassem assim. A de agora não termina. Antes dela Me conta nos comentários, você já ouviu alguma coisa no seu prédio que nunca conseguiu explicar? Agora fecha a porta do quarto e presta atenção. O relato que fecha a transmissão de hoje veio de Curitiba, de um homem que passou a noite inteira do lado seguro do vidro e mesmo assim não escapou.

?Voz D

Olá pessoal da Frequência Anômala, meu nome é Márcio, tenho 29 anos E eu trabalhei quase 4 anos como operador de monitoramento noturno num condomínio de classe alta em Curitiba. Eu não trabalho mais lá. E eu vou contar por quê. Pra quem não conhece a função, monitorista não é porteiro. O porteiro fica na recepção, atende morador, recebe entrega, abre portão. Eu ficava numa sala fechada nos fundos da portaria, com a porta trancada por dentro, olhando uma parede de monitores. 22 câmeras.

Câmeras. Garagem, elevadores, hall de cada andar, área de lazer, perímetro. A regra número 1 do meu serviço, a que te mandam decorar no primeiro dia, é que o monitorista não sai da sala, aconteça o que acontecer. Se tiver ocorrência, quem sobe é o porteiro ou a polícia. Eu fico no olho. Naquela noite eu tava com o Jean na recepção. Era quinta-feira, chuva fina, 3:20 da manhã, rua morta, prédio morto, aquele ronco baixinho do no-break do sistema que é a única coisa que faz companhia.

E eu preciso falar da câmera 6 antes. A câmera 6 cobre o corredor do 6º andar. Ela dava uma piscada sozinha de vez em quando. A imagem sumia, entrava chuvisco e voltava em 1 ou 2 segundos. Isso acontecia umas 2, 3 vezes por mês, sempre de madrugada. Já tinham trocado o cabo, já tinham trocado a fonte, monte, e uma vez veio um técnico que ficou a tarde inteira testando e foi embora dizendo que não tinha defeito nenhum. Entre a gente virou piada: a câmera 6 é assombrada.

A gente ria disso no grupo do trabalho. Naquela quinta, eram umas 3:20, e a câmera 6 piscou de novo. Eu nem levantei os olhos direito, já tava acostumado. Só que quando a imagem voltou, tinha uma pessoa parada no corredor. Era uma figura alta, de casaco com capuz, de costas pra câmera, parado exatamente em frente à porta do 604. E eu conhecia aquela porta muito bem, porque no 604 morava Dona Lourdes, uma senhora de 80 anos, viúva, que morava sozinha, e que era a moradora mais querida do prédio.

Ela descia todo dia de manhã com pão pros porteiros. Meu primeiro pensamento foi invasão. Alguém deve ter entrado junto com um morador pelo portão da garagem, o famoso carona, e tava andando pelos andares. Isso acontece de verdade, é o medo real de quem faz esse serviço. Eu chamei o Jean no rádio e mandei subir pelo elevador de serviço. Enquanto ele subia, a figura levantou o braço e começou a bater na porta. Pausado.

?Voz C

Toque, toque, toque.

?Voz D

Com intervalo, sem pressa nenhuma, do jeito que a gente bate na porta de alguém que a gente sabe que tá em casa. Aí eu peguei o telefone da recepção e liguei pro 604, para avisar a Dona Lourdes para não abrir de jeito nenhum. Ela atendeu no quarto toque, com a voz de quem acabou de acordar. Eu falei: Dona Lourdes, aqui é o Márcio do monitoramento. A senhora tá esperando alguém? Tem um homem de casaco parado na sua porta batendo agora.

Não abre por nada. Ela ficou uns 4 segundos calada. 4 segundos no telefone é muito tempo, gente. Aí ela voltou num sussurro, um sussurro que eu escuto até hoje quando eu deito para Ela falou: Seu Márcio, eu tô olhando pelo olho mágico agora. O corredor tá escuro e vazio, não tem ninguém na minha porta. A batida que eu tô ouvindo tá vindo de dentro do meu guarda-roupa. Eu olhei para o monitor, a figura continuava lá, de costas, capuz, o braço subindo e descendo, batendo naquela porta.

E foi nessa hora que o Jean apareceu na imagem. Ele saiu do elevador de serviço no fundo do corredor, E veio andando na direção da câmera, com a lanterna acesa, do jeito que ele sempre andava. E ele passou, ele passou do lado daquela coisa, ele passou tão perto que os dois quase esbarraram de ombro. E o Jean não parou, não olhou, não desviou. Ele chegou na porta do 604 e parou bem ao lado da figura, olhando pro corredor vazio à frente dele.

Eu apertei o rádio e falei, e a minha voz saiu errada, saiu fina: Jean, tem alguém do teu lado. Ele respondeu na hora, no rádio, tranquilo: Que alguém, Márcio? Não tem ninguém aqui, corredor vazio. Eu tava vendo os dois na tela, eu tava vendo o Jean e tava vendo aquilo, na mesma imagem, a meio metro um do outro. Eu acionei o botão de emergência e chamei a polícia. Eu queria descer correndo, queria sair daquela sala, e eu não saí, porque a regra número 1 é não sair da sala, e porque, se eu sou sincero com vocês, eu tinha perna nenhuma pra andar.

A Dona Lourdes abriu a porta pro Jean e se agarrou no braço dele chorando. A viatura chegou uns 5 minutos depois. 2 policiais subiram, entraram no apartamento, revistaram tudo e abriram o guarda-roupa do quarto. Um guarda-roupa de madeira encostado na parede, com roupa dela dentro e umas caixas de sapato em cima. Nada atrás, nada embaixo, nada dentro. Eles afastaram o móvel da parede e bateram na alvenaria procurando o vão, E não tinha vão nenhum.

Do outro lado daquela parede é a escada do prédio, aquela do lado do elevador. Um policial desceu um lance e subiu outro, conferindo. Vazia. E no monitor, no segundo em que o Jean encostou na maçaneta pra abrir a porta do apartamento, a figura não foi embora, não correu, não sumiu em efeito. A câmera 6 piscou. Chuvisco.

?Voz C

Um segundo.

?Voz D

Dois. E quando a imagem voltou, o corredor tava vazio. Os filhos da Dona Lourdes vieram buscar ela no sábado, levaram a mãe e as roupas, e o apartamento ficou pra alugar. Ela nunca mais dormiu lá, e eu acho que foi a decisão mais acertada que aquela família tomou na vida. Ficou gravado. O arquivo daquela madrugada tá no HD do sistema do prédio, e o registro do telefone da portaria marca a ligação no mesmo minuto. Dá pra ver a figura, dá pra ver o Jean passando do lado dela, dá pra ver a câmera piscar, Eu já assisti umas 20 vezes e foi pela décima que eu reparei numa coisa que passou batido naquela noite.

A mão daquilo nunca encostou na porta. O braço subia e descia, parava um palmo da madeira e voltava. Nunca teve contato. E mesmo assim tem batida, e ela tá gravada na ligação da Dona Lourdes e bate certinho com o movimento do braço na imagem. A mesma batida no mesmo segundo em dois lugares que não não se tocam. Eu pedi as contas 4 meses depois. Não foi só por causa dessa noite, mas foi muito por causa dessa noite. E eu procurei vocês agora porque faz umas 3 semanas, às 3 e pouco da manhã, o Jean me mandou mensagem.

Sabe, ele ainda trabalha lá. E a mensagem era só: cara, a câmera 6. Eu não respondi. Eu não sei o que responder. E eu não vou perguntar o que ele viu porque eu já sei. Tem uma coisa que eu não falo pra ninguém, mas eu vou falar aqui. A Dona Lourdes estava dormindo. Ela só foi ouvir aquela batida depois que eu liguei e falei pra ela que tinha alguém na porta dela. Eu penso nisso mais do que eu queria. Então, fica o meu aviso, e é por isso que eu mandei essa história pra cá.

Se baterem na sua porta de madrugada e você não tiver esperando ninguém, não pergunta quem é, não fala nada, não chama por nome de ninguém, Não vai até a porta, fica quieto e deixa passar, porque aquilo não tava procurando alguém que abrisse a porta, aquilo tava procurando alguém que respondesse. Era isso, gente. Obrigado por escutarem até aqui.

?Voz A

3 prédios, um hall que não era o dela, um jantar para 2 pessoas numa casa fechada e uma batida que soou em 2 lugares ao mesmo tempo. Eu quero saber qual das 3 não vai te deixar dormir hoje. Escreve nos comentários, eu leio todos. E antes de você fechar, faz uma coisa por mim. Repara no barulho que o seu prédio está fazendo agora. Aquele estalo do cano, o elevador se acomodando, o passo lá em cima. Você conhece todos eles. Você acha que conhece todos eles.

Você ouviu a frequência anômala. E eu agradeço por não ter me deixado sozinho nesta madrugada fria de tempestade. Até a nossa próxima transmissão.

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